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Os tempos continuam difíceis para os sonhadores

24 abril, 2015 às 14:59  |  por Hellen Albuquerque
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“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

Em uma Paris romântica e colorida, Jean-Pierre Jeunet cria uma atmosfera alternativa a tudo que não for sonho. “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” completa 14 anos de existência e provocação de suspiros no dia 25 deste mês, e como não temos ossos de vidro podemos aproveitar uma pequena viagem no tempo, em que a porta é o guarda roupas.

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Amélie Poulain descobre e transpassa as pequenas alegrias, como sentir texturas com as mãos, as expressões de desconhecidos no cinema, o reencontro com memórias de infância… Talvez por tanta singeleza faltam-lhe acessórios, não há brincos, grandes colares ou qualquer barangandã, com uma maquiagem leve o que mais chama atenção são os grandes olhos escuros de Audrey Tautou. O rosto ganha mais desenho com o cabelo curtíssimo que é marca da personagem, a franja curtíssima era um clássico dos anos 1920 que depois retornou a França durante a Nouvelle Vague.

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Madeline Fontaine e Emma Lebail são quem assina o figurino, que transmite em Amélie suas principais características: a simplicidade e uma ligação com o passado, peças comuns compostas por vestidinhos, estampas românticas se unem a muitos cardigãs. Seu ar ingênuo e feminino é reafirmado pelas saias com volume, e comprimentos próximos dos joelhos.

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A tabela cromática tem a influência do artista brasileiro Juarez Machado, e faz referência ao impressionismo de Vincent van Gogh. As cores principais são o vermelho, dos morangos, dos vestidos, lábios e em momentos de vulnerabilidade emocional; o verde é mais impessoal, aparece também nas perdas e pequenas vinganças (como quando Amélie ainda criança se vinga do vizinho atrapalhando a transmissão do jogo na televisão); o amarelo fica fortemente ligado às mortes, de Lady Di, da mãe e ao imaginar a sua própria; já o azul é positivo e aparece durante os amores e junto de Nino, seu par romântico.

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Cores usadas de forma vivaz trazem a intensidade que pequenas experiências cotidianas têm em Amelie. Tantos anos depois, Tautou já se tornou Chanel e muitas outras mais, embora os tempos ainda sejam difíceis para os sonhadores, um romance francês sempre ajuda a passar o tempo – e a sonhar um pouquinho mais.  

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Coluna Indumentária: O rosa ainda é shocking

12 fevereiro, 2015 às 19:45  |  por Hellen Albuquerque

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Fevereiro é um mês aquariano, de Carnaval e de clássicos cinematográficos dos anos 1980. A Garota de Rosa Shocking, Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões… Todos filmes com envolvimento de John Hughes, seja como diretor, produtor ou roteirista lançados nesse mês há mais de 30 anos. Em comum? A estética over da década mais colorida na história.

O Muro de Berlim estava para cair quando a era industrial dá lugar pela busca da informação. E quanta informação! Cores vibrantes, batom 24 horas e Madonna tocando no walkman. O rosto da garota comum é Molly Ringwald, estrela dos filmes de Hughes, ela incorporou o vestido rosa e fez passos de dança divertidos na biblioteca. Foi a menina mimada do clube, mas também a filha de um alcoólatra. As sobreposições de vestidos floridos com camisetas por baixo chamavam tanta atenção quanto o cabelo curtíssimo e ruivo.

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No Brasil, a democracia tem sua abertura com a quebra do regime militar, talvez por isso as roupas transmitem energia, sexualidade, diversão. Desejos reprimidos às pauladas nos anos anteriores. Tudo é uma explosão. O tênis All Star ganha os pés jovens e com estilo. A cintura fica alta enquanto os ombros são bufantes ou quadrados por conta das ombreiras, cabelos com volume, gel ou topetes.

