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Filha de Reagan defende professora que acusa juiz indicado por Trump de abuso

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Em artigo publicado nesta sexta (21) no The Washington Post, a escritora Patti Davis, filha de Ronald Reagan, defendeu a professora Christine Blasey Ford, que acusa o juiz Brett Kavanaugh de tê-la atacado sexualmente, e relatou que também sofreu um ataque sexual, há cerca de 40 anos.

"Eu não contei a ninguém por décadas", escreveu no jornal The Washington Post nesta sexta (21). "Não me surpreende nem um pouco que, por mais de 30 anos, Christine Blasey Ford não tenha contado a ninguém sobre o ataque do qual se lembra."

O texto foi publicado pouco após o presidente americano, Donald Trump, questionar a credibilidade de Ford em uma rede social, afirmando que "ela ou seus amados pais" teriam prestado queixa contra Kavanaugh "se o ataque tivesse sido tão grave quanto ela diz."

Isso levou à viralização da hashtag #WhyUDidntReport (por que eu não reportei) em uma rede social, por meio da qual usuárias contaram os motivos de não terem reportado ataques que sofreram.

A professora diz que só falou para alguém sobre o caso, que teria ocorrido no início da década de 1980, em 2012, durante uma terapia de casal. A história chegou em julho deste ano até uma senadora democrata que avaliaria a indicação do juiz para a Suprema Corte, por meio de uma carta confidencial.

A filha de Reagan também defendeu o fato de a vítima não se lembrar exatamente de todos os detalhes do ataque, como o lugar ou a época do ano em que ocorreu, o que tem sido usado por defensores do juiz para desacreditar a versão da professora.

"É importante entender como a memória funciona em um evento traumático", disse. "Isso é o que acontece: sua memória tira fotos dos detalhes que vão te assombrar para sempre, que vão mudar a sua vida e viver sob a sua pele. Apaga outras partes da história que não importam tanto."

Também disse que o pedido de Ford para que o FBI investigue as suas alegações, o que foi colocado no início da semana como uma precondição para que testemunhasse, foi "corajoso".

"Solicitar uma investigação sobre o incidente não é um grande pedido", escreveu. "A não ser que eles [os senadores] só queiram que ela vá embora. O que é, por sinal, uma razão pela qual as mulheres têm medo de falar."

"Talvez os homens idosos que estão prestes a interrogá-la, a menos que se escondam atrás de substitutos, devessem parar para pensar por um momento sobre a coragem que é necessária para uma mulher falar: aqui está a minha memória. Ela me assombrou por décadas. Ela mudou a minha vida", acrescentou.

O estupro de Davis teria ocorrido no escritório de um executivo da indústria musical. O objetivo do encontro era apresentar algumas de suas composições -uma delas saiu no álbum "One of These Nights", dos Eagles.

Ela diz que não se lembra do que o homem falou, sobre o que conversaram ou em que mês ocorreu, mas que não se esqueceu do seu rosto, do seu cabelo e das suas roupas. Ele teria usado cocaína antes do ataque, e ela afirmou que tem "90% de certeza" de que não o acompanhou.

"Não que eu não usasse drogas -eu definitivamente usava naqueles anos-, mas porque eu estava começando a me sentir desconfortável", contou.

Ele, então, teria ido "muito rapidamente" para cima dela, colocado as suas mãos debaixo de sua saia e a beijado. "Eu congelei", relatou. "Eu fiquei deitada enquanto ele se empurrava para dentro de mim."

Segundo a escritora, ele não usou camisinha. Ela foi embora para casa após o ataque. "Eu me senti sozinha, envergonhada e enojada de mim mesma", disse. "Por que eu não saí de lá? Por que eu não o empurrei? Por que eu congelei?"

A audiência no Senado para ouvir Kavanaugh e Ford está marcada para a próxima segunda (24). Uma das advogadas da vítima, Debra Katz, afirmou que a mulher tem recebido ameaças de morte, que foram comunicadas ao FBI, e que ela deseja testemunhar, desde que sejam acordados termos "justos e que garantam a sua segurança".

Entre eles, a exigência de que as perguntas sobre o incidente sejam feita pelos senadores do Comitê Judiciário, não por outros, e que Kavanaugh não esteja presente na sala de audiência enquanto ela fala.

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