Entrevista

Pré-candidato a prefeito de Curitiba, Rubens Bueno quer romper o ciclo PT-PSDB

As eleições municipais de 2016 serão uma grande oportunidade para romper com a polarização PT-PSDB que dominou a política do País desde os anos 90, e já não responde mais as necessidades da população. A avaliação é do deputado federal Rubens Bueno (PPS), que desde já se coloca como potencial pré-candidato à prefeitura de Curitiba, para oferecer uma alternativa ao fim desse ciclo político, para recuperar o papel da Capital paranaense como vanguarda na busca de soluções aos problemas das grandes cidades brasileiras. 

Bueno – que em 2004 fez mais de 20% dos votos para prefeito da Capital, e em 2012, foi candidato a vice na chapa do ex-prefeito Luciano Ducci (PSB) - considera que a gestão do prefeito Gustavo Fruet (PDT) não mostrou a que veio. Por outro lado, avalia que o PSDB também está desgastado pela incapacidade de cumprir o papel de maior partido de oposição, e pelas dificuldades vividas pelas administrações tucanas nos estados.
Em entrevista ao Bem Paraná, o presidente do PPS estadual explica porque acredita que o partido pode representar esse desejo de mudança, e retomar a capacidade de planejamento urbano que na opinião dele se perdeu nos últimos anos, por conta do imediatismo eleitoral e a falta de visão de longo prazo das administrações mais recentes.

Bem Paraná – Alguns analistas vêem não só um fim do ciclo político do PT, mas também da polarização PT-PSDB. O senhor concorda?
Rubens Bueno – Concordo. Nós achamos que esta questão PT-PSDB já superou-se no tempo, mas ainda continua. De um lado o PT fazendo a crítica ao PSDB porque é mais fácil. Do outro, o PSDB que deixou o governo fazendo seu papel de oposição. E nós em busca de alternativas. Tanto é que nós, com a candidatura do Eduardo Campos (PSB) e depois da Marina Silva (Rede), era uma tentativa de você buscar uma terceira via, uma alternativa nacional. Então eu acho que esse é um caminho que vai exigir sempre para poder acabar com essa polarização.


BP – O senhor acha que isso pode abrir espaço para novas forças políticas nas próximas eleições?
Bueno – Acho que sim. E mais, se você examinar o quadro, no PT, as grandes lideranças nacionais estão desgastadas. De todas as formas, seja mensalão, petrolão. O PT que era uma coisa, chegou no poder e se transformou por completo. E no PSDB há um desgaste natural de todo o processo. De não cumprir papel de maior partido de oposição. Faz oposição mas não cumpre o papel de maior partido de oposição. Então nós estamos sempre em busca dessa alternativa. É um deserto que você vislumbra o espaço e agora é hora de se buscar ocupar esse espaço. Com novos nomes, novos partidos, novas alianças, independentes do PT e do PSDB.


BP – O que essa terceira via pode oferecer de diferente em relação ao PT e o PSDB?
Bueno – Primeiro a questão ética. Nós temos todas as condições de eticamente oferecer uma proposta para o País que tenha começo, meio e fim. Você não pode ficar simplesmente imaginando a próxima semana, ou o ano. Tem que pensar estrategicamente o País a médio e longo prazo. O País se organizar economicamente, buscar uma base moderna, sempre antenado com a questão da educação, que é um ponto fundamental. E chamar a sociedade à sua responsabilidade. Isso não é uma questão só de governo. Todos participando e olhando a coisa pelo menos uma geração à frente.
BP - Como o senhor acha que o desgaste do PT e do PSDB se reflete na eleição municipal do ano que vem em Curitiba?
Bueno – Acho que se reflete no seguinte dado: tem o espaço, é um deserto, um espaço grande para se trabalhar alternativas. E outro que não seria muito bom é entregar a prefeitura nas mãos de aventureiros. Como aconteceu no plano nacional com a eleição do Collor, em 1989. Quando há um espaço tão amplo, como hoje em virtude do desgaste das lideranças existentes tanto no Paraná, quanto nacional, ou mesmo em Curitiba, é oferecer esse espaço a uma figura que queira colocar Curitiba em uma aventura.