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A busca por uma vida mais saudável trazia as peças de academia para as ruas. Muita lycra, polainas e collants. Isso mesmo! Essa febre de roupas esportivas não é de agora – e sim mais uma releitura. Outra peça oitentista que está “de volta no futuro” são os croppeds. Os tops curtos, mostrando uma barriga malhada acima do jeans rasgado, compunham o visual das moças mais rockeiras.

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Suspensórios coloridos, gravatas e tailleurs identificavam os yuppies (young urban professionals/ jovens profissionais urbanos), que queriam seu primeiro milhão antes dos 30 anos, o que contradizia a economia da época analisada hoje como estagnada. Os dilemas que Molly representava não eram dos mais distantes, impactantes como os anos 1980 – quando se jogava brilhantina onde antes era algema. A busca era pelo encaixe: seja nas composições inusitadas, numa identidade própria, num grupo que nos aceite, na melissa perfeita, no mercado de trabalho. E ainda não tentamos montar esse quebra cabeça? Que como os croppeds, as sandálias de plástico e o estilo esportivo, fevereiro seja colorido. 

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Como trilha sonora “If You Leave” do grupo Orchestral Manoeuvres in the Dark,  que dá embalo à cena final de A Garota de Rosa Shocking e alcançou a posição #4 na Billboard Hot 100.

E mais para se inspirar…

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Organização simplificada: Porta colares

8 fevereiro, 2015 às 16:02  |  por Hellen Albuquerque

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Como fones de ouvido e fofocas, colares se enrolam de uma forma que já não se sabe onde começa, onde termina e pra que lado sua dignidade foi parar. Quando se tem três minutos para sair de casa e você ainda não está pronta – história da minha vida – as coisas ficam bem inconvenientes.

Eu não sou dos trabalhos manuais, deixo isso para minha mãe que é artesã e pros blogs de DIY, no entanto, sou uma controladora de primeira mão e adoro organização. Metódica? Meu nome do meio. Foi com um pouco de pesquisa e criatividade que encontrei a alternativa de Porta Colares com… Bem, com um porta – retratos!

É tão fácil que até eu consegui fazer. Então vou deixar a dica para as moças  e moços que tem muitos colares e pouca paciência, assim como eu.

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O primeiro material é logicamente um porta retratos. Eu paguei R$14,00 (sim, apenas 14 dilmas) nessa moldura em uma molduraria perto da Biblioteca Pública de Curitiba. Ela vinha sem vidro, por isso tão baratinha e ideal para o que eu tinha em mente. Aqui o importante é que ela seja espessa, para poder suportar ganchinhos onde serão pendurados seus belíssimos adornos.

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Logo que eu comecei a ajeitar tudo a Miúcha (igual a irmã do Chico, sim <3 ) veio conferir o que estava acontecendo. Acrescente uma dose de fofura na sua lista de materiais.

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Você também vai precisar de um martelo, um prego para abrir furinhos, e a quantidade de ganchos que achar necessária e couber na sua moldura. Eu usei cinco ganchos, você pode encontrá-los em lojas de construção, custam poucos centavos – tipo uns R$0,25.

Separe também uma régua para medir uma distância exata entre um furo e outro, além de uma caneta para fazer a marcação. A minha moldura é do tamanho 30×40 centímetros, então fiz cinco furos. Não se esqueça de deixa um espaço nas laterais, para que os colares das pontas não fiquem tão grudados na moldura.

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Depois das marcações, você pode fazer furinhos não muito profundos com o prego. Dessa forma ao colocar os ganchos, que vão entrando na madeira conforme você os rotaciona, não haverá tanta resistência.

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Depois do furinho é só encaixar o gancho e ir girando para que ele entre na madeira. Confira se ele ficou firme e fixado para não cair tudo depois! haha É importante tentar centralizar o furo, não os fazendo tão nas bordas, pois isso faria com que a madeira se desgaste mais rápido com o peso.

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E voilà!

Só pendurar na parede. Como eu adoro quadros, fui colocando outros em volta para decorar e ficou bem bacana!

Eu separei ainda por metais: dourados, prateados, bronze ou coloridos. Eu tenho problemas, eu sei.

