Populismo traz de volta o medo em Lima e em Viena

31/05/16 às 16:35

Fazem apenas 26 anos que, embora fazendo a mais milionária campanha já vista no Peru, o hoje Premio Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa, identificado pelo povo como um neoliberal de carteirinha, conseguiu perder uma eleição ganha para o desconhecido Alberto Fujimori, lançando seu país na mais negra fase de sua história. Uma década mais tarde, em novembro de 2000, após ter dado um autogolpe e ter modificado a Constituição na tentativa de permanecer no poder, “El Chino” como era conhecido nas ruas de Lima e nas encostas dos Andes, fugiu para o Brunei não assistindo a sessão do Congresso que lhe cassou o mandato. Exerceu o poder de forma tirânica e cruel, sustentado pelo capitão Vladimiro Montesinos à frente do grupo Colina, um esquadrão da morte logo transformado na Unidade de Inteligência Operacional do Exército. Quando Fujimori se divorciou, sua filha mais velha Keiko (nascida em 1976) tornou-se, entre 1994 e 2000, a Primeira Dama.

Os mais jovens não querem saber do que aconteceu no passado e os mais pobres costumam ser atraídos por promessas de apoio financeiro. Assim, fazendo uma campanha de nítido teor populista, Keiko Fujimori tem fortes chances de derrotar o ex-ministro da economia Pedro Pablo Kuczynski, o PPK, famoso por sua falta de carisma, nas eleições em 2º turno que se realizam no primeiro domingo deste junho de 2016. Ela foi derrotada quatro anos atrás por escassa margem pelo atual presidente Ollanta Humala que detém escassos 20% de apoio nas pesquisas de opinião apesar do sucesso de suas políticas econômicas que têm se traduzido em elevados índices de crescimento do PIB peruano. Seu pai está condenado a 25 anos de prisão por crimes de corrupção e por ordenar o assassinato de opositores mas, jurando que não vai indultá-lo (no que seria uma traição ao movimento fujimorista, cujos principais assessores fazem parte da equipe de sustentação da candidata) e prometendo não repetir o que eufemisticamente denomina de “erros do passado”, Keiko lidera as intenções de voto com 46% contra 42% de PPK, restando ainda 12% de indecisos.

Por razões distintas um medo bem maior do que aquele sentido por latino-americanos submetidos às costumeiras ditaduras regionais, num dos países econômica e socialmente mais desenvolvidos do planeta, a ameaça dos horrores do nazismo volta a bater às portas do austríacos, trasvestido na radiante figura de Norbert Hofer que, no comando do Partido da Liberdade quase foi eleito presidente no último 22 de maio. Perdeu no 2º turno (depois que os tradicionais social democratas e conservadores foram eliminados da disputa) por milímetros – para o independente e ex-verde Alexander Van der Bellen. A carreira só foi decidida graças aos votos recebidos por correspondência que inclui os austríacos residindo no exterior. Ou seja, pela vontade dos que vivem no país, teriam – numa volta ao passado – escolhido o candidato xenófobo que hurra contra os judeus e quer expulsar os imigrantes sírios que em desespero de causa batem às suas portas. A dissolução do Império Austro-Húngaro logo após o fim da 1ª. Guerra Mundial devolveu a liberdade aos austríacos, até que um grande admirador do fascismo de Mussolini, o social-cristão Engelbert Sollfuss tornou-se ditador até ser assassinado por uma brigada de agentes da SS em 1934. Quatro anos depois Adolf Hitler entrou na fronteiriça cidade de Braunau am Inn (onde nascera em 1889) e proclamou a Anchluss (anexação, para em seguida decretar a Lei da Reunificação da Áustria com o Império Alemão que, de imediato, foi aprovada em plebiscito nacional por 99,7% dos votantes. Agora, a União Europeia, já muito preocupada com o crescimento do fascismo principalmente na França, Hungria e Polônia, respirou aliviada com a vitória de Van der Bellen.

O que explica o ressurgimento de figuras como Keiko Fujimori num periférico país andino e de Norbert Hofer num ex-Império do 1º Mundo não é um inexistente saudosismo e sim uma mescla de desilusão popular com a democracia depois de anos de insucesso das políticas tradicionais conservadoras, de rejeição ou simples ausência de cultura política por parte da juventude e, ainda, de uma ativa militância dos grupos de extrema direita que vendem a perda da liberdade mascarando-a com promessas de solução aparentemente fácil e imediata para os complexos problemas de suas sociedades. Longe de estar superada, a divisão entre democratas e fascistas permanecerá como uma sombra no Peru e na Áustria.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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