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Redirecionando sua carreira

8 fevereiro, 2018 às 16:37  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Em nossas vidas profissionais, constantemente vivemos crises, dúvidas e questionamentos que nos fazem refletir sobre a nossa atuação profissional. Os fatores são inúmeros, sendo os mais comuns: a falta de crescimento, tanto em cargo como em salário, o que gera uma sensação clara de estagnação e falta de desafios; desgosto pelas atividades exercidas, o que impacta na qualidade e produtividade, o que pode comprometer o desempenho; baixa adesão da estratégia e objetivos da organização, o que impacta diretamente em resultados e em indicadores que mensuram o quanto o indivíduo é capaz de contribuir legitimamente com a organização, de ir além das atividades cotidianas; incapacidade de aderir aos valores e cultura organizacional, o que pode gerar insatisfação, problemas de relacionamento e questões emocionais que comprometem o bem-estar do indivíduo e o clima organizacional.

Quando estes fatores existem ou coexistem em nossas vidas, automaticamente passamos a questionar se o caminho traçado é o adequado, se não é o caso de buscar novas alternativas e, dependendo da amplitude da crise, se a mudança não precisa ser mais ampla. Neste caso pode-se considerar a troca de área de atuação, a busca por um negócio próprio e a reinvenção profissional com uma nova graduação ou um curso de pós-graduação. Mas este processo precisa ser estrategicamente refletido, afinal quando o assunto é carreira, não há simplificações possíveis, a análise precisa ser profunda e tem impactos e consequências que precisam ser considerados.

Sendo assim, eis algumas reflexões importantes que deveriam estar presentes para um redirecionamento de carreira coerente e orientado. A faixa etária é um dos pontos que exigem reflexão. Até os 30 anos toda e qualquer mudança de carreira é, em geral, mais tranquila. Se precisar iniciar uma nova graduação ou buscar atuar em uma área distinta, onde o salário precisa em um primeiro momento sofrer uma redução, não impacta tanto, principalmente se ainda não houver uma família constituída que gere responsabilidades financeiras essenciais e obrigatórias. Entretanto, deve-se garantir que seja um movimento consciente, que traga um plano de carreira sólido para as próximas etapas, que se entenda as eventuais perdas em um primeiro momento, como um investimento para o futuro.

Depois dos 30 anos, a sua decisão tende a impactar mais pessoas, então há a necessidade de mais diálogo e ponderação. Nem sempre é possível conseguir o que deseja no ritmo almejado, o que pode causar certa ansiedade e até mesmo uma dose de mal-estar na rotina profissional. Sugere-se aqui movimentos mais sutis, mas que gradualmente redirecionem seus objetivos profissionais. A meta é persistir, manter e não perder o foco do que se pretende.

Acima dos 40 anos, há a necessidade de um estudo mais cuidadoso acerca do mercado, das opções que existem, da sua própria situação financeira e do seu status profissional para que as perdas não tragam impactos irreversíveis. Dos 50 anos em diante, existe mais conforto para eventuais mudanças, até porque dificilmente a opção será buscar algo diferente no mercado formal, com raras exceções. Infelizmente, na maioria dos casos, o preconceito com idade limita as opções existentes. Então o redirecionamento precisa contemplar os dados da realidade e há a necessidade de olhar para si mesmo com credibilidade para um próximo passo provavelmente mais autônomo, que exigirá a maturidade que a idade geralmente confere.

Também o autoconhecimento, no sentido de entender sobre si mesmo, seu perfil de personalidade, suas características pessoais são de extrema relevância. Um redirecionamento exige uma estrutura emocional considerável, em outras palavras, o indivíduo será testado, todo recomeço evidencia dificuldades e desafios, exige aprender novas habilidades e capacidades, demanda reconhecer que é necessário um esforço maior para chegar lá e, em grande parte, faz com que se queira desistir e voltar atrás. Este contexto é muito comum no redirecionamento. Por isso é comum a necessidade de contratar um apoio profissional para não se sentir só e inseguro diante de algumas situações problemas que são comuns.

Há também um aspecto de extrema relevância, quando a questão é a desilusão com a área de atuação. Enquanto estudava, a pessoa era feliz, ao começar a trabalhar, percebeu que não era o que queria. Ou, não consigo crescer, me sinto estagnado. Os culpados externos são facilmente localizados, ou é a empresa que não oferece desafios, ou o gestor é fraco, o ambiente de trabalho é ruim, as atividades são rotineiras, etc. Aqui, olhar para si mesmo com sinceridade fará toda a diferença. Embora hoje a busca seja pelo trabalho perfeito, onde todas as condições são satisfeitas e haja o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, o crescimento contínuo, a realidade atual denota ambientes corporativos tensos, indefinidos, inconsistentes, buscando alternativas para sobrevivência no mercado, o que gera um clima ruim e um dia a dia nem sempre agradável.

Mudar de área porque você não está conseguindo se adaptar à sua realidade profissional ou não está onde gostaria, pode ser uma armadilha, afinal mesmo mudando existe uma chance bem alta de você se ver infeliz novamente. Amadurecer e lidar com as dificuldades inerentes ao mundo do trabalho é algo que faz parte da carreira de qualquer indivíduo. Entender o limiar do desconforto com honestidade para apreender os motivos reais e analisar uma possível mudança certamente trará resultados melhores. Reconhecer que você não cresce porque não está fazendo a sua parte, não está mantendo a sua empregabilidade alta, pode ser a resposta que trará soluções efetivas.