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Espero que dê tudo certo por aí como aqui!

;)

Não tenho costume desse tipo de post – basicamente por falta de habilidade – mas na busca pela organização perfeita, talvez surjam mais soluções…

Dúvidas? Conta pra mim!

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Coluna Indumentária: O que é que baiana usa?

6 fevereiro, 2015 às 10:55  |  por Hellen Albuquerque
Salvador (BA). Foto: Bento Viana *** Local Caption *** * Prazo indeterminado

 

A maior festa popular brasileira já esquenta as cuícas do país. Enquanto o instrumento apelidado como rugido de leão chegou ao Brasil nas mãos dos escravos africanos, o Carnaval tem o tom colonizador dos portugueses. O importante, é não perder o ritmo. Desde a tradicional “Oh, Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, quem mais roda nos desfiles são as baianas, aqui em ritmo de samba.

Antes de ser ala, Baiana é indumentária.

O nome condiz com o traje específico das negras da Bahia, e surgiu durante o período colonial. Também chamado de traje de crioula, a roupa da baiana vem dos escravos e suas misturas étnicas. O conjunto era formado por saia e blusa, característicos das negras que trabalhavam tendo uma vida ativa na cidade, diferente das senhoras burguesas que usavam vestidos e se restringiam às suas casas. Esse visual deu às escravas o apelido de “mulher de saia”, se tornando um símbolo.

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É das ruas da Bahia, dos terreiros de umbanda e candomblé que surge o traje da baiana. A vestimenta típica forma-se de saia rodada, bata solta, o Pano da Costa – um xale colocado sobre os ombros que ganhou esse nome por ter origem na Costa do Marfin –, chinelas ou sapatos de salto baixo. Os turbantes, também nomeados como ojás, são marca da descendência dos negros da parte muçulmana da África, as tiras de tecido enrolados na cabeça eram exigência para as mulheres, que precisavam cobrir os cabelos. Já dentro das casas de candomblé, o turbante é usado pelas Ialorixás, sacerdotisas e chefes, e demonstram sua hierarquia e importância em tal cultura.

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E o que não pode faltar? Os balangandãs! Balangandã é o ornamento ou amuleto, de vários formatos como fruta, figa, medalha, dente de animal, pendente de argola, broche ou pulseira de prata. Eram criados pelos primeiros artesãos negros do Brasil, e tem seu papel nas festividades religiosas. O nome é uma onomatopeia, reproduzindo o som que os objetos pendurados em uma argola emitem quando movimentados. As vestes das baianas ganharam o imaginário nacional quando diversas cantoras de cassinos inspiraram-se e levaram aos palcos a composição típica. Carmen Miranda se vestiria de baiana em 1938, ao estrelar “Banana da Terra”. A criação de suas roupas seguia as recomendações da música de Dorival Caymmi:

Carmen MIranda in THE GANG'S ALL HERE (1943), directed by Busby Berkeley.

O que é que a baiana tem?

Tem torço de seda, tem!

Tem brincos de ouro, tem!

Corrente de ouro, tem!

Tem pano-da-costa, tem!Tem bata rendada, tem!

Pulseira de ouro, tem!Tem saia engomada, tem!

Sandália enfeitada, tem!

Tem graça como ninguém

Como ela requebra bem!

O que é que baiana tem? Uma cultura centenária, uma religião forte, saia rodada e muita história pra contar.

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O que os blogueiros no Camboja podem mudar no nosso dia a dia

27 janeiro, 2015 às 10:40  |  por Hellen Albuquerque

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Como a grande maioria de denúncias sobre o mundo da moda, ontem a série Sweatshop- Dead Cheap Fashion, que leva três blogueiros noruegueses para conhecer as condições de trabalho da indústria têxtil no Camboja, ganhou as timelines das redes. Foi depois de receber algumas mensagens inbox (agradeço aos amigos pela lembrança :) ) que resolvi me dedicar a tarefa de saber sobre o que se tratava.

