Maoístas assumem no Himalaia

09/08/16 às 17:53

Do tamanho do estado do Ceará, mas com o triplo de sua população, o Nepal sofre com dois males inextinguíveis: os terremotos e os políticos. Em não mais do que 15% de seu território, ao norte a cadeia montanhosa do Himalaia que forma os limites com o Tibete chinês hospeda oito picos com mais de 8 mil metros (e outros 70 acima dos 7 mil), entre os quais o Kanchenjunga e o Everest, onde na semana passada uma avalanche acrescentou outros quatro alpinistas a suas vítimas. Na serra e logo na fértil região do Terai, as planícies nepalesas se estendem até as fronteiras da poderosa Índia.

Mao Tsé Tung faleceu em 1976 após comandar a China por quase três décadas, período no qual desenvolveu políticas que, segundo contagens independentes posteriores, resultaram num total de pelo menos 40 milhões de mortos. Não obstante, suas doutrinas continuaram inspirando revolucionários por todo mundo e vinte anos mais tarde o PCUN - Partido Comunista Unificado do Nepal, maoísta -, comandado por Pachandra (nome de guerra de Pushpa Kamal Dahal), lançou o país numa cruel guerra civil que só terminaria em 2006 graças à mediação da ONU. Na onda da confusão ideológica que caracterizou a atuação da esquerda após o fim da União Soviética, numa curiosa trajetória política Pachandra foi empossado em 3 de agosto último pelo Parlamento nacional como Primeiro Ministro com 61% dos votos graças ao apoio do majoritário Congresso Nepalês, partido centrista de corte liberal, e a oposição do Partido Comunista que se intitula marxista-leninista.

O acesso ao poder foi uma consequência do esgotamento da monarquia. Em 1º de julho de 2001 o príncipe herdeiro Dipendra, bêbado e drogado, assassinou a tiros de espingarda seus pais - o rei Birendra e a rainha Aishwaria – mais outros nove membros da família real. Um tio, Gianendra, assumiu o trono e ai permaneceu até 2007, quando o país se tornou uma república parlamentarista e, aproveitando o embalo, aboliu o hinduísmo como religião oficial de Estado, substituindo-o por um regime secular. Seguindo-se a um período de desacordos radicais envolvendo o Executivo, sempre provisório, e o Legislativo, finalmente uma nova Constituição foi aprovada em setembro do ano passado, com 90% de apoio no Parlamento. Contudo, o Nepal é o país das minorias: há uma centena de grupos étnicos reconhecidos. A nova Carta instituiu direitos na forma de cotas, mas os madhesis (o povo do Terai. Seu partido é o 4º em representatividade no Congresso, onde é marginalizado) declararam-se insatisfeitos e promoveram um amplo bloqueio na fronteira com a Índia, por onde ingressa quase tudo que o Nepal consome. Os 300 caminhões com combustíveis que cruzavam a fronteira a cada dia viram-se reduzidos a 10 numa intensa crise que afetou medicamentos, artigos de primeira necessidade e a própria economia nacional. Mesmo negando interferência, o governo indiano apoiou seus aliados madhesis até que, asfixiado, o Congresso nepalês aprovou um voto de desconfiança ao 1º Ministro K.P. Oly, forçando a escolha do maoísta ex-revolucionário Pachandra e a suspensão dos bloqueios.

À espera de que os políticos se entendam, a recuperação das imensas perdas causadas pelo terremoto de setembro (7,8 na escala Richter, o pior desde 1934) que ocasionou 9 mil mortes, não caminha. Nenhuma casa foi reerguida, enquanto as doações internacionais e 4,1 bilhões de dólares colocados à disposição dos administradores nepaleses permanecem sem destino.


Vitor Gomes Pinto
Escritor. Analista internacional

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