Investimentos em graduação, pós-graduação e outros cursos precisam ser muito bem ponderados. Redirecionar a carreira não é um processo mágico, em outras palavras, não é somente fazer um curso, inseri-lo no seu currículo e tudo está resolvido. Em alguns casos, uma nova graduação será o ideal, mas há de se considerar o tempo e o investimento financeiro que está sendo envolvido, além da disponibilidade exigida para estudos e práticas obrigatórias de estágio se houverem. Também é interessante ponderar sobre o mercado, perspectivas de carreira e resultados possíveis, para que não haja uma distorção da realidade que gere expectativas infundadas.

Os cursos de pós-graduação tendem a ser mais comuns no caso dos redirecionamentos, mas também os mais perigosos. Um curso Stricto Senso tende a garantir um resultado específico e atender aos objetivos. São cursos capazes de abrir as portas da academia, tanto para lecionar como para se tornar um pesquisador. Em contrapartida, são cursos extremamente exigentes quanto à dedicação, o que os torna indicados para aqueles que realmente pretendem ler e estudar com afinco. A análise do autoconhecimento é muito bem-vinda neste ponto. Os cursos Lato Senso dependerão de como o indivíduo fará a transposição do conhecimento adquirido na prática. Se você fizer uma pós-graduação em uma área totalmente diferente da sua, onde nem poderá observar na prática os conhecimentos adquiridos, muito provavelmente aproveitará minimamente os conteúdos e agregará um valor ínfimo para convencer alguém de que com este curso você estará apto e será contratado para outra área.

Estudar bem as opções antes de escolher e analisar do ponto de vista estratégico o momento certo para garantir a apreensão dos conteúdos poderá fazer toda a diferença. Já os cursos de idioma, que trazem também resultados mais garantidos, são os menos procurados. Cabe aqui uma reflexão, afinal os brasileiros já deveriam estar mais preparados para desafios internacionais, pois os mesmos abrem portas, ampliam horizontes e podem transformar a carreira com oportunidades mais desafiadoras e interessantes. Aliás, a própria aquisição de informação sobre o mundo, sobre tendências e possibilidades profissionais são mais amplas quando as fontes de conhecimento são globalizadas e multiculturais.

Certamente ainda muito poderia ser tratado sobre o tema, mas o objetivo neste texto era ponderar sobre as reflexões estruturais para redirecionar carreira. Reforçando: o senso de realidade e a análise crítica certamente contribuem positivamente para evitar distorções de percepção. Outro aspecto que se deve ter em mente é que para conquistar uma fase mais tranquila na carreira, há que se passar por dificuldades e superações. Isto exige, inclusive, fazer o que é preciso e não necessariamente o que se gosta. A trilha profissional está atrelada à maturidade de um indivíduo. Se não passamos por frustrações, decepções e dificuldades, somos incapazes de crescer em uma empresa, bem como despreparados para abrir um negócio próprio. Como foi dito anteriormente, carreira não é um processo mágico. Pode até existir o fator sorte, mas em geral, o que predomina é a disciplina, o foco e a determinação. Não tem moleza!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

É preciso plantanizar o ser humano

30 janeiro, 2018 às 14:28  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

O filósofo Jean-Jacques Rousseau, conhecido por ter escrito um dos livros mais importantes da filosofia política moderna, “O Contrato Social”, a certa altura da vida desanimou-se com a humanidade e resolveu se dedicar à botânica. Buscou nas plantas aquilo que não achou no ser humano: uma reconexão com a natureza e consigo mesmo. Tal projeto foi resumido por ele em uma frase ao mesmo enigmática e reveladora: “um dia desses, pela manhã, eu mesmo vou me tornar uma planta”.

Rousseau, um dos representantes do Iluminismo, traçou, com esse gesto, as linhas mestras do romantismo, que viu na natureza uma espécie de nova infância do ser humano. Mas isso não é tudo: para ele, a botânica era também uma chance de concretizar essas ideias através de uma espécie de prática existencial, pela qual seria possível restabelecer o vínculo do ser humano com a sua essência – justamente aquilo que havia se perdido na sociedade civil, sempre perversora e deturpadora da essência do ser humano.

Muitos cientistas confirmam hoje as intuições de Rousseau: a proximidade com as plantas – e com a natureza em geral – exercem um efeito extraordinariamente positivo sobre os seres humanos, seja porque os afastam das ocupações e correrias do cotidiano moderno, seja porque possibilitam práticas que ajudam no controle da ansiedade, da pressão arterial, da atividade cerebral, da frequência cardíaca e do estresse. Entre essas práticas estão a jardinagem, o cultivo de hortas domésticas, o uso de plantas na decoração das casas, a visita aos parques, rios e florestas e toda uma lista de “atitudes verdes” que exprimem um interesse das pessoas em estabelecer vínculos com as plantas, em busca de um novo equilíbrio natural. Isso porque os vegetais nos aproximam da nossa natureza mais primitiva (afinal foram os primeiros seres vivos a povoar a Terra), produzem oxigênio (elemento fundamental da vida) e embelezam o planeta. Perto das plantas, os seres humanos ficam mais calmos, respiram e dormem melhor, são capazes de maior concentração, raciocínio e criatividade. No silêncio crescente de uma samambaia, na sombra de um jacarandá ou na beleza amarela de um ipê, haverá chance para a humanidade.

