Arquivos da categoria: Cotidiano

Identificação e o ódio…

29 maio, 2017 às 16:54  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Pouca coisa gera tanta identificação quanto inimigos ou dores em comum. O ódio mantém laços tanto quanto o amor.
O ódio, não como um antônimo do amor, mas como uma outra polaridade, dotada de uma intenso investimento libidinal. São faces de uma mesma moeda.
Não se odeia qualquer um, como não se ama qualquer um.

Nosso objeto de ódio diz muito mais sobre nós, do que sobre o próprio objeto.
Assim como a legitimação de um tipo de liderança diz muito mais sobre a coletividade do que sobre o próprio líder.

A identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto. A identificação em Freud se dá em relação e em posição a um outro como um modelo, um objeto, um auxiliar ou um oponente.
Mas quem és tu? “Eu sou” … “Sou o que sou”, já diziam os escritos bíblicos reforçados pela lógica cartesiana A é A.

Mas, para ser o que sou, preciso ser o que todos os outros não o são, é o que defende Lacan em seu nono seminário, ser pura diferença. A lógica da identificação pressupõe, invariavelmente, uma relação de diferença, de exclusão que é originária da formação das identidades. Só posso me identificar com o que não é idêntico a mim. Assim o Eu torna-se resposta radical ao Tu.
É a lógica da identificação que nos permite criar vínculos sociais, legitimar lideranças e mergulhar em relações amorosas.

“A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

29 maio, 2017 às 16:48  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Já em mãos.

“Filosofia, Religião e Psicanálise” dos organizadores Allan Martins Mohr e Fabiano Mello com meu capítulo intitulado “A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

“O objetivo deste trabalho é revisitar o trajeto de Sigmund Freud sobre o líder para destacar a importância do líder para o processo de iden cações coletivas, assim como pensar a formação das coletividades como possíveis a par r de renúncias pulsionais , identificações coletivas e respostas ao desamparo259. Neste processo o líder se encontra no cerne destas questões sociais e políticas como um lugar de identificação e exclusão. Portanto podemos pensar que em Freud, as identificações coletivas e estruturas sociais se dariam em torno de um afeto principal e em relação à uma figura onipotente e de destaque: o Pai da horda em Freud denotaria nitidamente uma teoria teológica para sustentar as formações coletivas, estruturas sociais e figuras de liderança. ”

 

apresentação livro

Sobre meninos e organizações.

17 março, 2017 às 06:30  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A história de como minha experiência com meninos de rua me ajudou a entender muito mais as organizações e seus atores que qualquer outro guru de BUSINESS.”

 Era meu primeiro dia de estágio em uma instituição que abrigava menores em de rua ou em sitação de risco na região metropolitana de Curitiba. Era meu último ano de formação no curso de psicologia e estaria alí uma, duas vezes por semana o ano todo. Era um local afastado da capital, uma boa viagem para ir e para voltar. Mal sabia eu que aquele local mudaria vida e minha forma de ver as coletividades.

Ao chegar, estava confiante, já me sentia um “psicólogo” e fizera planos para as atividades com os meninos. Eram meninos entre 08 e 13 anos e eu um estudante empolgado com um novo desafio.

Pensava eu que, ao chegar, os colocaria em uma “roda de conversa”, me apresentaria, diria o que estaria fazendo por lá e assim poderia os ajudar. Era o que eu acreditava.

Ao começar a falar, reparei que estavam dispersos, um questionou o outro, que o xingou, levantou e deu um soco no rosto do primeiro. Bem, eu estava a 10 minutos no local e já havia perdido todo o controle da situação (se é que em algum momento eu o tive). Em suma iniciei o dia conversando com 16 crianças e terminei com 09 (que não brigaram ou cometeram algum tipo de indisciplina).

Erro delas? De forma alguma. Meu trabalho começou totalmente equivocado. Minha pretensão de salvá-las era quase que patética, meu desafio real era abrir um ambiente de escuta, de projeção em forma de escrita, de desenhos, e deixa-las produzir alí seus conteúdos para tomarem posse. Nas semanas seguintes chamei uma a uma, separadamente e o desenvolvimento foi visível e fantástico. Em um ambiente seguro, o que elas desenvolveram e que tipos de sentimentos e afetos circularam era extraordinário.

