Arquivos da categoria: Geral

As ciências humanas: entre o descrédito e a resistência

10 outubro, 2017 às 15:43  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

pensamento

 

Jelson Oliveira

Desde quando a modernidade recusou a antiga e honorável separação entre teoria e prática, instalou-se na cultura ocidental um conflito que permanece subjacente aos modelos educacionais de nossos dias e que muitos teóricos (lembro especificamente de Martha Nussbaum) têm chamado de “crise das humanidades”. Nesse cenário, cidadãos comuns e homens de estado não demoram em tomar a palavra para acusar o conhecimento puro de insuficiente e desnecessário. O resultado é que as ciências humanas passam a ser recusadas em nome das utilidades concretas do cotidiano, obra de interesses políticos, ideológicos e mercantis que gerenciam a vida das sociedades contemporâneas. Nas palavras do filósofo alemão Hans Jonas, em termos educacionais, “trocou-se nobreza por utilidade”.

Segundo esse modelo, ao invés de empenhar-se no desenvolvimento pleno das potencialidades humanas, a educação deve conduzir o saber ao âmbito do fazer, orientado agora pela sanha tecnológica e pelo regime econômico que encaminha nossas energias para a geração de lucro e para a produção de coisas que ocupam diariamente as prateleiras de nossos supermercados como bens indispensáveis. Revestidos pelo epíteto recomendatório do “novo”, tais produtos induzem ao consumismo exacerbado que se retroalimenta, alheio às suas consequências nefastas ao meio ambiente. O resultado é que o conhecimento perdeu a sua raiz reflexiva e seu potencial de realização da essência humana, reduzindo-se a uma atividade operacional que avança ininterruptamente para todas as direções possíveis, incapaz de avaliar eticamente os danos possíveis ou prováveis. Educamos o homo faber para substituir o homo sapiens: não mais pensadores, mas fazedores.

Qualquer estudante de ensino médio hoje no Brasil entende o que é isso: vive-se a pressão pela competência, a pressa pelo sucesso profissional, a imposição de valores como inovação e empreendedorismo, eles mesmos impulsos meramente econômico-financeiros de vidas medianas empobrecidas e entediadas. Esses jovens, por isso, aprendem desde cedo que as humanidades não têm eficácia e utilidade, a não ser como refrigério psicológico em algum momento de stress ou como algum tipo de luxo excêntrico de horas vagas.

Isso, todavia, não é tudo. As humanidades não são apenas inúteis no atual cenário civilizatório. Elas são também indesejadas. Muitos de meus colegas professores, além de ensinarem disciplinas como história, filosofia e sociologia, são obrigados também a defendê-las dos ataques vindos de todos os lados, inclusive de altas autoridades, que têm o péssimo hábito de discutir assuntos educacionais na ausência de especialistas, substituídos por gente de todo tipo, de atores pornôs a pastores fundamentalistas. Em sala de aula, já vi estudantes repetirem as mesmas incongruências, na maioria dos casos pautados em opiniões sem argumentos – a forma mais perigosa de opinar – que fazem a ignorância se alastrar como um pernicioso surto.

Ouvindo a palestra do professor Adriano Correia, em evento recente no qual participei em Medellín que tinha como tema justamente o porvir das humanidades nas sociedades ibero-americanas, me dei conta de duas razões que explicam a tal crise que afeta as ciências humanas. A primeira tem a ver com o potencial crítico da área de humanidades; a segunda com seu potencial criativo. Como sugeriu o meu colega, de um lado, as disciplinas da área de humanas costumam trazer à luz os pressupostos e os fundamentos do próprio processo que as teria levado quase à clandestinidade e isso, como se sabe, implica analisar como a educação foi reduzida seja a um negócio lucrativo seja a uma rédea social capaz de manter os possíveis revoltosos na passividade. De outro lado, as humanidades, por seu potencial criativo, incluem as metafísicas, as éticas do futuro, as ilusões literárias, os mundos politicamente possíveis, as utopias e os desejos por revoluções. Nesse caso, elas têm o poder de romper os horizontes fechados aos quais devíamos, enquanto povo, nos submeter. Elas imaginam outras formas de vida que não apenas essa, projetada pelo sistema neoliberal e suas ordenações de produção, consumo e lucro. As humanidades, afinal, nos falam de gentes, ideias e ideais considerados perigosos, na medida em que relativizam as estruturas e quebram a lógica da submissão e da inércia política. Crítico e criativo, o estudante de hoje poderia recusar a censura que lhes querem imputar em nome da ordem e do progresso.

Diante desse cenário, as ciências humanas são ainda mais necessárias e urgentes. A elas cabe reafirmar os valores de uma educação plural, orientada para a afirmação das liberdades e dos direitos, da democracia e da cidadania, do respeito às diferenças e da valorização de metodologias de ensino que promovam a autocrítica, a independência intelectual e a capacidade de transformar a sociedade para melhor, vencendo o nevoeiro que nos atemoriza. Agora, como nunca, cabe às ciências humanas ajudar a sociedade a avaliar os caminhos pelos quais decidiu seguir. Vale sempre lembrar, com Nietzsche: em épocas de epidemia é que os médicos são mais necessários.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

A ditadura do bem-estar

3 outubro, 2017 às 16:53  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_349217183

 

Daniella Forster

De forma mais ou menos explícita, mais ou menos virtual, mais ou menos intensa, aparentemente, vivemos a “Era da Ditadura do Bem-Estar”. A obrigatoriedade de sempre sorrir, demonstrar alegria, felicidade, prazer e paz, mesmo quando tudo parece desmoronar, corrói a sociedade moderna e transforma as pessoas mais realistas em amargas, problemáticas e até mesmo doentes.

