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Se eles não amarem não vão cuidar!

29 agosto, 2016 às 16:39  |  por Rafaelle Mendes

No dia 4 de julho, eu publiquei o texto “Tire seu filho da caixa”. E, ao fim dele lancei o seguinte desafio:

 “(…) E pra mostrar que é possível fazer isso lanço aqui o desafio. Durante 30 dias eu e meu pequeno vamos mostrar que dá sim pra aumentar o contato com a natureza de forma lúdica e feliz! Quem quiser pode acompanhar pelo insta: @rafafamendes e participar da brincadeira com a hastag #contatoverde.  Valendo! (Quando acabar volto aqui pra contar o que aconteceu!!! )”.

Pois bem – passaram-se exatos 55 dias desde então – como prometido eu vim aqui pra contar o resultado:

Dia 1 – plantamos feijão, linhaça e alpiste em copinhos. (Noah, que nunca tinha feito isso, achou interessante e duvidou que as sementes fossem mesmo crescer só com água) 

Dia 2 – Colhemos diferentes folhas e expliquei para que elas serviam, se eram comestíveis, etc. (Ele aprendeu a falar trapoeiraba, uma panc abundante no nosso quintal)

Dia 3 – Dia de observar as plantas dos copinhos (pra nossa surpresa as sementes de linhaça brotaram por primeiro! ) e também foi dia de desenhar plantinhas, e as eleitas foram o trio de suculentas que enfeitam a soleira da janela!

Dia 4 – Juntamos pedrinhas e ficamos conversando sobre de onde vem as pedras, o que dá pra fazer com pedras e pensem em alguém entretido por um bom tempo até conseguir fazer uma torre com elas. :)

Dia 5 – Participamos de uma Roda de Conversa sobre Permacultura e Veganismo. Não, não sou vegana mas, sou permacultora – não sabe o que significa isso? Exercite a curiosidade!Dê um “google” e descubra o que é =) 

Dia 6 – foi de curtir no parque. E a história das pedrinhas rendeu tanto que temos um novo colecionador!

Dia 7 – foi dia de observar nossos bebês no copinho! Feijão tá devagar, o alpiste começou a brotar e a linhaça, minha gente, tá linda! <3

Essa interação estava linda, e eu achava que tudo ia bem e que 30 dias seria moleza. =)

Porém, esse foi o último dia em que consegui fazer o que havia me proposto. E me assustei, entristeci e refleti porque NÃO CONSEGUI CHEGAR NEM NA METADE DELE. (Confesso, nunca um fracasso me fez pensar tanto quanto esse).

Isso me acendeu uma imensa luz vermelha, e vou explicar por quê. Eu cresci indo todo fim de semana pro sítio, depois fui morar nele. Fiz parte do movimento escoteiro por 6 anos e fui ensinada a respeitar, amar e cuidar da natureza e com a Permacultura aprendi que também faço parte dela. Hoje eu moro em casa, tenho um lindo – e produtivo – quintal, entre as tantas coisas que faço está um Programa de Educação Ambiental que visa ampliar o contato com a natureza no ambiente escolar por meio da Permacultura, minha família e eu temos muito mais contato com verde que a maioria das pessoas. E eu não consegui desenvolver, por 30 dias, atividades que fizessem meus meninos aumentarem seu contato com a natureza. (Me senti péssima, de verdade!)

Aí, eu penso que:

Se eu, que tenho a vida como descrevi acima, não consegui cumprir o desafio, como fazem as famílias que moram em apartamento? E as que trabalham 40 horas semanais (ou mais)? E as que não tem quintal? E as que não tem acesso por conta de qualquer outra coisa?

E todas essas perguntas me deram um medo, imenso, daqueles de dar frio na espinha, sabem?

Porque a gente só aprende a amar e proteger aquilo que conhece, e se nossas crianças de hoje não tem contato com a natureza não vão aprender a amá-la, muito menos a protegê-la.  E isso compromete em muito, diga-se de passagem, todo o futuro das próximas gerações, entendem?

Precisamos fazer algo para que isso se transforme. E precisamos fazer já!

Não podemos não mudar o mundo!

Até mais.

Eu não recebo Bolsa Família e a falta de empatia com as mães pobres

14 julho, 2016 às 13:40  |  por Rosiane Correia de Freitas

Mãe pobre, mas pode chamar só de mãe

Ser mãe não é fácil. É cansativo, é estressante e é um fator de exclusão social e econômica. Se você é mãe, provavelmente sabe disso tudo, não é? Você sentiu no saldo da conta o quanto é caro ter um bebê. Já deixou de ser chamada pra eventos sociais, ou viu o quanto as pessoas se sentem incomodadas com peito, com fralda, com vômito e outras coisas comuns do dia a dia com uma criança. Já se angustiou quando a criança ficou doente e você teve que ligar para o chefe para avisar que não vai poder trabalhar porque não há quem fique com o bebê.

Apesar de tudo isso você é uma boa mãe. Fez escolhas, abriu mão de muita coisa em nome das crianças e da família. Se tornou uma profissional mais eficiente e mais dedicada e deu conta de tudo. Até mesmo de ir além do esperado, emendando a gravidez com a pós-graduação, as aulas de idiomas e a dedicação a todo tipo de oportunidade ofertada pela empresa.

Nada do que você tem foi dado de mão beijada. Afinal você trabalha muito. Sacrifica o tempo que poderia estar com as crianças para que elas tenham o que precisam. Poderia ser mais fácil se seu emprego pagasse um pouco melhor, se as horas de trabalho não fossem tão longas, se o marido fizesse a parte dele no cuidado com a casa e os filhos, se a vida não fosse tão cara e se você pudesse contar com a ajuda da família.

No entanto, você é guerreira. Sempre foi, não é? Enquanto os outros saiam para festar você estudou, ajudou em casa, trabalhou para pagar o curso de inglês. Toda a sua vida seguiu o script correto. Você estudou, se formou, batalhou aquele emprego bacana. Você nunca foi de esbanjar nada. Desde o primeiro contracheque cuidou direitinho das finanças, separou aquele dinheirinho para comprar um carro e dar de entrada na casa própria.

Quando engravidou, você já estava com uma vida profissional estável, a casa própria garantida, o carro pago e o marido. Porque você nunca, jamais considerou engravidar fora do casamento, né? Desde que começou a transar você foi extremamente cuidadosa com o anticoncepcional e ainda sempre exigiu camisinha, mesmo quando o namorado, marido, ficante insistiram para transar sem “por é muito mais gostoso”.

Não era gostoso, né? Porque você tinha era pavor de engravidar e ser como as outras, aquelas que ficaram para trás com um filho no colo ao invés do diploma na parede. Deusmelivreeguarde de “dar o golpe da barriga”, como tantas outras. Não, você é guerreira. Você não quer nada de ninguém. Tudo que você tem é resultado direto do teu trabalho.

