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Noites de agito

6 fevereiro, 2018 às 15:44  |  por Helena Carnieri

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Mais uma do meu avatar “Mãe megera”.

Todo mundo, ou melhor, quem já passou pelos anos de chumbo da criação de filho, tenta nos acalmar dizendo que “ninguém se casa usando chupeta”. “Ninguém vai para a faculdade carregando paninho”. Que os hábitos que te incomodam na criança hoje são passageiros. Bom, sei de uma garota pelo menos que ficou com vergonha de chupar o dedo na frente do marido e só por isso parou.

Mas em relação à preferência do meu filho pelas madrugadas, estou com sérias dúvidas se irá passar antes dos 20. O pit stop do choro tem ocorrido não uma, mas duas ou três vezes por noite. É dose pra leão.

Mimimi de mãe? Durante duas semanas, talvez, mas dois anos? Poxa…

Eles acordam depois como se nada tivesse acontecido, e você lá, morto, com olheira, dor no corpo, mal humor. E levanta que tão chamando! Depois que você toma um café bem preto te olham com aquele jeitinho acima das bochechas, beijam e abraçam. Quase passa.

O jeito foi marcar encontro com meu bebezão nas madrugadas. Se não sobra tempo para o número suficiente de apertos durante o dia, sei que terei uma repescagem na sessão Coruja.

Outra coisa que dizem: “aproveite que passa rápido”. Das 2h às 4h30 da manhã o tempo vai vem devagar, sabe? Agora tentando dar uma de Poliana: Quer hora melhor para um chamego?

Bom, isso tudo aí em cima é o que eu gostaria de escrever se o blog se chamasse “Maternidade cor de rosa”. Ainda não cheguei lá. Mas, quem sabe, escrevendo, vira profecia. Eu vejo. Eu prevejo madrugadas ideais que podem ser de vários tipos: 1) dormindo. 2) atendendo meu filho com prazer. 3) o que mais se faz em madrugadas? Esqueci.

 

Minha mãe acha estranho

1 fevereiro, 2018 às 21:28  |  por Helena Carnieri

Você, como minha mãe, acha teatro estranho?

Pois não se preocupe que esse é o último capítulo de “O Velho”, peça que o blog A vida é palco está publicando em fascículos, como faziam os grandes autores do século 19. Aqui a autora é contemporânea, moradora de Curitiba, a super Juliana Partyka. O início da peça está nos posts anteriores.

velho

CENA OITO: TUDO É EXATO. NADA MAIS.

TEREZA: Tá morto.
GIO: Jesus ressus…
MARIANA: Faça ele viver então, porra!
GIO: Eu faço.
TEREZA: Teu cu.
GIO: Juro.
MARIANA: Vadia.
GIO: É serio.
TEREZA: Eu o pegarei no colo. O olho dele me aterrorizará, e por segundos
ele não parece ser o mesmo. As patas não vão mais dobrar, o pelo não vai
mais brilhar.
Eu vou dizer que duvido devolver uma centelha de vida ali dentro. Talvez
queira colocar na caixa, e deixá-lo seguir descansando. Eu nunca vou dizer
'fique com Deus' por que acho mesmo que deus não merece a companhia dele.
Mas eu vou dizer 'fique comigo'. Por que eu me sinto sozinha. Por que eu não
tenho mais com quem conversar. Uma delas vai dizer num suspiro só, que ele
pode viver de novo, se fizermos os procedimentos certos. A outra nunca, nunca
vai querer me botar esperança dentro do peito. Você vai dizer que é crueldade.
O outro alí vai dizer que me entende, e alguém da rua de cima prefere assumir
que não tem estômago.
Eu vou sentir dores latejantes no meu peito. Eu vou querer pedir ajuda, mas
elas não terão coragem. Então eu farei sozinha.
Visto de cima ele parece o mapa mundi. Suas extremidades esticadas parecem
a Europa, a América Latina, e os caminhos desenhados na selva africana. A
barriga faz uma curva para dentro, como quem coloca as mãos encolhidas
sobre o peito para se proteger. Da vida. Do Velho. E eu vou pensar no Velho.
Eu vou pensar que gostaria muito de dançar em cima do caixão dele. E vou
desejar que ele morra bem lentamente. Vou desejar que ele sinta a calmaria do
vácuo e esteja consciente de que nunca mais vai poder se mexer.
Alguém vai me convencer de que Lázaro foi feito de metáforas. Que as coisas
eram escritas pra botar medo na gente. E eles nunca pensaram que as coisas
foram escritas também pra botar esperança. E a esperança é mais letal que o
medo.
Eu vou pensar nas tripas dele. No coração rígido, e talvez sinta curiosidade em
saber se o tamanho do estômago é proporcional ao tanto que ele come. Eu vou
rir. E vou lembrar do dia que ele destruiu uma caixa de papelão e vomitou em
cima do tapete da sala. Os ossos serão objetos esbranquiçados e tímidos, se
agarrando nas veias, e nas carnes, e na sustentação de todas as corridas atrás
de passarinhos e gatos. E eu vou pensar nas cartomantes, no futuro, nos
sonhos em que ele conversa comigo, mas sempre está muito distante para que
eu possa toca-lo. E talvez eu chore um pouco. Bem pouco. Talvez eu não
queira demonstrar que estarei chorando, e engula o ar até sentir minha cara
doendo. Até explodir meu alivio pelas paredes da casa dela. Até não restar
mais nada a pensar, a não ser deixar descansar. O cachorro. E o Velho. E o
meu coração vai endurecer tanto, e ele vai continuar crescendo dentro do meu
peito até eu perceber que algumas coisas são irremediáveis.
Alguém vai dizer amém. E eu vou entender que a caixa de madeira é a única
coisa que vai separar o que eu sinto, do que deve ser feito.
E a chuva vai continuar a cair. E dentro de mim chove.
Amém. Eu digo. E meu coração volta a respirar.
GIO: Tá rindo de que?
MARIANA: De você.
GIO: Não estou falando com você. Esse teu ar de riso me dá raiva. Você é uma
besta quadrada. Igual o Velho. Os olhos. A boca. Tudo em você me incomoda.
Tudo em você me lembra o Velho.
TEREZA: Eu estava tomando chá. Eu gostava de tomar chá todas as noites
antes de dormir. As pessoas vivem de hábitos medonhos, mas o meu era só
tomar chá. Ouvia os passos no chão de madeira. E isso me faz rir. O barulho. A
água ficando escura. A minha espera. O açúcar acumulado no fundo da xícara,
e os meus dedos fazendo movimentos circulares até a minha boca. Até ela
parecer limpa.
Eu rio por que. Não sei. Talvez seja hábito também.
(Longo silêncio. Elas só olham para a caixa em cima da mesa).

