A ópera está viva, viva a ópera

20/12/16 às 00:00 Por Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

Já se disse que ópera é o “espetáculo total”; unindo música, canto, literatura, cenografia, atuação, balé, e até mesmo filosofia na forma de representação de um drama ou comédia. Nascida no final do século XVI em Florença como releitura de tragédias gregas encenadas com o uso de recursos musicais, ópera (obra) passou em seguida a ser o nome genérico do teatro musical, em que o texto é falado ou cantado com acompanhamento musical.

Há uma certa visão de que este seria um gênero de arte ultrapassado e apreciado apenas por esnobes, nada mais longe da realidade: não chegando ao extremo do que ocorre na Itália onde multidões de todas as classes sociais superlotam os teatros, e cantam com o coro, aplaudem com entusiasmo bons desempenhos e vaiam impiedosamente qualquer deslize, a ópera está viva, cada vez mais viva. Está até mesmo em nossa memória auditiva e afetiva, não é raro nos surpreendermos a trautear trechos de árias que nem sabíamos conhecer, pois sempre os ouvimos não identificados, em filmes ou como base da melodia de canções populares.

Curitiba assistiu ao II Festival de Ópera do Paraná, evento onde se esperava que, nas palavras de seu diretor geral, Gehad Hajar, “as produções e emoções oferecidas contemplem e elevem ainda mais o espírito artístico e humano”. Quase trezentas e cinquenta pessoas trabalharam, vindas de quatro países, diretores, produtores, cantores, músicos, atores, maquinistas, iluminadores e todos aqueles sem os quais o espetáculo não acontece, ou acontece com menor brilho. O público movimentado chegou perto de sete mil pessoas, espectadores e também participantes; os espetáculos não permitiram a passividade das plateias, encantaram, seduziram, comoveram, divertiram, provocaram, realizaram enfim o objetivo da arte: instigar, emocionar.

A programação constou de onze espetáculos, entre óperas, musicais e concertos, apresentados em auditórios do Teatro Guaíra, salas como a Capela Santa Maria, a Casa Heitor Stokler ou o Paço da Liberdade, até mesmo na rua.

Foram realizadas algumas apresentações tipo “Flash Mob”, em que grupos de pessoas marcam encontro pelas redes sociais em determinado lugar e, inesperadamente para os demais presentes executam alguma performance de canto, dança ou representação. Houve evento desse tipo até dentro de um ônibus. Provocar, divertir, surpreender... sempre.

E, em vista dos preços estratosféricos dos ingressos de espetáculos menos elaborados, e geralmente mais patrocinados, foi surpreendente constatar que as entradas tiveram tarifas módicas e em muitos casos sequer foram cobradas, na salutar tradição de permitir o acesso do pessoal do “sereno” como convidado. Esta é a verdadeira finalidade do teatro público e do patrocínio público, proporcionar espetáculos de alta qualidade a preços acessíveis.

Eruditos e pessoas do povo, foram todos bem vindos, pois eventos deste tipo mostram uma verdade conhecida mas às vezes esquecida: há público e interesse para atividades culturais de bom nível. O preconceito de que jovens não se interessariam por cultura e espetáculos de bom padrão é falho e falso, basta existir oferta que haverá demanda. Os jovens estão vivos, escrevem poesia, compõe música, discutem filosofia, pintam, leem bons e nem tão bons livros, fazem teatro, curtem quadrinhos, querem fazer cinema, cantam, dançam. Merecem mais do Estado, merecem mais de todos nós.

Secretaria de Estado da Cultura, Teatro Guaíra, Guairacá Cultural e todos os apoiadores públicos e privados, que com sensibilidade nos propiciam tão belos espetáculos, organizados, dirigidos, interpretados e cantados por pessoas tão talentosas, queremos mais. Um, dois, três, mil festivais de ópera, de música, de poesia, de teatro, de cinema. De vida.

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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