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Secretário Carlos da Costa se firma como o criador de polêmicas

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O economista Carlos da Costa, 48, é o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade (Sepec), mas seus cinco assistentes -também secretários- o chamam de ministro.

Ele passa mais tempo em São Paulo do que em seu gabinete em Brasília e, desde que assumiu o cargo, suas atitudes criaram confusões e desafetos.

Em abril, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, viajou ao exterior, tentou fazer com que Marcelo Guaranys, secretário-executivo que o substituiu interinamente, cancelasse o resultado de um leilão realizado em 2018 e que definiu uma empresa gestora para o CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia).

Famoso pelas pesquisas relacionadas à biodiversidade da Amazônia, o centro fica na Zona Franca de Manaus, que está sob o guarda-chuva da pasta de Costa.

Quem participou das discussões afirma que o secretário explicou ao ministério que a vencedora era uma associação de petistas. A Abio é uma associação de universidades e centros de pesquisa.

Quando a assessoria jurídica do ministério percebeu o movimento, alertou Guaranys, que estendeu o prazo para a homologação do leilão até a volta de Guedes.

O edital era uma recomendação do TCU (Tribunal de Contas da União) para evitar desvios de recursos públicos com pesquisas pelo CBA.

Sem gestor próprio, o centro continuará a cargo da Superintendência da Zona Franca, hoje comandada pelo coronel da reserva Alfredo Menezes, ligado a Jair Bolsonaro.

O centro tem cerca de R$ 10 milhões do Orçamento e, partir de agora, fará pesquisas com o intuito de que "virem produtos a serem vendidos".

O secretário ainda causou irritação entre as entidades do Sistema S, com quem o secretário-adjunto, Igor Calvet, vem negociando mudanças na forma de gestão dos recursos.

As conversas caminhavam bem até que Costa decidiu pedir ajuda ao ex-senador Ataídes de Oliveira, autor do livro chamado "A Caixa-Preta do Sistema S".

Dirigentes das entidades viram na aproximação uma nova provocação e ameaçaram sair da mesa de negociação. A reunião ocorrida em São Paulo na última quinta-feira (23) foi tensa, segundo relatos.

Para melhorar seu trânsito no Congresso, o secretário armou reuniões com oito associações empresariais na capital paulista, na última sexta-feira (24). A ideia era sair de lá com um manifesto assinado por elas em defesa da reforma da Previdência e que Costa pudesse levá-lo para as lideranças no Congresso.

A mobilização não foi combinada com a Secretaria Especial de Previdência. O almoço em São Paulo teve até convocação de imprensa, mas pela assessoria das entidades, e não pelo ministério.

Na semana passada, houve outro episódio envolvendo o gabinete de Guedes. Um dos colaboradores da secretaria postou em rede social ter sido contratado para integrar a assessoria parlamentar do ministério. Na verdade, o funcionário foi cedido para a Sepec.

Isso levantou a suspeita de que Carlos Costa estivesse, informalmente, usando servidores para fazer lobby de sua secretaria no Congresso. O funcionário foi desligado.

Costa também é alvo de questionamentos por passar a maior parte do tempo em São Paulo, onde dá expediente de segunda a quinta no gabinete da Presidência, no prédio do BB (Banco do Brasil). Usa toda a estrutura: carro, secretária e uma assessora de Brasília que tem de voar toda semana para a capital paulista.

O resultado é que o secretário estourou a cota de passagens de cerca de R$ 65 mil. Somando os gastos com a assessora, são R$ 182 mil. Os custos são cobrados pelo BB e não constam no Orçamento da Sepec. Quem paga é o Ministério da Economia.

O secretário faria parte da comitiva do Brasil para um evento da OCDE, na Austrália. Para isso, exigiu um voo com escala de 12 horas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A passagem custaria cerca de R$ 50 mil. Os demais funcionários iriam pelo Chile por R$ 30 mil. O pedido do secretário foi negado.

O secretário disse à reportagem que considera os casos relatados como "esperados" diante "da resistência de determinados setores e de pessoas até dentro do governo às mudanças que o governo e sua secretaria estão implementando".

Costa confirmou ter gasto R$ 65 mil com passagens para São Paulo, mas negou ter estourado sua cota. Justificou ir a São Paulo para abrir "canal oficial de diálogo com o setor produtivo", em razão de "São Paulo ser o centro financeiro e empresarial do país".

"As agendas em São Paulo são parte de uma estratégia maior, baseada na política do governo, fortemente divulgada durante a campanha, de 'menos Brasília e mais Brasil.'"

O secretário disse que a viagem para Dubai seria paga com recursos da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) graças a uma parceria. Nas viagens acima de 12 horas, a ABDI concede assento na classe executiva. Costa confirmou o cancelamento da viagem.

"O bilhete não chegou a ser emitido. Seria uma viagem de três dias, com apenas um compromisso, e comprometeria outras agendas no Brasil."

No que se refere ao Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), o secretário informou que optou pelo cancelamento do edital porque, de acordo com a nova política de governo, prefere incluí-lo na própria Zona Franca de Manaus. A ideia, segundo ele, é que o centro, a partir de agora, ajude empresas a se instalarem na região para desenvolverem pesquisas nessa área usufruindo dos incentivos fiscais.

Ele negou ter defendido o cancelamento do edital porque os vencedores eram petistas. "Isso nunca existiu", disse.

Disse que defender a reforma junto a empresários é uma estratégia combinada com a Secretaria de Previdência.

O funcionário que atuava como assessor da Sepec tinha sido cedido pela ABDI que, segundo ele, decidiu desligá-lo.

Sobre a colaboração do ex-senador Oliveira, Costa disse considerá-lo um "estudioso do Sistema S, principalmente no que se refere ao gasto orçamentário".

"Ele foi recebido três vezes. Trata-se, no entanto, de uma colaboração eventual."

CARLOS DA COSTA, 48

Ex-diretor do BNDES durante a gestão de Michel Temer, é graduado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e mestre em Economia pela Ucla (Universidade da Califórnia); participou da fundação do Ibmec de São Paulo.

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