Podemos não perceber, mas há uma necessidade psicológica para vivermos lutas, perdas e dificuldades através de sentimentos compatíveis. A dor e sentimentos negativos geram reflexão, análise, maturidade, decisão e superação. Negligenciar este lado real da vida como ela é gera superficialidade e ilusão. Gera foco na aparência e não na essência. Por isso temos nas redes sociais constantes manifestações de bem-estar, senão exclusivas realidades fabricadas, que apenas aumentam os números de “likes”.

Neste sentido, a ditadura do bem-estar parece estar camuflada no inconsciente coletivo. Entretanto, aumenta cada vez mais o número de crianças e jovens que se desconectam do mundo real e que se abraçam totalmente ao mundo ilusório. Problemas inexistem ou são magicamente resolvidos. Quando as coisas parecem não estar no caminho, sempre há como reiniciar e apagar o que não deu certo nas tentativas anteriores. Não se erra, apenas se “compra” uma nova vida.

Por falar em “comprar”, existe um outro efeito da ditadura do bem-estar. Se você viver simplesmente todos os dias da sua vida economizando, cumprindo seu trabalho, fazendo pelos seus familiares, nada disto é popular, nem tampouco desejado pelos outros. Não é bem-estar. Nenhum destes atos, da vida como ela é, aparecem em publicações ou são apreciados como lutas diárias que merecem aplausos e compartilhamentos. São apenas manifestações banais, de pessoas menos importantes. Mas vamos combinar que a simplicidade da vida pode trazer alegrias impagáveis.

Muitas histórias de pessoas exemplares pelas suas superações de vida, de batalhas para estudar, entrar em uma universidade, pagar seus estudos ou voltar a andar/falar são colocadas em abas secundárias. Talvez se esquecidas, deixam de gerar o incômodo fundamental de que existe sim um lado duro, amargo e difícil que exige confronto, embate, determinação e aprender que, muitos “nãos” são apresentados para que saibamos valorizar o suado “sim”.

Chegamos então ao maior incentivador da ditadura do bem-estar: o EGO. Este que nos escraviza, nos faz imaginar que sem erros somos pessoas melhores. Nos faz acreditar que sem rejeições somos amados. Nos cria a ilusão que a maior vitória na vida é deixar os outros para trás e ser o primeiro lugar em qualquer competição. Aliás, o EGO nos aprisiona no desejo. O EGO, que sempre está certo, é o perfeito, o realizado no trabalho e na carreira, a pessoa com a aparência perfeita, que faz parte do Todo, que está ïn” ou simplesmente na Moda.

Chegamos então a uma conclusão inevitável: em nossas vidas, o maior desafio é o equilíbrio. É poder ser otimista, mas realista. É administrar a falta com a garra. É absorver a rejeição com força para não desabar. É enfrentar os medos, no tempo certo, um de cada vez. Mas ninguém chega ao equilíbrio “fingindo” para si mesmo, nem tampouco se iludindo ou simplesmente criando outra realidade. 

Façamos então do nosso EGO a nossa saída. Busquemos nos conhecer e reconhecer, nos aperfeiçoar, mas também nos aceitarmos dentro de limites. Podemos sim estar mal, não conseguir dar conta de tudo, não estar 100% produtivo, não estar em uma fase boa para novas ideias, para conversarmos ou nos relacionarmos. O que precisamos é, diante disto tudo, entender tais dificuldades e transforma-las em aprendizados, estratégias, alternativas. Porque é disto que a vida é feita.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

A arte de escrever um trabalho acadêmico: quatro confissões e duas advertências

15 agosto, 2017 às 17:05  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_531804850

Jelson Oliveira

Na vida acadêmica, já vi muito espírito atormentado com a obrigação de escrever. Trabalhos, monografias, dissertações, teses e artigos científicos costumam tirar o sono de muita gente, arrefecer os ânimos nas horas finais, desiludir, deprimir e provocar feridas que, de perto, parecem incuráveis. À dor e ao sofrimento, não raro, segue-se um alívio extraordinário, embora na maior parte das vezes ele venha acompanhado de uma frustração graúda: o trabalho, afinal, não saiu conforme a qualidade que se pretendia e, consequentemente, não recebeu nota e louvores esperados.

Eu falo por experiência, acreditem! E é por isso que hoje escrevo aos atormentados. E o faço inspirado pelo instigante livro do meu querido amigo Clovis Ultramari, Como não escrever uma tese e dos diálogos que estabelecemos com outros colegas em torno dessa obra. Vou fazer quatro confissões e duas advertências. Depois dos quarenta, a gente começa a usar subterfúgios e perde o medo de parecer pedante. Desculpe o escritor. Se ajudar, leia até o fim. Se não, ignore – ou melhor, quem sabe, escreva a sua própria lista.

