Quando a palavra QUE tem acento?

7 junho, 2017 às 16:00  |  por Ana Paula Mira

A palavra QUE, na língua portuguesa, pode, algumas vezes, aparecer acentuada. Isso acontece quando está no fim do texto. A explicação para isso se deve ao fato de que a nossa fala tem tonicidade na parte final de nossas frases, ou seja, o acento, o ritmo da nossa fala é mais evidente no fim de nossas sentenças. É por isso que o QUÊ e também POR QUÊ aparecem acentuados nessas condições.

Veja os exemplos:

Perguntei o motivo da briga mas ele não explicou por quê.
Ele apenas se questionou: brigar para quê?

Entendido? Até a próxima.

Uso do apóstrofo

6 junho, 2017 às 16:00  |  por Ana Paula Mira

Hoje, nosso post é sobre o uso do apóstrofo. Para quem não tem familiaridade com o termo, apóstrofo é aquele sinal gráfico que parece uma vírgula no ar (‘). Largamente utilizado na língua inglesa, no português seu uso é bem mais restrito.

O sinal indica a supressão da vogal de uma preposição nas expressões, como em caixa-d’água, estrela-d’alva ou pau-d’arco. Também pode ser utilizado para indicar expressões populares, mas esse uso é muito mais aceito na literatura do que em nossa comunicação diária. Temos muitos exemplos na obra de Guimarães Rosa: “Olh’ele aí!”

Porém, o uso mais frequente, com certeza, é na citação de títulos de livros ou jornais que iniciem com artigo. Veja as frases:

Li n’O Globo que o imposto vai aumentar.

N’Os Sertões, Euclides da Cunha faz um tratado histórico sobre a Guerra de Canudos.

Claro que muitos preferem não usar o apóstrofo, o que também é possível nas frases acima se não for feita a junção da preposição com o artigo. Ficaria assim: “Li em O Globo que…” ou “Em Os Sertões, Euclides da Cunha…”.

Até a próxima!

Menos, não “menas”

2 junho, 2017 às 16:47  |  por Ana Paula Mira

Quem sempre está atento ao uso da língua portuguesa, tanto na modalidade oral quanto escrita, sabe que há um erro bastante comum na fala das pessoas: o uso da palavra “menos” de forma errada, como se ela pudesse ser passada para o feminino (menas!).

E esse escorregão já foi cometido inclusive por aqueles que, por estarem na mídia, deveriam dar exemplo! Quem não lembra quando o então técnico da seleção brasileira, Dunga, disse que gostaria de ver o time jogando “pelas pontas, onde tem menas gente”?

“Menos” é um advérbio de intensidade, assim como “demais”, “meio”, “muito”, “pouco”, “bastante”, “quão” , entre outros. Os advérbios são invariáveis, ou seja, não mudam de gênero (masculino ou feminino) nem de número (singular ou plural). Dessa forma, eles nunca se alteram, independente da frase, e sempre serão usados da forma “como vieram ao mundo”. Dunga deveria ter dito que o time deve jogar pelas pontas, onde há “menos” gente.

EM TEMPO!
Alguns desses advérbios – “meio”, “muito”, “pouco”- são, em determinadas sentenças, adjetivos ou pronomes indefinidos, que são classes gramaticais variáveis! Veja nos exemplos:
Ela está meio (advérbio)cansada.

Pedi meia (adjetivo=metade) porção de batata frita.

A professora foi muito (advérbio) educada.

Muitas (pronome indefinido=várias) pessoas discordam do atual governo.

Até a próxima.

 

O óculos x os óculos

30 maio, 2017 às 21:46  |  por Ana Paula Mira

Há alguns dias, recebemos o seguinte recado pelo facebook: “Ultimamente tenho visto muito o uso ‘o óculos’ e, quando eu estive na escola, a regra culta mandava tratarmos ‘óculos’ como um plural. Quem está certo – eu ou o resto do mundo?”.

Boa observação, não acham? Trata-se de um erro bastante frequente. Quem nunca ouviu alguém dizendo “pega o meu óculos”, por exemplo? É comum.

No entanto, o certo é colocar as palavras que acompanham “óculos” no plural. Apesar de a palavra semanticamente indicar singular, morfologicamente ela é considerada plural. E o que vale para o uso do artigo é a questão morfológica.

Ou seja, não se esqueçam: OS óculos. Sempre.

Abaixo o “MESMISMO”

27 abril, 2017 às 16:39  |  por Ana Paula Mira

Novamente, tomei a liberdade de inventar uma palavra neste post! Na nossa última conversa, falei sobre o uso indiscriminado do ONDE como elemento de coesão. Mas tendo a achar que o uso do MESMO como elemento anafórico (palavra que se remete a outra já citada na sentença) é hoje um dos maiores vícios da escrita. Como sempre, melhor começar por exemplos para ficar mais claro. Veja as frases abaixo:

Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.
Segue em anexo o contrato. O mesmo deve ser assinado até amanhã.
Consideramos o projeto de sustentabilidade o melhor dos apresentados, por isso o mesmo será colocado em prática.

