• Poemas de Rodrigo Madeira

    Baldio, e o êxtase contemplativo

    Baldio, e o êxtase contemplativo
    (Foto: Reprodução)

    Texto por Marco Aurélio de Souza

    Rodrigo Madeira é natural de Foz do Iguaçu, mas vive em Curitiba desde 1992. Publicado em parceria pelas editoras Kotter Editorial e Ateliê Editorial, Baldio (2018) é seu terceiro livro de poemas. Para além de sua bela edição, com arte de capa assinada pelo saudoso (e também poeta) Marcelo D’Angelis, o livro impressiona pela quantidade de poemas: são mais de setenta, reunidos num volume que, conforme subtítulo, passa em revista uma produção poética de quase uma década (2009-2017).

    Desde o ponto de vista de quem criou grandes expectativas à leitura de Pássaro ruim, segundo livro do autor, este Baldio apresenta um poeta ainda mais maduro, consciente de seus recursos, afiado em suas imagens – sua trajetória poética oferece uma série de lições sobre o que podemos chamar de uma construção da voz: embora jovem, Madeira é poeta já formado, quer dizer, o autor apresenta um conjunto de assinaturas que auxiliam o leitor no mapeamento de sua linguagem (as veias de sua poética saltam aos olhos como se em busca de algo que existe fora do corpo). Aqui, porém, o poeta não nos oferece a mesma perambulação suja pelas travessas curitibanas, nem mesmo uma balada para o catador de papel, mas seu universo lírico continua colado àquilo que assusta aos adeptos da gentrificação, passeia entre os insetos, fita nos olhos do revólver carregado.

    A erudição do poeta, porém, está mais evidente do que nunca. O intertexto marca fundo a pele de seu livro, muitos poemas dialogam com outros poetas, oferecidos a seus contemporâneos ou aos mestres que latejam dentro de sua garganta. Há peças borgeanas, poemas para Paul Klee, Kazuo Ohno e Chet Baker – trata-se de um livro denso, é evidente, melhor fruído por quem guarda alguma biblioteca à cabeça. Prova de sua habilidade na esgrima da palavra, em certos momentos, o poeta não apenas dialoga com os gigantes de sua arte como ousa escrever à língua de seus interlocutores: em “federico”, Rodrigo Madeira exercita o espanhol, em “cum(mings)”, vaza seu texto em inglês – seu verdadeiro alvo, porém, vai sempre ali, no latim das moscas.

    Em que pese a erudição mencionada, seu mesclado entre alta cultura e arranjos sebosos guarda momentos de simples êxtase contemplativo. Seu lirismo escorre daquilo que vai entre o belo e o patético, o afável e o grotesco, encontrando no capim ao entorno de uma igrejinha abandonada o prazer da existência que outros, com pálpebras mais grossas e vadias, não conseguem ver senão como um erro de programação. E como não amar a poesia que sussurra em sua mente que “o dia é apenas/a pálpebra da estrela”?

    Em outra oportunidade, o autor deste livro nos confessou ser o assassino de Paulo Leminski, afirmando com isso uma estatura própria, que somente o poeta verdadeiro alcança. Nem precisava dizer. Sua poesia guarda uma dicção pessoal que, é evidente, só se erige ao sabor acre de uma morte carregada: gesto de quem sabe da impossibilidade de habitar qualquer outro lugar que não o interstício, o vão e o baldio. Pelo pus que vaza de seus poemas, pela ferrugem em seus olhos de pedra, pelos insetos que o rodeiam como se próceres da natureza, por tudo isso e mais, Rodrigo Madeira encontra um lugar à mesa dos que praticam versos como quem assume uma profissão de fé na eternidade: dança em palavras como varejeira colorida bebericando insuspeita pelos bebedouros do tempo.

    [Baldio, Rodrigo Madeira – Kotter Editorial, 2018]

  • O poeta de Racho de Romã e Água Mineral, Rollo de Resende segundo Adriano Smaniotto

    Poesia em Curitiba é artefato raro e de qualidade. Invisível, mas nem por isso inexistente. Não que não haja um circuito: entre os poetas que sobrevivem ao olvido há um certo capital cultural, por meio do qual autores, obras e eventos resistem à velha autofagia arraigada na Província. Difícil fazer e divulgar poesia entre os locais, tarefa que se resume ao conluio entre os pares. Muitos sequer se tornam conhecidos numa amplitude maior, devido às circunstâncias nem sempre lógicas que regem os prestígios e desafetos. Esta sina fica mais evidente quando olhamos para a poesia feita na década de 1990, cuja figura leminskiana, não sem mérito, sobranceia os demais autores. Dentre estes, urge destacar a poética de Rollo de Resende (1965–1995), que escreveu, publicou, ensinou poesia e muita gente daqui e de outras terras sequer o conheceu.

    Reginaldo Possetti de Resende nasceu em Cambará, norte do Paraná, no dia 15 de agosto de 1965. Leonino com ascendente em Gêmeos, “lua cruel em Peixes” – segundo o próprio.

    Seu gosto pela poesia foi despertado na adolescência, ainda na cidade natal, num grupo de 14 alunos que viviam “na cola das escolas literárias e de seus representantes”.
    Segundo a mini-biografia, presente no livro “Água Mineral”, não passou em dois vestibulares, “porque na hora da redação escrevia poesias”.
    Em Curitiba, ganhou a alcunha carinhosa de “Rollo”, devido à semelhança, principalmente o cabelo, com o personagem da Turma da Mônica, de Maurício de Souza. O cabelo encaracolado e a barba rala por fazer eram-lhes comuns. Além de poeta, Rollo também gostava de panificar, de cantar (blues) e de pintar. Na sua liberdade e atitudes, antecipava muito da irreverência e ousadia hoje em voga. Assumia seu homossexualismo, numa época em que tal orientação sexual era considerada uma perversão, uma doença, um mal. Ligado às questões místicas, se investia delas e de coisas do cotidiano para compor.
    O artista gostava de transitar na Rua XV, flertando e colhendo poesia: “as florinhas roxas do poejo./ a quem agradeço os poemas que me interpelam?/ enquanto
    cozinho, um convite/ para santificar-se/ à noite, desço a XV. / Abordo em bom tom e posso vir a embarcar. / Falsifico a pressa. /Estou caçando.” (Água Mineral, p. 51)
    De fato, Rollo permite que aspectos urbanos influenciem seus versos, de modo que ruas famosas da capital, como a própria rua XV, aparecem em várias de suas
    composições, como uma trajetória pertinente ao poeta. Muito do que ele via ao longo da XV, em seus passeios com Stella (a irmã) ou com sua psicóloga – “A companheira de viagens e vigílias” – tornava-se matéria de poesia, receita que em nossa geração ficou marcada: “no meu bolso/ o menor papel/ onde se lê/ um endereço/ escrito pela bic/ da vendedora de/ cachorros-quentes./ coisas que só de noite./ correr o mundo/ e acabar sempre/ passando pela XV.” (idem, p. 20)
    Sua trajetória poética foi breve, porém intensa. E a revelação, repentina, através do Concurso Helena Kolody – iniciado em 1980. Inscrito no certame, Rollo passou a ser
    classificado com frequência, quase sempre com mais de um conjunto de poemas publicados nas Antologias. (O concurso exigia um mínimo de três poemas de cada
    autor; Rollo muitas vezes era escolhido com nove deles.)
    Esta presença na Antologia do Concurso era exemplo para os poetas de sua geração, como Jane Bodnar, Stella de Resende (sua irmã), entre outros; bem como paraos novos que viam na sua poesia um misto de erudição e liberdade, de lirismo e sensibilidade, seriedade, descompromisso e atualidade que traduzia muito do que vivíamos.

    “Naquele início de décadas fomos versáteis e ecléticos”, anunciava Rollo em um de seus poemas, ressaltando um paradigma que hoje permite definir a aura dos anos 1990.

    Foi inclusive, por meio de um amigo de geração e poesia, Márcio Davie Claudino, que travei contato com seus poemas, que logo me cativaram. Nós, Patrícia Claudino, Márcio Claudino, David Nadakini, Fernando Koproski e eu – o grupo Intervenção – volta e meia éramos surpreendidos por um poema de Rollo, publicado na tipografia da Feira do Poeta, à época, 1993, sob os cuidados de Nivaldo Lopes (o ‘Palito’) e Marcos Saboia, os quais nos incentivaram na formação do grupo, na escrita da própria poesia e na descoberta da tradição paranaense. Rollo era então pra nós, ao lado de outros, como Marcos Prado, Jaques Brand, Thadeu Wojciechowski, Batista de
    Pilar, Alice Ruiz, Ricardo Corona, referências de poetas já maduros e proficientes, cume que ansiávamos galgar.
    Lembro-me de que Márcio decorou o poema de Rollo sobre a madrugada boêmia pela XV, e cada vez que ele declamava era a nossa realidade que estava ali:


    “Pela madrugada o vento levantando papéis-carbono/ pela madrugada, alguém enfiando uma argola em seu mamilo/ (...) de madrugada, tomamos o expresso e vimos/
    uns outros tantos, entornando vômitos./ (...) ilustres anônimos: a madrugada é nossa!/ podemos ir cantando alto.”


