Tempos de pandemia

Dia das Mães, dia de luto: quando os festejos dão lugar à saudade por causa da Covid-19

Christiane ficou com as plantas da mãe: “Minha sacada virou o jardim da Iracy”
Christiane ficou com as plantas da mãe: “Minha sacada virou o jardim da Iracy” (Foto: Franklin de Freitas)

A mesa de almoço da família Agapito de Almeida terá um prato a menos no próximo domingo, quando pai, filhos e agregados se reunirão para celebrar o Dia das Mães. É que no dia 20 de março faleceu Eliane de Fátima Azevedo Agapito de Almeida, que tinha 61 anos e estava a nove dias de celebrar seu 62º aniversário. Era mãe do Felipe e da Gisele. Também esposa de João, com quem foi casada por quase 40 anos. E foi mais uma vítima do novo coronavírus.

Desde o início da pandemia, mais de 414 mil brasileiros já faleceram por conta da Covid-19. Para se ter noção do que isso representa, é como se a população de um município do tamanho de Maringá desaparecesse em pouco mais de um ano. Só no Paraná, inclusive, já são 23.347 óbitos, com 9.941 (43% do total) vítimas do sexo feminino. Mais que números, são as mães, tias, primas, filhas e irmãs de alguém. E para homenagear essas pessoas queridas, o Bem Paraná conta a história de duas famílias que, pela primeira vez, não poderão abraçar e beijar suas amadas no Dia das Mães.

“Eu e meu pai não conseguimos assistir ao jornal sem chorar, porque no meio daquelas 400 e tantas mil mortes está a minha mãe. Foi do nada. Foram nove dias entre a entrada no hospital e o falecimento, tudo muito rápido. Pegaram uma borracha, apagaram ela e falaram ‘engole o choro e vai, a economia não pode parar’. A gente se sente muito gado, muito massa de manobra de sistema. Você só entrou para a estatística, virou um número. Transformaram minha mãe num número, mas ela não é um número, foi muito mais que isso. Toda a grandeza dela foi reduzida a um número. E se eu sinto isso, quanto mais gente sente isso também?”, desabafa Felipe Almeida, filho de Elaine.


Foto antiga de Iracy e as filhas

O Jardim da Iracy

Na casa de Christiane Machiavelli, 46 anos, o que antes era uma sacada virou um jardim. No dia 26 de abril faleceu sua mãe, Iracy Valenzuela de Figueredo Neves, vítima da Covid. Para lembrar da mãe, a filha decidiu cuidar das plantas que eram dela. “Sempre lembro dela nessas questões do dia a dia mesmo, ver as plantinhas renascendo. Catei todas as plantas da casa dela e trouxe para a minha. As plantas dela sempre foram o amor da vida dela, eu não podia deixar morrerem. E agora minha sacada virou um Jardim da Iracy”, conta Chris.

Ao longo da vida, porém, não foram apenas plantas que Iracy cultivou. Uma mulher de fé, criou as duas filhas biológicas e também ajudou a criar os filhos de diversas outras pessoas. “As vezes as pessoas da igreja dela me ligam. Elas têm sofrido muito pela perda da minha mãe. Eu sofro também, mas a forma como encaro tudo isso é um pouco diferente. Mas ela era uma pessoa tão amorosa… Ela não foi só a minha mãe, foi mãe de muita gente na igreja dela. Foi mãe de filhos de amiga dela, pessoas que ela acolhia, cuidava. Ela foi uma mãe incrível.”

Foi, inclusive, cuidando do outro que, provavelmente, Dona Iracy foi contaminada pelo novo coronavírus. Ela morava no mesmo condomínio que a irmã, que testou primeiro positivo para a doença. As duas tinham o costume de almoçar juntas, fazer tudo juntas. Chris, por sua vez, já assessorava um conselho de enfermagem na época e, por isso, sabia de todas as situações que vinham acontecendo nos bastidores da Saúde.

“E aí a minha mãe avisou que a tia positivou. Eu perguntei ainda ‘e você?’. Ela falou que estava cuidando da irmã. Perguntei ainda se estava paramentada e se estava cuidando da desparamentação. Ela falou que estava, sim, mas algo me disse que ela não estava cuidando, não estava tirando da maneira correta”, recorda Chris. “Na quarta recebi a notícia da tia [com Covid]. No sábado minha mãe começou a apresentar sintomas. A gente já sabia que ela seria contaminada, porque as duas são unha e carne, viveram a vida inteira juntas, se cuidavam, moravam no mesmo prédio. Se alguém tão próximo a você contrai o vírus, você vai cuidar e não presta atenção na sua exposição, na sua saúde. Você quer que a outra pessoa se salve, e foi o que aconteceu.”

Depois daí, tudo ocorreu muito rapidamente. No dia 12 de abril, uma segunda-feira, veio a confirmação de que Iracy estava com Covid. No dia 14, a internação. Ela primeiro ficou no Pronto-Atendimento do Hospital Marcelino Champagnat, mas lá não tinha vagas, então foi encaminhada para o São Vicente. Na sexta seu quadro piorou e ela deu entrada na UTI. Uma semana depois foi intubada.

