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Música

Os novos sons da cidade canção

Depois de dez anos meio de lado da produção de shows em sua cidade, o jornalista Andye Iore decidiu voltar. Bem a tempo de celebrar os 18 anos desde o primeiro show considerado independente por lá, com a curitibana Os Cervejas – e sob os cuidados dele. Ele fez domingo e segunda-feira passados a primeira edição do Festival de Música Independente de Maringá – Rockingá – e o Espaço 2 estava lá. Foi uma viagem pra lá de produtiva. Se a “cena maringaense” carece de estrutura, lhe sobra boa vontade e, o principal nessa conversa, bandas competentes. Das 10 vistas, de nenhuma se pode dizer que falta qualidade musical. Desde a menina Nina Nóbrega, que abriu a mostra, passando pela N.O.V.A, com uma sonoridade mais “recolhida” que se diferenciou na mostra, até chegar a uma das mais conhecidas na região, A Inimitável Fábrica de Jipes, todas mostraram bom potencial para “ganhar o Brasil” – e algumas miram o exterior, cantando em inglês e bem entrosadas.
Com entrada franca, a mostra foi no Fernandes Bar, boteco com espaço para não mais de 80 pessoas, sem palco e com equipamento emprestado das bandas. A ideia de “recuperar”  dias de baixo movimento da casa, cujo dono, Leandro Fernandes é o mais novo parceiro dos roqueiros da cidade, funcionou. O arqui-inimigo de todos é o cover, em especial, e o sertanejo. É uma “cena musical” em desenvolvimento, mas Maringá tem recursos para valorizar mais sua produção que já deveria estar mais estruturada. Foi como voltar os primeiros shows que vi ao conhecer o circuito alternativo. Aconchego e camaradagem foram sensações muito presentes, renovando de certa forma, o espírito “independente” já meio cansadão. O contrapeso da crueza da produção foi a dedicação e o prazer dos envolvidos: músicos, platéia, bar, produtor e de  um jornalista-agitador cultural, o jovem Thiago  Soares, que participou de bate-papo acalorado na abertura.
O festival é um desdobramento do projeto de Iore, o Zombilly – programa de rádio apresentado na Rádio UEM, inspirado nas John Pell Session; shows autorais às terças  no Fernandes e um blog. Nasceu um pouco mais focado nas vertentes psycho e rockabilly e se ampliou pela constatação de Iore que era preciso mostrar o que se passa ali. Há 3 meses começou a parceria com o Fernandes.  “Me endividei muito e dei uma parada. Mas tava  tudo tão complicado, falta de respeito e muito cover... me dei conta que ao invés de gastar para ver shows fora podia investir nas locais”, conta.“ É informal mesmo, faço questão de ter até um lado toscão”, diz.
Arregimentou o velho conhecido, agora dono do bar da família Fernandes. “Não sou tão alternativo, abro para outros estilos, mas prefiro fechar a ter sertanejo”, diz Leandro, que se surpreendeu com os roqueiros. “Pensei que seria aquela coisa punk, que iam quebrar tudo”, conta, rindo. “Nunca tive um problema”, assegura ele, que tem pouca concorrência. Apenas outras duas casas foram citadas como parte do circuito local, o Pub Fiction, que faz uma “salada musical” e o Tribo’s, esse um veterano marigaense tido como aliado. E ainda o Cotonete, que está começando a investir no circuito autoral.
Entre os produtores, Flávio Silva é citado também, mas divide as opiniões, por apostar mais nos hypes de fora, mas é considerado importante. As bandas também se ajudam como é o caso da  Tiny Cables Ink, que está sendo produzida pela experiente Betty by Alone, encarregada de fechar a primeira noite. A Tiny vai participar de uma coletânea norte-americana, contato feito via My Space. “É difícil  conseguir tocar em outros lugares. Os convites que chegam são pra gente bancar tudo. Sem chances “, diz Rafael, da Betty. Por falar nisso, não faltaram críticas a Associação Brasileira de Festivais Independentes, Abrafin, por “só escalar bandas amigas”. Porém, algumas das bandas maringaenses precisam investir mais em seus materiais de divulgação.  Afinal, nada como se comunicar para enfrentar percalços. Rafael conta que achava que precisaria de uma gravadora. Até ouvir uma cassete da londrinense Grenade. “Vi que era possível fazer por conta”, diz, reclamando a falta de know-how para gravação de rock na cidade. Diga pra mim:  parece ou não Curitiba – e tantas outras cenas -há alguns anos? Cover demais, respeito e cachê de menos; falta de apoio. É questão de tempo e persistência.

