por Ricardo Pozzo, administrador do blog

  • Catu

    Paranaense Regina Ribeiro lança seu primeiro romance, 'Ignóbil', pela diretora Kotter 

    (Foto: Reprodução)

    Foi nos intervalos de um mestrado em Filosofia que foi concebido o Ignóbil, romance de formação e de fluxo de consciência que narra em uma prosa refinada a trajetória de Catu e seu grupo de amigos marginais e místicos.

    Mas, se as especulações metafísicas encontram-se presentes, a narrativa não trata de conceitos abstratos e sim de algo muito concreto: a experiência às margens da sociedade.

    Antiga integrante de uma seita convertida a « cidadã normal », Catu deve mergulhar no passado e nos cantos mais camuflados da cidade em busca de seu antigo amigo, amante e mentor, Lucas, que desapareceu das ruas onde pedia esmolas. Em sua busca, ela descobre todo um submundo que se encontra ameaçado tanto pela propagação de ideais eugênicos visando limpar a cidade dos degenerados, vagabundos e páreas quanto por um mal primordial chamado por Lucas de Ignóbil. À medida que as horas passam, o Ignóbil vai ganhando espaço e a prosa vai ficando cada vez mais fragmentada, como se fosse um espelho interior de suas personagens. Aqui o narrador se perde, contaminado pela história que conta e se vê impossibilitado de continuar sua tarefa, esboçando ainda assim o retrato de uma cidade cheia de contrastes.

    Este é o primeiro romance da escritora, que nasceu em Guarapuava, no interior do Paraná, e mora em Paris desde 2013. Na obra ela traz um pouco de suas vivências e estudos para narrar a busca incessante por um desaparecido com o qual ninguém parece se importar (« é só mais um louco perdido no mundo ») em uma cidade imaginária decadente e desigual. "Nessa busca ela vai refletindo sobre o que deixamos pelo caminho, sobre o que resta de nós quando desaparecemos ", contou a autora. 

    Regina Ribeiro é formada em Comunicação Social pela Unicentro (PR) e graduada e mestra em Filosofia pela Sorbonne Université. Publicou em revistas como Gueto, Zunai, Ruído Manifesto e Germina e é colunista da Kotter Editorial. 

    Serviço:
    Livro: Ignóbil
    Autora: Regina Ribeiro
    Editora: Kotter Editorial
    Páginas: 248

  • Literatura

    Evasão ao rés-do-chão: sobre Ilusão, de Marco Aurélio de Souza

    (Foto: Reprodução)

    Evasão é uma palavra usual na leitura dos poetas simbolistas. Ela dá conta de um déficit de realidade, de um lado, e de um ataque sensualizado ao formalismo estanque dos parnasianos, de outro. Foi com a noção de evasão que Tasso da Silveira definiu os poemas de Ilusão, livro de Emiliano Perneta, de 1911. Teria sido mais tímido nosso Simbolismo, mera atividade de cópia dos autores cultuados, como Baudelaire? É o que pensam, em vias completamente diferentes, críticos como Augusto de Campos ou Flávio Kothe. O primeiro adverte para uma “comedida prática simbolista brasileira”, marcada por falhas como exagero retórico, exagero musical, predominância ornamental, sentimentalismos, adjetivação desmedida; já Kothe defende que o “poema de Cruz e Sousa intitulado ‘Violões que choram’ é uma imitação da ‘Chanson d’automne’ de Verlaine, sendo o original comumente ignorado ou escamoteado no ensino brasileiro...”. Teria havido, segundo esses dois críticos, uma atenuação do potencial inventivo do Simbolismo europeu em terras brasileiras. Foi nesse plano que o próprio Augusto de Campos defendeu a excepcionalidade de dois autores daquele movimento, Pedro Kilkerry e Ernani Rosas.

    Por outro lado, há correntes da crítica que defendem o Simbolismo brasileiro como pleno de originalidade. Roger Bastide, por exemplo, chega a compor uma tríade simbolista mundial: Mallarmé, Stefan George e o brasileiro Cruz e Sousa. Paulo Leminski fez uma biografia incrível sobre Cruz e Sousa. E o Simbolismo sempre contou com uma crítica elogiosa feita a partir do próprio movimento, como no caso de Nestor Vítor e, a seguir, de Andrade Muricy, autor do monumental Panorama do movimento simbolista brasileiro. De resto, influências simbolistas (ou penumbristas) estão em vários autores modernistas, como Bandeira, Cecília Meireles, Ronald de Carvalho e Ribeiro Couto.

    A grande questão do Simbolismo no Brasil parece ser, portanto, a de se decidir em que medida o movimento foi realmente orgânico em relação à realidade local e à invenção na literatura. Nesse sentido, a mera opção de tomá-lo como cópia tão somente da matriz francesa não nos parece a mais viável, haja vista a própria reverberação simbolista no Modernismo, caracterizado justamente por ser um movimento que abriu os olhos da literatura para a realidade brasileira. Parece ser assim que Marco Aurélio de Souza estuda e refaz o Ilusão de Emiliano Perneta, com olhos nas possibilidades da evasão dolorida que se faz ao do rés-do-chão.

    O trabalho que Marco Aurélio de Souza nos apresenta sob o título de Ilusão é, em primeiro lugar, uma atividade de pesquisa. Na sua tese de doutorado, “O Paraná no campeonato nacional das letras: uma leitura do jornal Nicolau à luz dos problemas da história literária regional” (2020), destaca-se a ideia de que a partir do jornal capitaneado por Wilson Bueno, entre 1987 e 1996, consagrou-se uma observação mais sistêmica da tradição literária paranaense: “uma comunidade imaginada de obras, estilos e autores ligados ao Paraná”. Este livro de poesia mantém com aquela percepção da tese uma homologia intencional. Trata-se de uma angústia da influência enfrentada com galhardia (pela homenagem, no plano da continuidade) e galhofa (pela resistência, no plano da descontinuidade). Este livro de poemas manifesta-se por procedimentos ou dispositivos de ordem necessariamente restritiva, isto é, o que está em jogo é uma operação, mais do que um resultado, e podemos chamar tal operação por diversos nomes, nenhum deles suficiente: tradução, leitura, paródia, pirataria, reescrita, palimpsesto etc.

    Além do plano da pesquisa, o livro também se caracteriza por uma intervenção num tema fundamental da literatura, a questão da assinatura. Quem assina os poemas? É possível que Marco Aurélio assine poemas a partir de outros poemas? Onde fica a alma do poeta, a inspiração, onde estão as musas? Ele não estaria destituindo a poesia enquanto ferramenta fundamental da originalidade da linguagem? Há muito da ironia e da concepção transcriativa de Haroldo de Campos neste novo Ilusão, às voltas com um tema fundamental do fim do século vinte que foi a morte do autor, enunciada principalmente pelos franceses, como Michel Foucault. Como escreveu Abel Barros Baptista, falando do romance S. Bernardo, de Graciliano Ramos, a assinatura do autor consagra uma operação dúplice: ela é tanto uma autoridade, no sentido de autorização sobre uma obra, quanto é uma despedida daquela obra, a última presença do autor sobre a obra que, a partir daí, passa a derivar democraticamente nas operações de leitura, como enfatiza Jacques Rancière. De fato, o tema da morte do autor é exatamente esse: morre o autor para nascer a autoridade da interpretação. A morte do autor é um tema simultâneo às teorias da estética da recepção, da leitura etc.

    O desejo pelo outro da linguagem, esse desejo de reescrita do texto, foi enunciado num poeta caro ao fim do século XIX, Arthur Rimbaud, na formulação de que “eu é um outro”. Rimbaud escreveu: “Eu é um outro”. Não se trata de “eu sou um outro”. O que parece estar em jogo ali é qual o lugar do sujeito no processo criativo. Entra em cena a ideia de “clarividência”, o visionarismo. Rimbaud, naturalmente, fazia parte de um processo histórico, na Europa do fim do século XIX, em que se passou a criticar o racionalismo cartesiano, fundado na autonomia racional do sujeito. O sujeito deixa de ser mimético (como era na frase famosa “penso logo existo”) e passava a ser textual, inclusive pela subversão gramatical que punha o Eu, na expressão “Eu é um outro”, não como sujeito, mas como objeto a ser qualificado pela alteridade. O “eu” de Rimbaud, diferentemente do de Descartes, tem uma presença virtual, logo simbólica. É quase como se ele escondesse o “eu” na categoria de “outro”. Isso diz muito sobre a poesia que se fez no século vinte e diz muito sobre este Ilusão. O “eu” do poema passa a ser o “eu lírico”, mas isso não é tudo. Ele deixa de ser mimético e se torna textual, impedindo qualquer ingenuidade no seu uso. Não há mais “eu” impune na poesia. O novo “eu” será sempre performático ou gestual. Eu é um outro... o quê? “eu é um outro eu”, um outro “eu” que não é sujeito, mas texto. Assim, num dos poetas fundadores da modernidade, o “eu” passa a ser permanentemente um problema, ou melhor, uma problematização. É claro que o “eu” do poeta continua existindo e participando ativamente do poema, mas Rimbaud teria introduzido uma desconstrução fundamental quanto à ideia do gênio romântico e do poema como expressão de uma verdade individual. Isso tudo passa a ser posto em questão. A partir daí, diversas desconstruções da autoria passam a atuar, o que, por consequência, traz significativas implicações estéticas e éticas. A introdução da alteridade foi um fenômeno sem volta.

