• 21/10/2018

    Os lindos jardins de Curitiba

    condomínios fechados
    todos cercados
    de arames elétricos

    meio metro de grama,
    pavor quilométrico

    mais medo brotando
    que os frutos de antes

    cercas cortantes,
    guaritas armadas,
    quintal resguardado
    de vidas mal vindas:

    o pijama listrado,
    o que não tem,
    só tem fome,
    cada vez mais,
    aqui, agora,
    fica lá fora

    longe, na periferia,
    na margem, nos confins

    deus me livre
    da liberdade
    que nunca tive,
    de que me esqueço
    e que me nego,
    ao outro e a mim

    no lugar, aceitamos:
    as cercas,
    arames,
    voltagem,
    armas,

    coragem?

    não, coragem, não.

    porque coragem falta,
    porque pra coragem
    precisa amar.

    a palavra coragem
    vem de coração
    e amor também falta.

    e a falta de amor
    faz o medo imperar

    menos sim, mais não
    negar, negar e negar
    por medo de perder
    por medo do outro

    por medo,
    prefiro o anel

    que levem o dedo
    que levem a alma
    que levem o carinho

    mas dentro da cerca
    faço de aço
    e chumbo
    meu ninho

    eu, meu anel e meu medo
    e essa teia de arame que teço

    é tão difícil ver?

    desde o começo,
    o campo de concentração
    de menos sim e mais não
    tá virado do avesso

  • 10/10/2018

    De onde vem o neofascismo

    O neofascismo no mundo é o sintoma do colapso de um sistema econômico baseado em dívida - dívida desde o indivíduo a grandes corporações, países e continentes e em todos os níveis, do financeiro ao emocional. Como uma estrela que, já sem combustível para queimar, não suporta mais a sua própria massa e começa a ser comprimida pela própria gravidade antes de explodir ou virar um buraco negro, o que presenciamos é esse sistema insustentável fazer seus últimos esforços no campo da política para sobreviver. Não digo que será um processo rápido, mas está acontecendo. Também não será fácil, principalmente para os menos protegidos.

  • 06/10/2018

    Como abraçaria meu Brasil

    Ah, meu Brasil, meu Brasil criança,

    que vontade que eu tinha de abraçar você, 
    nos pontos de ônibus lotados, 
    nos portões de escola às sete da manhã, 
    estudantes a esperar que sejam abertos,
    na saída das missas, no intervalo da fábrica.

    Nos engarrafamentos e em estradas que dão em lugar algum.
    Talvez em alguma cidade bem pequena, 
    destas em que você diz bom dia e o outro responde.

    E daí, saída do nada, uma vaca. 
    Uma vaca brasileira contempla a névoa da manhã 
    com olhos plácidos e brasileiros.

    Um cão brasileiro passa também
    atrás de uma árvore para mijar.

    Ah, meu Brasil, meu Brasil criança, que abraço eu daria.

    Como o sol abraça suas praias, 
    seus planaltos e cada reentrância de pedra
    por onde a luz, brasileira, consegue penetrar.

    Um abraço que abrace o longe e que abrace o perto,
    como as cartas, tão raras hoje em dia, 
    do filho estudando na metrópole para a mãe analfabeta.

    Ah, meu Brasil, meu Brasil criança, 
    mais que pátria mãe, nação filha, terra fugidia
    e indefinível nos parentescos de primeiro grau.

    Como o embalaria, na voz do violeiro 
    que, mesmo virtuoso, jamais será conhecido, mas existe. 
    E que é triste, não por isso,
    mas porque canta canções tristes. 
    Mas é feliz de vez em quando.

    Como amaria você, meu Brasil criança, 
    nos cabelos da moça que passa todo dia,
    perdida em pensamentos de coisas brasileiras.
    O que é isso que ela pensa e o que poderia eu saber?
    Se não entendo o Universo, 
    como poderia entender esse Brasil.

    Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança,
    no prédio que alguém ergueu 
    vendendo barato um tempo brasileiro
    de um brasileiro a um dinheiro sem pátria e sem substância.