No tempo em que os humanismos antropocêntricos distanciaram o ser humano da natureza por considerá-lo superior aos demais seres vivos e que nossas metrópoles nos cobrem de cimento, asfalto e vidro, a lição de Rousseau parece muito oportuna. Ao invés de humanizar o ser humano, talvez seja urgente plantanizá-lo: promover o vínculo afetivo entre gentes e plantas, numa espécie de novo contrato com a natureza. Dedicando-se às plantas, contemplando sua beleza e descobrindo seu modo próprio de existir, os humanos entenderão, afinal, muito mais sobre quem eles realmente são e quais as suas responsabilidades aqui. Amores vegetais talvez salvem os homens de si mesmos.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Ano Novo, modelo mental antigo, que tal repensar?

25 janeiro, 2018 às 09:35  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

A cada novo ano, trazemos conosco uma esperança de renovação, de novidades ou mudanças positivas. Entretanto, o foco geralmente é no externo. Como se estas expectativas fossem depositadas na empresa onde trabalhamos, no ambiente onde estamos inseridos, nas pessoas com as quais convivemos. Ledo engano, afinal se mantivermos o nosso modelo mental antigo, as coisas tenderão a permanecer inertes, difíceis ou complicadas.

Assim como é comum estabelecermos metas para o ano novo, também não é raro adicionarmos condições ideais para que elas aconteçam. Exemplo bem comum é, este ano farei atividades físicas, espero que haja possibilidade de horário. O que não percebemos é que nós criamos as condições para criar horários. Neste exemplo específico, se temos academias que abrem às 6 horas da manhã e fecham às 23, depende de nós e não do meio fazer isto acontecer. Além de atividades físicas, temos inúmeros exemplos, onde estamos condicionados a culpabilizar os outros dos insucessos ou da nossa opção em manter as coisas como estão. Já faz parte do nosso modelo mental.

O que fazer então para que resultados efetivos sejam consolidados a partir de nossas metas? A primeira fase exige uma reflexão autêntica dos últimos anos. O que você tem insistido enquanto meta que não tem trazido o resultado esperado? E qual é a sua participação efetiva neste insucesso. Seja realmente honesta (o) consigo. Entenda os motivos reais de não fazer acontecer aquele projeto tão sonhado que pode mudar a sua vida, te realizar e fazer mais feliz. Envolve claro, disciplina e determinação. Exige certamente mente aberta e desapego. Pressupõe assunção de responsabilidade pela própria vida. Afinal ninguém pode fazer de você e para você o que você mesmo é capaz.

Neste sentido, há uma reflexão bem relevante. Entenda que, muitas vezes, suas metas não são alcançadas porque você está reproduzindo trajetórias de outras pessoas para os mesmos objetivos. Aí vem o grande detalhe da vida, da identidade única das pessoas e das experiências peculiares, em outras palavras, o que funciona para o Sujeito “A” ou “B” não necessariamente será bom para você.

A segunda fase demanda reflexão genuína sobre quais metas são realistas e se refletem o seu propósito diante da vida. Isto significa compreender a sua pretenção maior como projeto a longo prazo e os meios para chegar lá. Exemplo, o seu foco é a vida profissional e você quer crescer e o ocupar um cargo de gestão e, para tanto, a sua empresa exige fluência em inglês, além de especialização na área. Tal meta pressupõe deixar de lado tempo a mais com a família, lazer, diversão e, provavelmente, isto impactará na vida de pessoas que convivem com você. Os recursos financeiros que você teria para viajar, talvez precisem ser realocados para despesas com cursos que serão necessários para seus objetivos. Caso contrário, você trará para si problemas financeiros importantes. Dito de outra forma, não dá para ter tudo, você precisa fazer escolhas e arcar com as consequências.

É inegável que esta segunda fase traz um “peso” maior de responsabilidade na sua vida. É preciso maturidade e equilíbrio para decisões importantes que impactam diretamente em sua felicidade e realização. Invariavelmente, como somos seres sociais e relacionais, tais decisões tornam-se muitas vezes mais complexas. Mas também é este processo que nos faz desenvolver atitudes e emoções condizentes com indivíduos que creditam para si o sucesso das suas vidas.

A terceira fase pede uma consciência crítica e uma disciplina ferrenha, principalmente no sentido de você não cair na tentação de encontrar culpados para o seu fracasso ou para não estar aonde gostaria. Se o seu trabalho não é bom e você não consegue outro lugar para trabalhar, o problema está com você que deixou de fazer a lição de casa, de estar preparado para outros desafios. Se o seu casamento não está como gostaria, você contribuiu para que chegasse aonde chegou e preferiu acomodar-se. Se a sua saúde vai mal, foram as suas escolhas que comprometeram os seus exames e a sua disposição. E por aí vai.

Sendo assim, simplifique. Reclame menos da vida e dos outros. Mude o que depende de você, faça escolhas coerentes com o seu projeto e deixe de acreditar que um dia o mundo atenderá a todas as condições que você considera ideais. Porque se um dia isto acontecer, não haverá mais conquista, nem superação, não haverá comemoração diante dos desafios. E, sinceramente, isto não é vida!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Natal não é festividade, é qualificação de uma atitude

20 dezembro, 2017 às 08:37  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Nesses tempos natalinos, muitos lares e repartições públicas ostentam uma árvore decorada de mil maneiras. Ali, sob a árvore, um homem, uma mulher e seu menino, entre animais, anjos, pastores e reis, resumem a experiência humana dos valores mais perenes, evocados pela simplicidade da cena e pela eficácia da imagem de uma estrebaria humilde, onde a bondade humana é restaurada pela força do mundo natural e o espírito de novas divindades. O episódio resume, assim, os ideais e as utopias que nos movem adiante, embora nem sempre vivamos de acordo com eles. Sob a árvore, no canto das nossas salas, estão os desejos de mundo que carregamos e que, na maior parte das vezes, cruzam o ano atiradas no fundo de alguma gaveta, enquanto nos rendemos às pressas e ocupações que obstruem o acesso ao que realmente importa. No fundo, a árvore e o presépio retomam o acontecimento mais importante na forma de uma advertência: as palhas da manjedoura, a ruminação das vacas e a orientação das estrelas são sinais de quem deveríamos ser e do que deveríamos fazer, apesar de tudo o que não fomos e não fizemos.