CENA NOVE: CERTAS COISAS SÃO DO JEITO QUE SÃO POR QUE DEUS
QUIS ASSIM

MARIANA: Diga alguma coisa.
TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de me matar.
GIO: Pior pra você.
MARIANA: Palavras fúnebres.
TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de rezar antes de me matar. E descansar
em paz. Amém.
MARIANA: Babaca.
TEREZA: Um dia me vi morta. Pedi desculpas pro cachorro. Por deixar ele
sozinho. Essas coisas. Um dia me vi olhando meu próprio caixão. Eu mesma
chorei. Ninguém mais.
GIO: Com quanto tempo começa feder?
MARIANA: Dois dias. Se ficar no sol é mais rápido.
TEREZA: E chovia. Eu morri num dia de chuva.
MARIANA: Fedeu menos.
GIO: Mas você sabe que não é a mesma coisa. Não sabe?!
TEREZA: Claro que é.
MARIANA: Fede menos.
TEREZA: Fede mais. Dependendo da quantidade de sol.
GIO: Eu vou vomitar.
TEREZA: Parem. Olhem pra ele. Funciona assim: Você olha até se acostumar.
Com as pessoas que trabalham no necrotério é assim. Eu acho. São
acostumadas com o cheiro. Com a dureza. Ouvi dizer que eles pintam a cara
do defunto com tinta de caneta, e ficam zombando das formas que se pode
fazer com um corpo sem vida. Riem. Riem. Não me espanta que as pessoas
tenham medo de morrer. O que elas têm é medo de não conseguirem revidar
às provocações dos funcionários.
Olhem pra ele. Pro bicho. Se quiserem dizer alguma coisa, digam agora.
GIO: Não será a mesma coisa.
MARIANA: Eu quero fumar um cigarro.
TEREZA: E pode ser pior do que já é?
MARIANA: Pode. Quem sabe ele não goste de estar aqui. Quem sabe você tá
fazendo algo contra a vontade dele. Quem sabe você não esteja deixando ele
descansar, e isso o deixe irritado. Quem sabe ele volte alguma noite pra te
assombrar.
GIO: Ele fica, tipo, parado?
TEREZA: Duro.
GIO: Olhando pra gente?
MARIANA: Olhando com o que? Não fica de olho fechado?
TEREZA: Você deu essa ideia! Vai desistir?
MARIANA: Não disse isso. Disse que as vezes eu posso ter medo. Da alma
dele. Do castigo de Deus. Por que você sabe que tá indo contra a vontade
dele, não sabe?
TEREZA: A religiosa.
GIO: Jesus ressuscitou Lázaro.
MARIANA: Quem te disse uma merda dessas?
TEREZA: Eu vou cortar a barriga. Eu não sei fazer isso, mas acho que é assim.
Eu vou cortar a barriga ou. Droga. Preciso tirar o sangue primeiro. Traga uma
caneca! Igual faz com os bois no abate. Faz um buraco no pescoço, e espera o
sangue sair. Enrola no jornal. Tem jornal?
GIO: Eu não tenho estômago.
MARIANA: Os olhos não secam?
GIO: Coloca botão.
TEREZA: Não é a mesma coisa.
MARIANA: Quer que faça o que então, porra?
TEREZA: Quero tirar essa dor do meu peito. Quero morrer. Quero deitar no
chão, quero derreter nas frestas desse chão. E quero esquecer que tudo me
toca. Tudo me comove. Tudo me atinge. Quero explicar que essa dor é tão
forte, que parece Jesus colocando pregos na minha cruz.
GIO: Como se você tivesse uma.
TEREZA: Todo mundo tem.
MARIANA: Eu não.
GIO: Pior pra você.
TEREZA: Eu vou rir. Mas não devia. Ai meu Deus. A minha barriga chega a
doer. Você apanhou com um cabide de roupas.
MARIANA: Coitada.
TEREZA: (gargalha) Tô rindo, mas na hora foi bem triste. Você saiu correndo.
Os passinhos assim pequenos, mal conseguia fugir. Achou que o banheiro era
um lugar seguro, mas era burra de dar pena. Ficou encurralada igual
passarinho sendo atacado por cachorro bravo.
GIO: Não achei engraçado.
MARIANA: As costas. Como é mesmo o nome daquilo?
TEREZA: Pancada.
MARIANA: Não. As marcas. Quando fica vermelho, e fica mais visível, como
se a pele tivesse crescido. Como é o nome?
TEREZA: Deformidade.
GIO: Vergão.
TEREZA: (gargalha) Vergão! Parecia uma zebra. Visto de longe, parecia o
mapa mundi. A parte dos ombros parecia a Europa, e as pernas, a África.
Quem sabe os cortes faziam desenhos iguais o dorso de uma zebra.
GIO: Não achei graça.
MARIANA: Você usou algodão?
TEREZA: Sabe Deus. Ficou uma semana sem ir pra escola. Devia ter se
matriculado num zoológico.
MARIANA: Por dentro. Agora. Do bicho.
Tem que tirar as tripas, e encher de algodão.
Precisa de arame pra segurar o couro no formato do bicho, e depois, precisa
de algodão pra preencher no lugar dos órgãos.
GIO: Essa merda vai começar feder.
MARIANA: Então ajuda, porra!

(Arames, algodão, álcool, tesoura, faca, botões. Tudo colocado dentro da caixa
de papelão. Mexem. Reviram. Os três pares de mãos. Em algum momento se
encostam dentro da caixa).

GIO: Eu nunca peguei na tua mão. Quer dizer. Depois de grande. Nem no
bicho. Nunca peguei na mão dele.
MARIANA: Não me encoste!
TEREZA: Vou esfregar essas tripas na tua cara.
MARIANA: A parte do intestino é mais rígida. Faz ondinhas. Todo o resto é liso
e liguento. O dedo afunda. No intestino.
MARIANA: Se eu morrer antes de vocês, não dancem em cima do meu caixão.
GIO: Pra que? Acha mesmo que me dou esse trabalho?
TEREZA: Um dia serei homenageada como a melhor conhecedora de tripas.
Os formatos, os comprimentos. A cor. Direi, sem pestanejar, o exato lugar de
onde elas saíram. As entranhas. Quando você morrer vou abrir tua barriga e
cheirar todas as tuas tripas. Vou saber o que você comeu. As drogas que você
usou. E as pedras que incomodam tuas vísceras. Vou sim. Quem sabe eu
pendure nas paredes dessa casa, quem sabe durma com elas embaixo do meu
travesseiro, ou acenda uma vela ao lado. Nunca, nunca deixarei que elas se
sintam sozinhas. Eu te prometo.
MARIANA: Um dia li que.
GIO: Duvido.
MARIANA: Uma menina africana, na Guerra Civil, fazia reconhecimento de
cadáveres só encostando o lábio nas tripas do defunto. E ela sentia o gosto
das tripas, e sabia de onde ele tinha vindo.
GIO: Que nojo.
TEREZA: Quando você era pequena, comia amoras e fingia estar sangrando.
GIO: Mentira.
TEREZA: Juro. Só parava quando o Velho esfregava uma esponja na tua cara.
Um toque de rinoceronte.
(Percebem que a taxidermia não funciona. Observam. Desanimam. Sentam.
Desistem. Visivelmente desistem. Exaustas.).
MARIANA: Quando chove o tempo para?
GIO: Você já tentou respiração boca a boca?
TEREZA: Tá morto. Eu gostaria que estivesse vivo. Mas está bem morto. Sinto
um peso na minha cabeça. Não enxergo de longe. Esse é o mal do mundo.
Enxergar só o próprio cu.
MARIANA: Vai começar a feder.
TEREZA: Você fede. Igual o Velho. Até os nós dos teus dedos lembram a cara
dele. Toda enrugada. Toda deformada.
Eu queria fazer um funeral decente.