No dia 26, uma segunda-feira, Chris teve uma visão. “A religião da minha mãe é diferente da minha, ela é protestante e eu sou espírita. Mas segunda de manhã eu acordei com ela cantando para mim, tive a visão dela subindo num mar incrível, um céu lindo, e ela cantando uma música para mim da igreja dela e achei isso incrível: ‘Os que esperam no Senhor renovarão as suas forças/ Subirão com asas, como águias/ Correrão e não se cansarão/ Caminharão e não se fatigarão’. Num primeiro momento pensei ‘o que está acontecendo’, mas aí me toquei que era a voz dela. E falei ‘pode ir, você está pronta para ir’. E nesse momento eu sabia que ela já estava se desligando do corpo dela”.

Naquele dia, às 15h30, Chris recebeu uma ligação do hospital. Sua mãe havia falecido.


Pai foi vacinado na semana passada. Mãe também estaria imunizada

Na família Agapito de Almeida, a última semana foi de emoção. O pai, João, foi vacinado na última terça-feira contra a Covid-19. “Ela [Elaine, a mãe] também estaria vacinada a essa altura. Era uma morte evitável, isso que revolta. Ela faleceu no dia 21 de março, o aniversário dela era dia 29. Foi complicado de lidar”, diz Felipe, que volta e meia ainda olha para o celular aguardando por uma chamada da mãe.

“O tempo todo espero uma mensagem. As vezes ela mandava mensagem errado, aí pede desculpa. Enquanto falava com você, já olhei o celular umas duas vezes, eu acho que ela vai me ligar. Tomo café, é automático, é o horário que ela me ligava.”

A vacinação em Curitiba teve início em janeiro, mas as doses enviadas pelo Ministério da Saúde não chegam com regularidade.

Até a quarta-feira, a Capital tinha imunizado 363.713 pessoas com a primeira dose, e 197.809 pessoas receberam a segunda dose da vacina. Foram pessoas de grupos prioritários, acima dos 60 anos e profissionais da saúde.


A família Agapito de Almeida

A mãe coruja

Se tem uma palavra que pode definir Eliane, essa palavra seria ‘mãe’, provavelmente. Se for para adjetivar, podemos falar até em ‘mãe coruja’. Professora de carreira, tinha como maior qualidade um amor contagiante, entusiasmado. Em especial o amor pelos filhos, Felipe, hoje com 32 anos, e Gisele, com 37.

“Depois que saí de casa, na vida adulta, ela me ligava todos os dias. Eu sempre acordava e tinha uma ligação perdida dela. A gente se falava todos os dias por telefone, por mensagem, as vezes ela vinha passar o dia comigo…. Sempre foi muito amorosa, era até chata, da gente falar ‘para de ligar, mulher’ [risos]. Se não ligava, vinha cobrança: ‘Se eu não te ligar, você não me liga’. Aquela coisa de mãe xarope, mãe coruja”, recorda Felipe.

Na vida, os desafios foram muitos. A primeira filha de Elaine e João, por exemplo, tem hidrocefalia e ao longo da vida fez dezenas de cirurgias, sempre acompanhada dos pais, que também tinham de ‘se virar’ para conseguir um remédio para Gisele, que vinha da Alemanha.

“Minha mãe foi sempre muito atenciosa pela gente, fazia de tudo. Uma vez, minha irmã cheia de gesso, e minha mãe foi entrar na casa da minha tia, mas tinha um cachorro, um pastor alemão, solto. Ela ergueu a minha irmã e foi até a porta da casa com o pastor alemão mordendo ela. Ela fazia de tudo pelos filhos”, conta Felipe. “Quero lembrar dela dessa forma, amorosa, atenciosa, carinhosa. Ela amava, amava, amava absurdamente.”

Agora, para este dia Dia das Mães, a programação da família será diferente. Tradicionalmente, o encontro da família acontecia na casa de Elaine. Desta vez, será na casa de Felipe. “Fazemos os testes de PCR na sexta para fazer algo em casa no domingo. Mas é aquilo: mesa lá fora, cada um no seu canto, comendo longe. E eu não quiss… Eu falei, vamos só almoçar aqui em casa, porque lá na minha mãe a gente sempre ia aos domingos, dia das mães ela fazia o capeletti dela, uma lasanha, algo que eu e a Gisele gostássemos”.


Críticas ao governo federal pelas perdas

Ao longo da vida, Iracy foi servidora da Secretaria de Saúde do Paraná. Isso, porém, não impediu que ela fosse atraída pela promessa de curas milagrosas para a doença, inclusive com a adesão ao chamado tratamento precoce, com medicamentos como azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina.

“A minha mãe morreu no tempo dela, tenho certeza que ela cumpriu a missão dela aqui. Mas o descaso do governo com relação a tudo isso, em relação a essa pandemia... eu considero o Bolsonaro assassino da minha mãe. A gente sofre hoje as consequências de um governo negacionista, que não se preocupou com a saúde de seu povo”, desabafa Chris Machiavelli.