Arquivos da categoria: Entrevistas

“Quis trazer o mundo mais perto das crianças da rua.”

30 julho, 2012 às 07:51  |  por Erol Anar

Minha entrevista com Fernando Francisco de Gois,  fundador, coordenador e educador de meninos de quatro pinheiros.


Poderia contar sua trajetória, você foi padre?

Fernando Gois: Fui padre durante 14 anos, quando percebi que a Igreja falava muito e fazia pouco, deixei de ser padre. Trabalhei com Dom Helder e com Paulo Freire no nordeste.

Residi numa favela durante oito anos depois que voltei do nordeste, queria trabalhar com a questão da droga e ajudar a diminuir a violência. Precisava desenvolver mecanismos para trabalhar com essa população, cheguei a ser preso por denúncias e por perseguição ao trabalho que fazia. Foi muito importante residir na favela. Estive numa comunidade que conseguiu se organizar em 83 sem auxílio do poder público, criaram associação de moradores, na época trabalharam para serem donos do seu território, era na Vila Lindóia, abaixo do posto Brasília.
No mundo tudo é feito para os adultos,  quis trazer o mundo mais perto das crianças e adolescentes, para aqueles que estão nas ruas. Morei na rua por três anos para saber como era, ainda hoje tenho projeto de voltar a morar nas ruas em 2015.

O que significa? O que sente quem mora nas ruas?

Fernando Gois: Estive em Fortaleza, no Congresso de Moradores de Rua, lá perguntei: O que leva uma pessoa para morar na rua? A resposta foi:a falta de um caminho. Outra pergunta foi: Tem coisa boa na rua? A resposta foi:  sim, a liberdade. E também foi questionado os sonhos de quem mora nas ruas, a resposta foi que o sonho é ter uma família, uma casa. A pergunta: O que esperam da sociedade? Teve como resposta: Nada.

Quem mora nas rua não tem documentos, não tem direitos. Aqui conheço um senhor de 54 anos que não tem nenhum documento, não acessa direitos por causa disso.
Você dedicou sua vida para os outros. Por que?

Fernando Gois: Todo trabalho que faço quem mais ganha sou eu, aprendi a viver apenas com o necessário,  São Francisco já tinha indicado esse caminho. Sei fazer mediação de conflitos, aprendi a dialogar, procuro construir um projeto de vida.

O que você quer da vida?

Fernando Gois: Construir um mundo melhor.

Tem esperança?

Fernando Gois: Pequena, mas tenho. Trabalho com restos humanos e os devolvo construídos para a sociedade.


Quem é culpado por essa realidade social?

Fernando Gois: Todos. Temos nossas famílias, nossas vidas, deixamos aqueles que pagam um preço muito caro por nascerem pobres viverem a própria sorte, aqueles que vivem aqui sem suas famílias. Que culpa tem alguém de nascer na pobreza e num meio violento?

Você recebeu prêmio importante pelo seu trabalho, como foi?

Fernando Gois: Foi o reconhecimento da UNESCO/UNICEF ao meu trabalho, em 2006, o reconhecimento do trabalho com as crianças. Há teses de doutorado na Espanha, na Alemanha, sobre o trabalho aqui na chácara, tem umas 15 teses realizadas aqui. Também tem um livro publicado na Suíça sobre o trabalho daqui.

Por que tem tanta criança nas ruas? Viajei por muitos países e acredito que aqui no Brasil é uma realidade preocupante pelo número absurdo delas nas ruas.

Fernando Gois: Pela pobreza, as meninas chegam com histórias de estupro, violência nos lares. As crianças crescem e tem seus filhos e os educam da mesma maneira como foram educadas. Há uma menina que ficou num abrigo, casou com o chefe do abrigo, não tinha muitas opções. Teve descendentes que hoje vivem nas ruas como ela, alguns já foram assassinados. Ela disse um dia que educou seus filhos como foi com ela mesma.

E sobre a mentalidade dessas pessoas?

Fernando Gois: Muitos moradores de rua possuem transtornos mentais também.

Trabalho há 30 anos com população de rua, uma vez perguntei que sonhos tinham os meninos e alguns me responderam: nada, esta tudo bom. Outros disseram que queriam ser policiais, para também poder bater e não só apanhar. Lembrei do meu papel, ajudar a construir sonhos. Quero conhecer os objetivos deles, sonhos, quando eles voltam da escola pergunto como foi. Um dia um menino me respondeu: mais ou menos, eu provoquei, disse: seu sonho também então, esta mais ou menos.
Tem um garoto que passou 10 anos nas ruas, era violento, tinha modelo de relacionamento violento, esse garoto ficou aqui por seis anos. Ele criou um programa de contraturno muito bom, quando os meninos estão difíceis lá eles enviam para cá.
Hoje nossa proposta é trabalhar os meninos com ajuda do meio ambiente, através de quatro ferramentas pedagógicas: Acolher, escutar, cuidar e transformar.
Oual é proposta pedagógica para os meninos?

Fernando Gois: A proposta da chácara saiu das ruas, vamos trabalhar o contato com a terra, com os animais, tudo longe do passado.Esses meninos sempre foram tratados como casos de polícia e não como deveria ser, são casos de políticas públicas. Escutei os meninos, a história deles, vejo na história deles que ainda fiz muito pouco é preciso se fazer muito mais por eles.

