Arquivos da categoria: Liderança

Dia da idealização da infância.

12 outubro, 2017 às 17:52  |  por Willian Mac-Cormick Maron

A infância é um ideal de lembrança que tentamos romancear, justamente para ser um passado que não deixamos passar.

Que cuidemos da infância.

A imposição da perfeição (onde não se possibilita uma relação com as falhas e perdas) como o único objetivo válido e esperado para a criação dos filhos massacra, de certa forma, a infância e mascara nossas próprias falhas como cuidadores. Transformar a infância unicamente na idealização do adulto é estabelecer com essa criança uma relação violenta (mesmo com a melhor das intenções) passando a simples mensagem de que não é possível ou aceitável o erro e as limitações. Assim a criança se torna o fiel depositário das expectativas frustradas do adulto.

A criança aparece, na contemporaneidade, também como um ideal do adulto.

Uma entrevista de Jean-Pierre Lebrun registra bem a importância de uma edução não pautada no projeto de perfeição: “Ensinem seus filhos a falhar”.

Vale a leitura.

Viver é esse equilibrar de pratos e de prantos….

10 outubro, 2017 às 15:19  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Um cemitério também está cheio de homeostase.

O que se chama comumente e até mercadologicamente por uma busca desenfreada pelo equilíbrio é uma tendência à volta ao inorgânico. Tal tendência foi pontuada por Freud, em sua metapsicologia, como pulsão de morte. A pulsão de morte nem sempre desemboca na própria morte, mas cria com ela vínculos assindéticos.
O equilíbrio pode ser assintótico ao inorgânico.

O “ponto de equilíbrio” não é um lugar para encontrar e sim uma posição para (se) inventar. O equilíbrio para o humano, como ser social, cultural e um sujeito do inconsciente é uma fantasia (claro, por vezes necessária), mas que pode anestesiar os picos e as quedas da vida. Equilibrado mesmo é poder bancar os ganhos e as perdas da vida.

Gente equilibrada demais é de “morrer”.

O trabalho entre o prazer e o gozo.

6 setembro, 2017 às 08:34  |  por Willian Mac-Cormick Maron
A relação do homem com o trabalho aparece como uma importante resposta possível à uma pergunta social “quem é você?”
O trabalho se mostra como fonte e influência principal do que poderíamos chamar de “identidade do adulto”. O adulto se reconhece a partir de sua relação com o trabalho, o que pressupõe que um dos pensamentos históricos e socialmente constituídos na subjetividade humana atual é a premissa do “sou o que eu faço”. Mas consequentemente tal premissa nos apresenta uma nova problemática de difícil resposta que é: se eu sou o que eu faço, quando eu não faço, quem sou eu?
Tal problemática aparece em forma de mal-estar, sofrimento ou adoecimento assim como situações de crise, desemprego e até naquela melancolia que alguns sentem nas férias. Sim, há muitos que padecem nas férias pois sofrem de uma certa “liberdade” da desvinculação com a identidade organizacional (mesmo que temporária). Alguns pensam “o que eu vou fazer, quando posso fazer qualquer coisa?”
O homem contemporâneo desaprende a inventar desejos e, por pior, se desimplica dos desejos, de bancá-lo quando os constitui.
O trabalho, em sua realização, exige dose de investimento libidinal. O que justifica colocar o trabalho em um campo de ambivalência, de constante mal-estar que possibilita ao homem experienciar sentimentos de realização ou de sofrimento, de sentido ou de adoecimento. O humano pode tanto se realizar como adoecer a partir de suas relações de trabalho.
Assim se faz importante levarmos em consideração possibilidade de pensar o trabalho, a partir de um paradigma Pós industrial que privilegia o capital como norteador de novos conceitos sobre felicidade, sucesso e gozo. As relações de trabalho balizadas pelo capital podem privilegiar o gozo em detrimento ao desejo.
Nos alienamos ao gozo do consumo a partir da perda do prazer e do sentido que as relações de trabalho poderiam nos proporcionar. Assim utilizamos o consumo como moeda de troca em relação ao tempo e produto do meu trabalho que agora pertencem a uma organização.