De forma alguma as salvei, era muito pouco o que eu fazia alí, talvez o inverso tenha verdadeiramente acontecido. Elas, me ajudaram muito mais. Descobri algo que parece óbvio agora mas precisei sentir na pele para entender que isoladamente eram crianças que tinham medos, anseios, desejos, mágoas, carinhos como qualquer outra criança, mas que quando voltavam ao grupo voltavam a se portar como meninos de rua, agressivos, tentando não serem tragados pela instituição, pois esta era a única forma de reação que conheciam ou a única que funcianava em relação aos ambientes e situações hostis que bem conheciam.

Franco Basaglia publicou em 1985 o livro “A instituição negada” na qual relatava casos de pacientes em hospitais psiquiátricos que pode muito bem ser descolada para outros tipos de instituições. Ele diria que estas reações em grupo de agressividade e o que parece um sintoma poderia ser forma de resistir à mortificação, último recurso de produção de si mesmo. Este menino é já unicamente um corpo institucionalizado, que vive como um objeto e que, às vezes, tenta – quando ainda não está completamente domado – reconquistar mediante estas reações, aparentemente incompreensíveis, os caracteres de um corpo pessoal, de um corpo vivido, recusando identificar-se com a instituição, que lhe é negada – de forma concreta e explícita – a possibilidade de reconstruir um corpo próprio que consiga dialetizar o mundo.

Em minhas andanças depois pelas empresas e organizações hierárquicas não vi coisas muito diferentes disso, até porque se falamos de um adulto, executivo, empresário, também falamos com a criança que ele foi. “Raspem o adulto e encontrarão a criança”, diria Sandór Ferenczi, um dos mais íntimos colaboradores da psicanálise.

Ambientes hostis, até repressivos das organizações geram, de formas similares, reações, agressividades e outros comportamentos que não seriam aparentes individualmente. Falamos de um mercado que só exalta os fortes, onde não se pode ter medo, dúvida, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano.

O teatro das coletividades sempre nos faz reagir de forma melhor aceita ou adaptável ao grupo que estamos naquele momento e expõe nossas facetas do ego que já citei no post “O lado B”. Nunca eu sou 100% da mesma forma e em todos os ambientes, seria impraticável. O que para mim mostra a ineficácia das dinâmicas de grupo aplicadas em empresas ou instituições. Sempre agimos conforme acreditamos que o outro espera que reajamos ou apenas reagimos para não sermos fundidos com o grupo.

Twitter: @wmaccormick

Normalidade…

29 novembro, 2016 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“De todos os diagnósticos, a normalidade é o diagnóstico mais grave, porque ela é sem esperança”. (Lacan)

A normalidade como um ideal é uma adaptação patológica e sintomática à uma cultura que exige um perfil médio, medíocre.
A normalidade também necessita de tratamento… por isso se faz necessário falar.
Falar para tentar elaborar…
Falar para tentar tomar posse de algo já teu.
Mas que em ti, esse algo causa.

Só o são é capaz de enlouquecer e, por vezes, são até necessárias pequenas loucuras para viver “são”.

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura.” (Nise da Silveira)

Às vezes a loucura mesmo é ter aquela cega convicção de sua própria “normalidade”.

A política e seus sintomas…

23 novembro, 2016 às 15:09  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Algo em nós não deveria se calar para a política.
Mais do que ver política como o sintoma do povo, podemos vê-la como o gozo do povo.

Uma das formas de ver a política é justamente no acolhimento demandas e insatisfações. Se pensarmos a política como a forma de representatividade do desejo de uma coletividade, vemos importantes aspectos sintomáticos sociais. O voto em um discurso é legitimar a própria narrativa como desejo do eleitor, ou seja, parcela importante de uma sociedade.

Bizarro não é um personagem em si, mas sim se dar conta que este personagem torna-se representante de desejos e demandas sociais que mostram sua face.

Sempre que vemos avanços visando a integração européia ou latino-americana surgem, em contrapartida, reações nacionalistas. Parece que veremos cada vez mais fenômenos nacionalistas. Estes apontam param questões complexas de demandas sociais. Ultra-conservadores, nacionalistas, separatistas e segregacionistas ganham cada vez mais voz entre os países da UE e agora nos USA.

Do ponto de vista da perversão, o nacionalismo é a categoria política mais fértil. Onde ancoram ódio e intolerância mascarados no discurso que estabelece no outro, no estrangeiro, um inimigo a ser eliminado, um obstáculo para uma nação… O outro é tido como resto.