Sobre a ferramenta acolher, usamos o exemplo da galinha quando chove, ela abre suas asas e protege seus filhotes. Escutar as histórias deles, de suas famílias é importante. É o exemplo do cachorro, quando escuta seu dono chegando, do jeito que for, bêbado, mau vestido… Corre para ele e o protegerá sempre, de todas as circunstâncias. Sobre o cuidar, cuidar não é um ato, mas sim uma atitude. Somos filhos do cuidado, precisamos cuidar de nossas crianças, os políticos não fazem isso. O exemplo é o urubu, ele é feio, preto, mas limpa tudo, devora os dejetos, voa muito alto para enxergar bem onde esta a sujeira para limpá-la. Ele mal acaba de limpar um lugar já volta para o alto para começar tudo de novo. Incessante o seu cuidado. E a ferramenta transformar, é trabalhar com os sonhos, com a sociedade, mostrar exemplos de superação. O exemplo são as abelhas, as operárias trabalham muito e nos deixam seu mel, trabalham juntas, são pequenininhas e fazem uma grande produção de qualidade. Nós todos vemos a situação social e dizemos que não conseguimos resolver os problemas sociais dos quais somos parte.

Meninos de Quatro Pinheiros

A chácara de meninos de quatro pinheiros é uma organização non governamental que abriga 84 meninos entre 6 e 18 anos de idade.  Promove a inclusão social de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. O objetivo é retorno familiar. Na chácara tem cinco casas para os meninos ficam, no local tem uma clinica medica e odontologia comunitária.  As principais atividades são acompanhamento escolar, familiar e psicológico. Tem mais capoeira, futebol, musica, pintura, inglês, informática, serigrafia, criação de animais, flora cultura, artesanato…

Em 2007 a ONU reconheceu a Chácara como uma das 50 iniciativas mais relevantes pela infância no Brasil. Em 2010 fundador e coordenador da Chácara Fernando Gois, venceu o Prêmio Betinho Atitude Cidadã da COEP.

Eles falam assim: “Criança não é problema, criança é solução!” A chácara tem parceiros  algumas prefeituras,  alguns departamentos de governo e as organizações non governamentais, unidades de ensino, empresas e as pessoas.

Uma entrevista sobre a Colônia Cecília e o anarquismo (2)

2 julho, 2012 às 08:57  |  por Erol Anar

Minha entrevista com Maria Isabel Corrêa sobre a Colônia Cecília e o anarquismo.

Você é anarquista? Por que?
Eu fui professora de sociologia por algum tempo, tanto no ensino médio quanto na UEPG – Universidade Estadual de Ponta Grossa, esse tema se integrava em função da sociologia e da minha paixão por ele!!
Houve uma época em que me identificava muito com o ideário libertário, especialmente na pedagogia libertária!!
Mas não, não posso me autodeclarar anarquista, estou muito longe disso..
Gosto na filosofia do anarquismo da seguinte idéia: O anarquismo derruba mas não promete construir de novo. E nele existe caos sempre. Essa idéia de anarquismo é utopica ou real?
É utópica!! A própria democracia é utópica… e vejo o anarquismo como o extremo da democracia!! Onde a preocupação com o outro é quase maior do que a preocupação consigo mesmo(a)!! Os movimentos feministas, os movimentos ambientalistas e muitos outros movimentos tem uma carga libertária muito grande!!
Quando fala anarquismo o povo pensa em terrorismo. Quando você fala que gosta de anarquismo, o que as pessoas falam para você sobre o assunto?
Na prática, assim como não há uma só democracia, também não há um só anarquismo… o fato de movimentos anarquistas terem causado terror na Europa assusta muito as pessoas… Mas eu sempre lembro às pessoas que não teríamos organizações sindicais fortes não fosse o movimento anarco-sindicalista!! E que as utopias são sempre molas propulsoras para que sonhos sejam pelo menos almejados!! Para que lembremos que mudanças sempre deveriam ser benvindas!! Para que lembremos que a diversidade deve ser sempre ser buscada!!
O que pode falar sobre o anarquismo na literatura. Por exemplo, sobre a obra clássica “Os Despossuídos” de Ursula K. Le Guin ?
Creio que o anarquismo na literatura busca preencher espaços , lacunas que invariavelmente permanecem entre o passado e o futuro, busca quase que se aproximar da ficção científica… Busca explorar as possibilidades entre o que temos e o que poderíamos ter… é um exercício de reflexão, especialmente numa sociedade em que os governos não conseguem dar conta de todas as complexidades e desigualdades…
Hoje na América do Sul tem comunidades ou grupos anarquistas? No Brasil e nos outros países?
Sim, creio que existem das mais diversas natureza, desde grupos nas academias que discutem as questões formais até grupos de rua que vivenciam o anarquismo como liberdade total de realizar aquilo que desejam.. Há muitas diferenças, mas para o senso comum, paras as pessoas em geral, permanece aquela ideia de caos total, ideias que lhes vem à mente quando falam a palavra “anarquia”, sempre como algo negativo, pejorativamente…
E há algo comum no anarquismo e na democracia?
Vejo inicialmente uma grande diferença: a democracia é representativa, o anarquismo não se deixa representar, nem aceita representação!! Vejo como um ponto de aproximação o direito à liberdade, mais restrita na democracia, mais ampla no anarquismo.. A democracia acontece no regime capitalista, que é excludente e individualista, não poderia haver anarquismo neste sistema!! O anarquismo pressupõe socialismo, solidariedade… Vejo muito mais diferenças do que pontos comuns.