Quatro confissões

 

  1. Toda a minha escrita nasceu de uma inveja: “eu quero escrever como esse cara!” A primeira experiência seriamente invejosa, eu a tive aos dezessete anos, quando li um texto de três páginas, datilografado em papel de seda, anonimamente deixado no meio de um livro que tomei emprestado em uma biblioteca de Belo Horizonte. Li aquilo estupefato, como quem toma uma das decisões mais sérias da vida, deliberei para mim mesmo: eu quero escrever assim. Tudo o que eu fiz a partir daí no campo da escrita segue esse propósito. Leio vorazmente para alimentar essa inveja insaciável. Leio e sublinho (a caneta) as frases e as passagens que, nas obras alheias, eu gostaria que fossem minhas. A inveja, enfatizou Hesíodo, também pode ser uma energia boa.
  2. Toda a minha escrita é fruto de uma falta: como a inveja é coisa de fracos (ensina a boa moral), eu logo me dei conta que ela era produto da minha debilidade. “Eu não não sei escrever, por isso escrevo!” Escrevo porque a arte da escrita me falta. Caso contrário, não escreveria. Vale aqui a máxima de Aristóteles: “a excelência não é um ato, mas um hábito”. É preciso praticá-la. Reconhecer a própria míngua é o que me empurra para o computador como quem vai, de boca seca, à abundância da fonte.
  3. Toda a minha escrita nasceu de meus encontros: eu acho, sinceramente, que nunca escrevi uma linha que não tenha sido antes dita em voz alta, em uma mesa de bar, em um congresso, em uma conversa de corredor. O diálogo fomenta a escrita como nada. É ele o fertilizante do pensamento, o impulso do texto, a provocação da palavra. Mas eu deveria falar também dos meus desencontros, das disputas e das separações, das palavras disruptivas que, sendo ultraje, também foram estímulo e incitamento. Afinal, como sugeriu Plutarco, é preciso tirar proveito dos nossos inimigos.
  4. Toda a minha escrita é uma vontade de perversão: ao escrever, sempre quis perverter o que tinha lido, o que tinha ouvido da boca de um amigo, o que disseram os grandes pensadores, o que foi festejado como verdadeiro, moralmente correto ou inquestionavelmente belo. Falo de conteúdos e também de estilos. Não há nenhum propósito que me guie a não ser esse do avesso, do inverso, do oposto. Quero as objeções. A lista dos infiéis é a minha preferida, com todas as suas contradições e contravenções. Obviamente, a tarefa é árdua e pretensiosa. Inalcançável, permanece no geral recaída no terreno da intenção. Mas é aí que eu espero que um dia ela floresça e venha enfeitar as minhas páginas.

 

Duas advertências

  1. Não acredite demais em você: não é só a unanimidade que é burra, como sugeriu Nelson Rodrigues. A pior burrice é aquela que nos fecha na nossa própria ignorância. A lição veio de Sócrates e a sua festejada máxima “só sei que nada sei”. Se em algum lugar essa frase faz sentido, é na vida acadêmica. Tem sempre alguém que sabe mais do que você ou que sabe diferente de você. É preciso aceitar essa realidade para aprender a escrever com desenvoltura e naturalidade. O contrário será obstáculo e muro alto. Na escrita, a gente revela não o que sabe, mas o quanto não sabe. Escrever, sugeriu Nietzsche, é uma forma de esconderijo. E essa é a diversão da coisa. Não espere elogios. Prefira as acusações e as flechadas. Elas doem, é certo. Mas também fortalecem.
  2. Não acredite em milagres. A vida de um escritor é feita com sangue, olho ardente, dor nas costas, suor e lágrimas, madrugadas em claro, cancelamento de viagens, sábados e domingos inteiros sobre páginas incompreensíveis, incompreendidas. Rascunhos e mais rascunhos. Páginas e páginas inúteis. Arquivos perdidos. Vida deteriorada, procrastinada, suspensa. Afinal, quem não for capaz de deixar a sua vida e seguir a palavra, não chegará a lugar nenhum. Escrever é sacrifício. E os sacrifícios fazem parte da vida. Não esqueça: pedra que rola não cria limo.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Conexões digitais em prol de oportunidades reais

8 agosto, 2017 às 12:59  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

WhatsApp Image 2017-08-08 at 12.01.53

 

Daniella Forster

Cada vez mais o mundo do trabalho busca opções associadas à tecnologia e às redes sociais para captar talentos e ampliar relacionamentos. Esta realidade intrínseca ao mundo das organizações e também das pessoas que buscam empreender, associar-se, buscar parcerias e oportunidades.

Analisando este contexto, é inegável que novas competências sejam adquiridas. Relacionar-se virtualmente demanda comunicação apropriada e capacidade de envolver a outra parte, de criar interesse no perfil ou na ideia proposta. Em outras palavras, é um processo de auto-conhecimento, de percepção de contexto, de identificar necessidades, de entender a melhor maneira de entregar resultados e obter retorno. Visto desta forma, torna-se complexo e um desafio constante.