    Muitos poetas já investiram na poesia criada explicitamente sobre a intertextualidade, ressaltando-a. O gesto é tanto uma afronta ao texto original e à condição de autoria, quanto também uma modéstia do autor “final”, que se debruça sobre outros textos e não sobre seu próprio umbigo ou identidade. Ilusão conduz a poesia a uma pergunta direta sobre o fazer poético e sua relação usual com a originalidade. Um dos pontos fundantes desse procedimento é relatado pela teórica Marjorie Perloff, no livro O gênio não original. Perloff conta como a recepção do texto central de T. S. Eliot, A terra desolada, em 1922, foi marcada por uma polêmica. Ainda que elogiado, o livro foi bastante questionado quanto ao seu caráter “citacional”, o que, na visão dos críticos, reduziria em muito aquilo que se considerava como essência da poesia, isto é, a originalidade da voz pessoal do poeta. O desafio de Marco Aurélio foi o de fazer com que cada poema tivesse um ponto de partida em um poema de Emiliano Perneta, mas que não dependesse dele, podendo funcionar sozinho como peça estética autônoma.

    No Brasil, muitos poetas se aventuraram na reescrita poética, rediscutindo, parafraseando ou parodiando outros textos (e não apenas poemas). Por exemplo, Oswald de Andrade, no livro Pau-Brasil, recortando os cronistas coloniais. Ou Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência (às voltas com os "fantasmas" de Ouro Preto e dos poetas árcades). Podem ser citados também Murilo Mendes, Jorge de Lima (como no verso emblemático: "Dante, falo por ti, por mim, por quem?") e, entre os contemporâneos, há Mafra Carbonieri, Glauco Matoso etc. Cito, entre tantos exemplos, Adriano Scandolara, poeta de Curitiba que dessacraliza a poesia de Olavo Bilac (em Parsona); Mario Domingues, outro curitibano, que reescreveu alguns de seus próprios poemas (em Musga).

    Deixei para o final algumas considerações sobre o livro de Marco Aurélio. Primeiro quero citar a experiência de leitura de Assombro zen (2020), a coletânea anterior do poeta. Ali, há vozes ao rés-do-chão expressando-se pelo haicai. O mundo do calão e principalmente, a polifonia típica das narrativas entra em cena na destituição/homenagem ao modo poético que se consagrou como expressão do tempo em relação à natureza. É possível afirmar que o procedimento antecipa o assalto/afago ao Ilusão de Emiliano Perneta, poeta que foi severamente criticado por outro ícone da literatura paranaense, o contista Dalton Trevisan. Minha impressão, lendo o Ilusão de Marco Aurélio de Souza, é a de que se trata de um encontro entre Perneta e Trevisan (com o fantasma de Marcos Prado sempre presente, seja pelo cultivo abusado das formas fixas, seja pelo ângulo rebaixado da enunciação). Uma psicografia marginal, um reposicionamento da evasão na perspectiva da nomeação concreta do que antes era símbolo (em Perneta). Há muito dos Nelsinhos, sua tara e seus risinhos de escárnio, dos contos de Dalton Trevisan, nos poemas deste Ilusão, bem como o marginal, a prostituta, o michê, o drogado, o burguês e principalmente o poeta maldito: personagens que vestem máscaras, desconstruindo o “eu” hipertrófico de Perneta. A estratégia de trazer os poemas para a narrativa, por fim, abala o culto do símbolo do livro “matricial”, num jogo de espelhamentos e alteridade. Uma evasão concreta, ao rés-do-chão.


    *Ricardo Pedrosa Alves é professor de literatura na UEPG e poeta. Seu último livro é “Algo chega tarde demais” (Medusa, 2020). Vive em Guarapuava.

  • Poesia

    Clara Bordinião lança seu 'Canto para Mnemosyne' pela Editora Kotter

    (Foto: Reprodução)

    Clara Bordinião, poeta curitibana, faz sua estreia em livro.

    Canto para Mnemosyne é o primeiro livro da poeta curitibana Clara Bordinião, que é egressa da primeira turma de Licenciatura em Letras Português da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Clara também é uma das colunistas da recente revista literária curitibana, Trajanos, junto com outros poetas estreantes da poesia curitibana atual. Além da coluna na revista, a poeta é a voz e o rosto da live Café com Poesia, que recebe poetas e críticos da poesia contemporânea, na qual já recebeu Francisco Mallmann, Luci Collin e Raul K. Souza.

    Canto para Mnemosyne é uma entrega as memórias e as paixões, uma confidência poética de paixões do corpo, da mente e da linguagem. A poética de Bordinião é permeada pela teatralidade e pela performance, que traz o cotidiano para o artístico. Com poemas como Clarice e Mario, a poeta conversa com a memória coletiva da perda e das relações ancestrais costuradas pela presença dos avós na infância e a ausência na fase adulta. Clara brinca com as saudades e as lembranças, ancorando seu canto à deusa da memória e das musas, libertando sentimentos de seu próprio corpo-memória.

    Dividido em duas partes, poemas e prosas poéticas, Clara não foge do tema central de seu livro, a memória e as musas. Como Luci Collin bem descreve na orelha de Canto para Mnemosyne “Como ipês e as águas. Prosa e poesia: palco de Clara. Voz em poesia de apelos e respostas e novas perguntas. [...] Naquilo que é o canto intenso, o fluxo, o ritmo do rosto que se estreia”.

    Canto para Mnemosyne pode ser lido como uma coletânea de poemas e prosas poéticas independentes ou como corpo poético, como diz Jaqueline Bohn Donada na quarta capa do livro. O que se sabe é que Clara Bordinião se abre como um palco para os seus poemas.

    Serviço:
    Livro: Canto para Mnemosyne
    Autor: Clara Bordinião
    Editora: Kotter Editorial – Selo Sendas
    Páginas: 88
    ISBN: 978-65-89624-01-1

    Link de compra:
    https://kotter.com.br/loja/canto-para-mnemosyne-clara-bordiniao/

  • Resenha

    A comunidade da epidemia: reedição de 'O Mez da Grippe', de Valêncio Xavier

    (Foto: Reprodução)

    “Um homem eu caminho sozinho
    Nesta cidade sem gente
    As gentes estão nas casas
    A grippe.”

    O trecho citado aparece logo no início da obra do escritor, jornalista e fundador da cinemateca de Curitiba, o vanguardista Valência Xavier, e cabe como uma luva na descrição da atual situação da capital paranaense, apesar de transcorridos 40 anos da publicação da obra e mais de um século do tempo no qual se passa a narrativa: a Curitiba de 1918, tomada pela epidemia de gripe espanhola. Porém, no mesmo trecho, não passa desapercebida a grafia arcaica da palavra gripe com dois pês, e são essas marcas sutis que constroem um estranhamento anacrônico que permeará todo o texto.

    O livro, publicado em 1981, bebe inegavelmente em fontes vanguardistas – como a ideia de ready-made, plasmada e iconizada pela obra “A fonte” de Duchamp –, ao constituir-se de diversas formas literárias (cartas, poemas, diário) e não-literárias (notícias de jornais, boletins sanitários, tabelas de dados, anúncios publicitários) para formar um amalgama narrativo desconcertante e singular. A obra, escrita em formato de diário, contempla os três meses finais do ano de 1918, quando a epidemia de gripe espanhola chegou às terras paranaenses trazida por imigrantes sírios que moravam na então capital brasileira, o Rio de Janeiro. A reedição do livro em 2020, pela curitibana Arte e Letra, lança luz sobre a literatura como costura também da ideia de comunidade, e nesse sentido, da comunidade como nos traz Blanchot em “A comunidade inconfessável”: a vivência da morte tida como a experiência comunitária por excelência. A realidade da epidemia de 1918 nos coloca em comunhão comunitária, por meio da doença e da morte, com a Curitiba de 2020, através dessa literatura feita de “não-literatura” que instaura uma narrativa-kinema, para usar o termo de Luci Collin no texto de contracapa da mais recente edição da obra. O que aqui, há mais de um século, se viu é o que se vê agora, e se distingue do hoje quase que somente pelo uso da ortografia arcaica e pelas cifras reduzidas, constituindo com isso identidade de uma Curitiba que viaja através do tempo e se reencontra consigo mesma.