CENA DEZ: QUANDO TUDO SÓ EXISTE A PARTIR DO FIM.

TEREZA: Quando ele entrou por aquela sala dentro daquela caixa de madeira
toda polida, eu. Eu cantei. Esfreguei a ponta do indicador num alfinete e vi
sangrar. Fiz contas. Agradeci. Marquei compromissos importantes. Olhei os
meus pés com formatos estranhos. Nem por um segundo da ação do oxigênio
oxidando, e matando cada célula minha e dele, pensei em dizer adeus. Pausa.
Eu. não. me. culpo.
MARIANA: Os lábios. Eu não sei o que eles faziam naquele momento. Eu acho
que sorriam. Não lembro de ter observado isso. Os olhos, vivos, lúcidos, quase
saltando pra fora do rosto meio quadrado, meio triste. Pareciam dois botões.
TEREZA: Acho que nem deus sabe dançar como eu sabia. Mas as minhas
pernas não me acompanharam. E eu só fiquei parada. Olhando. Lembrei do
Cão. Do dia que eu quis ressuscita-lo. E eu também não o fiz.
GIO: Aqui faz sol.
Há vinte e oito dias só faz sol. Quem sabe sirva para levar as almas para o
inferno. Ouvi dizer que Deus. Bom. Deus é um ser egoísta.
TEREZA: Eu não me culpo. Na última vez que o vi ele parecia feliz. Parecia. Eu
não sei explicar. É isso. Não disse adeus. Não disse nada, eu acho. Só fitei. Na
minha cabeça tocava uma música esquisita, e eu dançava. Os nossos ritmos
nunca eram iguais. Nunca foram.
Eu sei que parece horroroso o que eu vou dizer, mas penso que. Eu penso que
as pessoas deveriam ter data de validade. Mais que isso, penso que a gente
deveria saber o dia que elas, você sabe, somem. fogem. morrer. Deus não
deveria nos tirar a graça do preparo.
Eu senti vontade de chorar. É isso. Queria andar com um pé na frente do outro,
queria correr até perder o ar. Queria ter sentido o gosto daquele vazio. Talvez
por isso não tenha dito nada.
Outro dia descobri que o oxigênio é cruel. Quando você acha que tá se
enchendo de vida, na verdade está morrendo a cada respiro.
Ouvi alguém dizer “amém”. E eu entendi a caixa de madeira. O que podia ser
feito.
E a chuva continuou a cair. E dentro de mim choveu.
Amém.
MARIANA: Vai começar a feder.
GIO: Com o sol é pior.
MARIANA: A terra deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: Melhor. Assim ele descansa melhor.

Os procedimentos de esquecer

25 janeiro, 2018 às 20:38  |  por Helena Carnieri

Ler dramaturgia pode parecer complicado, se você não tem o costume. Quando se faz disso um hábito, porém, a leitura acaba sendo facilitada pelas rubricas (indicações do autor externas às falas) e pela imaginação da cena que vem junto com as palavras.

Continuemos, portanto, com a publicação de “O Velho”, de Juliana Partyka, escrito em 2017 durante o Núcleo de Dramaturgia do Sesi. As cenas de 1 a 4 estão nos dois últimos posts. Novos autores paranaenses para novos tempos.

dramaturgia

CENA 5 – QUANDO TUDO ACONTECE, NADA FICA PARA DEPOIS.

TEREZA: Será que ele vai pro inferno?
MARIANA: Que?
TEREZA: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto comia.
MARIANA: Eu não sei se existe esse negócio de céu ou inferno!
TEREZA: Então vai. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é
sim.
MARIANA: Você comeu?
TEREZA: Um pouco. Tive um ataque de riso quando derrubei o prato de
comida no chão.
MARIANA: Coitada.
TEREZA: Tua mãe veio aqui mais cedo, disse que não quer que você vire uma
puta.
MARIANA: Cena. Ela tá cagando pra mim!
TEREZA: Você vai ficar?
MARIANA: Talvez. Se a herança for boa.
TEREZA: Tô falando sério.
MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca!
TEREZA: A voz dele fica ecoando.
MARIANA: Que?
TEREZA: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um negócio da
cabeça. Até servi comida no prato dele hoje mais cedo.
MARIANA: Quem sabe pensa que ele pode voltar.
TEREZA: Deus nos livre. O que deu da entrevista?
MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte.
TEREZA: Mas isso foi semana passada!
MARIANA: Foi o que eu disse.
TEREZA: Tô querendo ir ao centro espírita.
MARIANA: Que?
GIO: Tá querendo se livrar da culpa.
MARIANA: Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade escrevia até os
segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido. Nessas horas a gente
tenta meio de tudo.
GIO: A previsão diz que vai chover o dia inteiro.
TEREZA: A terra vai afundar.
MARIANA: Ele descansou.
TEREZA: Até parece que gostava do velho. Não carece palavras fúnebres não.
TEREZA: Será que passa?
MARIANA: Passa.
GIO: Lógico que passa!
TEREZA: …
GIO: Você precisa comer.

CENA SEIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É POR
QUE, DE FATO, QUER LEMBRAR.

MARIANA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu
poderia.
GIO: Chega.
TEREZA: Tá defendendo? Pega pra você.
GIO: Depois não reclame.
TEREZA: Tá defendo o Velho! Quem diria!
MARIANA: Queria fumar um cigarro.
GIO: Aqui dentro não.
MARIANA: Você já apanhou com uma corda. Eu lembro.
TEREZA: Nunca.
MARIANA: A gente era bem criança.
TEREZA: Lembra nada.
MARIANA: O Velho chegou do trabalho, e eu brincava num balanço. Ele nem
falou nada, só olhou. Firme. De canto de olho. Quando eu percebi você já
estava misturada naquelas cordas. Gritava igual uma hiena.
TEREZA: Eu era detalhista. Hienas riem.
GIO: Parecia.
TEREZA: Mas não morri.
MARIANA: Ele dava socos até no vento. Só parou quando tua cara ficou
inteirinha roxa quase sem ar, mas você ainda respirava. Eu lembro.
TEREZA: Por que você tá zombando disso agora?
MARIANA: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro.
TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra trabalhar, voltava se
encostando às paredes. Igual um moribundo. Limpava a boca com as costas
da mão. Um velho muito nojento.
MARIANA: Eu acho que só tenho uma memória boa. Não estou zombando.
TEREZA: Do Velho?
MARIANA: Daquele tempo.
GIO: Você é inteira movida na ingratidão.
MARIANA: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me
olhe assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a
doer. Você emprestou um chinelo da vizinha pra não levar uma surra!
GIO: Sim! Ele te fez cagar de medo. Você tinha perdido a droga do chinelo
rosa, e ele te jurou de morte!
TEREZA: Babaca.
MARIANA: Muito bom! Ele rosnava, e cada vez que ele te olhava, você perdia
um pedaço de bosta dentro das calças!
TEREZA: Aceitou, não aceitou?
MARIANA: Sempre acreditou que era o mesmo chinelo. Babaca.
GIO: Deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: Droga!
GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar.
MARIANA: Você devia ter comprado um caixão decente, pelo menos não
afundava.
TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta
babaca.
Eu vou tirar ele de lá.
GIO: E vai fazer o que?
TEREZA: Dançar.
MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso.
TEREZA: Vai ou não?
MARIANA: Vou.

