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Cinema

Ninguém merece ninguém em ‘A Favorita’, mas Olivia Colman merece um Oscar

A rainha Anne em ‘A Favorita’ e as damas Sarah e Abigail (nos destaque); disputa que ia muito além do poder
A rainha Anne em ‘A Favorita’ e as damas Sarah e Abigail (nos destaque); disputa que ia muito além do poder (Foto: Divulgação)

A rainha Anne, da Inglaterra, teve um reinado relativamente curto, de 1702 a 1714. Teve que controlar uma divisão política dentro do parlamento de seu país – entre os partidos liberal (os whigs) e conservador (os tories) – e ainda tinha que lidar com os contratempos de uma guerra contra a Espanha. Os conservadores querem a guerra para poder arrecadar mais impostos; os liberais não querem aumentar o rombo nas contas. Para piorar, a monarca sofria com problemas de saúde. Além de não conseguir engravidar – fez 17 abortos –, ela tinha gota, uma doença que provoca dores nas articulações e dificulta o caminhar. Seria fácil seguir fórmulas prontas e fazer um filme piegas, em que Anne superasse seus problemas de saúde e superasse também as desavenças políticas, saindo delas como vencedora moral. Entretanto, o diretor Yorgos Lanthimos fez um filme diferente disso em ‘A Favorita’, que estreia nesta quinta-feira (24) em Curitiba. Não bastassem os problemas de saúde e as divisões políticas, a rainha Anne (interpretada por Olivia Colman) ainda é alvo de puxadoras de saco. E o foco principal do filme está nisso.

A favorita do título começa sendo Sarah Churchill (Rachel Weisz). Sarah tem um título nobre – Lady Malborough, fruto de seu casamento com John Churchill (Mark Gatiss), o lorde Malborough – e cuida de coisas cotidianas da rainha. Além disso, era Guardiã da Bolsa Privada e tinha influência no palácio e no parlamento. Descobre-se depois, as duas são amantes. Em meio a isso, surge Abigail (Emma Stone), que já teve título de nobreza, mas viu seu pai perder tudo no jogo de cartas. Como criada no palácio real, ela convence a chefona Sarah de que tem potencial para ser mais que uma simples serviçal. Ao mesmo tempo, Abigail consegue cair nas graças da rainha, que lhe arranja um casamento vantajoso com Samuel Masham (Joe Alvin), que tem título de barão. Sarah apoia o marido (que não por acaso é ministro da guerra) e os conservadores; e é muito amiga do primeiro-ministro Godolphin (James Smith). Abigail, por sua vez, tem contato com um dos líderes liberais, Harvey (Nicholas Hoult). Ela luta duro com Sarah para se tornar a nova favorita da rainha – e isso inclui também levar a monarca para a cama. E aí vale tudo; ninguém é de ninguém; todos querem tudo; ninguém merece ninguém.

Yorgos Lanthimos consegue condensar pelo menos uns seis anos de história em duas horas de filme com muita política, muita tensão e muita sacanagem, em todos os sentidos. A recriação da época está ótima, mas o diretor abusa de planos baixos e grandes angulares para contar a história. História que, por sinal, provavelmente vai enfurecer muito historiador. Não existe consenso de que a rainha Anne era lésbica – a maioria dos pesquisadores refuta essa ideia. E o joguinho de poder entre Sarah e Abigail pode sugerir que Anne era uma rainha fraca e volúvel, algo que também não encontra eco entre pesquisadores. “Ela limpou a bagunça deixada pelos homens e não recebe muitos agradecimentos ou créditos por isso”, diz Sebastian Edwards, curador da fundação Historic Royal Palaces, organização dedicada à conservação dos palácios reais britânicos. Além disso, em seu reinado, ocorreram a unificação da Inglaterra e da Escócia, rachadas desde os tempos pós William Wallace (como visto em ‘ Coração Valente’). E houve o desenvolvimento do sistema bipartidário que até hoje vigora por lá.

O grande brilho do filme recai sobre o elenco. Além de bons coadjuvantes, como Nicholas Hoult ou Mark Gatiss, há duas vencedoras de Oscar – Emma Stone venceu por ‘La La Land’ e Rachel Weisz foi premiada como coadjuvante por ‘O Jardineiro Fiel’, e ambas foram indicadas como coadjuvente por ‘A Favorita’. Entre Emma e Rachel, quem brilha é Olivia Colman, que com esse papel já venceu o Globo de Ouro (melhor atriz de filme comédia ou musical, embora ‘A Favorita’ não seja nenhuma das duas coisas) e o Critics Choice Awards. Indicada ao Oscar, Olivia Colmar larga como favorita (sem trocadilhos) ao prêmio diante de rivais como Lady Gaga (‘Nasce uma Estrela’) e Glenn Close (‘A Esposa’).

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