As frases parecem familiares? Você usa a palavra “mesmo” ou “mesma” dessa forma? Se sua resposta foi sim para as duas perguntas, provavelmente você é um viciado nesse tipo de escrita. TODAS as frases acima estão erradas!

A palavra mesmo e suas variações (mesma, mesmos, mesmas) podem ser várias classes gramaticais diferentes. Veja:

A mesma testemunha foi chamada duas vezes. (adjetivo) 
O político corrupto de hoje é o mesmo do passado. (pronome com valor demonstrativo)
Mesmo que ele peça desculpas, não vou aceitar. (conjunção)
Mesmo aqueles que pediram a saída da presidenta devem estar hoje arrependidos. (advérbio)

Como podemos perceber, a palavra não tem valor substantivo, ou seja, não pode ser usada como sujeito ou complemento de verbo como nos exemplos errados. No entanto, não precisamos saber esse gramatiquês todo para usar corretamente. Basta guardar a informação de que ele não pode completar a ideia de um verbo (nem antes, como sujeito; nem depois, como complemento).

Então, fica a dica: o MESMO não pode ser sujeito nem complemento.

Até a próxima!

 

Abaixo o ONDISMO

26 abril, 2017 às 14:00  |  por Ana Paula Mira

Você sabe o que é ondismo? Uma palavra que me dei a liberdade de inventar para explicar o uso indiscriminado do ONDE como elemento de coesão universal. Na gramática, existe um vício de linguagem que se chama QUEÍSMO, que é a repetição excessiva do QUE na redação dos textos. Dessa forma, emprestei a lógica da palavra para explicar o que vejo, hoje, também como um vício de linguagem. Para entender melhor, veja os exemplos abaixo:

1. Para aprovar a Marcha, partiu-se do princípio onde a liberdade de expressão é direito básico do homem.

2. Ele conta piadas onde a vítima é sempre um português.

3. Governo cancela pregão onde gastaria R$ 15 mil com chicletes.

As três frases foram retiradas da mídia. E as três utilizam de forma errada o advérbio ONDE, que só pode ser usado quando tem ideia de lugar. Para entender essa lógica, é importante observar sempre a qual palavra ONDE se remete diretamente. Na frase 1, a palavra “onde” está relacionada a “princípio”, que não indica lugar! Na frase 2, acontece o mesmo com “piadas” e, na frase 3, com “pregão”. “Princípio”, “piadas” e “pregão”não são lugares físicos, portanto, não podem ser utilizadas com a palavra ONDE, como nos exemplos.

- “Mas, Ana, como eu deveria escrever então?”

Tem que eliminar o ONDE e substituir por palavras que se encaixem na ideia indicada. Veja as correções:

1. Para aprovar a Marcha, partiu-se do princípio de que a liberdade de expressão é direito básico do homem.

2. Ele conta piadas cuja vítima é sempre um português OU Ele conta piadas nas quais/em que vítima é sempre um português.

3. Governo cancela pregão com o qual/com que gastaria R$ 15 mil com chicletes.

O que percebemos quando fazemos a correção é que as novas construções são mais atípicas na fala, por isso o uso do ONDE foi tão disseminado. Ele é mais fácil, parece que cabe em qualquer lugar! No entanto, não é bem assim. Lembre-se: a palavra só cabe quando se referir a uma ideia de lugar físico!

No próximo post, vamos falar do “mesmismo”. Você conhece?

Até a próxima!

 

 

Crase – Parte I

26 abril, 2017 às 05:48  |  por Ana Paula Mira

Origem

Muitos confundem a crase com o nome do acento. No entanto, a crase, que vem do grego krasys, significa junção, fusão de sons iguais. Portanto, uma regra de ouro para aprender crase é guardar, já de início, que, para haver o acento agudo indicativo da crase, é preciso que existam dois sons iguais. Veja a frase: “Ele se referiu à mãe como se ela fosse uma santa!”. O verbo “referir-se” (que deve ser usado com pronome, sempre!) precisa de preposição A; “mãe” é uma palavra que admite o uso do artigo “A”. Portanto, existem as duas condições para haver crase, ou seja, o processo da fusão.

A todos

O pronome indefinido “todos” não aceita uso de artigo feminino. Por isso, o A que vai antes dele é apenas preposição.

A partir e datas

Não se usa crase na expressão A PARTIR ou quando usamos o A no meio de uma data (de 12 a 15 de outubro, por exemplo). Não há acento da crase em nenhum dos dois casos, pelo fato de que o A da expressão A PARTIR é apenas preposição, ou seja, não existe ali o artigo também, que é condição básica para existir crase. A mesma explicação cabe para o exemplo “DE 12 A 15 DE SETEMBRO”. Entre os números, existe apenas A preposição, por isso nunca haverá acento nesse tipo de exemplo.

Falaremos de crase em outros posts. A princípio (sem crase!), ficamos com esses exemplos. Até mais!

Você saber usar os porquês?