    À exceção de seu nome na capa, Valêncio Xavier não se preocupa em “sujar de autoria” sua obra, porque no pacto que se estabelece ao ingressar na narrativa, não há intenção alguma de distinguir claramente o que é autoral ou apropriação, num jogo detetivesco de imaginação que, se por um lado instiga, por outro não se configura como único caminho de leitura que valorize a narrativa. Ou seja, saber a autoria de cada trecho – se de fonte jornalística ou reprodução ficcional de um texto jornalístico, se anúncio publicitário de época (por exemplo, do xarope Bromil) ou criação valenciana, se depoimento real ou ficcional de Dona Lúcia – não se configura como questão-chave. Permitir-se viajar no tempo e espaço por meio de um fio narrativo disforme, inconstante e nada homogêneo, exigindo do leitor fôlego interpretativo para flanar entre o anúncio funerário e o poema erótico sem desfazer-se do ambiente epidêmico de 1918, parece ser, este sim, o grande trajeto que a obra propõe ao ser lida em 2020 ou 2021.

    Além de “restaurar” a literatura paranaense e devolvê-la ao público, profanando agambianamente o lugar sagrado que o livro de Valêncio Xavier havia adquirido (os exemplares antigos chegavam a custar 300 reais), a reedição de 2020 cria uma ponte temporal que amplifica e reverbera a Curitiba de 1918. Dessa forma, a cidade passa a configurar um espaço comum que une não só o leitor de qualquer parte do Brasil no atual momento, mas de qualquer lugar do mundo, caso por meio de traduções a obra transpusesse fronteiras.

    *Rodríguez Monegal en su estudio titulado Sexo y poesía en el 900 uruguayo (1969) se centra en las polémicas figuras de Roberto de las Carreras, “el Don Juan satánico” y de Delmira Agustini, “la ninfomaníaca del verso”, p. 127

    *Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários UFPR
    Resenha apresentada à disciplina de “Redes Literárias Nômades”
    Prof.: Isabel Jazinski Abril/junho 2021 Mestranda: Luciana Cañete Madeira

  • "O Pássaro Zero"

    O tesão da poesia de Djami Sezostre

    (Foto: Reprodução)

    Publicado originalmente em 25/03/2021

    ‘O Pássaro Zero‘ é o novo livro do poeta performático Djami Sezostre, lançado pela Editora Urutau com prefácio de Ademir Demarchi e posfácio de Loretta Emiri (recomendo a leitura dos dois, brilhantes na tentativa de elucidar o intraduzível e preparar o leitor para o fluxo contínuo do jorro poético que há de vir). Nascido em Minas, Djami estreou em 1986 com o poema/livro Lágrimas & Orgasmos. Depois, publicou Anu, Arranjos de pássaros e flores, Estilhaços no lago de púrpura, Onze mil virgens, Yguarani, Zut e O Pênis do Espírito Santo‘, entre vários livros. Sou muito fã deste genial escritor e de sua originalidade gráfica e verbal. Seus fonemas voam, seus experimentos são audíveis, seus poemas não cabem no papel (daí a criar a ‘Poesia Biossonora’ e a ‘Ecoperformance’). Seus escritos estão interligados e compõem uma prazerosa sinfonia, uma energia una que atravessa a memória e a percepção natural das coisas. Há que se lê-lo todo. Mal consigo escolher algum texto. Por dever de ofício, pincei algumas pérolas do novo livro (e entre elas espalhei frases e fotos de uma de suas performances – Ecoperformance em Rio Paranaíba – além de um vídeo do ator Antônio Cunha com texto dele):

     

    ‘Eu sou uma espécie de arco-íris’
    ‘Eu quero o que não existe’

    Cai o bich
    Oalado no a
    Bismo enQuantoeu
    Acho asu
    Acarcaça
    Aqui nomeio
    Oumbigoe
    Todoosangue

    Djami Sezostre deu absinto para um cachorro
    O amor apodreceu entre areia nas sementes da romã

    A noite escura era uma escuridão de brilhantes

    Escrever como não escrever assim eu escrevia
    O pássaro zero pediu uma folha de néctar para dormir
    O meu pai lia o tempo como um papiro de astronauta
    Voltar para o horizonte é o mesmo que partir do útero
    O vestido da mãe era uma veste de bichos na brenha
    O poeta rasgou o peito em cena para mostrar o coração

    O enxame ziziou onomatopeias na enxurrada

    Carece de fantasia pra trepar com o pau Brasil

    O interior do menino é cheio de pássaros sem nome

    Eu abri o corpo e mostrei, então, o corpo,
    O meu corpo e o seu coração, o corpo,
    O meu corpo e o seu interior, o corpo,
    O meu corpo e o menino que falava
    A língua de um fauno de Rio Paranaíba.

    COM A PALAVRA, OS CRI-CRÍTICOS >>> Das orelhas do livro, escolhi alguns dos muitos e merecidos comentários elogiosos que a crítica especializada teceu sobre a obra de Djami Sezostre. Eu assino embaixo de qualquer dessas frases. O poeta é mui digno de todas elas:
    Em Djami Sezostre o panteísmo é celebrado através de uma intensa e colossal orgia (Claudio Willer)
    Um dos poetas mais relevantes da atualidade por suas experiências lexicais e formais (Daniel Osiecki)
    O poeta Djami Sezostre é uma surpresa neste cenário de homens duplicados (Fabrício Carpinejar)
    Djami Sezostre age como um deus do vocábulo (Fernando Aguiar)
    E tudo é música em Djami Sezostre (Francesco Napoli)
    Toda a poética de Djami Sezostre é uma experiência de limite (Jorge Melícias)
    O poeta torna-se o animal que esbraveja incalculados outros para uma plateia (Leonardo de Magalhaens)
    Poeta xamã aparentado do jaguar, tendo por tio o índio Iauaretê (Marco Aurélio de Souza)
    Poesia em alta voltagem (Micheliny Verunschk)
    Nada enjaula Djami Sezostre! (Tarso de Melo)
    O sujeito lírico em Djami Sezostre se expande como animal, como água, como planta, como eu no outro (Viviana Bosi)
    Ao propor uma nova grafia, Djami Sezostre sugere um novo sistema de ler, sugere um novo mundo (Edgard Pereira)
    Djami Sezostre conseguiu escavar o cansaço da língua, vencer a exaustão da insuficiência de expressão de uma época (Salomão Sousa)

    PRA ZERAR O VOO >>> Pode-se ler Sezostre de repente. Trepada de galo. Pode-se deliciar demoradamente. Pegada de mamute. Pode-se brincar de desvendar os sentidos. Cabeça na labuta. Pode-se deixar fluir e acordar molhado. Sexo com-sentido. Pode-se sentipensar todo o tesão que a poesia dá. Palavras inventadas pra se usar em si pra se coçar até puir. É coisa de ligar de alucinar de. Pode-se até, mas não é só pra ler. É pra se aninhar lá dentro. E furunfunfar. Fruta de abrir e provar de se cobrir e se encharcar de melecar o pau do pensamento. Gostosura de curtir. É um banho de literatura visceral. Seus olhos hão de ler e luzir e gozar e grunhir. Ahhh… vão sim.
    Adoro quando um autor me desperta a vontade de leitura e a escritura. Não se faz arte (boa ou ruim) sem paixão. Eu sei que ainda vou voltar a esse livro em breve, mas após minhas primeiras lidas e vindas sobrevoando O Pássaro Zero, escrevi:
    são palavras reiteradas na carne da terra suja lavrada
    são versos inversos antiorações na rotação do universo som
    são setas insetos passeando pássaros por estrelas e versos sóis
    são outros de nós em nós amarrados em nós sós de nós libertos voo
    são voltas revoltas são horas sem tempo sentidos sentimento sem com
    são insanos cromossomos o que somos sem vestes são vastos sezostres tez
    são hostes de letras de atônitos hontens são homens de asas e saltos imersos veredas de si
    são verdes candentes são água e movimento são dentro são sonho vermelho de gozo viagem vão vim
    são porra são língua delírio linguagem são bicho são brilho origem selvagem de mim são sim
    são grades abertas são grandes diversas rês erês versas universas são sexas insetas
    são seres alhures olhares afora luzes e asas afloram insertas e voam e vazam em om e on e nunca som libertação ou
    ção

  • A poética lacerante de Raul K. Souza

    O livro de estreia de Raul K. Souza, Ligações que rasgam, lançado pela Kotter Editorial, é, com certeza, ‘o pé na porta’ e a metamorfose de um editor em um grande poeta. O livro contém uma série de poemas intitulados ou não, que são separados em quatro capítulos: a primeira hora do ruído; uma pizza e dois pathos com gelo; m. é uma costela de gatling assada; e use o interfone agora. A obra tem a orelha do poeta Daniel Osiecki e a quarta capa da escritora Clarissa Comin.


    `O pé na porta’ de Raul é uma poética muito vinculada à expressão do “Eu”, ao íntimo e, muitas vezes de relações referenciais, circunstanciais e empíricas. Ao falar de empirismo aqui, me refiro a forma magistral com que o poeta consegue captar a realidade e transformá-la em poesia através de uma poética do contemporâneo. Nesse apanhado de inputs do dia-a-dia que compõem o cotidiano hipermoderno, o autor revela uma sensibilidade ímpar na compreensão da realidade e no domínio da linguagem.


