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Cotidiano

Polícia de SP pede prisão de suspeito de matar médico criador das carretas da saúde

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil de São Paulo pediu a prisão preventiva do suspeito de ter participado da morte do médico Roberto Kikawa, 48, no último sábado (8). Equipes do Deic (crime organizado) e do 17º DP (Ipiranga) tentam agora localizá-lo.

Gastroenterologista, ele fundou o Cies Global em 2008 para levar atendimento médico especializado a comunidades carentes. Integrante das redes Schwab e Folha de S.Paulo, Kikawa foi reconhecido como vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2010 por inovar com unidades móveis de exames em carretas.

Por volta das 23h, ele voltava de um jantar com sua equipe em uma pizzaria e deixava uma funcionária em casa. Quando o carro estava parado em frente ao prédio na rua do Manifesto, ele foi abordado por dois rapazes com arma em punho.

Ordenaram que o médico saísse do Jeep Compass. Como era de seu feitio, Kikawa começou a descer do veículo e pediu calma aos assaltantes. "Você é polícia?", reagiu um deles, enquanto o outro gritava: "Atira, atira."

O primeiro disparo atingiu a axila. O segundo, o abdômen. Os assaltantes saíram correndo a pé, enquanto testemunhas chamavam a ambulância para socorrer Kikawa.

Levado ao Hospital Ipiranga, ele chegou sem vida. O corpo será velado nesta segunda-feira (12) na Igreja Evangélica Holiness do Bosque, no bairro Saúde, da qual era membro, a partir das 13h. O sepultamento está marcado para as 16h no Cemitério da Consolação.

Em São Paulo, o Cies foi responsável por 54% dos exames de imagem com médicos especialistas feitos em 2017 pelo Sistema Único de Saúde.

"O SUS é viável", afirmou em sua última entrevista concedida à Folha de S.Paulo durante o Fiis (Festival de Inovação e Impacto Social), na segunda (5). "É importante que a gente entenda o SUS, de ter essa rede integrada. Nada adianta eu trazer uma carreta para fazer uma mamografia, detectar o nódulo, e essa pessoa ficar frustrada e falar: 'Tá bom, doutor, o que faço com isso?'."

Kikawa participou ainda do painel Saúde e Inclusão e falou para colegas da Rede Folha e representantes de ONGs de saúde da América Latina, reunidos do Fórum de Melhores Praticas para o Terceiro Setor da Saúde, na segunda (5).

Destacou o papel do terceiro setor no fortalecimento da saúde pública: "A gente é ponte e precisa trazer governo e iniciativa privada junto, para uma gestão eficiente e respeitosa."

Paulistano, Kikawa escolheu a carreira na medicina ainda na infância, quando era escoteiro e aprendeu a cuidar de pessoas. Começou a jogar xadrez motivado pelo pai, que foi sua grande inspiração e incentivador. Durante o período da faculdade em Londrina (PR), o progenitor teve câncer.

Kikawa conseguiu acompanhar o tratamento em São Paulo por causa de uma greve no campus. A despedida foi a maior motivação da sua vida: "Quero que você me prometa que será um médico amoroso, que entenda bem o doente", disse o pai na última conversa com o filho doutor.

Após o adeus e de volta ao Paraná, Kikawa decidiu cursar teologia para ser missionário na África, mas uma grave infecção renal o impediu. A carreira como cirurgião-geral também foi interrompida, desta vez por uma condição crônica, que causava tremores nas mãos. Ainda assim, Kikawa mantinha sua firmeza de propósito. E virou um dos maiores especialistas em endoscopia do país.

No Hospital Sírio-Libanês, voltou sua atenção aos pacientes sem perspectivas de cura. E descobriu as "Áfricas" da periferia paulistana. Abandonou a carreira promissora na medicina privada para se tornar um empreendedor social reconhecido mundialmente.

Surgiu, assim, a ideia do sistema móvel para exames preventivos, que evoluiu para unidades que também realizam cirurgias. Ele lançou oficialmente na semana passada no Fiis, em Poços de Caldas, uma nova tecnologia social patenteada nos Estados Unidos: o hospital lego, montado em contêineres que funcionam como centros cirúrgicos, salas de exames e consultórios.

Roberto Kikawa deixa a mulher, a oftalmologista Mirna, 47, e dois filhos, Daniel, 15, e Ana, 13. Desde fevereiro do ano passado, a família vivia em Atlanta, nos Estados Unidos, onde o brasileiro implantava o Cies, em um processo de internacionalização do modelo testado no Brasil. Kikawa, desde então, se dividia e passava 15 dias aqui e o restante do mês nos Estados Unidos.

Ao longo de uma década como empreendedor social, o médico deixa um legado de mais de 2 milhões de pacientes do SUS acolhidos nas centenas de unidades móveis e modulares do Cies Global. Homem de fé e missionário da saúde, ele planejava chegar à África em 2019, quando iria inaugurar uma unidade em Abuja, capital da Nigéria.

 

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