    Isso que Rollo registrava era a nossa realidade, pois ainda não era tempo de piercings e tatuagens serem bem-vindos e comuns, tampouco as liberdades estavam
    garantidas e amparadas pela câmera de um smart phone; assim ele traduzia em parte o que era ser jovem numa cidade ainda apagada artística e culturalmente, diante do eixo Rio-São Paulo: beber pelo Largo da Ordem, apanhar da polícia, cruzar com punks e darks, encarnar a boemia da poesia e vice-versa.
    O poeta estréia em 1988 com o livro “Bem Que Se Aviste Racho de Romã”, 21 poemas marcados pela ausência de títulos, de rimas e de estrofes metrificadas, bem ao
    gosto modernista. Por esses aspectos, mais o uso de minúsculas (à Cummings) e a abordagem temática breve, sua poesia possui pontos de contato com a poesia do
    fragmento, pautada pelo crítico Benedito Nunes. Em seguida, em 1991, publicou em página dupla no jornal “Nicolau”, alguns poemas sob o título de A Sublime Deriva.

    Com Jane Sprenger Bodnar e Fernando Zanella, em 1992, compôs o projeto Homeopoética, que consistia em poemas curtos publicados em cápsulas, no afã de
    divulgar poesia em doses homeopáticas. Paralelamente, ministrava oficinas poéticas e atuava no grupo Baú de Signos, com as parcerias já mencionadas e Hélio Leites, dos
    inolvidáveis botões...
    Em 1995, o livro “Água Mineral” reuniu inéditos, dispersos e alguns poemas antigos, cujo lançamento contou com a presença de Rollo, já um tanto abatido pelos
    efeitos da AIDS, doença que o levaria à morte. Nesse sentido, o artista foi um exemplo local desta síndrome que marcou os anos 1980 e 1990 e arrastou consigo artistas
    nacionais e internacionais, tais como Freddy Mercury, Cazuza, Renato Russo.

    SOBRE A POESIA RESENDIANA


    De início, o que me fascinou na poesia de Rollo era a ausência de títulos e letras maiúsculas nos poemas, como se aquilo fosse um aparte, um pedaço, um flash do
    cotidiano, algo para se completar. Havia muita influência da poesia marginal em sua poesia (Cacaso, Chico Alvim, Leminski). Parecia que naqueles poemas breves sobre o
    cotidiano se revelava a essência da poesia: “qualquer revelação mínima/ é uma revelação do mundo”.
    Era interessante ver como objetos cotidianos, muitas vezes desprezíveis, tornavam-se importantes: “preciso de um calendário/ uma caderneta/ comprar sal grosso/ linha branca/ encontrar pelo chão/ clips/ botões/ lascas de unhas, fios de cabelo/ para que a poesia/ arma zen/ aconteça.” (V Antologia do Concurso Helena Kolody de Poesia, p. 87).
    Rollo também fazia muitas referências à palavra e ao livro, como “seres” mais que instrumentos que o inspiravam, uma vez que era leitor apaixonado e também ministrava oficinas de poesia: “Encontrá-los empoeirados/ habitando uma sala em promoção/ esses livros. Poder enfim lê-los/ porque até então/ era ouvir falar, ouvir falar (...)”.


    Dessa forma, para nós, sua poesia era também um incentivo ao conhecimento, à leitura. E talvez seja um seu aspecto notável, mostrar como um poeta se faz, se constrói
    literariamente. Suas brincadeiras com a linguagem eram relevantes, pois atentava para a sutileza e beleza que cada vocábulo carrega, descobrindo-as e ressignificando-as: “(...)
    maizena vem de maíz, não lhe parece?/ Thais Thá é algo assim como Gilberto Gil, só que mais ao sul do alfabeto”.

    Outra: “ele entorta a boca para melhor morder sua gengiva/ (...) / ele gosta de papéis/ sinais vindos/ do céu e palavras.// ele aviva.” Ou ainda: “(...) então rendo graças a esses objetos/ que agora me deixam:/ a colher de pau (...)/ a panela de barro (...)/ a mochila que devolvo ao tião, esgarçada/ tudo isto/ transformava-se/ no livro/ que
    não é// me livro.”


    O lirismo sentimental, sensível e terno, assinala igualmente sua poesia. Rollo apreende com ternura certas situações e as registra de forma leve e tocante. É assim no
    trajeto citadino: “todos os dias/ refaço a mesma rua,/ nostálgico./ quero encontrar/ de quem arrancaram-me./ vivo imantado”. (Água Mineral, p. 59)
    Ou a surpresa dos encontros: “pode ter saído de um romance de Pasolini (um dos seus ragazzi de vita) ou de um poema de Konstantinos Kaváfis// mas não,/ veio a
    mim aqui mesmo do lado de fora da vida/ e mais,/ na verdade iria ao encontro de qualquer um.” (Idem, p. 60)


    Ou mesmo diante da morte que o aguardava: “anjo em guarda/ nenhuma haste tua/ que me absolva// deixa supor/ que nos salvaremos/depois// na hora/do poço/ do
    elevador.” (Idem, p. 68)


    Aspecto relevante é a presença lírica no tratamento da temática homossexual. O poema Nunca Irei Escrever Alguns Poemas, feito para o companheiro vitimado pela Aids, é um nítido exemplo:
    entrava luz sinistra fim de tarde/ [...] tudo viu este que entrou/ o quarto branco para dois/ tocou a mão amarrada/ e a mão se amarrou/ (...) coberto com lençol pastel/
    o doce relevo de seu sexo eu não pude deixar de desejá-lo/ mesmo as amarras o caninho/ os olhos indo e vindo/ a luz sinistra/ você estava desejável;/ eu quis que você
    vivesse./ esta era a promessa de nossa amizade:/ um dia eu iria tocá-lo. // amor dos homens.
    O amor que sublima a morte, o sentimento que se prolonga para além da vida, marca esse “amor dos homens”, verso plurissignificante e sublime.
    Por força de tempo e espaço, despeço-me do leitor e do bardo, saudoso daquela triste tarde no Hospital do Trabalhador em que eu e Márcio Claudino fomos visitá-lo.
    Ao ver-nos adentrar seu quarto, Rollo exclamou “– Baco!”, provavelmente pelo aspecto atlético de Márcio, alcunha com que o trato até hoje em memória afetuosa daquele
    evento.

    “NAS ÚLTIMAS RESERVAS”

    Também naquele hora, ao vê-lo com tantas manchas roxas pelo corpo, não pude deixar de lembrar de seus versos: “estou nas últimas reservas das sementes/ (...) eu
    adquiri uma alma violácea neste cansaço”.


    Ali um de nossos mentores culturais nos dizia – apenas corporeamente – adeus, mas nos ensinava algo não muito em voga na poesia da época e na atual: escrever a vida
    que se leva e vive, ainda que fragmentária, mínima e passageira, “ir no seu barco para o fundo ou para a beleza”.


    Rollo morreria três dias depois.

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    Adriano da Rosa Smaniotto (Curitiba, 1975) é professor da rede pública estadual. Autor de vários livros de poesia, entre os quais “Vísceras à vista”. Doutor em Letras pela UFPR.



  • “Para ler enquanto escolhe feijão”, da londrinense Edra Moraes

     “Para ler enquanto escolhe feijão”, da londrinense Edra Moraes

    Edra Moraes é uma poeta de inquietudes cujo olhar quase sempre está voltado à condição feminina. Longe dos anteparos das páginas de revistas não se contenta com as imagens rasas – vai mais a fundo. Esse mergulho num universo de humanas certezas e contradições ganhou forma de poemas enfeixados sob o título “Para ler enquanto escolhe feijão”.
    Esta é a segunda obra literária da autora – em 2010 publicou “Da divina, da humana, da profana” que integrou o projeto “Tríade”, uma caixa poética contendo mais dois volumes assinados por Célia Musilli e Beatriz Bajo. Também participou da antologia “O fio de Ariadne”, ao lado de Adriana Vitorino, Christine Vianna, Célia Musilli, Elisabete Ghisleni e Samantha Adreu. Todas londrinenses.
    Porém, o novo livro de Edra Moraes nasce com um peso inédito por ter sido premiado pela Bolsa Criação Literária 2014, da Biblioteca Nacional.
    Em outras palavras: este projeto foi selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Diz a poeta que “o fato de ter sido
    aprovado pela Biblioteca Nacional me deu mais responsabilidade, fiz muita pesquisa sobre o tema. Eu me dediquei a ele”.
    Assim como trouxe uma carga a mais de responsabilidade, também conferiu a ela uma segurança que não tinha até então. “O reconhecimento que recebi veio de pessoas desconhecidas, que não formavam meu círculo de amigos. Para os amigos tudo que a gente faz está bom, eles dão apoio, incentivam, mas a gente fica pensativa se está no caminho certo, se é isso mesmo, porque amigo é amigo, vai mais pela afetividade do que pela
    avaliação isenta daquilo que leu”.
    Na criação dos textos os questionamentos foram inevitáveis: “Aquilo que eu sentia e sobre o qual escrevia, era o mesmo sentimento vivido por outras mulheres? Eu estaria refletindo algo universal ou era tão-somente uma inquietação minha? Houve muita reflexão para algo que é comum,
    afinal falando de mim, falo de todas as mulheres”.
    Edra reconhece que o tema feminino é recorrente naquilo que produz. “É uma característica minha”. Para ela seus poemas são confessionais à medida que aborda comportamentos, sentimentos, reações naturais à condição da mulher. O encadear das narrativas não representa, necessariamente, uma exposição de acontecimentos particulares.