Não há maior fator de identificação que o ódio a uma inimigo em comum. Desde a horda é assim…

Freud chamaria de “narcisismo das pequenas diferenças”, ou seja, a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido. Geralmente de forma hostil, violenta ou intolerante. A sistemática tentativa de aniquilação do desejo, do direito e da verdade do outro.
“É da proximidade e não da distância, que nasce o ódio.” (Freud)

O outro é essa fronteira do eu. A questão o que se faz com esse outro, o excluído ou segregado. O vemos como sujeito de seu desejo legítimo ou como resto a ser eliminado?

O discurso de ódio é uma das saídas possíveis de uma cultura repressiva da negação do desejo. O ódio institui um vínculo, um laço tão forte quanto o amor.
Alguns homens lidam melhor com o ódio do que com o amor. Mesmo sendo duas facetas de uma mesma moeda.

Papo de gestão – PUCPR

20 setembro, 2016 às 16:53  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Na última terça-feira, 12 de setembro, gerentes das Escolas que compõem a PUCPR participaram de um bate-papo sobre gestão. O encontro aconteceu na sala lúdica do Laboratório de Comunicação e Artes. O convidado do grupo foi o psicólogo e psicanalista Willian Mac-Cormick Maron, que é também doutorando do programa de Filosofia da Escola de Humanidades. Mac-Cormick lançou recentemente o livro “Do que é feito um líder?” (Editora Juruá).

Na ocasião, o autor discutiu com os gestores das Escolas quais são os novos desafios da liderança frente à ambientes de trabalho complexos e exigentes. Willian é autor do blog Executivos no Divã .

Para o gerente da Escola de Ciências da Vida, Darly Fatuch, a conversa foi muito produtiva: “Revisitar conceitos, reavaliar posturas, rediscutir modelos de gestão e liderança. Ótima iniciativa”, avaliou o gestor. Luiz Andrioli, gerente da Escola de Comunicação e Artes, também aprovou o encontro: “refletir sobre nossos desafios e atitudes enquanto líderes é uma tarefa de grande importância. Lidamos diariamente com pessoas e suas complexidades, por isso é fundamental a troca de experiências neste sentido”, disse.

Clique aqui para ver a matéria.

Tomada de decisões, escolha e invenções de caminhos – CBN Debate

20 setembro, 2016 às 16:33  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Escolher é marcar uma falta, decidir é pontuar uma perda, aceitar uma renúncia.
Algum pagamento é inevitável.
A vida não é um negócio que envolva garantias…

Enquanto não se faz as pazes com a perda, não abre-se espaço para o novo acontecer.

A decisão correta envolve desejo e é aquela a qual se banca uma renúncia. Viver não é um negócio que envolve garantias.

Para quem não ouviu, segue o link com o áudio do debate na CBN Curitiba sobre tomada de decisões, escolha e invenções de caminhos. Por que precisamos tomar decisões e qual o preço a se pagar por elas. A tomada de decisão é uma questão econômica. Sempre há de se pagar pode ela.

Escolher é marcar uma falta, pontuar um perda. Quem decide explicita seu desejo.

Clique aqui!

Lançamento oficial do livro “Do que é feito um líder? Uma leitura Psicanalítica das coletividades e suas identificações”.

26 julho, 2016 às 16:55  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Um dos pontos cegos e problemáticos na teoria da democracia e nas organizações é exatamente o lugar da liderança.
Como a psicanálise freudolacaniana alinhada a conceitos da filosofia política podem nos auxiliar a pensar os fenômenos de liderança e formações coletivas?
É o que debateremos neste dia 05/08, 19h na Livraria da Vila em Curitiba.
Para debater comigo estarão os amigos Daniel Omar Perez (Prof. Dr. Unicamp) Olivier Feron (Prof. Dr. PUCPR/Evora) Allan Martins Mohr (Prof. Ms. Facel)

Clique na imagem para mais informações.
Evento aberto.

CONVITE - DO QUE É FEITO UM LIDER

CBN Debate: Esgotamento e sofrimento das relações de trabalho e a possibilidade de se reinventar.

19 julho, 2016 às 11:04  |  por Willian Mac-Cormick Maron

CBN Debate: Esgotamento e sofrimento das relações de trabalho e a possibilidade de se reinventar.

Para quem não ouviu, confira no link abaixo o áudio do CBN Debate da CBN Curitiba no dia 02 de julho.
Com participação de Daniela Leluddak e Bernt Entschev, a mediação foi de Fábio Buchmann.

Clique aqui para ouvir o áudio do debate.

 

cbndebate0207