    Além disso, o poeta nos brinda com silogismos que vão além de uma postura cartesiana, muito usual na produção que impera na cena poética brasileira. A poesia da linguagem confere a nós, leitores, uma gama de referências, inferências e, em alguns casos, de complacência muitas vezes não vista. O despertar de uma interpretação hermética, mas nunca prepotente, nos agracia com versos como “o alarido invade o lado da sala / sou nervos e tecidos / sobre a calçada / e mantra nos fones de ouvido”.
    Outro ponto que merece destaque é que a poética de Raul vai além das expectativas quando não faz uma poesia de hermetismos vazios e rasos, aquele hermetismo pelo hermetismo, sabe?! Em seu livro, o eu-lírico, em diversas passagens, se apresenta através de uma voz clara e comprometida com o fazer poético, com a criação e a experimentação literária, sem nunca deixar a linguagem, matéria-prima da literatura, de lado.


    Ademais, o que impressiona em Ligações que Rasgam são as evocações imagéticas propostas pelo poeta. As frases-imagens dos textos compõem e engendram uma poética quase que labiríntica do “eu”, e aqui, nada é por acaso. Esperar que “o apocalipse seja adunar gatos / em cima do peito” entrega ao leitor uma visão mais esperançosa mesmo com um futuro que se apresenta cada dia mais obscuro. Vale ressaltar que as imagens tangem também o visceral, que remonta, talvez, Herberto Helder, “não havia nenhum resíduo de porra / entre o choque e o teu nome”.


    Raul também envereda por uma poesia em prosa, da qual, confesso, esperava ver um pouco mais no decorrer do livro. Embora trabalhe apenas com um poema, já demonstra uma capacidade impressionante caso decida vir a trabalhar com esse formato de texto a posteriori.
    Além do mais, o livro nos apresenta uma poética do corpo, como em “duas vigas sustentam / finito” que pode muito bem ser comparada às "bocas esmagadas” de Mário de Sá Carneiro, em Escavação. Porém, sua poesia não é limítrofe, pois ela se utiliza de uma poética do pensamento, em fluxos deliberadamente coesos e, às vezes, incoerentes. Isso remonta uma não-linearidade de um leitor profícuo de grandes mestres da literatura como Lispector, Woolf e Joyce. Na passagem, “ouve esse grupo de pesquisa, me passa seus cigarros na cama quando eu te passo duas mãos e o sentimento do muro”, do capítulo use o interfone agora, vemos a confluência dessas duas poéticas, do corpo e da mente, em uma só.


    Outrossim, em meus pais moram a três quadras da br-277, o poeta nos brinda com uma poética memorialística, em conjunto com o fluxo de pensamento. Aqui, a interpretação se estabelece apenas na coalescência da imagem e na lembrança que o eu-lírico nos apresenta. Logo, a vida psicológica se repete infinitamente em um espaço finito de tempo e o artefato se constrói e se desdobra em puro estado de arte. E, embora tenha citado apenas um poema, há vários que são permeados por essas questões memorialísticas.


    Por fim, Ligações que rasgam revelam um eu-lírico, e, às vezes, um poeta que se desvela e se mostra enquanto fruto de todas as ligações interpessoais que o compõem. Raul K. Souza é um poeta gigante e a sua poética há de “rasgar” e se interligar com os leitores de sua obra.

  • Tudo Fora de Ordem

    O novo livro de Daniel Osiecki, Fora de Ordem, lançado pela Editora Ipêamarelo neste início de ano, apresenta 14 contos com temáticas variadas como autoritarismo, sanidade mental, relações interpessoais e por aí vai. O livro é apresentado pelo autor, professor e tradutor Fábio Fernandes que, além de rasgar seda para Osiecki, relaciona seu livro a grandes nomes da literatura fantástica mundial. Fernandes não se esquece de situar o leitor também quanto à atual conjuntura política nacional,
    principalmente sobre o ovo protofascista prestes a chocar em terras tupiniquins, e a atual pandemia da Covid-19. Dessa maneira, ele consegue relacionar tudo isso e, ao
    mesmo tempo, preparar o leitor para os contos a serem lidos.

    Embora apresente diferentes temáticas em seus contos, a grande sacada do livro está em trazer metaforicamente e, às vezes, diretamente, questionamentos e críticas
    sobre o governo, a vida, a pandemia, as relações interpessoais de uma forma fantástica ou não. Além disso, a linguagem clara e objetiva torna os contos rápidos e, apesar de certos hermetismos, compreensíveis. As ambientações são bem desenvolvidas com imagens ricas em detalhes e que têm sempre uma função nas narrativas, afinal de contas, nada aqui está fora de ordem,
    .
    Fora de Ordem divide-se entre o fantástico e o hiper realismo em seus textos, nada é por acaso. O primeiro conto, que dá título ao livro, por vezes nos faz questionar se
    aquilo se refere apenas a um futuro distópico, ao estilo Orwelliano, ou se aquilo é real. A representação de um condomínio tomado pelo fascismo nada mais é do que o que está acontecendo nas esferas macropolíticas de nossa sociedade. Assim, em um edifício, localizado em lugar nenhum, podendo ser em qualquer lugar, um homem, sem nome podendo ser qualquer um, vê as transformações do seu cotidiano pela ditadura não proclamada do atual governo. Obviamente que ele percebe os reflexos de sua apatia política, e quando decide se posicionar, ele tem de lidar com as consequências. O conto aos poucos vai deixando a “Atmosfera pesada, (e o) ar rarefeito”. As sequências que ocorrem são de um frenesi extasiante e me lembrou o clássico texto É Preciso Agir, de Bertolt Brecht. Assim, colocar as coisas (ou simplesmente uma pixação de resistência) em seu devido lugar se torna extremamente necessário na narrativa e na vida real.

    Além de sua pluralidade temática, o hiper realismo é recorrente a todo momento no livro, o tecido social aqui é levantado, revirado, analisado e esmiuçado. Dessa forma,
    as máscaras morais caem, em críticas estarrecedoras sobre uma sociedade decadente como a nossa. Em Vem Jantar!, nos deparamos com uma cena recorrente em nosso país e que já foi discutida em crônicas de Lima Barreto há mais de um século. Mas para além da temática, o autor nos apresenta uma dose escatológica para compreender a importância da principal pauta da luta feminista.

    Outra coisa que me cativou foram as finalizações abruptas que, em alguns momentos, continham notas de uma poética urbana do cotidiano. Isso me deixou com vontade de ler mais, mas, melhor do que isso, me induziu a reflexões e a alguns exercícios de imaginação para complementar aquelas histórias do meu modo. O supra sumo dessas duas experiências está em João Gabriel, que nos dá margem para imaginar o seu destino e, ao mesmo tempo, se questionar sobre quantas pedras nós tropeçamos em nossos caminhos no dia a dia.

    Quanto ao insólito e fantástico, recorrente em diversas passagens do livro, mesmo quando o estranhamento e a desorientação se fazem presentes, em nenhum momento as narrativas se tornam inverossímeis. Os recursos fantásticos utilizados amplificam as vozes dos textos e criam uma polifonia literária sem igual. Nota-se algumas convergências com grandes nomes como J.J. Veiga, Borges, Cortázar, Rulfo,Lygia Fagundes Telles e assim por diante. Isso evidencia-se em um “pote extraviado” com um líquido vermelho escuro dentro, por uma fonte mágica ou por uma cidade que lembra a cidade de Comala, em Pedro Páramo. Podem não ser referências a esses autores, mas o movimento da produção literária se aproxima bastante.

    Ademais, os contos são pinceladas do cotidiano que se caracterizam por momentos em que as coisas saem dos trilhos e você está nessa locomotiva a descarrilar. Seja pelo autoritarismo, pela pandemia, pelas relações interpessoais ou pela sanidade mental, tudo está em desordem, ou tudo é desordem?, depende do ponto de vista.

    No fim, tudo isso ajuda na leitura desse livro que é engajado politicamente e está situado em um momento histórico em que a cobra do neofascimo, ou protofascismo,
    está botando o seu ovo. Dessa forma, o livro Fora de Ordem é extremamente necessário, para colocarmos o nosso país na rota do progresso novamente, porque a
    desordem, como Daniel muito bem nos ensina, já é natural do ser humano.

  • Alice Ruiz inspira os paulistanos da Banda da Portaria

    A Banda da Portaria vai lançar a música "Vida" em parceria com a poeta Alice Ruiz. A letra da música é um poema escrito por Alice em parceria com o poeta da banda, Vitor Miranda. Fruto da amizade que nasceu da admiração de Vitor pela obra da poeta, a letra brinca com a vida através de metáforas sonoras e finaliza do jeito que os poetas lidam com ela: escrevendo.