    Na capa de tinta e reboco e fuligem e poluição, 
    expressão abstrata, dura e suja 
    das mãos e dos calos que não estão mais ali, 
    mas num bairro distante, 
    bem longe das coisas que só o dinheiro pode comprar.

    Nos velórios, no morto, na lápide, abraçaria.

    Até nas grades, abraçaria.
    As barras de culpas diferentes para indecências iguais. 
    Os méritos de merecedores por indecências maiores e invisíveis.

    Pra mim, não. Pra mim, não. Abraço os não merecedores.

    O Brasil, meu Brasil criança, é inocente. 
    Ele sabe bradar mas não sabe o que quer.

    Como abraçaria, nos hospitais e padarias, 
    na gaze e no pão e na espera pra ser atendido.

    O Brasil, esta invenção de 8 milhões de quilômetros quadrados,
    com 200 milhões de almas enfiadas necessitadas de abraço,
    para fazerem tudo com elas, menos abraçar.

    O Brasil, meu Brasil criança, 
    milhares de milhares de desamparos 
    violentados com constância e disciplina militar, 
    com a sanha do vício, com a mão fechada da ganância.

    Meu Brasil, meu Brasil, meu Brasil criança, 
    que confronta em si mesmo e que contraria a si mesmo, 
    que quer e não quer e que chora e que ri ao mesmo tempo 
    e que esperneia, como o cão que corre atrás do rabo, 
    como o desenho animado que desfere socos contra a própria cara enquanto o outro já está fora da briga a lhe apalpar os bolsos.

    Abraçaria meu Brasil, nas mulheres e homens que morrerão amanhã, não importa o motivo, violento ou não.

    Naqueles que se acham governados, 
    mas que seguem suas vidas desgovernadas, 
    como sem freios e na ladeira, 
    como sempre foram com este ou aquele governo.

    No fundo, o desamparo não muda,
    o desamparo tem sido o partido único do meu Brasil criança,
    como o desamparo daquele que esperou a justiça, 
    mas morreu antes.

    Nas mães, nas filhas, nas que não têm nem mãe nem pai. 
    Nelas, abraçaria. 
    Nos bichos, nas árvores, na lama, no pó, 
    nas casas e, ao relento, os que foram desabrigados.

    Na riqueza e na pobreza, como nos matrimônios, 
    e abraçaria os noivos.

    Na velhice, o passo lento abraçaria.

    Nos adjetivos e nos substantivos concretos e abstratos, 
    sim, até no que não é de pegar e que não é abraçável
    e nas palavras que foram inventadas aqui nesta terra por anônimos.

    Abraçaria a lágrima,
    as calças sujas, 
    o uniforme puído, pois é o único que tem para trabalhar, 
    o sapato furado.

    No ar, na nuvem.

    Como abraçaria meu Brasil, meu Brasil criança, pátria mãe, nação filha, que não se define por parentescos de primeiro grau.

    Como abraçaria meu Brasil.

  • 28/09/2018

    Federação Nacional dos Jornalistas divulga comunicado contra o fascismo

    O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná divulgou o comunicado da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) a respeito do crescente movimento pró-fascismo no Brasil, manifestado sobretudo pelo clima das eleições e nos posicionamentos de uma das chapas concorrentes.

    Segue a íntegra do comunicado:

    Fascismo emergente exige defesa radical dos valores humanos e da democracia

    A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) não poderia se omitir nesse grave momento da vida do povo brasileiro, no qual há concretas ameaças à democracia. Assim, dirige-se aos/às jornalistas e à sociedade para propor a unidade política necessária à garantia de eleições seguras, democráticas e transparentes e da vitória da democracia sobre o fascismo emergente.

    As ameaças que pairam sobre o país estão consubstanciadas em uma candidatura à Presidência que tenta aqui a atuação de Hitler para impor o nazismo na Alemanha.