Eleições 2016:

PPS deve ter candidato próprio em Curitiba

Bem Paraná – Como o senhor vê o cenário para a eleição em Curitiba?
Rubens Bueno – O PPS nunca deixou de estudar, discutir o quadro político. E agora mais do que nunca está discutindo isso com total preocupação em ter um nome do partido colocado para disputar as eleições do ano que vem. A tendência é o partido ter um candidato próprio. O partido já começou o debate interno de avaliação, discussão de estratégias. Primeiro o prazo de filiações de 2 de outubro. E em seguida a preparação de um documento da proposta do partido para Curitiba.

BP – O senhor, pessoalmente, teria interesse de disputar?
Bueno – Não tenho nenhum impedimento para isso. Ao contrário, o partido sabe da minha disposição, sempre em ter a nossa presença enquanto partido, propostas, ideias, enquanto experiência de vida pública à disposição do partido.

BP – O arquiteto Manoel Coelho – que trabalhou com o Jaime Lerner na prefeitura – diz que as últimas administrações perderam a capacidade de inovação e de pensar a cidade a longo prazo. O senhor concorda?
Bueno – Concordo plenamente. E vou mais longe, não é só Curitiba. Com o instituto da reeleição, onde você pisar nesse País, sempre a preocupação é a próxima eleição. Não há uma preocupação como deveria ser de se pensar na próxima geração. E Curitiba merece um estudo para retomar a vanguarda das cidades modernas do País, de olho no mundo e o mundo de olho em Curitiba. Isso se perdeu no tempo.

BP – Esse seria o principal desafio da 3ª via?
Bueno – Você imagina uma cidade como Curitiba e região metropolitana onde a população cresce, onde o automóvel toma conta de todo o espaço público, não pensar no seu dia, não olhar minimamente para frente. Isso é um desafio que cabe à gestão de pensamento de conteúdo, de projeto que possa criar as condições de Curitiba criativa, inovadora, de vanguarda.


Você não vê inovação

Bem Paraná – Qual a sua avaliação sobre a gestão do prefeito Gustavo Fruet?
Rubens Bueno – A gestão do Fruet não dá para você avaliar enquanto feito de gestão pública. Nenhuma gestão fica totalmente inerte porque tem até a própria estrutura profissional que vai tocando. Mas ele se destaca por não ter nada a que mostrar. Você não vê nada de inovação. Você vê a campanha da bicicleta que não é de Curitiba, é do mundo todo. Mas do ponto de vista da estrutura da cidade com bastante profundidade, estamos longe de ver alguma coisa.

BP – A atual administração alega que a crise econômica do País reduziu suas receitas.
Bueno – Se você pegar um País em crise como o nosso, do estelionato eleitoral, como se mentiu na campanha, o passo seguinte foi a resposta de ajuste fiscal, o País está paralisado, inflação alta, crescimento negativo. Esse quadro que ele está chega também nas prefeituras, nos estados e municípios com a questão da receita. A Dilma desonerou a indústria automobilística, a linha branca (eletrodomésticos), etc, e ao desonerar, tirou dinheiro dos estados e municípios. Agora em um momento desse você tem que ter a criatividade e pensar a gestão. Esse é o lado bom da crise. Repensar a gestão enquanto resposta à sociedade com políticas públicas de qualidade.