Uma entrevista sobre a Colônia Cecília e o anarquismo

25 junho, 2012 às 10:40  |  por Erol Anar

Minha entrevista com Maria Isabel Corrêa sobre a Colônia Cecília e o anarquismo.

Quem foi Giovanni Rossi?
Giovanni Rossi foi um italiano um idealista utópico, veterinário por formação, mas com alma de sociólogo! Sensível à miséria do povo, preocupado com a liberdade e a justiça social.
Ele é anarco-socialista?
Sim, ainda na itália sonha com a implantação de uma colônia socialista, nos moldes da utópica “Poggio al mare” do seu livro “un comune socialista”.
Em 11 de novembro de 1887 instala-se a assembléia geral para discussão e aprovação do Estatuto Orgânico da Associação Cooperativa de Cittadella na comunidade de Stagno Lombardo – Cremona. (assinado por trinta trabalhadores) Apesar do coletivismo nas relações de trabalho, Rossi desejava uma colônia socialista, o que era impraticável em meio a camponeses impregnados de preconceitos religiosos e sociais.
Embalado por essas ideias Rossi trabalha para a formação de uma Unione Lavoratrice per la colonizzazione sociale in Italia, no intuito de formar uma colônia experimental. O Atto di Costituzione della Unione Lavoratrice é oficializada em 11 de dezembro de 1888, subscrito por camponeses, operários e profissionais liberais.
Em Torricella havia um grupo de camponeses despejados de suas terras que formaram uma associação, na Província de Parma. Muitos destes camponeses vieram para a Colônia Cecília. Ao não conseguir os subsídios para os investimentos nessa comunidade socialista, Rossi cria um núcleo dentro da própria Citadella, fato que é visto com desconfiança pelos associados.
Como ele decidiu construir a Colônia Cecília?
Creio que com a impossibilidade de criar um núcleo socialista libertário onde tudo fosse comum e se destruísse o “egoísmo familiar”, e diante das dificuldades de aquisição de terras na Itália, Rossi começa a pensar nas terras além-mar.
A ideia mais aceita é que o grupo iria para o Uruguai, depois para Porto Alegre e, finalmente por problemas de saúde derivados do mar (mal de mare) acabaram descendo no porto de Paranaguá, no Paraná.

Maria Isabel Corrêa

Por que a Colônia Cecília é importante?
A meu ver, a Colônia é iportante porque prova que é possível viver numa organização comunitária, solidária, onde os interersses comuns se sobreponham aos individualistas, seja de indivíduos, seja da família.

Como eles se alimentavam lá? Eles produziam sua alimentação?
No início compraram seus suprimentos, com o dinheiro que traziam, depois plantavam e tinham alguns animais, mas há a história de um roubo de todo o dinheiro da colheita..
Existia discussões ou conflito entre eles?
Sim, especialmente em momentos onde houve muitas famílias na colônia, famílias estas que não comungavam de um espírito libertário e não podiam entender a divisão conforme a necessidade de cada um(a) e não conforme o trabalho. A própria experiência de amor livre foi foco de discórdias… A situação de penúria da colônia também deve ter sido uma ducha de água fria para camponeses que fugiam justamente da fome e da miséria…
Por que essa experiência terminou após 4 anos?
Creio que o fato de Rossi ter que ir à Itália por duas vezes buscar recursos e fazer propaganda da própria colônia deixou o movimento acéfalo, e, embora o anarquismo não aceite lideranças, não há como negar que a presença de Rossi fez muita falta… Creio que o próprio Rossi se desencantou, e ao mesmo tempo provou aquilo que desejava e foi em busca de uma vida mais digna, com menos dificuldades e sofrimento.. As famílias que ficaram sucumbiram ao regime estabelecido.. era muito fácil para agricultores migrantes comprarem terras..
Você pode falar um pouco sobre você? Por que se interessou pela Colonia Cecília?
Cheguei em Palmeira em 1982 e logo que ouvi os primeiros relatos sobre a colônia Cecília fiquei fascinada!! Saber que num recanto tão distante dos centros mais desenvolvidos conviveram ideias de liberdade, de fraternidade, de ideias dissonantes da ordem estabelecida!! Ao mesmo tempo percebia que as pessoas tinham vergonha de falar sobre a Cecília… Em 1988, quando se escreveu a Constituição Estadual, fui uma das pessoas que recolheu assinaturas para uma emenda popular à Constituição, que contemplasse a colônia Cecília, no que tange ao resgate de sua história. Ficou lá, nas disposições transitórias, art. 32, o dever do Estado de resgatar a memória imaterial da colônia… até hoje o Estado nada investiu..
Em 1989, quando trabalhava no Departamento de Eduacação da Prefeitura, a rede Bandeirantes de televisão filmou uma série sobre a colônia Cecília, ajudei a buscar materiais para compor os cenários e acabei até aparecendo em uma cena..
De lá para cá, buscamos aproximar as pessoas que tem o objetivo comum de resgatar essa história..