    É importante lembrar: há cerca de 33 anos foi derrotada a ditadura civil-militar que vigorou no Brasil do golpe de 1964 até 1985. Durante 21 anos, a ditadura praticou o terrorismo oficial, cometendo crimes de lesa-humanidade.

    O Estado tornou-se agente de sequestros, assassinatos, estupros, ocultação de cadáveres e a prática de indescritíveis métodos de torturas, comandadas por bandidos fardados, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, do DOI-Codi (Oban) de São Paulo.

    Foi, aliás, nos tétricos porões do DOI-Codi, do 2º Exército, que mataram na tortura os jornalistas Luiz Eduardo da Rocha Merlino e Vladimir Herzog.

    Portanto, é extremamente grave que um candidato a presidente da República e seu companheiro de chapa façam apologia da violência e elogiem torturadores como Brilhante Ustra.

    Apesar da violência prometida, de propostas esdrúxulas e ameaçadoras, das mentiras, calúnias e difamações, o candidato consegue enganar e iludir parcela significativa dos eleitores, com seu discurso falsamente moralizante.

    Como é próprio dos fascistas, o candidato a presidente, seu vice e parte de seus seguidores derramam ódio sobre negros, mulheres, homossexuais, índios, pobres, mães, avós, judeus e todos os imigrantes. Nunca se viu, na recente história do Brasil, tanta agressão aos direitos humanos e à própria condição humana. É a chegada da barbárie anunciada.

    Se não bastasse isso, procurando se sobressair entre os demais representantes do neoliberalismo, que também disputam as eleições, o defensor das ditaduras não deixa de entrar num dos relevantes pontos do seu “plano de governo”: “privatizar tudo”. O objetivo é submeter a população à fúria do perverso capital financeiro internacional e das grandes corporações empresariais.

    Diante da insidiosa campanha dos inimigos da democracia na sombria conjuntura atual, a FENAJ cumpre o dever de alertar os/as jornalistas para o cumprimento de seu papel profissional: dar aos cidadãos e cidadãs informações necessárias ao exercício da cidadania.

    Cabe ressaltar que é dever ético dos e das jornalistas opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito; defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias; e combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.

    Assim, a Federação também chama a atenção dos demais atores sociais e das entidades que não aceitam retrocessos para o perigo que ronda a nação brasileira. Queremos estar juntos com as mulheres que vão às ruas no próximo sábado, dia 29, contra o candidato que propõe o medo como estratégia e a morte como solução.

    Chamamos todos e todas, jornalistas ou não, a mostrar nossa humanidade: somos defensores da vida, da solidariedade e da paz. Repudiamos a estratégia agressiva de quem pensa combater a violência com violência maior.

    Nós fortalecemos a cooperação entre homens e mulheres, valorizando a vida e a liberdade, longe do preconceito e do ódio. Não toleramos o fascismo, em toda e qualquer forma de sua manifestação, e todos os regimes e comportamentos contrários ao avanço da humanidade.

    Brasília, 27 de setembro de 2018.

    Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ.

  • 26/09/2018

    Como publicar uma imagem de tortura: não publique

     CC0 Public Domain

    Então um dos filhos do canditado líder das pesquisas (aquele que perde em todos os cenários de segundo turno) resolveu ironizar uma imagem criada por um usuário do Instagram: @ronaldocreative.

    A imagem traz o próprio autor, Ronaldo, ensanguentado, com a cabeça dentro de um saco plástico e com a boca aberta, em agonia.

    No peito do torturado, a tag #ELENAO.

    Provavelmente, @ronaldocreative critica aquilo que acredita que seria um possível cenário para as vozes discordantes, no caso da vitória do candidato que atende pelo número 17.

    Acontece que o filho do político, ao replicar a imagem em seu próprio perfil, sem uma contextualização, dá a entender que é algo que sua família aprova, algo que considera bom.

    Na verdade, mesmo com uma contextualização do motivo da republicação da imagem, seria pouco recomendável esse procedimento de comunicação. Sobretudo pelo o modo como a família de candidatos é facilmente associada ao termo "tortura".

    Algo que, inclusive, cultivam com gosto.