Sweatshop é um termo sem definição exata no português, mas que diz respeito a fábricas, especificamente da indústria têxtil, em que trabalhadores manuais são empregados a valores absurdamente baixos.

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A ideia do documentário é simples e corajosa. O jovem diretor Joakim Kleven, de apenas 22 anos, convidou Frida, Ludvig e Anniken para passar alguns dias visitando fábricas e entrando em contato com a realidade dos trabalhadores do Camboja. Passado o sabor da novidade e descoberta, veio o esperado choque. Extensas jornadas de trabalho para um salário de U$100,00 por mês, alimentos escassos, moradias em péssimo estado…

E no fim, lágrimas (foi o meu caso também).

São cinco episódios com legendas em inglês ou espanhol, você pode assistir aqui. Antes que essa comoção chegue ao fim, podemos nos colocar na posição de não meros observadores, mas críticos da experiência de Frida, Ludvig e Anniken.

1. A moda tem várias facetas

Nem todas são simpáticas.

Gostamos de falar sobre como a moda é uma forma de arte, como expressa nossos sentimentos, constrói nossa identidade, nos torna únicos. Sim, a moda é todas essas coisas, no entanto, acima de tudo é um reflexo de nossa cultura. Inserida em sistema capitalista se torna uma indústria e um bem de consumo, e talvez essa seja a face mais dúbia. Enquanto gera milhares de empregos e é responsável por uma larga fatia da economia, há também sua corrida pelo mais rápido e mais barato.  Grandes redes de fast fashion lançam novidades a cada semana, incentivando um consumo desenfreado que tem como único objetivo possuir o novo, mesmo que não seja necessário.

Para isso, é preciso de mão de obra a valores baixos. Barateando os custos de produção, para que na próxima semana você possa comprar o kimono super trend com uma estampa diferente da do mês passado, e para que claro, sua compra gere lucro. E é aqui que entram suas aulas de história, o conceito de Mais Valia de Karl Marx define uma matemática simples dos custeios da força de trabalho e do produto final.

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Para que haja lucro a mão de obra recebe um valor bem abaixo do merecido, pois a maior parte vai para aqueles que concentram os meios de produção. Em resumo, a galera de Camboja ganha mal, porque alguém ganha bem. E essa é a máxima do capitalismo. Bonito, né?!

2. É fácil viver em uma redoma de vidro

Do aconchego de nossas poltronas e telas touchscreen lemos sobre atrocidades todos os dias. Esse distanciamento de mero espectador transforma situações em apenas termos. “Trabalho escravo”. “Morrer de fome”. “Miséria”. Palavras repetidas tantas vezes que parecem não mais ter sentido. Fica mais fácil assim…

Da mesma forma que leite não vem de caixinha, roupas não brotam em araras de shopping.

Há uma cadeia de produção, nem sempre justa, cada vez que você compra uma blusinha da China ou uma jaqueta na Zara. E abrindo espaço para humor negro, uma frase que sempre repito aos meus amigos: o mesmo trabalho escravo que produz a roupa de grife, costura as camisetas do lojão de R$10,00 perto da sua casa.

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Frida, Ludvig e Anniken visitaram Sokty, uma moça de 25 anos que trabalha todos os dias cerca de 12 horas em uma fábrica têxtil. O que mais surpreendeu foi a blogueira Frida fazer uma pergunta simples em meio ao jantar à residente:

-Você é feliz?

E aqui entra a minha grande agonia. Mas antes, que resposta você espera?

Se for um grande “sim”, foi de encontro as mesmas expectativas dos aventureiros. Que em meio ao caos, a pobreza, a falta de oportunidades, de alimento, e do que mais dói: a falta de sonhos, ainda fosse possível encontrar a dita felicidade. Pois ela está nas coisas simples, não? Ela está no desapego, no amor e nos amigos.

Bem, a resposta foi não. Sokty não está feliz.
E como poderia?