CENA SETE: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER

TEREZA: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai
esbarrar num copo e fazer ele se espatifar no chão.
Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele.
Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido.
Todo sem partes.
E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de
colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou
apertar meu indicador contra a pele dele. Vou grudar um pedaço daquilo no
meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber
que eu não morri. Eu. Não. Morri.
Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que o Velho não me matou. Nem vai. O meu
sentimento será de raiva.
Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Então vou
olhar de cima.
Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou
dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio,
e alguém vai dizer. Credo.
E vou olhar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri
descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. Ele
não. O cachorro. E eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que
isso é tudo que eu sei fazer.
E quando eu perceber o Velho de longe, ele estará cortando a minha pele, e a
minha barriga estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas
eu nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo.
Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu
quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais.
E alguém vai dizer: não importa.
Então eu vou olhar pra Gio. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou
desejar que ela nunca estivesse comigo.
A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais.
E eu vou perguntar do funeral. Eu não vou lembrar. Eu nunca lembro.
Ela vai dizer que sente uma agonia no peito. Que devia fazer exercício para as
pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o Velho.
Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que sou triste, por que ela
mesma é muito mais triste, e nem é por causa do Velho. Que se dane a dor
dela.
Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E um dia
eu vou querer ressuscitar meu cachorro.
MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe
precise de um alívio pra alma.
GIO: Mentira!
TEREZA: Lógico!
GIO: Já vai começar a feder.
TEREZA: Você fede!
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi.
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Meu cu.
GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho.
TEREZA: Não tá não.
GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio.
MARIANA: Tá morto.
GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro.
MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô
nem aí. Mesmo.
Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa.
GIO: Acho que tá morto mesmo.
MARIANA: Tá chovendo.
TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo
pressão na minha cabeça.
GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro.
MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.

Para que nunca se lembre de hoje

5 janeiro, 2018 às 15:58  |  por Helena Carnieri

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Seguindo com a publicação do texto “O Velho”, de Juliana Partyka, que começou no post anterior. A autora, para quem não conhece, é a atriz na foto acima, em cena de “Perdão”, com direção de Jader Alves.

CENA DOIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É PORQUE,

DE FATO, ISSO NUNCA ACONTECEU.

MARIANA: Ele poderia morrer igual, não poderia?
GIO: Que?
MARIANA: O Velho.
GIO: Cruzes.
TEREZA: Eu acho.
GIO: Chega!
TEREZA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu poderia.
GIO: Mas não vai. Ouvi dizer que ele tá doente. Meio podre. Então.
TEREZA: Tomara que morra. Tomara que morra. Tomara que morra!
GIO: Chega!
MARIANA: Tá defendendo é? Pega pra você.
GIO: Ele anda igual um cachorro de rua… Ouvi dizer. Cabeça baixa, sarna pelo
corpo inteiro, magro, parece que vive com fome e sede. Nunca ergue os olhos.
TEREZA: Comparação idiota. Coitado do cachorro.
Coitado do cachorro.
Eu trocaria os dois de lugar. Meteria o Velho embaixo da terra, e traria o Cão
de volta.
GIO: Depois não reclame.
MARIANA: Tá defendendo o Velho! Quem diria!
TEREZA: A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi chamá-lo
de maldito. Maldito. Maldito. Maldito! Que os deuses te carreguem pra beira do
inferno, canalha, egoísta, filho do próprio demônio vindo pra terra!
Os olhos dele, na hora eu vi, azuis como se pintados à mão. Escuros,
escondidos. O sorriso maldito que ele nem sorria, mas eu via. Eu tenho certeza
que aquele homem é filho do próprio demônio!
Tive vontade de bater na cara dele. Bem rápido. Muitas vezes. Imaginei minhas
mãos doloridas, as juntas e as veias saltadas, de tanto que eu bateria nele.
Não saberia distinguir meu próprio sangue, do sangue maldito que escorria
daquela cara de cobra peçonhenta.
Um dia eu te mato! Eu disse. Minha alma me olhou nos olhos. Fogo! Eu queria
tirar o fogo que ardia nos meus olhos e tacar em cima dele. Morre, maldito!
Queime! Pague os teus pecados! Eu sou deus, agora! Eu te condeno a rastejar
até o resto dos teus dias, maldito. Maldito!
(Longa pausa)
GIO: Mas você não fez, não é?! Não queimou o Velho vivo, não fez quando
teve vontade. Agora não adianta, te falta coragem.
TEREZA: Quem disse? Tá me provocando?
GIO: Não. Estou dizendo que se você não faz quando tá com raiva, depois
você faz do mesmo jeito, sabendo que é o certo, mas se sente culpada. Não
quero que sinta culpada. Não por isso.
TEREZA: Pelo que então?
GIO: Come!
TEREZA: Culpada pelo que? Eu não tenho culpa de nada, tá ouvindo? Se o
Velho morrer, melhor. Danço em cima do caixão dele. Estou falando! Escreve
isso que estou te dizendo!
MARIANA: Queria fumar um cigarro.
GIO: Aqui dentro não.
MARIANA: Então eu vou lá fora. Aproveito e tomo um banho de chuva pra tirar
esse ranço de simpatia que você tem pelo Velho. Ó! Tá grudado na minha
roupa! Que nojo!