    Agora, por mais que explique que focinho de porco não é tomada, deu-se um prato cheio para os adversários.

    E está formada mais uma crise na campanha que já vem capengando apesar de ainda manter a dianteira.

    Uma situação que por um lado alimenta o lado sádico de uma parcela de seus eleitores e, por outro, que afasta ainda mais os não tão decididos assim.

    Espero que nenhum filho do candidato leve um couro por causa dessa peraltice.

  • 25/09/2018

    Quantos acidentes poderiam ter sido evitados

    Segundo o editorial do portal O Globo de hoje, essa história de ficar dizendo que há risco de golpe coloca em risco a democracia. 

    E eu achando que o que colocava em risco a democracia era, justamente, a existência concreta do risco de golpe.

    Quer dizer que acreditar que a nitroglicerina pode explodir é justamente o que faz crescer o risco de a nitroglicerina explodir?

    Então, se a gente não acreditar no risco de a nitroglicerina explodir, ela não explode?

    Quantos acidentes poderiam ter sido evitados e quanto já se gastou à toa em segurança e treinamento para manuseio de explosivos... E pensar que é só não se estar vigilante ao que acontece com esse tipo de material.

    A democracia está segura: é só ignorar a possibilidade - concreta ou não - de um golpe.

  • 25/09/2018

    A bolha é real: a percepção do eleitor a partir das mídias sociais

    Bolhas costumam estourar e desaparecer para sempre. Foto: CC0 Public Domain

    Depois da última pesquisa Ibope, fui dar uma olhada nos portais de notícia que a divulgavam.

    Não tanto pela notícia em si, mas para ler os comentários.

    Sim, jornalistas têm esse hábito de se torturar.

    O que pude observar é que diversos eleitores, principalmente os mais ferrenhos defensores de Bolsonaro, estão com uma percepção distorcida da distribuição dos votos:

    "Como assim, apenas 28%? Todos os meus amigos vão votar nele!", dizia um.

    Mais abaixo, outro tentava contemporizar:

    "Calma, amigo, seus amigos não são o Brasil."

    De fato, temos a tendência de imaginar - mesmo aqueles que de vez em quando erguem o olhar da tela do celular e olham em volta - que todos são como nós.

    Tanto mais se aqueles mais próximos confirmam essa crença.

    Quando eu era criança, estranhei quando fui na casa de um amigo e descobri que os avós dele viviam em outra cidade: os meus viviam no mesmo terreno que eu.

    E eu demorei a entender que isso era uma situação exclusiva da minha vida e a vida de meu coleguinha provavelmente era bem diferente.

    Assim, imaginar que o mundo é parecido conosco e reproduz nossas formas de pensar, baseando-se naquilo que vemos ao nosso redor, é um pensamento infantil.

    Alguém que vive num lugar em que só se usam camisas azuis, se viajar para um lugar onde só se usam camisas rosa, vai achar que aquele povo é, no mínimo, estranho.

    O que ele dirá se ele descobrir que o seu vizinho, em quem ele nunca tinha reparado, usa camisa rosa?

    Se eu fosse basear minha opinião a respeito das eleições a partir do que vejo no Facebook (o que seria estupidez), Haddad ou Ciro ganhariam no primeiro turno.

    As mídias sociais nos reduzem a uma percepção infantil do mundo.

    Acreditar na realidade como uma reprodução de nossa verdade próxima, aquela que nos cerca mais imediatamente, é a receita para se decepcionar, para se frustrar e, finalmente, sentir raiva e ódio.

    Sobretudo do que nos é diverso.

    E, assim, já estou ouvindo choro e ranger de dentes. De lado a lado.

    De fato, tenho visto muitos eleitores de Bolsonaro acreditando na possibilidade de vitória no primeiro turno para o seu candidato: sim porque suas timelines, provavelmente, trazem apenas mensagens favoráveis a esse candidato.

    E, se assim não for, certamente as urnas eletrônicas "bolivarianas" terão sido fraudadas com o "chip venezuelano", ou seja lá qual for a fake news em que decidirem acreditar.

