• Antologia Poética, Luci Collin

    Antologia Poética, Luci Collin
    (Foto: Reprodução)

    Poeta, ficcionista, tradutora, professora universitária, autora de duas dezenas de livros e vencedora de prêmios importantes, como o Jabuti por A Palavra Algo (2017) – Luci Collin é já um nome incontornável da literatura brasileira contemporânea. Sua vasta produção poética justifica, para além do invejável currículo, uma antologia com o melhor de sua lavra. 

    Num primeiro momento, há que se frisar o fato de que, obviamente, os critérios de análise de uma antologia não podem ser os mesmos utilizados para um volume de poemas convencional. Espera-se, é claro, que do início ao fim o compêndio se mantenha a uma altura incomum, por se tratar de um “best of”, mas sua coesão não advém dos mesmos elementos que conferem unidade a uma obra de inéditos. Em linhas gerais, em uma obra como esta, importa que o leitor conquiste uma visão consistente – ainda que panorâmica e, por isso, necessariamente fragmentária – da trajetória da autora, transitando pelas diferentes fases e estilos de sua poética. Daí que o peso da edição – e o papel do editor – sejam muito maiores neste tipo de livro.

    Publicada pela editora Kotter em 2018, a antologia de Luci Collin cumpre bem a missão assinalada. Sua arte gráfica é discreta, mas sofisticada, como convém ao que já está consagrado (se não na história, certamente por seu tempo). Organizados de forma cronológica, os livros de onde foram retirados os poemas são assinalados na obra pela exigência do dado biográfico, mas não obstruem a fluência deste passeio pela bibliografia da poeta. Há algo, porém, que podemos tratar como pequeno deslize da edição: frisando a importância de Collin, não incorporar ao livro um ensaio de maior fôlego assinado por algum crítico de sua obra, neste caso mantendo a introdução do editor – que efetivamente temos no livro – algo mais enxuta.

    Impressiona a precocidade da poeta, que publicou seu primeiro livro aos dezessete anos (Estarrecer, 1984). Por sua idade, não causaria espanto que a estreia de Collin fosse um amontoado de versinhos gordurosos, mais tarde renegados pela autora, como é tão comum no mundo das letras. Acontece que não é. Deste livro foram extraídos três poemas para a antologia e, embora a técnica e a densidade de seus poemas obviamente tenham sido refinadas com o tempo, seus textos juvenis não fazem feio. Ao contrário, atestam sobre uma vida desde muito cedo devotada à poesia. Daí o invejável domínio que a autora possui dos mais diferentes recursos e estilos poéticos, transitando com segurança por influências que vão desde o poema pop/publicitário leminskiano, como em “Estarrecendo” e “Espelhar”, passam pela febre concretista em “Saídaentrada”, e chegam, inclusive, à métrica de formas convencionais, como em “Insoneto”. Na medida em que nos aproximamos da fase mais madura da autora, porém, o lirismo se torna o traço mais marcante de sua poética, que se demora em longos poemas de versos livres, com tons e temas mais graves e existenciais, guardando ecos do melhor Drummond.

    A condição feminina está presente em seus poemas ao longo de toda a carreira, sobressaindo-se, evidentemente, em momentos específicos, como em “Uma tarde que cai” e “Multiprática”. Nestes poemas, embora haja alguma acidez crítica, que se vale inclusive do humor, a poeta jamais abandona a ternura e a leveza com que confere elegância aos mais espinhosos temas, tocando o leitor por vias que fogem ao confronto mais vulgar.

    Reunindo cinquenta poemas em menos de cem páginas, não dá pra dizer que esta Antologia Poética esgote a melhor poesia de Luci Collin. Ao fim do livro, o leitor em deleite certamente se pergunta: por que não uma seleção mais numerosa? A pergunta, porém, vem com resposta embutida. Se ela ocorre, é porque o objetivo da antologia foi cumprido: trata-se, é claro, de um saboroso aperitivo poético, cuja função é justamente aumentar o apetite do leitor, preparando-o para o prato principal de suas obras completas.

    [Antologia poética (1984-2018), Luci Collin – Editora Kotter, 2018]

    Marco Aurélio de Souza

  • Resenhando

    Corpos em trânsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli

    Corpos em trânsito, vidas em transe: o novo romance de Cezar Tridapalli
    (Foto: Reprodução)

    Parece-me que a prosa, da parte do escritor, convida a um certo desleixo, ao automatismo verbal, a trilhar sempre o velho e conhecido caminho: no caso, uma escrita relativamente fluida, relativamente transparente, relativamente insossa. Por que reinventar a roda se o leitor, mesmo o leitor sofisticado, ao fim e ao cabo está interessado mais no desenlace da trama? Por outro lado, há quem desconstrua a prosa, convertendo-a num sucedâneo da poesia, e em poesia hermética. Felizmente são poucos, mas como nem todos são Joyces ou Guimarães Rosa, o resultado é uma prosa espessa, mas não densa, cujo esforço de percorrê-la não vale as eventuais pepitas encontradas.