Dizeres…

24 julho, 2017 às 15:26  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Antes o mal-dito que o não-dito …
Do mal-dito, mesmo que a duras penas, há de se tomar posse,
do não-dito torna-se refém.

Há um preço a se bancar pelo que se diz,
O não-dito é de(s)graça.

 

20139976_1809320739379514_1808376224216431305_n

Talvez eu esteja falando sozinho com a pessoa errada.

12 julho, 2017 às 19:20  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Talvez eu esteja falando sozinho com a pessoa errada.

Talvez todos estejamos.
Talvez no final se descubra que só se fala às paredes mas, que dentre as mesmas, há ouvidos.

Lacan, no inicio dos anos 1970, no Hospital Sainte-Anne, ao articular sua fala aos alunos e à própria estrutura do hospital diz que “a parede (le mur) sempre pode servir de espelho (miroir, ou como Lacan brinca, “muroir”)”.

Quando se fala às paredes, elas nos respondem pelo eco.
As paredes reproduzem um eco de nós mesmos.

Olhem as paredes, olhem os muros.
Sempre há um Outro, cá ou lá.
Cuidado com o que falamos ás paredes, elas têm ouvidos.

Mais sobre a verdade…

12 julho, 2017 às 19:18  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Uma importante herança da filosofia, desde Kant (quiça bem antes com Sócrates e outros, me ajudem os colegas), é justamente poder problematizar o conhecimento tido como verdadeiro e questionar o conceito de uma verdade colocada como absoluta.
O verdadeiro não poderia mais apenas ser visto como algo absoluto, anterior, independente do homem e fora da linguagem.

A ideia multiplicidade das verdades trouxe uma grande problemática (O que não deveria ser necessariamente ruim) filosófica e social.
Se a verdade é plural e não mais única, o que se faz com a verdade do outro que é diferente da minha? Tento acolher, respeitar, vejo como legítima mesmo diferente da minha verdade ou busco a eliminar?
A eliminação sistemática e violenta da verdade do outro (seja ele de outra nação, orientação política e sexual, crença, etnia, Etc.) é dos atos mais primitivos e perversos vistos nas relações humanas. A verdade só é imposta como única e inflexível por se mostrar a partir de sua incapacidade de produção de novos sentidos. Sempre imagino que só a minha verdade é a certa.

O monopólio de sentido elimina o potencial de autonomia do sujeito. “Sou a partir daquela verdade já posta e cristalizada. E se algo coloca em questão a minha verdade?”
Tenta-se eliminar por palavras ou por atos.

Eliminar a verdade do outro é sempre mais cômodo que questionar a minha. A história humana também é uma história de tentativas de dominação e eliminação sistemática do outro por motivos diversos… Ou perversos.
Só a palavra nos possibilita democratizar a produção de sentido. Onde a palavra cai, a hostilidade se faz imperativa.

O absoluto de uma verdade tende à intolerância.

A doença e a instituição…

20 junho, 2017 às 17:05  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Mais do que um problema de natureza patológica, precisamos pensar o crack e outros fenômenos ditos marginais como um sintoma social. É uma questão de saúde pública, de políticas e não de polícias.

Como podemos pensar a questão da doença? Como um conjunto de sintomas que ganham nome próprio… Podemos debater, mas tendo a ver o sintoma como uma resposta problemática a um problema concreto, como já citou Vladimir Safatle. Uma resposta, uma reação a algo que nos causa.

Como seria possível também pensar a loucura como uma espécie de resposta (mais ética e espontânea) a uma questão concreta que pode ser vista da ordem de uma estrutura ou de uma patologia. Resposta essa que busca ser suprimida, castrada, moralizada pela instituição. Onde não se dá voz ao sintoma, o sintoma torna-se tirano e absoluto.

A loucura do louco é mais ética que a loucura do são …. Às vezes a loucura mesmo é ter aquela cega convicção de sua própria “normalidade”.