CENA TRÊS: TUDO QUE VOCÊ PRECISA É SE SEGURAR NAS COISAS
QUE TE FIZERAM FELIZ.
GIO: Você já me deixou na chuva. Eu lembro.
TEREZA: Nunca.
GIO: A gente era bem criança.
TEREZA: Lembra nada.
GIO: Tua mãe te fazia limpar a casa, e você era tão babaca que deixava a
gente pra fora, só pra não sujar o chão.
TEREZA: Eu era detalhista.
GIO: Uma babaca.
TEREZA: Mas você morreu? Não.
GIO: E quando a gente entrava, você mandava a gente ajoelhar e limpar o
carpete. COM A MÃO. Igual um cachorro comendo os farelos. Lambendo.
Cisquinho, por cisquinho. Eu lembro.
TEREZA: Por que você tá lembrando disso agora? Te ensinei a ser zelosa.
GIO: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro.
TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra fazer xixi, voltava se
esfregando nas minhas cobertas. Igual quando tomava água. Limpava a boca
nas cobertas. Um cão muito higiênico.
GIO: Eu acho que só tenho uma memória boa.
TEREZA: Do cão?
GIO: Daquele tempo…
TEREZA: Ingratidão…Você é inteira movida na ingratidão.
GIO: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me olhe
assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a doer.
Você fez a Mariana comer cocô!
TEREZA: E daí?
GIO: Ela cagou no cobertor amarelo. Você tinha lavado a droga do cobertor
amarelo, e ela cagou em cima dele!
TEREZA: Vadia.
GIO: Muito bom! Ela chorava, e cada vez que ela puxava a baba pra suspirar,
ia um pedaço de bosta dentro da boca dela! Que genial!
TEREZA: Aprendeu, não aprendeu?
GIO: Tem prisão de ventre até hoje, coitada.
(Tempo)
MARIANA: Quem?
TEREZA: O que?
MARIANA: Quem tem prisão de ventre?
GIO: Você tá fedendo cigarro.
MARIANA: Deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: …
GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar.
TEREZA: Desculpa cão. Desculpa te tratar pior que gente.
MARIANA: Você devia ter feito uma caixa de madeira, pelo menos não
afundava.
TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta
babaca.
Eu vou tirar ele de lá.
GIO: E vai fazer o que?
TEREZA: Um funeral.
MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso.
TEREZA: Vai ou não?
MARIANA: Tá.

CENA QUATRO: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER PARA QUE
NUNCA SE LEMBRE DE HOJE.

GIO: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai esbarrar
num copo e fazer ele se espatifar no chão.
Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele.
Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido.
Todo sem partes.
E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de
colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou
apertar meu indicador no pedaço mais fino. Vou grudar um pedaço daquilo no
meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber
que eu não morri. Eu. Não. Morri.
Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que a porra do caco de vidro não me matou.
Nem vai. O meu sentimento será de raiva.
Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Vou colocar
meu dedo com aquele caco de vidro grudado nele bem na altura da minha
cintura. Então vou olhar de cima.
Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou
dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio,
e alguém vai dizer. Credo.
E vou imaginar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri
descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. E
eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que isso é tudo que eu
sei fazer.
E quando eu perceber o caco de vidro, ele estará cortando meu dedo, e a
ponta dele estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas eu
nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo.
Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu
quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais. E vou
gritar bem alto para quem quer que seja: por que Deus nunca leva as coisas
certas?
E alguém vai dizer: não importa. Não há nada que possa ser feito agora.
Então eu vou olhar pra Tereza. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou
desejar que ela nunca estivesse comigo.
A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais.
E ela vai perguntar do cachecol. Ela não vai lembrar, ela nunca lembra que
sempre dá suas próprias coisas para os bichos de rua. Os bichos de todo tipo.
Os com quatro patas, com duas. Até os que pedem um cigarro no café. Ela
nunca lembra.
Eu vou dizer que sinto uma agonia no meu peito. Que eu devia fazer exercício
para as pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o
sangue na ponta do meu dedo.
Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que ela é triste, por que eu
mesma sou muito mais triste e nem é por causa do falecido cachorro. Que se
dane a dor dela.
Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E vou
querer ressuscitar aquele o Velho, só pra poder mata-lo de novo.

(TEREZA E MARIANA VOLTAM COM UMA CAIXA SUJA E MOLHADA, E
COLOCAM EM CIMA DA MESA DA COZINHA)

GIO: (se passando as mesmas ações da cena anterior) Eu gostaria de matar o
meu pai. Gostaria muito.
MARIANA: Credo.
GIO: Por que Deus nunca leva as coisas certas?
MARIANA: Não importa.
TEREZA: Você viu meu cachecol?
GIO: Sinto uma agonia no meu peito. Acho que preciso fazer algum exercício
pra circular o sangue nas pernas.
(Silencio)
Jesus ressuscitava pessoas.
(Silencio)
MARIANA: Não tá fedendo.
TEREZA: Odeio chuva.
GIO: Você comia cocô.
TEREZA: Tá espumando.
MARIANA: Leva na igreja.
GIO: Tá louca?
MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe
precise de um alívio pra alma.
TEREZA: Ela!
GIO: Você disse que cachorro não tem alma.
MARIANA: Eu disse que não sabia se tinha, por que não sabia nem se gente
tem alma.
TEREZA: E tem?
MARIANA: Não sei. O velho não tem.
GIO: De novo isso?
MARIANA: Ela. Tá bem.
TEREZA: Quê que tem?
MARIANA: Se fosse ele você estaria triste?
TEREZA: Quê?
MARIANA: O gênero.
TEREZA: Lógico.
GIO: Mentira!
TEREZA: Lógico!
GIO: Ele te lembraria do Velho. Já vai começar a feder.
TEREZA: Você fede!
MARIANA: Jesus poderia trazer ele de volta, não poderia?
TEREZA: Você nem gostava do bicho. Não se dignava olhar pra ele.
MARIANA: E daí?
TEREZA: Por que é uma puta idiota que não pensa em nada além do próprio
rabo.
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi. Eu comi cocô por que você é
uma doente compulsiva por limpeza, e agora este bicho tá em cima da mesa
cheio de barro, de pulga, de pus saindo dos olhos, de xixi escorrendo, e tudo
isso tá sujando a droga da mesa da doente por limpeza. Tá feliz?
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Meu cu.
GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho.
TEREZA: Não tá não.
GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio.
TEREZA: (ouvindo o coração) Coração tá quieto.
MARIANA: Tá morto.
GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro.
MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô
nem aí. Mesmo.
Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa.
GIO: Acho que tá morto mesmo.
MARIANA: Tá chovendo.
TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo
pressão na minha cabeça.
GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro.
MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.

Novo teatro de Curitiba

8 dezembro, 2017 às 15:06  |  por Helena Carnieri

Tenho estado um pouco obcecada com a produção literária curitibana, e isso vale para textos teatrais.

Por isso foi um bálsamo conhecer essa gente linda que cursou o Núcleo de Dramaturgia do Sesi em 2017, onde tive bons momentos também. Depois da realização de uma mostra dos trabalhos, dia 25 de novembro, surgiu a ideia de publicar alguns dos textos aqui no blog “A vida é palco”. Para que não esmoreçam até o momento de finalmente encenar! Né, Juliana??

A Juliana Partyka será a primeira a publicar.  Aqui estão o prólogo e a Cena 1. O restante virá a conta-gotas, porque o texto é longo e requer, digamos… tempo de digestão.

“O VELHO”, de Juliana Partyka

OBRA DESENVOLVIDA NO NÚCLEO SESI DE DRAMATURGIA – 2017

PERSONAGENS:
TEREZA
MARIANA
GIO

velho
PRÓLOGO: ELAS ANDAM EM LINHAS RETAS, DA SUA MANEIRA.