A anedota de que pobres são mais felizes é uma dose que conforto que nós, afortunados, contamos a nós mesmos. Tentamos diminuir a culpa, tentamos justificar o nosso virar dos olhos cada vez que encontramos um mendigo a pedir esmola com um “ele é feliz assim”.

Bem, nem sempre ele é.

3. Não existem opções

Anniken, a norueguesa mais jovem dos três e talvez por isso a mais  alienada  ingênua, quando na fábrica de costura justificou seu cansaço e falta de habilidade dizendo: “Eles estão acostumados. Fazem isso todos os dias. Existem trabalhos piores”.

Falando mais uma vez sobre nosso sistema, o slogan principal é de que existem oportunidades para todos. Que se você se esforçar o bastante, conseguirá vencer na vida, que tudo é baseado por meritocracia e estímulo próprio. Não é bem assim.

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Quando a própria Anniken se inseriu mais profundamente na realidade dos trabalhadores do Camboja, pode entender que nenhum deles gostaria de estar ali. Sokty, que os recebeu em sua casa, sonhava em ser médica. Outros vários trabalhadores que não revelaram suas identidades por segurança gostariam de ter estudado, porém a realidade é outra.

Na cena da imagem acima em que a blogueira entra em crise de choro, ela está escutando a história de uma trabalhadora que perdeu a mãe quando criança. Anniken perguntou como ela havia morrido. A resposta foi: de fome.

4. Temos a memória curta

Curtíssima!

Digite no Google: trabalho escravo moda. Aparece Renner, C&A, Zara, Pernambucanas e por aí vai…

Mas nós esquecemos, ou depois de alguns segundos expostos a realidades, pegamos nossas reclamações e voltamos para o twitter. No conforto das nossas redomas de vidro.

5. A responsabilidade é de todos

“A indústria da moda mata de fome seus trabalhadores e ninguém se coloca como responsável”, disse Ludvig ao fim do último episódio.

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Grande verdade. Mas afinal, quem são os responsáveis?

A indústria? Sim. As marcas? Com certeza. As autoridades do Camboja por permitirem essas condições de trabalho? Absolutamente.

Mas a responsabilidade também é minha e sua.

Ludvig decidiu carregar no corpo seu aprendizado, tatuando o protesto feito em Camboja para a mudança do salário mínimo de U$100,00 para U$160,00. Que para nós pode parecer pouco, mas para quem ganha 6 reais por dia de trabalho, é muito.

E agora?

Nas aulas de redação aprendi que é preciso indicar soluções aos problemas apresentados no texto. E acontece que sou uma daquelas idealistas irritantes, que insistem em dizer que são pequenos atos que transformam o mundo. Se não o mundo todo, ao menos o em que vivemos.

Nós estamos longe do Camboja.
Mas estamos rodeados de shoppings, de marcas, de grifes.

Consciência é tomar conhecimento, sobre si ou sobre o mundo.

Com esse documentário, ficamos conscientes de tais condições. Pois bem, estenda para o sua realidade e para o seu consumo: você pode comprar apenas o que precisa. Você pode pesquisar de onde veio sua roupa – não é difícil, tem até o aplicativo Moda Livre, que monitora marcas e de onde vem suas produções. Invista em peças de produtores locais. Se mantenha pensando e questionando os meios de produção. Não esqueça!

Quer fazer mais? Há diversos programas de voluntariado para a Ásia, o Orienting é um bem bacana.

Na próxima vez que se dirigir a uma arara, se faça consciente.

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Coluna Indumentária: Boudoir – Em partes

23 janeiro, 2015 às 09:02  |  por Hellen Albuquerque

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Sou coxas, cintura, braços lânguidos, grandes olhos castanhos, três tatuagens e gargalhadas.

Me reconheço como mulher, o que nada tem a ver com tal corpo, e sim minha identidade.

Ao vestir, por vezes me escondo. Não por segredo, tampouco mistério, mas existem linhas e traços que revelam além do que eu poderia lhe contar.

Ao despir, me aceito.