A naturalização e determinismo de uma doença dessubjetiviza o indivíduo, o emudece, cala a sua história.
O indivíduo busca reagir, tenta não ser tragado pelo estado, pela instituição que o vê como um objeto.

Desde Basaglia, podemos afirmar que a operação que torna o doente um objeto é a mesma que o desistoriza. E quem não mantém a sua história aceita mais facilmente a institucionalização. A institucionalização é a forma mais cômoda de lidar com aquilo que não queremos lidar.
A institucionalização representa, por fim, a própria aniquilação do sujeito.

https://www.facebook.com/patrizia.corsetto.9/videos/vb.100001150648055/1416577425057265/?type=2&theater

Desamparo e a civilização

20 junho, 2017 às 17:03  |  por Willian Mac-Cormick Maron
Desde o texto freudiano “Totem e Tabu” (1913), podemos pensar a morte (simbólica) do pai e a consequente instituição de regras e renúncias pulsionais exigindo, mesmo que minimamente, substituição do ato pela palavra. É um fator originário da civilização, como da neurose.
Enquanto o pai vive, como aquele que tudo pode e nada renúncia, creio eu legitimar que, igualmente, tudo posso. Serve tanto para a neurose como para política.
Que possamos e superemos nossos antecessores…
Constituir-se em identidades coletivas tem função de amenizar nossa posição frente ao desamparo. Cada um se consola da forma que pode.
A afirmação do desamparo (sem um grande pai, líder ou messias) como estrutural, possibilita uma maior e plural produção de sentido.
Enquanto isso não acontece, esperamos uma providência divina, uma solução que caia do céu.

Identificação e o ódio…

29 maio, 2017 às 16:54  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Pouca coisa gera tanta identificação quanto inimigos ou dores em comum. O ódio mantém laços tanto quanto o amor.
O ódio, não como um antônimo do amor, mas como uma outra polaridade, dotada de uma intenso investimento libidinal. São faces de uma mesma moeda.
Não se odeia qualquer um, como não se ama qualquer um.

Nosso objeto de ódio diz muito mais sobre nós, do que sobre o próprio objeto.
Assim como a legitimação de um tipo de liderança diz muito mais sobre a coletividade do que sobre o próprio líder.

A identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto. A identificação em Freud se dá em relação e em posição a um outro como um modelo, um objeto, um auxiliar ou um oponente.
Mas quem és tu? “Eu sou” … “Sou o que sou”, já diziam os escritos bíblicos reforçados pela lógica cartesiana A é A.

Mas, para ser o que sou, preciso ser o que todos os outros não o são, é o que defende Lacan em seu nono seminário, ser pura diferença. A lógica da identificação pressupõe, invariavelmente, uma relação de diferença, de exclusão que é originária da formação das identidades. Só posso me identificar com o que não é idêntico a mim. Assim o Eu torna-se resposta radical ao Tu.
É a lógica da identificação que nos permite criar vínculos sociais, legitimar lideranças e mergulhar em relações amorosas.

“A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

29 maio, 2017 às 16:48  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Já em mãos.

“Filosofia, Religião e Psicanálise” dos organizadores Allan Martins Mohr e Fabiano Mello com meu capítulo intitulado “A função do líder e das coletividades face ao desamparo”.

“O objetivo deste trabalho é revisitar o trajeto de Sigmund Freud sobre o líder para destacar a importância do líder para o processo de iden cações coletivas, assim como pensar a formação das coletividades como possíveis a par r de renúncias pulsionais , identificações coletivas e respostas ao desamparo259. Neste processo o líder se encontra no cerne destas questões sociais e políticas como um lugar de identificação e exclusão. Portanto podemos pensar que em Freud, as identificações coletivas e estruturas sociais se dariam em torno de um afeto principal e em relação à uma figura onipotente e de destaque: o Pai da horda em Freud denotaria nitidamente uma teoria teológica para sustentar as formações coletivas, estruturas sociais e figuras de liderança. ”

 

apresentação livro