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Tarantino se irrita em Cannes e evita comentar temas espinhosos de filme

CANNES (FRANÇA (FOLHAPRESS) - No dia seguinte à exibição de "Era uma Vez em Hollywood", o cineasta Quentin Tarantino foi curto e grosso e evitou se aprofundar nos temas mais espinhosos de seu novo filme, que não são poucos. Ao lado de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, ele riu sozinho de suas próprias piadas e se irritou no curto encontro com jornalistas no Festival de Cannes.

A trama de seu longa revisita o assassinato de Sharon Tate, morta a facadas por seguidores do fanático Charles Manson, e o relacionamento da atriz com o diretor Roman Polanski, hoje chamuscado por acusações de abuso sexual.

"O meu fascínio com essa história é como Manson foi capaz de juntar essas jovens mulheres e esses garotos em torno dele. E quanto mais informação se pesquisa a respeito, menos as coisas ficam claras", disse Tarantino. "É impossível entender o absurdo, daí o interesse."

Assim como Tate, Polanski é um personagem na trama. Até hoje, o diretor polonês evita abordar o assunto do assassinato de a sua então mulher, grávida de oito meses, e do filho do casal que ela trazia na barriga. Anos mais tarde, ele teria ainda de fugir dos Estados Unidos carregando nas costas a acusação de ter estuprado uma adolescente.

Indagado pela imprensa em Cannes, Tarantino se mostrou enfurecido quando lhe perguntaram se ele havia consultado Polanski, de quem é fã, antes de explorar um episódio tão traumático da história dele. "Não" foi a sua única resposta.

Ele também ficou irritado quando uma repórter do jornal The New York Times pegou o microfone e o inquiriu sobre as poucas falas reservadas a Sharon Tate, que no filme é interpretada por Margot Robbie. "Por que dar a uma atriz tão talentosa como ela tão poucas linhas de diálogo?". O diretor fechou a cara: "Rejeito essa hipótese."

Ao seu lado, Margot Robbie foi mais elegante. Reconheceu que fala mesmo bem pouco no filme, mas disse que sua função no longa era "mostrar o lado leve da personagem".

"Era uma Vez em Hollywood" de fato é um filme bem masculino. O foco da história são as andanças de Rick Dalton (DiCaprio) e Cliff Booth (Pitt), respectivamente um ator decadente de TV e seu dublê, pela Los Angeles de 1969. O enredo é pretexto para que o diretor se esbalde naquilo que mais gosta, isto é, empilhar referências da cultura pop e envernizar a trama com um verniz retrô.

DiCaprio diz que se identifica com o personagem porque cresceu na indústria hollywoodiana. "É um sujeito que está lutando para continuar nos holofotes", disse. "Sei que sou sortudo por estar na posição em que estou como ator."

Pitt comentou a sua parceria com o ator de "Titanic". "Fazemos parte um pouco da mesma geração, começamos ao mesmo tempo. Espero repetir essa dupla porque foi tudo bem divertido."

Obcecado pelo detalhe nostálgico, o diretor se esmerou ao recriar a Los Angeles da época e as marquises de neon de seus cinemas de rua, hoje inexistentes. Para isso, fechou ruas da cidade e mandou reproduzir as antigas fachadas porque não queria recriá-las em computação gráfica.

O esforço é tanto, contudo, que o fetiche retrô, mais uma vez, serve mais para esconder a inconsistência do resultado. "Era uma Vez em Hollywood" é bem superior ao último "Os Oito Odiados", mas seu enredo não tem nem sombra da engenhosidade de "Pulp Fiction", que estreou por aqui há exatos 25 anos e saiu com a Palma de Ouro.

O filme despertou um curioso fenômeno na crítica. Entre publicações de língua inglesa, como o britânico The Guardian e a americana The Hollywood Reporter, a obra foi saudada como um retorno à boa forma. Já entre jornalistas europeus, nem tanto. O espanhol El País, por exemplo, o chamou de um naufrágio.

*O jornalista se hospeda a convite do festival de Cannes

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