Apesar daquela promoção não ter saído, apesar de você ter se divorciado e do ex-marido não pagar a pensão, apesar da maior parte do teu salário ir para pagar a creche, o médico e as roupas das crianças, você não pede esmola nem usa tua situação para receber arrego de ninguém. Não, você trabalha muito, você não deve nada para ninguém.

Você não é como as outras mães. Aquelas do “golpe da barriga” que vivem da pensão. As que são sustentadas pelos pais. As que recebem Bolsa Família. Não, você não é vagabunda. Você trabalha. Muito.

Pois é, o problema é que não é bem assim, né?

Primeiro porque você sabe que, assim como te julgam sem te conhecer, sem pagar as tuas contas, você não deveria julgar as outras mães. “Ah, mas ela recebe Bolsa Família”. Pois bem, vamos lá. O Bolsa Família é um programa de transferência de renda para pessoas na extrema pobreza e na pobreza. Do ponto de vista econômico, isso significa pessoas com renda mensal por pessoa de até R$ 85 (extrema pobreza) ou até R$ 170,00 (pobreza). R$ 85 reais por pessoa, por mês. Pensa nisso por um momento.

“Ah, mas a minha vida também não é fácil”. Verdade. Mas existe difícil e existe quem vive o mês com R$ 85,00. E não é só isso: quem vive na extrema pobreza, em geral, mora em lugares com menos estrutura, em casas nem sempre adequadas (em termos mais claros: casas com frestas, sem piso, sem coleta de esgoto, sem nenhum tipo de aquecimento e que, quando chove inunda ou tem goteiras), e não tem nenhum tipo de poupança ou bem.

Não entendeu? Bom, vamos traduzir: isso quer dizer que mães pobres não tem carro pra vender nem casa própria e que quando elas ficam sem dinheiro, não existe a quem nem a o que recorrer. Pobre não tem limite do cartão nem cheque especial. Ou seja, quando não tem dinheiro não tem comida, não tem remédio, não tem casa. As pessoas passam fome e elas vão pra rua, porque mesmo os barracos mais insípidos custam dinheiro.

“Ah, mas ela engravidou porque quis”. Bom, pode ser. As pessoas são livres para tomar decisões sobre a própria vida. Mas quando você atribuiu os infortúnios da mãe pobre a decisão dela de engravidar você quer dizer que gente pobre não deveria ter filhos? Ou, indo mais longe, que não deveria transar (porque, sabe, quem transa, mesmo que tomando cuidado, pode sempre engravidar. Como a Tia Maroca dizia, a única forma 100% segura de não engravidar é não transar)?

No passado esse tipo de pensamento era tão, tão forte que existem dezenas de relatos de esterilização de pobres em todo o mundo. Aconteceu no Peru do Fujimori, na Índia e já foi sugerido inúmeras vezes no Brasil (uma delas por um dos filhos do Bolsonaro). (Alerta de correção: a versão original dizia equivocadamente Chile onde está escrito Peru).

O problema é que forçar uma população inteira a não ter filhos é um desrespeito a um princípio constitucional: o de que todos somos iguais. Chato, né? #ironia

Mas já que estamos nesse papo, isso é também corroborar uma cultura que sempre culpa a mulher “por querer engravidar”. Como se ter filhos fosse algo pertencente só as mulheres. Mas não é, né? E isso acontece com todas as mulheres, seja com sua amiga classe média que engravidou na faculdade, seja com a outra amiga que se divorciou depois que os filhos nasceram e o com a mãe pobre.

Ou seja, quando você fala que “não recebe Bolsa Família” tá dando uma baita cusparada na própria cara, né? Porque tá respaldando todas aquelas pessoas que também te culpam por “não ter segurado o marido”, “por ser a ex-mulher louca que quer pensão”, “por não querer trabalhar mais 100h por semana depois que os filhos nasceram”, “porque se largou depois da gravidez”, e sabe-se lá mais que outra culpa as mulheres precisam carregar.

Sim, a sua vida não foi fácil. Olha, mas a de ninguém é. Mas ela podia ser melhor, não? Pra todas nós.

Existe outra razão para você parar de implicar com as políticas públicas de auxílio a famílias pobres: elas não tem como objetivo ajudar os adultos. Elas são pensadas para as crianças. Sim, o Bolsa Família não é para a fulaninha que você acha que deu o “golpe da barriga”. Ele é para o filho da fulaninha que talvez, graças aos R$ 85,00 mensais do programa (sim, R$ 85. Pense nisso) não vá ter desnutrição e coma pelo menos uma refeição por dia.

“Ah, mas não pode dar o peixe, tem que ensinar a pescar”. Bom, crianças pequenas são incríveis, mas elas não sabem pescar e não vão aprender tão cedo. Também fica bem difícil caçar a própria comida desnutrido, né? #ironia.

Sabe, acho que, no fundo, essa crítica insistente de mães contra mães é fruto de algo maior e pior: nós mulheres somos criadas para competir umas com as outras. A gente se mede o tempo todo, né? Eu sou mais bonita que a fulana, sou mais rica, meu marido é melhor. Talvez venha daí a necessidade de dizer que alguém é pior, que não merece nada, nem atenção, nem solidariedade.

O problema é que nós, mães classe média, entendemos as angústias e o sofrimento das mães pobres. E nós temos a voz e o poder político e econômico para ajudá-las. E isso vai nos ajudar também. Nós também queremos creches boas para nossos filhos e que não custem um rim. Nós também queremos uma licença maternidade decente e licença paternidade também, pra que os homens, desde o nascimento do bebê, dividam as tarefas conosco. A gente quer que o mercado de trabalho ofereça condições decentes de trabalho para mães e pais, com possibilidade de carga horária reduzida e trabalho remoto.

Não ser solidária com quem tem filhos e é pobre é reforçar um sistema que explora e agride quem é mais fraco. Mas nada de bom deriva disso. Por que não podemos juntas construir um mundo melhor? Vamos juntas?

Tire seu filho da caixa!

4 julho, 2016 às 14:08  |  por Rafaelle Mendes
Credito da imagem: http://minha-heranca.blogspot.com.br/2015/03/saia-da-caixa.html

Credito da imagem: http://minha-heranca.blogspot.com.br/2015/03/saia-da-caixa.html

Há algum tempo venho acompanhando notícias sobre o distanciamento de crianças da natureza e o mal que isso causa. Há até uma pesquisa sobre o assunto, cujo resultado me espantou: a média de tempo que crianças passam brincando ao ar livre é de 30 minutos por dia.  (Vou deixar os links aqui para quem quiser ler na integra:

http://pequenogourmet.com.br/noticias/criancas-passam-menos-tempo-ao-ar-livre-que-presidiarios/

http://www.bbc.com/portuguese/geral-36592620

https://catraquinha.catracalivre.com.br/geral/defender/indicacao/richard-louv-pediatras-estao-comecando-prescrever-natureza/ )

Em sintese rápida o que diz nos links acima é : As crianças (e porque não inserir aqui os adultos também) passam a maior parte das horas livres em frente a eletrônicos e o resultado disso é o que os estudiosos chamam de “déficit de natureza”.

