Ex-Nissan

Promotoria de Tóquio mantém Carlos Ghosn na prisão

TÓQUIO, JAPÃO (FOLHAPRESS) - Numa reviravolta na manhã desta sexta-feira (21) no Japão (fim de noite de quinta no Brasil), a Promotoria de Tóquio conseguiu impedir a soltura do executivo Carlos Ghosn, cuja libertação era iminente depois de a Justiça rejeitar pedido para mantê-lo preso.

 

A Promotoria de Tóquio concretizou uma nova detenção de Ghosn, com o propósito de investigá-lo por "tokubetsu haininzai" ("crime de traição especial") --no caso, traição financeira em relação à empresa Nissan.

 

De acordo com a agência de notícias japonesa NHK, os promotores agora alegam que Ghosn transferiu para a Nissan uma perda de US$ 16 milhões, em investimentos, durante a crise mundial de 2008.

 

Segundo o advogado Masaru Wakasa, que já foi da Promotoria, o órgão já pretendia reprendê-lo sob esse argumento em dez dias.

 

"Mas, como a Corte de Tóquio rejeitou a prorrogação da detenção de Ghosn pela acusação anterior (de sonegação de informações de renda), tiveram que antecipar o uso desse trunfo."

 

A imprensa japonesa já até especulava sobre o valor da fiança que seria cobrada para a soltura de Ghosn, detido na Casa de Detenção de Tóquio desde o dia 19 de novembro.

 

De acordo com familiares, a decisão da Promotoria teria saído 20 minutos antes do horário previsto para a audiência de fiança.

 

O executivo, que comandava a aliança global Renault-Nissan-Mitsubishi e tem as nacionalidades brasileira, francesa e libanesa, foi preso logo após ter aterrissado no aeroporto internacional de Tóquio.

 

Para sair da prisão, o executivo teria de pagar uma fiança milionária.

 

O valor era estimado em 100 milhões de ienes (cerca de US$ 1 milhão ou R$ 3,84 milhões), segundo o advogado Yasuyuki Takai, que já trabalhou na Promotoria.

Em entrevista à rede Nihon TV, Takai afirmou que a prorrogação da prisão de Ghosn deve ter sido rejeitada porque a corte não considerou mais que fazia sentido em mantê-lo preso para um interrogatório sobre fraudes de natureza similar.

 

Ele é suspeito de ter ocultado US$ 44 milhões (R$ 169 milhões) do valor total de sua remuneração, em cinco anos.

 

Ghosn, 64, havia sido detido inicialmente por 20 dias, até 10 de dezembro, quando foi interrogado sobre supostas fraudes cometidas. 

 

A Promotoria, então, pediu a prorrogação por mais dez dias, que foi aceita, para investigar as suspeitas de fraudes de 2015 em diante. Uma segunda prorrogação deixaria Ghosn detido até o dia 30.

 

A maior fiança já cobrada pela Justiça japonesa foi de 2 bilhões de ienes, para soltar Mitsuhiro Asada, dono de uma empresa atacadista de carnes, acusado de vender carne falsificada.

 

Em entrevista à rede de TV TBS, o advogado Yoji Ochiai, que também já atuou na Promotoria, afirmou que o principal motivo de a corte ter tomado a inesperada decisão de rejeitar a prorrogação da prisão seriam as duras críticas ao sistema judiciário japonês que vêm sendo feitas na imprensa internacional.

 

Pesam os exaustivos interrogatórios sem a presença de advogados.

 

A gota d'água teria sido o apelo público feito pela mulher de Greg Kelly, o braço direito de Ghosn que está detido na mesma prisão --ele foi preso no mesmo dia, sob a suspeita de ser o executor das fraudes financeiras. 

 

Sua prisão também não foi prorrogada.

 

Nesta quinta, a Folha mostrou que a família de Ghosn apelou pela intervenção do Itamaraty no caso.

 

Na noite da quinta, antes da decisão da Promotoria, Motonari Otsuru, advogado de Ghosn, foi rodeado pelos jornalistas na entrada da Casa de Detenção de Tóquio, mas não deu nenhuma declaração.

 

Os advogados do executivo não se pronunciaram sobre a nova decisão. 

 

A Nissan também é investigada como pessoa jurídica, já que a Promotoria japonesa suspeita da responsabilidade da empresa, que forneceu os relatórios incriminatórios às autoridades locais.

 

A detenção de Ghosn, que foi destituído da presidência da Nissan pouco depois, foi o resultado de uma investigação interna da empresa.

 

O executivo também foi destituído da presidência da Mitsubishi Motors, mas a Renault decidiu mantê-lo em seu cargo, uma situação que gerou uma crise na aliança entre as montadoras, criada em 1999 e consolidada por Ghosn.

 

Nesta semana, o presidente-executivo da Nissan, Hiroto Saikawa, se reuniu com o chefe interino da sócia francesa Renault, Thierry Bolloré, em Amsterdã.

 

A Renault é dona de cerca de 40% das ações da Nissan.