Não falo apenas no tom pegajoso de alguma dessas mensagens que recebemos às dezenas por essas épocas de emotivismo bocó. Penso nas responsabilidades éticas e políticas que exigem de nós atitudes responsáveis, para além das frases de efeito de banners comerciais e promoção de shopping center. Penso no modelo de desenvolvimento que continua a degradar a natureza, a escravizar pessoas e extinguir – a velocidade inédita – as formas de vida animais. Penso nas florestas de pinus e eucalipto que crescem na forma de desertos verdes, secando as águas e empobrecendo os solos. Penso no presidente da república e seus larápios, que financiam a própria corrupção hipotecando o futuro da nação na forma da destruição ambiental e da agressão aos direitos trabalhistas. Penso na politização desavergonhada do judiciário. Na política do despudor, patrocinada pelo silêncio da maioria que, em nome de uma pretensa moralidade, colocam em xeque a democracia e as garantias constitucionais. Nesse modelo, árvores, animais e gentes, como uma vez no presépio de Belém, são objetos descartáveis, símbolos da reiterada agressão que as populações mais pobres e vulneráveis vêm sofrendo. Nesse modelo, crianças e adolescentes (como bem lembrou a relatora da ONU sobre Direitos da Criança e do Adolescente no encerramento de sua visita recente ao Brasil, Esmeralda Troitiño), continuam vítimas de maus-tratos, tortura, homicídio e superlotação em centros de internação, situação que impede a efetividade das medidas socioeducativas capazes de garantir a sua reinserção social. Crianças continuam sem casa, sem escola, sem opção.

Sim, ali, sob aquela árvore, um homem, uma mulher e seu menino, entre animais, anjos, pastores e reis, dão sinal de nossos fracassos como sociedade e solicitam um compromisso efetivo da nossa parte para que as realidades de exclusão e violação dos direitos humanos não sejam apenas assunto de caridade natalina, mas ajuste cotidiano de nossas condutas enquanto cidadãos e cidadãs. O Natal, afinal, não termina na festividade de uma data, mas é uma atitude efetiva de cidadania e direitos humanos.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Uma reflexão para o Natal: as pessoas não são descartáveis

14 dezembro, 2017 às 08:34  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Mais um Natal chega, anualmente e invariavelmente, somos conduzidos a refletir sobre novos significados que este período suscita em cada um de nós. Este ano, passamos por momentos difíceis em nosso país, com crises e dificuldades em todas as áreas. Nada mais saudável do que parar neste momento para buscar o verdadeiro sentido da vida e o resgate de nossa espiritualidade.

Particularmente, tenho a percepção de que as dificuldades que enfrentamos, principalmente as relacionadas com os recursos financeiros mais escassos, trazem muitas vezes dissabores em nossas vidas. É a perda de emprego, a dificuldade em manter um padrão sócio econômico já conquistado, o postergar projetos e planos que se tornam impossíveis diante da falta de dinheiro ou da necessidade em investir naquilo que faz parte da sobrevivência.

Esta mudança traz consigo a reflexão do que realmente tem valor e o que importa em nossas vidas. Um resgate à essência do ser humano, que vai muito além da aparência, do status, do poder e do consumo. Entretanto, simultaneamente, este resgate contrapõe a tendência do mundo atual, que é a descartabilidade das pessoas, que gradativamente perdem a humanidade e se coisificam para responder ao mundo onde apenas o material tem valor.

Este condicionamento torna o desapego muito mais difícil, torna as perdas muito mais sofridas e a continuidade de viver a vida a partir de outros critérios mais sólidos e estruturais, um grande desafio individual, social e familiar. Temos nos tornado tão descartáveis que nosso significado é perdido quando a empresa nos demite ou quando deixamos de ocupar um cargo de status/poder. A nossa descartabilidade é tão absurda que nosso sucesso é baseado apenas no que temos e não no que somos. A nossa imagem se torna mais socializada que a nossa integridade. E a nossa aparência tem mais valor do que a nossa essência.

Verbos como perder, errar, batalhar, recomeçar, reinventar são imbuídos de negatividade, falta de apoio e solidariedade diante de uma sociedade que afasta continuamente a realidade e se aproxima doentiamente da ilusão, do acreditar na superficialidade e a felicidade comprada. Neste contexto, inconscientemente somos conduzidos a aceitar nossa descartabilidade e, automaticamente deixamos de buscar nossa verdadeira missão de vida e nossa identidade.

Doenças como crise de ansiedade, crise de pânico e depressão estão cada vez mais presentes em nossa sociedade e os motivos certamente estão relacionados à necessidade absurda de estarmos enquadrados em um papel social que nos coisifica. A mídia, o movimento pró consumo não apenas de objetos, mas também de comida e de remédios, tudo em exagero, faz com que entremos no mundo das doenças e nos afastem da saúde.