Vai continuar

 

A Colônia Cecília

Foi uma comuna experimental baseada em premissas anarquistas. A Colônia foi fundada em 1890, no município de Palmeira, no estado do Parana, por um grupo de libertários mobilizados pelo jornalista e agrônomo italiano Giovanni Rossi(1859-1943).

A fundação da Colônia Cecília foi a primeira tentativa efetiva de implantação do ideário anarquista no Brasil (1889). Rossi, ideólogo e escritor e anarquista.

O experimento da Colônia Cecília terminou por vários motivos. O principal foi a pobreza material, chegando mesmo a condições de miséria. Em segundo lugar, a hostilidade da vizinha comunidade polonesa, fortemente católica. O próprio clero e as autoridades locais promoveram o ostracismo dos anarquistas. Enfim, havia as doenças, ligadas à desnutrição à falta de condições de saneamento adequadas e os problemas internos ligados às dificuldades de adaptação ao estilo de convivência anarquista, particularmente no tocante ao amor livre, que, embora teoricamente fosse aprovado por todos, na prática, despertava temores, especialmente entre as camponesas.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/

Uma entrevista sobre o Zen Budismo (Parte 2)

11 junho, 2012 às 10:06  |  por Erol Anar

Pode explicar resumidamente o ensinamento do Sr Buda sobre “as quatro nobre verdades”?
MR: As quatro nobres verdades são:
1) Há sofrimento.
2)Há uma causa que origina o sofrimento.
3) Essa causa pode ser removida e pode-se liberar, emancipar-se, do sofrimento experimentando-se Paz e tranquilidade (Nirvana).
4)Há um Caminho Nobre de oito aspectos, Nobre Óctuplo Caminho, cuja prática leva ao Nirvana, caminho este que não recai em extremos de austeridade nem de auto-indulgência (O Caminho do meio):
1)Visão correta: Ver claramente. O adjetivo “correto (a)” não quer dizer certo ou errado e sim apropriado, de acordo com 0 “assim como é”. “Correto” é uma traduçao da palavra sânscrita “samyak”, que significa “completo”, que não precisa de apoio por meio de explicação, de comparação.
2)Pensamento correto: Discernimento e não discriminação. Intenção correta.
3)Fala correta: Palavras que beneficiem. Comunicação correta.
4)Ação correta: Surge do pensamento correto, não matar, não roubar, não agir com agressividade, observando os valores éticos. Entramos em um processo doloroso quando infringimos a ética.
5)Esforço correto: Diligência; fazer o bem, não fazer o mal. Com energia e perseverança. Participação. Fazer o que deve ser feito sem devaneios.
6)Meio de vida correto: Com ética e pela justiça social e econõmica.
7)Atenção correta: Manter-se atento às armadilhas da mente que cria delusões, não esquecer-se da visão correta. Permanecer no aqui e no agora.
8)Concentração correta ou meditação correta, zazen: manter a mente clara e brilhante; ativa em tranquilidade, tranquila em atividade. Mente irrestrita. “Presença absoluta”.

No Brasil conheci pessoas que acreditam no budismo e ao mesmo tempo no cristianismo. Há uma contradição nisso?
MR: Se houvesse a pessoa não estaria bem.
Minha mestra costuma dizer que é muito difícil a comunicação sobre religião com uma pessoa de outra tradição, mas é muito fácil dialogar com uma pessoa que teve uma vivência mística, um despertar.

O que é Dharma?
MR: É a Verdade ou a Lei Verdadeira.
No Budismo dizemos “Budadharma”, os ensinamentos de Buda acerca da Verdade.
Os objetos de fé no Budismo são denominados as três jóias ou os três tesouros:
Buda: O Buda universal, A natureza desperta de todos os seres, a linhagem dos mestres e mestras.
Dharma: A Lei Verdadeira. O vasto oceano de sabedoria e compaixão. A doutrina.
Sangha: A comunidade de praticantes em harmonia com todos os Budas e Dharmas. Todos os seres.

No Brasil e no America do Sul, há muitos praticantes do zen Budismo? Por que?
MR: Acredito que devido à grande migração Japonesa e ao carater receptivo e multicultural da América do Sul e Brasil.

Pode contar uma historia curta do Zen?
MR: Um monge perguntou, certa vez, ao mestre Zen Joshu Jushin (778-897):
“Que é o meu Eu?”
Perguntou o mestre Joshu:
“Você terminou seu mingau da manhã?”
- Sim, já terminei.
Disse Joshu:
- Então lave sua tigela.

Não existe uma sociedade budista ou um templo budista na Turquia. Pelo menos nunca ouvi falar. Pode ser que existam poucas pessoas budistas por lá. Você avalia que na Turquia isso acontece porque a religão dominante é o islamismo? O Budismo permanece menos eficaz em países muçulmanos?
MR: O budismo tem um caráter não proselitista, não busca converter fieis.
A Visão panorâmica e integral de todo o Universo, todos os seres e tudo que existe, assim como é, acolhe e respeita todas as diversas manifestações culturais corretas, éticas, que respeitem à interconexão de tudo.
Gosto muito de uma estória zen que ilustra esse princípio de uma visão integral do Todo:
Um discípulo perguntou ao mestre: “Onde está Buda?”
O mestre disse: “Onde não está Buda?”
Além disso o budismo lida basicamente com o sofrimento e a insatisfação.
Assim como não há sentido em oferecer comida para quem acabou de fazer uma farta refeição e está satisfeito, o budismo se coloca à disposição apenas quando surge a necessidade, uma busca, por parte das pessoas.

