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Crime e castigo: a crise ética que vem do Congresso Nacional brasileiro

12 dezembro, 2017 às 09:48  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Dostoievski, que Nietzsche reconheceu como o maior psicólogo da história, por sua capacidade de descrever a alma humana, publicou em 1866, a história de Raskólnikov, um estudante de direito que colocara em xeque a moralidade de seu tempo ao se perguntar porque não poderia assassinar uma velhinha usurária que explorava os habitantes de uma pensão. Depois de muito refletir, a questão, afinal, se apresentou nos seguintes termos: se Napoleão foi responsável pela morte de milhares de pessoas e é tratado como herói, por que ele, Raskólnikov, não poderia matar essa agiota e, com isso, fazer um bem para as vítimas de seus abusos? A pergunta de Dostoivevski em Crime e castigo é uma pergunta ética por excelência: por que não matar quem nos faz mal? Ou, também: por que não matar quando todos matam? Por que não roubar quando todos roubam? Por que não estuprar quando ninguém vai preso?

A onda de abusos que tomou conta da política brasileira, explicitada cotidianamente, parece trazer questões desse tipo à mesa do cidadão comum. Por que não estuprar a minha namorada, se o deputado viperino anunciou que só não estupraria uma colega porque ela não fazia o seu tipo? Por que ser honesto no cotidiano, se os políticos e seus lacaios roubam descaradamente a nação e permanecem impunes? Por que não mentir e iludir, se o presidente da república elegeu esses subterfúgios como regra de conduta? Em resumo: por que atuar eticamente em um país em que ladrões e usurários não só seguem impunes como ascenderam ao poder, fazendo o povo pagar por seus desmandos?

O marido de Cuiabá, que decepou com um facão as mãos da esposa, seguia a mesma lógica. Segue a mesma lógica, também, o agressor que espancou um rapaz homossexual em São Paulo. E é bem provável que a mesma conduta inspire o aumento da violência país afora, dos pequenos aos grandes atos de roubo, abuso e violação aos direitos humanos. Na hora de pagar a conta, na hora de pagar o imposto, na hora de estacionar o carro, na hora de atravessar a rua: parece valer a lei de Gerson que manda tirar vantagem em tudo, embora saibamos sempre, de antemão, que a vida em comum não pode ser construída sobre esses fundamentos, como bem nos lembrou Kant, ao elaborar o seu imperativo categórico: só faça aquilo que você gostaria que virasse lei universal – ou, em outras palavras, só faça aquilo que você gostaria que todos fizessem.

A crise atual brasileira, que nos coloca diante de questões como aquelas formuladas por Dostoievski, é uma crise absolutamente grave. Sua importância e proporção se deve ao fato de a autoridade política, que deveria orientar eticamente as condutas cotidianas, ela mesma é a geradora das práticas criminosas que deveria combater. A crise que normaliza a corrupção e a impunidade é a crise que realmente importa. A crise que seleciona ideologicamente os bons e os maus, de acordo com ideias postiças semeadas sobre o terreno da ignorância e do imediatismo de quem queria tirar x porque x era corrupto, mas cala-se diante da corrupção de y. A crise que tira o pão da mesa de milhares de brasileiros e faz aumentar o preço da energia elétrica e dos combustíveis, tem como raiz primeira o descalabro e a contradição moral de quem dura no poder contando com a lógica do engodo e da infração criminosa mal disfarçada e, com isso, acaba por favorecer as práticas delituosas cotidianas (de pequena ou de grande monta).

Oxalá a pesquisa recente do Datafolha, que mostra que seis em cada dez brasileiros reprova a conduta do atual Congresso Nacional, derive em atitudes sérias de controle dessa gente despudorada e, principalmente, em uma consciência política maior no pleito eleitoral de 2018. Enquanto isso, voltemos a Dostoievski para entender os labirintos da consciência humana e os descalabros que legitimam as atitudes de gente como Raskólnikov.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Encontrando seu verdadeiro propósito

5 dezembro, 2017 às 13:43  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Nossa conversa hoje é sobre um assunto que deveria ter uma importância fundamental em nossas vidas: o propósito. Muito além do que traçar um objetivo, metas a serem cumpridas, ou até mesmo um plano para alcançá-las. Sendo assim, torna-se algo muito mais complexo e também extremamente desafiador defini-lo e mantê-lo como foco em nosso dia a dia.

O propósito traz consigo crenças, valores, personalidade, aptidões e interesses. E, por isso, mais uma vez estamos falando de uma definição que exige olhar a si mesmo e entender sobre si, quem é, o que te motiva, o que te realiza e o que te instiga ir além, fazer mais e melhor. Quando temos um propósito, temos uma força interna que nos impulsiona, temos uma determinação, um comprometimento e um engajamento sem igual.

Não é qualquer dificuldade, empecilho, problema, desconforto ou até mesmo relacionamentos difíceis que desmoronam o propósito de um indivíduo. Muito pela contrário: são as situações contrárias que geram desafios, aquelas capazes de enriquecer e fortalecer o propósito de uma pessoa. Tais situações geram a constante necessidade de crescer, amadurecer e aprender diante da diversidade imposta pela vida de qualquer ser humano. Em outras palavras, quando se tem um propósito, tudo faz sentido, até mesmo as derrotas.