A opção do SER alguém com integridade e robustez evoca o movimento de lutar contra o que nos aprisiona e nos direciona ao não existir. O respeito a sua individualidade começa em si mesmo. O amor à sua identidade não é apenas necessário, mas também fundamental para que você possa transcender ao movimento social que massifica e generaliza desejo, vontade e até mesmo necessidade. O que é bom para todos, o que faz bem para a maioria, pode estar muito longe de ser algo que traduz para você bem-estar, conforto e paz.

Certamente focar em si mesmo é algo muito difícil, porém é obrigatório quando o assunto é saúde mental. A disciplina de olhar para o externo de maneira crítica, de usar diferentes lentes para avaliar diferentes cenários é extremamente importante para que exista lucidez suficiente no sentido de bem escolher e decidir entre integridade x descartabilidade.

Muito provavelmente você perceberá que a sua carreira, a sua vida pessoal e a sua convivência social merecem ajustes e até mesmo mudanças necessárias para que resultados sejam alcançados, mas haverá uma contrapartida importante que é o sentimento de conforto, de acordar todos os dias com a clara noção de que lutar por si mesmo faz todo o sentido.

Por fim, um detalhe muito importante. A premissa espiritual que é compartilhada por praticamente todas as crenças religiosas, “Amai o próximo como a ti mesmo” nos mostra que, quanto mais nos afastamos de nós mesmos, menos somos capazes de espiritualmente sermos empáticos, amorosos em relação aos outros. Não há compaixão, nem respeito. Não há igualdade diante da diversidade e nem tampouco aceitação de limites e dificuldades comuns a qualquer ser humano. Então, neste Natal a sugestão é a reflexão genuína deste “Amai ao próximo como a si mesmo”. Estamos realmente em um momento da humanidade, aonde o resgate do fundamental se faz necessário.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Crime e castigo: a crise ética que vem do Congresso Nacional brasileiro

12 dezembro, 2017 às 09:48  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Dostoievski, que Nietzsche reconheceu como o maior psicólogo da história, por sua capacidade de descrever a alma humana, publicou em 1866, a história de Raskólnikov, um estudante de direito que colocara em xeque a moralidade de seu tempo ao se perguntar porque não poderia assassinar uma velhinha usurária que explorava os habitantes de uma pensão. Depois de muito refletir, a questão, afinal, se apresentou nos seguintes termos: se Napoleão foi responsável pela morte de milhares de pessoas e é tratado como herói, por que ele, Raskólnikov, não poderia matar essa agiota e, com isso, fazer um bem para as vítimas de seus abusos? A pergunta de Dostoivevski em Crime e castigo é uma pergunta ética por excelência: por que não matar quem nos faz mal? Ou, também: por que não matar quando todos matam? Por que não roubar quando todos roubam? Por que não estuprar quando ninguém vai preso?

A onda de abusos que tomou conta da política brasileira, explicitada cotidianamente, parece trazer questões desse tipo à mesa do cidadão comum. Por que não estuprar a minha namorada, se o deputado viperino anunciou que só não estupraria uma colega porque ela não fazia o seu tipo? Por que ser honesto no cotidiano, se os políticos e seus lacaios roubam descaradamente a nação e permanecem impunes? Por que não mentir e iludir, se o presidente da república elegeu esses subterfúgios como regra de conduta? Em resumo: por que atuar eticamente em um país em que ladrões e usurários não só seguem impunes como ascenderam ao poder, fazendo o povo pagar por seus desmandos?

O marido de Cuiabá, que decepou com um facão as mãos da esposa, seguia a mesma lógica. Segue a mesma lógica, também, o agressor que espancou um rapaz homossexual em São Paulo. E é bem provável que a mesma conduta inspire o aumento da violência país afora, dos pequenos aos grandes atos de roubo, abuso e violação aos direitos humanos. Na hora de pagar a conta, na hora de pagar o imposto, na hora de estacionar o carro, na hora de atravessar a rua: parece valer a lei de Gerson que manda tirar vantagem em tudo, embora saibamos sempre, de antemão, que a vida em comum não pode ser construída sobre esses fundamentos, como bem nos lembrou Kant, ao elaborar o seu imperativo categórico: só faça aquilo que você gostaria que virasse lei universal – ou, em outras palavras, só faça aquilo que você gostaria que todos fizessem.

A crise atual brasileira, que nos coloca diante de questões como aquelas formuladas por Dostoievski, é uma crise absolutamente grave. Sua importância e proporção se deve ao fato de a autoridade política, que deveria orientar eticamente as condutas cotidianas, ela mesma é a geradora das práticas criminosas que deveria combater. A crise que normaliza a corrupção e a impunidade é a crise que realmente importa. A crise que seleciona ideologicamente os bons e os maus, de acordo com ideias postiças semeadas sobre o terreno da ignorância e do imediatismo de quem queria tirar x porque x era corrupto, mas cala-se diante da corrupção de y. A crise que tira o pão da mesa de milhares de brasileiros e faz aumentar o preço da energia elétrica e dos combustíveis, tem como raiz primeira o descalabro e a contradição moral de quem dura no poder contando com a lógica do engodo e da infração criminosa mal disfarçada e, com isso, acaba por favorecer as práticas delituosas cotidianas (de pequena ou de grande monta).

