Tribuna Livre

Na Câmara, pesquisador defende medidas restritivas contra a Covid-19

Lucas Ferrante: “Para todo esse mês [de junho] é esperado um aumento do número de casos”
Lucas Ferrante: “Para todo esse mês [de junho] é esperado um aumento do número de casos” (Foto: Rodrigo Fonseca/CMC)

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Lucas Ferrante, afirmou hoje em participação na Tribuna Livre da Câmara Municipal de Curitiba, que as medidas restritivas ao funcionamento do comércio e outras atividades para conter o aumento do número de casos da Covid-19 ainda são necessárias por causa da lentidão da vacinação contra a doença. Esta foi a segunda vez que ele esteve na Câmara para apresentar estudos relacionados à pandemia da covid-19 feitos sob sua coordenação, por uma equipe de pesquisadores de quatro instituições federais – INPA, UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei).

“Para todo esse mês [de junho] é esperado um aumento do número de casos”, alertou ele, que é biólogo e doutorando em Biologia pelo INPA e foi o primeiro autor de uma publicação na revista Science, que avisou sobre a ausência de eficácia do tratamento precoce e sua periculosidade, necessidade de fechamento dos transportes intermunicipal e interestadual para conter a pandemia no Amazonas e a classificação dos povos indígenas como grupo de risco da covid-19. Também assina publicação de agosto de 2020 na Nature Medicine, que apontou que Manaus vivenciaria uma segunda onda da doença.

O pesquisador retornou ao Legislativo hoje a convite de Renato Freitas (PT). Ele frisou que há uma tendência de aumento de casos da covid-19 para junho e julho, com aumento drástico taxa de óbitos no início do próximo mês, “chegando a um pico de mais de 40 óbitos diários”. “A situação não tende a não chegar nos limiares de março e abril, mas qualquer afrouxamento, nesse momento, pode ampliar esta projeção de óbitos”, analisou.

O pesquisador comentou que a recomendação da nota técnica apresentada há três meses na Câmara – que apontou a necessidade de um lockdown com isolamento superior a 90% para evitar uma projeção de 90 a 100 óbitos por dia na capital – foi parcialmente adotada pela prefeitura de Curitiba, já que as medidas mantiveram uma taxa de mobilidade urbana entre 40 e 50%, com “picos de 60%”, e não em 90%, como o ideal. “O modelo de lockdown adotado freou os óbitos em mais da metade: se reduziu a mortalidade diária que era projetada para 90, para 40 óbitos diários. Isso, sem dúvida nenhuma, salvou mais de 1.500 vidas. [Nesse ponto] o isolamento foi extremamente eficiente”, apontou.

Para evitar que a cidade volte a contabilizar em média 40 mortes diárias em decorrência da covid-19, conforme o estudo apresentado hoje, Lucas Ferrante voltou a recomendar medidas mais restritivas, “até em âmbito estadual”. “Um lockdown de fato, restringindo a mobilidade urbana em até 80%”, assegurou. “A taxa de vacinação em Curitiba foi considerada para o estudo. A vacinação em Curitiba, como em todo o Brasil, ainda é muito pequena. Se hoje fazem necessário as medidas restritivas, é justamente porque a vacinação está muito lenta”, argumentou.

Com relação às aulas presenciais, o convidado orientou que o retorno híbrido ou presencial só será seguro apenas quando a vacinação atingir 90% da população, incluindo os jovens menores de 18 anos. “Estudo feito com medidas restritivas aplicadas em 41 países revela que o fechamento de escolas e universidades é a segunda medida mais eficiente para frear a transmissão comunitária do coronavírus, inclusive mais eficiente do que fechar as atividades não essenciais. Mostra claramente que as escolas não podem abrir antes do avanço massivo da vacinação”, defendeu.

Sequelas - Após destacar que se a cidade ignorar as recomendações da pesquisa, haverá um aumento do colapso da saúde; um aumento expressivo de mortes; um aumento expressivo de sequelados; e o surgimento de uma nova variante, com possibilidade de ser resistente às vacinas, o biólogo respondeu dúvidas dos vereadores sobre os dados apresentados. Questionado por Maria Leticia (PV) sobre a segurança na vacinação para crianças, que já está ocorrendo nos EUA, o pesquisador informou que no Brasil, até que a vacinação atinja esta faixa etária, é possível que já se tenham mais dados sobre os riscos da imunização.

“Aqui em Curitiba a gente está nesse vai e vem de bandeira vermelha e bandeira laranja, o que pune muito os comerciantes, os cidadãos. Agora estamos com 102% dos leitos de UTI ocupados e retornando à bandeira laranja; e daqui a pouco a gente volta de novo a uma necessidade de fechamento [da cidade], que não é total”, observou Carol Dartora (PT), antes de pedir à Ferrante sua análise sobre esse cenário. Segundo ele, o “fenômeno gangorra” tem impacto negativo na economia maior do que a adoção de um lockdown rígido. “Um estudo do MIT [Massachusetts Institute of Technology] que avaliou outras pandemias, mostrou que localidades que aplicaram isolamento social mais rígido tiveram retorno precoce das atividades econômicas.”

A Dalton Borba (PDT) e Noemia Rocha (MDB) que indagaram sobre se medidas restritivas mais eficientes teriam menor impacto na economia, o convidado respondeu que o isolamento social mais rígido propicia um controle da pandemia por mais tempo, pois a pandemia está ativa, “não estamos chegando no final”. “Quando se relaxa as medidas, sem controle da pandemia, nitidamente em poucas semanas acontece um recrudescimento do número de casos”, completou. Já a Professora Josete (PT), que perguntou sobre estudos que comprovem “que a partir de 7 dias não há mais transmissão” do vírus, ele explicou que existem pesquisas que apontam que uma pessoa pode ficar “ativa” por até 20 dias. “O tempo é variável e depende de organismo para organismo”.