Se você tem seu propósito na vida, torna-se invencível e tal situação é extraordinária. Você é empoderado e, como consequência, tira o melhor de si mesmo. O grande senão é que, para identificar seu verdadeiro propósito, você precisa ir a fundo. Entender a si mesmo diante das inúmeras opções que o mundo lhe apresenta, tanto na sua vida pessoal como na sua vida profissional.

Ninguém nasce com um propósito, mas todos somos capazes de defini-lo, estruturá-lo e significá-lo como proposta de vida. Em tudo o que fazemos, podemos simplesmente seguir o fluxo, ignorar quem somos e fazer parte do todo. Mas, ao escolher esta estratégia, estamos deixando de lado nosso propósito. Quando tomamos consciência integral, isto é corpo, mente e espírito em sintonia, firmamos nosso verdadeiro propósito na vida. Em outras palavras, somos os únicos responsáveis em definir este caminho.

É muito fácil escolhermos ser pais ou mães como todos fazem. A questão é fazer tal escolha porque é seu propósito. Uma mãe que decidiu a sua função na vida para fazer parte da sociedade é diferente daquela que, não importando as noites mal dormidas, as desventuras do dia a dia, o cansaço e o estresse que fazem parte, a sua dedicação permanece a mesma, o ser mãe ganha mais significado e seu engajamento lhe faz ir além e ser uma mãe cada vez melhor. Esta mãe não calcula as horas aplicadas na criação dos seus filhos, nem tampouco pensa que pode estar perdendo seu tempo enquanto brinca e ri com seu pequeno ou grande que lhe abraça, sua única missão é ver esta criança feliz, aprendendo a ser alguém capaz de fazer por si e pelo outro. O mesmo é válido para os pais que têm a paternidade como propósito.

Com a vida profissional não é diferente. Quando fazemos aquilo que nos significa e nos remete à percepção de que nossa capacidade criativa, nossa vontade de ir além e fazer o impossível são constantes, mesmo considerando que temos barreiras e dificuldades de todos os tipos que precisam ser ultrapassadas. Por isso que, quando temos propósito, mesmo diante de uma demissão ou de uma rejeição em nosso ambiente de trabalho, nada nos tira do foco e nem mesmo é capaz de afetar a responsabilidade pessoal de seguir em frente, buscar novas alternativas e te conduzir a um lugar ou a um cargo onde você realmente possa fazer o que acredita e o que te torna uma pessoa definitivamente realizada.

Quando vemos o propósito de vida de forma ampla, envolvendo a vida pessoal e a profissional, mais um desafio surge: o equilíbrio entre ambas. O grande truque aqui é ponderar seus valores e crenças. Busque seu propósito final, em outras palavras, sua frase que define a sua vida e quem você é.

Imagine este exemplo: meu propósito final é ter status, ganho material e poder como empreendedor. Isto não exclui você de ser um bom pai ou uma boa mãe, mas esclarece que estas funções não são as mais importantes e não fazem parte do seu propósito, ou seja, muito provavelmente exigirão maior esforço, menor dedicação e até mesmo pouca motivação para encontrar tempo ou para exercê-las de fato.

Outra possibilidade seria este exemplo: meu propósito final é transformar a vida das pessoas, ter qualidade de vida e ser mãe/pai. Isso não significa que inexiste a chance de ocupar um cargo de destaque, onde você tenha poder. Mas, se você se dedicar mais à maternidade e à qualidade de vida, pode significar que seu interesse pelo poder, pelo status e até ganho material não sejam lá motivadores para que exista uma dedicação a ponto de alcançar estes objetivos.

Diante destes dois exemplos, o que vale refletir é que devemos tomar nossa decisão pautados em nossa consciência e nossa verdade interior. Como diz aquela música do Legião Urbana “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira…”. Então eis alguns sinais de que você está no caminho contrário do seu propósito: perde a hora constantemente, faz o que faz por obrigação, não encontra “sentido” nas suas atividades, não se preocupa em melhorar ou fazer melhorar, não busca novos conhecimentos no que faz, não cria ou inova em seu dia a dia, todo e qualquer problema te faz pensar em desistir.

Portanto, olhe para si, aprofunde seu ser, seja verdadeiro e defina o propósito que seja capaz de te definir. Signifique-o para a sua vida, para que a sua vida, então, tenha significado. É assim que você conseguirá ir a frente e não desistir por nada!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Gere novos insights a partir de novos estímulos

30 novembro, 2017 às 08:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

A rotina da vida como ela é, muitas vezes necessária, torna-se restritiva para a criatividade e inovação. Vidas muito programadas e inseridas dentro da “mesmice” podem se tornar limitadoras. O que, muito provavelmente, trará como consequência impactos negativos no âmbito pessoal e profissional.

Em um mundo dinâmico e altamente complexo, buscar sair do quadrado, ampliar os horizontes e analisar a vida com diferentes perspectivas é essencial. Muitas vezes a solução de problemas vem com insights importantes que só surgem quando nos abrimos para o diferente e para o novo.