Oxalá a pesquisa recente do Datafolha, que mostra que seis em cada dez brasileiros reprova a conduta do atual Congresso Nacional, derive em atitudes sérias de controle dessa gente despudorada e, principalmente, em uma consciência política maior no pleito eleitoral de 2018. Enquanto isso, voltemos a Dostoievski para entender os labirintos da consciência humana e os descalabros que legitimam as atitudes de gente como Raskólnikov.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Encontrando seu verdadeiro propósito

5 dezembro, 2017 às 13:43  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Nossa conversa hoje é sobre um assunto que deveria ter uma importância fundamental em nossas vidas: o propósito. Muito além do que traçar um objetivo, metas a serem cumpridas, ou até mesmo um plano para alcançá-las. Sendo assim, torna-se algo muito mais complexo e também extremamente desafiador defini-lo e mantê-lo como foco em nosso dia a dia.

O propósito traz consigo crenças, valores, personalidade, aptidões e interesses. E, por isso, mais uma vez estamos falando de uma definição que exige olhar a si mesmo e entender sobre si, quem é, o que te motiva, o que te realiza e o que te instiga ir além, fazer mais e melhor. Quando temos um propósito, temos uma força interna que nos impulsiona, temos uma determinação, um comprometimento e um engajamento sem igual.

Não é qualquer dificuldade, empecilho, problema, desconforto ou até mesmo relacionamentos difíceis que desmoronam o propósito de um indivíduo. Muito pela contrário: são as situações contrárias que geram desafios, aquelas capazes de enriquecer e fortalecer o propósito de uma pessoa. Tais situações geram a constante necessidade de crescer, amadurecer e aprender diante da diversidade imposta pela vida de qualquer ser humano. Em outras palavras, quando se tem um propósito, tudo faz sentido, até mesmo as derrotas.

Se você tem seu propósito na vida, torna-se invencível e tal situação é extraordinária. Você é empoderado e, como consequência, tira o melhor de si mesmo. O grande senão é que, para identificar seu verdadeiro propósito, você precisa ir a fundo. Entender a si mesmo diante das inúmeras opções que o mundo lhe apresenta, tanto na sua vida pessoal como na sua vida profissional.

Ninguém nasce com um propósito, mas todos somos capazes de defini-lo, estruturá-lo e significá-lo como proposta de vida. Em tudo o que fazemos, podemos simplesmente seguir o fluxo, ignorar quem somos e fazer parte do todo. Mas, ao escolher esta estratégia, estamos deixando de lado nosso propósito. Quando tomamos consciência integral, isto é corpo, mente e espírito em sintonia, firmamos nosso verdadeiro propósito na vida. Em outras palavras, somos os únicos responsáveis em definir este caminho.

É muito fácil escolhermos ser pais ou mães como todos fazem. A questão é fazer tal escolha porque é seu propósito. Uma mãe que decidiu a sua função na vida para fazer parte da sociedade é diferente daquela que, não importando as noites mal dormidas, as desventuras do dia a dia, o cansaço e o estresse que fazem parte, a sua dedicação permanece a mesma, o ser mãe ganha mais significado e seu engajamento lhe faz ir além e ser uma mãe cada vez melhor. Esta mãe não calcula as horas aplicadas na criação dos seus filhos, nem tampouco pensa que pode estar perdendo seu tempo enquanto brinca e ri com seu pequeno ou grande que lhe abraça, sua única missão é ver esta criança feliz, aprendendo a ser alguém capaz de fazer por si e pelo outro. O mesmo é válido para os pais que têm a paternidade como propósito.

Com a vida profissional não é diferente. Quando fazemos aquilo que nos significa e nos remete à percepção de que nossa capacidade criativa, nossa vontade de ir além e fazer o impossível são constantes, mesmo considerando que temos barreiras e dificuldades de todos os tipos que precisam ser ultrapassadas. Por isso que, quando temos propósito, mesmo diante de uma demissão ou de uma rejeição em nosso ambiente de trabalho, nada nos tira do foco e nem mesmo é capaz de afetar a responsabilidade pessoal de seguir em frente, buscar novas alternativas e te conduzir a um lugar ou a um cargo onde você realmente possa fazer o que acredita e o que te torna uma pessoa definitivamente realizada.

Quando vemos o propósito de vida de forma ampla, envolvendo a vida pessoal e a profissional, mais um desafio surge: o equilíbrio entre ambas. O grande truque aqui é ponderar seus valores e crenças. Busque seu propósito final, em outras palavras, sua frase que define a sua vida e quem você é.

Imagine este exemplo: meu propósito final é ter status, ganho material e poder como empreendedor. Isto não exclui você de ser um bom pai ou uma boa mãe, mas esclarece que estas funções não são as mais importantes e não fazem parte do seu propósito, ou seja, muito provavelmente exigirão maior esforço, menor dedicação e até mesmo pouca motivação para encontrar tempo ou para exercê-las de fato.

Outra possibilidade seria este exemplo: meu propósito final é transformar a vida das pessoas, ter qualidade de vida e ser mãe/pai. Isso não significa que inexiste a chance de ocupar um cargo de destaque, onde você tenha poder. Mas, se você se dedicar mais à maternidade e à qualidade de vida, pode significar que seu interesse pelo poder, pelo status e até ganho material não sejam lá motivadores para que exista uma dedicação a ponto de alcançar estes objetivos.

Diante destes dois exemplos, o que vale refletir é que devemos tomar nossa decisão pautados em nossa consciência e nossa verdade interior. Como diz aquela música do Legião Urbana “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira…”. Então eis alguns sinais de que você está no caminho contrário do seu propósito: perde a hora constantemente, faz o que faz por obrigação, não encontra “sentido” nas suas atividades, não se preocupa em melhorar ou fazer melhorar, não busca novos conhecimentos no que faz, não cria ou inova em seu dia a dia, todo e qualquer problema te faz pensar em desistir.