    O poema foi musicado por João Mantovani e tem produção musical de Daniel Doc. Ainda completam a banda o guitarrista Daniel Nakamura e o baterista Telo Ferreira.
    O lançamento será no dia 18/12 em todas as plataformas. No mesmo dia será lançado o videoclipe dirigido pela dupla Vitor e João no canal da Banda da Portaria no youtube.

    Histórico

    Em meados do ano de 2016 o poeta Vitor Miranda recebeu um áudio de João Mantovani onde havia um de seus poemas musicados. Era o início da banda da portaria!

    Com a primeira formação lançaram um EP com cinco músicas: As canções de amor deixadas na portaria.

    Atualmente

    Hoje a banda é formada, além de João e Vitor, pelo baixista Daniel Doc, pelo guitarrista Daniel Nakamura e Telo Ferreira na bateria.
    Lançaram recentemente o single "Eu amo andar" e hoje se preparam para um lançamento muito especial: "Vida" é um poema que Vitor escreveu em parceria com sua poeta preferida, Alice Ruiz, e deu para João musicar. pra eles esse momento já fez todo sentido para a existência da banda.

    pré-save nas plataformas: https://tratore.ffm.to/vida

    link do youtube onde será lançado o videoclipe : https://www.youtube.com/channel/UC-Ul8rL_t8VLjirhrY8cemw

    link do videoclipe: https://www.youtube.com/watch?v=g87o84YHF20&feature=youtu.be

    instagram: https://www.instagram.com/bandadaportaria/

  • Julio Almada: uma poesia entre espaços

    Em O Quarto de Jacob, Virginia Woolf dá grande importância para os espaços, pois constantemente o texto alterna entre cenas e pensamentos dos personagens sem que haja qualquer tipo de esclarecimento ou pista que indique, imediatamente, sobre o que se trata. Para cada espaçamento há um movimento de virada ou uma nova perspectiva. De certa forma, é sobre isso que Cinquenta, de Julio Urrutiaga Almada, se trata: trocas de perspectivas sobre um mesmo assunto intercaladas por espaços.


    Cinquenta é uma coletânea do trabalho do poeta desde 1983 até 2020, com, evidentemente, o total de cinquenta poemas. É bastante plausível e até fácil contemplar esse livro quase como um diário poético ou algum tipo de grimório sobre este ou aquele fantasma que os poetas carregam nos bolsos e sutilmente invocam como musas. Seria fácil, também, tomar esse livro como um processo de reminiscência, de total nostalgia em relação a uma vida poética que alcançou a maioridade e que agora, nesse retornar para “casa”, refaz todo o percurso e nele acrescenta o olhar maduro de Odisseu muito-truque Almada. Mas, como disse, isso seria fácil ou até simplista. Nesse sentindo, é bastante redundante fazer da resenha alguma espécie de paráfrase de cinquenta poemas que constam no livro. Assim, pelo bem do texto, decidi por fiar naquilo que parece emanar entre os poemas.


    Eis o fio condutor entre os Cinquenta de Urrutiaga: a morte dada por espaços. Inúmeros poemas trazem dentro de si a condição da morte como um lugar de sagração poética, como um tigre com olhos de garras que emerge dos filhos de cidades que parem para dentro e consagram elegias às estranhas forças do mundo. É maravilhosa a coincidência, ou talvez a reincidência, dos símbolos árabes de Omar Khayyam em seu Rubayat apareçam em Cinquenta: o vinho, o amor e o sensível transbordante. Talvez, cheio de esperanças e especulações, Almada converta suas temporadas no inferno em tempos de amor.


    É interessante notar o quanto a melancolia urbana de amores mal-sucedidos, o sujo e escatológico dos dias bêbados e a agonia da solidão sejam temas para Urrutiaga que, apesar de malditos, adquirem um detalhe aprazível e fazem de um possível sudário algo mais próximo de uma manta que acalma as almas inquietas. Parece que o espaço entre os poemas atua como um silêncio, ou mais como um tempo de meditação após uma oração profana sobre os seres e as pequenas metamorfoses que lhes competem. Nisso repousa um ponto muito sedutor de Cinquenta: a invocação de inúmeras vozes intimamente ligadas com a angústia dos vivos em notar, tristemente, o esvair do tempo, sem que delas tenhamos pena ou pesar.


    É de se perguntar, de forma bastante platônica, se morrer cinquenta vezes foi o suficiente para que Julio redigisse sua trajetória poética. É de se desconfiar, igualmente, se há para os poetas, mestres dos forjar e fingir, alguma morte para que de seus poemas extraíssem vida. Todavia, por que sempre a verdade? Para Jacob, a busca pela verdade que repousava na erudição e nos clássicos era fundamental, como pedra monumental da civilização. Mas, para nós, leitores, seja Almada seja Woolf, a verdade que deles emana é indiferente. Creio que repouse nesse detalhe o maior diferencial de Urrutiaga, pois não se trata de um poeta melancólico, com a cabeça apoiada nas mãos a espera do fim do mundo por desvelar, mas um poeta dançante, Baco endiabrado que faz do que lhe aborrece poesia e com ela dança a música dos bêbados e dos abandonados independentemente do futuro.

    Tarik Alexandre

  • As reviravoltas entre poetas e magistas, no início do século XX, inspira novela.

    O redator, escritor e artista visual José Alfredo Santos Abrão está lançando seu sétimo livro. A obra se chama Procurando Pessoa, novela publicada pela Kotter Editorial, de Curitiba. O lançamento (virtual) será feito em entrevista (ao vivo) entre o editor Daniel Osiecki e o autor. Esse evento acontece no perfil da Kotter no Instagram [@kotter_editorial] na noite de quarta-feira, dia 2 de setembro de 2020 – data em que o encontro histórico entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley completa 90 anos.


    Nessa novela, ao longo de 84 páginas, um anjo casual narra esse encontro fatídico entre o poeta português e o mago britânico, acontecido em 1930. A narrativa reconta fatos reais, enfocando o ‘golpe publicitário’ que Crowley pretendia perpetrar com a cumplicidade de Pessoa: o lançamento de uma novela policial, a partir do suposto suicídio do mago na Boca do Inferno.


    O pretexto para esse suicídio seria o amor não-correspondido do mago inglês pela maga alemã Hanni Jaeger, sua assistente na viagem a Lisboa – uma figura sedutora, embora paranoica e instável, que desperta a maior atração em Fernando Pessoa. A partir dessa trama, o autor desenvolve uma narrativa puramente ficcional: Pessoa desiste do golpe – e, para escapar do assédio de Crowley, passa a despistar o mago por meio de seus heterônimos, em manobras ‘diversionistas’.


    Como anota o escritor José Paulo Cavalcanti Filho, autor do prefácio, ‘a partir de ingredientes exóticos, entre tantos personagens instigantes, as mãos hábeis de José Alfredo Santos Abrão tecem uma trama inventiva. E muito bem articulada, nessa novela que vai prender o leitor, desde o começo e até a última página. Em resumo, literatura de primeira qualidade.’

    Sobre o autor

    Paulistano, José Alfredo (1958) mudou-se para Florianópolis (1990), depois passou a viver na cidade do Recife (2012). Em poesia, no período florianopolitano, publicou Pegadas de palavras (1991) e Dias com nuvens (1999), ambos em edições do autor. Mais recentemente, lançou Três poemas esparsos em tercetos imperfeitos (Semprelo, Florianópolis, 2019).
    Em prosa, José Alfredo publicou três livros: a novela Outro norte profundo (Barabô, Salvador, 2012), Cronomáticas e outros contos (Cepe, Recife, 2016), finalista do III Prêmio Pernambuco de Literatura, e o volume Sete relatos enredados na cidade do Recife (Laranja Original, São Paulo, 2019).
    O autor atuou muitos anos como publicitário, participou de salões e exposições de arte, escreveu e dirigiu trabalhos em vídeo e cinema. Ficou em primeiro lugar no concurso nacional ‘100 anos da Semana de Arte moderna’ (o último certame literário realizado pelo MinC, em 2018), com a novela inédita Andares entre dois Andrades. Também foi premiado no concurso ‘200 anos da Independência’ (Secretaria Especial de Cultura, vinculada ao Ministério da Cidadania, em 2019), com o poema longo Ave Nossa Senhora da Independência.

  • O prosador lírico Cristovão Tezza, por Luiz Cláudio de Oliveira

    Prosador reconhecido e multipremiado, o escritor Cristovão Tezza dá uma guinada de estilo e lança um livro de poesia: “Eu, prosador, me confesso” (Quelônio, 2017). O título, além de uma ironia bem-humorada, é uma referência ao que o escritor pensa sobre prosa e poesia e suas diferenciações. O prosador, segundo ele, constrói realidades e personagens fictícios, enquanto o poeta se confessa ao leitor.  Sair da prosa para a poesia parece, mas não é uma novidade na vida do escritor.

