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Estreia

Cinebiografia de Allan Kardec traz um homem à frente de seu tempo

Intolerância. Discriminação. Ignorância. Pós-verdade. Para quem usa redes sociais – ou seja, quase todo mundo – são conceitos atuais e bastante reclamados. Nas redes, é comum atacar ideias contrárias, sem argumentos sólidos, apenas com convicções vazias baseadas em informações não comprovadas. E quem pensa em contrário acaba discriminado. Infelizmente, esses conceitos são velhos. Um exemplo disso pode ser visto no filme ‘Kardec’, sobre Allan Kardec, o fundador da doutrina espírita, que estreia nesta quinta-feira (16).

‘Kardec’ não é um filme religioso, longe disso. Palavra de quem está nele: os atores Leonardo Medeiros (o protagonista) e Sandra Corveloni, intérprete de Amelie-Gabrielle Boudet, a mulher dele (ver entrevistas abaixo). Nada de se discutir se há uma religião melhor que a outra. Trata-se de uma cinebiografia, que inclusive desmistifica pós-verdades sobre ele. A principal: Allan Kardec não era um médium espírita.

Na verdade, Kardec chamava-se Hyppolite Leon Denizard Rivail. Era um intelectual na Paris do século 19. Intelectual e diversificado: lecionava gramática e aritmética, sabia anatomia, entendia de astronomia, manjava de contabilidade, escrevia livros científicos. Ele mesmo era cético quanto a um fenômeno visto na época, o de “mesas que flutuavam ou faziam barulhos por causa de espíritos”. Leon foi investigar, usando métodos científicos. E convenceu-se de que as manifestações testemunhadas por ele – através de médiuns – poderiam mudar o mundo. Mudaram mesmo: com seu sistema de pesquisa e observação do que as médiuns escreviam, e o pseudônimo Allan Kardec, Leon publicou ‘O Livro dos Espíritos’ e fundou a doutrina espírita, duas coisas que chacoalharam Paris. Enquanto muitos o apoiavam, muitos o atacavam, principalmente igreja e governo. Com o tempo, até antigos amigos se afastaram.

‘Kardec’, o filme, é baseado na biografia de Marcel Souto Maior. Parece estranho um brasileiro fazer essa biografia de um doutrinador francês que nunca veio ao Brasil? Kardec, o espírita, é muito mais conhecido no Brasil que na França, onde seu nome foi praticamente riscado da existência. A direção de Wagner de Assis é fiel ao livro e traz um meticuloso retrato da sociedade parisiense do século 19, com um denso trabalho de luz e sombra. E feito de forma primorosa, principalmente para os padrões do cinema nacional. Mas é a dupla de atores, experiente no teatro brasileiro, que conduz o filme. Leonardo Medeiros está bastante semelhante a Allan Kardec. E Sandra Corveloni brilha como Amélie-Gabi – sua personagem tem uma força que às vezes parece faltar ao próprio Kardec. Havia motivos para faltar-lhe forças: ele foi vítima de intolerância, discriminação e pós-verdades. Segundo disse Medeiros, Kardec estava à frente de seu tempo. Mas não só isso. Hoje parece que o mundo está no tempo de Kardec.

"É um homem comum colocado em uma situação extraordinária", diz Leonardo Medeiros

Quanto você conhecia Allan Kardec antes do filme?
Leonardo Medeiros — Tinha um conhecimento superficial sobre ele, apesar da minha família ser espírita e de ter crescido nessa cultura.

Como foi o trabalho para o personagem?
Medeiros — Foi uma viagem interna. O Kardec não representa nenhuma dificuldade técnica, ou algum estudo específico, mas foi uma viagem interna. Ele era um homem muito estudado, tem muita gente que conhece a vida dele. Estava tudo balizado, não tem liberdade de construir personagem humano, não tem escrito em lugar nenhum. Os fatos limitam muito. Basicamente, o trabalho é trazer coerência. Fico feliz, vi o filme e acho que a gente conseguiu, de maneira muito respeitosa, dentro dos documentos históricos, principalmente o do Marcel Souto Maior (autor da biografia).

Por que você acha que Allan Kardec é mais conhecido no Brasil que na França?
Medeiros — Ele entrou em embate com a igreja católica. Carregava nas costas a responsabilidade de manter a doutrina espírita, ele e mais outras pessoas. Ele era uma figura forte. Depois que morreu, o espiritismo sofreu um ataque violento na França, comandado pela igreja católica, mais o judiciário. Foi julgado e condenado. A história dele foi apagada. Não está mais na memória dos franceses. Só que cruzou o oceano, principalmente ‘O Livro dos Espíritos’. Paris era a capital cultural da época, muitos iam estudar lá e traziam esses livros. Aqui floresceu como em nenhum lugar do mundo. Nesse sentido, o filme é esclarecedor, desmistifica preconceitos. Ele não era médium, era um homem de ciências, muito inteligente, publicava livros didáticos, aritmética, gramática. Era à frente de seu tempo.

Você ficou bastante parecido com o Allan Kardec original. Como foi o trabalho de maquiagem?
Medeiros — Ali não tem nenhuma prótese, enchimento, só tentei me aproximar das feições, a postura. Isso está impregnado no trabalho

Alguma coisa te surpreendeu na história dele?
Medeiros — A coragem dele. Ele é um homem comum colocado em uma situação extraordinária. De posse dessas informações, funda uma doutrina e enfrenta a igreja católica de peito aberto. É de uma coragem, uma figura grandiosa, um herói mesmo. Eu, pessoalmente, não teria a coragem que ele teve para enfrentar isso.