Portanto, olhe para si, aprofunde seu ser, seja verdadeiro e defina o propósito que seja capaz de te definir. Signifique-o para a sua vida, para que a sua vida, então, tenha significado. É assim que você conseguirá ir a frente e não desistir por nada!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Gere novos insights a partir de novos estímulos

30 novembro, 2017 às 08:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

A rotina da vida como ela é, muitas vezes necessária, torna-se restritiva para a criatividade e inovação. Vidas muito programadas e inseridas dentro da “mesmice” podem se tornar limitadoras. O que, muito provavelmente, trará como consequência impactos negativos no âmbito pessoal e profissional.

Em um mundo dinâmico e altamente complexo, buscar sair do quadrado, ampliar os horizontes e analisar a vida com diferentes perspectivas é essencial. Muitas vezes a solução de problemas vem com insights importantes que só surgem quando nos abrimos para o diferente e para o novo.

“Pirar” de vez em quando não faz mal a ninguém. Olhar a vida de cabeça para baixo, no cume de uma montanha ou debaixo d’água são estímulos para o corpo, a mente e o espírito. Você pode ser conduzido a uma viagem na vida, onde explorar e aventurar traz um potencial de ideias e até novas motivações para que você possa viver com maior realização e bem-estar.

Mas por que ficamos tão presos e condicionados a nossa vidinha de sempre e não nos colocamos com maior frequência a diversidade do mundo em que vivemos? Por que nos submetemos aos padrões sociais, em que muitas vezes tolhemos nossa potencialidade e restringimos nossa verdadeira felicidade?

Talvez o motivo principal seja que, quando entramos na bolha, esquecemos de nossa individualidade. Quando fazemos parte do todo, a vida pré-programada vem com uma aparente sensação de bem-estar e conforto, nos fazendo entender que é a única alternativa apresentada.  Isso não passa de aparência.

Experimente algumas vezes novas sensações, emoções e sentimentos e veja o quanto a sua mente expande e como você consegue gerar insights. A cada novo insight você recebe feedbacks que te afastam cada vez mais da zona de conforto e te aproximam cada vez mais da zona que promove a verdadeira realização. Afinal, quanto mais aproveitamos o potencial que recebemos, a sensação é simplesmente maravilhosa! Experimente!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O preconceito é filho da ignorância

16 novembro, 2017 às 10:57  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Quem tem preconceito é portador de uma deficiência terrível. Falta a ele a condição básica da vida ética: a capacidade de gerar um conhecimento a respeito do mundo. O preconceituoso, por isso, sofre de uma atitude antifilosófica por excelência: ao invés do pensamento crítico, ele dá lugar à ignorância e orienta-se por uma distorção da realidade de tal gravidade que o leva a projetar sobre os outros os estereótipos criados por sua mente doentia, em oficinas escuras e fétidas, onde escorrem os piores venenos que vertem da civilização. “Negro é assim”, “gay é assado”, “mulher faz isso”, “homem não faz aquilo”: essas e outras expressões fazem parte do vocabulário cotidiano desses doentes, cuja enfermidade nasce da ignorância e do obscurantismo que os impedem de acessar a verdade das outras pessoas, suas histórias pessoais, seus anseios e suas lutas cotidianas.

Esse tipo de gente, no geral forjada pelos programas televisivos e pelas mensagens mortiças de grupos cujo interesse é manter populações inteiras no seu cabresto moralista, parece incorporar e reimprimir nas atitudes cotidianas precisamente aquilo que mais nos envergonha enquanto seres humanos, aquilo que precisaríamos deixar para trás quando se trata de organizar a nossa vida social orientados pelo respeito à dignidade da pessoa humana. Afinal, o grau de respeito de uma pessoa pela outra é o índice da lucidez e da justiça geral de uma sociedade. Conforme afirmou o filósofo Adorno, uma sociedade emancipada não aceita o preconceito quando ela é capaz de efetivar os ideais universais na reconciliação das diferenças, ou seja, nas práticas cotidianas de pessoas que se encontram coabitando um mesmo mundo, embora preenchidas por ideias e ideais díspares. Considerar positivamente essa situação é o primeiro caminho para uma convivência pacífica, pela qual cada ser humano encontra no meio social as condições para se desenvolver plenamente. E isso depende, obviamente, do direito que cada um tem de ser visto pelo outro o mais próximo possível daquilo que ele realmente é, para além de todos os estereótipos, que são atributos fixos usados em substituição à verdade de cada indivíduo. O estereótipo escraviza e enjaula o ser humano em opiniões alheias a eles mesmos e, quanto a isso, não há nada mais contrário ao ato de filosofar, ou seja, alimentar a liberdade de cada sujeito em relação à sua própria história.

Por isso, não há coisa mais avessa à filosofia do que o preconceito e, mais, se há um lugar de onde ele deveria ser banido em definitivo é na filosofia, pois todo agir fixo, orientado por padrões e rótulos que são projetados sobre o outro, acaba por impedir o processo reflexivo e crítico, que são requisitos básicos do ato de filosofar. Onde há preconceito não há atividade reflexiva, porque o preconceito se alimenta da ignorância e da distorção, da deficiência, do engano e da pobreza intelectual. E isso tudo, na maioria dos casos, como resultado das necessidades psíquicas do próprio sujeito preconceituoso, que ao projetar sobre os outros seus estereótipos vexatórios, mal esconde o seu medo de se colocar diante do outro, de expor-se às suas demandas e modos de ser. Ele quer expulsar da própria consciência tudo o que é considerado ameaçador e, como medida de segurança contra os temores que são seus, tenta adaptar o outro, limitando-o às “caixinhas” que ele mesmo construiu para si. O preconceito, por isso, nega o uso autônomo da razão e não é mais do que um sintoma subjetivo da irracionalidade objetiva que ele projeta na forma desses estereótipos.