Por um circuito regional de shows
Maringá, Umuarama, Londrina e Paraíso do Norte, há 80 km, são as cidades de um possível roteiro de shows na região. Em Umuarama, fica tudo por conta do Nevilton, banda paranaense em ascensão. Em Londrina, tem a Branço Direito, produtora do Demo Sul. E a grande surpresa vem da agroindustrial Paraíso, com seus 12 mil habitantes. Seu prefeito, Beto Vizzotto, fez duas edições do Paraíso do Rock. Agronômo de formação, Vizzotto sempre curtiu rock.   “Notava bandas independentes legais na região, só que era disperso”, conta. “Buscamos parceria junto a Associação Protetora da Maternidade e Infância (APMI) e fizemos um trabalho para acabar com a imagem negativa que ainda tem do rock. Convidei Ministério Público, Conselho Tutelar e todos ficaram maravilhados”, observa. Ele, que aposta na curadoria e em bandas autorais, conta com o festival para desmanchar preconceitos. “Só no debate tivemos mais de 140 pessoas e embaixo de chuva”, lembra ele que quer parceria na iniciativa privada. Aliás, algo que chamou a atenção: ninguém tocou no assunto leis de incentivo ou editais. Parece que não sabem dessa ferramenta. No caso do prefeito, a ideia é incluir a iniciativa privada. No caso dos produtores, ao que tudo indica, a lei municipal de Maringá, tem problemas. “Mas o pessoal do rock não quer mesmo”, diz Thiago Soares, um dos  mais afiados e por dentro da cena alternativa. Estudante de jornalismo, tem fôlego para também produzir  shows só de bandas que gosta.  Mantém o blog Espora de Galo, que põe lenha na fogueira sem dó. Teve o programa de rádio Garagem, que levou vários “VMB local”,o Sonic Flowers, produzido por Flávio Silva. “Queria entrevistar para o Garagem algumas  bandas, assim começou”, conta ele. “Tento parar de perder dinheiro, mas não consigo. Só do Charme Chulo dizer que eu fiz eles serem conhecidas na cidade, de onde são Leandro e Igor, e me darem o Cd, tá valendo”. Mas, ele bota o dedo na ferida. “Muita gente aqui reclama, mas só vai ao bar quando sua banda tá tocando. Rola um complexo de perseguição, um discurso muito manjado. Não aguentamos mais banda choramingando”, alfineta. (AP)

Em cena, bandas se garantem
Fique bem impressionada com os shows que vi.  Mesmo as bandas que tocaram desfalcadas, mostraram seu valor. Começou com Nina, a garota de 13 anos, comparada por lá de Malu Magalhães. Voz e violão, embora toque vários instrumentos, mostrou que tem potencial, o que se confirmou com a audição posterior do disco. E não só isso. Também tem personalidade, no meio daquele jeito tímido.  “Quero montar minha banda, mas quero músicos bons, não vou me apressar. Não quero contratar, quero pessoas que gostem de tocar comigo”, diz a estudante da 7ª  série.  “Sempre gostei de aparecer e pensei em ser atriz, mas sempre me senti bem cantando”.  Depois veio a N.O.V.A, sonoridade mais próxima do meu gosto pessoal. O pessoal no bar falava alto demais para o som do trio, que faz música calcada em bases eletrônicas e guitarra.
Professor Astromar & Os Criadores de Lobisomen me surpreendeu também e os vocais de  Renato, ex- Família Palim dá um toque todo pessoal ao trabalho. Bom humor também é uma marca da banda que deve gravar em breve, mas diz fazer um som sem pretensões.  Algumas optam pelo inglês em suas canções. A Betty By Alone, uma das mais conhecidas na cidade ao que tudo indica, fechou a primeira noite, com competência e presença de palco. Três vocais, duas guitas, violão elétrico e até uma harmônica esporádica (estes últimos no disco), criam bons riffs e um clima que lembrou Teenage Funclub e Tod’s .  Tiny Cables Ink também conseguiu mostrar seu potencial em canções com belas melodias, mas precisa cuidar do vocal que lembra demais a principal influência. Abriu a segunda noite que teve menos público, porém mais atento.  Outra que canta em inglês, é Hospital Doors que, tanto quanto a Betty, parece pronta.   Assume que mira o mercado internacional.
José Ferreira & Seus Amigos é das mais interessantes, comandada por  Gabriel, que tem histórias de bastidores. E até esquecendo a letra, se sai bem. Para fechar,  a mais conhecida nacionalmente, A Inimitável Fábrica de Jipes, desfalcada, mas sem baixar o nivel. Fechou em alto estilo o festival, com belo diálogo entre as guitarras.  (AP)









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