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Copa 2018

Cartola cobra jornalistas e diz que crise argentina tem componente político

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA (FOLHAPRESS) - Em todos os telefonemas que atendeu desde quinta (21) à noite, Claudio Tapia, presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) disse ver a crise que tomou conta da seleção na Copa do Mundo da Rússia apenas como uma questão esportiva. Tem um componente político. A partir da derrota para a Croácia, o futebol do país viveu três dias surreais no meio da Copa do Mundo.

"Muitos escreveram mentiras. Vocês [jornalistas] foram a quatro, cinco mundiais graças a eles [jogadores]. É hora de demonstrar que são argentinos. Assim, muito bom dia, passem bem porque precisamos tratar do tema esportivo, que é tudo o que queremos", disse Tapia em um pronunciamento em Bronnitsi (55 km de Moscou), onde a delegação está hospedada durante o torneio.

Apenas os fatos assumidos como verdadeiros já seriam suficientes para deixar a seleção em frangalhos. Como a busca para os motivos da melancolia de Lionel Messi, por exemplo.

Integrantes da comissão técnica e funcionários da AFA ficaram atônitos como o camisa 10, maior craque argentino, ficou abatido após perder pênalti no empate com a Islândia. Trocaram opiniões sobre o que era possível fazer para animá-lo. A seleção precisará dele.

Na terça (26), a Argentina enfrenta a Nigéria em São Petersburgo. Precisa ganhar para se classificar. A vaga estará garantida se a Islândia não derrotar a Croácia, no mesmo dia. Mas se isso acontecer, a segunda posição será disputada pelas duas equipes nos critérios de desempate. O primeiro é o saldo de gols. 

Foi esta a luta que sobrou para o time de Sampaoli depois da derrota por 3 a 0 para os croatas, na quinta. A situação seria ainda mais dramática se a Nigéria não tivesse derrotado os islandeses.

Isolados em Bronnitsi, um grupo de jogadores está descontente com Jorge Sampaoli. A queixa é que o treinador é inseguro demais e faz muitas mudanças. Entre o primeiro e o segundo jogo, mudou três jogadores (entraram Mercado, Acuña e Pérez) e trocou o sistema, optando por um 3-4-3 que havia sido praticado apenas três vezes no centro de treinamento em Bronnitsi.

Há a queixa quanto ao tratamento de Pavón, que teve motivos para acreditar que seria titular contra a Croácia e permaneceu no banco de reservas. Lo Celso fez a preparação inteira para o torneio com a certeza que seria o segundo volante, ao lado de Mascherano. Ainda não jogou no Mundial.

A roupa suja foi lavada em uma reunião na sexta (23) em que alguns atletas falaram. Nenhum tanto quanto Javier Mascherano. O pedido foi feito: estava na hora de não apostar em fórmulas nunca testadas.

"Isso acontece em qualquer equipe do mundo. Sempre o técnico vai buscar o consenso e vai querer saber o sentimento [dos jogadores] dentro de campo. Se uma equipe não está acostumada a pressionar, não pressiona. Esse tipo de coisas não é impor nada. É chegar a um acordo coletivo onde se sente melhor o grupo", explicou o cabeça de área.

Sampaoli concordou com todas as reivindicações, o que pode provocar uma estrutura tática mais simples e de fácil adaptação para os atletas, como o 4-4-2 ou o 4-3-1-2.

Ele reconheceu para o seu fiel escudeiro Sebastian Beccacece e a outros auxiliares que pode ter complicado as coisas demais na busca por uma formação que deixasse Messi o mais à vontade possível em campo.

Tudo isso no meio do Mundial que pode ser o último da carreira do camisa 10.

A partir da derrota em Nijni Novgorod para a Croácia, a seleção argentina virou uma central de boatos. Histórias que passaram pela vida conjugal de Messi, uma suposta briga entre Mascherano e Pavón, a intervenção de Claudio Tapia, tornando Jorge Sampaoli uma figura decorativa na seleção e a possibilidade de Jorge Burruchaga, autor do gol do título de 1986 e integrante da comissão técnica, assumir o comando na última rodada.

"Eu não vou comentar sobre mentiras", descartou Maschearano.

Tapia se viu obrigado a conversar com o técnico e assegurar que nada mudaria. Ele ficaria no cargo.

O dirigente acredita ser o verdadeiro alvo dos boatos. Há uma disputa de poder em andamento na AFA e o discurso de consenso empregado por Tapia ao ser eleito no ano passado, de união de forças, foi para o vinagre.

Alijado do poder, Marcelo Tinelli, o apresentador de TV mais popular da Argentina e dirigente do San Lorenzo, não perde uma chance de cutucar a seleção nas redes sociais. Daniel Angelici, presidente do Boca Juniors, time do coração de Tapia, é o maior aliado do mandatário da AFA, o que provoca a oposição do River Plate e de outros clubes.

Seu relacionamento com o sogro Hugo Moyano, ex-sindicalista (mais ainda poderoso) e presidente do Independiente, já foi melhor.

O ex-secretário geral da CGT (Confederação Geral do Trabalho) não gostou da visita que Tapia fez ao presidente da República Mauricio Macri, que tenta empurrar reformas trabalhistas contrárias aos interesses dos sindicatos. Moyano também se agarra ao poder no futebol como força política para se livrar de processo de lavagem de dinheiro.

Em crise financeira, a AFA não se recuperou ainda da morte de Julio Grondona, em 2014. Após uma eleição em que votaram 75 dirigentes e, de alguma forma, terminou empatada com 38 votos para cada um dos dois candidatos, a entidade foi comandada por uma junta diretiva até Tapia vencer o pleito.

Um período em que, dentro de campo, a seleção perdeu três finais seguidas, aumentando o jejum de conquistas para 25 anos. A última foi a Copa América de 1993.

Aos aliados, Tapia tem dito que o ambiente em Bronnitsi tem sido desestabilizado por forças que estão em Buenos Aires. Sem vitórias após dois jogos, a equipe tenta se reorganizar fora de dentro de campo para não cair na fase de grupos da Copa do Mundo, o que não acontece desde 2002.

"Muitas coisas foram feitas erradas. A situação é complexa e nós somos responsáveis por ela. Às vezes você quer mudar as coisas e não consegue de uma forma mágica, de uma hora para a outra", disse Mascherano, antes de finalizar:

"O destino nos deu mais uma oportunidade."

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