“Pirar” de vez em quando não faz mal a ninguém. Olhar a vida de cabeça para baixo, no cume de uma montanha ou debaixo d’água são estímulos para o corpo, a mente e o espírito. Você pode ser conduzido a uma viagem na vida, onde explorar e aventurar traz um potencial de ideias e até novas motivações para que você possa viver com maior realização e bem-estar.

Mas por que ficamos tão presos e condicionados a nossa vidinha de sempre e não nos colocamos com maior frequência a diversidade do mundo em que vivemos? Por que nos submetemos aos padrões sociais, em que muitas vezes tolhemos nossa potencialidade e restringimos nossa verdadeira felicidade?

Talvez o motivo principal seja que, quando entramos na bolha, esquecemos de nossa individualidade. Quando fazemos parte do todo, a vida pré-programada vem com uma aparente sensação de bem-estar e conforto, nos fazendo entender que é a única alternativa apresentada.  Isso não passa de aparência.

Experimente algumas vezes novas sensações, emoções e sentimentos e veja o quanto a sua mente expande e como você consegue gerar insights. A cada novo insight você recebe feedbacks que te afastam cada vez mais da zona de conforto e te aproximam cada vez mais da zona que promove a verdadeira realização. Afinal, quanto mais aproveitamos o potencial que recebemos, a sensação é simplesmente maravilhosa! Experimente!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O preconceito é filho da ignorância

16 novembro, 2017 às 10:57  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Quem tem preconceito é portador de uma deficiência terrível. Falta a ele a condição básica da vida ética: a capacidade de gerar um conhecimento a respeito do mundo. O preconceituoso, por isso, sofre de uma atitude antifilosófica por excelência: ao invés do pensamento crítico, ele dá lugar à ignorância e orienta-se por uma distorção da realidade de tal gravidade que o leva a projetar sobre os outros os estereótipos criados por sua mente doentia, em oficinas escuras e fétidas, onde escorrem os piores venenos que vertem da civilização. “Negro é assim”, “gay é assado”, “mulher faz isso”, “homem não faz aquilo”: essas e outras expressões fazem parte do vocabulário cotidiano desses doentes, cuja enfermidade nasce da ignorância e do obscurantismo que os impedem de acessar a verdade das outras pessoas, suas histórias pessoais, seus anseios e suas lutas cotidianas.

Esse tipo de gente, no geral forjada pelos programas televisivos e pelas mensagens mortiças de grupos cujo interesse é manter populações inteiras no seu cabresto moralista, parece incorporar e reimprimir nas atitudes cotidianas precisamente aquilo que mais nos envergonha enquanto seres humanos, aquilo que precisaríamos deixar para trás quando se trata de organizar a nossa vida social orientados pelo respeito à dignidade da pessoa humana. Afinal, o grau de respeito de uma pessoa pela outra é o índice da lucidez e da justiça geral de uma sociedade. Conforme afirmou o filósofo Adorno, uma sociedade emancipada não aceita o preconceito quando ela é capaz de efetivar os ideais universais na reconciliação das diferenças, ou seja, nas práticas cotidianas de pessoas que se encontram coabitando um mesmo mundo, embora preenchidas por ideias e ideais díspares. Considerar positivamente essa situação é o primeiro caminho para uma convivência pacífica, pela qual cada ser humano encontra no meio social as condições para se desenvolver plenamente. E isso depende, obviamente, do direito que cada um tem de ser visto pelo outro o mais próximo possível daquilo que ele realmente é, para além de todos os estereótipos, que são atributos fixos usados em substituição à verdade de cada indivíduo. O estereótipo escraviza e enjaula o ser humano em opiniões alheias a eles mesmos e, quanto a isso, não há nada mais contrário ao ato de filosofar, ou seja, alimentar a liberdade de cada sujeito em relação à sua própria história.

Por isso, não há coisa mais avessa à filosofia do que o preconceito e, mais, se há um lugar de onde ele deveria ser banido em definitivo é na filosofia, pois todo agir fixo, orientado por padrões e rótulos que são projetados sobre o outro, acaba por impedir o processo reflexivo e crítico, que são requisitos básicos do ato de filosofar. Onde há preconceito não há atividade reflexiva, porque o preconceito se alimenta da ignorância e da distorção, da deficiência, do engano e da pobreza intelectual. E isso tudo, na maioria dos casos, como resultado das necessidades psíquicas do próprio sujeito preconceituoso, que ao projetar sobre os outros seus estereótipos vexatórios, mal esconde o seu medo de se colocar diante do outro, de expor-se às suas demandas e modos de ser. Ele quer expulsar da própria consciência tudo o que é considerado ameaçador e, como medida de segurança contra os temores que são seus, tenta adaptar o outro, limitando-o às “caixinhas” que ele mesmo construiu para si. O preconceito, por isso, nega o uso autônomo da razão e não é mais do que um sintoma subjetivo da irracionalidade objetiva que ele projeta na forma desses estereótipos.