Ora, se o conceito nasce do estudo, do conhecimento e do interesse pelo objeto ou a pessoa que se apresenta como tema, o pré-conceito é uma aversão à experiência do outro, uma recusa de reconhecimento, uma negação da alteridade que, no geral, acaba na violência, como uma espécie de ato contínuo pelo qual é preciso destruir aquele que, diante de si, sendo desconhecido e indesejado, é gerador de incômodo e mal-estar. É o que está posto na própria origem etimológica da palavra preconceito: “praejudicium”, em latim, corresponde a um prejuízo que afeta, primeiro e de forma mais grave, a vítima, mas também o seu algoz. Não à toa, o preconceito tem sido o perigoso combustível da intolerância que continua levando a humanidade a guerras cruéis e insanas contra si mesma.

Nesse caso, uma alternativa urgente é rever os nossos processos educativos, de forma a evitar que a educação acumule técnicas de adestramento, para fazer dela um instrumento de liberdade, mobilizadora da reflexão crítica e do afeto, capazes de nos aproximar do outro com interesse. Nunca o lema iluminista foi tão atual: “Sapere aude”, ou seja, “tenha coragem de usar sua própria razão”. Está mais do que na hora de a educação nos ajudar a vencer as ideias preconcebidas, recebidas sem crítica, como aceitação adesiva e postiça de ideias alheias. Isso não é outra coisa que ignorância, presunção de saber e jactância cuja epidemia exige, de novo, a intervenção dos médicos da cultura.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Afinal, o que é reconhecimento profissional?

14 novembro, 2017 às 14:37  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Quando se fala em reconhecimento profissional, automaticamente o lado financeiro vem como a contrapartida mais comum. Não necessariamente aumento da remuneração, mas bônus e premiações são estratégias amplamente utilizadas. Entretanto, muitas pesquisas demonstram que o reconhecimento financeiro está longe de ser o mais importante. Até porque, quando utilizado, seu efeito passa rápido e não gera valor agregado suficiente para que o profissional se sinta efetivamente valorizado.

Atualmente, as organizações oferecem múltiplos desafios aos seus colaboradores. Diante de um cenário turbulento e complexo que vivemos atualmente, as demandas são cada vez mais exigentes e transformam o ambiente profissional, tornando-o estressante e, muitas vezes, fonte de desprazer. Neste sentido, diariamente observa-se um movimento extraordinário de superação, de buscar motivação apesar das diversidades. Estamos falando de pessoas que abrem mão de suas vidas, famílias, filhos e de si mesmas para dedicarem-se a uma tarefa que está sendo considerada essencial, estratégica, de suma importância.

Inegavelmente, quando existe este nível de dedicação e o resultado almejado foi conquistado, o reconhecimento tem que vir de outra forma e ocupar um outro lugar. Os profissionais demonstram grande frustração quando na entrega do seu suado trabalho recebem como contrapartida um “poderia ser melhor” ou “alguns detalhes faltaram”. É como estar na escola, tirar uma nota 8,0 ou 9,0 e o feedback é, poderia ter sido um 10. Principalmente porque o resultado depende de várias partes envolvidas.

Mesmo as organizações prezando pela alta qualidade e alto desempenho, elas próprias muitas vezes apresentam as suas falhas, fraquezas e cometem erros estratégicos. As próprias organizações são imperfeitas e refletem o ambiente aonde estão inseridas. Portanto, não há como equipes e profissionais tirarem um 10, quando a empresa não apresenta condições para que este resultado seja alcançado.

Esta constatação traz a necessidade de associar o reconhecimento à reciprocidade. Se o profissional entende e atua em sua organização respeitando que ela própria tem as suas limitações, nada mais justo do que a empresa apreender seu resultado dentro desta realidade e, principalmente, reconhecer todo o esforço e empenho para tentar fazer o impossível diante do contexto e realidade organizacional aonde está inserido.

Factualmente, a organização pode e deve criar gestos, símbolos e momentos, onde as pessoas são vistas como vencedoras, como vitoriosas. Persistir, apoiar a equipe e buscar o inatingível deveriam ser, por si só, motivos para comemorar. Palavras não mudam o mundo, nem mesmo pessoas, mas elas podem ser o início do reconhecimento. Gratidão no verbo e na ação podem gerar um fôlego adicional para mais uma etapa, para aumentar o ritmo ou corrigir uma falha.

No mundo em que vivemos, muitas vezes parece que apenas o perfeito e o 100% justificam qualquer movimento para reconhecer o outro. É urgente que mudemos o foco. O meio no qual estamos traz consigo a clara e nítida certeza de que mudanças são impostas a todo o momento. Nem empresas e nem pessoas estão preparadas para responder tudo dentro do princípio da perfeição. Vamos então buscar maior senso de realidade e maior flexibilidade diante do reconhecimento. Do contrário, jamais estaremos satisfeitos ou realizados em nosso trabalho e isto reflete negativamente para o eu, para a equipe e toda a empresa.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.