TEREZA: As coisas me comovem. Todas as coisas. Os pedaços de coisas. Os
reflexos. Quando éramos pequenas, a gente. Como é mesmo que dizem?
“Agora você vai chorar com motivo”? E também quando éramos pequenas as
coisas, essas que tocam a gente, tinham dimensões particulares. Únicas. O
Velho era o mesmo. Os móveis. Os quadros. As samambaias. Tudo refletia
uma espécie de memória que não se sabe colocar em letras. Nos lábios. No
riso. Na comoção. Tudo me comove. Quando ela veio, parecia uma
bonequinha assim pequenina, minúsculas mãozinhas fofas e cheirosas. Um
doce de gente. Um encanto. Uma mini vida. Eu, a mais velha, esperava que
ela, e as mini mãos que ela tinha, servisse pra trazer paz. Uma espécie de paz
utópica que, no fundo, só se alcança quando a gente morre. A outra já tinha
tentado o mesmo feito. Não por vontade própria, mas por não ter escolhido vir
pra esse mundo, e mesmo assim, ter carregado a mesma responsabilidade de
“agora vai ser diferente”. O Velho é o mesmo. Acho que sempre foi. A minha
distância dele, o asco, o motivo pelo qual eu gostaria de dançar em cima do
caixão dele é, exclusivamente, por ele ter boicotado as duas tentativas de paz
que vieram depois de mim. Eu as amo tanto que chega a escorrer pelo meu
coração. Eu me comovi sempre, sempre. Quase sempre. O Velho não. Por ele
nunca. Talvez alguém antes de mim esperasse a paz. Talvez tivessem
depositado em mim a mesma esperança que eu joguei nelas alguns anos
depois. E não as culpo por nunca terem conseguido. No final, acho que foi
melhor assim. É como se tivessem arrancado um pedaço de mim, e desse
pedaço, surgido uma carga a mais de energia para tentar outra vez. E outra. E
assim até quando Deus quis.
Quando ela veio morar comigo uma outra espécie de comoção invadiu o meu
peito, e eu chorei de felicidade. Naquele dia em que falávamos de potes, e receitas para fazermos experimentos culinários, eu. A comoção. Naquele dia eu chorei. Eu estava tão feliz. Tão feliz. Então eu pensei no Velho. No quanto ele nos uniu de formas tão diferentes, em quem somos, e os medos que carregamos na bagagem. Maldito. Eu pensei. Eu quero dançar em cima do teu caixão, mas antes quero te agradecer. Pela comoção. E por elas. E pela esperança que eu carrego pelos cachorros de rua. Eu vou dançar em cima do caixão dele, e vou me comover toda vez que eu pensar. O Velho nunca me comoveu.

CENA UM – QUANDO TUDO ACONTECE, O QUE FICA DEPOIS É O BURACO NO MEIO DO PEITO.

GIO: Será que cachorro tem alma? Há dois dias só chove. Chove. Quem sabe
a chuva sirva para levar as almas para o céu. Ouvi dizer que.
MARIANA: Que?
GIO: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto esquentava a comida da
Tereza.
MARIANA: Eu não sei nem se gente tem alma, imagina um cachorro!
GIO: Então tem. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é
sim.
MARIANA: Tereza comeu?
GIO: Um pouco. Ficou chorando por causa dele. Parecia um bebê!
MARIANA: Coitada…
GIO: Tua mãe veio aqui mais cedo, quer te arranjar um emprego nem que seja
de puta.
MARIANA: Puta eu já sou. Só não cobro por isso. Ela quer dinheiro, velha
idiota!
GIO: Você vai sair?
MARIANA: Talvez. Se algum cliente ligar…
GIO: Estou falando sério.
MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca!
GIO: O cachorro fica latindo.
MARIANA: Que?
GIO: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um cachorro da
vizinhança, mas a gente acostuma com o bicho por perto. Tereza até serviu
comida no pote dele hoje mais cedo.
MARIANA: Ela tem saudade. Quem sabe pensa que ele pode voltar.
GIO: Eu escuto a outra lá no quintal. A mais nova. Uiva e chora a noite toda. Às
vezes de dia também. Tem que ir até lá com um pedaço de pão, e fazer
carinho na cabeça até ela comer tudo. O que deu da entrevista?
MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte.
GIO: Mas isso foi semana passada!
MARIANA: Foi o que eu disse.
GIO: Ela tá querendo ir ao centro espírita…
MARIANA: Que?
GIO: A Tereza. Tá querendo falar com o cachorro.
MARIANA: Não dá pra julgar. Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade
escrevia até os segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido.
Nessas horas a gente tenta meio de tudo.
GIO: Mas é um cachorro! E cachorro não escreve!
MARIANA: Cada um lida de um jeito.
GIO: Isso pra mim é coisa de louco. Olha lá! Tá chorando de novo. Um
gemidinho assim, pequeno. Da primeira vez que ouvi achei que era pulga
comendo o couro dela. Se não tomar cuidado infesta a casa inteira.
MARIANA: E não era?
GIO: Não. Ela estava deitada com a cara apoiada nas duas patas. Uma remela
branca saía dos olhos dela. Bem molhados. Parecia que tinha enfiado a cara
no pote de água.
MARIANA: O bicho sente também. Por que você sempre diz a TUA mãe?
GIO: Não sei. Hábito. Mas acho que sente.
MARIANA: Ela viu quando aconteceu?
GIO: Viu. Estava do lado. Mijou em cima dela. Fiquei com raiva na hora. Já não
gosto de lavar cachorro, lavar cachorro defunto pior ainda.
MARIANA: Tereza viu?
GIO: Não. Chorou de manhã e à tarde. Tirou o cachecol do pescoço e enrolou
nas patas do bicho. Na hora ela saiu.
TEREZA: Eu não me despedi. Não sei, na verdade. Fiquei refletindo o que
significa despedida. Ninguém sabe. Eu só fiquei olhando ela lá. Tinha uns
espasmos nos olhos. Fechava uma vez, eu achava que era a última, e tornava
a abrir. Assim por várias vezes. Eu não me despedi exatamente naquela hora,
mas depois comecei a pensar que já tinha feito isso a semana inteira. De um
modo estranho, eu sei, mas aos poucos. Cada coisa que eu fiz nessa semana
era um jeito de despedida.
MARIANA: A previsão diz que vai chover o dia inteiro.
TEREZA: A terra vai afundar.
MARIANA: Pelo amor de Deus!
TEREZA: Afunda! Não é sobrenatural. É natureza.
MARIANA: Você tá bem?
TEREZA: Acho que sim. Não sei. Tua mãe diz que é exagero, mas eu senti
uma pontada aqui ó, bem no meio do meu peito. Coisa de hábito. Não importa
quão ruim seja a situação, se ficar exposta a isso por um tempo longo, então,
você se acostuma.
MARIANA: Ela descansou.
TEREZA: Que ridículo! Parece que tá falando de gente. Não carece palavras
fúnebres não, eu sei que era um cachorro. Mas era minha, e eu era dela.
Desde antes de vir morar aqui já era assim.
GIO: Quem sabe você possa ter outro.
TEREZA: Não!
GIO: Tá.
MARIANA: Quando você sente tristeza, tem que pensar em algo positivo.
TEREZA: Tá.
MARIANA: É sério.
TEREZA: Olha quem fala! A desempregada do ano, a que não consegue
emprego nem de puta!
MARIANA: …
TEREZA: Desculpa.
MARIANA: …
TEREZA: Quando eu fico triste eu penso nela. Se eu derrubo um vaso, e ele
quebra, eu começo a chorar. Não pelo vaso. Por ela. Quando eu brigo com
alguém eu fico triste. Não pela briga. Por ela. Eu penso nela todo tempo. Eu
pego a câmera fotográfica e vejo as fotos dela. Se ela não fosse um cachorro,
eu estaria chateada por não ter me dito que estava indo. Mas não. Eu só fico
triste.
MARIANA: …
TEREZA: Será que passa?
MARIANA: Não.
GIO: Lógico que passa!
TEREZA: …
GIO: Você precisa comer.