    Profissional de marketing e eventos, produtora cultural e curadora do LONDRIX – Festival Literário de Londrina, desde 2009, idealizadora do Movimento Londrina Criativa, entre outras atividades, Edra Moraes batizou seu livro tomando por imagem uma velha lembrança – a da mãe escolhendo feijão, atividade diária que ficou no passado. “Era uma forma de ficar só, consigo mesma, refletindo. Todas as mulheres vivenciavam esse momento”, diz.
    “Para ler enquanto escolhe feijão” tende a um olhar sobre o antigo, e para isso contribui a ilustração da capa idealizada por Daniele Stegmann, inspirada nas Iluminuras Irlandesas, além do próprio título, carregado de referências e um tom ao mesmo tempo melancólico e atemporal. “Talvez ele seja tão antigo como a discussão da condição feminina”, avalia a poeta.

  • O que uma mosca morta pode me dizer sobre o livro de Yuri Al’Hanati

    Sabe o Yuri Al’Hanati, aquele cara do Livrada!, que faz crítica literária no Instagram e no YouTube, que é jornalista, músico e escreve crônicas para o portal A Escotilha? Pois o cara publicou um livro (tá, tem um certo tempo, mas eu nunca fui muito ágil) de crônicas chamado “Bula para uma vida inadequada“. Na verdade, uma coletânea de crônicas publicadas na Escotilha e encorpadas (para usar um termo que agrada os sommeliers, já que o Yuri também o é) com outras inéditas.

    Pois eu lia o “Bula” quando uma mosca chata começou a perturbar a tal ponto até que taquei o livro naquele ser que me importunava com seu zumbido bêbado e inadequado. Isso mesmo, dei uma “Livrada!” da maldita. E foi aí que me toquei como o livro é bom.

    Os malandrinhos maldosos que leram o parágrafo acima logo dirão que foi assim que eu descobri que o livro do Al’Hanati serve para alguma coisa. Mas não é só por isso, seus engraçadinhos. Quando eu prensei a mosca na quarta capa, bem no meio do texto do Luís Henrique Pellanda, que faz a apresentação da obra, eu logo me arrependi. “Xiii, estraguei o livro”, foi o meu pensamento, acrescido de dois ou três palavrões. A gosma mosquífera me desagradou porque este é um livro para ser guardado, preservado e relido.

    Arte e inadequação

    Yuri começa o livro, nas duas primeiras crônicas, falando de inadequação e fracasso e termina, nas duas últimas, escrevendo sobre solidão e distância. São apenas quatro das 43 crônicas contidas nas 160 páginas desta bela edição lançada pela Dublinense.

    Na apresentação, Pellanda (o melhor cronista brasileiro em atividade) pega logo o primeiro texto, “Eles estão lá, eu estou aqui”, para destacar a inadequação do autor que já viria explícita desde o título do livro: “Bula para uma vida inadequada”.

    Diz o cronista sênior sobre o iniciante:

    “Escreve sobre um mal-estar difuso, que ele próprio não tem como diagnosticar com precisão, mas que sabe dizer respeito à sua época.”

    E completa, no mesmo raciocínio:

    “Estamos falando de um cronista que se define pela negação… Yuri é este cronista com nada ao redor. E talvez por isso acabe optando por fechar a janela, voltando sua atenção para o interior de si mesmo.”

    Quem sou eu para discordar de Pellanda e seu belo texto de apresentação sobre um assunto que ele domina? No entanto, penso que ele resumiu demasiadamente, destacando apenas uma das características e objetivos do autor e mesmo da obra em questão.

    Está claro que a inadequação e a “negação”, como diz Pellanda, se espalham sobre boa parte do livro. Mas o próprio cronista sênior (o melhor do Brasil atual, repito) é obrigado a conceder um parágrafo para falar das crônicas de viagens. Nelas, o autor abriu janelas e saiu pelo mundo para dizer sim a pessoas, costumes e paisagens. Adequou-se rapidamente a novidades que surpreendem nessas viagens, feitas a locais incomuns ao turista comum. São muitas e boas as crônicas de viagens. Na bagagem, como souvenirs, nos presenteiam com encontros, socialização e adequação.

    Sim, o cronista geralmente é um observador, um voyeur, um flâneur, que se coloca à parte para ver melhor e refletir racionalmente sobre o que observa. Mas há também os que mergulham nas experiências e delas extraem relatos mais emocionados.

    O que me atrai no “Bula para uma vida inadequada” é que Yuri Al’Hanati consegue se revezar entre o voyeur e o explorador. Tanto pode se pôr distante, observador solitário, por vezes inadequado, e nos fazer refletir com ele sobre aquilo que vê, quanto pode mergulhar na experiência e nos levar junto para sentirmos quase como se acontecesse conosco o que é relatado.

    Desprezo pela multidão

    No primeiro texto, “Eles estão lá, eu estou aqui”, o escritor observa Curitiba da janela do seu apartamento no vigésimo andar de um prédio. Vê a torcida do Paraná Clube no estádio próximo e, sabe que não se sentiria bem por lá. “Percebo que falhei em ser um sujeito de massas”, revela a seus leitores.

    Esse desprezo pela multidão, pelas massas, “acéfalas e violentas”, retorna em outro texto, “O som do silêncio” em que ele lamenta “não haver festas silenciosas”. Ele clama pelo silêncio, um artigo luxuoso em cidades ruidosas com “motos estrepitosas”, “gritos retumbantes no estádio”.

    Haverá um escritor que não goste do silêncio? Lembro de Dalton Trevisan iniciando o conto “Lamentações da Rua Ubaldino” reclamando do barulho de uma igreja vizinha à sua casa:

    “No princípio era o silêncio

    na Rua Ubaldino

    eis que o número 666

    da Igreja Central Irmãos Cenobitas

    ergueu cartazes

    anunciando sinais e prodígios

    não a flauta doce e harpa eólia

    para louvar o Senhor

    mas a caixa de ressonância

    da buzina do Juízo Final

    e o amplificador dos agudos desafinados

    de Gog e Magog

    além da mão esquerda

    não saber o que faz a direita

    as duas juntas

    rompem no batuque iconoclasta do bombo”

    (Dinorá: Record, 1994 – pág. 69)

     

    Seria a arte, principalmente a literatura, o “ofício de almas inadequadas” que buscam refúgio no silêncio e na solidão? Seria ela a “arte do fracassado”? — (as aspas contêm expressões do autor do livro). Não necessariamente.

    A literatura está presente em muitas e diferentes formas de se viver. Al’Hanati mesmo termina a crônica “O fracasso e a arte do fracassado” assim: “Aos que dizem prescindir da arte deve-se estar de olho atento sempre. Esses são os tipos mais entediantemente perigosos.”

    Escritores como Yuri Al’Hanati

    Escritores como Yuri Al’Hanati nos pegam pela mão e pelo cérebro e nos levam com eles para passear, ou observar e refletir.

    Em suas crônicas, ele nos guia pela cidade para encontrar um vendedor de abacaxi; nos recebe para tomar um vinho, enquanto ficamos calados ouvindo música e lendo um livro; nos leva para viajar por países e recantos de meter medo ou de dar prazer; nos paga o ingresso para um show punk em um muquifo ou para a imensidão do Rock In Rio, lembrando que foi ali que os anos 1990 acabaram, com uma década de atraso.

    Escritores como Yuri Al’Hanati nos mostram que se adaptar às circunstâncias pode ser divertido, em perspectiva, mesmo que na ocasião tenha sido uma roubada, como passar horas em uma imensa fila aguardando para fazer matrícula no curso de Alemão, quando a fila e o dia era para Francês;

    Escritores como Yuri Al’Hanati podem nos tirar o fôlego e acelerar o coração com uma impressionantemente e precisa descrição de uma crise de ansiedade. Quem já teve sabe.