Pensar as redes sociais a partir destas competências certamente conduz a algumas reflexões. Muitas vezes, o fator mais importante não está na quantidade de relacionamentos, mas sim na qualidade, no foco. Quando você propaga seu perfil, suas ideias, sua maneira de SER no mundo, automaticamente você está disseminando a sua identidade e, consequentemente, você receberá curtidas e compartilhamentos que estão associados a este posicionamento.

Se você consegue atenção, repercussão e propagação, excelente, mas pense que seu objetivo é conquistar relacionamentos sustentáveis, que consigam interpretar e traduzir o seu perfil com certa coerência e discernimento. Só assim receberá convites, será lembrado e garantirá oportunidades reais. Existem muitas experiências interessantes de candidatos que foram reprovados para determinada vaga, porém a forma como estabeleceram o relacionamento durante o processo, favoreceu chances posteriores para contratação em outra vaga.

Outras questões também merecem ponderação. Com o avanço tecnológico, surgem novas ferramentas e também novos modelos de atração de talentos. Testes interativos, dinâmicas on-line, aplicativos de celular para entrevistas, vídeos, conferências e tantas outras tecnologias surgem como opções para que apenas poucos candidatos cheguem à fase presencial. Tais ferramentas também são muito usadas quando buscam-se ideias, projetos e parcerias. Infelizmente, muitas pessoas perdem excelentes oportunidades por desconhecer estas tendências de mercado ou até mesmo por não creditar a devida importância para estas transformações.

Mas a realidade é que, cada vez mais as organizações buscam inovar, garantir a conexão de pontos que conduzem ao conhecimento integral de pessoas. Portanto, lembre-se que, quem você é, como você se mostra “ao vivo e a cores”, como você se relaciona pessoalmente e virtualmente, como você compartilha suas selfies, sua vida pessoal e profissional, gera ao mundo uma tradução com conotação positiva ou negativa para os diferentes cenários do mundo do trabalho. O mais importante é você apreender que o todo é constituído por partes. E que as partes descuidadas geram um todo fragmentado e, portanto, não identificado. E que a falta de identificação pode te conduzir para propostas indesejadas ou simplesmente não te conduzir para lugar nenhum.

O Fórum de Carreiras trará esse e muitos outros apontamentos. Conheça os palestrantes e a grade do evento aqui.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Desafiando-se na mudança

1 agosto, 2017 às 17:56  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_497643082

 

Daniella Forster 

A essência da natureza humana pressupõe a necessidade de certa estabilidade, segurança, conforto e sentimento de apoio. Entretanto, temos novos fatores externos importantes da vida dita moderna. Citando alguns, o avanço tecnológico, a complexidade crescente da sociedade e a inversão de valores, onde o ter torna-se mais importante que o ser. Assim, surgem demandas diárias que fazem as pessoas sentirem-se continuamente expostas a situações, momentos e relacionamentos que exigem mudanças.

Neste sentido, mudança exige um esforço considerável, trata-se de desafiar-se continuamente e respeitar os passos necessários para garantir a sua efetividade. Mudar rápido demais, significa muitas vezes “performar”, atuar, fingir que mudou. Mudar verdadeiramente implica em lutar consigo mesmo, abdicar de suas até então verdades, de enfrentar as suas contradições e amadurecer as suas limitações intelectuais, emocionais, comportamentais. Em outras palavras exige tempo as principalmente sinceridade consigo.

Ninguém muda preso ao passado, amarrado em seus erros, atormentado em suas culpas. Só muda quem transcende a sua própria história, sendo capaz de gerar experiência e conhecimento para tornar o hoje um viver consciente, mais adaptado, mais flexível, mais aberto, mais corajoso diante das adversidades e dificuldades inerentes à sociedade atual. Só muda quem vê o futuro como um projeto que só ganha força e consistência, se devidamente considerado dentro da realidade, com certa dose de indefinição e instabilidade.

Em outras palavras, as escolhas e decisões de cada indivíduo precisam refletir cuidado, amor próprio. Já que nosso entorno pode ser duro, insensível, pesado e dramático, buscar estrutura é fundamental. Relacionamentos íntimos saudáveis e com certa estabilidade, trocas positivas de carinho e afeto podem favorecer maior competência para administrar intempéries relacionadas ao cotidiano. Atividades profissionais que dignificam e usam ou incrementam o seu potencial, que te transformam em uma pessoa melhor, também geram base sólida para absorver todo e qualquer desiquilíbrio intrínseco à carreira profissional.

