Publicidade
Economia

Guerra comercial EUA-China vai afetar decisões de investimentos, diz OMC

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A guerra comercial entre Estados Unidos e China pode ir além da imposição de barreiras tarifárias às importações dos dois países, se estendendo para a utilização de outros mecanismos de proteção, disse nesta quarta-feira (19) o diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Roberto Azevêdo.

A disputa ganhou novos contornos esta semana, com a imposição de novas sobretaxas dos dois lados --na segunda (17), pelos Estados Unidos, e na terça (18), pela China. Para o diretor-geral da OMC, a escalada põe em risco o crescimento da economia global, com impactos mais profundos em países emergentes.

"A situação não é preocupante. A situação é muito preocupante", disse Azevêdo, enfatizando a palavra "muito", em entrevista após participar de evento promovido pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro).

"Algumas pessoas acham que, esgotando-se as tarifas no comércio bilateral, acabou. Eu não acho que acabou, não. Acho que tem muita munição e isso pode escalar para outras áreas que não apenas a área tarifária", comentou. "É um caminho muito perigoso."

Ele não quis, porém, exemplificar que outros mecanismos poderiam ser usados como munição na guerra comercial, alegando que não tem o interesse de "dar ideia" aos dois governos. "Mas a área tarifária não esgota o potencial de tensão", frisou.

A disputa foi iniciada pelo governo Donald Trump em julho, com a imposição das primeiras tarifas a produtos chineses, sob a alegação de que a China promove práticas desleais de comércio ao conceder subsídios a sua indústria.

Azevêdo diz que, desde o início da disputa, a escalada de retaliações "era pedra cantada". Nesta semana, uma nova rodada foi iniciada na segunda (17) por Washington, ao sobretaxar US$ 200 bilhões (R$ 826 bilhões, na cotação atual) em importações do país asiático. 

Na terça, foi a vez de Pequim revidar, anunciando novas tarifas sobre US$ 60 bilhões (R$ 247 bilhões) sob produtos americanos. A China, porém, está mais perto de ficar sem munição, pois já anunciou sobretaxas a 85% das importações dos Estados Unidos, ou US$ 110 bilhões (R$ 454 bilhões).

Já o governo americano, que tem uma balança desfavorável com o país asiático, anunciou medidas contra produtos que respondem metade das exportações do país asiático, ou cerca de US$ 250 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão). Trump já anunciou que responderia novamente caso a China anunciasse nova retaliação.

Para o diretor-geral da OMC, os impactos da guerra comercial entre os dois países no sistema multilateral de comércio não serão apenas econômicos, afetando também princípios básicos do comércio global, como o de não-discriminação entre os países. 

Ele disse que estatísticas da OMC mostram, por exemplo, que o volume de disputas comerciais vem crescendo nos últimos meses. Em 2018, por exemplo, o número de casos abertos no sistema de solução de controvérsias já é o maior em 16 anos.

"A escalada de barreiras cria muita incerteza e vai afetar o comércio e o PIB mundial. Decisões de investimentos serão feitas com mais cautela, a taxa de câmbio em países emergentes já reflete a instabilidade internacional e se vê também um crescimento do protecionismo", analisou.

Segundo Azevêdo, uma saída já em negociação é a reforma da OMC, com o objetivo de tentar acomodar as insatisfações de países membros. Os Estados Unidos, por exemplo, reclamam ser prejudicados por interpretações das regras pelo órgão de apelação, espécie de tribunal para julgar as disputas comerciais.

A reforma já começou a ser debatida e deve tocar nas regras de negociações, nos procedimentos para acordos entre os 164 países-membros e no próprio mecanismo de solução de controvérsias, do qual faz parte o órgão de apelação.

"A escalada de litígios coloca ainda mais pressão em um sistema que já está muito próximo do limite", afirmou Azevêdo, lembrando que o órgão de apelação pode ser paralisado no fim de 2019 por falta de quórum, já que o governo americano vem resistindo a nomear novos juízes.

DESTAQUES DOS EDITORES