    Escritores como Al’Hanati podem nos recordar um encontro de família numerosa na qual muitas pessoas mal se conhecem, e que, entre ausência e pertencimento, a festa corre em um clima cordial; mas a família também pode ser distância, como na poética crônica “Distância”, que começa assim:

    “Família sempre foi sinônimo de distância. Talvez por isso hoje eu seja distância também. Talvez por isso eu nunca me sinta longe em nenhuma parte do mundo em que possa estar. Longe é sempre aqui, e eu sou só distância”.

    Vinho e solidão midiática

    Quem conhece Yuri sabe que há um bom tempo o vinho tem se tornado uma presença constante em suas atividades. No vlog Livrada!, no YouTube, em que faz bem-humoradas resenhas de livros, é comum vê-lo bebericando seu extrato alcoólico de uvas. O mesmo acontece nas fotos do Instagram e Facebook, mídias sociais em que ele desfila com desenvoltura por entre as massas anônimas ou nem tanto.

    O escritor solitário tem público e fãs, afinal são mais de 30 mil seguidores no Instagram e mais de 37 mil no YouTube. Faz parte de seu trabalho essa exposição midiática e não é pelo vinho que ele é seguido, mas pela literatura, a literatura dos outros.

    Agora é Al’Hanati quem está na berlinda literária com sua estreia neste “Bula!”. Mas o vinho se faz presente aqui também. Muleta para a solidão, ou prazer solitário? Na crônica “Beber a própria solidão” ele transforma em literatura o lugar comum de se estar bem consigo mesmo, acompanhado por uma garrafa de vinho e um bom livro.

    Parafraseando Vinícius de Moraes, que dizia que o “uísque é o cachorro engarrafado” (o melhor amigo do homem), Yuri inicia assim sua ode ao vinho e à solidão:

    “O vinho é a solidão engarrafada. O quanto dele se sorve é o necessário metafísico para tomar ciência da condição explorada por Octávio Paz. O ser humano é o único ser que sabe que está, de fato, sozinho, dizia o ensaísta mexicano.”

    Compara a bebida com o “fermentado tumultuoso” da cerveja, e a “facada flamejante da vodca ou a intoxicação inconsequente da tequila”. Seria a companhia etílica do solitário:

    “A bebida que amortece os sentidos ao mesmo tempo em que eriça o paladar percorre o mesmo caminho que uma solidão sóbria traça ao coração.”

    Mas beber acompanhado, desde que seja vinho, também é bom pois, segundo o autor, não se perde a individualidade nem a solidão:

    “Por isso é tão bom tomar um vinho com os amigos: sorrimos e bebemos nosso insolúvel afastamento. Cada corpo é um eremitério. Juntos, somos deserto.”

    Porém, é na solidão que o vinho o reconforta:

    “Quando estou neste momento, esqueço de pertencer. Sobretudo, esqueço de querer pertencer. O vinho completa o meu estar sozinho como uma bola de demolição comporta um buraco em uma parede”.

    Cronicontos

    Na literatura atual – ok, nem tão atual assim -, é comum a interação entre gêneros literários. A prosa e a poesia travam relacionamentos e, assim como uma transa entre amigos, pode deixar a coisa meio constrangedora ou muito boa. O que é romance e o que é novela? E o livro de contos que têm os mesmos personagens a transitar por vários textos e somando-se formam uma grande história, seriam então romances?

    No livro de crônicas “Bula para uma vida inadequada”, ali pelo miolo, desfilam, por exemplo, “Chiclete preto”, “A velha e o papagaio” e “Todo mundo se assusta com o barulho”, que podem muito bem ser chamados de contos. Têm a estrutura de conto com personagens, história que se desenvolve rápida e um final surpreendente.

    “Chiclete preto” e “A velha e o papagaio” são leves, com humor rápido embora (atenção para spoiler a seguir) o papagaio não se dê bem no final. Já o ótimo “Todo mundo se assusta com o barulho”, é denso, dramático e bastante triste.

    Os três exemplos mostram que o autor, se quiser, também está pronto para trabalhar em outros gêneros além das crônicas. Tem imaginação suficiente, estofo literário, experiência de vida e um estilo charmoso capaz de entreter o leitor em viagens literárias ainda mais densas.

    “Não parecia a mãe, parecia uma boneca, e durante algum tempo considerou essa hipótese. Sequer saberia se tratar da mãe não fosse a sapatilha vermelha de camurça gasta que ela usava para cozinhar, o vestido floral branco e o avental azul que usava habitualmente” — Trecho da crônica Todo mundo se assusta com barulho

    Quando se trata de crônicas, nós, iludidos leitores, presumimos que os relatos sempre são verdadeiros. Os textos seriam experiências ou observações de algo que realmente aconteceu. Mas quem garante para nós, em nossa ingenuidade, que não é tudo inventado? Sequer pensamos que aquela viagem, aquele encontro, aquela paisagem, aquele fato podem não ter ocorrido exatamente como foram relatados pelo escritor.

    Sabe o que penso sobre a possibilidade de um cronista mentir para mim? Não dou a menor importância. O que importa, é a verossimilhança, como já ensinava Aristóteles. Do contrário, estaríamos expulsando as crônicas do nicho da ficção e jogando-as exclusivamente para o da não ficção, do jornalismo. A verdade não é um dos requisitos essenciais da crônica.

    A mosca e a obra

    E agora que eu consegui limpar aquele borrão, a explosão moscal da quarta capa, vejo que o texto dali, de autoria do Luís Henrique Pellanda, é diferente do texto dele de apresentação do início do livro. O melhor cronista do país reforça a tese do deslocamento do autor, porém termina de uma maneira que não o isola completamente, como creio que pode ter parecido no texto anterior.

    Como a mosca e seus mil olhos – que nem sempre evitam uma livrada pelas fuças – há também mil maneiras de se perceber uma obra. É difícil, no entanto, discordar das palavras de Pellanda ao fim e com as quais também encerro esse texto depois de saborear o livro como a um tinto jovem, porém já encorpado:

    “As crônicas deste livro formam uma bula: descrevem e prescrevem a vida inadequada, constroem com cenas o contraste entre a vontade de estar junto e a realidade de se estar só e tateiam, junto ao leitor, um entendimento comum sobre o fenômeno. Uma ponte levadiça, erguida quando a distância é conveniente, baixada quando a vida urge comunhão.”

    Yuri Al'Hanati nasceu em 1986, em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), e reside em Curitiba desde 2004, onde estudou Comunicação Social e Filosofia na UFPR. Jornalista e cartunista, colaborou para diversos veículos impressos e online, e atualmente escreve crônicas semanais para o portal A Escotilha. Criou, em 2010, o Livrada!, plataforma multimídia que experimenta abordagens leves na crítica literária.

    Luiz Claudio Oliveira Escritor, jornalista, observador (quase) silencioso. Autor dos livros "Dalton Trevisan (en)contra o Paranismo" (Travessa dos Editores, 2009), "Punkpoemas" (Nossa Cultura, 2015) e "Amor e Desejo" (Amazon, 2017)

  • Quatro invenções da cidade

    Embora a edição da sua obra lírica, Toda a Poesia, tenha se tornado um fenômeno de vendas, o ponto mais alto da poética de Paulo Leminski (1944 -1989) está no “romance experimental” Catatau (1975), onde o poeta apresenta a origem do pensamento utópico no Brasil e o conflito ideológico na poesia.

    O romance é na verdade um desenvolvimento do conto Descartes sem lentes (1966). Tendo como fonte o livro de Gaspar Barléu (1584-1648), segundo o qual a língua latina (língua da civilização) marcava a confiabilidade das relações entre portugueses e holandeses durante as invasões holandesas,[1] Leminski imaginou a vinda do filósofo racionalista francês René Descartes (1596-1650) para o Brasil.

    Assim como o demônio surge no redemoinho, no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1908 -1967), no texto de Leminski, Occam (alegorização da lógica de Guilherme de Ockham) atormenta a linguagem. Renatus Cartesius (nome latino do filósofo) inala cannabis e passa a enxergar a realidade brasileira ampliada. A alegoria das “lentes” e do “binóculo” é, ao mesmo tempo, o cachimbo e o método cartesiano. A perplexidade do filósofo francês está em não conseguir reduzir a realidade complexa em seu método.

    O racionalismo cartesiano embasa o pensamento revolucionário. O método ideológico separa o “eu” da estrutura da realidade, simplificando a complexidade do mundo. Ao contrário de Santo Agostinho, para quem a estrutura da realidade e o “eu” só existem por graça de Deus, René Descartes cria um “eu pensante” (“Cogito ego sum”: Penso logo existo, ou no trocadilho de Leminski “ergo”: logo). A partir disso, através da redução da estrutura da realidade (a Navalha de Occam) ao método científico, muitos filósofos acreditarão poder aperfeiçoar o mundo.