Então, sem medo de olhar no espelho, de ver que a imagem refletida encontra-se em estado de choque, apavorada diante de certos desafios. Mudança exige superação e coragem, principalmente quando nos confrontamos com nossos inimigos internos que foram criados ao longo da nossa trajetória. Expulsá-los e colocar em seu lugar novas percepções e olhares, certamente favorecerá uma perspectiva mais positiva e uma mudança verdadeira.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Desculpe a filosofia. Desculpe, há filosofia

27 julho, 2017 às 11:10  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_381999814

Jelson Oliveira

O professor de filosofia é daqueles seres que precisa se desculpar por existir. “Desculpem, estou aqui para o bem de vocês!”, titubeia entre apaixonado e vexado a cada início de semestre, enquanto eles, os estudantes, olham com estranheza o desengonço do ser que, ali, parece trazer notícias de mil profundezas. Como pode que alguém ainda insista em pedir-lhes que leiam um texto tão velho quanto o de Aristóteles ou aquelas chatices de um Descartes ou de um Kant, entre picumãs e teias de aranha? Como pode que alguém ainda acredite que essas antiguidades caibam no currículo, que tenham hora marcada, prova e outras exigências acadêmicas? É preciso convencê-los do valor do pensamento em época em que a ignorância e a preguiça do pensar grassam a todo vapor. É preciso convencê-los da importância da antiguidade em época em que o imediatismo e o utilitarismo reinam incessantes, sob a perenização e a glamurização do presente absoluto. É preciso mostrar-lhes aquela utilidade que esconde nas coisas inúteis; falar-lhes do nada, quando é tempo do excesso; falar-lhes da virtude, quando é tempo de laisser aller. A cada início de semestre, ao professor de filosofia cabe derrubar um muro tão alto que, vez ou outra, ele lhe cai sobre a cabeça.

Nietzsche uma vez escreveu que é em épocas de epidemia que os médicos são mais necessários. A frase, além de verdadeira, é imensamente adequada. Quanto mais o professor de filosofia tiver de dizer a que veio, mais a filosofia comprova a sua urgência. Quanto menos desejo pela filosofia, mais a sua necessidade. Quanto mais ela incomodar e causar desconforto, mais ela mostra a que veio. Filosofia, afinal, não é tráfico de utilidades, saberes e informações que se planta à espera de colheita imediata. A tarefa da filosofia, sugeriu uma vez Foucault, é mostrar aos outros que eles são mais livres do que pensavam anteriormente. E essa é uma tarefa sempre póstuma, demorada, de quantia duvidosa. Mas a sua liberdade é tão ampla, que nos faz livres primeiro do maior dos grilhões dos nossos tempos, qual seja, a pressa do produtivismo, a validade do lucro e da felicidade fácil, vendida nas propagandas de margarina. Diante dessas expectativas, a filosofia é um esforço para o avesso, para pensar fora da caixinha, problematizar o dado, repensar os valores. E talvez esteja aí a frustração que ela causa. Ela é, como sugeriu Nietzsche, uma escola da suspeita. Por isso mesmo, não se espera dela adequações, ajustes, harmonias…

À filosofia pertence, antes, um desconforto só seu. E nele, a sua própria diversão. O que há de inconveniente e constrangedor na sua presença escolar e acadêmica, é o que faz da sua pergunta, uma questão tão central. Sua amolação e seu transtorno guardam o potencial da sua atividade, aquela que descongestiona as mentes, provoca o cansaço, quer acordar os sonolentos. Em meio a conjecturas sobre o fogo de Heráclito, o afã (anti)erótico de Platão e os rebuscados discursos de Zaratustra, o professor de filosofia quer encontrar mais: o que ele busca é o ser humano que habita os seus estudantes. E isso não para inculcar verdades onde mora o vazio e a dúvida. Não. Trata-se de outro poder: o poder de despertar o que está adormecido, em potencial. Filosofia é tarefa incendiária. E seu incêndio é o calor amoroso que surge do susto e da admiração e que nos toma inteiros, no amor ao saber – um amor a nós mesmos, um esforço por descobrir quem somos.

Por isso, a filosofia é vária. Na sua tarefa, ela mesma se contradiz. Sua contradição, contudo, é outro elemento de sua arte. Não existe uma única filosofia. Essa palavra mesmo, é uma abstração oca. Primeiro porque há muitos conteúdos nisso que, genericamente, chamamos de filosofia. Depois, porque há muitas formas de dizê-la, milhares de discursos, milhões de estilos e possibilidades retóricas. E, sobretudo, não há uma filosofia porque a filosofia, para ser o que é, exige a divergência, a verdade procrastinada até o próximo embate, a experimentação do pensamento, o exercício da boa Éris, que lubrifica o pensamento e atiça os ânimos para a projeção de novas interpretações e para o lançamento de novos horizontes de sentido. A graça da filosofia são as portas abertas para todos. No seu terreno, quanto mais dissenso, melhor para a verdade, que é a sua sina e o seu paradoxo. Quanto menos consenso, mais ventilação, brisa e refrigério. Verdades fechadas são crimes filosóficos inafiançáveis. Definição única de estilos, briga por performances poderosas em colóquios que contam vírgula de parágrafo enquanto fecha-se os olhos para o mundo ao redor, tudo isso só ameaça o pensamento, só seleciona parceiros suspeitos, imobiliza e intoxica o que, do contrário, poderia florescer ao ar livre. Para ler um texto filosófico, é preciso primeiro pensar no terremoto que ele deve causar. É preciso desejar o seu incêndio. O gosto pela tempestade. O tumulto e a desavença. Para afinal, compreender que onde cresce o que é diferente, reside o que é mais profundo.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Agora que o semestre começa e a filosofia volta à sala de aula… desculpe a filosofia! Desculpe, há filosofia.

