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Os dois lados da vida de cão

Animais abandonados preocupam, enquanto onda ‘pet friendly’ se impõe em Curitiba

(Foto: Franklin de Freitas)

Adotada nos últimos anos nas grandes cidades do Brasil, a onda “pet friendly” (amigável aos animais de estimação), que descreve locais ou eventos que aceitam a presença dos pets, está cada vez mais popular em Curitiba. O conceito pegou carona na ascensão de status de cães e gatos na escala familiar. Os animais são praticamente parentes, muito vezes tratados como filhos. De olho na tendência, estabelecimentos comerciais adotaram uma prática comum em cidades da Europa e passaram a considerar que seus clientes ficam acompanhados de animais com frequência considerável.


Em Curitiba, depois de bares e restaurantes, que passaram a adaptar os locais para receber os animais, há agora estabelecimentos que já surgem diretamente ligados ao conceito, como, por exemplo, o Boteco Pet, aberto em abril, que é descrito pelo proprietário como “human friendly”, invertendo a lógica para mostrar que os animais são até “mais bem-vindos” que os próprios humanos. O bar tem um espaço de 2,8 mil metros quadrados, no Bairro Tarumã. 

Se os animais são mais que bem vindos para comer e beber junto com seus tutores, com cardápio próprio e espaço exclusivo, eles também podem ir ao cinema. O Cinesystem do Shopping Curitiba promove uma sessão especial uma vez por mês para que as pessoas possam levar animais. Em cartaz, claro, filmes sobre pets. A ideia é semelhante a de outros cinemas que dedicam sessões a mães e pais acompanhados de bebês (obviamente não estão interessados no filme). A lógica seria diferente, já que os pais procuram as sessões para poder ir ao cinema, uma vez que as crianças não podem ficar sozinhas. Os cães e gatos podem, certo? Para algumas pessoas, “errado”. Os pets são inseparáveis até mesmo na hora de ir ao cinema, mesmo que dentro de um shopping.

Se hoje a maioria dos shoppings de Curitiba aceita a presença de cães, um em Londrina foi além. Não é a falta de gramadão que impediu o Catuaí Shopping de atrair os cães e gatos para suas dependências. Estabelecimento instalou uma “roda-gigante pet friendly” que ficará em atividade até o dia 28 de julho. A atração custa R$ 15 por pessoa, e está localizada em frente à entrada principal. São 15 gôndolas com capacidade para 62 pessoas (acompanhadas de seus pets).

Bares pedem bom senso dos donos

O presidente do Sindicato das Empresas de Gastronomia, Entretenimento e Similares de Curitiba (Sindiabrabar), Fábio Aguayo, afirma que alguns estabelecimentos estão tendo que se adaptar na marra. O que se cobra, no entanto, é bom senso dos donos. “Tem dono de cachorro que quer o animal dentro de lugar que não dá. Falta bom senso para alguns clientes. Restaurante têm restrições mais claras. Os bares tem sido mais propícios para isso”, compara. O ano de 2018 foi até agora o auge da onda petfriendly em Curitiba. “Ficou mais forte dos últimos ano para cá. Em 2018 foi um bum, foi um fenômeno natural, que cresceu a partir de 2016 quando muita gente se elegeu, inclusive, nas eleições municipais com a bandeira da proteção dos animais. Só que a parte comercial, do pet friendly, veio forte em 2018”, afirma.

Com isso, segmentos comerciais que até então eram totalmente diferentes acabaram convergindo. Empresas de ração estão procurando bares e outros locais de entretenimento e grande circulação de pessoas para colocar ração e produtos pet à venda. “Estão vindo pedir relação de bares e restaurantes que poderiam comprar ração. Nós ainda estamos tratando alguns casos com cautela porque temos que consultar a vigilância sanitária e respeitar uma série de normas”, pondera Aguayo.

Representante de uma grande marca de produtos veterinários, o médico veterinário Cesar Souza acredita que algumas marcas até podem explorar o ramo dos locais pet friendly, mas que ainda não representa uma fatia importante do mercado. “Por exemplo, as principais marcas de ração no mercado, como Royal Canin, Hill’s, Premier, só operam em canais especializados. Quem vende um saco de ração de alta qualidade, de 200 quilos, não vai vender em um bar. Precisa de um profissional que saiba explicar o que é aquela ração. Produto de prescrição não vai ter (em um bar). Precisa de pessoa capacitada para fazer a indicação”, explica.

Mas, segundo o especilista, a publicidade e os produtos de maior valor agregado certamente têm entrada garantida no mercado pet friendly. “Para propaganda da marca, marketing e investimento na marca, acho válido, mas para o cliente buscar na loja. Claro que no caso do petisco, cerveja para cachorros e o vinho para cachorros, por exemplo, são produtos adequados, o dono acaba gastando, indo ao local por ter esse diferencial. E petisco, por exemplo, tem valor agregado muito maior que a ração. Por quilo é mais rentável para quem vende. É o produto que tem saída”, afirma.