BP – A construção do metrô, muitas vezes prometida, até hoje não saiu do papel. O senhor acha que vale a pena levar esse projeto à frente, ou seria melhor investir na melhoria do sistema atual, como defende o ex-prefeito Jaime Lerner?
Bueno – A Dilma já veio duas vezes aqui lançar o metrô em Curitiba. A palavra da presidente da República não tem valor. De um lado, se você pensar o metrô e ver o custo dele na situação de crise que nós estamos vivendo, e o mundo enfrentando esse crise de uma forma direta e indireta, você tinha que pensar em alternativas mais baratas. O metrô é importante? Claro que é. Mas você vai tirar dinheiro de onde em um momento de crise como essa? Tanto é que nós já vimos quantas vezes lançamento de projeto, liberação de verbas. Isso tudo vira conversa. Mas a prefeitura não poderia estar inerte em criar as alternativas. De olhar para frente e saber que esse projeto pode ser melhor discutido. Nós estamos nos pior dos mundos, nem sai o metrô e nem se investe na melhoria do sistema existente. E esse pior dos mundos quem paga a conta é a população, com um sistema caro e sem a qualidade que possa retirar o cidadão do automóvel e ir para o transporte público.

BP – Ainda na questão do transporte coletivo, nós tivemos as manifestações de 2013, baixou a tarifa, depois disso tivemos mais dois aumentos, e ainda a desintegração de parte do sistema. O senhor acha que a disputa política entre prefeitura e governo do Estado contaminou esse debate?
Bueno – Toda disputa política é contaminada de um jeito de outro. Agora você tem que ver o interesse público. Você tem que ver os grandes projetos que respondam os anseios da população. Nós não temos nem uma coisa, nem outra. Hoje nós temos, mais do que o contágio político, a falta de vontade política de se enfrentar os problemas e resolver.

BP – Na semana passada, nós tivemos o caso de uma mulher que morreu em frente a uma unidade de atendimento de emergência em saúde em Curitiba, depois de esperar várias horas para ser atendida, o que causou comoção. Como o senhor avalia esse episódio?
Bueno – Esse episódio transcende. Eu estava fora do País e vi essa notícia. O problema é a falta de assistência. O não atendimento a um ser humano em qualquer circunstância, o governante não dá um mínimo de solidariedade em um momento como esse. Isso tem que estar funcionando como uma máquina perfeita em favor do ser humano. Isso que aconteceu é muito triste para Curitiba. Tenho certeza que o prefeito também tenha ficado bastante triste com isso.


Impeachment

Maioria da população desaprova gestão Dilma

Bem Paraná - Com as novas denúncias do empreiteiro Ricardo Pessoa na operação Lava Jato cresce a possibilidade de um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff?
Rubens Bueno – Primeiro a ida do PPS no STF pedindo a investigação. A decisão do relator ministro Teori Zavaski, lá atrás, foi de que não cabia dentro do processo da Lava Jato a investigação da presidente, mas de que a presidente poderia sim ser processada. Nesse caso não, mas ela pode ser investigada. A outra, mais recente, que é o caso do Ricardo Pessoa, delator do grande cartel da Petrobras, ao dizer que deu dinheiro para tanta gente, para as campanhas da presidente de 2010 e 2014, agora não tem como você negar que não havia. Mais do que imaginar um processo contra ela, é dizer que agora cabe a ela dar a devida resposta. Não deu. Viajou e não deu. Ao não dar a resposta, é evidente que as oposições, amanhã (terça-feira) vão se reunir para tomar decisão com relação a esses últimos episódios.

BP – O impeachment tem um componente jurídico e um político. Do ponto de vista político o senhor acha que a abertura de um processo desses é viável hoje?
Bueno – No jurídico, é bom saber que tem no procurador geral da República um pedido das oposições, de uma proposta apresentada pelo jurista Miguel Reale Júnior, de abertura de investigação contra a Dilma. Pelas 'pedaladas' fiscais, de maquiar as contas de 2014 e fazer disso um movimento para ganhar a eleição. O procurador ainda não decidiu sobre isso. Do ponto de vista político, você avança primeiro o que é importante? A população, a sociedade está apoiando. Dois terços da população brasileira desaprovam o governo da presidente Dilma. Só 10% aprovam. Ou seja, 90% dos brasileiros não acham o governo bom. Então as condições estão colocadas com o povo na rua. Basta ver as manifestações deste ano. As condições estão sendo colocadas. O que nós precisamos discutir é a ação no parlamento. Nós precisamos de 342 deputados favoráveis à abertura de processo de impeachment. Hoje para conseguir 308 para fazer uma emenda à Constituição é muito difícil. Primeiro é difícil para o governo, segundo para a oposição. Quais as condições? É a sociedade pressionando, nas ruas, e fazendo o Congresso tomar uma decisão. Condições estão sendo criadas, tanto jurídicas, quanto políticas.