Violência no trânsito: um desafio ético do mundo urbano

11 julho, 2017 às 10:28  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_371956726

*Jelson Oliveira

Essa semana assisti uma briga de trânsito: três ciclistas reclamaram por um carro não ter dado preferência em uma faixa vermelha da ciclovia. O motorista, ao invés de se desculpar pelo seu erro, resolveu questionar o direito dos ciclistas, derramando inúmeros impropérios, antes de acelerar o carro e sair patinando os pneus. Cenas como esta são comuns no meu bairro, onde já contamos vários acidentes fatais de ciclistas. Diante dos dados e das cenas, das fúrias e outros ódios que nos afetam no trânsito, fico sempre pensando na febre terrível provocada pelo carro, no pseudo-empoderamento que ele promove, na sanha e na coragem maldosa que ele fomenta. O carro nos fecha na pressa de nossas agendas, no medo do contato, no mundo privado que todos desejamos para nós. Nada de mal, se isso não significar que, atrás do volante, encapsulados pela lataria, nós abandonamos as regras de gentileza, simpatia e civilidade que a vida social exige.

Aprendi desde cedo sobre o poder de um carro para destruir vidas: uma das maiores tragédias da minha infância foi a morte de minha amiga Denise. Ela tinha só oito anos quando saiu cedo para comprar pão com a irmã mais velha e nunca mais voltou para casa. Soube-se que mal as duas mãos infantis se soltaram, nesses átimos de segundo que dividem vidas e o corpo de Denise foi arremessado contra o meio fio da avenida Três de Outubro, na pequena Giruá-RS, por um carro em alta velocidade que seguiu anônimo sem prestar socorro. Era sábado e o álcool consumido no festejo que varou a noite não convinha à pressa do automóvel – presume-se. Choramos dias a fio, sem consolo. E por muito tempo nós, crianças, evitamos sair de casa, com medo do monstro de quatro rodas que passava barulhento na avenida, contrastando com a fragilidade de nossas vidas, abandonadas naquela rua de fim de mundo, no sul gelado do Brasil. A gente temeu a cidade como nunca, por causa do automóvel. Vítima dela, a família de Denise esfacelou-se após a tragédia, enredada em um silêncio sepulcral que levou Dona Berta, a mãe, a concluir seus dias em um hospício, enquanto o pai passava horas sentado à frente da casa, cabisbaixo, como se esperasse a morte, que não tardou em encontrá-lo em uma tarde de inverno, na forma de uma sombra que lhe vestiu tristemente o corpo. De Carla, a irmã, carrego ainda um livro de gramática que me foi doado quando ela resolveu se desfazer de sua pequena biblioteca formada pelos cinco exemplares caprichosamente encapados com embalagens de ovo de páscoa no avesso. A doação era um gesto de desesperança. Tudo havia perdido o sentido para ela. Nenhuma palavra de nenhum livro em nenhum futuro que fosse, poderia, afinal, curar aquela dor corrosiva que lhe arrefecia os ânimos. Nada, coisa nenhuma. Era tudo erosão depois que o carro tirou Denise de nós.

Quando cresci, vivi e conheci outros dramas como esse. Como aquele que mudou a vida de minha amiga Patrícia para sempre, quando sua irmã mais nova resolveu atravessar a rodovia que vai de Curitiba às praias. O carro não teve tempo de desviar da criança, deixando uma ferida permanente no coração da família. A mesma marca triste que desnorteou os pais do garoto de doze anos que morava no térreo do escritório onde eu trabalhava, na rua Paula Gomes, quando acharam o corpo do filho esmagado contra uma árvore no cruzamento da Inácio Lustosa com a João Manoel, a alguns metros do cemitério municipal. Ele foi atropelado pela ambição frívola do automóvel e sua pressa, enquanto ensaiava manobras com uma bola de futebol.

Ernest Jünger, no seu O trabalhador, falou do trânsito como o “grau de uma orgia que anestesia e esgota os sentidos”, infrene por “sons sibilantes e ululantes nos quais se expressa imediatamente uma implacável ameaça de morte, para o grau de forças mecânicas que aqui estão em obra”. O tumulto da vida urbana parece apontar mesmo para essa anestesia orgiástica que faz do carro o instrumento para a “superação mecânica da distância que anseia alcançar a velocidade da bala”, devorando suas vítimas como as armas. Tais vítimas da técnica automobilística, contudo, assinala Jünger, “caem numa zona moralmente neutra; o modo em que são percebidos é de natureza estatística”. A maior parte dos casos de violência no trânsito torna as vítimas culpadas, enquanto os criminosos seguem livres (veja-se o famoso caso Carli Filho x Yared, no Paraná). Quase sempre, o morto é só alguém que desrespeitou a evidência da norma e está aí, caído “na contramão”, “atrapalhando o tráfego”, como cantou Chico Buarque.

A violência no trânsito é um dos maiores desafios éticos do mundo urbano. Precisamos aprender com as histórias tristes que conhecemos. Elas deviam nos inspirar a construir um trânsito mais gentil, cordial e educado. Afinal, o caro não é apenas um meio de locomoção. Ele é, sobretudo, uma arma – e suas vítimas assemelham-se, em número e em gravidade, às vítimas de muitas guerras. 

