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Porque tinha que ser o Biden?

Provavelmente você acompanhou nos últimos dias a corrida eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. O processo pode até parecer estranho e antiquado, mas não se preocupe: é assim mesmo. Contudo, mesmo que a maioria dos votos dos americanos não seja a principal arma da democracia estadounidense – na eleição passada, por exemplo, a maioria dos americanos votou por Hilary Clinton, porém devido ao sistema eleitoral Trump foi eleito – dessa vez foi diferente. A população norte americana conseguiu expressar o que queria e se engajou em votar.

Impulsionados pela pandemia, os Estados estimularam diferentes formas de votação, como o voto pelo correio ou antecipado, o que aumentou a participação. Celebridades e pessoas públicas participaram ativamente na discussão sobre o poder do voto, fazendo com que pessoas que antes não votavam decidissem efetivamente externar a sua opinião. O resultado nós já sabemos. Biden foi o presidente mais votado da história dos Estados Unidos e isso representa muita coisa.

Não quero aqui discutir sobre a pessoa Joe Biden, mas o que a escolha dele representa na sociedade em que vivemos. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, ele clamou pela união em um país completamente dividido, reforçando que simpatizantes dos "partidos opostos" não são inimigos uns dos outros, mas sim que todos são parte de uma mesma nação. É uma fala similar a de Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, que em um momento de crise buscou juntar o país.

Biden tem um grande trabalho pela frente nesse sentido. A falta de confiança na mídia, no poder público e na própria sociedade é algo que tem assolado a democracia de muitos países e efetivamente causado uma série de problemas. Aliada a discursos inflexíveis ou posições extremistas de todos os lados, a falta de confiança colabora e muito para o caos social.

Os movimentos anti-racistas impulsionados pelo caso de George Floyd levantaram uma grande e importante discussão nos Estados Unidos que, de certa forma, impactou diretamente no resultado das eleições. As manifestações que aconteceram nos quatro cantos do país estimularam discussões profundas na sociedade norte americana e um silêncio falou mais alto do que todos: o do próprio presidente. Biden já se posiciona na temática há algum tempo. Como vice de Barack Obama, já se aproximava das pautas raciais e afirmava a existência de racismo estrutural nos Estados Unidos, com propostas para resolver esses problemas, como políticas para reduzir o encarceramento, lidar com disparidades baseadas em raça, gênero e renda no sistema judiciário e reabilitar prisioneiros libertados.

Ainda nessa pauta, o governo Biden terá uma grande protagonista que é a sua vice Kamala Harris. Além de senadora e defensora dos direitos civis e LGBTQ+, ela é a primeira mulher a assumir a vice-presidência, carregada de representatividade também por ser negra e asiática-americana. Harris nasceu numa família de imigrantes, com a mãe indiana e o pai jamaicano. A inspiração de sua mãe, que foi uma grande pesquisadora e ativista, foi lembrada em seu discurso, ao dizer que ela é a "primeira mulher a assumir o posto, mas que com certeza não seria a última".

A posição de união também envolve os Estados Unidos com o resto do mundo. Nos últimos anos, o país se isolou e deixou de participar de discussões importantes com o resto das nações. Além da saída do Acordo de Paris, muitos pactos multilaterais foram quebrados e também algumas guerras comerciais foram travadas, prejudicando a economia e a prosperidade global como um todo. Em uma sociedade como a nossa, colaboração é um imperativo para construir os pilares que embasam o desenvolvimento sustentável.

Por fim, temos a situação do Coronavírus. A pandemia atingiu milhares de americanos e a falta de apoio social e econômico por parte do governo tem levado o país a mais uma grande crise. Biden era vice de Barack Obama quando, em 2009, administrou o pacote de recuperação econômica que colaborou para reerguer a economia, experiência hoje necessária. Sua proposta para essa retomada é criar novas oportunidades econômicas no país, especialmente relacionadas à economia verde, e restaurar as proteções ambientais e os direitos à saúde, como o "ObamaCare" e alianças internacionais.

Venceu a sensatez. Porém a única certeza existente é que vivemos em um mundo VUCA - volátil, incerto, complexo e ambíguo - e a sociedade se transforma de maneira ágil e dinâmica. Não é possível afirmar como Biden vai se comportar diante de toda essa situação, porém podemos prever que ele terá, além dos seus mais de 75 milhões de eleitores, um mundo inteiro que agora é expectador e deposita esperanças em um novo presidente. Se tudo correr bem, bom para o Brasil e bom para o mundo.

*Gustavo Loiola é Mestre em Governança e Sustentabilidade, coordenador de Relações Internacionais no ISAE/FGV e Chair do PRME (Principles for Responsible Management Education) para América Latina e Caribe.