Você acha que esse filme pode virar um filme religioso?
Medeiros — Espero que não. Inevitavelmente os espíritas vão se identificar, mas é um filme para todo mundo, não tem nenhum sensacionalismo. É a história de um trecho da vida do Kardec, como documentado pelo livro. Um livro isento, só apresenta fatos. Essa figura é iconográfica e importante na cultura brasileira. Todo mundo já ouviu falar. Além de ser bom cinema, um bom filme de época.

"O filme traz uma mensagem de tolerância mesmo", afirma Sandra Corveloni

Quanto você conhecia Allan Kardec antes do filme?
Sandra Corveloni — Conhecia o que maioria das pessoas conhece, quem não é da doutrina. Conhecia pouco, mais os livros que ele escreveu, sabia dos livros. Muitas pessoas próximas já tinham lido, me contado, já tinha frequentado alguns ligares, com amigos. Aqui em SP já tinha ido algumas vezes à federação espírita, sabia dos trabalhos, mas não conhecia o antes, como as pessoas chegaram até ali. Fui conhecer com o roteiro.

Conhecia a personagem Amelie-Gabrielle antes do filme?
Sandra — Não, não conhecia, não fazia ideia de que ela existia. Fiquei sabendo dela na primeiro reunião com o diretor, que ele convidou para tomar café, me deu roteiro para ler. Falei: ‘nossa, gente, que história incrível’. Dois professores que se casam com mais idade, não têm filhos, dedicam a vida à educação, frequentavam a sociedade parisiense na época. Fiquei encantada com o lugar que ela ocupa. Depois que eu fiz o filme, fui com Wagner e Leo aos centros espíritas para falar sobre o filme. Mostrar trailer, ouvir palestras do Wagner sobre a vida do Kardec, que ele conhece profundamente. As pessoas falam que era uma mulher incrível. As pessoas me contavam mais da Gabi que a internet ou a biografia. Wager quis dar a ela o lugar que ela tinha na vida dele, e que não é dito comumente, não é falado, mas quem é da doutrina espírita sabe da importância dela. Foi legal descobrir.

As mulheres não tinham muita voz naquele tempo...
Sandra — Pois veja só (risos). Tinha as mulheres cientistas da NASA, recentemente saiu um filme sobre elas. Como a história sempre foi escrita por homens, eles puxaram a brasa para as sardinhas deles. Agora a gente está puxando a sardinha e a brasa de volta.

Como foi o trabalho para o personagem?
Sandra — Tinha muita experiência. Comportamento físico, ritmo de cena, tudo é diferente. Como se comporta, senta, fala olha, gesticula, tenho treino grande. Fiz parte do grupo Tapa, fazia Shakespeare, Tcheckov, muita coisa de século 19, mesmo Arthur Azevedo, Martin Cena, fiz muita coisa, então tinha experiência grande do comportamento gestual. É completamente diferente a postura. A parte da criação psicológica, de como ela se comportava. Como a maior parte do filme é com ele, eu pude ser bastante expansiva no relacionamento com ele, tudo estava no roteiro. Essa coisa dela ter um pouco de humor, não deixar ir para os lados mais negativos. Impus o comportamento feminino, mais proativo, de resolver os problemas. Fizemos uma cena em Paris, o Wagner dava o ritmo da cena. A primeira manifestação espírita que assistem, praticamente a abertura do filme, a Amelie desce, disposta a entrar na casa. Ele para do lado da carruagem, dei dois passos para frente, voltei, peguei na mão dele, já impondo personalidade. Tem essa coisa da Gabi, que era mulher forte, e também da personalidade feminina.

Como foi filmar em Paris e no Rio?
Sandra — Filmar em Paris é muito bacana. Já fiz teatro lá, vários lugares da França. O cinema é diferente. Aquele cenário de Notre-Dame. A gente filmou e aconteceu essa tragédia, não faz nem um ano. Foi no dia 16 de maio, quase um ano, vai ser bem o dia da estreia. No Rio de Janeiro, tem uma arquitetura inspirada em Paris, muitas construções. Conheci o prédio da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), é lindo demais, encantador. A gente vê tanta coisa linda que a gente tem, mas tudo meio abandonado.

Você acha que esse filme pode virar um filme religioso?
Sandra — Não, de forma alguma. É uma cinebiografia histórica, e se passa no século 19, tem contexto social fortíssimo, traça paralelo com nossos dias. Fiquei chocada como falam em atualidades como escola laica, o lugar da mulher, do respeito às outras religiões, tolerância, o índice de suicídio era altíssimo nessa época. Tenho um filho adolescente, na escola dele já aconteceu. Escolas grandes têm relatos de casos de suicídio entre adolescentes, é assustador. A gente fala disso no filme, dessa desesperança, diferença de classes, desigualdade social. “Por que alguns nascem nessas condições e outros em condições abastadas? Será que Deus escolhe as pessoas?” É muito atual. Uma oportunidade de reflexão. Traz mensagem de tolerância mesmo, a gente pode tentar ouvir o outro.

Seria mais uma mensagem de tolerância, não?
Sandra — Muito. Não é um filme só para iniciados na doutrina espírita. É um grande filme, uma oportunidade de ver um grande filme brasileiro de época. Traz mensagem de tolerância mesmo. Com essa coisa de internet, WhatsApp, a gente está tão preso ao tempo. A gente acha que está super bem informado, em todos os lugares, e quer reafirmar nossas verdades, não quer ouvir outras ideias. Aconteceu nas eleições. O povo ficou brigando com quem era contrário, sem tolerância total, impondo ideias e convicções. Esse debate de ideias é superimportante.

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