Obrigado Monge Ryozan.
MR: Obrigado você.

Uma Entrevista Sobre O Zen Budismo (Parte 1)

4 junho, 2012 às 07:04  |  por Erol Anar

Minha entrevista sobre o Zen Budismo com monge Tesshin Ryozan.

Como você escolheu para sua vida seguir o caminho de ser Budista e monge?
MR: Desde criança sempre tive interesse e busca religiosa.
Num determinado momento tive uma dúvida sobre qual de dois corretos caminhos seguir e fui aconselhado por uma professora para escolher o caminho mais difícil, então escolhi casar ao invés de ser um monge…
Anos mais tarde, após vários anos de estudo acerca de religiões comparadas tive contato com a prática do zen budismo através da minha mestra, monja Shingetsu Coen Roshi, e foi tão maravilhoso a ponto de despertar a antiga vocação. Como o zen budismo permite o casamento para monásticos tornei-me monge assim que minha mulher e filho permitiram, pois é necessária uma autorização da família nesse caso.

O Budismo é uma religião, um estilo da vida ou uma filosofia? Ou O Budismo inclui todos eles?

MR: É religião e inclui psicologia e filosofia. Pode-se dizer que o budismo proporciona uma visão que permite um estilo de vida, uma maneira de viver pacífica e que proporciona tranquilidade, bem estar, ter apreço pela vida, com contentamento e produtividade.
O budismo é um caminho para a emancipação do sofrimento, para a transformação do sofrimento em sabedoria.

Quais são as diferenças entre as religiões monoteístas (Islã, Judaísmo, Cristianismo) e o Budismo?

MR: O budismo é uma religião não-teísta, isso não significa que seja ateista. Nega, sim, a existência de um deus Criador, separado da criação, afirmando a Onipresença, a causalidade, o co-surgir interdependente e simultâneo.
Xáquiamuni Buda, o Buda histórico, recusava-se a responder as questões trancendentais tal como “Existe vida após a morte?”, afirmando que tais respostas não libertam do sofrimento, que precisamos nos liberar do sofrimento nesta mesma vida. Ele afirmava “Não se preocupe com as questões que não ensino”.
Nenhum ensinamento, nenhuma descrição, nenhum pensamento pode expressar completamente o Absoluto — porém é plenamente vivenciável.

Existia o Taoismo antes do Budismo. O taoismo tem 5 mil anos de historia. Um escritor inglês afirmou sobre o Taoismo: “Nós poderemos entender o Taoismo após 20 mil anos.” Buda afirma o seguinte: “Quem me vê pode ver Dharma, quem vê Dharma, pode me ver.” No taoismo isso é diferente um pouco: “Quem vê o Tao, isso não é o Tao.” O que você pensa sobre o Taoismo?

MR: Há também uma frase do zen budismo que diz “Se você enxergar um buda diante de você, mate-o”, pois Buda não tem uma existência em separado.

A Verdade é atemporal. Dizemos que é “não nascida e não morta”. Existe antes do ser humano. Existe antes de nascermos, enquanto vivemos e vai permanecer após a nossa morte.
A Verdade não pode ser descrita em palavras. No entanto as expressões e descrições a seu respeito são infinitas e podem parecer paradoxais, como vários cegos descreveriam de diversas maneiras ao mesmo elefante que tocaram. Uma frase do zen diz “ Não olhe para o dedo que aponta para a Lua, olhe para a Lua”.
O Taoismo é um caminho religioso válido, entre muitos outros.

O que é o Zen? Qual é diferença entre Zen Budismo e Budismo Tibetano? Eu penso que o Zen Budismo é mais profundo e a meditação mais importante. O que pode falar sobre esse assunto?

MR: As diversas tradições budistas desenvolveram-se de forma independente ou paralelamente. Porém têm um objetivo comum. O Sutra do Lótus, um texto budista muito importante afirma “Um caminho único” entre as diversas tradições.
No zen budismo há uma tônica, uma ênfase na prática do zazen, a meditação budista não dual.
Como a Verdade é inefável, precisamos de meios hábeis, meios expedientes para podermos percebê-la, vivenciá-la. As diferenças entre o zen budismo e o Budismo Tibetano são em relação aos meios hábeis utilizados. Xáquiamuni Buda despertou fazendo zazen, esse é o motivo da importância da meditação para os budistas. O zen budismo intensifica essa importância básica e também utiliza inúmeros outros meios hábeis.

Li um livro em inglês, “Tibetan Wisdom for Living and Dying”, Em um parte do livro os estudantes falam sobre a Roda da Vida. A Roda da Vıda é tão profunda que permite reflexões diferentes sobre ela a cada momento, alunos de um mosteiro Budista na Mongolia fizeram comentários sobre a roda da vida. O que é a Roda da Vida? O que ela explica?