E o que adultos tem a ver com isso?

Partindo do pressuposto que nós como pais, ou não, queremos um futuro melhor para todas as crianças (sejam nossos filhos ou não), temos que encontrar meios de aproximar os pequenos da natureza! “Ah, mas trabalho a semana inteira não tenho como levá-los ao parque todos os dias”, “Moro em apartamento, não tenho quintal”, “(insira aqui a desculpa que quiser;) ).

Vejam bem, não encarem isso como julgamento, ou como mais uma mãe ecochata ditando regra, rs rs. Vejam esse post como uma oportunidade de só receber em troca coisas boas (ver o encantamento da criança com o crescer de uma planta, encontrar uma atividade que aproxima famílias, observar como esse contato com a natureza traz alegria, e um tanto de outros benefícios, para quem o faz. <3 ).

Pois bem, sim é possível aproximar as crias da natureza sem que sejam precisos grandes esforços para isso. ( Não, eu não considero nenhum dos exemplos abaixo grandes esforços! Grande esforço pode ser ir acampar toda semana ou conhecer todas as montanhas escaláveis da Serra do Mar, por exemplo. E se você está disposto à isso, se joga viu? :)  )

Como? Voilà!

Se você gosta de natureza pode levar seu filho pra caminhar em bosques e parques da cidade (Olha uma lista de parques legais em Curitiba pra ir com as crianças:  http://www.curitiba.pr.gov.br/conteudo/parques-e-bosques-smma/267 ).

Dá pra fazer uma pequena horta em casa (o Google e o youtube tem milhões de projetos de horta para todos os tipos de espaços!!!), vale plantar temperos e ervas medicinais em potinhos também. Pode até se lembrar de quando você era criança e ficou maravilhado (a) com o feijão nascendo no algodão, lembra? Então, fácil né?!

E a escola? Tem área verde? Tem projetos de educação ambiental? Se não, como vocês podem melhorar isso? (Em Curitiba tem gente boa que pode ajudar a escola: https://www.facebook.com/ambientesqueeducam/ e também: https://www.facebook.com/ProgramaSementinha )

E não é só passeando no parque, e ou plantando (em casa ou na escola), que esse contato pode ser maior, viu? Seu filho sabe o nome de frutas, legumes e verduras? Sabe reconhece-las? De onde vem as frutas, legumes e verduras que vocês consomem?  Uma visita nas feiras livres espalhadas pela cidade pode ser uma forma de aprender isso!

Okay, você leu até aqui e acha que o assunto não é tão sério? Então recomendo que você assista o documentário “Criança – a alma do negócio” tem disponível no YouTube e fala sobre a relação infância e consumo. Aí você pode me perguntar: “Tá, mas o que isso tem a ver com o pouco contato com a natureza?”, e eu te respondo: TUDO.

Por quê? Porque a gente só aprende a cuidar do que conhece e ama!

PS: E pra mostrar que é possível fazer isso lanço aqui o desafio. Durante 30 dias eu e meu pequeno vamos mostrar que dá sim pra aumentar o contato com a natureza de forma lúdica e feliz! Quem quiser pode acompanhar pelo insta: @rafafamendes e participar da brincadeira com a hastag #contatoverde.  Valendo! (Quando acabar volto aqui pra contar o que aconteceu!!! ;) )

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Contra móveis planejados

29 março, 2016 às 15:03  |  por Rosiane Correia de Freitas

Volta e meia chega na minha caixa de entrada de emails uma mensagem. Invariavelmente o interlocutor quer saber como fazer algo novo, testar uma ideia, arriscar. Papo vai, papo vem, chegamos ao ponto central: e se não der certo? E se as pessoas não gostarem?

Em geral respondo que arriscar é se abrir pra possibilidade de erro e da rejeição. O ser humano gosta de rotina, das coisas previsíveis. Mexer com isso é jogar com a sorte.

O problema é que tenho preguiça de emails longos. Mas o tema merece uma conversa mais elaborada.

Nós crescemos num mundo plastificado. Tal como parque da Disney, onde as coisas, como mágica, acontecem sempre direitinho, o susto na hora certa, a fila que anda organizada, o piso perfeito que leva aos lugares certos. Vivemos em casas planejadas, guiadas pelo dogma da organização. Camisas e roupas íntimas organizadas por cor dentro do armário feito sob medida.

Quão inadequados nós já nos sentimos por causa da mesa que não combina com as cadeiras. Porque o suco de laranja manchou o estofado branco. Ou o dinheiro só deu para parte do projeto. E a casa ficou pela metade. Uma promessa de um futuro idealizado.

Mas quem é feliz num ambiente tão previsível? O homem não nasceu para ser prisioneiro de um cenário feito a mdf e vidro colorido. A mente dele é rebelde. Quer testar como fica a sala com a poltrona roxa e as almofadas jogadas sobre o sofá.

É daí que vem esse comichão de querer inventar moda. Quando você menos espera está inventando de fazer pão em formato de arco íris e sai na rua se chamando de poeta.

Tudo isso porque mora um inconformado no coração de cada um. Esse mundo aí pode ser lindo, mas ele poderia ser melhor. É isso que nos provoca, nos empurra em direção ao perigo.

De repente nos dá na telha de querer fazer algo nosso. Mãos na massa, vem a decepção. Parece que nada que produzimos é digno do Instagram. Dá vontade de desistir, voltar pra vida de consumidor.

Mas se você insiste, uma hora vai sentir a alegria de dizer: fui eu que fiz. Uma ideia que tive tomou corpo e me fez feliz.

Uma ideia é como um filho. Tem seus defeitos, suas particularidades. Segue caminhos que nem sempre pudemos prever. Mas dá um orgulho danado vê-los andando com as próprias pernas.

Vai existir quem diga que não é assim. Vai insistir que é desperdício de tempo. E que tá bom do jeito que sempre fizemos.

Mas não desanime, não. Quem parece feliz no paraíso plastificado é porque tem medo de entrar naquele cômodo bagunçado, sabe? Não é problema seu.

O negócio é saber o que é importante. A vontade de mudar o mundo. Ou só mesmo o desejo de fazer que nos desafie. O resto a gente tira de letra. Confie.

Porque numa vida cheia de móveis planejados tudo é muito quadrado. Não é um ambiente feito para a vida, que tem que acontecer longe dali.

Então vão em frente, meus queridos. Não é preciso licença de ninguém para criar o seu caminho. Vai ser diferente do esperado, mas que é que já salvou o mundo sem perder o rebolado?

cantinhok.blogspot.com

Para que asas cresçam e você voe!

18 março, 2016 às 16:05  |  por Rafaelle Mendes

“Filho amado,

Estamos te criando para que tenha asas. E por isso, eis alguns dos nossos desejos para ti:

Que tenhas autonomia sobre a tua vida, sobre teu alimento e tua água.

Desejamos que você se reconheça em cada pessoa que passar pelo teu caminho, pois somos um.