Ora, se o conceito nasce do estudo, do conhecimento e do interesse pelo objeto ou a pessoa que se apresenta como tema, o pré-conceito é uma aversão à experiência do outro, uma recusa de reconhecimento, uma negação da alteridade que, no geral, acaba na violência, como uma espécie de ato contínuo pelo qual é preciso destruir aquele que, diante de si, sendo desconhecido e indesejado, é gerador de incômodo e mal-estar. É o que está posto na própria origem etimológica da palavra preconceito: “praejudicium”, em latim, corresponde a um prejuízo que afeta, primeiro e de forma mais grave, a vítima, mas também o seu algoz. Não à toa, o preconceito tem sido o perigoso combustível da intolerância que continua levando a humanidade a guerras cruéis e insanas contra si mesma.

Nesse caso, uma alternativa urgente é rever os nossos processos educativos, de forma a evitar que a educação acumule técnicas de adestramento, para fazer dela um instrumento de liberdade, mobilizadora da reflexão crítica e do afeto, capazes de nos aproximar do outro com interesse. Nunca o lema iluminista foi tão atual: “Sapere aude”, ou seja, “tenha coragem de usar sua própria razão”. Está mais do que na hora de a educação nos ajudar a vencer as ideias preconcebidas, recebidas sem crítica, como aceitação adesiva e postiça de ideias alheias. Isso não é outra coisa que ignorância, presunção de saber e jactância cuja epidemia exige, de novo, a intervenção dos médicos da cultura.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Afinal, o que é reconhecimento profissional?

14 novembro, 2017 às 14:37  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Quando se fala em reconhecimento profissional, automaticamente o lado financeiro vem como a contrapartida mais comum. Não necessariamente aumento da remuneração, mas bônus e premiações são estratégias amplamente utilizadas. Entretanto, muitas pesquisas demonstram que o reconhecimento financeiro está longe de ser o mais importante. Até porque, quando utilizado, seu efeito passa rápido e não gera valor agregado suficiente para que o profissional se sinta efetivamente valorizado.

Atualmente, as organizações oferecem múltiplos desafios aos seus colaboradores. Diante de um cenário turbulento e complexo que vivemos atualmente, as demandas são cada vez mais exigentes e transformam o ambiente profissional, tornando-o estressante e, muitas vezes, fonte de desprazer. Neste sentido, diariamente observa-se um movimento extraordinário de superação, de buscar motivação apesar das diversidades. Estamos falando de pessoas que abrem mão de suas vidas, famílias, filhos e de si mesmas para dedicarem-se a uma tarefa que está sendo considerada essencial, estratégica, de suma importância.

Inegavelmente, quando existe este nível de dedicação e o resultado almejado foi conquistado, o reconhecimento tem que vir de outra forma e ocupar um outro lugar. Os profissionais demonstram grande frustração quando na entrega do seu suado trabalho recebem como contrapartida um “poderia ser melhor” ou “alguns detalhes faltaram”. É como estar na escola, tirar uma nota 8,0 ou 9,0 e o feedback é, poderia ter sido um 10. Principalmente porque o resultado depende de várias partes envolvidas.

Mesmo as organizações prezando pela alta qualidade e alto desempenho, elas próprias muitas vezes apresentam as suas falhas, fraquezas e cometem erros estratégicos. As próprias organizações são imperfeitas e refletem o ambiente aonde estão inseridas. Portanto, não há como equipes e profissionais tirarem um 10, quando a empresa não apresenta condições para que este resultado seja alcançado.

Esta constatação traz a necessidade de associar o reconhecimento à reciprocidade. Se o profissional entende e atua em sua organização respeitando que ela própria tem as suas limitações, nada mais justo do que a empresa apreender seu resultado dentro desta realidade e, principalmente, reconhecer todo o esforço e empenho para tentar fazer o impossível diante do contexto e realidade organizacional aonde está inserido.

Factualmente, a organização pode e deve criar gestos, símbolos e momentos, onde as pessoas são vistas como vencedoras, como vitoriosas. Persistir, apoiar a equipe e buscar o inatingível deveriam ser, por si só, motivos para comemorar. Palavras não mudam o mundo, nem mesmo pessoas, mas elas podem ser o início do reconhecimento. Gratidão no verbo e na ação podem gerar um fôlego adicional para mais uma etapa, para aumentar o ritmo ou corrigir uma falha.

No mundo em que vivemos, muitas vezes parece que apenas o perfeito e o 100% justificam qualquer movimento para reconhecer o outro. É urgente que mudemos o foco. O meio no qual estamos traz consigo a clara e nítida certeza de que mudanças são impostas a todo o momento. Nem empresas e nem pessoas estão preparadas para responder tudo dentro do princípio da perfeição. Vamos então buscar maior senso de realidade e maior flexibilidade diante do reconhecimento. Do contrário, jamais estaremos satisfeitos ou realizados em nosso trabalho e isto reflete negativamente para o eu, para a equipe e toda a empresa.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Estabilidade X Sustentabilidade

24 outubro, 2017 às 12:57  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Esta semana meus pais comemoram 56 anos de namoro e 49 de casados. Em um mundo tão mutável e instável, somos invariavelmente conduzidos a novos valores, mudanças sociais e individuais que nem sempre representam sucesso ou felicidade.

