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Nápoles – A Terra dos Presépios

Quem anda pela rua de San Gregorio Armeno durante o período natalino em Nápoles,tem a impressão de que o tempo parou. Que tudo nesta ruazinha caótica próxima ao monastério de Santa Chiara nunca foi diferente. Desde os tempos dos antigos romanos, que por lá construíram uma estátua votiva para a deusa Cerere (a Demetra dos gregos), divindade ligada à fertilidade e aos grãos que alimentam a vida. A pequena escultura dos romanos talvez não tenha ligação direta com os presépios de hoje. Mas as semelhanças são bastante sugestivas.

A célebre via dei presepié um pedacinho de rua que parte da velha arcada na via dei Tribunali, e desce até a San Gregorio Armeno, lotada de lojinhas, até chegar ao cruzamento com SanBiagio dei Livrai. É uma verdadeira casbah cheia de vida e quem passa por ali deve dar uma olhada no interior das lojas, onde a magia impera e os personagens se movimentam fora do tempo. É a sancta sanctorumda criatividade, onde trabalham os artistas, escultores e artesãos, curvados sobre pincéis, pedaços de pano, fios de ferro, olhos de vidro, materiais esperando ganhar vida ao reproduzirem um personagem. Uma tradição secular napolitana perpetuada desde o rei Carlo III di Borbone, mas que tem suas raízes em tempos mais remotos.

Na igreja de Nápoles eram realizados presépios desde fins dos anos Mil, mas foi nos anos 500 que começaram a surgir em cena o Nascimento de Cristo com figuras em tamanho natural. Em 1530 San Gaetano da Thiene realizou no oratório da Santa Maria delle Stellete o primeiro presépio com estátuas vestidas segundo a tradição. Mas foi preciso esperar até 1627 para que Michele Perrone criasse os primeiros pastores com estrutura de fios de arame, braços de madeira e cabeça de terracota. Da simples reprodução do Nascimento, o presépio passou a ser a representação de uma maneira de fazer homenagem ao pequeno Jesus com pastores, pescadores, mercadores, notáveis e nobres, gente do povo e sapateiros. Todo um povo em cena, diante de casas e lojas,com cestos de frutas e verduras, bancas de peixes e instrumentos de trabalho.

Uma representação que na verdade tinha muito pouco de religião, mas que em pouco tempo se transformou na paixão napolitana, em torno da qual nasceu uma renomada escola de artistas e artesãos, empenhados em realizar uma verdadeira obra de arte, com direito a distinções para os que projetavam roupas exóticas com tecidos preciosos, construíam cabeças e membros de terracota e faziam jóias em prata. Claro que os trabalhos mais elaborados eram destinados ao Palácio Real e às residências dos nobres e poderosos. Todos queriam, no período natalino, aproveitar da beleza tipicamente barroca e os mais afortunados da sorte abriam as portas de seus palácios para que o povo também pudesse ter uns momentos de maravilha.


Figuras retratam o dia a dia do povo, vestidas com tecidos preciosos e adornos feitos em joalherias

Populares também faziam seus presépios, bem diferentes daqueles da aristocracia. Tinham apenas algumas figuras da Natividade, arrumadas no interior da sacarabattola, uma caixa de madeira e vidro colocada na parede ou sobre um móvel. Em fins do Sttecento, tanta habilidade e arte acabaram se perdendo, com a falência da revolução napolitana. Acabava a era de ouro dos presépios. Hoje, para ver um autêntico presépio, é preciso percorrer os museus. Que não são muitos na cidade. Os mais importantes são os do Banco di Napoli, o de Santa Chiara e uma rara coleção no museu de San Martino, onde se destaca um maravilhoso presépio doado para a instituição em 1879 pelo escritor e colecionador Michele Cuciniello.

Claro que sobraram alguns artistas, para salvar a tradição. Foi assim com os irmãos Scuotto, mestres de fama internacional, que criaram um presépio com 146 pastores por encomenda da Casa Real espanhola. Sempre trabalharam manualmente, com Salvatore esculpindo as cabeças com barro da Toscana e Anna costurando os trajes amplos, bordados, dos pastores. Tudo quanto é detalhe continua sendo feito em joalherias: fivelas, botões, punhais. Os tecidos são obtidos de retalhos de antigos paramentos que a igreja coloca em leilão.


Os mais belos presépios do mundo são os centenários conjuntos napolitanos, hoje vistos em museus

A capacidade de produção sempre foi pouca: de 20 a 25 figuras ao mês. E a modernidade chega sempre, com figuras de destaque no mundo social ou artístico, já que nem só de presépios e pastores vive um artesão. Charlie Chaplin, Totò, Sophia Loren, Berlusconi, Maradona já tiveram imagens reproduzidas. Nos presépios, ter seu rosto como os Reis Magos, figuras ilustres, pastores, é sinal de prestígio. De acordo com os artistas, o presépio nada mais é do que o Evangelho traduzido em dialeto napolitano.

Ficaram famosas as lojinhas e ateliers dos mestres artesãos como La Scarabattola, dos irmãos Scuotto; Giuseppe Cesarini, onde pai e filho restauravam peças antigas de madeira e terracota, trabalhando também papier maché; Corcione Rosaria, no laboratório artístico de arte sacra e presépios; Fratelli Capuano, especializados em presépios; Fratelli Lebro, restauradores de obras de arte sacra popular; Lucio Ferrigno, personagens modelados em tamanho natural e também flores de seda e papelão com antigas estampas; Loffredo Emilia, com figuras modernas; Ulderigo Pintildi, laboratório de cerâmica artística, com figuras tradicionais. Procure mais em www.presepenapoletano.it


Apenas uma hora e meia com trens de alta velocidade para a ligação entre Roma e Nápoles. Visitar o tradicional mercado local é indispensável

PARA QUEM VAI
O serviço Eurostar AV, liga Roma a Nápoles em uma hora e 27 minutos. Como em todos os trens de alta velocidade, os passageiros têm uma área reservada na estação ferroviária e bilheterias especiais em Roma, Napoles, Milão e Torino. Da estação Napoli Centrale é fácil ao centro histórico com o metrô, parada Cavour e Montesanto ou utilizar bonde ou ônibus. Para informações, acesse www.trenitalia.com

Quem gosta de cor local, pode se hospedar no Hotel Il Convento, no coração do bairro espanho. Ou optar pelo Hotel Toledo,central, instaldo em um palácio histórico do Settecento. Na hora da fome, provar pasta e fagioli, pasta e patate com provola, alici frite. Ou pasta e ceci, polpette in úmido, baccalà frito e pesce fresco.


Famosos, ou simplesmente ricos, procuram ter seus rostos copiados nas figuras dos presépios

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