Que tenha coragem para lutar pelo que você quer e não desista, mesmo que assim te digam.

Que você sempre tenha empatia. E quando não a tiver, que você que tenha respeito. Desejamos que saiba do teu valor, mas que nunca se esqueça da força do coletivo.

Que você aprenda cedo que dinheiro é um pedaço de papel às vezes necessário, mas nem sempre fundamental. Há coisas de muito maior riqueza na vida.

Que você tenha sempre o coração aberto para receber o que a vida te oferece. Mas que também saiba dizer não ao que possa te prejudicar.

Esperamos do fundo do nossos corações que você viaje (e com a maior certeza que se pode ter te digo: você pode sim viajar sem, ou com pouco, dinheiro! E isso não vai equivaler a passar ‘perrengue’). O melhor de viajar provavelmente não serão os lugares pelos quais irá passar e sim as pessoas que encontrará. Cada pessoa é um mundo, e como é incrível ter a alegria em partilhar um caminho.

Estou escrevendo tudo isso porque há alguns dias pedia pra vida um sinal. Um sinal para restabelecer a certeza no caminho que escolhi (pois diariamente tenho sido confrontada por pessoas que não entendem bem o fato de termos escolhido um modo de vida mais simples, a opção – ao menos por agora – de ser autônoma e tantas outras coisas que, por vezes, me estremecem de alguma forma).

Eis que na terça (15), perto da hora do almoço, ouvimos palmas no portão. Teu pai foi atender e voltou: “Eles tem fome, e não comem nada desde ontem”. Comecei a separar algumas frutas quando ele diz novamente: “São mochileiros, estão viajando.”, ao ouvir isso falei: “Abra o portão vamos fazer um almoço.”

E foi assim que conhecemos Valentina, Sol e Facu, Nerea e José. Ela uruguaia, eles argentinos e o último, chileno. Enquanto preparávamos o almoço ouvíamos suas histórias. Há dois meses na estrada, pegando carona, dormindo como dá e fazendo algum dinheiro com música, malabares e artesanato.

Conversa vai, conversa vem, pergunto a eles quantos anos tem e para minha surpresa a média de idade é de 22 anos! Uau! E meu coração de mãe – como se nunca tivesse passado pela casa dos 20 anos – logo começa a enchê-los de perguntas: “Mas e os pais de vocês? E vocês não tem medo? E isso? E aquilo?”. Escutei todas as respostas, maravilhada. Tive uma aula de pensamento sobre política sulamericana – dada por um menino de 19 anos – que eu aqui, dos meus 33, jamais conseguiria elaborar com tanta maestria. Isso tudo me fez revirar o coração e achar num canto “a caixa” das coisas que ainda vou fazer na vida!

Eu sempre quis ‘mochilar’ mas faltou coragem, porque eu – criada numa família de classe média baixa – sempre achei impossível viajar sem dinheiro e não tinha coragem pra provar o contrário, além de todo o medo que me era imposto cada vez que falava disso com amigos – “Ahhhh mas viajar sozinha é perigoso”, “Mas como você vai viver?”. Então, permitia-me vez ou outra viajar sim, mas sempre com reservas para qualquer imprevisto e sempre com destino certo, fosse um hotel, ou fosse à casa de amigos.

E quando finalmente encontrei um parceiro, passamos dois anos juntando coragem suficiente para cair no mundo, e a vida nos deu você!

A viagem mais feliz e louca que já fizemos! <3.

Com amor, mamis.”

 

PS: E se você leu até aqui e acaso encontrar estes queridos por aí (eles estão subindo o mapa), não hesite em abrir a porta, a mente e o coração! =)

mochileiros

Valentina, José, Sol e Nerea no parque ao lado da nossa casa, durante uma roda de viola. <3

mochileiros-viajar-brasil

Nossos queridos mochileiros (da esq. para dir.) Sol, Facu, Valentina, José e Nerea, que nos trouxeram alegria e aprendizado e já deixaram saudades

 

Imagem: http://www.supremas.com.br/

Espelho, espelho meu!

9 março, 2016 às 23:02  |  por Rafaelle Mendes

Antes de começar a soltar o verbo, nada mais justo do que eu me apresentar. Pois bem, sou a Rafa. 33 anos, e dois anos antes de ser mãe, me tornei “drasta” (má ou boa, é preciso perguntar pro meu enteado, rs rs,). Por hora, creio que seja o suficiente.

Vou contar duas histórias:

1ª - Meu companheiro sempre teve, e ainda tem, cabelo comprido. Nada mais natural, que o nosso pequeno quisesse ter o cabelo igual ao do pai. Para nós não havia problema algum, mas foi só o tempo do cabelo do guri crescer na altura do queixo para que a pressão começasse:

“Ahhhh, mas menino tem que ter cabelo curto!”

“Quando vamos cortar seu cabelo?”

“Fala pra mamãe levar você no salão.”

E até o inacreditável: “Vamos levá-lo ao salão, eu pago!”.

Nessas horas eu vestia (e ainda visto sempre que necessário) minha melhor cara de alface (!) e lembrava dos Pinguins de Madagascar: “Sorria e acene”. Para os que insistiam, ainda emendava: “Ele quer ter o cabelo igual ao do pai”. E seguíamos a nossa vida. Até que um dia, meu pequeno chega em casa e  o pego em frente ao espelho analisando o próprio cabelo, quando ele solta:

_ Meu cabelo é feio.

_ Claro que não meu filho, seu cabelo é lindo. Olha, ele tem cachos iguais ao meu e igual do seu pai. E lembra, você quis deixar ele crescer pra ficar igual ao do papai!

Passaram-se uns dias e um tempo depois ao buscá-lo na escola – no caminho pra casa – ele solta novamente:

_Eu sou feio, por que meu cabelo é grande.

Na hora em que ouvi aquilo, fiquei meio sem reação. Só consegui soltar um:

_Eu acho você lindo!

E a conversa sobre isso, momentaneamente, encerrou-se ali. Chegamos em casa, puxei o pai no canto, expliquei a situação e fomos lá tentar entender o que estava acontecendo.

_Filho, a mamãe me contou que você disse que é feio por que seu cabelo é grande, verdade?

_É, eu gosto do meu cabelo, mas o fulano da minha sala disse que eu sou feio, por que meninos não tem cabelo grande. Só meninas. O pai dele falou que piá não pode ter cabelo comprido.

Nisso, começou a chorar copiosamente.  E aí nos conversamos, falamos que todo mundo pode ter o cabelo que quiser. Comprido, curto, enfim, terminamos perguntando se ele queria cortar o cabelo.

_Quero, quero cortar meu cabelo, bem curto.

_Então vamos pro banheiro que eu vou cortar o seu cabelo.

Entramos no banho, e mesmo com dó, cortei o cabelo dele exatamente como ele havia pedido. E enquanto cortava, explicava que todo mundo pode ter o cabelo que quiser, que tudo bem se algum dia ele quisesse deixar o cabelo crescer novamente, ou quisesse cortar sempre.

