A tragédia de Vênus

7 fevereiro, 2012 às 10:01  |  por Fabiana Ferreira

Ganhar um filhote de poodle aos sete anos foi o melhor presente da minha infância. E seria uma das maiores tristezas de toda minha vida. Dois anos depois, a Vênus – a mais linda da ninhada que teve ainda Eros e Afrodite – morreu atropelada em uma estrada no retorno das férias. 

Pela primeira vez teria que lidar com uma perda significativa. Uma dor tão profunda. Minha mãe, muito prática e objetiva, me disse que eu deveria me acostumar porque as perdas fazem parte da vida. Minha avó muito afetuosa e preocupada com a minha tristeza quis resolver o problema o mais rápido possível.

Em menos de uma semana trouxe outro filhote para mim. Mas eu queria que ele fosse igual a minha Vênus. Eu a queria de volta. Não conseguia entender porque aquilo havia acontecido.  Infelizmente, não consegui amar aquele bichinho trazido com tanto amor pela minha avó. Um outro dono foi arrumado para ele e fiquei sem cachorro por um bom um tempo.

As duas pessoas que mais me amavam causaram na época um estrago enorme na minha cabeça. De repente fiquei sabendo que durante a minha vida eu perderia aqueles que eu amava. A situação sempre foi muito distante para mim até aquela idade. Por outro lado, não me foi dado o direito de ficar triste, sofrer e chorar o quanto queria por aquela perda. O luto não me foi permitido.

Como lidar com a questão da perda? Fui conversar com a psicóloga e professora da PUCPR Renate Michel.

- Como os pais devem lidar com esta situação?

Em primeiro lugar perceber que este momento é uma grande oportunidade de preparar o filho para as perdas. Pelo menos, na medida em que isto é possível! E o que é possível já que a perda é inevitável? O compartilhamento da dor. Uma dor acolhida é menos sofrida. Então, JAMAIS dizer que a criança não deve se sentir “assim ou assado”. Deve-se perguntar como ela está se sentido,  ajudá-la a traduzir esta dor em palavras (“tá com vontade de chorar?” ; “tá doendo um nó na garganta?” “vc queria fazer alguma coisa?”). Compartilhar sua história de perdas semelhantes (cuidado para não competir com a dor do seu filho querendo mostrar que aquilo que ele esta vivendo não é nada, que a sua dor é que foi grande!) E é isto, isto é suficiente. Suportar ficar com seu filho curtindo a dor que ELE está sentindo, sem ter pressa de que ela se transforme ou desapareça.

 - Termos como foi para o céu, foi viajar devem ser usados?

Dizer que foi viajar não é bom, pois traz a ilusão falsa, de que ele vai voltar ou pode facilitar associações com medo de viagens (“ a gente não volta de viagens, então melhor nem viajar.”)

Falar que foi pro céu, se for esta sua crença tudo bem. Acreditar em outra vida pós-morte é o que fundamenta a maioria das nossas crenças religiosas e conforta os seres humanos há anos.

O importante é mostrar que aquele bichinho não vai voltar a conviver com a criança. Que é compreensível sua dor, e que, além daquela perda existem outras coisas que continuam. Propor coisas para a criança que talvez possam ajudá-la a se sentir melhor. (“vc gostaria de tomar um sorvete pra ficar um pouco mais feliz?”)

- Substituir um bicho ou algo imediatamente é uma opção indicada?

Fazer isto muito rápido tentar tapar o buraco deixado pela perda. Em outras palavras: geralmente aliena a criança do seu verdadeiro sentimento incentivando a uma vida hedonista.

- Qual a importância do luto nas várias fases da vida?

O luto é um verdadeiro trabalho psíquico. Requer muita energia e investimento e com isto é claro que requer tempo. É um momento especial de revermos nosso lugar e posição no mundo, entrarmos em contato com nossa finitude e com a transitoriedade da vida e, se sairmos bem do luto vamos sair para fazer o que é possível no tempo que nos resta.

Lembro de uma música, de Gilberto Gil, Então vale a pena:

“Se a morte faz parte da vida
E se vale a pena viver
Então morrer vale a pena
Se a gente teve o tempo para crescer
Crescer para viver de fato
O ato de amar e sofrer
Se a gente teve esse tempo
Então vale a pena morrer”

 

 

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