Neste sentido, penso em inúmeros relacionamentos pessoais e profissionais que sim, são estáveis, e nem por isso agregam valor, geram crescimento, praticam respeito mútuo e percebem o verdadeiro significado de uma relação. Em outras palavras: a estabilidade deixou de ser algo que promove o desenvolvimento humano e se adapta às exigências do mundo moderno.

A sustentabilidade vem então como um conceito que traz consigo a possibilidade de representar com mais força as demandas atuais: em organizações e relacionamentos afetivos ou familiares não podemos pensar que a estabilidade gera interações eficientes ou até mesmo exemplos, referências e histórias de sucesso.

Aliás, a sustentabilidade remete ao equilíbrio – sendo assim, exageros, positivos ou negativos, são contrários à percepção de que há a possibilidade de manter uma vida e uma relação ao longo termo. O grande desafio está na importância do relacionamento, que pressupõe ter a própria identidade e exige reconhecer em si mesmo o que lhe faz bem, traz paz, gera aprendizado e faz superar teus próprios limites. Não importa se tua busca é profissional ou afetiva, este autoconhecimento te permite verdadeiramente ser alguém.

Ganhar muito dinheiro, ter muito poder ou mais status muitas vezes são exageros da vida moderna. As relações se tornam sustentáveis quando há troca e empatia, paciência e perseverança, ética e espaço para admitir erros e humildade para dizer preciso de alguém.

Assim, há algumas tendências a serem questionadas: estamos em plena comemoração do Outubro Rosa e as questões da mulher vem à tona. O exemplo refere-se ao modelo social da mulher independente, que é feliz por cuidar da sua vida e por ser bem-sucedida no trabalho. Entretanto, muitas vezes ela é infeliz no relacionamento afetivo, na maternidade, no conforto de ter uma identidade feminina que vai além de ser uma profissional “realizada”. Em outras palavras, de uma mulher que pode ser acolhida, acarinhada e mimada, que não precisa obrigatoriamente se esconder através das sentenças como: “eu sei”, “eu posso”, “eu mando”, “eu sou melhor” e “eu delego sempre”.

Esta mulher independente, dentro deste “pré-conceito” disseminado não corresponde ao equilíbrio, à sustentabilidade, e não permite relações verdadeiras com parceiras, parceiros, filhas e filhos, mães e pais. Há um exagero que se traduz de certa forma como um ego inflado, incapaz de enxergar que existe um(a) outro(a) – seja esta pessoa quem for.

E, finalmente: sinto que o que fez meus pais terem uma relação verossímil e sustentável foi, na essência, a reciprocidade. A reciprocidade consiste em duas pessoas existindo integralmente no mesmo espaço, duas vontades sendo expressas, e um senso comum sendo partilhado para que o equilíbrio sempre seja uma possibilidade. Nem sempre a comemoração é em grande estilo, mas há sempre a valorização de um desafio superado, de um conhecimento adquirido, de uma maturidade a ser alcançada, porque juntos são melhores. Tal condição me parece igualmente viável em qualquer relacionamento, sendo ele pessoal ou profissional. Vale a reflexão!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

As ciências humanas: entre o descrédito e a resistência

10 outubro, 2017 às 15:43  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Desde quando a modernidade recusou a antiga e honorável separação entre teoria e prática, instalou-se na cultura ocidental um conflito que permanece subjacente aos modelos educacionais de nossos dias e que muitos teóricos (lembro especificamente de Martha Nussbaum) têm chamado de “crise das humanidades”. Nesse cenário, cidadãos comuns e homens de estado não demoram em tomar a palavra para acusar o conhecimento puro de insuficiente e desnecessário. O resultado é que as ciências humanas passam a ser recusadas em nome das utilidades concretas do cotidiano, obra de interesses políticos, ideológicos e mercantis que gerenciam a vida das sociedades contemporâneas. Nas palavras do filósofo alemão Hans Jonas, em termos educacionais, “trocou-se nobreza por utilidade”.

Segundo esse modelo, ao invés de empenhar-se no desenvolvimento pleno das potencialidades humanas, a educação deve conduzir o saber ao âmbito do fazer, orientado agora pela sanha tecnológica e pelo regime econômico que encaminha nossas energias para a geração de lucro e para a produção de coisas que ocupam diariamente as prateleiras de nossos supermercados como bens indispensáveis. Revestidos pelo epíteto recomendatório do “novo”, tais produtos induzem ao consumismo exacerbado que se retroalimenta, alheio às suas consequências nefastas ao meio ambiente. O resultado é que o conhecimento perdeu a sua raiz reflexiva e seu potencial de realização da essência humana, reduzindo-se a uma atividade operacional que avança ininterruptamente para todas as direções possíveis, incapaz de avaliar eticamente os danos possíveis ou prováveis. Educamos o homo faber para substituir o homo sapiens: não mais pensadores, mas fazedores.

Qualquer estudante de ensino médio hoje no Brasil entende o que é isso: vive-se a pressão pela competência, a pressa pelo sucesso profissional, a imposição de valores como inovação e empreendedorismo, eles mesmos impulsos meramente econômico-financeiros de vidas medianas empobrecidas e entediadas. Esses jovens, por isso, aprendem desde cedo que as humanidades não têm eficácia e utilidade, a não ser como refrigério psicológico em algum momento de stress ou como algum tipo de luxo excêntrico de horas vagas.