2ª - Aqui em casa procuramos não fazer distinção entre brinquedos de meninos, e meninas. Com isso, o pequeno além de seus brinquedos, herdou de mim alguns brinquedos – que ainda há quem diga são apenas para meninas (um daqueles bebezões, um jogo de chá em miniatura de porcelana, panelinhas, etc).

Por conta disso, uma vez passamos pela seguinte situação:

O pequeno estava com um amiguinho brincando na sala, quando foi até o quarto e voltou com o bebezão pra brincar. Tudo numa boa, até que o amigo pega o bebezão e joga no chão.

_Ei fulano, por que você jogou o bebe no chão?

_Meu pai disse que guri não pode brincar de boneca.

_Ahhh é? Quando ele vier te buscar vou conversar com ele. (E desandei a falar que podia sim, por que aí quando ele fosse adulto, e tivesse filhos, ia saber como cuidar, que ia saber dar colo, carinho. E eles continuaram a brincar). Quando a mãe chegou pra busca-lo, fiz questão de contar que eles tinham brincado com o bebê. E para o seu azar, ela pergunta:

_ Você não tem medo?

_Do quê? Dele aprender a ser bom pai?!

(Sorri “e acenei” – iguais aos pinguins, lembram?)

Não sei o que se passou depois, mas levou um tempo até ele voltar em nossa casa.

Pois é, essas duas histórias são apenas pequenos exemplos de alguns, dos tantos, preconceitos que infelizmente nós – sim, me incluo aqui, pois eu também tenho um monte deles e luto diariamente para aprender respeitar as diferenças  – pais e mães passam pros filhos e filhas todos os dias. 

Uns de forma bem descarada como eu contei aí em cima. E outros mais sutis, como  a recente recusa da mãe de uma amiguinha que não acha adequado sua filha vir brincar na casa do amiguinho (Como eu sei disso? Porque ela olhou pra mim e disse: “Minha mãe não vai deixar nunca!”).

E o que eu quero dizer com tudo isso?

Quero espalhar aos quatro ventos que se a gente quer um mundo melhor para os pequenos é preciso EMPATIA.

É preciso se colocar no lugar do outro. Afinal, não somos tão diferentes assim que não possa haver respeito e acolhimento. E isso é um exercício diário, e a mudança não se vê da noite para o dia. É um processo, longo e nem sempre fácil. Mas, nunca antes tão importante e preciso.

Por quê?

Porque filhos são espelhos de nós mesmos! E você, quer ver o que no seu espelho?

É preciso lembrar sempre que enquanto carregarmos nossos preconceitos, eles também o farão.

Um abraço e até breve.

Não é sobre gênero, é sobre cuidado

11 janeiro, 2016 às 22:34  |  por Rosiane Correia de Freitas

Outro dia levei meu filho num desses parquinhos com uma piscina de bolinhas e um imenso labirinto. Era meio de semana, no meio da tarde, então o lugar estava deserto. Mas eis que uns 20 minutos depois que chegamos chegou também uma trupe que ia participar de um aniversário no local. Eram vários meninos com idades, imagino, entre 4 e 8 anos e apenas duas meninas.

O grupo da festinha entrou na piscina como um furacão. Cerca de 20 crianças correndo, gritando e percorrendo o labirinto como se não houvesse amanhã. Achei que meu filho ia se assustar, mas ele ficou curioso e resolveu tentar, em vão, seguir o grupo. É que uma das partes do labirinto exigia que ele pulasse um murinho. Coisa simples, mas que para quem não tem 3 anos ainda é um grande desafio.

Meu bebê ficou lá tentando saltar o obstáculo enquanto o grupo de meninos passou correndo por ele várias vezes. Até que uma das meninas – que tinha acabado de se juntar ao bando – parou, deu a mão pro meu filho e ajudou ele a pular.

Um gesto tão simples, né?

Vendo isso me ocorreu que a luta por direitos iguais, respeito que o feminismo e outros movimentos têm assumido é também por cuidado. Cuidar é se por no lugar do outro, é deixar de olhar só o próprio umbigo, é pensar no que o outro precisa.

É comum as pessoas pensarem que o cuidado é uma questão de gênero. Afinal é a mãe que cuida, né? É a enfermeira que dá banho e consola o doente. É a empregada doméstica que deixa a casa limpa e organizada. É a professora que cuida e educa as crianças no maternal. A dona de casa.

Logo que nasce a menina já ganha uma bonequinha pra chamar de bebê e cuidar. Como se fosse natural para o sexo feminino cuidar. Os meninos, pelo contrário (nos dizem), são “mais agitados, têm mais energia”. Como aqueles meninos que atropelaram meu filho sem parar para ajudar ele.

Porém, o menino que não foi educado para parar e ajudar a criança menor que não consegue vencer um obstáculo é o homem adulto que não cuida da mãe doente. É o marido que não sabe fazer arroz e fritar ovo. É o colega de trabalho que pisa no outro sem a menor piedade.

Cuidar não é algo que só tem a ver com o outro. Saber cuidar é saber também dar conta de si mesmo. Se eu sei fazer comida, limpar a casa, pregar um botão, fazer alguns ajustes no meu carro isso me torna uma pessoa independente. Que pode cuidar de si mesma.

E isso é imensamente importante. Mesmo que eu possa pagar alguém para fazer todas essas coisas.

Isso porque saber fazer me qualifica para entender o que cada uma dessas atividades exige. O quanto coisas simples são, na realidade, ações especializadas e que exigem dedicação.

Se eu não sei fazer, é fácil desdenhar do trabalho alheio. E não é justamente isso que acontece?

Pense nas atividades menos valorizadas do mercado de trabalho. Já parou para pensar o quanto menos ganha uma enfermeira em comparação com um médico? Quanto você paga para a diarista, a babá, a professora da escolinha infantil?

Por que essas atividades valem menos? Por que o cuidado vale menos? É menos especializado? Exige menos preparação?

Tá, então me diga rápido sem pensar: como é que tira mancha de caneta de roupa? Qual a receita mais fácil e rápida de pão caseiro? Como é que faz para identificar uma picada de aranha? Quais vacinas uma criança de um ano tem que tomar?

Claro, fica muita mais fácil querer pagar R$ 90,00 para a diarista por dia para limpar uma casa de 150 metros quadrados se a gente não parar para pensar o quanto essa atividade é complexa. É muito fácil desprezar a mãe, a dona de casa se a gente não percebe o quanto essa pessoa tem que aprender para dar conta do trabalho.

Não se trata de tentar igualar atividades essencialmente braçais com atividades intelectuais. Mas entender que elas coexistem e precisam umas das outras. O médico (ou médica) precisa da enfermeira. Mais do que isso. O médico precisa saber e valorizar o cuidar. Porque ele lida com gente.

Quando a gente despreza o cuidar abre a porta pra formação de profissionais que acham que, por serem especializados, não podem nem devem cuidar. Para pessoas que dizem que “não sabem cuidar, não nasceram para isso”. Como se isso fosse uma atividade de segunda classe. Mas nós somos humanos. Nós convivemos com humanos. E humanos precisam de cuidados.

