Leitores, leitores
Fiquei 48 horas longe da “Selva”. Tempo em que não li jornais nem vi televisão. É o que se chama de férias. Os livros, contudo, não me escaparam. Consumi dois. ”Devorando o Vizinho – A História do Canibalismo” de Daniel Diehl e Mark P. Donnelly (Editora Globo, 344 págs. R$ 27) e “1808″ do jornalista paranaense Laurentino Gomes (Editora Planeta, 408 páginas, R$ 31,90), que trata da vinda da corte portuguesa para o Brasil, no que completam-se este ano, dois séculos. Ah, a efeméride.
Em 1988, o jornalista carioca Zuenir Ventura, pediu licença do Jornal do Brasil, onde era colunista para se dedicar ao projeto do livro “1968 - O Ano Que Não Terminou”, que naquele ano completava duas décadas. Descobriu que a revolução social que a juventude carbonária sonhava não foi além de uma revolução de costumes. E ainda assim restrita ao círculo da “pensata” brasileira.
Laurentino Gomes, que para orgulho dos caipiras locais, é maringaense, formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, e diretor de uma divisão de revistas da Editora Abril, descreve, em passagem do livro, a tentativa dos pernambucanos de instalar uma república no estado. Livre, portanto, dos grilhões, do Brasil-Colônia e da esfera de poder de Portugal.
Para isso, engendraram um plano mirabolante. Tomaram a capital Recife, com o apoio de senhores de engenho, produtores de algodão e comerciantes locais e enviaram ainda, nos primeiros dias do movimento, o comerciante Antônio Gonçalves Cruz, o Cabugá, para a Filadélfia, então capital dos Estados Unidos, com o objetivo de angariar apoio do governo americano e recrutar para a causa revolucionários franceses exilados no país.
Claro que era preciso mais do que isso. E Cabugá levava na bagagem a importância impressionante de 800 mil dólares – algo como 12 milhões de dólares em dinheiro de hoje - para convencer os possíveis aliados.
Mas a missão do agente secreto pernambucano ia além. Ele pretendia também financiar a fuga de Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses na Ilha de Santa Helena, que seria transportado para o Recife, onde assumiria o comando da revolução pernambucana, para depois seguir para a França e retomar o trono de Imperador.
Não é preciso dizer que a revolução fracassou. Em menos de três meses, os rebeldes foram cercados pela tropas reais de D. João – que ainda não havia sido proclamado rei -, presos e os seus líderes executados no velho estilo lusitano da época: enforcados, esquartejados e suas cabeças fincadas em postes para exibição popular.
No terreno da imaginação, no entanto, é possível conjecturar o que teria acontecido se a missão de Cabugá tivesse êxito e Napoleão tivesse aportado mesmo em terras pernambucanas disposto a comandar um exército de maltrapilhos contra as forças do medroso D. João que, dez anos antes, saíra fugido de Portugal, deixando aos seus súditos a missão de enfrentar as tropas bonapartistas.
A história de Napoleão no Recife, aliás, seria um prato e tanto para nossos “cineastas”, não estivessem eles tão preocupados em roteirizar os dramas de seu próprio umbigo.
Bom, não seria a primeira vez. Quem leu ”Frankenstein” de Mary Shelley, lembra que em certo trecho a criatura vai até o seu criador, o Dr. Victor Frankenstein, e roga-lhe que crie para si uma companheira. Em troca, promete partir com ela para as florestas ermas da Amazônia, onde viveria recluso e distante da civilização.
É preciso lembrar que Frankenstein, a criatura de Shelley, não era a besta-fera retratada por Hollywood anos depois, mas um ser inteligente, que depois de rejeitado por seu criador, escondeu-se em um porão e lá leu todos os clássicos da filosofia e da literatura.
Victor Frankenstein recusa a oferta porque vislumbra a possibilidade de que ele venha a procriar-se e ter filhos tão monstruosos quanto ele. Imaginar a possibilidade de que herdeiros da criatura pudessem vir a constituir família na selva amazônica também seria uma idéia e tanto para um filme. Mas é esperar demais dessa gente botocuda.