Isso, todavia, não é tudo. As humanidades não são apenas inúteis no atual cenário civilizatório. Elas são também indesejadas. Muitos de meus colegas professores, além de ensinarem disciplinas como história, filosofia e sociologia, são obrigados também a defendê-las dos ataques vindos de todos os lados, inclusive de altas autoridades, que têm o péssimo hábito de discutir assuntos educacionais na ausência de especialistas, substituídos por gente de todo tipo, de atores pornôs a pastores fundamentalistas. Em sala de aula, já vi estudantes repetirem as mesmas incongruências, na maioria dos casos pautados em opiniões sem argumentos – a forma mais perigosa de opinar – que fazem a ignorância se alastrar como um pernicioso surto.

Ouvindo a palestra do professor Adriano Correia, em evento recente no qual participei em Medellín que tinha como tema justamente o porvir das humanidades nas sociedades ibero-americanas, me dei conta de duas razões que explicam a tal crise que afeta as ciências humanas. A primeira tem a ver com o potencial crítico da área de humanidades; a segunda com seu potencial criativo. Como sugeriu o meu colega, de um lado, as disciplinas da área de humanas costumam trazer à luz os pressupostos e os fundamentos do próprio processo que as teria levado quase à clandestinidade e isso, como se sabe, implica analisar como a educação foi reduzida seja a um negócio lucrativo seja a uma rédea social capaz de manter os possíveis revoltosos na passividade. De outro lado, as humanidades, por seu potencial criativo, incluem as metafísicas, as éticas do futuro, as ilusões literárias, os mundos politicamente possíveis, as utopias e os desejos por revoluções. Nesse caso, elas têm o poder de romper os horizontes fechados aos quais devíamos, enquanto povo, nos submeter. Elas imaginam outras formas de vida que não apenas essa, projetada pelo sistema neoliberal e suas ordenações de produção, consumo e lucro. As humanidades, afinal, nos falam de gentes, ideias e ideais considerados perigosos, na medida em que relativizam as estruturas e quebram a lógica da submissão e da inércia política. Crítico e criativo, o estudante de hoje poderia recusar a censura que lhes querem imputar em nome da ordem e do progresso.

Diante desse cenário, as ciências humanas são ainda mais necessárias e urgentes. A elas cabe reafirmar os valores de uma educação plural, orientada para a afirmação das liberdades e dos direitos, da democracia e da cidadania, do respeito às diferenças e da valorização de metodologias de ensino que promovam a autocrítica, a independência intelectual e a capacidade de transformar a sociedade para melhor, vencendo o nevoeiro que nos atemoriza. Agora, como nunca, cabe às ciências humanas ajudar a sociedade a avaliar os caminhos pelos quais decidiu seguir. Vale sempre lembrar, com Nietzsche: em épocas de epidemia é que os médicos são mais necessários.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

A ditadura do bem-estar

3 outubro, 2017 às 16:53  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

De forma mais ou menos explícita, mais ou menos virtual, mais ou menos intensa, aparentemente, vivemos a “Era da Ditadura do Bem-Estar”. A obrigatoriedade de sempre sorrir, demonstrar alegria, felicidade, prazer e paz, mesmo quando tudo parece desmoronar, corrói a sociedade moderna e transforma as pessoas mais realistas em amargas, problemáticas e até mesmo doentes.

Podemos não perceber, mas há uma necessidade psicológica para vivermos lutas, perdas e dificuldades através de sentimentos compatíveis. A dor e sentimentos negativos geram reflexão, análise, maturidade, decisão e superação. Negligenciar este lado real da vida como ela é gera superficialidade e ilusão. Gera foco na aparência e não na essência. Por isso temos nas redes sociais constantes manifestações de bem-estar, senão exclusivas realidades fabricadas, que apenas aumentam os números de “likes”.

Neste sentido, a ditadura do bem-estar parece estar camuflada no inconsciente coletivo. Entretanto, aumenta cada vez mais o número de crianças e jovens que se desconectam do mundo real e que se abraçam totalmente ao mundo ilusório. Problemas inexistem ou são magicamente resolvidos. Quando as coisas parecem não estar no caminho, sempre há como reiniciar e apagar o que não deu certo nas tentativas anteriores. Não se erra, apenas se “compra” uma nova vida.

Por falar em “comprar”, existe um outro efeito da ditadura do bem-estar. Se você viver simplesmente todos os dias da sua vida economizando, cumprindo seu trabalho, fazendo pelos seus familiares, nada disto é popular, nem tampouco desejado pelos outros. Não é bem-estar. Nenhum destes atos, da vida como ela é, aparecem em publicações ou são apreciados como lutas diárias que merecem aplausos e compartilhamentos. São apenas manifestações banais, de pessoas menos importantes. Mas vamos combinar que a simplicidade da vida pode trazer alegrias impagáveis.