    Occam deixou uma história de mistérios peripérsicos onde aconstrece isso monstro. Occam, acaba lá com isso, não consigo entender o que digo, por mais que persigo.[2]

    Embora Leminski negue-lhe existência “real”, esse monstro é a própria confusão racional. Em nível simbólico, o Descartes leminskiano diz que a Occam (ideologia) está na linguagem, enquanto Artyczwsky (Arte, artifício, artimanha) só surge quando embriagado. Esta lógica reducionista embasou o fascismo, o nazismo e o marxismo. Talvez esta sombra que perturbara Descartes fosse à mesma que incomodava Leminski, de estudante beneditino a marxista, ansioso em compactuar do prestígio do grupo concretista. Talvez o fantasma que passou a perturbar a poesia brasileira, sob os nomes de poesia participativa, engajada e alternativa.

    A poesia é o contrário da ideologia. Na lógica de Occam a complexa estrutura é reduzida ao método, seja sociológico, histórico ou político. Como diria um ideólogo, embora belo poeta, como Octavio Paz, na poesia: “As plumas são pedras, sem deixar de ser plumas.”[3]

    Em grande parte Leminski estava certo em dizer que a poesia fácil estaria retornando às formas essências. Afora epígonos do próprio Leminski, eternamente reproduzindo o mestre, à primeira década deste século surge uma poesia já mais diversificada, embora mantenha alguns lugares da modernidade. Os lugares principais são o sentimento de urbanização, ou cosmopolitismo; a metapoesia; o belo grotesco e os paraísos artificiais, experiências oníricas induzidas por alucinógenos. As poéticas mais comuns ainda são uma diluição do surrealismo, da poesia beat, dos cancioneiros de ritmo cabralino e o ludismo.

    Paulo Leminski também acertou sobre a presença ideológica no Brasil, tanto no âmbito político, com a democracia, quanto como elemento conturbador da poesia. A poesia de Ricardo Pozzo está carregada de elementos ideológicos, o que funciona com uma ótica periclitante. Aproveitando a teoria da modernidade em Baudelaire de Walter Benjamim, o eu-lírico de Pozzo é um homem devorado pela cidade. Há uma espécie de cisão entre um suposto homem selvagem e o homem civilizado. A falta de empatia entre o eu-lírico e a cidade parece ser um dos sintomas da modernidade. Outro estaria na sensação de controle ideológico, algo provindo de distopias como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, mas sobretudo da crítica social de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, e Simulacros e Simulações, de Jean Baudrilard. Trata-se de uma concepção de que a realidade (a cidade, no caso de Pozzo) é falsa; fora falsificada primeiramente pelo Leviatã (o Capital), com as refutações de Mises, Hayek, Voegelin entre outros, e na prática com a dissolução da URSS e a queda do muro de Berlim, após 1968 a teoria ressurge acusando a opressão midiática. Não se trata de um pensamento logicamente refutável; antes é uma cultura quase hegemônica nas universidades, entre os grupos de intelectuais, artistas, políticos e formadores de opinião; como o positivismo de outrora, mas em proporções homéricas.

    Como na caverna platônica, a cidade de Alvéolos de Petit Patê (Patuá, 2015) é uma espécie de urbe sitiada, onde nem mesmo os habitantes conhecem a própria miséria. É a cidade do Occam leminskiano. No entanto, tal perspectiva é periclitante. O demônio da ideologia leva ao niilismo e ao suicídio. Essa concepção política da realidade serve como o imperativo de Antonio Gramsci (1891 – 1937) segundo o qual tudo é política. Tal discurso deseja apenas saber quem são os aliados, quem são os inimigos.

    Graças ao olhar apurado de fotógrafo, Pozzo consegue vislumbrar no cortinado do cotidiano a singularidade da cidade. O poema mais alto do livro é A Barca[4].

    A nervosa barca trafega em modo sinistro

    Rastreando inocências embrulhadas

    Em papelotes intoxicados de soda cáustica

    Serão cães hidrófobos

    Em semáforos vertiginosos?

    Recolherei as tampinhas de garrafa

    Que condecoram os cadáveres calejados

    Com projéteis de fumaça.

    Como em um noturno, aliás uma constante no livro, o poeta descreve, sem maiores perturbações de Occam, uma ronda policial. De um modo sintético, com poucos traços, o poeta retrata a viatura com giroflex e os cadáveres ao relento. O detalhe das cápsulas de projéteis é admirável.

    Uma leitura que não considerasse os “cães hidrófobos” como policiais, mas como testemunhas do assassínio, traria mais leituras possíveis. A barca poderia ser o carro de IML, numa metáfora que evocaria também a personagem central do livro de Homero Gomes, Solidão de Caronte (Patuá, 2013).

    A poesia de Gomes é herdeira do surrealismo, reproduzindo aliás um dos clichês da escola de Breton: o Anjo. Por outro lado, o fôlego onírico reabilita para a contemporaneidade dois mitos clássicos: Sísifo e Prometeu. A concepção deste último ainda mantém resquícios românticos e gnósticos, numa leitura que relaciona o ladrão do fogo com Lúcifer. O Sísifo de Homero Gomes, entretanto, é o homem carregando a pedra das palavras que o esmagam, possível alegoria da condenação do homem civilizado versus homem natural que agradaria a Ricardo Pozzo, talvez numa condenação ideológica… Num dos momentos altos do livro, principalmente pela rima toante marcando os versos, recurso este infelizmente pouco explorado, no poema O Silêncio dos Tambores que se relaciona com o longo Sísifo:

    Lutou o homem contra si mesmo.

    Contra seus nervos partidos,

    Contra a palma dos pés e o firmamento.

    Lutou o homem contra seus medos.

    Contra seus sonhos de menino,

    Contra os cílios e as lágrimas na face.[5]

    A lírica de Rodrigo Madeira é a grande promessa curitibana. A concepção do livro pássaro ruim (Medusa, 2009) é a metamorfose do inseto (o gafanhoto) que é nefasto, sendo, no entanto, o alimento dos profetas. Assim como em Pozzo, a poesia de Madeira é urbana. Em comum a ambos, encontramos a entrada nos Paraísos Artificiais, como em “balada da cruz machado”[6].

    uma rua à queima-roupa

    curta, brilhante, sem fôlego

    ( puta nova mas ancestral)

    rua-faca, rua-vício

    a cruz machado termina

    nos pés de uma catedral.

    alguém além de deus e

    da polícia e taxistas

    e putas e vigaristas

    cafetões e travestis

    sabe que depois das 20

    nas calçadas do acinte

    beijam latas os guris?

    que se agridem por farelos?

    que se juram por centavos?

    filhos do sangue e do escarro

    talhando derrota para

    o horror de bicho caçado

    que, de manhã, tresnoitara…

    para as gargantas gastarem

    para os alvéolos gritarem

    nesta imunda forja da

    convulsão respiratória

    este pão da falta de ar

    na mesma lama ofertória

    a ninguém ou coisa alguma

    que a raiva de mendigar

    que a fissura que verruma:

    pedra pedra pedra pedra

    quem dentre vós estiver

    sem pecado

    que fume a primeira pedra.

    […]

    No entanto, em sua lírica a perturbação ideológica, em menor ocorrência em Homero Gomes e em maior em Ricardo Pozzo, quase não é notada. O eu-lírico de Madeira é o catador e reciclador da “cultura materialista”; é o próprio “poeta sórdido” de Manuel Bandeira, “Aquele que se suja com a vida”. Herdeiro de Lorca e Cabral, em Madeira a experiência é mais forte que o rigor, embora em momentos menos felizes decline para certos maneirismos concretistas.

    Também senhor das poéticas, mas muito mais abusivo em relação a elas, está a poesia de Ivan Justem Santana. Em 64 peças (Dezoito zero um, 2015), o poeta reúne sua produção publicada em blogue. A concepção do livro é o jogo de xadrez. Ao contrário dos outros três poetas, embora herdeiro de Leminski e Marcos Prado (1961 – 1996, de quem foi amigo e com quem chegou a compor), na poesia de Ivan não há presença ideológica. Como seus mestres, seus poemas estão cheios de gírias, trocadilhos, neologismos e palavras-valise (como “sexoporífero”, o sono post coitum, ou em “vampirilâmpada” etc.) Há evidente brincadeira num verso como: “Chove uns pingos mas não tremas”, ou em troças linguísticas como em “Um Thor [tour de force, do francês: prodígio], um Lóki [gíria regional: néscio, estúpido], não-do-mal”, com perda de sentido devido a gírias e regionalismos. Em muitos momentos, entretanto, a irreverência soa forçada…

    Os poemas de Justen são plenos de referências, principalmente a William Blake, Augusto dos Anjos, Edgar Allan Poe (de quem emula a poética de O corvo para o poema “Outro Pássaro”), Jorge Luis Borges e o amigo Marcos Prado (1961 -1996), numa dupla referência a Carlos Drummond de Andrade e a Dante Alighieri, em “Marcos Prado desce aos infernos.”