    (Nota mental: post sobre as fake news como alívio à dissonância cognitiva)

    Minha mãe, nos seus setenta e pouquinhos anos, confessou-me estar chateada porque na sua linha do tempo do Facebook só apareciam pessoas favoráveis ao candidato militar: "Essa gente jovem de cinquenta anos não sabe o que foi a ditadura..."

    Eu tive que lhe explicar que essa é uma percepção que ela tinha a partir das pessoas que seguia.

    Era uma bolha.

    Na minha bolha, por exemplo, qualquer candidato ganha, menos o defensor da tortura. Isso não é o suficiente, no entanto, para me fazer deixar de crer que esse risco é real.

    E uma coisa sobre bolhas é que elas estouram a qualquer momento, sempre.

    E, depois, é como se nunca tivessem existido. 

     

  • 21/09/2018

    Bradock a favor da descriminalização do aborto

    Aquele momento em que você está pesquisando as opiniões dos candidatos a Deputado Federal paranaenses no site da concorrência (Gazeta do Povo) e faz uma descoberta meio desconcertante e surpreendente.

    O candidato Delegado Bradock (PSL) é um dos que defende a descriminalização do aborto.

    Bradock - ou Mario Sergio Zacheski - ficou conhecido pelos trajes militares trajava até mesmo nas sessões da Assembleia Legislativa do Paraná, que frequentou como Deputado Estadual. Apesar de civil.

    Também conhecido pelas opiniões fortes, para sermos brandos, e por ser, supostamente, "linha dura".

    E um tanto folclórico, por causa disso tudo.

    Claro que, no mais, nada de novo no front no que diz respeito a um candidato do partido do inominável: a favor do porte de armas, contra a união homoafetiva etc.

    Dos 232, de um total 450 candidatos a Deputado Federal no Paraná, que responderam à pesquisa, outros 51, além do delegado, se manifestaram a favor da descriminalização do aborto.

  • 21/09/2018

    Por que escolhi Ciro com todos os seus defeitos e qualidades

    Antes de mais nada, preciso dizer o óbvio: este é um blog, um espaço de opinião e até, mais especificamente que isso, de posicionamento pessoal. 

    Assim sendo, a opinião deste que vos escreve não necessariamente é a mesma deste veículo.

    Essa ressalva é necessária já no início do texto, pois estamos em épocas em que todos nós temos uma leitura e uma interpretação prejudicada, a tal ponto, que nos fazem incapazes de entender os contextos, as formas e mesmo os conteúdos da comunicação, o que seria o básico para começarmos um diálogo civilizado.

    Certamente viriam aqui aqueles que diriam que detestaram a "matéria", que a "reportagem" foi escrita pelo estagiário e outras bobagens. Não diria que isto aqui sequer é um "artigo", mas tão somente um "post" de um blog.

    Pode chamar de bobagem, se quiser. Sério, não me importo.

    Não é nossa culpa que as coisas sejam assim, mas de um sistema de ensino que permitiu que muitos de nós acreditassem que a ditadura foi branda (ou até mesmo que ela não existiu) e que torturadores são heróis.

    Assim, depois desse monótono mas necessário prolegômeno, o blogueiro gostaria de fazer sua declaração de voto.

    Por que escolhi Ciro com todos os seus defeitos e qualidade e apesar de não me identificar com este ou aquele partido que seja:

    A retomada do crescimento do País - em todos os âmbitos (social, econômico, cultural, científico) - não deve acontecer no curto e no médio prazo, não importa o governo. Não importa o eleito. 

    Não há milagre.

    Em uma situação de intensa má vontade da oposição, isso se agravaria, como vimos nos últimos meses do governo Dilma.

    O PT, em tal situação, estaria em maus lençóis, mais do que já está.

    Em vez de soluções, há o possível agravamento da crise política.