Muitas histórias de pessoas exemplares pelas suas superações de vida, de batalhas para estudar, entrar em uma universidade, pagar seus estudos ou voltar a andar/falar são colocadas em abas secundárias. Talvez se esquecidas, deixam de gerar o incômodo fundamental de que existe sim um lado duro, amargo e difícil que exige confronto, embate, determinação e aprender que, muitos “nãos” são apresentados para que saibamos valorizar o suado “sim”.

Chegamos então ao maior incentivador da ditadura do bem-estar: o EGO. Este que nos escraviza, nos faz imaginar que sem erros somos pessoas melhores. Nos faz acreditar que sem rejeições somos amados. Nos cria a ilusão que a maior vitória na vida é deixar os outros para trás e ser o primeiro lugar em qualquer competição. Aliás, o EGO nos aprisiona no desejo. O EGO, que sempre está certo, é o perfeito, o realizado no trabalho e na carreira, a pessoa com a aparência perfeita, que faz parte do Todo, que está ïn” ou simplesmente na Moda.

Chegamos então a uma conclusão inevitável: em nossas vidas, o maior desafio é o equilíbrio. É poder ser otimista, mas realista. É administrar a falta com a garra. É absorver a rejeição com força para não desabar. É enfrentar os medos, no tempo certo, um de cada vez. Mas ninguém chega ao equilíbrio “fingindo” para si mesmo, nem tampouco se iludindo ou simplesmente criando outra realidade. 

Façamos então do nosso EGO a nossa saída. Busquemos nos conhecer e reconhecer, nos aperfeiçoar, mas também nos aceitarmos dentro de limites. Podemos sim estar mal, não conseguir dar conta de tudo, não estar 100% produtivo, não estar em uma fase boa para novas ideias, para conversarmos ou nos relacionarmos. O que precisamos é, diante disto tudo, entender tais dificuldades e transforma-las em aprendizados, estratégias, alternativas. Porque é disto que a vida é feita.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

A arte de escrever um trabalho acadêmico: quatro confissões e duas advertências

15 agosto, 2017 às 17:05  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Na vida acadêmica, já vi muito espírito atormentado com a obrigação de escrever. Trabalhos, monografias, dissertações, teses e artigos científicos costumam tirar o sono de muita gente, arrefecer os ânimos nas horas finais, desiludir, deprimir e provocar feridas que, de perto, parecem incuráveis. À dor e ao sofrimento, não raro, segue-se um alívio extraordinário, embora na maior parte das vezes ele venha acompanhado de uma frustração graúda: o trabalho, afinal, não saiu conforme a qualidade que se pretendia e, consequentemente, não recebeu nota e louvores esperados.

Eu falo por experiência, acreditem! E é por isso que hoje escrevo aos atormentados. E o faço inspirado pelo instigante livro do meu querido amigo Clovis Ultramari, Como não escrever uma tese e dos diálogos que estabelecemos com outros colegas em torno dessa obra. Vou fazer quatro confissões e duas advertências. Depois dos quarenta, a gente começa a usar subterfúgios e perde o medo de parecer pedante. Desculpe o escritor. Se ajudar, leia até o fim. Se não, ignore – ou melhor, quem sabe, escreva a sua própria lista.

Quatro confissões

 

  1. Toda a minha escrita nasceu de uma inveja: “eu quero escrever como esse cara!” A primeira experiência seriamente invejosa, eu a tive aos dezessete anos, quando li um texto de três páginas, datilografado em papel de seda, anonimamente deixado no meio de um livro que tomei emprestado em uma biblioteca de Belo Horizonte. Li aquilo estupefato, como quem toma uma das decisões mais sérias da vida, deliberei para mim mesmo: eu quero escrever assim. Tudo o que eu fiz a partir daí no campo da escrita segue esse propósito. Leio vorazmente para alimentar essa inveja insaciável. Leio e sublinho (a caneta) as frases e as passagens que, nas obras alheias, eu gostaria que fossem minhas. A inveja, enfatizou Hesíodo, também pode ser uma energia boa.
  2. Toda a minha escrita é fruto de uma falta: como a inveja é coisa de fracos (ensina a boa moral), eu logo me dei conta que ela era produto da minha debilidade. “Eu não não sei escrever, por isso escrevo!” Escrevo porque a arte da escrita me falta. Caso contrário, não escreveria. Vale aqui a máxima de Aristóteles: “a excelência não é um ato, mas um hábito”. É preciso praticá-la. Reconhecer a própria míngua é o que me empurra para o computador como quem vai, de boca seca, à abundância da fonte.
  3. Toda a minha escrita nasceu de meus encontros: eu acho, sinceramente, que nunca escrevi uma linha que não tenha sido antes dita em voz alta, em uma mesa de bar, em um congresso, em uma conversa de corredor. O diálogo fomenta a escrita como nada. É ele o fertilizante do pensamento, o impulso do texto, a provocação da palavra. Mas eu deveria falar também dos meus desencontros, das disputas e das separações, das palavras disruptivas que, sendo ultraje, também foram estímulo e incitamento. Afinal, como sugeriu Plutarco, é preciso tirar proveito dos nossos inimigos.
  4. Toda a minha escrita é uma vontade de perversão: ao escrever, sempre quis perverter o que tinha lido, o que tinha ouvido da boca de um amigo, o que disseram os grandes pensadores, o que foi festejado como verdadeiro, moralmente correto ou inquestionavelmente belo. Falo de conteúdos e também de estilos. Não há nenhum propósito que me guie a não ser esse do avesso, do inverso, do oposto. Quero as objeções. A lista dos infiéis é a minha preferida, com todas as suas contradições e contravenções. Obviamente, a tarefa é árdua e pretensiosa. Inalcançável, permanece no geral recaída no terreno da intenção. Mas é aí que eu espero que um dia ela floresça e venha enfeitar as minhas páginas.

