República de Curitiba vira pivô de "briga" por registro de marca

No Instituto Nacional de Propriedade Industrial há 16 processos em andamento, de confecção até água

17/04/17 às 00:00 - Atualizado às 08:20 Josianne Ritz
As empresárias Suelen de Mello Tazza e Deborah Torres: marca em roupas (foto: Wagner Rosário)

Quando no início de março do ano passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse à presidente Dilma Rousseff estar “assustado com a República de Curitiba” em diálogo gravado num dos grampos autorizados pelo juiz federal Sergio Moro, nem ele nem ninguém imaginava que a expressão iria se tornar uma “bandeira” dos curitibanos favoráveis à Operação Lava Jato.

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Em Curitiba, a expressão está em protestos contra a corrupção, em manifestações a favor de Moro e pode virar marca de pelo menos 16 produtos e serviços. Esse é o número de processos de pedido de registro de marca “República de Curitiba” registrados no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), autarquia federal vinculada ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, responsável pela gestão do sistema brasileiro de concessão e garantia de direitos de propriedade intelectual para a indústria.

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Na lista de pedidos de marca, há dois para uso da marca em malhas e vestuários, dois para marketing e propaganda e dois para água mineral e gasosa. A onda da cerveja artesanal também não ficou de fora da moda da “República de Curitiba” e há um pedido do setor.

Segundo informações do Inpi, existem processos ainda para uso do bordão curitibano em academia, espetáculos e programas de TV, alimentação natural, bares e aluguel de salão de festas e cosméticos. Todos os 16 pedidos de marca foram abertos em 2016, mas nenhum deles ainda foi liberado e o processo é longo mesmo. De acordo com a assessoria de imprensa do Inpi, atualmente, o processo para registro de marca demora, em média, três anos.

Para a marca “República de Curitiba”, há três processos de pedidos múltiplos para um mesmo setor — vestuário, água mineral e marketing. Neste caso, segundo Inpi, pela regra geral fica com o nome quem registrou antes o pedido. O Inpi não costuma liberar o uso do nome para produtos similares que podem ser confundidos como de uma mesma rede, como perfumes e roupas.

Pioneiras na Capital têm três pedidos no Inpi

A curitibana Deborah Negrão Torres, junto com sua sócia Suelen De Mello Tazza, apresentou três pedidos da marca “República de Curitiba” no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), para uso em vestuário e malhas, para academia e marketing. A história de Deborah com o nome é mais antiga que os pedidos. Ela é a criadora do primeiro dos cerca de 50 grupos e páginas de Facebook com o nome República de Curitiba. O grupo conta com quase 35 mil pessoas e é palco de debates de acalorados sobre política.
Foi no grupo que ela teve a primeira ideia de produto com a marca, o passaporte da República de Curitiba com brasão, que fez sucesso na época das manifestações e hoje é vendido a R$ 10. “Depois é que ampliamos para camisetas, camisas, moletons. Tudo que fazemos é de muita qualidade”, conta Deborah. Por enquanto, ela vende os produtos na barraca que fica na frente da Justiça Federal, onde o juiz Sérgio Moro trabalha, e em uma página no Facebook.
“Só vamos pensar em uma loja física e em ampliar a produção depois que o pedido de marca for aprovado para não corrermos risco”. Os moletons custam entre R$ 110 e R$ 120, dependendo do tamanho, e as camisas polo custam entre R$ 50 e R$ 80. Segundo Deborah, as vendas sempre aumentam quando há manifestações. “O mais impressionante é que quem mais compra os nossos produtos com a marca República de Curitiba são turistas. Já mandei produtos até para o Pará. É uma marca que conquistou e chamou atenção”.

“Vislumbrei uma oportunidade”

Já o médico e empresário Luís Fernando Girardello, que desde junho do ano passado comanda o Bar República de Curitiba, conta ter vislumbrado uma oportunidade ao adotar a expressão como nome de seu estabelecimento. “Quando o Lula falou da República de Curitiba, pensei: ‘ah, por que não pegar esse marketing pronto e usar o nome?’”
Ao comentar com alguns amigos sobre a ideia, foi alertado para a possibilidade de desagradar algumas pessoas. “Mas eu não sou nem de extrema-direita ou extrema-esquerda. Na realidade, o nome é uma brincadeira e até o meu cardápio tem brincadeira com outros políticos, como os petiscos petistas e peemedebistas. Tem muito cliente que começa a ler o cardápio e dá risada”, conta, ressaltando ainda que o essencial é ter educação e saber respeitar. “Aqui prezamos pela educação, então não tem porque levar as coisas pelo lado radical. O ideal é que se respeite opiniões divergentes, porque ninguém deve perder amigo por causa de política”, completa.

De onde vem a expressão?

Quando o ex-presidente Lula usou a expressão “República de Curitiba” foi um trocadilho com um fato histórico da política brasileira conhecida como a “República do Galeão”, onde um inquérito assumido pelas Forças Armadas a partir da Base Aérea do Galeão, no rio de Janeiro, foi feito a “toque de caixa” e ligou o então presidente Getúlio Vargas a um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, seu ferrenho opositor. O inquérito foi finalizado em menos de uma semana.

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