Entendo como parte cada forma, mesmo disforme, que me compõe.

Inspiro quem sou para expirar libido.

E saiba, tentaram deslegitimar meu desejo. Tentaram me enquadrar em padrões. As legalidades tentam ater o livre arbítrio das minhas partes.

Tentaram e ainda tentam. Em vão.

O concílio das minhas frações tem limites validados apenas por mim. E estes limites não existem.

Abro mão dos perímetros, das numerações, do que alegam como certo, do que elegem como perfeito, para ser um turbilhão de vontades que caminha sob este enquadramento feminino nascido nos anos 90.

Dos meus feitos e defeitos sou completa. Mesmo feita em partes.

E como anseio final, que meu retrato não seja esvaecido pelos seus pudores.

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Veja a publicação completa:


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Um pouco dos nossos bastidores no vídeo da ColdSpring Audiovisual. Assista em HD ;)

(Reparem que por volta dos 2m50seg estão todos rindo e desesperados porque nos trancamos para fora do quarto! hahaha A salvadora da pátria e da nossa dignidade foi a Bruna, que buscou uma chave extra).

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Dos quartos de vestir na Corte Francesa nasce a palavra Boudoir. O espaço onde as mulheres soltavam-se de seus espartilhos – quem sabe dos conservadorismos – era reservado, separado de seu quarto e de composturas. Na fotografia, o estilo do Boudoir busca a sensualidade natural, intrínseca a cada mulher. Uma forma de registro que celebra o corpo e a aceitação do mesmo.A amiga e sempre parceira Vanessa Leal, se especializa no ramo por se comprometer com o empoderamento e auto estima das mulheres, usando como ferramenta sua câmera, além de sensibilidade.

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Com beleza de Bruna Daniel, fomos a um aconchegante quarto de hotel para produzir um ensaio delicado.

ColdSpring Audiovisual

A ColdSpring é formada por um grupo de amigos queridos, especializados em toda a parte de filmagem e fotografia de eventos​, ensaios fotográficos e videográficos​, filmes corporativos, vídeos comerciais, videoclipes para músicos e foto e vídeo de produtos​ e serviços. Jean Bris foi responsável por filmar e editar o making of do ensaio. Para contata-los: (41) 3018-1994 – (41) 9796-2659, o escritório fica naAv. Luiz Xavier, 68 – Centro – 9º andar – Sala 910.

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É sempre uma delícia criar essas produções. Agradeço imensamente essa equipe jovem e talentosa, cheia de energia e sensibilidade <3

Tem ideias de produções pra gente? Sugestões?

Converse conosco nos comentários ou por e-mail: indumentaria@bemparana.com.br

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Coluna Indumentária: Remendando História

19 janeiro, 2015 às 17:14  |  por Hellen Albuquerque

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Ei… Me prega um botão?

Encurta essa barra. Abre o decote, descostura. Ajusta a cintura. Diminui a manga. Vestido? Só se for sobre medida. Ficou apertado, faz uma emenda.

Na dança do cerzir, como diziam, ou para os desavisados – piás de prédio – costurar, além da habilidade ágil de uma boa costureira há o instrumento que revolucionou as roupas e nos permite hoje andar fazendo remendas: a agulha.

Se acalme, não precisamos encontra-la em um palheiro, apenas na história.

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Quando o abrigo era de pedra, dentro de uma nem tão aconchegante caverna, era da pele de animais selvagens, antes fontes de alimento, se faziam os primeiros trajes. A necessidade inicial da vestimenta era a temperatura. Muito antes de existir o pudor que condena as saias curtas, existia frio e calor. Daí a iniciativa de se enrolar em peles alheias. Mas enrolar não é melhor medida, precisa de um ajuste.

Uma grande criação tecnológica, passada despercebida pelos nerds desatentos, tornou possível unir um retalho a outro. É na costura feita à mão que pode se juntar duas partes de um tecido, pano, couro, casca, ou outros materiais, utilizando agulha e linha. As primeiras agulhas de costura tinham como matéria prima ossos e chifres de animal, fabricadas há mais de 30 mil anos.