Um rato na panela

29 outubro, 2017 às 20:32  |  por Helena Carnieri

 

ervilha

A vida em família é mesmo um conto de fadas. Não leia, por favor, “mar de rosas”. Mas uma eterna narrativa que bebe das fontes mais diversas, isso sim.

Essa história de princesas hoje está bem problematizada, claro. Mas ainda escapam uma aqui, outra ali. A das ervilhas, por exemplo, veio para ficar aqui em casa. Cada livro é lido, em média, 387 vezes. Por semana. Esse relato sobre a garota cuja nobreza a futura sogra põe em dúvida, até que tira a teima colocando uma ervilha debaixo de 20 colchões para ver se ela sente alguma coisa – e ela sente: dorme terrivelmente – foi um desses eleitos para a leitura em looping.

Pois a vida imita a arte e resolvemos brincar um pouco além das páginas do livro. A menina ganhou um saco de ervilhas. Gostou tanto que resolveu não levar para a escola, onde haveria um baile real, os amigos iriam achar que é brinquedo e ela ia ter que dividir. Colocou tudo debaixo do colchão. Dia seguinte, eu ainda sonolenta, ela me diz: “Sabe que eu não dormi bem…” Aquela carinha de “lamento decepcionar”. Que foi? Filha, tá quente? A mão já apalpando a testa, o peito e as solas dos pés. Vazou xixi no lençol, sentiu fome, frio, sede? Não, mãe, tinha alguma coisa dura. A…..faz parte da narrativa. Ok, demorou para cair a ficha.

Por sorte ela dá um jeito de melhorar mesmo as histórias mais escabrosas. O que dizer do ratinho que cai no caldo de feijão e…morre??? Sim, porque a história é bem explícita e não poupa os ingênuos ouvidos. Tem relatos que deveriam vir com classificação indicativa, mas esse não é o caso do livro da Dona Baratinha, não senhor. Enfim, tem morte e pronto.

Mas ela deu um jeito. À noite, o pai quase dormindo do lado, ela acesa que só, inventando modas. “E quando a dona Baratinha for lavar a louça, em? Vai achar e dizer, ó, que fofo, um ratinho…”

 

 

 

 

Vou continuar afônica

5 outubro, 2017 às 23:11  |  por Helena Carnieri
Catarina-0537

Foto: Renata Surian.

Perdi a voz, primeira vez na vida. Um marco em minha carreira de mãe. O médico perguntava: tem certeza que não fuma? Sim. Mas então é professora? Não, doutor. Eu grito com meus filhos.

Sei que estamos na era do diálogo, e o exerço religiosamente todos os dias. Todos. Cansa, às vezes.

Me dei conta de que posso estar excedendo a cota de palavras a serem negociadas com um ser de 3 anos justamente ao perder a voz. Afônica, sussurrei ao longo de dois dias e duas noites e os resultados foram fenomenais.

Para começar, minha filha também baixou a voz, acho até que parou de falar com voz de bebê. Cresceu.

Mas o principal se operou no meu coraçãozinho. De posse de poucas entradas de locução, selecionei muito bem o que ia falar. Posso garantir que metade do não dito era pura gordura, dava mesmo para queimar. Uma ou outra ordem silenciada entrou na conta da tolerância necessária, aquela tão difícil de exercer quando se tem voz. Uma calma aprendida à força.

Acho que todo mundo amadureceu um pouco aqui em casa enquanto eu tomava remédio para a garganta e sussurrava. Confesso que está difícil retornar ao normal. Vou continuar afônica para ver aonde isso vai dar.

Aquela voz

22 agosto, 2017 às 21:49  |  por Helena Carnieri

Canto do Cisne_3_700px (3)

Há momentos em que uma voz faz o passado vir à tona. Foi assim ouvir o ator Sérgio Silva em “O Canto do Cisne”. A peça fica em cartaz até 27 de agosto no Teatro José Maria Santos.

Nem beleza, nem um vozeirão fazem o bom ator, é claro, mas escutar o timbre muito ouvido na Rádio Educativa, aquela voz que me acompanha nas noites de chuva quando volto de algum teatro, aumentou minha predisposição ao espetáculo.

Passado o momento confessional, é preciso dizer que nem seria necessária essa ligação afetiva, já que Sérgio segura o papel do começo ao fim com muito porte.

O texto de Tchékhov, com tradução de Walter Lima Torres e Andrea Doré, trata de um ator decadente que sente o fim da linha de seu corpo também, e faz reminiscências de sua época dourada sobre o palco. Nessas lembranças, ele invoca Shakespeare e revive solilóquios de “Otelo”, “Júlio Cézar”, “Rei Lear”, para um emocionado garoto do ponto – vivido pelo também diretor Jul Leardini.

Outro ponto que chama a atenção na encenação é o “conceito da peça”, como diz a produtora, motivo pelo qual ninguém pode se sentar na primeira metade da plateia. Mas é melhor não estragar (mais) a surpresa de quem vai ver.

SERVIÇO

O CANTO DO CISNE – peça de Anton Tchekhov

Direção e produção: Jul Leardini

Tradução: Walter Lima Torres e Andrea Doré

Elenco: Sérgio Silva, Jul Leardini e Clara Meyer

Período: de 10 a 27 de agosto de 2017

Horário: de quinta a sábado às 20 horas e domingo às 19 horas

Local: Teatro José Maria Santos (Teatro da Classe)

Endereço: Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco – Curitiba

Preços: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

 

FICHA TÉCNICA

Marcelino de Mirandha, no figurino e maquiagem, Nádia Luciani, na iluminação, Salete Cercal e Loana Terra, na produção, Gerson Delliano, no apoio técnico, Édier William, na fotografia e programação visual, e Maria Amélia Lonardoni, na assessoria de imprensa.

