Golpe de 64

Presidente da Assembleia Legislativa rechaça homenagem à ditadura militar

Traiano: presidente da Assembleia leu trecho de discurso em que Ulisses Guimarães disse que os brasileiros tinham "ódio e nojo" da ditadura
Traiano: presidente da Assembleia leu trecho de discurso em que Ulisses Guimarães disse que os brasileiros tinham "ódio e nojo" da ditadura (Foto: Dálie Felberg/Alep)

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ademar Traiano (PSDB) rechaçou hoje a tentativa do deputado Ricardo Arruda (PSL), de fazer uma homenagem à ditadura militar, em memória aos 57 anos do golpe de 64, no último dia 31 de março. Na semana passada, a Assembleia aprovou a realização de um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do governo militar, proposta pelo deputado Goura (PDT).

Arruda, então, propôs na segunda-feira outro minuto de silêncio, desta vez em homenagem aos militares que ele diz terem sido vítimas de movimentos de esquerda durante o governo de exceção. No mesmo dia, ele elogiou o golpe de 64, afirmando que nunca houve ditadura no Brasil. “Nunca houve ditadura no Brasil. O que houve foi o regime militar que tomou o poder a pedido da grande maioria da população”, alegou o parlamentar do PSL.

Segundo ele, os brasileiros viviam muito bem durante o governo militar. “Quem vivia mal era quem merecia viver mal. Os guerrilheiros, bandidos, comunistas, que queriam dar o golpe”, afirmou.

Arruda admitiu que houve tortura e mortes durante esses governos, mas alegou que elas teriam ocorrido “em ambos os lados”. “Vivíamos uma guerra naquela época. Tiveram pessoas mortas de ambos os lados. Tiveram pessoas torturadas de ambos os lados”, justificou. “Não tinha censura nenhuma. Tínhamos plena liberdade na rua. Quem não tinha liberdade eram os bandidos, como não devem ter em nenhum lugar do mundo. Lugar de bandido é levando pau, tiro e cadeia”, defendeu.

Na sessão de hoje, Arruda voltou a cobrar de Traiano um minuto de silêncio em homenagem aos militares. “Não esquecer no final dessa sessão plenária fazer um minuto de silêncio a todas as vítimas a todos os militares que foram assassinados durante o regime militar. Militares heróis que estavam defendendo o Brasil e a democracia”, disse.

Traiano, porém, rejeitou o pedido. “Eu, como presidente da Casa, e discutindo com os demais pares, nós entendemos que a ditadura deixou marcas em toda a sociedade brasileira. Foram líderes estudantis, jornalistas e militares que acabaram sendo vítimas da ditadura. Portanto, nós entendemos que o pedido feito pelo deputado Goura de um minuto de silêncio já contempla todas as vítimas da ditadura. Não há razão para que a gente venha novamente solicitar, depois de 40 anos, um minuto de silêncio para os militares. Tanto é que militares foram vítimas da ditadura também”, afirmou o presidente do Legislativo.

Arruda insistiu. “Quando o deputado Goura pediu um minuto de silêncio, ele não pediu para nenhum militar morto. Foi feito um minuto para os outros, os guerrilheiros que mataram os militares”, argumentou. “O deputado Goura pode não ter solicitado, mas essa presidência entende que ao tempo em que nós fizemos um minuto de silêncio todos estão sendo contemplados vítimas da ditadura. Inclusive eu tenho um primo-irmão menino muito jovem que morreu no período da ditadura como líder estudantil. Considero que isso vale também para o meu primo que até hoje não se sabe como ele desapareceu”, respondeu Traiano.

No final da sessão, o presidente da Assembleia fez questão de deixar clara a sua posição sobre o assunto, lendo um trecho do discurso do deputado federal Ulisses Guimarães (PMDB), na promulgação da Constituição Federal de 1988.

“Como eu tenho visto muitos dos parlamentares levantando questões em relação à ditadura, ao momento crítico que até estamos vivendo nesse período da pandemia, discursos inflamados, parlamentares dizendo que há hoje um comando que possa estar no contraponto do que pensa a sociedade brasileira – o que é da democracia – eu quero lembrar o nosso grande estadista sempre lembrado por todos os brasileiros, deputado Ulisses Guimarães quando da promulgação da Constituição de 1988. Em um momento em que ele usou toda a sua experiência e acima de tudo, liderança perante o povo brasileiro”, explicou Traiano, para em seguida ler os trechos abaixo:

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a
reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio, o cemitério”. (...) “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina”.

“Eu acho que isso serve como uma boa reflexão para todos nesse momento”, conclui o presidente da Assembleia.