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O cinema estava lotado, compramos os últimos ingressos. E já que era domingo, sessão das 20h, semana de estreia, nada me pareceu fora do lugar. Mais conversas do que o habitual, mais barulho de pipoca, tudo esperado para um filme infantil no primeiro fim de semana das férias de julho. Sofia, particularmente falante. Uma pipoca doce, uma salgada, “mãe, falta muito pra começar?”, “já desligou o celular?”, “me passa sua água?”, ao fim de cada trailer, uma resolução: “esse eu quero ver”, “esse dá pra esperar chegar na televisão”. Entra o logo da produtora, o filme vai começar.

A essa altura, meus olhos – que já começavam a se acostumar ao escuro da sala – escaparam da tela e da tagarelinha que me acompanhava e pude ver, lá da fileira I, a quantidade de adultos presentes. Eram muitos. A matemática do filme infantil costuma ser de 50/50, metade da sala é de adultos, metade de crianças. Havia, naquela sessão, um descompasso interessante. Éramos mais de ⅔.

E esse plural entra aqui, só para fazer de conta que me incluo no grupo. Mas a verdade, é que tenho horror de adulto em filme infantil. Adulto desacompanhado, que fique claro. Tenho medo mesmo. Uma vez, fui com as meninas ver um filme péssimo, uma animação daquelas que você só vai quando acabaram os ingressos do filme que você realmente tinha escolhido, mas já está em um cinema do outro lado da cidade e não consegue pensar em outra solução, sabe? Pois bem, entramos na sala e além de nós, a outra única cadeira que estava ocupada, acomodava um homem de uns trinta e poucos anos. Eu só sosseguei quando esse homem dormiu e, finalmente, entendi o que ele estava fazendo ali, coitado. Comprou duas horinhas de escuro e ar-condicionado. Quem nunca?

E o pior é que eu sei: os filmes são bons, é possível que um adulto queira vê-los, sem precisar de uma criança. Pensa em Divertidamente, superfilme! Mas há algo da ordem do irracional, que faz com que a soma de adultos desacompanhados e filmes infantis não me leve a bons resultados da imaginação. Assim como a equação ‘piscina + cabelo comprido, – já contei pra vocês – ou ainda aquela ‘aeroporto + crianças muito soltas’. Entenderam?

Pois bastou o cebolinha anunciar seu primeiro plano infalível, a mônica dar a primeira rodadinha no Sansão, para o roteiro de filme de terror que eu escrevia na mente se dissipar. Riram todos, crianças e adultos. Rimos todos, choramos todos, embarcamos todos. Éramos nós, a fazer barulho e comer pipoca, éramos nós a experimentar a sensação de início de férias, aquela de quando se ganhava o almanacão com historinhas e atividades, lembram? Minha neurose de pares bélicos tirou licença, por duas horinhas. E dela, não senti saudades. Viva os sopros da infância. Obrigada pelo convite Sofia.

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