BP – O fato do empreiteiro ter dito que também doou para campanha de políticos da oposição não coloca a oposição na berlinda também?
Bueno – Coloca todos na berlinda, mas com uma diferença. Qual é o poder de alguém da oposição de arrumar um contrato com a Petrobras ou um negócio de governo para poder tirar proveito? Se alguém doou dentro da lei, nada mais legal e normal. Mas do ponto de vista moral, quem não deveria aceitar era o governo. As obras aconteceram, foram superfaturadas, tudo isso está provado. Uma coisa é ser governo, outra é ser oposição.

BP – O governador Beto Richa, durante a campanha, também disse que a situação financeira do Estado estava equilibrada. Após a eleição, aumentou impostos, cortou investimentos, mexeu na previdência dos servidores. Como o senhor avalia a forma como o governo lidou com essa situação?
Bueno – Ou ele não sabia de nada, ou ele foi levado a fazer esse tipo de discurso após as eleições. Durante a campanha foi assim, e após as eleições ele repetiu que o Estado estava bem administrado financeiramente apesar da crise. Se por um lado tivemos a crise, a (queda no) Fundo de Participação (dos Estados), o País crescendo menos, isso é um fato importante. Do outro lado, ao terminar o governo, no último mês, propõe um ajuste fiscal. Eu não sou contra ajuste fiscal diante da necessidade, mas isso teria que ser avaliado e feito no tempo. Não no último mês de governo. E mais, a forma de fazer: você convocar a Assembleia em uma comissão geral, em 24 horas votar o ajuste fiscal. Passo seguinte, dois meses depois, novo ajuste fiscal também com sistema de comissão geral para em 24 horas decidir. Também a forma estava errada. Diante disso, ele queria propor em um segundo momento, retirar direitos de professores, servidores, com o que a gente também nunca concordou, e nem nesse momento concordamos.


Reforma política

Perdemos uma grande oportunidade

Bem Paraná – As manifestações de junho de 2013 demonstraram uma rejeição à política tradicional e um desejo de renovação, mas o que nós vemos é uma onda conservadora no Congresso, com a aprovação de uma reforma política muito aquém do que se esperava. Como o senhor avalia esse cenário?
Rubens Bueno – De um lado, 2013 foram manifestações por um rol de reivindicações que é difícil você definir. Foi um movimento difuso. Tinha a questão da Copa do mundo, dos estádios, da saúde, da violência policial. A gota dágua foi a questão das tarifas de ônibus de São Paulo. Eram tantas questões que era difícil você objetivar. No final o governo tentou dar uma resposta com uma proposta de reforma política exclusiva, com plebiscito, depois referendo. Terminou isso, veio as eleições, a Dilma ganhou por uma pequena margem de votos. E ficou claro que ganhou porque disse que a economia estava administrada, não subiria a inflação, não subiriam os combustíveis, nem energia elétrica. Uma propaganda como se o Brasil estivesse no paraíso. E terminou a eleição subiu tudo. O resultado de um grande estelionato eleitoral.

BP – Porque a reforma não avançou como se esperava, apesar das manifestanções?
Bueno - De um lado, tínhamos 200 novos deputados. E do outro, a vontade do PMDB de fazer a reforma a seu modelo. E o modelo do PMDB era o distritão. Não havia reforma de sistema de governo, financiamento de campanha como núcleo central para enfrentar as denúncias de corrupção. A resposta infelizmente foi que da montanha se pariu um rato. O fim da reeleição e muito pouco além disso. Nós perdemos uma grande oportunidade.