Milhares de espectadores marcam encontro no santuário Suwa de Nagasaki, para assistir a procissão formada por uma longa fila, com japoneses vestidos como portugueses do século XVII. Velhos que não conseguem mais andar, crianças que ainda são pequenas demais para andar, todos participam como observadores. Os mercadores colocam suas oferendas diante do relicário, enquanto crianças vestidas com fantasias de músicos portugueses, entoam canções populares portuguesas. Tambores anunciam a chegada do barco com os meninos cantores, carro alegórico puxado por jovens, uma nau de três mastros até perto do lago em frente ao relicário. Homens fazem curvaturas solenes e puxam o carro, repetindo a manobra várias vezes, até perto da escadaria da entrada principal do mausoléu. A nau é seguida por alguns dançarinos tradicionais, até surgir um barco japonês muito decorado e colorido, seguido por um barco dragão chinês e dois últimos carros, uma cena movimentada com puxões e empurrões, ao som de tambores. É o espetáculo matsuri Okunchi de Nagasaki, um dos três maiores festivais do Japão.


A nau portuguesa abre as festividades no último dia do Okunchi

FESTIVAL OKUNCHI – datando de 1638, é sempre realizado no início de outubro. Só acontece de sete em sete anos, sempre com o veleiro português. Porque Nagasaki ganhou notoriedade por causa da presença portuguesa no Japão nos fins do século XVI e princípios do século XVII. Foi quando mercadores e missionários chegaram de Portugal, estabelecendo a base principal em torno de 1570. Não falta uma pitada de ironia, já que o festival teve na sua origem o propósito de ajudar os japoneses a esquecer os seus visitantese, principalmente, a religião que tentavam implantar.

A mudança da sorte dos portugueses no Japão teve aspectos dramáticos. Quando chegaram, em 1540, os portugueses foram bem acolhidos. Os japoneses do século XVI não se mostraram particularmente impressionados como o comportamento dos europeus no comer, no banho, mas gostavam das novas coisas que os nambanjin, – os bárbaros do Sul – traziam: armas, consideradas úteis,o vidro, o espelho, as bússolas, os óculos e até uma grande impressora. E acabaram adotando o hábito de fumar e o de usar roupas ocidentais, durante algum tempo consideradas em moda no Japão do século XVI.


Comércio, o grande propulsor da presença portuguesa no Japão

Juntos dos mercadores, chegaram os missionários, tentando espalhar o cristianismo pelo país. Primeiro foram recebidos com cortesia, o que alimentou as esperanças de que o Japão se tornaria a primeira nação cristã da Ásia. Só que a realidade era outra. Enquanto os japoneses respeitavam e admiravam as crenças cristãs, os poderosos do Sul da Ilha de Kyuchu que se converteram, tinham como propósito mais os bens terrenos do que os espirituais. Percebendo que os jesuítas tinham influência na escolha dos portos visitados pelos navios portugueses, os daymios que tinham alguma baia adequada, passaram a cortejar os missionários, fingindo conversão deles e de seus súditos. Milhares de japoneses adotaram a religião cristã. Mas a situação não perdurou por muito tempo e os missionários foram ficando mais agressivos nos métodos de pregação, atraindo a preocupações das autoridades locais. Em 1587, o homem mais poderoso do Japão, ordenou a saída do país de todos os missionários. A ordem não foi inteiramente colocada em prática, aumentando a ousadia dos missionários e seus convertidos. Dez anos mais tarde, seis missionários franciscanos, dezessete monges japoneses e três irmãos leigos jesuítas foram enviados de Kyoto para Nagasaki, onde todos foram crucificados.


Okunchi é um dos três maiores festivais do Japão

Mesmo com tal advertência, o cristianismo continuou a ter espaço, enquanto os missionários ficaram associados ao valioso comércio que passava por Nagasaki. Pelos conhecimentos europeus adotados, até o chogun Tokugawa Ieyasu, sucessor de Hideyochi, procurou tolerar os portugueses, embora sob controle. Em 1600 chegou ao Japão um navio holandês, lotado de gente querendo participar do comércio, apregoando não estarem interessados em implantar religião. Queriam apenas os lucros. Embora os portugueses continuassem autorizados a negociar, o cristianismo passou a entrar na mira do shogun, os missionários foram expulsos e os convertidos obrigados a abandonar o novo credo. Milhares de japoneses cristãos foram condenados e executados. O golpe final surgiu em 1638, quando os camponeses de Kyuchu ocidental se revoltaram contra os pesados impostos opressores. Muitos dos rebelados eram cristãos, o que transformou a rebelião social num levante, confirmando os temores do chogun. Depois de um longo cerco os revoltosos, cerca de quarenta mil, foram massacrados. Foi o fim do século cristão no Japão e o fim da presença portuguesa no país. Depois de terem mudado irreversivelmente o país, os portugueses foram banidos para sempre.


Enquanto crianças vestem fantasias de mercadores portugueses, a geisha tem no quimono as cores da bandeira portuguesa

Nagasaki de hoje mostra os dois lados da herança, com a exuberância do Festival Okunchi, que celebra os laços com os portugueses, nas miniaturas dos barcos europeus e recordações alusivas e até no kasutera (de Castilla), o bolo tradicional. A simplicidade do monumento aos 26 mártires e o museu ao lado, lembram que a relação foi perturbada, com intolerância religiosa.