Animais abandonados e clandestinidade preocupam ONGs e autoridades

É inegável que os pets têm tido mais espaço na sociedade, principalmente nos grandes centros. Apesar disso, o abandono e as ocorrências sistemáticas de maus tratos também são evidentes. A Polícia Civil e a Prefeitura de Curitiba estão fazendo, desde o início do ano, ações conjuntas para a verificação de denúncias de maus-tratos, posse ilegal, comércio ilegal e tráfico de animais silvestres e domésticos. O balanço dessas ações revela que a criação de cães de raça para atender a demanda por pets degenerou em uma situação de maus-tratos. Já chega a 378 o número de cães de raça resgatados em canis irregulares, em Curitiba, este ano. Eles estavam em criadouros pequenos, em que os animais ficam amontoados em baias apertadas e sujas, sem alimento ou água suficiente, além de receberem medicamentos vencidos. O último resgate ocorreu no dia 31 de abril, no bairro Xaxim, depois de uma denúncia feita à prefeitura pela Central 156. Os responsáveis pelo canil foram multados em R$ 18 mil por comércio ilegal e os cães foram encaminhados para ONGs e depois de receberem cuidados, serão doados.

Segundo a médica veterinária Maristela Fonseca, que trabalha com essas ONGs que fazem o resgate de cães, a criação desses animais tem sido explorada como uma forma fácil e barata de ganhar dinheiro por pessoas que não são criadores habilitados. “Eles compram ou até furtam dois ou mais cães e passam a fazer o cruzamento descontrolado, inclusive entre parentes muito próximos. O cruzamento consanguíneo é a principal causa de problemas genéticos que vão aparecer quando o cão se tornar adulto”, aponta. Ela recomenda que, quem quiser um cachorro, adote o animal ou, se fizer questão que seja de uma determinada raça, pelo menos vá conhecer o canil. Atualmente, “há muita criação irregular de yorkshires e llasa apso, ambas raças pequenas”.

Outro problema são os abandonos de animais adultos e mesmo filhotes de cães e gatos que nascem nas ruas ou em residências de pessoas que não querem se responsabilizar por uma ninhada. Os animais abrigados em ONGs ou por ativistas individuais à espera de adoção sofrem com carência de doações ou incentivo do poder público.

Ativista fala sobre resgates e dificuldades

A ativista Sueli Nunes, que cuida 70 cães e 10 gatos resgatados afirma que o trabalho dela é totalmente independente. “Infelizmente, eu não acho que o município dá importância para o nosso trabalho. Nós merecemos, todas as pessoas que se dedicam a esse trabalho merecem, o mínimo de auxílio. Tenho alvará, responsável técnico, licença da vigilância sanitária e ocupo 100% desse espaço, da chácara, para cuidar dos animais. Pago IPTU como se fosse um imóvel normal e não um que serve a um serviço social”, reclama. Com a chuva da semana passada outros problemas imprevistos apareceram. “Tivemos toldos estragados, tendas perdidas, temos um pouco de declinio a chuva carregou muita lama para os canis. Nós conseguimos acomodar os resgatados, mas teve gente (outros ativistas e ONGs) que ficou em situação muito mais delicada que a gente”, lamenta.

O trabalho é diário, que com pouca ajuta tem uma prioridade de cada vez. Se a onda pet friendly tem seu lado fútil e comercial, também serve como ajuda. “Nesse sábado vamos estar em um estande de adoção da Bastards, uma cervejaria. O que ele revertem em vendas fazem em doações para a gente. Recebemos 10 sacos de ração na semana passada que em dias como esses foi um alento”, comemora.

Sueli também tem um hotel para cães que acaba sendo seu ganha pão ao mesmo tempo em que ajuda a manter o resgate de animais abandonados. A ativista critica a comercialização clandestina. “A clandestinidade nos fere muito, incomoda bastante. Ontem mesmo nós resgatamos um cão de raça, um poodle, machucado, abandonado e cheio de ferida. Me incomoda bastante a comercialização. Para gente a vida deles não é um negócio”, pontua.

Na última semana, a Rede de Proteção Animal da Prefeitura de Curitiba lançou uma série de ações para incentivar a adoção de pets e a guarda-responsável de animais. Entre as ações estão uma campanha de comunicação e a criação do Banco de Ração, instrumento que vai possibilitar à Prefeitura receber doação de ração para ser encaminhada a ONGs e protetores independentes. Para ajudar basta acessar o site protecaoanimal.curitiba.pr.gov.br ou ligar para a Central 156.

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