MR: A “Roda da vida” é uma representação esquemática, representativa e mnemônica da forma desperta ou deludida com a qual pode-se viver. Com bem-estar ou mal-estar.
Resumidamente esse diagrama, dividido em diversos setores concêntricos, descreve a partir do centro para a borda que os três principais venenos (geradores de todos os outros) que nos prendem a um eterno vir a ser (que nos impedem de vivermos bem agora mesmo) são a ignorância (que é uma forma errônea do conhecimento) a raiva e a ganância (princípios de rejeição ou de apego extremo a algo ou alguém). Os três venenos são representados respectivamente pelo porco, pela cobra e pelo galo. O anel seguinte representa que podemos ter ações ascendentes ou descendentes representado por dois semi círculos, um claro e o outro escuro, respectivamente com pessoas subindo ou descendo um caminho ou uma escada.
O anel seguinte é dividido em seis partes, representando seis maneiras básicas de expressão do ser humano, os seis níveis ou reinos:
1)Seres infernais: em sofrimento permanente.
2)Seres famintos ou fantasmas famélicos: insatisfação, desejo insaciável.
3) Seres animalescos: predomínio do instinto, inércia.
4) Titãs, ou seres briguentos: seres com sede de poder, riqueza, dominação pela força.
5)Seres humanos(estando no nível humano): equilíbrio de experiências boas e ruins, alegria e tristeza, etc.
6) Seres celestiais: poucas experiências de sofrimento, não têm dificuldades de dinheiro, saúde, sofrem apenas se decaírem desse reino.
Podemos experienciar os seis reinos de existência, de forma durável ou não. Em apenas 24 horas temos a capacidade de migrar incontáveis vezes pelos 6 reinos e sofrer os seus efeitos.
É dito que é através do humano, em nível humano, que se pode encontrar uma escapatória dessa roda cíclica. Os seres dos ouros reinos precisam ser resgatados para o nível humano para que isso aconteça.
Há também a representação de um Buda apontando para que há uma saída para a roda da vida que é o despertar, tornar-se um ser iluminado.

Vai continuar…

Monge Ryozan
Monge Zen Budista da tradição Soto Shu com sede no Japão, ordenado pela monja Coen Roshi.
Membro fundador da “Comunidade Zen Budista”, criada em 2001, com atual sede no bairro do Pacaembú, São Paulo, cuja primaz fundadora é a monja Coen Roshi. Iniciou seus estudos de budismo, filosofia, psicologia e religiões comparadas em 1982 na “Associação Palas Athena do Brasil”, na qual exerceu atividade de coordenação.
Praticante de Zen Budismo desde 2001. Responsável por turmas de meditação desde 2002 no “Espaço Oásis”. Iniciou e mantém desde 2009, projeto de meditação para dependentes químicos no “Recanto Vida Nova”. Ministra cursos de budismo e palestras. Tem representado o Zen Budismo em encontros inter-religiosos, congressos e outros eventos. Promove a Caminhada Zen em parques públicos com o objetivo de divulgação do princípio da não violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres.

Entrevista com Elza Campos, Coordenadora Nacional de A União Brasileira de Mulheres (Parte 2)

28 maio, 2012 às 13:23  |  por Erol Anar

Sobre as mulheres presidiárias, como você avalia a questão delas?

EC: Há poucos estudos acerca da condição das mulheres presidiárias. Mas, tem-se que a mulher sofre dupla discriminação, pelo fato de ser presidiária e mulher. As mulheres representam de 7,4% da população carcerária brasileira, fato que dificultou o Ela destacou que, além do encontro, outra iniciativa do CNJ foi a edição, no ano passado, da Portaria 1.010, que criou um Grupo de Trabalho exclusivamente para discutir soluções para a problemática feminina nas prisões.
Segundo a Ministra do Conselho Nacional da Justiça Eliane Calmon a  presença significativa de crianças nas unidades prisionais – cerca de 200 – em razão da ausência de uma política de atenção aos filhos das presas, é um dos aspectos que também traz angustia para as presas. No estudo apresentado pela corregedora as mulheres na sua maioria são negras,  têm entre 18 e 30 anos, baixa escolaridade e, na maioria, condenadas por tráfico de drogas, afirmou. Segundo ela, muitas vezes a mulher entra na criminalidade por influência do marido ou do namorado. Com certeza as prisões devem agravar o sentimento de solidão, do medo, e da angústia, considerando a pouca perspectiva e a quase ausência de políticas públicas nesta area.

Importante destacar que a  Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará (1994, OEA) – já reconheceu expressamente a condição específica de vulnerabilidade a que estão submetidas as mulheres privadas de liberdade e determinou a consequente especial atenção e consideração que os Estados devem dar a essa situação, o que  infelizmente, tem sido pouco observado pelo Estado brasileiro.

 

No Brasil, qual é o maior problema das mulheres no sentido da igualdade de direitos? E na América Latina?

EC: São muitos ainda os desafios para a igualdade de direitos no Brasil, mas apesar do ineditismo da eleição da primeira mulher para a presidência da República, um aumento de  ministras de Estado e em presidência de empresas e órgãos públicos, como no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE e na Petrobrás, a representação parlamentar ainda é sofrível. Nos municípios, as mulheres são atualmente menos de 10% das chefias das prefeituras. Nas Câmaras Municipais, as mulheres formam cerca de 12% dos vereadores. Na Câmara Federal, são apenas 9% das vagas e 13,5% no Senado. Já nas Assembleias Legislativas, o percentual é de 12% das vagas. Além disso, no ranking mundial da representação parlamentar feminina, o Brasil está em 111º lugar, enquanto a Argentina está em 11º.Há ainda um longo caminho a percorrer.

