Nova coluna Era uma vez...

Encantamento e significado para a vida

Cleber Fabiano é mestre e doutor em Educação e premiado contador de histórias
Cleber Fabiano é mestre e doutor em Educação e premiado contador de histórias (Foto: Foto: Arquivo Pessoal)

Os contos de fadas revelam camadas profundas e importantes para a felicidade das pessoas

Era uma vez... um universo onde tudo é possível! Sereias viram gente, soldadinhos de chumbo se apaixonam, animais falam, abóboras se transformam em carruagens e borralheiras se casam com príncipes.

Os contos de fadas não só trazem à criança a magia e o encantamento da fantasia – que permite que ela escape de um cotidiano muitas vezes nocivo e violento – como possibilitam que ela se identifique com personagens e descubra que, sim, pode haver uma solução para os problemas que enfrenta e um significado para a vida.

Mas... contos de fadas são coisa só de criança pequena? Não! São coisas de crianças grandes também. As camadas que eles revelam são profundas e importantes na educação, para a psicologia e para a felicidade das pessoas.

Sobre os contos de fadas, o gênero que dá base à formação da Literatura Infantil, conversei com o mestre e doutor em Educação, professor Cleber Fabiano. Graduado em Letras, Fabiano tem extenso currículo: é diretor geral da Fatum Educação; ministra cursos, consultorias e palestras; é autor de livros teóricos sobre crítica da Literatura Infantil, tendo sido ganhador do Prêmio Acervo FNLIJ (2014) na categoria Teoria Literária; é membro imortal da Academia Brasileira de Contadores de Histórias; convidado frequente de seminários e congressos internacionais sobre literatura infantil e contação de histórias.

Vamos ao bate-papo:

TD - O que é um conto de fadas? Quais as características peculiares que eles têm?

CF -A expressão contos de fadas, etimologicamente, tem sua origem na palavra fada, do latim fatum, que significa destino, fatalidade. Suas características mais peculiares residem no fato dessas histórias partirem de uma dada realidade, enfrentarem um conflito que será resolvido no plano da imaginação, e retornarem à realidade com a superação desse obstáculo. Em suma, são enredos que mostram os desafios enfrentados pelos personagens e como eles, ao resolver seus conflitos, dão novo sentido ao destino de suas vidas.

TD - Que papel tiveram os contos de fadas na vida de adultos e crianças de antigamente?

CF -Pode-se dizer que, antigamente, os contos de fadas exerciam um papel expressivo e fundamental e eram as bibliotecas vivas daquela época. Importante registrar que a Literatura Infantil surge muito tempo depois. Caracterizada pelo adjetivo “infantil”, apareceu com o surgimento da família burguesa, sendo, portanto, um fenômeno novo e apresentando um novo jeito de ver a infância. Durante séculos a ideia de um adulto em miniatura prevaleceu e as crianças participavam da vida adulta de uma forma tão intensa que para nós contemporâneos poderia ser classificada como imoral, uma vez que não existia a diferenciação entre atividades adultas e infantis.

TD - Que papel têm nos dias atuais? O que mudou de lá para cá?

CF -Hoje se pode dizer que esses contos estão cada vez mais vivos e estão nos centros de educação infantil, nas escolas, nos livros endereçados aos pequenos ou nas leituras noturnas para chamar o sono dos filhos. Os contos de fadas passeiam no mundo contemporâneo e causam frenesi nos filmes, nas campanhas publicitárias, nos games, nas festas à fantasia. São motivos de decoração em quartos de bebês ou bolos de aniversário das crianças, enfim, circulam em várias linguagens e grupos sociais de todas as idades.

TD - Quais os grandes nomes ligados aos contos de fadas?

CF -Existem muitos narradores dos contos de fadas. Podemos citar como alguns desses nomes Charles Perrault, Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. No entanto, muitas mulheres se dedicaram a escrever contos e, naturalmente, só agora estão com seus nomes marcados na história uma vez que não era dado à mulher essa condição de escritora. Para citar algumas: Condessa D’Aulnoy, Marie-Jeanne L'Héritier de Villandon, Condessa de Murat, Chevalier de Mailly, Madame de Villeneuve e Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. 

TD - Qual a ligação existente entre os contos de fadas e a Literatura Infantil?

CF -Pode-se afirmar que os contos de fadas constituem a base da formação da Literatura Infantil – sua gênese –, embora saibamos que não existia uma autoria, pois a fonte era a tradição oral. Em toda a Europa as primeiras obras editadas referiam-se a contos de tradição folclóricos coletados de contadores populares e organizados em forma de histórias ou, como no caso dos Grimm, mescladas entre a fonte da tradição oral e algumas consultas aos manuais de folclore europeus.

TD - Qual sua avaliação da condição da Literatura Infantil nos dias de hoje, em outros países e no Brasil?

CF -Creio que temos, no Brasil e no mundo, excelentes obras e autores de Literatura Infantil. Algo que ainda precisamos é pensar nas estratégias utilizadas pelos adultos (pais, professores, mediadores) para fazer os livros chegarem efetivamente às crianças. Muitas vezes, as obras são usadas na mediação com o propósito didático-pedagógico de mera ilustração de conteúdo ou como instrumento de aprendizagem e moralização. Vale lembrar que essa literatura deve ser entendida como categoria de arte, com uma função fruitiva e sem ligação com pretextos pedagógicos ou de ensinamento de valores.