Dignidade

14/02/17 às 00:00 Por Wanda Camargo | assessoria@unibrasil.com.br

“Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e precisamos quando adultos, nos é dado pela educação”. (J.J.Rousseau)

Ainda que metáforas esportivas tenham se desgastado por excesso de uso, algumas delas ainda nos mostram caminhos. A vida real é diferente e tremendamente mais complexa do que uma quadra de esportes, porém nas atividades desportivas ocorre de modo geral algo que deveria ocorrer na vida real: condições iniciais razoavelmente equilibradas. Os times ou atletas individuais são de níveis semelhantes; não se concebe uma seleção nacional disputando seriamente com um time amador, ou um corredor de ponta em competição com um principiante. O equipamento utilizado é de mesmo padrão e a arbitragem deve agir no sentido de que regras claras e estabelecidas sejam respeitadas. O sucesso obtido nestas condições é decorrência de talento, competência, treino, determinação e até mesmo de um pouco de sorte, mas costuma ser justo, quase sempre “vence o melhor”.

Algumas teorias políticas, tão generosas quanto irrealistas, preconizam sociedades totalmente igualitárias, porém o confronto com a realidade mostra que, embora muito sangue tenha sido derramado na busca desse ideal, isso não é possível. Os humanos somos diferentes na personalidade, nas vocações, nas concepções de mundo, na resolução e até na (considerada por muitos) pecaminosa ambição; e em condições perfeitas isso validaria ganhos obtidos por mérito pessoal.

O que torna diferentes resultados obtidos nem sempre justos ou legítimos é a imensa disparidade de oportunidades. Na vida, diferentemente do esporte, nem sempre vence o melhor e, com certeza, as condições iniciais, a quadra e o equipamento não são equivalentes para a imensa maioria. Para tentar equilibrar este jogo é indispensável construir um sistema educativo que garanta igualdade na oferta escolar, e que esta consiga escapar da armadilha de perpetuar algumas características que, de dentro dela mesma, mantenham as dessemelhanças negativas, ou seja, as que separam os seres humanos pela cor, religião, cultura. E, ainda, que compense de modo eficaz eventuais deficiências culturais básicas, as normas comportamentais e cognitivas que o educando traz informalmente do convívio familiar e social.

No competitivo, e cruel, mundo do trabalho, que demanda preparação consistente e de boa qualidade, nem todas as famílias conhecem as regras escolares – algumas até por nunca terem podido frequentá-las –, as diferenças de infraestrutura física e concepção metodológica, qualificação de professores e, portanto, resultado final a ser julgado socialmente e por empregadores, será brutal.

Esta não é, portanto, uma competição justa por princípio; além das desigualdades de oportunidade profissionais futuras devidas a ofertas escolares diversas, temos a não inclusão social mais ampla destas pessoas, que terão acessos culturais e de lazer diferente daquelas que, por questões de nascimento ou rara oportunidade tiveram ingresso ao melhor de nossa comunidade em termos educacionais.

Professores sempre reagiram às massificações, modernidade técnica não pode levar ao desprezo pela dignidade individual; é preciso lembrar que desde o século XVII já definíamos que dignidade é o valor daquilo que não tem preço, que não pode ser substituído por algo que lhe seja equivalente, é indispensável à autonomia e constituição ética do ser humano. Se dignidade não tem equivalente, não é um valor relativo, não pode ser comprada com dinheiro, faz parte do próprio espírito, da natureza intrínseca de qualquer pessoa.

O quanto nossas instituições educacionais efetivamente preservam e promovem este elemento constitutivo do jovem?

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil

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