Todo mundo um dia vai precisar cuidar de alguém. Seja do conjugê, seja do filho, dos pais ou de si mesmo. Quanto antes a gente aprender que cuidar é essencial, antes vamos nos tornar uma sociedade melhor.

Vamos parar de fazer dieta?

26 outubro, 2015 às 00:12  |  por Rosiane Correia de Freitas

Esse texto vai ser longo.

Um dia, há algum tempo, resolvi fazer um exercício. Anotei e fui somando tudo que já gastei com a intenção de perder peso. Eu nunca fui uma pessoa realmente empenhada em dietas e outras bruxarias, mas como mulher desde cedo me disseram que eu tinha que ser magra e então botei meu suado dinheiro em diversos tratamentos, comidas, remédios e outras estratégias para deixar de ser gorda.

Já pensou em fazer isso? Vá somando: os remédios, as consultas, aquele monte de comprimido manipulado que custou um absurdo, as mensalidades na academia – que você não queria frequentar, mas que tem aquela aula que promete queimar as calorias da bunda -, o tratamento natureba, a erva milagrosa, o salmão que vai servir de base para uma refeição “nutritiva e com poucas calorias”, o equipamento fantástico que equivale a não sei quantas horas de exercício, o creme que faz as estrias e a celulite desaparecem…

Note as reticências no fim da lista. É porque ela não acaba, né?

 

Pois bem, cheguei num número. Não vou colocá-lo aqui, mas digo o seguinte: é o suficiente para ter uma poupança (e um pouco de tranquilidade nesses tempos de crise), para ter feito aquela viagem que sempre quis fazer para a Itália, talvez significasse menos dívida no financiamento da minha casa ou poder fazer aquele curso que quero tanto.

E olha que nem coloquei nesse total aí quanto os meus pais gastaram com isso. Porque esse empenho para me fazer ser magra começou cedo, quando ficou claro que minhas coxas eram grossas, meus peitos eram grandes. Acho que não tinha nem 12 anos quando fui parar num consultório médico para “perder peso”.

Vejam bem, eu não era uma criança extremamente gorda. Não. Eu só não era magra. Ganhei bunda e peitos cedo, muito antes da minha primeira menstruação. Não era sedentária. Praticava esportes, andava de bicicleta, corria muito. Aliás, sempre gostei de me mexer. Sabe aquela sensação gostosa quando você está correndo muito rápido e parece que nada vai te parar? Eu adorava isso.

 

O que havia de errado comigo? Eu não tinha o corpo que, me diziam, era melhor que o meu. Lembro até hoje do dia em que alguém da família apontou para a dobrinha que tenho entre o braço e o peito e disse que aquilo era feio.

Não me entendam mal. Não estou falando daquele excesso de peso que é realmente ruim, porque impede as pessoas de serem saudáveis, de fazerem coisas. Mas não é disso que estou falando. Estou falando de não ter as medidas perfeitas. De ser um pouco maior. De não mostrar os ossos, de ser “fofinha”.

Pois bem, feito o exercício de continhas para descobrir quanto gastei para ser magra, resolvi continuar na lida e somei outra coisa: quanto tempo já gastei nisso. Pare para pensar: as horas na academia, na cozinha fazendo pratos com poucas calorias, no mercado analisando qual produto é mais light…

 

Já fez essa conta?

Agora pense comigo: qual foi a última vez que você foi almoçar/jantar com as amigas e o papo não foi sobre dieta?

Outro dia eu me peguei numa dessa. Tava num restaurante com duas amigas. Duas mulheres bem-sucedidas, inteligentes, interessantes e pá: de repente a gente estava falando sobre a dieta X que fez não sei quem perder tantos quilos e como uma de nós estava frustrada porque queria perder Y, mas perdeu menos.

 

Esse papo é onipresente, né? Alguém pede sobremesa e pronto: uma diz que não vai comer nada doce porque já estourou os pontos do dia. A outra pede, mas gasta um tempo justificando: a semana tá ruim, tá de TPM etc etc.

Daí você engravida. Qual é a conversa que você mais ouve? Acertou! Posso contar nos dedos os papos que tive sobre o parto. Mas nem um dia se passou nos sete meses em que as pessoas sabiam que eu estava grávida sem que alguém: me sugerisse uma dieta, me perguntasse quantos quilos eu já tinha ganho, me alertasse para não engordar demais, criticasse algo que eu estivesse comendo.

Estou exagerando? Olha, é só dar uma passadinha nos sites sobre maternidade/filhos e fazer uma pesquisa. Certeza que a maioria das “matérias” é sobre não engordar durante a gravidez, perder peso depois do parto, não tornar o seu filho obeso e voltar a fazer sexo com o marido (um dia ainda escrevo sobre isso).

 

Mas o que quero dizer com tudo isso?

Tempo é um recurso finito. Entende? Sério. Leia de novo: tempo é um recurso finito.

Agora reflita por um instante. Sacou?

 

Sabe aquela menina com seus 15/16 anos que está começando a dar os primeiros passos para ser alguém no mundo? Que percebe que gosta de ciência, que curte programar, que lê muito?

Sabe o que custa ser boa em matemática? O que custa passar no vestibular de medicina? Ser fluente num idioma?

Custa tempo. Sim, custa dinheiro também. Mas custa principalmente tempo. Não adianta pagar a melhor escola de inglês, comprar os livros mais caros, ter professor particular se você não investe o seu tempo.

Tempo para errar, para se frustar, para arriscar e, no fim, para conseguir.

Só que aquela guria de 15/16 anos não vai ter que gastar tempo só com o estudo, né? Não, ela tem que fazer aula de body whatever, sessões de tratamento para celulite, gastar meia hora por dia passando creme e contando pontos da dieta.

Tempo é um recurso finito. Cada dia tem uma quantidade fixa de minutos e se você gastou contando calorias, não vai ter esses minutos para ler Shakespeare, estudar geometria analítica ou que seja.

Já sei o que você está pensando: mas eu sempre dei conta de tudo isso. Provavelmente é verdade. A gente dá conta, né?

Só que não é bem assim. Tem uma hora que esse tempo faz falta. Sabe o que separa um pianista mediano de um gênio? Você vai dizer: talento. Tá, sim, tem o talento. Mas vamos considerar duas pessoas igualmente talentosas. O que faz uma atingir seu potencial e a outra não? Tempo.

 

Qual o custo de “dar conta” das coisas?

Tá, mas tem algo ainda pior nessa história. Algo que tem a ver com tempo, mas também com a nossa percepção do que é importante. Para falar nisso, deixa eu contar uma historinha:

Há pouco mais de um ano eu decidi fazer um aplicativo. Eu, mãe de então um bebê de um ano e meio, jornalista, professora universitária que trabalha pelo menos 40 horas por semana, mulher, dona de casa etc fui aprender a programar para celular.