Oscar no Paraná

14 agosto, 2017 às 21:30  |  por Helena Carnieri

 

O teatro paranaense tem seu Oscar, e ele se chama Troféu Gralha Azul.

Veja se assistiu a alguma das peças indicadas e conte o que achou! A cerimônia de premiação é aberta e acontece no Teatro Guaíra (no Guairão dessa vez!), dia 22 de agosto, às 20h30. Esta é a 37ª edição do prêmio.

Conheça os indicados

Espetáculo
Contos de Nanook – Setra Companhia
Macumba – Uma Gira Sobre o Poder – Companhia Transitória
Organismo Kafka – Grupo Delírio Cia de Teatro
Para Não Morrer – Espaço Cênico Produções Artísticas
Salomé – by Fausto Fawcett – Companhia de Teatro Urubu
Vozes de Abrigo – Cia Laica

Espetáculo para crianças
A Roupa Nova do Rei – Messe Produções Artísticas
Bita e as Brincadeiras – Cia Regina Vogue
Duula – A mulher do Deserto – Companhia Karagozwk
Jardim – Um solo poético para crianças – Tecer Teatro Arte Educação e Cultura
Napo – Um Menino Que Não Existe – Cia do Abração

Direção
Carolina Meinerz por Salomé – by Fausto Fawcett
Edson Bueno por Organismo Kafka
Eduardo Ramos por Contos de Nanook
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Nena Inoue por Para Não Morrer
Paulo Biscaia Filho por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti

Direção espetáculos para crianças
Cristine Conde por Jardim Um solo poético para crianças
Letícia Guimarães por Napo Um menino que não existe
Marcelo Andrade dos Santos por Dulla A mulher do Deserto
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Maurício Vogue por Bita e as Brincadeiras

Atriz
Carolina Meinerz – Salomé by Fausto Fawcett
Helena Portela por Não Contém Glúten
Helena Portela por Giacomo Joyce
Má Ribeiro por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Nena Inoue por Para não Morrer
Patrícia Cipriano por Linda Blair – Entra na Sala

Ator
Eduardo Giacomini por Essencial
Jeff Bastos por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Maurício Vogue por Fusca, Rock e Pornochanchada
Mauro Zanatta por Contos de Nanook
Ranieri Gonzalez por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Tiago Luz por Desnoite

Atriz espetáculo para crianças
Daniele Madrid por Dulla – A mulher do Deserto
Fabiana Ferreira por Jardim – Um solo poético para crianças
Marcelina Fialho por A Roupa Nova do Rei
Thaysa Petry por Napo – Um Menino que não Existe

Ator espetáculo para crianças
Edgard Assumpção por Napo – Um Menino que não Existe
Jeff Franco por Bita e as Brincadeiras
Leo Campos por Napo – Um Menino que não Existe
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Renet Lyon por A Roupa Nova do Rei

Atriz coadjuvante
Amanda Leal por Bita e as Brincadeiras
Dulce Furtado por Descalços no Parque
Kassandra Speltri por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Michelle Pucci por Salomé – by Fausto Fawcett
Rosana Stávis por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Ator codjuvante
Bruno Lops por Contos de Nanook
Enéas Lour por Descalços no Parque
Pedro Inoue por A Loucura de Isabella
Sávio Malheiros por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Zeca Cenovicz por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Revelação
Ana Beatriz Sercunvius por Napo – Um Menino que não Existe
Thiago Juraski por Vozes de Abrigo
Jean Carlos Sanchez por Agreste
Rayssa Gualberto por Napo – Um Menino que não Existe
Marrara Mara por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Cenário
Cristine Conde por Jardim – Um solo poético para crianças
Guenia Lemos por Salomé by Fausto Fawcet
Guenia Lemos por Contos de Nanook
Paulo Vinícius por Ouve me com teu corpo inteiro
Ruy Almeida por Para Não Morrer

Figurino
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Carmen Jorge por Para não Morrer
Eduardo Giacomini por Contos de Nanook
Gui Almeida por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Paulo Vinícius por Salomé – by Fausto Fawcett

Iluminação
Beto Bruel por Contos de Nanook
Beto Bruel por Giacomo Joyce
Beto Bruel por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Victor Sabbag por Salomé – by Fausto Fawcett
Wagner Correa por Ouve me com teu corpo inteiro

Composição musical
Alexandre Nero e Gilson Fukushima por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Enzo Veiga por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Erick Herculano, Clarissa Oliveira e Gide Ferreira por Macumba – Uma gira sobre o Poder
Felipe Ayres e Rodrigo Stradiotto por Salomé – by Fausto Fawcett
Karla Izidro por Napo – Um Menino que não Existe

Sonoplastia
Alexandre Zampier e Saulo Soul por Agreste
Felipe Ayres por Salomé by Fausto Fawcet
Jo Mistinguett por Contos de Nanook
Karla Izidro por Napo Um menino que não existe
Karla Izidro por Pelas mãos de Maria ou As Vozes de Simone

Maquiagem / caracterização
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Andrea Tristão por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Dayone Padilha por Vozes de abrigo
Livien Ullmann por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Marcelino de Miranda por Contos de Nanook

Texto original
César Almeida por Nando Peças Tetarias para o ser Contemporâneo
Edson Bueno por Organismo Kaffka
Edson Bueno por Napo – Um menino que não Existe
Edson Bueno por Pelas mãos de Maria ou As vozes de Simone
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Fausto Fawcett por Salomé – by Fausto Fawcet

Viva o Dia das Mães! Em julho?

25 julho, 2017 às 15:10  |  por Helena Carnieri

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Chega o Dia das Mães e é aquela enxurrada de mensagens no celular, corações, balões, frases e até capítulos de livro inteiros sobre como é maravilhoso ser mãe, apesar dos picos de dor, enlouquecimento precoce e paranoia diários. Só agora, em julho, me cai a ficha.

Achava que isso me incomoda só pelo tom meloso, mas uma psicóloga infantil matou a charada. “Gente, nem é tudo isso”. Mãe de dois e orientadora de pais há décadas, ela traz as comemorações mais para perto da realidade.

Segundo ela, o clima de festa acaba mascarando um pouco da desilusão que é ser mãe todos os dias. Isso porque todo mundo idealiza a maternidade, desde a gravidez, e quando as coisas acontecem mais pé no chão, ou seja, com muito amor, mas um pouco de chateação aqui e outra ali, parece que precisa ficar reafirmando o quanto vale a pena.

É claro que vale! Acho lindo quem usa corrente com boneco menino ou menina de acordo com o filho que tem. Mas só por brincadeira, pensei em usar no lugar uma tesourinha sempre ao pescoço – para o caso de o bebê dormir (finalmente!) e eu conseguir tosar as garrinhas. Mais uma coisa que admiro: quem consegue cortar as unhas com o filho acordado.

Tem gente que pira e já enxerga o cordão de ouro como uma condecoração. No meu caso poderia trazer escrito “Olhe pra mim, tenho dois. Não durmo à noite e estou aqui em pé”.