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“A televisão é a arte do autor”, diz Silvio de Abreu

Ele se prepara para o remake de Guerra dos Sexos, que deve estrear em outubro na TV Globo

11/06/12 às 00:00 - Atualizado às 12:01   |  Cristina Padiglione/Agência Estado
Silvio de Abreu, o escritor que retrata São Paulo à maior plateia que a cidade já teve (foto: NILTON FUKUDA/AE)

 Quando chegar outubro, Silvio de Abreu, o escritor que retrata São Paulo à maior plateia que a cidade já teve, volta a dominar a faixa das 19 horas da TV Globo com a novela que mudou o histórico do horário. Faz quase dez anos que a vontade de refazer “Guerra dos Sexos” permeia os planos do dramaturgo, e serão quase 30 anos passados da primeira versão, escrita por ele, com direção de Guel Arraes e do mesmo Jorginho Fernando, agora responsável pelo remake.
“Foi a primeira vez que se fez uma novela em que a comédia entrava em primeiro plano”, conta o autor à reportagem, em entrevista realizada em seu apartamento, uma cobertura no bairro dos Jardins, de onde ele alcança vista invejável da cidade que lhe serve de cenário para as crônicas traduzidas em folhetins. “Todas as novelas da 7 tinham a marca do Cassiano (Gabus Mendes): eram histórias românticas, com personagens suaves. Guerra dos Sexos entrou com uma grande comédia pastelão, que era coisa só da linha de shows. Era novidade, daí por que fez muito sucesso, mas não de cara, é bom que se diga. No início, as pessoas estranharam, houve esse ruído.”
Agora, tendo como base o script de 1983, Silvio de Abreu refaz diálogos e situações, mas a história dos primos Charlô/Charlotte e Bimbo/Otávio lá está, pronta para ser recontada, como clássico que é.

Agência Estado — O fato de o remake ser de um enredo seu reduz a cobrança por comparações com o original?
Silvio de Abreu — Ah, mas vão criticar do mesmo jeito, tem muita gente que já viu e vai criticar, inclusive porque eu estou tomando liberdades que eu não tinha lá.

AE — Como o quê?
Abreu —  As figuras da Fernanda (Montenegro) e do Paulo (Autran) estarão na novela. Na história original, morre um tio, Enrico, de quem havia um retrato em cima da lareira. Esse tio deixa para a Fernanda e o Paulo uma herança grande. Agora, as figuras do Paulo e da Fernanda morrem no começo da novela, no primeiro capítulo, e a imagem deles fica em cima da lareira. Essa morte repercute em Twitter, Facebook, uma morte inusitada, não vou dizer como é (risos). Eles agora é que deixam a herança para dois sobrinhos homônimos, que serão a Irene Ravache e o Tony Ramos. Mas a atriz que fez a Olívia, a empregada da casa, será a mesma: Marilu Bueno. Ela vai se lembrar de muitas cenas. E aí a gente vai brincar com flashbacks, usando as cenas de Paulo e Fernanda. Não muitas, mas as que nos parecem mais divertidas.

AE — Você está usando o roteiro de 30 anos atrás como base?
Abreu  —  Uso. As ações eu conservo, os diálogos, estou modificando todos, porque mudaram muito. Palavras que a gente usava há 30 anos já não se usam, como “é uma brasa”, “sai dessa”, coisas assim. E também a Charlô e o Bimbo eram personagens que tinham uma cabeça anos 40. Hoje eles têm cabeça anos 60.

AE — É, e a casa tinha decoração meio retrô, mas conservadora.
Abreu —  E vai ser assim, porque a casa foi herdada, é a mesma. A decoração é meio inglesa, porque eu preciso de uma certa austeridade para poder brincar. Eles têm armas, armaduras, lareira, só que é outro cenário, né? A gente fez a novela lá na (Rua) Lopes Quintas, tudo apertadinho. Agora tem o Projac, tudo é maior.

AE — Paulo Autran dizia que “o cinema é a arte do diretor, o teatro é a arte do ator e a televisão,...
Abreu—  ...”do patrocinador”. Mas ele falava isso porque metia o pau na televisão. Eu mudo para: “O teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão é a arte do escritor”. O que eu escrevo ninguém vai mudar. Eles (diretores) não mudam porque não sabem o que vai acontecer amanhã, eu tenho a história na mão. Roteirista de cinema não tem poder sobre a obra. Ele faz o roteiro, passa para o diretor, o diretor muda como quer, depois fica xingando, põe o nome junto.. Falam que não é possível fazer trabalho autoral na televisão. Besteira. Você pega uma novela minha e sabe que é minha. Da mesma maneira, reconhece uma novela do Aguinaldo Silva ou do Gilberto Braga. A gente tem uma marca autoral. Não é como no México, onde há uma tabela de coisas imutável: a mocinha tem que conhecer o mocinho no primeiro capítulo, que tem de acabar com beijo; a bandida é bandida, a mocinha é mocinha. Quem é escalado para mocinho é sempre mocinho e atriz que faz mocinha é sempre mocinha.