 

Duas advertências

  1. Não acredite demais em você: não é só a unanimidade que é burra, como sugeriu Nelson Rodrigues. A pior burrice é aquela que nos fecha na nossa própria ignorância. A lição veio de Sócrates e a sua festejada máxima “só sei que nada sei”. Se em algum lugar essa frase faz sentido, é na vida acadêmica. Tem sempre alguém que sabe mais do que você ou que sabe diferente de você. É preciso aceitar essa realidade para aprender a escrever com desenvoltura e naturalidade. O contrário será obstáculo e muro alto. Na escrita, a gente revela não o que sabe, mas o quanto não sabe. Escrever, sugeriu Nietzsche, é uma forma de esconderijo. E essa é a diversão da coisa. Não espere elogios. Prefira as acusações e as flechadas. Elas doem, é certo. Mas também fortalecem.
  2. Não acredite em milagres. A vida de um escritor é feita com sangue, olho ardente, dor nas costas, suor e lágrimas, madrugadas em claro, cancelamento de viagens, sábados e domingos inteiros sobre páginas incompreensíveis, incompreendidas. Rascunhos e mais rascunhos. Páginas e páginas inúteis. Arquivos perdidos. Vida deteriorada, procrastinada, suspensa. Afinal, quem não for capaz de deixar a sua vida e seguir a palavra, não chegará a lugar nenhum. Escrever é sacrifício. E os sacrifícios fazem parte da vida. Não esqueça: pedra que rola não cria limo.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Conexões digitais em prol de oportunidades reais

8 agosto, 2017 às 12:59  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Cada vez mais o mundo do trabalho busca opções associadas à tecnologia e às redes sociais para captar talentos e ampliar relacionamentos. Esta realidade intrínseca ao mundo das organizações e também das pessoas que buscam empreender, associar-se, buscar parcerias e oportunidades.

Analisando este contexto, é inegável que novas competências sejam adquiridas. Relacionar-se virtualmente demanda comunicação apropriada e capacidade de envolver a outra parte, de criar interesse no perfil ou na ideia proposta. Em outras palavras, é um processo de auto-conhecimento, de percepção de contexto, de identificar necessidades, de entender a melhor maneira de entregar resultados e obter retorno. Visto desta forma, torna-se complexo e um desafio constante.

Pensar as redes sociais a partir destas competências certamente conduz a algumas reflexões. Muitas vezes, o fator mais importante não está na quantidade de relacionamentos, mas sim na qualidade, no foco. Quando você propaga seu perfil, suas ideias, sua maneira de SER no mundo, automaticamente você está disseminando a sua identidade e, consequentemente, você receberá curtidas e compartilhamentos que estão associados a este posicionamento.

Se você consegue atenção, repercussão e propagação, excelente, mas pense que seu objetivo é conquistar relacionamentos sustentáveis, que consigam interpretar e traduzir o seu perfil com certa coerência e discernimento. Só assim receberá convites, será lembrado e garantirá oportunidades reais. Existem muitas experiências interessantes de candidatos que foram reprovados para determinada vaga, porém a forma como estabeleceram o relacionamento durante o processo, favoreceu chances posteriores para contratação em outra vaga.

Outras questões também merecem ponderação. Com o avanço tecnológico, surgem novas ferramentas e também novos modelos de atração de talentos. Testes interativos, dinâmicas on-line, aplicativos de celular para entrevistas, vídeos, conferências e tantas outras tecnologias surgem como opções para que apenas poucos candidatos cheguem à fase presencial. Tais ferramentas também são muito usadas quando buscam-se ideias, projetos e parcerias. Infelizmente, muitas pessoas perdem excelentes oportunidades por desconhecer estas tendências de mercado ou até mesmo por não creditar a devida importância para estas transformações.

Mas a realidade é que, cada vez mais as organizações buscam inovar, garantir a conexão de pontos que conduzem ao conhecimento integral de pessoas. Portanto, lembre-se que, quem você é, como você se mostra “ao vivo e a cores”, como você se relaciona pessoalmente e virtualmente, como você compartilha suas selfies, sua vida pessoal e profissional, gera ao mundo uma tradução com conotação positiva ou negativa para os diferentes cenários do mundo do trabalho. O mais importante é você apreender que o todo é constituído por partes. E que as partes descuidadas geram um todo fragmentado e, portanto, não identificado. E que a falta de identificação pode te conduzir para propostas indesejadas ou simplesmente não te conduzir para lugar nenhum.

O Fórum de Carreiras trará esse e muitos outros apontamentos. Conheça os palestrantes e a grade do evento aqui.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.