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Limites – O meu, o do outro, o nosso!

31 maio, 2017 às 09:47  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_548294296

 * Daniella Forster 

Um dos aprendizados mais importantes da vida é aprender que cada um de nós tem seus limites, aprender a respeitar o limite do outro, que pode ser bem diferente do nosso. Este processo tão relevante exige maturidade e principalmente humildade para dizer “não”, ou “preciso melhorar”, ou “ainda não é como eu gostaria”.

Uma das questões relacionadas ao limite, refere-se basicamente à concepção de que na vida precisamos criar espaços de preservação, para poder esperar, dar o tempo necessário para que o emocional possa absorver com paciência e respeito o que ainda não está pronto para ser compartilhado. O certo é criar espaço para o silêncio, para a reflexão, a internalização.

O limite desrespeitado, o seu ou o do outro, pode criar diretamente a percepção de caos, de desconforto ou até mesmo de agressão. Invade-se um espaço ainda inseguro, desconfiado, dolorido, que está em elaboração. Quando o desrespeito invade o nós, surgem os conflitos, os desabafos infindáveis e a possível ruptura de relacionamentos pessoais ou profissionais.

Administrar limites pressupõe observar, dar tempo ao tempo, evitar sobrecargas e imposições que exijam mudanças muito abruptas, que demandem grande esforço emocional. Em outras palavras, há que se reconhecer quando não há espaço para arriscar, não há como ser impulsivo ou correr contra o tempo. Apesar da ansiedade do mundo cotidiano, há que se considerar a opção pela “slow atitude”.

Pode parecer um pensamento anacrônico, afinal existe forte motivação para que aceleremos nossa jornada na vida para garantirmos sucesso. No entanto, nem sempre a agilidade e a rapidez trazem consigo sustentabilidade em uma decisão. Arrependimentos e até mesmo a nítida percepção de que estamos simplesmente fazendo algo por “obrigação” ou “pressão” frustram nossos resultados.

Saber esperar a si mesmo e ao outro,  possibilitam transformação e desenvolvimento verdadeiro. Não se trata simplesmente de concordar ou discordar, mas de compreender o significado de uma determinada decisão. Não se trata de avançar ou regredir, mas de apreender a necessidade de fazer isto com a consciência devida para de qualquer maneira seguir, passo a passo, em prol de um resultado melhor para si, para o outro, para nós.

Talvez devêssemos esquecer um pouco a ditadura da tecnologia, da atualização a qualquer preço, do consumo das relações, para que possamos voltar para a nossa humanidade, nosso tempo individual, nossa preservação emocional. Por que correr tanto? Por que desrespeitar tanto o ser humano? O que mais carecemos hoje é empatia e compaixão.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Um elogio à concentração em meio à distração

25 maio, 2017 às 17:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

1200px-Johannes_Vermeer_-_De_melkmeid

*Jelson Oliveira

Terminou essa semana no Louvre, em Paris, uma grande exposição sobre a obra do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675) e outros mestres da chamada “pintura de gênero”, cuja característica central são as representações da vida cotidiana, do trabalho e dos afazeres domésticos.

Entre os vários quadros, destacava-se “A Leiteira” (que ilustrou os cartazes da exposição espalhados por toda a cidade), “A Rendeira” e “Senhora escrevendo a carta com sua criada”. O que se encontra nessas pinturas é mais do que o detalhe dos atos humanos mais simples. O que Vermeer retratou na sua obra foi o ser humano envolvido com suas tarefas e tornando-se quem é a partir do que faz. Para o pintor, a rendeira é a mulher que se faz na renda que ela mesma tece. A leiteira, no leite que ela derrama. A carta faz o ser de quem a escreve ou de quem a dita. Ao mesmo tempo renda, leite e carta representam a dedicação absoluta de quem assume a sua identidade e seu caráter a partir da tarefa cotidiana que lhe cabe. A obra de Vermeer faz uma apologia da dedicação mas, sobretudo, um elogio à concentração.

Ver de perto esses quadros, a maior parte deles bem menores e menos ostentosos do que se poderia esperar, eleva o espírito não só à experiência própria da contemplação estética (aquela que nos indica o caminho para os mistérios absolutos), mas sobretudo ao interior de si mesmo. A obra de Vermeer é um elogio à interioridade – não só àquela das casas que ele pinta, mas aquela do ser humano que se encontra em estado de radical e completa concentração à sua tarefa.

A obra de Vermeer é, por isso, uma experiência que nos faz pensar em nossa própria condição. Todos estamos submetidos a um ritmo de vida que nos proíbe a concentração e a dedicação. A velocidade é um mal moderno por excelência. E entre suas consequências mais danosas está a recusa do contato e a distração. Com pressa, evitamos o contato com as outras pessoas, afinal, sobra pouco tempo para um toque, um beijo, um abraço, um aperto de mão… A pressa também é um sintoma do medo do outro: no carro, por exemplo, essa cápsula da velocidade que expulsou os seres humanos da rua, criamos nossos mundos fechados enquanto erguemos o vidro para evitar os perigos que vêm do exterior. A velocidade, além disso, gera distração, porque na passagem apressada, nós não somos mais capazes de nos concentrar em nada. Velozes e furiosos, nós substituímos a serenidade pelas desavenças do tráfego e, com isso, passamos a viver a superficialidade das experiências, agora multiplicadas em quantidade mas empobrecidas em qualidade. Queremos muito, queremos tudo, mas experimentamos mal.