 

Você acredita que o governo tem realizado projetos a favor da conquista de direitos para as mulheres? Pode citar projetos importantes nesse sentido?

EC: É necessário evidenciar que o Estado só promove políticas públicas através da pressão e da luta dos movimentos sociais. Assim foi a Lei Maria da Penha, sancionada pelo presidente Lula em agosto de 2006, após mais de 40 anos de lutas do movimento feminista e de mulheres. A realização das Conferências de Políticas para as Mulheres, tem sido importante instrumento de discussão para a proposição de políticas públicas. Na última Conferência realizada em dezembro 2011, que reuniu 3 mil mulheres de todos os cantos do Brasil representando mais de 300 mil reunidas nas conferências municipais e estaduais avaliou o 2º Plano de Políticas para as Mulheres e que apresenta, 11 grandes eixos, aprovou um conjunto de resoluções para aprofundar a aplicação deste 2º Plano, sendo de avanço significativo a aprovação deste Plano Nacional,com  recomendações calcadas na perspectiva do respeito às diferenças e no enfrentamento e superação de múltiplas desigualdades vividas pelas mulheres, e a defesa dos direitos e princípios de igualdade e equidade.

 

 

Os movimentos de união das mulheres na América latina acontecem com quais propósitos? Há objetivos e projetos nesse sentido?

EC: Teremos na próxima semana de 08 a 12 de abril a realização do XV Congresso Internacional da FDIM – A FDIM – Federação Democrática Internacional das Mulheres – é uma organização não governamental que une em suas fileiras as mulheres de diferentes setores, crenças e pontos de vista originárias de diversos países e englobando sistemas sociais dos cinco continentes. A FDIM foi fundada em 1º de Dezembro de 1945.

O objetivo da FDIM, é a de enfrentar as desigualdades impostas às mulheres em todo o mundo e continente latino americano. Para tanto, a organização das mulheres e de seus movimentos além de lutar contra qualquer tipo de opressão de gênero, também lutam por melhores condições de vida para todos com soberania, desenvolvimento e paz, com um mundo mais justo, mais fraterno e igualitário. A União Brasileira de Mulheres, filiada à FDIM, tem em seus objetivos a luta pela integração e solidariedade entre as mulheres da América Latina apoiar todas as manifestações contra a política imperialista dos Estados Unidos e seus aliados, o combate as desigualdades de classe, gênero, raça, etnia, geração e orientação sexual.

 

Quais são maiores razões para essa desigualdade de direitos entre gêneros  ter se mantido forte  através dos tempos?

EC: Primeiro é necessário evidenciar que o movimento feminista e de mulheres no século XX procurou através de duras batalhas, dar vazão à luta contra o patriarcado e o sexismo, questionando a inferiorizarão e a subordinação das mulheres, personagens invisibilizadas e esquecidas em nossa história, quando a mulher era vista como  frágil, bela, submissa, onde as imagens, os escritos sempre trouxeram temas evocando a participação de homens robustos, brancos e jamais de mulheres que ficaram invizibilizada através dos tempos.

Para tanto, pensamos que o movimento feminista tem trazido para a reflexão e para a luta o questionamento do modelo patriarcal de construção de sociedade, que destinava às mulheres o lugar de coadjuvantes do processo histórico, restringindo a existência da condição feminina à esfera privada.

Como a sociedade, restringiu às mulheres uma posição de coadjuvantes, o destino ao espaço privado, e aos homens o espaço publico e a condição de proprietários tanto do poder econômico como das mulheres, impuseram através da força e da ideologia este pensamento que tem perpetuado através dos tempos e impondo o espaço da privação de direitos, fundamentado em uma relação hierárquica e de opressão, ou seja desprovidas de desejos e necessidades. Este é uma arena de difícil rompimento, mas as mulheres e alguns poucos homens de pensamento avançado tem lutado. Sabemos que quanto mais liberdade de expressão, de organização e de manifestação, mais consciência de seu papel na sociedade, mais as mulheres conquistarão a liberdade. Mas entendemos que a verdadeira emancipação da mulher só ocorrerá em uma nova sociedade, erguida e regida pelas mulheres e pelo conjunto dos trabalhadores. Porém, mesmo em uma nova sociedade, será necessário romper com as amarras culturais machistas e patriarcais que impedem a verdadeira emancipação social.

Entrevista com Elza Campos, Coordenadora Nacional de A União Brasileira de Mulheres( Parte 1)

21 maio, 2012 às 11:35  |  por Erol Anar

Minha entrevista com Elza Campos, Coordenadora Nacional de A União Brasileira de Mulheres

O que a UBM está fazendo e pretende atingir através dos seus trabalhos para as mulheres no Brasil?

