Na publicidade, mulheres sofrem mais assédio e chegam menos a cargos de poder

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) Embora cada vez mais presentes no mercado publicitário, as mulheres não estão em pé de igualdade com os homens em cargos de poder e sofrem constantemente com assédio sexual e moral no ambiente de trabalho.

A afirmação é da vice-presidente de planejamento da agência de comunicação F.biz, Renata d'Ávila, que participou do Arena do Marketing. O programa, promovido pelo jornal Folha de S.Paulo em parceria com a ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), transmite mensalmente entrevistas com profissionais do marketing e da publicidade. A mediadora foi a jornalista da Folha de S.Paulo Laura Mattos.

D'Ávila foi uma das organizadoras, em 2017, de uma pesquisa sobre assédio em agências de publicidade na região metropolitana de São Paulo. O resultado mostrou que 51% das mulheres que trabalham na área já sofreram assédio sexual na empresa -entre os homens, essa porcentagem é de 9%.

"Não tem nada ali que as pessoas não soubessem, mas os números são impressionantes", disse a publicitária. No total, 1.400 pessoas participaram da pesquisa, entre homens e mulheres.

Após a publicação, a organização liderou um esforço de conscientização na área, apresentando a pesquisa em 65 agências de São Paulo. Segundo d'Ávila, o problema pode afetar inclusive a produtividade da empresa.

"Como se tem produtividade e criatividade em um ambiente hostil? Você vai sempre trabalhar melhor em um local de trabalho positivo", afirmou.

A publicitária também criticou a falta de mulheres em cargos de liderança. "Que ambiente na nossa sociedade não é masculino? Temos evoluído, tem muita mulher em todo lugar, mas quando você fala de estrutura de poder, a gente sabe que esses números não são equilibrados", disse.

D'Ávila afirmou que o ambiente onde essa disparidade pode ser mais sentida na publicidade é o da criação, atividade comumente associada a homens.

Para Diego Antonio de Oliveira, professor do curso de publicidade e propaganda da ESPM, há esperança nas novas gerações. "Os jovens não acreditam em rótulos. É bonito como discutem assuntos como esses de maneira muito leve", afirmou, durante o Arena do Marketing.

CRIANDO UMA ESTRATÉGIA

Além do tema de gênero, os participantes discutiram a criação de estratégias de publicidade na realidade contemporânea. D'Ávila e Oliveira frisaram a importância de saber desenvolver histórias efetivas, mais do que simplesmente estar presente em vários canais de comunicação.

"Será que, como marca, eu tenho que levantar uma bandeira porque a outra levantou? É preciso entender a essência da marca e a realidade daquele momento para criar uma estratégia", disse Oliveira.

Para d'Ávila, hoje não é mais possível pensar em prazos muito longos na criação de estratégias. O desafio, segundo ela, é dosar o longo prazo de outros tempos com o imediatismo trazido pela internet, sabendo ajustar e redefinir o planejamento constantemente.

Nessa realidade, o uso de dados e pesquisas sobre o público consumidor é importante, mas não basta. "Não é sobre o número, é o olhar analítico. O dado não decide nada, quem decide é você e a análise que você faz", afirmou.