Como em “Menina com brinco de pérola”, talvez a sua obra mais conhecida, Vermeer trata da intimidade do olhar como antídoto contra a superficialização da vida. Vermeer pinta a leiteira que se faz leiteira porque se concentra no leite que é derramado. Ela medita sobre si mesma no leite, esse ingrediente do pão que ela amassará mais tarde. Ela não é leiteira a não ser pela concentração de seu ser, moldado no ato mesmo do derramamento do leite, nessa experiência plena. Seu ser é revelado pela sua tarefa e pela convergência de seu espírito sobre suas mãos, cuja diligência evita a abstração e incorpora, amorosamente, o que é feito à identidade de quem faz. O que se vê é a confluência do olhar, a atenção do intelecto e a fusão próprias de quem, por concentrado que está na tarefa que é sua, entende a velha máxima de que o trabalho dignifica o ser humano. Poucos viram isso e mostraram com tanta evidência como Vermeer. Diante da sua pintura, a gente sente vontade de ater-se à intimidade de nossas tarefas – não aquelas forçosas, obrigatórias, injustas, mal pagas. Não. Às outras: aquelas que empreendemos com o gosto e a amorosidade, a meditação e o recolhimento que nos devolvem à nossa essência, à simplicidade de quem somos. Ao pintar a concentração, Vermeer nos seduz porque simboliza e sintetiza o que nos falta. Todos queremos um dia, deixar as tabelas, as burocracias, as reuniões e as escrituras apressadas, para também derramar a brancura daquele leite de forma tão fascinante e aprazível. Todos buscamos, no meio da pressa, um pouco de serenidade.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Mães – Equilíbrio para que te quero?

9 maio, 2017 às 16:55  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

shutterstock_558658648

 * Daniella Forster 

Mais um Dia das Mães se aproxima e com ele algumas reflexões diante de uma vida cada vez mais exigente para as mulheres que tem inúmeras atribuições em suas vidas, sendo a maternidade repleta de questões e reflexões. A complexidade de nossa sociedade, associada aos momentos difíceis impostos pela vida como ela é, geram inúmeras percepções sobre o papel da maternidade e seu significado nos dias atuais.

Mães que trabalham são desafiadas diariamente no quesito equilíbrio em todas as suas possibilidades. Antes de Ser Mãe, a mulher É mulher, ou seja: tem seu próprio significado. Ela existe, tem seus próprios desejos e vontades. Ela sonha, tem a sua própria visão de futuro. Ela realiza, tem a sua própria dimensão no mundo que a envolve. Ela se reconhece, como aquela que tem seus próprios limites. O grande desafio de Ser Mãe é que ao gerar um SER que depende de quem ela É, existem inúmeros sentimentos e pensamentos que geram crises de identidade.

O modelo Mãe que trabalha não tem manual de instrução e não é uma fórmula que serve para todas as situações. Há casos e casos, tudo depende de quem é a Mãe, do equilíbrio entre o que ela conhece de si e como ela se reconhece. Já conversei com mães que trabalham que ressignificaram as suas vidas, adaptaram seus trabalhos, revisaram a sua proposta de carreira, reorganizaram a sua dinâmica familiar. O fato é que, inegavelmente, não há como tornar-se mãe sem desapegar-se de sua vida anterior, sem aprofundar-se em si mesma, em seu autoconhecimento, principalmente para identificar seus limites e buscar uma visão de como superá-los.

As mães que trabalham, de certa forma, querem tudo ao mesmo tempo, competência total em todos os papéis que desempenha. Gradativamente, a vida demonstra que tal opção é incompatível com a realidade e aí vem o desequilíbrio como resposta. Verbos como delegar, compartilhar, aprender e errar, tornam-se obrigatórios neste processo. No entanto, em contrapartida, culpar-se é uma condição observada frequentemente, sendo que relaxar é praticamente impossível.

Qual é a magia para buscar o equilíbrio? Aceitar o desiquilíbrio com amorosidade. Tudo na vida é um processo que se inicia em si mesmo, no próprio EU. Autoestima é essencial. Fases de dúvida, são propícias ao aprendizado e amadurecimento, contribuem para superar os desafios intrínsecos à maternidade. Compreender que não se pode controlar certas variáveis é fundamental. Aliás, entender que as vezes relaxar e saber esperar são as melhores opções diante das incertezas, é um diferencial.

Então para as mães: busquem o amor próprio! Aproveitem as alegrias que só a maternidade é capaz de oferecer! Relaxem diante da vida e permitam aos seus filhos verem no todo quem vocês são. A imperfeição é uma obra de arte quando exposta com autenticidade e desejo profundo de lapidação contínua. Jamais desistam de si mesmas, nem pelos seus filhos, afinal, lá na frente, eles precisarão saber ser e existir, independentemente de vocês.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.