    Outro aspecto é uma tendência ao cultismo barroco, com emulações de Gregório de Matos, no soneto Nesta Vida

    Nesta vida já escutei Violeta Parra;

    Sei também que bom cabrito é o que não berra,

    Mesmo quando adoram métrica que erra

    Ou se a rima assim me agarra e sai na marra…

    Mas eu próprio me peço: não force a barra

    Na volúpia veludosa que te encerra –

    Pois por mais que suba ou desça a pé a serra

    Fico sempre bem carente em qualquer farra…

    Eu termino este soneto então por birra:

    Rimo todas as vogais até que morra

    E que enfim chorem por mim um hip, hip, hurra!

    Não me tragam no velório incenso e mirra,

    Nem se espantem da loucura dessa porra

    Já que eu nunca cultivei surra nem curra.[7]

    Não é uma lírica mundana, como a de Rodrigo Madeira; desvestida de ideologia, no entanto, é uma poesia mais cerebral, amiúde metapoética, menos feliz ainda quando se utiliza da cultura de massa, como no trocadilho do soneto erótico que evoca Emiliano Perneta, troçando com o “canguru”, piada esta captada apenas por espectadores de programas de humor televisivo… Nestes casos, toda a habilidade poética de Ivan parece com uma cigarra abandonada pelo espírito do canto: é uma casca de silêncio.

    Embora compartilhem em maior ou menor grau de poéticas, de formas fixas ao poema em prosa, da lírica à anedota, do verso livre à ironia, estes poetas representam uma promissora geração da poesia curitibana. Fiéis à sua liberdade interior, entretanto, eles só serão maiores quando contemplarem a complexidade da existência sem as lentes da ideologia.

    WAGNER SCHADECK (Curitiba, 1983) possui graduação em Letras Português e Inglês e especialização em Desenvolvimento Editorial, pela PUC-PR. É poeta, editor e tradutor. Colabora com os periódicos: Revista Poesia Sempre, Revista Brasileira, Jornal Cândido e Jornal Rascunho. Como editor organizou uma reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, em 2015, pela Editora Anticítera. Atualmente, além de livro autoral ainda sem nome, prepara um livro de traduções de Virgílio, Dante, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Rollinat, Rilke, Benn, entre outros. | www.editoraanticitera.wordpress.com

    Notas:

    [1] Cf. BARLÉU, Gaspar. O Brasil holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: história dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do Ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau, etc. tradução e notas de Cláudio Brandão. – Brasília : Senado Federal, Conselho Editorial, 2005.

    [2] LEMINSKI. Paulo. Catatau. Curitiba: Travessa dos editores, 2004, p. 24.

    [3] PAZ, Octavio. Signos em Rotação. São Paulo. Ed. Perspectiva, 1976. p. 49.

    [4] POZZO, Ricardo. Alvéolos de Petit Pavê. São Paulo: Patuá, 2015, p. 34.

    [5] GOMES, Homero. Solidão de Caronte. São Paulo: Patuá, 2013. p. 51.

    [6] MADEIRA, Rodrigo. pássaro ruim. Curitiba: Medusa, 2009, p. 15.

    [7] SANTANA, Ivan Justen. 64 peças. Dezoito zero um: Curitiba, 2015, p. 50.

    Esta resenha foi publicada originalmente na Revista Subversa, em 14 de maio de 2016 http://revistasubversa.com/artigo/quatro-invencoes-da-cidade-wagner-schadock-curitiba-pr-brasil/

  • Autores

    Pulp fiction das araucárias

    Bons ventos trazem a estas frias plagas curitibanas uma ótima leva de autores que transitam entre vários gêneros distintos. Naturalmente que essa boa safra não é de hoje, mas em minhas andanças pelo mercado editorial desta nossa gélida capital provinciana tenho notado autores que flertam com várias frentes estilísticas.
    Claro que a boa safra não se restringe à capital, pois cidades como Londrina, Maringá e Ponta Grossa, só para citar algumas, têm um cenário literário bastante profícuo e relevante, com editoras, prêmios e, naturalmente, bons autores. Podemos pensar no relevante selo princesino Olaria Cartonera. É um selo editorial que publica, como o próprio nome já adianta, livretos artesanais em formato cartonera, ou seja, livretos impressos e confeccionados de forma artesanal com tiragens pequenas, comercialmente acessíveis mas muito caprichadas.


    Mas voltando à profusão de prosadores que se aventuram na poesia ou de dramaturgos que se aventuram na prosa e toda essa gang-bang de gênero, deparei-me dia desses (mais precisamente no lançamento de seu terceiro livro, o segundo de poesia, Meia com amargo) com William Teca, poeta curitibano que publicou seu primeiro livro tardiamente, Sinistros insones (Catalina edições, 2017).


    Teca nasceu em Curitiba em 1975. Graduado em Letras pela UFPR e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição, transita como editor, professor, músico e escritor. Como foi apresentado em seu livro de contos, Dois contos (BuruRu, 2020), “poeta em essência, mas flerta com a prosa”, neste livro que providencialmente vem parar em minhas mãos, mesmo seu lançamento tendo passado um tanto batido, Teca se despe de seu estilo poético contestador mas elegante, entre quebras sonoras e enjambement, e invade uma atmosfera prosaica sombria e violenta.


    Dois contos (Teca curte umas leminskadas que eu sei!) flerta muito com aquela tradição da literatura pulp bukowskiana, um tanto à Jonh Fante, com prostitutas, muito álcool, muito sexo, muita porralouquice. O primeiro conto já nocauteia o desatento leitor sensível pelo título (oh, almas puras!), Conga na boca do cachorrão, que narra as incursões de um pária da sociedade pela noite (curitibana?) envolto numa atmosfera brumosa que, à medida que a narrativa vai avançando e o narrador vai ficando mais bêbado, seu raciocínio também vai se tornando cada vez mais turvo. Esse anônimo ergue a bandeira de todos os estereótipos do macho alfa periférico, ou seja, tosco, homofóbico e machista, e suas incursões por um terreno que não é o seu o levam sempre à iminência de um fim trágico.


    Antes mal acompanhado do que só segue o mesmo estilo, regado a muito álcool, a muito barato, a muita fumaça. A diferença entre o primeiro conto e o segundo é o estilo de linguagem que Teca usa em cada uma das histórias. Ao passo em que na primeira narrativa o autor emula a linguagem falada de suas personagens em essência, no segundo o trabalho linguístico vai muito além da coloquialidade de personagens suburbanas, periféricas, há todo um cuidado de artesão literário nesse segundo conto, resultando em um texto extremamente lírico, mesmo que retratando o mesmo submundo com todas suas agruras e percalços do primeiro texto.
    Dois contos é um brinde aos leitores do William Teca poeta, e impressiona sua força estilística que, em momento algum, cai no clichê, no óbvio, no requentado, como é comum acontecer. Percebe-se com seus três livros publicados que Teca é um escritor completo.


    Evoé!