13 abril, 2017 às 14:30  |  por Ana Paula Mira

O uso dos porquês na língua portuguesa não tem segredo. Basta entender quais palavras formam as expressões. Mais do que decorar que um é para pergunta e outro é para resposta, é essencial saber que PORQUE é uma conjunção explicativa, ou seja, serve para explicar ou responder algo e pode ser substituído por POIS. Toda vez que a substituição for possível, é sinal de que a palavra PORQUE (tudo junto) deve ser usada. Veja o exemplo:

Não fui à aula porque (=pois) perdi a hora.

Quando essa mesma palavra for usada com acento (PORQUÊ), ela é um substantivo, o que significa que pode ser também substituída por outro substantivo com mesmo significado, como RAZÃO, MOTIVO ou CAUSA. Veja:

O governo não explicou o porquê (=motivo/ razão/ causa) de tanta corrupção.

Já na palavra separada, temos uma expressão formada por uma preposição (POR) e por um pronome (QUE). Ou seja, POR QUE será usado quando a sentença exigir essas duas classes gramaticais. Uma forma bem fácil de fazer isso é, de novo, a substituição, pelas expressões pelo qual/pela qual/ por qual/ por quais etc. Ainda poderá ser substituído pelas expressões por qual razão/ por qual motivo, vai depender da frase! Atente para os exemplos:

Os bombeiros não sabem explicar por que (=por qual razão/ por qual motivo) o incêndio começou.

Ninguém disse por que (=por qual) razão a Defesa Civil liberou os alvarás.

O processo corre em segredo de justiça, motivo por que (=pelo qual) a imprensa não tem divulgado informações.

Quando utilizado no fim das frases, o POR QUÊ deverá ser utilizado. A explicação para seu uso no início, meio ou fim da frase é a mesma! A única diferença é o acento que surge quando a palavra estiver no fim da sentença.

Por que as aulas foram suspensas?

Ninguém explicou por quê (=por qual razão/ por qual motivo).

Para ficar mais fácil, segue um resuminho das substituições:

PORQUE =POIS
POR QUE=PELO (A) QUAL; PELOS (AS) QUAIS
                     POR QUAL MOTIVO/ POR QUAL RAZÃO
PORQUÊ= A RAZÃO/ O MOTIVO
POR QUÊ= igual ao POR QUE, mas deve aparecer no fim da frase

Quando usar vírgula antes de “E”?

11 abril, 2017 às 14:26  |  por Ana Paula Mira

Uma dúvida bem comum de pontuação é o uso de vírgula com a conjunção E. Muita gente pergunta se pode ter vírgula antes do E, se ela é proibida e outras confusões! Primeiramente, antes de pensarmos na vírgula antes do E, acho importante relembrar que na língua portuguesa existe a ordem direta da escrita (sujeito + verbo + complemento). No entanto, podemos usar a ordem indireta também. Quando isso acontece, as vírgulas aparecem. Vejam o exemplo:

Acordei muito tarde e perdi a aula de dança por conta disso.

Há duas sentenças nessa frase: “Acordei muito tarde” + “perdi a aula de dança por conta disso”. As duas estão na ordem direta. No entanto, o que acontece se colocamos a expressão “por conta disso” fora da ordem (na ordem indireta)? As vírgulas vão ter que dar o ar da graça!

Acordei muito tarde e, por conta disso, perdi a aula de dança.

Ou seja, toda vez que usarmos ordem indireta e surgirem expressões intercaladas na ordem da frase, as vírgulas serão obrigatórias, independente se estiver no meio do caminho um E.

Outro erro comum é achar que nunca pode haver vírgula antes do E. Ledo engano! Se houver duas frases unidas pelo E e elas tiverem sujeitos diferentes, a vírgula antes do E será obrigatória. Veja o exemplo:

A mulher abandonou o carro e o marido teve que ir resgatar o automóvel no meio da estrada.

Se não usarmos a vírgula antes do E, parece que a mulher abandonou o carro + o marido, informação incorreta segundo a frase indicada. “A mulher” é o sujeito da primeira oração e “o marido” é o sujeito da segunda oração, portanto TEM que colocar vírgula antes do E para não haver confusão. Portanto, a frase correta seria grafada assim:

A mulher abandonou o carro, e o marido teve que ir resgatar o automóvel no meio da estrada.

Tem mais alguma dúvida? Manda pra mim: anamira@todaletra.com.br

Tudo a ver ou tudo haver?

6 abril, 2017 às 14:36  |  por Ana Paula Mira

Muito normal encontrarmos a expressão “nada a ver” ou “tudo a ver” escrita com o verbo HAVER.

O certo é “tudo/nada a ver”. A ideia da expressão é “tudo/nada para ver”. E a ideia do verbo “haver” é a mesma de “existir”. Pense na substituição para perceber como não faz sentido usar haver:

  • Eu não tenho nada a ver com isso (eu não tenho “nada para ver” em relação a isso).
  • Eu não tenho nada haver (eu não tenho nada “a existir” – estranho, né?).

Mas, atenção, porque existem frases em que há a construção “ter a haver”, que significa ter direito a algo. Veja o exemplo:

  • Ele tem a haver uma quantia expressiva na herança. (Ele tem “para receber”; ele tem direito a uma quantia expressiva).

Até a próxima!