    O curitibano Cezar Tridapalli consegue escapar dessas duas armadilhas. Em seu terceiro romance, Vertigem do chão (Editora Moinhos, 2019), encontramos novamente as virtudes já visíveis em Pequena biografia de desejos (2011) e O beijo de Schiller (2014): a prosa bem elaborada e uma história bem costurada. Só que aqui estas qualidades alcançam um novo patamar de realização. Com efeito, tanto em termos temáticos quanto formais é um romance ousado e muito bem-acabado. A linguagem, sem derrapar nos excessos da prosa poética, foge aos lugares comuns de boa parte das narrativas contemporâneas (há escritor que acha que ser moderno é escrever mal). E o enredo é muito bem estruturado, funcionando como engrenagens devidamente azeitadas dentro de um maquinário exato.

    A história gira em torno de dois protagonistas que são como que antípodas e só se encontram acidentalmente no final do livro: o holandês Stefan Bisschop e o brasileiro Leonel da Silva. Ambos então com cerca de 30 anos, o primeiro é atleta, obcecado com o condicionamento físico; o segundo é dançarino. Detalhe: os dois são gays mais ou menos bem resolvidos, não obstante os traumas de Leonel com um pai homofóbico.

    Stefan, de Utrecht, a quarenta minutos de Amsterdã, teve o namorado assassinado por um radical islâmico e até para buscar novos ares acaba vindo para Curitiba, numa época (Copa do Mundo e Olimpíadas) em que o Brasil estava bombando. Leonel, por sua vez, resolve sair do Brasil porque de uma forma meio vaga está cansado de sua vida no país. No Brasil, Stefan vai trabalhar numa academia de elite e fica amigo de um outro imigrante: o haitiano Desimond, pobre e preto. Em Utrecht, Leonel divide uma residência com Fadilah, igualmente imigrante, marroquina, professora universitária, lésbica e muçulmana, alguém que tenta conciliar a fidelidade às raízes com a tolerância da sociedade ocidental moderna. Acontece que a ultraliberal Holanda já não é mais uma ilha de inclusão: o ex-namorado de Stefan, por exemplo, militava em movimentos de direita que, com a bandeira de salvaguardar as conquistas da modernidade, combatia a imigração sobretudo islâmica.

    Assim, se Stefan vai sofrer o preconceito de um Brasil que nunca deixou de ser homofóbico, Leonel será vítima de xenofobia numa sociedade que não se escandaliza diante de um beijo gay, desde que não seja interracial... É com esse cenário de encontros e confrontos de identidades desterritorializadas que se desenrola a história: corpos estranhos em trânsito e em transe por um mundo globalizado que se estranha. A onda reacionária que ora engolfa o Brasil, trazendo à tona espectros que se julgavam superados, é um fenômeno global, que apenas se adapta às idiossincrasias de cada país.

    Além desse tema atualíssimo, o que chama atenção no romance de Tridapalli são os procedimentos narrativos: as duas histórias são contadas simultaneamente, mas em vez do método mais costumeiro de alternar o foco narrativo em capítulos ou parágrafos, aqui a mudança se dá, com cortes secos, no interior do mesmo parágrafo, o que exige um leitor extremamente atento. Mas vale a pena esse empenho: da linguagem que foge aos clichês aos enquadramentos quase cinematográficos, estamos diante de um belíssimo e doloroso romance – um dos melhores lançados no melancólico ano que se findou.

    Otto Leopoldo Winck é poeta e romancista, autor de Que fim levaram todas as flores, lançado em 2019 pela Kotter editorial.

  • QUASE CRÍTICA

    O que se escreve e o que se lê nas Araucárias

    O que se escreve e o que se lê nas Araucárias
    (Foto: Divulgação/Acervo pessoal)

    A coluna que agora inauguramos na companhia atenta dos leitores do BEM PARANÁ se destina a acompanhar as novidades nas Letras da terra, tanto na prosa quanto na poesia, além de querer trazer junto com nossos colaboradores, um candeeiro a iluminar o profícuo cenário da produção literária paranaense para auxiliar na construção de um espaço crítico efetivo e autêntico, dotado de inteira legitimidade.

    Quase Crítica, apresentará duas espécies de resenhas, aquelas voltadas aos mais recentes lançamentos em literatura; e outras que irão revisitar a tradição curitibana e
    paranaense com mais de um século e meio de escrita. Este espaço será ainda, ocupado com o jornalismo literário, compreendendo, antes de mais nada, com AGENDA & NOTAS, com a programação das sessões de autógrafo; palestras, conferências, seminários; cursos de extensão acerca de objetos literários; anotações do movimento editorial; além de ocasionais entrevistas.

    Cabe, também, uma palavra de agradecimento aos jornalistas Josianne Ritz e Mario Akira Hissatomi, e bem assim ao poeta e produtor cultural Luiz Alceu Beltrão, que
    acolheram de bom grado a ideia desta iniciativa e apoiaram com profissionalismo e entusiasmo a sua realização.

    Nestes tempos, creio que nada melhor do que reforçar as estruturas de um cânone ainda tão frágil, resgatando-o dos nichos mais acadêmicos e o devolvendo ao público, que aliás desde os tempos de Dario Vellozo, sempre ocupou seu lugar nos festejos literários. Resta-nos brindar à longa jornada pela frente, deixando registradas as mais altas esperanças no talento e força expressiva dos moços e moças que escrevem entre nós, e a convicção de que da qualidade da prosa e da poesia muito dependerá para os bons rumos que, lentamente, dialeticamente, vamos construindo.

    R.Pz.

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