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As primeiras feitas de ferro vêm de Manching, na Alemanha, são do terceiro século antes de Cristo. Na China, arqueólogos encontraram na tumba de um oficial menor da Dinastia Han (202AC- 220DC) um jogo completo de costura com dedal. Seria o exemplar mais antigo desse artifício, um suporte para empurrar agulhas rústicas através de material resistente, como o couro.

Unindo uma coisa à outra, a agulha uniu pequenas partes para formar uma completa. A tecelagem, que é o entrelaçamento de fios formador dos tecidos, surge cinco mil anos atrás. Das grandes revoluções da moda e lançamentos de tendência, nada supera a ferramenta que perfura superfícies.

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Como agulha une tramas, no emendo de palavras vou te contando essas histórias toda semana.

Como está seu acabamento?

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Documentário: A experiência da tattoo com Brenda Cerutti

14 janeiro, 2015 às 11:04  |  por Hellen Albuquerque

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Da primeira vez entrando em um estúdio de tatuagem e reconhecer o inigualável som das agulhas ao se tornar aquela que registra inúmeras pessoas diariamente. Brenda Cerutti carrega no corpo e na profissão o amor pela tattoo. Residente do Old House Tattoo Studio, também viaja pelo sul e sudeste do país marcando a pele de forma única. Assim como não existem personalidades iguais, não existem desenhos.

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Foi ao som de um mantra budista, com incenso aceso dando aroma suave e austeridade ao ar, além de muitas risadas e uma longa conversa sobre como aprender a controlar a própria mente que tatuei um colibri no braço esquerdo – sinceramente, esse é único lugar pra se fazer tatuagem com sorriso no rosto. Com cores elétricas e um pouco de sangue, gravamos tal cena em vídeo para depois complementarmos com a opinião e conselhos de mestre que Brenda tem a sensibilidade de transpor em palavras.

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A experiência de ter o corpo desenhado à tinta pela primeira vez, as dúvidas, a relação da tatuagem com arte e ainda conselhos aos que um dia sonham em ser tatuados ou tatuadores em alguns minutos de um documentário feito com muito carinho pela ColdSpring Audiovisual, com direção geral provinda da que vos escreve, direção de fotografia por Jean Bris, filmagem por Bruna Cochhann e assistência de produção por Giuliana Nascimento.

Assista em HD ;)

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Ingressos para o Miss Paraná Plus Size

8 janeiro, 2015 às 14:38  |  por Hellen Albuquerque

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O concurso que irá eleger a nova representante de beleza plus size do Paraná acontece neste sábado, dia 10, no teatro Regina Vogue às 20h30min.

Os ingressos já estão a venda por R$30,00 no site.

Como parceiros do evento, o Blog Indumentária estará lá prestigiando as meninas, que são lindíssimas, dê uma espiada:

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Já tem uma favorita?
Não deixe de ir torcer por ela.

Nos vemos lá!

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Coluna Indumentária: Para vestir o interior

25 novembro, 2014 às 13:38  |  por Hellen Albuquerque

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Os Beatles acabam com uma bala, já no Brasil os tiros cessam com o fim da Ditadura Militar. O Muro de Berlim cai, enquanto A-ha e Duran Dura marcam a trilha sonora. “Estamos falando dos anos 1980, mas é preciso lembrar que estamos em Mandaguari”, ela me interrompe.

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Município do interior norte do Paraná, assim como acontece com a capital, a origem do seu nome é indígena. Mandaguari é como os índios chamavam uma abelha, Curitiba é como indicavam a grande quantidade de pinhão. Grande parte das histórias se passa em uma única rua, que é também o centro. A Avenida Amazonas liga uma ponta da cidade a outra, é por onde se entra, se sai e se vive. É onde também nasce o vestido.

No único ateliê da cidade, Maria Augusta unia cetim, renda e tafetá para montar as alegorias do casamento há 55 anos atrás.