    Ao mesmo tempo, a vitória do partido de Lula acirraria o clima de ódio e ressentimento que o advento daquele candidato que não mencionamos proporcionou: o candidato do PSL abriu a porteira para muita coisa ruim que estava recalcada no imaginário e na realidade social brasileira.

    De repente, se tornou normal ter ódio e as pessoas estão odiando abraçadas.

    De repente, se tornou aceitável exaltar torturadores e honrar criminosos da ditadura.

    De repente, é ok ser racista, homofóbico, machista e o que mais vier.

    Esse ódio seria represado com a vitória de Haddad, porém não dissipado.

    Ciro, neste momento e em minha opinião, teria fluidez política suficiente para um período de transição e uma maior aceitação popular ou, ao menos, uma menor rejeição.

    Haveria espaço para uma despolarização.

    Isso até o retorno de um equilíbrio de forças, quando a esquerda de fato se reagrupe, se organize, e mesmo a direita alinhe seus discursos.

    E para que, nesse meio tempo, o fantasma fascista se afaste e volte para de onde não deveria ter saído.

  • 20/09/2018

    O perigo dos amores oficiais pela terra natal

    O amor pela terra natal é algo complexo.

    Muito mais completo, terno e decepcionante do que querem nos fazer crer os inventores dos amores oficiais pela terra natal.

    A ponto de ser rejeitado onde os amores oficiais vigoram.

    E, por isso, é comum a resposta através do discurso do ódio a qualquer manifestação de decepção com a terra natal.

    A decepção pode fazer parte de um amor. Podemos nos decepcionar e continuar amando.

    Quem ama é capaz de amar mesmo com elas, as decepções.

    Mas elas, as decepções, não são aceitas pelos amores oficiais.

    Em seu livro Desperta e Lê, Fernando Savater fala de um quadro de Vermeer.

    Nele, o pintor holandês retrata a cidade em que nasceu, Delft, na Holanda.

    Seria ridiculamente pretensioso de minha parte (…) oferecer uma nova chave conjectural da tranqüila maravilha que nos fascina nessa tela. Certas coisas é preciso ver. E basta vê-las. Apesar de que, se algum amável impertinente me perguntar, sussurrarei que Vermeer soube pintar a terra natal. Não simplesmente sua terra natal, mas a emoção da terra natal em si mesma, a dele, a minha, a de todos. O cenário da infância, o rincão insubstituível em que a vida se manifestou para nós. Algo simples, terrível como a fatalidade, feito de gozo, de rotina e de lágrimas.

    Veja a pintura de que ele fala:

    Savater só precisou da observação atenta a um quadro e de alguns parágrafos para expressar em um parágrafo a minha apreensão nesse momento de nacionalismos exaltados em que vive o Brasil há três talvez quatro anos:

    A habilidade do artista não se contenta em reproduzir uma paisagem, mas o suave carinho que sua contemplação desperta em nós (…). E essa emoção nada tem a ver com as contendas políticas nem com o orgulho pratiótico. O ruim do nacionalismo – uma das coisas ruins, porque ele tem muitas – é que ele transforma a melancólica afeição pela terra natal em justificação de um projeto institucional que não sabe se justificar de outro modo. Quer degradar uma forma de amor a documento nacional de identidade.

    E continua:

    Pior ainda: a visão nacionalista não aceita a terra natal tal como ela é, em sua limitação e sua impureza reais, mas exige seu referendo a partir de um ideal passado ou futuro que extirpe dela o que não se ajusta ao plano preconcebido. O nacionalista não vê nem ama o que há, mas calcula o que sobra ou o que falta ao que de fato existe.

    Creio que minha apreensão, derivava de imaginar que o Brasil pudesse sequer se tornar terreno fértil para qualquer projeto do gênero.

    Exagero meu, desconfio, mas não consigo evitar de elocubrar o que um projeto nacionalista desse tipo desejaria extirpar para que o país se ajustasse a um plano preconcebido de um passado ou futuro supostamente ideal.

    E tremo ao lembrar do tipo de passado, mais ou menos recente, de que alguns candidatos a presidência falam.

DESTAQUES DOS EDITORES