
Minha entrevista com Maria Isabel Corrêa sobre a Colônia Cecília e o anarquismo.
Quem foi Giovanni Rossi?
Giovanni Rossi foi um italiano um idealista utópico, veterinário por formação, mas com alma de sociólogo! Sensível à miséria do povo, preocupado com a liberdade e a justiça social.
Ele é anarco-socialista?
Sim, ainda na itália sonha com a implantação de uma colônia socialista, nos moldes da utópica “Poggio al mare” do seu livro “un comune socialista”.
Em 11 de novembro de 1887 instala-se a assembléia geral para discussão e aprovação do Estatuto Orgânico da Associação Cooperativa de Cittadella na comunidade de Stagno Lombardo – Cremona. (assinado por trinta trabalhadores) Apesar do coletivismo nas relações de trabalho, Rossi desejava uma colônia socialista, o que era impraticável em meio a camponeses impregnados de preconceitos religiosos e sociais.
Embalado por essas ideias Rossi trabalha para a formação de uma Unione Lavoratrice per la colonizzazione sociale in Italia, no intuito de formar uma colônia experimental. O Atto di Costituzione della Unione Lavoratrice é oficializada em 11 de dezembro de 1888, subscrito por camponeses, operários e profissionais liberais.
Em Torricella havia um grupo de camponeses despejados de suas terras que formaram uma associação, na Província de Parma. Muitos destes camponeses vieram para a Colônia Cecília. Ao não conseguir os subsídios para os investimentos nessa comunidade socialista, Rossi cria um núcleo dentro da própria Citadella, fato que é visto com desconfiança pelos associados.
Como ele decidiu construir a Colônia Cecília?
Creio que com a impossibilidade de criar um núcleo socialista libertário onde tudo fosse comum e se destruísse o “egoísmo familiar”, e diante das dificuldades de aquisição de terras na Itália, Rossi começa a pensar nas terras além-mar.
A ideia mais aceita é que o grupo iria para o Uruguai, depois para Porto Alegre e, finalmente por problemas de saúde derivados do mar (mal de mare) acabaram descendo no porto de Paranaguá, no Paraná.

Maria Isabel Corrêa
Por que a Colônia Cecília é importante?
A meu ver, a Colônia é iportante porque prova que é possível viver numa organização comunitária, solidária, onde os interersses comuns se sobreponham aos individualistas, seja de indivíduos, seja da família.
Como eles se alimentavam lá? Eles produziam sua alimentação?
No início compraram seus suprimentos, com o dinheiro que traziam, depois plantavam e tinham alguns animais, mas há a história de um roubo de todo o dinheiro da colheita..
Existia discussões ou conflito entre eles?
Sim, especialmente em momentos onde houve muitas famílias na colônia, famílias estas que não comungavam de um espírito libertário e não podiam entender a divisão conforme a necessidade de cada um(a) e não conforme o trabalho. A própria experiência de amor livre foi foco de discórdias… A situação de penúria da colônia também deve ter sido uma ducha de água fria para camponeses que fugiam justamente da fome e da miséria…
Por que essa experiência terminou após 4 anos?
Creio que o fato de Rossi ter que ir à Itália por duas vezes buscar recursos e fazer propaganda da própria colônia deixou o movimento acéfalo, e, embora o anarquismo não aceite lideranças, não há como negar que a presença de Rossi fez muita falta… Creio que o próprio Rossi se desencantou, e ao mesmo tempo provou aquilo que desejava e foi em busca de uma vida mais digna, com menos dificuldades e sofrimento.. As famílias que ficaram sucumbiram ao regime estabelecido.. era muito fácil para agricultores migrantes comprarem terras..
Você pode falar um pouco sobre você? Por que se interessou pela Colonia Cecília?
Cheguei em Palmeira em 1982 e logo que ouvi os primeiros relatos sobre a colônia Cecília fiquei fascinada!! Saber que num recanto tão distante dos centros mais desenvolvidos conviveram ideias de liberdade, de fraternidade, de ideias dissonantes da ordem estabelecida!! Ao mesmo tempo percebia que as pessoas tinham vergonha de falar sobre a Cecília… Em 1988, quando se escreveu a Constituição Estadual, fui uma das pessoas que recolheu assinaturas para uma emenda popular à Constituição, que contemplasse a colônia Cecília, no que tange ao resgate de sua história. Ficou lá, nas disposições transitórias, art. 32, o dever do Estado de resgatar a memória imaterial da colônia… até hoje o Estado nada investiu..
Em 1989, quando trabalhava no Departamento de Eduacação da Prefeitura, a rede Bandeirantes de televisão filmou uma série sobre a colônia Cecília, ajudei a buscar materiais para compor os cenários e acabei até aparecendo em uma cena..
De lá para cá, buscamos aproximar as pessoas que tem o objetivo comum de resgatar essa história..
Vai continuar
A Colônia Cecília
Foi uma comuna experimental baseada em premissas anarquistas. A Colônia foi fundada em 1890, no município de Palmeira, no estado do Parana, por um grupo de libertários mobilizados pelo jornalista e agrônomo italiano Giovanni Rossi(1859-1943).
A fundação da Colônia Cecília foi a primeira tentativa efetiva de implantação do ideário anarquista no Brasil (1889). Rossi, ideólogo e escritor e anarquista.
O experimento da Colônia Cecília terminou por vários motivos. O principal foi a pobreza material, chegando mesmo a condições de miséria. Em segundo lugar, a hostilidade da vizinha comunidade polonesa, fortemente católica. O próprio clero e as autoridades locais promoveram o ostracismo dos anarquistas. Enfim, havia as doenças, ligadas à desnutrição à falta de condições de saneamento adequadas e os problemas internos ligados às dificuldades de adaptação ao estilo de convivência anarquista, particularmente no tocante ao amor livre, que, embora teoricamente fosse aprovado por todos, na prática, despertava temores, especialmente entre as camponesas.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/