    É como se o autor retornasse a um lar em que já viveu, mas que esteve, se não abandonado, quase esquecido. No lançamento do livro em Curitiba, cidade onde mora, em meados de março/2018, amigos mais antigos lembravam que o tinham conhecido primeiro como poeta. Mas aqueles versos são como peças antediluvianas, afogadas em muitas camadas de água e de tempo.

    Descobre-se um renovado poeta. Retorna em caprichada edição, com tiragem de apenas 300 exemplares numerados (que deveriam ser ampliados). A paulista Quelônio trabalha com edições artesanais, impressão tipográfica (capa e títulos montados à mão em tipos móveis e o restante dos textos em linotipia) e costura à mão em papel especial. Livros belos, raros e caros. No caso de Tezza, 56 páginas a R$ 60,00 no dia do lançamento em Curitiba. Mas quem disse que não vale?

    Portfólio ou coletânea

    Cristovão Tezza diz que “Eu, prosador, me confesso”, só nasceu por vontade da editora. Ele havia enviado um poema para uma coletânea e o editor Bruno Zeni perguntou se o prosador tinha mais escritos em versos. Com a resposta afirmativa, surgiu a proposta de um livro.

    O autor de “O pai eterno” garante que todos os poemas publicáveis que tinha até então estão em “Eu, prosador, me confesso”. Mas gostou da ideia e não descarta continuar investindo em versos, mesmo que a prioridade continue sendo a prosa – tanto que acaba de lançar pela Todavia o romance “A tirania do amor”, sua 26ª obra publicada, se não me perdi nas contas.

    As poesias do livro não surgiram de um projeto que tivesse como objetivo retratar um único tema. A obra é uma espécie de coletânea de únicos poemas, ou portfólio de possibilidades, com múltiplos focos e interesses.

    Mesmo assim, com esse caráter de amplitude de temas, uma preocupação constante com o tempo e com a finitude permeia os 34 textos. O passar do tempo, as transformações do ser e suas incertezas são fundamentos poético-filosóficos que percorrem todo o trabalho.

    É frequente o pensar sobre passado e futuro, e, também sobre um ser desconhecido que habitou o escritor um dia e agora é observado de um outro local e de um outro tempo. Afinal, pensamentos como esses ocorrem a qualquer um que passe dos 60 anos, ainda mais se for artista (Tezza tem 65, é de agosto de 1952).

    Constante também é o uso do humor, característica marcante na personalidade do escritor. Um humor menos desbocado, quase tímido, auto-irônico, sutil. Este rir de si mesmo quebra certa angústia e melancolia baudelairiana que permeiam o livro. Aproxima o autor de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, poetas incontornáveis da literatura brasileira.

    Escritor consagrado de romances, multipremiado com “O filho eterno”, o que o teria trazido da prosa para a poesia, do que serviu a experiência de tantos anos? São vozes que não se falam? Deixemos que o próprio autor se explique, começando pelos versos do poema “Livros”, na página 39 da edição:

    “O que os livros fizeram de mim?!

    O que eles disseram?

     

    Não importa – sou página virada.

    Uma depois da outra”

     

    Poesia X Prosa

    O prosador Cristovão Tezza afirma que para voltar a fazer poesia teve de readmitir a inspiração em sua vida literária. A prosa teria muito mais de transpiração, de um árduo trabalho diário e constante. Já a poesia não se dobra a essa exigência cotidiana.

    “Não dá para acordar de manhã e falar ‘agora vou fazer um poema’ e depois de trabalhar algumas horas sair com o poema pronto”, afirma Tezza. Para ele, essa fórmula prosaica não dá certo na poesia (muitos poetas podem discordar dessa afirmação).

    Haveria também, para o autor (e que também pode ser contestada por outros poetas), uma diferenciação de voz entre os dois estilos. Tezza escreve sobre essa diferença em seu livro “O espírito da Prosa” (Record, 2012) usando sua experiência como estudioso do filósofo e linguista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975).

    Ele cita duas frases de Bakhtin que o marcaram e que falam justamente sobre a diferenciação entre poesia e prosa.

    Poesia:

    “A exigência fundamental do estilo poético é a responsabilidade constante e direta do poeta pela linguagem de toda a obra como sua própria linguagem, a completa solidariedade com cada elemento, tom e nuança”

    Prosa:

    “O prosador não purifica seus discursos das intenções e tons de outrem, não destrói os germes do plurilinguismo social que estão encerrados neles, não elimina aquelas figuras linguísticas e aquelas maneiras de falar, aqueles personagens narradores virtuais que transparecem por trás das palavras de formas da linguagem […]. Deste modo, o prosador pode se destacar da linguagem de sua obra.

     

    No primeiro caso, segundo Tezza, “o poeta acredita, ele mesmo, com toda a força de sua alma, em cada palavra e cada vírgula que escreve; o poeta diz a verdade. Ele é absolutamente solidário com o que escreve. E é só por isso que o poeta escreve”.

    No caso do prosador, “ele fala pelos outros, há necessariamente uma substância ventríloqua na sua linguagem”. Ou, mais claramente, ainda nas palavras de Tezza sobre a voz do autor no espírito da prosa:

    “O escritor tem de saber que a voz que ele escreve em cada instante do texto não pode ser completamente a dele. Se essa separação se apaga, morre o prosador, nascerá o poeta.”

    O poeta Cristovão Tezza não nasceu com este “Eu, prosador, me confesso”, mas o livro traz à luz um tesouro escondido na gaveta, lapidado pelo tempo e suas consequências. Tentando não trair sua vocação realista, mostra-se um lírico racional. Une filosofia e humor para falar com sua própria voz.

     

    O tempo é senhor

    Desde o primeiro poema, o autor nos confronta com pensamentos sobre o tempo. O título, “Lar”, também pode carregar uma ironia pois marca o início da mudança do prosador, que era o ambiente natural do escritor até então, para a nova casa, feita de versos.

    O poema condensa instantes e pensamentos que vão do final da tarde – “o irremediável tudo que se fecha” – ao início da manhã. Pode ser uma metáfora a uma certa fase da vida de uma pessoa, quando o dia vai findando, a noite é incerta como o dia que virá. Mas, se há incerteza, também há uma tranquilidade quase zen de quem já viveu bastante e tenta se preparar para o que aguarda a todos mais à frente.  “Não há nada que assombre pelo novo” diz um verso.

    A reflexão sobre o tempo continua pelo segundo poema e segue adiante. São versos como: “Queria lembrar da minha mão / Quando não havia manchas. Alguma coisa fora do tempo”, ou “… O tempo/ De cada pedaço não é o tempo/ Do todo, diz a equação” (A mão). Ou “a forma da mulher que eu amo é vivíssima/ na memória apagando-se em seguida/ em sutil sinapse” (Mulher). Ou ainda perscrutando um encontro entre o tempo e Deus, em “Teologia em quadrinhos”: “Nenhuma obsessão é maior que o Tempo/ Talvez Deus, é verdade”.

    O tempo também transforma o poeta, que se olha de um outro ponto de vida como um ser duplo: “… meus dois se contaminam/ neste brilho no espelho”; ou “Minha holografia se desprende a pensar coisas de que nem sei” (Holografia).

    O escritor também reflete sobre a palavra, a escrita e os livros. Tenta decifrá-los e conforma-se com a impossibilidade. “O que os livros fizeram de mim?!/ … / Lá se foram 60 anos: uma vida por escrito/ Champolion de mim mesmo:// a cada dia, uma nova cripta” (Livros). Ou “Boas mesmo são perguntas/ sem resposta. Assim suspensas/ no cotidiano simples…” (Ignorância). “Ah quem me dera o nome das flores!/ Formas e cores indesignadas” (Natureza).

    A página em branco é um desafio: “Deste lado, a paz/ Ali, vazio, o terror/ … / e é preciso chegar/ do outro lado, sem a chave” (Página). Mas as palavras também são insuficientes: “as palavras descrevem o mundo/ mas não o entendem” (Ladainha).

    Há uns escorregões, como o breve e inexplicável “Paixão”, ou o título machista “Vidinha de mulher” para um bom poema sobre o escritor às voltas com afazeres domésticos. Felizmente são poucos.

    O humor aparece já no próprio título, “Eu, prosador, me confesso”. No poema “2017”, depois de uma série de versos políticos, de preocupação com a terrível realidade brasileira atual e de se mostrar indignado, o poeta dá o fecho: “(quanto a mim, malmequer,/ espremo os olhos míopes/ atrás de um foco qualquer.)”.

    Em “Uótzap”, o poeta promove um encontro inusitado entre o concretismo e o poema-piada. Referências satíricas ao cotidiano digital, como se a tecnologia embarcasse no trenzinho do caipira.