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“A Maria Augusta era uma mulher forte e muito, muito inteligente, pois antes mesmo de começar a vender vestidos de noiva, já havia feito o dela e das irmãs”, conta Adriana. Quando já não mais respirava, por isso também não tecia, foram as noras que assumiram o posto. Adriana e Leila mantém o mesmo local na Avenida atualmente, com diferentes vestidos e noivas. Acho que elas nunca viram o vestido.

Como todo interior, seja do mundo ou da gente, existem os caminhos e formas a serem traçados. Como manda a tradição, o casamento no papel acontece pela manhã, seguida por uma cerimônia durante a tarde. “Acredito que seja melhor que cidade grande, afinal somos mais conservadores, então o casamento tradicional aqui existe em maior proporção”, Leila ainda se satisfaz por proporcionar esta alegria para as noivas.

Talvez seja a pequenez da cidade que nos faça ficar mais próximos. “As pessoas são mais generosas lá, tem mais carinho, elas demonstram amor”, ela me afirmou bem pensativa, como quem viaja por contos. O casamento pode ser entidade falida em todas as partes do mundo, mas não ali. “Um casamento atrás do outro”, disse alguém sobre a frequência. Em todos esses, existem vestido. No fluxo intenso, um em especial. Mas tem mesmo que casar?

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Ela me disse que não. “Essas coisas são uma escolha, né?! Eu mesma não queria casar. Casei tarde pra época, com 25 anos”. O primeiro casamento que assistiu foi aos 11, era a união de sua irmã mais velha. Nunca nem tinha presenciado, quanto mais sonhado, no que usaria quando o dia dela chegasse.

Não era branco, como de costume, mas pérola. Tinha as mangas bufantes, como se o volume anunciasse o peso que carrega nos ombros. Guardava o colo e pescoço com renda, para depois se abrir na cintura com uma saia rodada. Lhe faltava véu ou qualquer coisa que arrastasse pelo chão. “Nunca gostei de nada arrastando”. Já existe muita coisa difícil pra querer mais uma te prendendo.

Deixava os pés livres, pedindo por caminhadas longas que iam além de um altar, e os tornozelos ficavam a mostra.  “Isso era muito diferente pro pessoal”, ela dá risada. “Mas eu gostava de coisas diferentes”.

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Foi criado a mão porque precisava ser pequeno para bem vestir. “Sempre fui muito pequena, procurei por todo canto, em outras cidades, algo que me servisse. Não tinha”, me falou. A inspiração não veio de nenhum ícone pop, embora Madonna trajada de noiva estivesse se sentindo como virgem na época.

Mas lá no interior não havia cinema. Pouco se tinha de informação, referências vinham de revistas guardadas por Maria Augusta. Via-se o que ali estava, eram feitas algumas alterações vindas da criatividade. O vestido ganhou pregas na parte da frente, um pedido tão inusitado quanto seu comprimento.

Era um sábado de novembro e chovia quando ela finalmente o usou. Mas isso já faz tanto tempo, que quase não faz diferença. Muita coisa mudou. “O padre já está caduco”, contou Lautir, mas a igreja ainda está lá.

De alguma forma o vestido veio parar em Curitiba. Sem vestir, mas dentro de caixa. Saiu de um mundo pequeno para outro menor ainda, em algum canto da memória. Talvez fosse muito curto para viver no interior, precisava caminhar. “Mas ele ainda me serve!”, disse Maria Helena orgulhosa. “Não quer tirar uma foto?”. Hoje não, respondi, quem sabe outro dia. Minha mãe trouxe pra cá o vestido e minha vida ainda inexistente veio junto.

É notável que a ousadia só precisa de alguns centímetros. Enquanto em Mandaguari isso significa uma barra mais curta, talvez em Curitiba seja exatamente o véu e grinalda.

Agradecimento especial à minha família que se movimentou lá do norte para que a história fosse contada aqui na capital, obrigada Madrinha e prima <3

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