De lá para cá criei aplicativos para iOS e Android, montei uma empresa, ganhei e perdi sócios, vi minha ideia não dar certo e apostei em outros projetos. Nesse tempo todo sabe quantas pessoas (com exceção do meu marido e de quem trabalhou ou trabalha comigo) se interessaram pelos meus projetos? Nenhuma.

Quase um ano depois de ter começado essa história um amigo, ao saber do aplicativo, me perguntou: como é que eu não sabia disso? Simples, ele nunca tinha me perguntado nada sobre o que eu faço. Você vai pensar: ah, é alguém que não é tão próximo. Bem, olha só, essa é uma pessoa que não sabe dos meus projetos, mas sabe quantos quilos emagreci há alguns anos, quando perdi bastante peso.

Não estou falando: “ah, coitadinha de mim”. Não. Isso aqui é sobre o que é importante. Importante para nós e importante para os outros.

Lembra das amigas no almoço? Pois bem, o que é importante? O fato delas terem projetos bacanas para fazer? Ou a dieta que não deu certo? No entanto, sobre o que conversamos? Com o quê gastamos tempo? Um tempo escasso que raramento podemos usar ouvindo as pessoas com quem nos importamos.

Eu gasto uma parte importante dos meus dias falando sobre o trabalho do meu marido, sobre o meu filho, sobre amigos meus. Falo porque o que eles fazem é importante, porque o que eles fazem muda o mundo. Há quem vá dizer que posso me sentir chateada por ser chamada a falar tanto sobre eles, ou com inveja. Essas pessoas não têm a menor ideia do que é um casamento.

 

Entendem o problema?

O trabalho de um é importante. Mas o da mulher, não. O peso que ela ganha ou perde é mais.

Tem outra coisa sacana a respeito disso. Fazer dieta é um projeto destinado ao fracasso. Verdade. É o crime perfeito. A pessoa te vende um tratamento/remédio/sei lá o que para emagrecer e que promete milagres. Não estou falando de algo que te ajudará a eliminar um, dois quilos. Não. As promessas são sempre na casa das dezenas.

Claro que nunca dá certo. E de quem é a culpa? Ah, você não leu as letrinhas pequenas, né? Você tinha que ter mantido uma dieta balanceada enquanto usava o produto e fazer exercícios regularmente. E também verificar se não havia nenhum problema de saúde que poderia prejudicar a perda de peso (olha as prioridades: Não se trata de pensar no problema de saúde, mas se ele te impede de perder peso).

Além do dinheiro e do tempo, o que mais você perdeu com isso? A segurança. Porque fazer dieta é embarcar numa experiência que vai fazer você se sentir fracassada o tempo todo. Seja porque não conseguiu emagrecer, ou emagreceu, mas não atingiu a meta (e a gente sempre define metas irreais, né?), ou outra pessoa que fez o mesmo tratamento emagreceu muito mais ou você recuperou uma parte do peso.

Então, de repente, o caso é que você é uma mulher adulta, com educação superior, que é mãe, que cuida da casa, que paga as próprias contas, que é talentosa, que cria os filhos. Mas que se sente um fracasso. Não porque seu projeto profissional, de repente, não deu certo. Ou seu filho chama a babá de mãe. Mas porque você não emagreceu.

O que é importante? O que é realmente importante?

Por que importante é aquilo que ocupa o nosso tempo. Não é mesmo?

Será que não é injusto que nós mulheres tenhamos que investir tanto na aparência? Por que é que não podemos decidir simplesmente que isso não é importante?

Pensei nisso quando li no El País um texto sobre a pesquisadora Mary Beard e as críticas que ela recebeu por sua aparência. Ela é uma daquelas mulheres que não pintam o cabelo para esconder a ação inevitável do tempo. É uma escolha. Não se trata de condenar quem pinta as madeixas, mas sim de alguém que não quer fazer isso.

Mas será que é mesmo uma escolha? Porque, no fim, o que é importante a respeito da Mary Beard? O que ela pensa ou a aparência dela? No entanto, foi por causa dessa aparência que li sobre ela no El País.

Foi quando percebi isso que deixei de fazer dietas e de tentar ser magra. Porque isso simplesmente não é importante para mim, muito embora continua a ser para os outros. Foi na mesma época em que decidi que quero ser mestre do meu próprio tempo.

Coisa de louco, né? Eu quero ser mestre do meu próprio tempo. Normalmente quando falo as pessoas entendem que quero ser empreendedora. Verdade, se por empreendedor se entende alguém que cria as próprias oportunidades.

Mas ser mestre do próprio tempo é mais do que isso. É não ser tragado pelos falsos problemas que inventam para nós. Perder peso é só um deles (mas nos toma um tempão, não é).

Já parou para pensar quantos problemas imaginários inventam para nós depois que viramos mães? Pô, de repente você tem que pensar em tags para docinhos (oi?), roupa mãe e filho, ensaio fotográfico caríssimo com o bebê destruindo um bolo igualmente dispendioso.

Para que tags em docinhos? Docinhos que vão custar um dinheirão e serão destruídos pelas criançada da mesma forma que o brigadeiro da padaria seria.

A tradição das mulheres de sofrerem com problemas imaginários começa cedo, já na maternidade, quando a mãe pega a menina recém nascida, que mal se recuperou o trauma do nascimento e tasca um brinco na orelha dela. Um brinco que pode, um dia, ir parar na boca da criança e virar um risco para a segurança dela. Ou ser perdido.

Brinco para quê? Para saberem que ela é menina? Como se alguém não fosse notar a tonelada de acessórios cor de rosa, a presilha no cabelo e os cristais na chupeta personalizada (todas essas coisas que representam um perigo para o bebê, mas que a menina TEM que ter).

Por que é que a gente não para e pensa no que é REALMENTE importante? Sério, o que é importante?

É perder peso? Não, é se alimentar bem, ter boa saúde, hábitos saudáveis. Não beber ou comer demais. Não usar substâncias que coloquem sua saúde em risco.

É malhar para ter o corpo perfeito para o verão? Ou é se sentir bem como somos. E fazer atividades que nos dão prazer, aliviam o estresse?

É correr para colocar brinco no bebê assim que ele nasce? Ou garantir que mãe e bebê descansem, tenham tempo para se conhecer, para aprender a mamar e para se recuperar do parto?

O que é importante? Como eu me visto? Que peso eu tenho? Se uso maquiagem? Ou o que faço de bom para minha comunidade, minha família e o mundo?

E só nós mulheres, ao invés de “dar conta” das coisas pudéssemos investir nosso tempo nos nossos talentos? Já imaginou quanta coisa boa sairia daí? Quanta gente ia deixar de se sentir mal a respeito de si mesma? Iria sorrir mais para a vida. Ter coragem para fazer algo fantástico?

Já imaginou? Pode ser incrível. Vamos tentar?