    É também o humor que encerra o livro com o poema Vanitas. A vaidade versus a dúvida do escritor. Monstros sempre presentes, espreitando mesmo no sucesso e na consagração. O humor irônico. O rir de si mesmo e de seus pares. A construção dos versos lembra o jeito de escrever de Dalton Trevisan. Uso a linguagem popular, ou o “falar cafajeste”, na descrição feita por Manuel Bandeira. Na mesa de bar, o autor consagrado e premiado tira do bolso um “papel amarfanhado” com “uns versinho… umas rima pobrinha” e pede: “Cê lê pra mim e me diz alguma coisa?”

    Quem poderia ser esse autor consagrado, inseguro quanto à nova empreitada ao trocar, mesmo que temporariamente, a prosa pelos versos? Pois que não fique mais inseguro. O prosador Cristovão Tezza reencontrou-se com sua segunda voz, a da poesia. E as duas conversam como amigas que não se viam havia tempos. Com certeza ainda vão ter muito assunto pela frente.

  • Sinistros Insones, a poesia de William Teca

    A existência é uma trapaça. É isto que Teca nos diz em Sinistros Insones. Não pretendo resenhar aqui aspectos formais e cumprir todo o protocolo sobre este livro de poesia. Aliás, isto diante desse trabalho seria um crime. Sinistros Insones trata-se, antes de mais nada, de um livro sobre a dor do mundo. Parece inegável, ao visualizar a composição de que ele se vale, que estejamos lidando com uma realidade inconclusa: certamente, Sinistros Insones é a noção de um livro incompleto. Teca não se torna poeta, não se faz poeta: o agir poético reside diante da impossibilidade da conclusão de sua finalidade. Diante dessa contradição, é ele o homem dos cigarros a arder entre os dedos, a observar as polaquinhas desfilarem rebolantes pelos quiosques dos cachorros-quentes da madrugada do centro-velho de Curitiba com o umbigo de fora. A poesia em Teca é da ordem do marginal, em que o explícito e escancarado de uma realidade de uma noite mal dormida desflora ante o espectro do cansaço. É na embriaguez que se recontam os meandros das gentes que são despojos, esquecidas entre os quarteirões, nos pequenos botecos e bibocas. Teca é um Sinistro, Sinistro como aquele que voa pelo thunderbolt da praça do expedicionário, em chinelos de dedo a retomar a dura experiência da realidade como um acesso de melancolia. A cada tragada de uma proximidade com a morte, nota de imediato o fatal destino de todas as coisas numa coincidência com o viver.

    Não há paginação em Sinistros Insones. Evidentemente é um livro que não se pretende honrar à lógica e a precipitação: leia-se com cuidado e atenção. Também não iremos encontrar títulos na maioria de seus poemas. Há a despreocupação com a determinação de uma síntese, mas sim a preocupação com o vagar de um pensamento em crise. Para tal é interessante que Teca se valha de referências de toda a ordem: desde músicas do Roberto Carlos, Heidegger, até o Rubayat do Omar Khayyam. Erudito, mas da ordem do acaso, erudito distante dos homens dos pós-doutorados e da personalização do lattes e plataforma sucupira. Rebelde. É como se do vinho de Khayyam (talvez de Baudelaire?), Teca retirasse o véu daquilo que lhe causa o mal-estar e a labuta da escrita: a vida, vida crua e maldita. A matéria da carne, carne bem mijada e escatológica de um mundo espantoso, grotesco e rudimentar é o que fascina, remonta o existir o escrever. Porém, não vale a pena: escrever é o esforço inconcluso de algo infindável, uma completude que jamais alcança uma possibilidade de captura da essência das coisas. Ora Teca, é gauche na vida. É gauche da ordem do ditirambo, da alegria no interior da tristeza, acometido do irreversível feitiço da bílis negra: ser poeta.

    Ante a loucura de Dioniso na contemporaneidade, sempre a observar as sarjetas das esquinas das nossas casas, estará lá o Sinistro Insone como um flâneur atento as
    elucubrações dos dias e das gentes esquecidas. Em poucas páginas de Teca, há de encontrar a angústia do mundo num bocejo tupiniquim, das vielas curitibanas a céu aberto para o leitor atento e profundo. Vale a pena.

    Cabe a pergunta: Sinistro, quo vadis?

    Tarik Alexandre, 26 anos. Nascido em Maceió (AL), reside na Grande Curitiba (PR). Mestre e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com ênfase no estudo da melancolia a partir da teoria literária e filosofia na obra de Marcel Proust. Possui especialização em História da Arte e Curadoria pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Atualmente é graduando em Psicologia pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR). É editor-chefe da editora independente Laboralivros e da revista virtual TxTMagazine. Entre as experiências profissionais participou do Programa Curitiba Lê, programa de incentivo a leitura da literatura e das artes promovido pela Fundação Cultural de Curitiba e o Instituto de Cultura e Arte de Curitiba bem como da prática docente. 

  • Arabesco de Gustavo Jugend por Tarik Alexandre

    Se morre um ser humano muito próximo de nós, há nos desenvolvimentos dos meses seguintes algo do qual acreditamos notar – por mais que gostássemos de tê-lo partilhado com ele – só podia desdobrar-se pelo seu estar longe.  Acabamos por saudá-lo em uma língua que ele não entende mais.

    Walter Benjamin




    Gosto de notar entre os livros que resenho antes do texto em si mesmo as dedicatórias que me são dadas.  Noto nelas sempre algo elemento constitutivo do material que recebo e que, por sua vez, garante um viés interpretativo possível já que a tinta se misturou ao papel e nele se inseriu qualquer coisa de novo e pertinente. Quando recebi Arabesco pelas próprias mãos de Gustavo Jugend, muito me impressionou a caligrafia infantil e assimétrica que remete a uma amizade poética com “poucas palavras” para encontrar em minha alma um “solo vivo”.  Entretanto, reside nessa caligrafia uma característica topológica: são letras assimétricas porque se envolvem em um plano de superfícies repleta de relevos e concavidades.  Nada mais justo e conveniente para um texto que trata de “arabescos”.
    Arabesco, livro de crônicas produzidas por Gustavo Jugend (cujo título é oriundo de um texto homônimo) são dadas por um estilo feito de etereidades plumbosas, em que os relevos são íngremes e muitas vezes difíceis de galgar os pés sem por vezes escorregar ou até nos notarmos em apuros diante da constatação de que precisamos retomar as folhas mais outra vez para ler com a devida atenção já que não entendemos de imediato. Entretanto, esse esforço antes de ser qualquer coisa muito fastidiosa parece mais como uma valsa da qual o nosso empenho de forma mais generosa e dedicada nos permite dançar numa contemplação gratificante entre texto e imagem. Aliás, o grande mérito de Arabesco é a sua capacidade de utilizar cacos de vidros de imagens/linhas abstratas para compor vitrais afetuosos, empáticos e dolorosos sobre experiências da vida ordinária. Glauber Klein em seu prefácio é muito contundente em observar que esse esforço melódico entre abstração e imagem gera um trabalho feliz, pois a transparência das paisagens nos conduz a uma profundidade da pele, da singeleza que nos remete a Ethel Sands numa manhã que se refrata na calmaria da natureza morta.
    Arabesco se divide em seis recortes (Cicatriz, Fleuma, Olhos, (Na Galeria), Transmigração e a Faculdade da Ausência) de textos de maneira temática. Cada qual possui o insistente conceito que à ele se aplica na sinopse ou prefácio: Arabesco produz imagens.  A insistência do termo se dá na mesma medida em que se faz a pergunta: o que quer dizer o termo “imagem”? Talvez a mesma pergunta que poderia se aplicar a Benjamin ao mencionar o termo “imagem” a se referir a Proust. Aliás, a pertinência da pergunta é que movimenta o trabalho de Jugend de tal forma que possamos nos incomodar com a capacidade de fabricar um conceito incompreendido, ou ainda um limiar que se expande entre o pensar e o sentir de maneira indiscernível.  Ousaria dizer, portanto, que entre o pensar e o sentir de Arabesco, reside a capacidade de formar cacos de experiências que arrebatam por um conflito de abismo: olhamos para eles e eles olham para nós.  Eis a capacidade de germinação de uma gênese de um traço no deserto que se desenvolve e então retorna a um nada.
    Apesar de pouquíssimas páginas, podemos afirmar sem nenhum rodeio que é uma obra de ruminação: mais do que exatamente regurgitar para outra vez deglutir, o prazer da mastigação do que nos é oferecido é que permite a notar a beleza de uma bailarina, ou o olhar sensível a realizar um paralelo com Ernst e Kandinsky, ou a demonstração de que os vincos do rosto são uma velhice sorridente.  É no mínimo louvável a expressão oceânica e demoníaca que o Leviatã da linguagem ganha em Jugend ao buscar imensão para falar das belezas pequenas e despercebidas do cotidiano de um homem de letras a fim da fuga do esquecimento, de uma nadificação. O Pequod de um Ismael a navegar pelas vielas curitibanas, pois navegar é preciso. Gosto de me lembrar de certa tarde em que me foi indicado o famoso livro Profanações de Agamben, e pude me deparar com o texto Magia e Felicidade. Nele nos é dito que antes mesmo de uma linguagem que se expresse por significados, temos uma linguagem que  se expressa por gestos, como numa constatação de um operar mágico da vida. Sendo assim, talvez nos caiba ser em relação a Arabesco como Miguilim, de Guimarães Rosa: enxergá-lo a partir de um óculos que ele nos dá, como num golpe de sorte.