EC: A União Brasileira de Mulheres, fundado em 1988 portanto com 23 anos de trajetória na defesa dos direitos e pela emancipação das mulheres, realiza além das ações em conjunto com os movimentos sociais para romper com as desigualdades de renda e realizar sua distribuição equitativa, a UBM com organização em todos os Estados brasileiros encontra-se presente no cotidiano das lutas para enfrentar as desigualdades de acesso ao poder, da igualdade no trabalho, na luta contra a violência doméstica e familiar, na defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, na defesa do meio ambiente, incentivar a luta pelo controle social sobre a veiculação de conteúdos discriminatórios na mídia que tratam a mulher como mercadoria e objeto, transformar esta realidade em uma mídia igualitária que mostre a verdadeira cara da mulher trabalhadora brasileira. além de contribuir para a veiculação da imagem da mulher inteligente, trabalhadora e capaz de estar na política, e não como um corpo de consumo. Do ponto de vista internacional a UBM defende a integração da solidariedade internacional, e apoiar as manifestações contra a política imperialista dos Estados Unidos e seus aliados. A UBM tem como slogan Por um Mundo de Igualdade, contra toda a opressão, expressando a perspectiva da reafirmação de sua corrente feminista emancipacionista na construção de uma nova sociedade de mulheres e homens livres.

 

Quais países na América Latina tem as melhores condições para as mulheres e quais os piores? Por que?

EC: Embora tenhamos no Brasil uma presidenta o Brasil é um das nações latino-americanas com menos presença feminina no Congresso Nacional, lugar onde as leis são propostas, discutidas e votadas, afirmou que brasileiras só são mais bem representadas no Parlamento do que as mulheres de Belize, Haiti e Colômbia.

A eleição da primeira mulher para Presidência da Republica, por si só, é um fato histórico para o Brasil. Neste mesmo ano, o Brasil completou 80 anos da conquista do voto feminino. Mas em comparação com outros países da América Latina e do Caribe, o Brasil apresenta uma das menores taxas de representação parlamentar feminina, perdendo somente para Belize, Haiti e Colômbia. Em países como Argentina, Costa Rica, Peru, Equador e Bolívia já se alcançaram níveis de participação parlamentar em torno de 30%. A média regional de participação feminina nos principais órgãos legislativos nacionais é 22,1%, no Brasil, o índice é 12,3%.

Os países desenvolvidos enfrentam problemas quanto à violência contra meninas e mulheres. O Brasil tem uma lei pioneira, a Lei Maria da Penha, mas que ainda precisa avançar em sua implementação. Seria agora o momento, com uma mulher na presidência. É preciso ter em conta essas profundas desigualdades, sobretudo quando se trata de mulheres negras e indígenas, que vivenciam dupla discriminação, de gênero, raça e etnia.

Existe racismo na América Latina com relação as mulheres indígenas e afro-americanas? Se existe, em quais países?

EC: Segundo estudos da FDIM (Federação Democrática Internacional de Mulheres) intitulado a Mulher e o Mercado de Trabalho (2011), a questão racial tem sido discutida em diversas conferências mundiais e tem pressionado os Estados para a efetivação de políticas públicas., e tornado público a questão do preconceito racial e de gênero.

As mulheres tiveram destaque na IV Conferência Mundial sobre a questão da Mulher de Beijing realizada em 1995. Também na III Conferência Mundial de combate ao racismo, à Discriminação Racial, à Xenofobia e a Intolerância, foi destaque a luta para a efetivação de políticas públicas e de ações afirmativas para erradicar toda forma de discriminação e intolerância contra a população negra.

Entendemos que no Brasil a adoção das políticas de cotas para a população afro-descendente na universidade pública constitui uma das maiores vitórias do Movimento Negro até os dias de hoje.

Segundo Nilza Iraci, da ONG Géledes as mulheres negras estão na base da pirâmide social, não só no Brasil, mas nos demais países da América Latina e do Caribe. Na América Latina o racismo e sexismo andam juntos e precisam ser enfrentados pelos governos. Para ela, é preciso lembrar que no caso da mulher negra, na região, há uma dupla vitimização.

 

No Brasil, são as mulheres negras que recebem os menores salários, que não têm acesso aos serviços de saúde de qualidade, são as maiores vítimas da violência e encontram-se em grande número no trabalho doméstico, que é precário e explorado.

 

Destaca-se a existência da Secretaria de Políticas de Promoção para a Igualdade Salarial e a Secretaria de Políticas para as Mulheres no Brasil, a partir da instituição de governos mais democráticos como o de Lula e agora o de Dilma. Mas estas Secretarias, ainda padecem de fata de um maior orçamento para o desenvolvimento de políticas públicas.

 

Qual é o estado das mulheres trabalhadoras na América Latina e no Brasil?

EC: Em estudo recém-divulgado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento –BID – mostra que, apesar do recente crescimento econômico e das políticas destinadas a reduzir as desigualdades, as diferenças salariais relacionadas a gênero e etnia continuam sendo significativas nos países latino-americanos.

O relatório do Banco Mundial mostra que, no Brasil, a cada dólar recebido por trabalhadores homens, é pago em média, US$ 0,73 a trabalhadoras mulheres.

O estudo promoveu a análise de informações domiciliares provenientes de 18 países da região, constatando que as mulheres, os/as negros/as e os/as indígenas recebem salários inferiores aos dos homens brancos na América Latina.

As mulheres latino-americanas ganham menos, mesmo que possuam um maior nível de escolaridade. Esta pesquisa mostra que os homens ganham 10% a mais que as mulheres. A população indígena e negra ganha em média 28% a menos que a população branca.

No Brasil o índice chega a 30% de diferença nos salários pagos com a mesmo função.

Vai continuar…