    Por Daniel Osiecki

  • GAMBIARRA – Ademir Demarchi por Marco Aurélio de Souza

    GAMBIARRA – Ademir Demarchi por Marco Aurélio de Souza


    Na contramão de uma poesia que preza pela depuração do referente, Gambiarra: uma pinguela para o futuro do pretérito (Urutau, 2018), último livro do poeta e crítico Ademir Demarchi, nos apresenta um conjunto de poemas profundamente comprometido com uma leitura da vida pública brasileira dos últimos anos. Desde o seu título, o autor se utiliza de certos acontecimentos políticos – das mais diversas ordens, inclusive de linguagem – que marcaram nossa história recente para criar uma poesia irônica e mordaz, que subverte os discursos oficiais e nos oferece um contraponto altamente crítico às narrativas conservadoras que buscam explicar a situação do país – de direita e esquerda, aliás. Ironizando o slogan de governo de Michel Temer – “uma ponte para o futuro” –, é que o poeta chega, portanto, ao achado deste título, síntese muito potente do trabalho realizado ao longo de todo o livro.
    Aqui, o país que se apresenta ao leitor é a gambiarra de governo de certos grupos sinistros, que não miram exatamente ao futuro, porque antes exigem um retorno que corrija nossa rota, evidentemente que almejando destinos que não nos contemplam senão como mão-de-obra servil. O arco temporal dos poemas tem por início a queda de Dilma Roussef e chega até à prisão de Lula, passando por episódios marcantes do período. Neste sentido, a exemplo do que fizeram modernistas como Oswald de Andrade e Murilo Mendes, Demarchi nos conta uma história a contrapelo, com a radicalidade corrosiva de uma poesia de osso e nervo, avessa ao lirismo sentimental.
    Embora sustentem uma narrativa, os poemas do livro podem ser lidos de forma independente. Neles, o registro do insólito se alia às mais diversas referências da cultura brasileira e ao diálogo com os clássicos, o que resulta em peças como Maldita Geni, uma releitura do espetáculo televisivo do impeachment que reúne Chico Buarque e James Joyce num poema orgástico, ecoando o famoso monólogo de Molly Bloom.
    Em certos poemas, os discursos surrupiados de nossa realidade política são utilizados de modo direto, quase como citações, o que reforça o aspecto de intervenção pública do livro. É o que vemos, por exemplo, em “Pragmatismo liberal”, que evoca gravações de políticos vazadas para a imprensa – “tem que ser um/que a gente mata ele/antes de fazer delação” –, assim vazando-as novamente, desta vez para o mundo da literatura. O autor consegue bons resultados tanto nos poemas longos, em que vence o leitor pelo acúmulo, quanto nos poemas curtos, em que suas sacadas funcionam como lâminas. Nestes últimos, estão alguns dos melhores momentos do livro, como em “As joias da coroa” e “Doutor pinto”. Se bem que o foco do livro seja a vida política nacional, sobra espaço na Gambiarra para falar do baixo clero montado no lombo da província, neste caso a paranaense, lembrando ao leitor a origem do poeta. Em “Todo poder emana do ovo”, Demarchi remonta o fatídico casamento de Maria Victoria – filha do deputado maringaense Ricardo Barros, ministro da saúde do governo Temer –, noiva ovacionada por manifestantes num sentido diverso do que nos acusa o dicionário.
    Se, na confecção de textos literários, o recurso aos acontecimentos de última hora assume o risco da obra datada, por outro lado, quando a realização estética se dá em alto nível, como é o caso aqui, haverá sempre o interesse pela leitura: trata-se de um registro qualificado da história, com as marcas de um poeta consciente de seu papel. Assim, a urgência deste livro é, em muitos sentidos, a urgência de nosso tempo. Também aí, portanto, a obra constrói seu significado de gesto em favor da razão, contra este tempo em que os discursos da política parecem mais delirantes do que os versos do poeta. Daí que, após passarmos pela pinguela de Ademir Demarchi, fique no ar uma pergunta: afinal, onde o lugar da poesia neste país da Gambiarra?

    [Gambiarra: uma pinguela para o futuro do pretérito, Ademir Demarchi – Editora Urutau, 2018]

  • Reynaldo

    Não é fácil ser uma personagem

    A Literatura é feita de vida e de Literatura. De vida na medida em que a Literatura será sempre o relato de uma experiência, seja ela de que natureza for; Benedetto Croce resume o trabalho do artista como aquele que expressa uma impressão, e é basicamente isso que define uma obra de arte: a expressão de uma impressão, aqui entra o segundo elemento de nossa equação (tremei alunos de humanas): a maneira como o artista se exprime é determinada tanto por aspectos técnicos (sua capacidade de dominar o material de que dispõe – sua poética) e a harmonização de diversos elementos que compõem seu repertório (advindos de sua formação – no sentido forte do termo: cultura [bildung, paideia]).

    Nenhuma obra surge do nada, a arte é sempre a (i)mitação de um mito e mito (a dança das bacantes, para os bons entendedores) aqui é a busca do traço originário onde se funda o mundo (a tal da arqué), sendo o mundo constituído pela linguagem (já é uma obviedade repetir isso, mas vamos lá) e unicamente por ela – sem linguagem não há mundo, temos então que o artista é o sujeito capaz de perceber esse caráter originário e organizá-lo, gerando algo que nunca é novo, mas sim possui uma nova perspectiva, ou, como queria Bakhtin: somos apenas (des)organizadores de linguagens (ou discursos).

    Daí que o que dá valor a uma obra de arte (seja ela literária, visual ou musical) é sua capacidade de “recontar” (i-mitar) o mito e sua capacidade de estabelecer diálogos com outras obras, da perspectiva única do autor que a partir de seu repertório cria (aí sim!), sua dicção.

    Isso tudo, claro, do ponto de vista do julgamento artístico, embora, como bem apontou Lipovetsky, um dos grandes problemas do julgamento sobre a arte contemporânea é que ele se baseia em critérios que não são necessariamente artísticos para se determinar o valor de uma obra de arte. Resumindo esse papo, um artista cria a partir de sua sensibilidade e cultura.

    Um exemplo contundente disso que eu disse (ahá!) é o famigerado Ulysses, do irlandês do mundo James Joyce (mas essa é uma conversa para um boteco, porque as relações entre o Ulysses de Joyce e o de Homero já são o óbvio ululante do lugar comum).

    E aqui chegamos ao nosso propósito: em Reynaldo (Maringá: Viseu, 2019), Renato Quege explora de maneira contundente sua transitividade entre o mundo da Literatura e de sua experiência de vida.

    Já de saída, no Introito (aquilo que chamei num outro texto de captatio benevolentiae) nos deparamos com a voz do personagem Reynaldo mostrando seu descontentamento quanto às imprudências a respeito de si, escritas por um “poeta metido a romancista” (que, segundo ouvi dizer, se trata de Fernando Koproski); começamos com um personagem de ficção exigindo a si o status que lhe cabe de verdade, num jogo de ironia bem ao gosto de Machadão (lembrem-se de Memórias Póstumas de Brás Cubas).

    Creio que é exatamente nesse sentido que Reynaldo deve ser encarado, como jogo irônico (no sentido bem marcado pelas definições de Kierkegaard e Huizinga) entre elementos das mais variadas estirpes e vertentes.

    Não obstante, há uma boa dose de seriedade dramática ao longo de todo o texto, apresentados sobretudo na solidão do personagem, por mais que Reynaldo realize seu périplo ao redor do mundo e que conheça pessoas dos mais variados tipos, é dentro de si e consigo mesmo que se dá a grande viagem, contudo, essa seriedade nunca é vista pelo lado patético (embora o livro possa ser chamado de peripatético) ou pelo lado trágico.

    Numa linguagem sutilmente permeada por uma melodia e musicalidade cuja fluência nos leva no embalo de uma pulsação que define a dicção do autor, Reynaldo é tocado pra frente e para trás num movimento contínuo em espiral, passando desde referência tópicas das cidades por onde passa (e toda a fauna humana desses locais) até o pop rock, com sacadas das mais inusitadas, onde a voz do autor pode ser vista por trás da voz do personagem (claro, se você sabe de quem estou falando, senão, de qualquer maneira nada se perde).

    Fruto de um engenho lapidar, Reynaldo guarda ainda uma característica fundamental das obras bem trabalhadas, ele parece que foi escrito espontaneamente, coisa que só quem domina a arte de escrever bem é capaz de transmitir.

    O único ponto negativo de Reynaldo são dois: ele dá vontade de ler mais e ele não vem com um disco, porque Reynaldo, sejamos francos, é bom pacas de se ouvir.

    William Teca é graduado em Letras-Português pela Universidade Federal do Paraná e mestrado em Letras pela Universidade Federal do Paraná 

    Sobre Renato Quege, nasceu em Curitiba, em 1961. Compositor e músico, fundou os grupos musicais Contrabanda e Beijo AA Força, com os quais gravou vários álbuns e fez inúmeras apresentações pelo país. Ao retirar-se do meio musical passou a dedicar-se integralmente à literatura. “Reynaldo” é sua primeira obra de ficção.

  • Antologia Poética, Luci Collin

    Antologia Poética, Luci Collin
    (Foto: Reprodução)

    Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, autora de duas dezenas de livros e vencedora de prêmios importantes, como o Jabuti por A Palavra Algo (2017) – Luci Collin é já um nome incontornável da literatura brasileira contemporânea. Sua vasta produção poética justifica, para além do invejável currículo, uma antologia com o melhor de sua lavra. 

    Num primeiro momento, há que se frisar o fato de que, obviamente, os critérios de análise de uma antologia não podem ser os mesmos utilizados para um volume de poemas convencional. Espera-se, é claro, que do início ao fim o compêndio se mantenha a uma altura incomum, por se tratar de um “best of”, mas sua coesão não advém dos mesmos elementos que conferem unidade a uma obra de inéditos. Em linhas gerais, em uma obra como esta, importa que o leitor conquiste uma visão consistente – ainda que panorâmica e, por isso, necessariamente fragmentária – da trajetória da autora, transitando pelas diferentes fases e estilos de sua poética. Daí que o peso da edição – e o papel do editor – sejam muito maiores neste tipo de livro.

    Publicada pela editora Kotter em 2018, a antologia de Luci Collin cumpre bem a missão assinalada. Sua arte gráfica é discreta, mas sofisticada, como convém ao que já está consagrado (se não na história, certamente por seu tempo). Organizados de forma cronológica, os livros de onde foram retirados os poemas são assinalados na obra pela exigência do dado biográfico, mas não obstruem a fluência deste passeio pela bibliografia da poeta. Há algo, porém, que podemos tratar como pequeno deslize da edição: frisando a importância de Collin, não incorporar ao livro um ensaio de maior fôlego assinado por algum crítico de sua obra, neste caso mantendo a introdução do editor – que efetivamente temos no livro – algo mais enxuta.