AE — Ainda é muito recorrente essa acusação de que novela “é tudo igual” e inferior a cinema, não?
Abreu — Esse preconceito contra novela no Brasil é engraçado. A gente atinge 40, 50 milhões de pessoas por dia. Desde 67, quando larguei o cinema pra fazer novela, falavam: “Você tá louco!” E o que sustenta a classe artística brasileira é a novela. O que fez o ressurgimento do cinema brasileiro em termos de público foi a televisão. Aliás, esse fenômeno aconteceu também nos Estados Unidos nos anos 50, quando diretores de televisão, tipo John Frankenheimer, Sidney Lumet, saíram da televisão e foram para o cinema e deram um realismo ao cinema americano que eles exercitavam na TV.

AE — Quais as mudanças do País em 30 anos que a nova “Guerra do Sexos” terá de assimilar?
Abreu — O que muda mais é a relação homem-mulher. Há 30 anos, o homem estava numa posição privilegiada na sociedade e a mulher estava lutando. Hoje em dia a mulher é presidente da República, ela está muito mais acima.

AE — Esse papel da Luana Piovani, a Vânia, meio feminista, muda?
Abreu — Não, ela é a mulher moderna, que não quer casar, quer uma vida sexual livre. Esse personagem vai ficar mais forte porque naquele tempo eu tinha muito problema de censura. Eu ia a Brasília a cada 15 dias para negociar com a doutora Solange. Tinha um caso de adultério, e adultério em novela era proibido. Pra ter a liberação, não podia haver beijo entre os adúlteros.

AE — E ainda tinha tanta interferência da Censura em 83?
Abreu —  O quê? Vereda Tropical (1984) foi proibida de estrear, tipo Roque Santeiro (em 1975). Fomos a Brasília na segunda-feira, às 7 horas da manhã, eu, o Carlos Lombardi, o Mário Lúcio Vaz e o Paulo Ubiratan. A doutora Solange estava de férias e tinha uma outra senhora, dona Egle. Passamos cena por cena. Naquela época, o capítulo ia pra lá sem sonorização, era muito corrido. E tinha uma cena em que a Lucélia Santos paria e aparecia de boca aberta. Mas eu disse que ali não havia berro, e sim a Ave-Maria, e comecei a cantar. Aí falaram: “Assim fica bonito”. A Geórgia Gomide, que fazia uma coisa Sofia Loren, não podia sentar de perna aberta. E cortaram uma cena em que o Paulinho Guarnieri batia no braço, mostrando o muque. Eles achavam que ele estava “dando uma banana” e “banana” remetia aos militares. Eu disse: “Não, ele está batendo no muque, não é uma banana, volta o tape”. Ficamos nessa discussão banana-muque-muque-banana, até que ganhei. Saímos de lá com a novela aprovada. Aí a dona Egle falou: “Sabe o que é, seu Silvio? O senhor fez uma novela, Guerra dos Sexos, tão bonita, com gente bonita, chique, rica. Agora vai fazer essa novela com gente pobre? Gente pobre é muito feia!” Juro por Deus.

AE — Agora você faz o que quer.
Abreu — Mais ou menos. Agora tem a classificação indicativa. Tem muita coisa que eu podia fazer que não posso fazer agora.

AE — Como o quê?
Abreu —  Tudo, a classificação indicativa proíbe tudo. É pior que censura. Armas, não posso usar às 7 da noite. Como é que um personagem vai ameaçar o outro com um porrete na mão? Ninguém é assaltado com um lápis.

AE —O quesito politicamente correto afeta o texto atual?
Abreu — Muito. Tomo muito cuidado pra não ofender ninguém, as pessoas brigam muito nessa novela. Tem coisas e palavras que não posso usar. Veja que agora não pode nem falar macaco! Não sei se posso falar cigano, não se pode mais falar mentecapto, retardado, isso faz parte de uma mudança da sociedade.

AE — Há referências à instabilidade econômica da época.
Abreu — Quando fiz a novela, era difícil arrumar emprego, o pobre estava muito mal. Isso muda. A estratégia da Charlô, com a loja dela, era atingir a classe AB. Agora é a classe C que está consumindo mais. Essas coisas estão sendo modificadas.

AE — Também não tinha celular e internet: todo mundo hoje pode ser facilmente encontrado.
Abreu — Isso é uma dor de cabeça, tem que mudar muita coisa. E aquela coisa de escutar atrás da porta, ter carta escondida, nada mais disso funciona

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