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Sobre a arte de ser invisível

30 setembro, 2015 às 14:16  |  por Rosiane Correia de Freitas

Outro dia percebi que todas as caixas acumuladas no sotão foram organizadas e limpas e estavam ordenadas por conteúdos. Muito diferente de quando as coloquei lá socadas naquele espaço pequeno e pouco iluminado para esconder a vista a bagunça com a qual eu não queria lidar.

Milagre? Duendes? Fadas? Não. Mais uma obra da pessoa que cuida da minha casa e do meu filho. Provável que ela tenha feito isso há semanas e eu só vi há alguns dias, quando precisei de algo que estava numa das caixas.

Claro que agradeço diariamente por ter alguém na minha vida que me ajuda e facilita a minha vida. E faz pequenas coisas que tornam meus dias mais leves. Retribuo sempre que posso.

Mas as caixas arrumadinhas me fizeram pensar em mais. Em como muitas das coisas que são feitas para nós nos passam despercebidas. Como naquele corolário que diz que é mais fácil um cliente insatisfeito repassar o desagrado dele para dez pessoas do que alguém que foi bem atendido fazer propaganda da sua empresa para um conhecido.

De fato, estamos acostumados em anotar aquilo que nos irrita, nos incomoda, que nos decepciona. E no caminho deixamos de ver as caixas arrumadas que nos permitem uma passagem sem obstáculos.

Porque há muita gente que faz muito por nós. E que nos são invisíveis. O rapaz da feira que guarda a manga docinha porque sabe que teu bebê gosta. O vizinho que mantém a grama do condomínio aparada. O professor que arranja um tempinho na semana corrida para te ajudar com um desafio particularmente difícil. A pessoa que, apesar de ocupada, te ajuda de graça com aquele problema que precisa ser resolvido rapidamente.

Não dá para tirar selfie e declarar amor a esses pequenos gestos de generosidade. Não vale um meme. Não viraliza na internet. Mas muito do que somos e temos, é preciso reconhecer, é resultado dessas ações. Da bondade de estranhos. Do carinho de quem nem percebemos que existe.

Pensei em tudo isso porque sou grata por toda generosidade que recebi. E também porque sinto que muita vezes queremos desistir da nossa própria capacidade de sermos generosos porque ela também é invisível. Investimos naquilo que é, de fato importante, como estar disponível quando precisam de nós. E na maioria das vezes isso nunca merece nem um muito obrigado.

Saber se concentrar naquilo que é, de fato, importante é se acostumar a ser invisível. No entanto, cabe a nós fazer o esforço para perceber os detalhes. Porque quem é generoso, mas não recebe agradecimentos, continua em frente alimentado pela própria alegria de ter feito a coisa certa. Mas quem não enxerga aquilo que a faz pisar em solo firme corre o risco de, muito em breve, não poder contar com a solidez do caminho.

Quando somos mães queremos que nossos filhos sejam melhores do que nós. Mas a grande verdade da vida em família é que nossas crianças serão como nós. Então cabe a nós ensiná-las a ignorar o ruído da insignificância que nos cerca o tempo todo. E prestar atenção no que vale a pena. É só quando a gente for capaz de ser grato pelos pequenos gestos que nossos filhos, como nós, farão o mesmo.

A aventura de brincar

18 setembro, 2015 às 16:54  |  por Taísa Binder
Ele me pede para acompanhá-lo até o bosque do condomínio pois quer me mostrar algo “sensacional”. Com os olhos escuros bem abertos vai alertando: “Mamãe, é bem perigoso, mas você vai ficar orgulhosa”. Começa a subir a árvore mais alta do bosque (alta mesmo, não é exagero de mãe). Sobe, sobe, sobe. Aí lá de cima, passa para outra árvore, se agarra num galho e desce escorregando. Claro que chega lá embaixo todo arranhado, mas muito feliz. Claro que elogio o feito, digo que foi muito corajoso, que é muito legal, mas também vou alertando dos perigos da aventura. Coisa de mãe. Imagina se cai lá de cima, bate a cabeça, as costas, quebra um braço, uma perna? Digo para não repetir a façanha. Tenho certeza que ele não vai obedecer, que vai ignorar o alerta, que vai  querer esfregar a coragem na cara dos amigos.
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Bem, vamos ao que interessa. Por que estou contando essa história? Porque a alegria de Bernardo ao escalar a árvore alta e depois descer, foi recompensadora. Sim, recompensadora. Vou dizer o motivo. Ele foi sempre incentivado a brincar muito.
A gente que é mãe sabe que brincar com os filhos é divertido, mas cansa. Pois bem, sempre exerci essa tarefa sem pestanejar. Brinquei muito de carrinho, joguei muito futebol, cansei de perder no Super Trunfo, jogos da memória e todos os tipos de jogos de tabuleiro. Fui vilão e mocinho. Fui cada um dos heróis da Marvel, revezei o papel de Woody e o de Buzz. Incorporei todos os alienígenas do Ben 10.
Em uma década, uma infinidade de brincadeiras. Descobrir o mundo do brincar não foi só exclusividade dele.
E sabe, brincar é muito legal. É muito importante reservar aquele tempo especialmente para o seu filho, entrar no mundo dele. Imaginar com ele que está em outro planeta, que o lençol é uma barraca no meio da floresta, que a casinha de madeira do parquinho é o esconderijo do Batman tudo isso cria uma cumplicidade que vale muito a pena.
Tudo isso também pesou na decisão de mudarmos para um condomínio fechado quando ele tinha dois anos. Nesse pequeno mundo ele e os amigos correm na rua até tarde, brincam de esconde-esconde, jogam bola, se arriscam no tal do bosque. Tudo isso faz parte do aprendizado da criançada. Enfrentar desafios, dividir os brinquedos com outras crianças, resolver os conflitos que surgem na hora da brincadeira. Aí vem aquele rosário que sempre ouvimos: as crianças de hoje não podem mais brincar na rua, é tudo perigoso, é tudo diferente de tempos atrás. E concordo plenamente. Mas acho que sempre tem uma solução. Vai para o parque, leva bola, bicicleta, faz um piquinique na grama de casa. Se for apartamento, também é possível brincar. Muita gente foi criada em apartamento e sempre brincou. Há que se admitir que é preciso esforço e criatividade. Mas repito, vale a pena.
No feriado fomos para a praia com a família. Fazia frio e chovia. Mesmo assim coloquei ele e a minha sobrinha Natália de dois anos no carro e me mandei para a beira mar. O combinado era que brincariam na areia, jogariam bola e molhariam no máximo os pés. Claro que eles ultrapassaram o limite do acordo. Entraram na água. A pequena de moletom e tudo. A alegria dos dois era para gente morrer de amor. Essa semana Natália me ligou e perguntou: “Quando vamos para a praia? Quero molhar a calça e a camiseta de novo.” De todos os dias do feriado, o que ela levou na pequena caixinha de memórias é a aventura de brincar e explorar  a imensidão do mar com o primo.
É fim de semana. Vamos arriscar umas brincadeiras com nossos filhos? A segunda-feira, garanto, vai começar mais animada.
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