    Impressiona a precocidade da poeta, que publicou seu primeiro livro aos dezessete anos (Estarrecer, 1984). Por sua idade, não causaria espanto que a estreia de Collin fosse um amontoado de versinhos gordurosos, mais tarde renegados pela autora, como é tão comum no mundo das letras. Acontece que não é. Deste livro foram extraídos três poemas para a antologia e, embora a técnica e a densidade de seus poemas obviamente tenham sido refinadas com o tempo, seus textos juvenis não fazem feio. Ao contrário, atestam sobre uma vida desde muito cedo devotada à poesia. Daí o invejável domínio que a autora possui dos mais diferentes recursos e estilos poéticos, transitando com segurança por influências que vão desde o poema pop/publicitário leminskiano, como em “Estarrecendo” e “Espelhar”, passam pela febre concretista em “Saídaentrada”, e chegam, inclusive, à métrica de formas convencionais, como em “Insoneto”. Na medida em que nos aproximamos da fase mais madura da autora, porém, o lirismo se torna o traço mais marcante de sua poética, que se demora em longos poemas de versos livres, com tons e temas mais graves e existenciais, guardando ecos do melhor Drummond.

    A condição feminina está presente em seus poemas ao longo de toda a carreira, sobressaindo-se, evidentemente, em momentos específicos, como em “Uma tarde que cai” e “Multiprática”. Nestes poemas, embora haja alguma acidez crítica, que se vale inclusive do humor, a poeta jamais abandona a ternura e a leveza com que confere elegância aos mais espinhosos temas, tocando o leitor por vias que fogem ao confronto mais vulgar.

    Reunindo cinquenta poemas em menos de cem páginas, não dá pra dizer que esta Antologia Poética esgote a melhor poesia de Luci Collin. Ao fim do livro, o leitor em deleite certamente se pergunta: por que não uma seleção mais numerosa? A pergunta, porém, vem com resposta embutida. Se ela ocorre, é porque o objetivo da antologia foi cumprido: trata-se, é claro, de um saboroso aperitivo poético, cuja função é justamente aumentar o apetite do leitor, preparando-o para o prato principal de suas obras completas.

    [Antologia poética (1984-2018), Luci Collin – Editora Kotter, 2018]

    Marco Aurélio de Souza

  • Resenhando

    Corpos em trânsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli

    Corpos em trânsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli
    (Foto: Reprodução)

    Parece-me que a prosa, da parte do escritor, convida a um certo desleixo, ao automatismo verbal, a trilhar sempre o velho e conhecido caminho: no caso, uma escrita relativamente fluida, relativamente transparente, relativamente insossa. Por que reinventar a roda se o leitor, mesmo o leitor sofisticado, ao fim e ao cabo está interessado mais no desenlace da trama? Por outro lado, há quem desconstrua a prosa, convertendo-a num sucedâneo da poesia, e em poesia hermética. Felizmente são poucos, mas como nem todos são Joyces ou Guimarães Rosa, o resultado é uma prosa espessa, mas não densa, cujo esforço de percorrê-la não vale as eventuais pepitas encontradas.

    O curitibano Cezar Tridapalli consegue escapar dessas duas armadilhas. Em seu terceiro romance, Vertigem do chão (Editora Moinhos, 2019), encontramos novamente as virtudes já visíveis em Pequena biografia de desejos (2011) e O beijo de Schiller (2014): a prosa bem elaborada e uma história bem costurada. Só que aqui estas qualidades alcançam um novo patamar de realização. Com efeito, tanto em termos temáticos quanto formais é um romance ousado e muito bem-acabado. A linguagem, sem derrapar nos excessos da prosa poética, foge aos lugares comuns de boa parte das narrativas contemporâneas (há escritor que acha que ser moderno é escrever mal). E o enredo é muito bem estruturado, funcionando como engrenagens devidamente azeitadas dentro de um maquinário exato.

    A história gira em torno de dois protagonistas que são como que antípodas e só se encontram acidentalmente no final do livro: o holandês Stefan Bisschop e o brasileiro Leonel da Silva. Ambos então com cerca de 30 anos, o primeiro é atleta, obcecado com o condicionamento físico; o segundo é dançarino. Detalhe: os dois são gays mais ou menos bem resolvidos, não obstante os traumas de Leonel com um pai homofóbico.

    Stefan, de Utrecht, a quarenta minutos de Amsterdã, teve o namorado assassinado por um radical islâmico e até para buscar novos ares acaba vindo para Curitiba, numa época (Copa do Mundo e Olimpíadas) em que o Brasil estava bombando. Leonel, por sua vez, resolve sair do Brasil porque de uma forma meio vaga está cansado de sua vida no país. No Brasil, Stefan vai trabalhar numa academia de elite e fica amigo de um outro imigrante: o haitiano Desimond, pobre e preto. Em Utrecht, Leonel divide uma residência com Fadilah, igualmente imigrante, marroquina, professora universitária, lésbica e muçulmana, alguém que tenta conciliar a fidelidade às raízes com a tolerância da sociedade ocidental moderna. Acontece que a ultraliberal Holanda já não é mais uma ilha de inclusão: o ex-namorado de Stefan, por exemplo, militava em movimentos de direita que, com a bandeira de salvaguardar as conquistas da modernidade, combatia a imigração sobretudo islâmica.

    Assim, se Stefan vai sofrer o preconceito de um Brasil que nunca deixou de ser homofóbico, Leonel será vítima de xenofobia numa sociedade que não se escandaliza diante de um beijo gay, desde que não seja interracial... É com esse cenário de encontros e confrontos de identidades desterritorializadas que se desenrola a história: corpos estranhos em trânsito e em transe por um mundo globalizado que se estranha. A onda reacionária que ora engolfa o Brasil, trazendo à tona espectros que se julgavam superados, é um fenômeno global, que apenas se adapta às idiossincrasias de cada país.

    Além desse tema atualíssimo, o que chama atenção no romance de Tridapalli são os procedimentos narrativos: as duas histórias são contadas simultaneamente, mas em vez do método mais costumeiro de alternar o foco narrativo em capítulos ou parágrafos, aqui a mudança se dá, com cortes secos, no interior do mesmo parágrafo, o que exige um leitor extremamente atento. Mas vale a pena esse empenho: da linguagem que foge aos clichês aos enquadramentos quase cinematográficos, estamos diante de um belíssimo e doloroso romance – um dos melhores lançados no melancólico ano que se findou.

    Otto Leopoldo Winck é poeta e romancista, autor de Que fim levaram todas as flores, lançado em 2019 pela Kotter editorial.

  • QUASE CRÍTICA

    O que se escreve e o que se lê nas Araucárias

    O que se escreve e o que se lê nas Araucárias
    (Foto: Divulgação/Acervo pessoal)

    A coluna que agora inauguramos na companhia atenta dos leitores do BEM PARANÁ se destina a acompanhar as novidades nas Letras da terra, tanto na prosa quanto na poesia, além de querer trazer junto com nossos colaboradores, um candeeiro a iluminar o profícuo cenário da produção literária paranaense para auxiliar na construção de um espaço crítico efetivo e autêntico, dotado de inteira legitimidade.

    Quase Crítica, apresentará duas espécies de resenhas, aquelas voltadas aos mais recentes lançamentos em literatura; e outras que irão revisitar a tradição curitibana e
    paranaense com mais de um século e meio de escrita. Este espaço será ainda, ocupado com o jornalismo literário, compreendendo, antes de mais nada, com AGENDA & NOTAS, com a programação das sessões de autógrafo; palestras, conferências, seminários; cursos de extensão acerca de objetos literários; anotações do movimento editorial; além de ocasionais entrevistas.

    Cabe, também, uma palavra de agradecimento aos jornalistas Josianne Ritz e Mario Akira Hissatomi, e bem assim ao poeta e produtor cultural Luiz Alceu Beltrão, que
    acolheram de bom grado a ideia desta iniciativa e apoiaram com profissionalismo e entusiasmo a sua realização.

    Nestes tempos, creio que nada melhor do que reforçar as estruturas de um cânone ainda tão frágil, resgatando-o dos nichos mais acadêmicos e o devolvendo ao público, que aliás desde os tempos de Dario Vellozo, sempre ocupou seu lugar nos festejos literários. Resta-nos brindar à longa jornada pela frente, deixando registradas as mais altas esperanças no talento e força expressiva dos moços e moças que escrevem entre nós, e a convicção de que da qualidade da prosa e da poesia muito dependerá para os bons rumos que, lentamente, dialeticamente, vamos construindo.

    R.Pz.

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