    Tarik Alexandre, 26 anos. Nascido em Maceió (AL), reside na Grande Curitiba (PR). Mestre e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com ênfase no estudo da melancolia a partir da teoria literária e filosofia na obra de Marcel Proust. Possui especialização em História da Arte e Curadoria pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Atualmente é graduando em Psicologia pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR). É editor-chefe da editora independente Laboralivros e da revista virtual TxTMagazine. Entre as experiências profissionais participou do Programa Curitiba Lê, programa de incentivo a leitura da literatura e das artes promovido pela Fundação Cultural de Curitiba e o Instituto de Cultura e Arte de Curitiba bem como da prática docente. 

  • Razões de Agir de um Bicho Humano de Vinícius Ferreira Barth

    Campainha


    No fim de tarde fui convidado para ir até um bar tomar uma cerveja.  Neste dia, ainda muito ensolarado e dourado, desci o morro do Largo da Ordem até o tal bar para honrar o compromisso. Um homem de pequenos óculos escuros, nem gordo nem magro, estava no canto da parede com a cabeleira amarrada: sequer precisei adivinhar que era o autor do Razões do Agir de um Bicho Humano. Assim que me notou, logo sorriu e entrei.
    Um abraço lá e cá, bons cumprimentos, um Camel na boca e o livro veio até a minha mão. Na capa, um feixe de luz que atravessa um cruzamento e um homem (provavelmente um executivo) atravessando a faixa de pedestres. No canto superior esquerdo o título e o nome – até bem discreto – Vinicius F. Barth. Baaaarth (é bom de entonar).  Assim que chegou o Chopp, vi que na folha de rosto tinha uma dedicatória para mim:  O Mago da Nostalgia.
    Como ele sabia?


    Hall de Entrada


    Barth é um cronópio, não resta dúvidas. O álcool tem a capacidade de nos contar muitas coisas e muitos detalhes. Porém, o que verdadeiramente interessa é a sua predileção por Famas. Somos imediatamente convidados a conhecer Julian “Jamón” Javier, o xerife local:
     – Eh! – exclama Julian
    O xerife, na sua segunda profissão depois de ocioso, é acompanhado de seu escudeirosanchopança Fim-de-Tarde, o cavalo. Ambos desfrutam de uma tarde juntos de um livro de Domenica Varella. O amor pelos poemas sussurrantes, a saber, o mundo em torno de um sussurro, claramente o comovem. Comovem não porque são bons poemas, comovem porque são sussurros de Julian – Jamón! – Javier, seu único e exclusivo poeta de tão aclamada obra na vernissage de seus sentimentos correspondentes aos poemas.  Um estilo alongado, demorado e tranquilo, comendo com sabedoria pasto raso pela praça por todo o primeiro conto. Fim-de-Tarde é o cronópio como segunda profissão enquanto rumina as estranhezas dos Famas.
    Demos um brinde enquanto fumava o segundo Camel.


    Copa-Cozinha com lavabo


    A estética entre a salivação e o luzir metálico dos talheres em harmonia com salada, cheese costela 200g de puro sabor e picles (lil’bits[1]) são producentes de um êxtase involuntário da redescoberta da fisiologia do palato enquanto método de saber. Os experimentos gastro-tópicos redativos do CNPQ são demonstrativos de um confiável olhar analítico e suficientemente clínico para notar a sintomatologia das Razões do Bicho Humano (BARTH, 2015, p.1). A confrontação quase que sutil entre as duas críticas kantianas para dar supremacia ao sublime e a capacidade imaginativa da  Crítica do Juízo  uma vez que razões e bicho são impossíveis de serem pertencentes à mesma categoria (Descartes quem o diga!), dão pequenos estalidos de cheddar com cebolas caramelizadas que apontam  para uma  desconstrução da escrita acadêmica em prol de um refogado com repolho e batatas sautés como segunda opção literária.  Trazemos à tona os comentários contundentes de Seegmiller: o ser é possível de ser concebido entre uma xícara de arroz, sal e água em fervura, mas não demais para não grudar.  Duas páginas de puro sabor e muito lattes.


    Xícara de porcelana para espresso


    Os Tópicos Cerebrais pt. I e II são excelentes temas para serem expostos durante o tira-gosto do almoço ou janta.  Baaaarth é extremamente focado em mesas redondas para enunciação das banalidades pseudo-intelectualistas, como o método de resgate de fios de cabelo ou qualquer outro tipo de meticulação racionalista monstruosa, como bem Goya e Cortázar sabiam.  Podendo escolher entre Macchiatto ou então um delicioso Moccha com raspas de esteiras de supermercado, somos convidados a compreender a ironia da fascinação pelos objetos ordinários da vida intelectual e, simultaneamente, reproduzi-los com maestria e não muitos pudores. É recomendado não utilizar açúcar ou qualquer outro substituto de glicose durante a experimentação destes deliciosos mimos.


    Escritório particular


    Curitiba é tediosa. Todo cronópio sabe disso. Depois do terceiro ou quarto copo sucessivos, se fala disso com uma naturalidade tremenda que a constatação é consensual a qualquer curitibano. Constatar, não necessariamente sentir. Quem sente é o cronópio diante do fama.  Certamente, diante de uma estante/vitrine espetacular, encontramos fotografias e alguns souvenires os itens fancies e algum MPB ecoando pelas vielas.  Carne Vazada é o conto que melhor registra uma certa boçalidade bocejante de uma cidade de mãos dadas com o hipster, tipo os móveis coloniais de algum parente seu ou dos seus próprios móveis quando embalados pelas canções de bossa nova do João Gilberto. Acompanhar a grande leitura das obras d’O Brâmane se torna uma experiência de estranhamento fantástico lá com certa proximidade de Kafka.


    Ampla Varanda de Quarto Suíte


    Os termos de Barth são sempre da ordem do absurdo. O cotidiano é tão fatigante que se torna etereidade que irrompe em caos. A esperança sempre se compõe como possibilidade para felicidade: a chance de um dia aventureiro num sábado tedioso, ou então a capacidade de construir uma balela intelectual sofisticada a partir de uma verborragia despropositada. A comida é o símbolo do prazer enquanto felicidade efêmera, a saber, o momento de delírio rápido, efetivo e passível de repetição (ou pelo menos enquanto seu estômago possa suportá-lo). A vida é uma burocracia tão insuportável que se torna  proposta para um sentido feito de gesso: oco. Lucy acorda com o sentimento de estar vivendo uma plena segunda-feira, apesar de ser terça.  Talvez não fosse eu o mago da nostalgia. Naquele bar como umamáquina de delírio, o Bicho Humano, ou Lucy, está preso nas engrenagens de porcelana da melancolia e que Barth muito bem sabia. Foi-se o meu último Camel e a luz do dia.

    Tarik Alexandre, 26 anos. Nascido em Maceió (AL), reside na Grande Curitiba (PR). Mestre e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com ênfase no estudo da melancolia a partir da teoria literária e filosofia na obra de Marcel Proust. Possui especialização em História da Arte e Curadoria pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Atualmente é graduando em Psicologia pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP-PR). É editor-chefe da editora independente Laboralivros e da revista virtual TxTMagazine. Entre as experiências profissionais participou do Programa Curitiba Lê, programa de incentivo a leitura da literatura e das artes promovido pela Fundação Cultural de Curitiba e o Instituto de Cultura e Arte de Curitiba bem como da prática docente. 

  • Surrealismo em Curitiba

    Esta “pedra fundamental” do surrealismo em Curitiba chegou até nós como uma verdadeira surpresa. Trata-se de um bonito e muito esmerado caderno de cerca de cem páginas que amplia de maneira deveras inesperada e promissora a geografia do surrealismo em terras brasileiras. O volume é editado, organizado e apresentado por Natan Schäfer, ainda que a animação desta nova ponta de lança do surrealismo corresponda também a Xavier Vásquez Freire.
    A introdução apresenta a imagem surrealista como questão crucial, que em um dos ensaios posteriores é objeto de uma abordagem por alguém que nela passou toda sua vida refletindo e se aprofundando: Sergio Lima (autor do ensaio “A imagem vista como fenômeno do ser”). Há ainda outro ensaio sobre o tema, realizado pelo doutorando em filosofia Thiago Ehrenfried Nogueira.
    Seguindo umas das melhores e mais férteis tradições do surrealismo, antes de mais nada é realizada uma reivindicação de figuras que anunciaram o movimento, que neste caso são os poetas simbolistas curitibanos Emiliano Perneta e Dario Velloso. O segundo foi criador do Instituto Neopitagórico e do Templo das Musas, o primeiro um abolicionista. Duas figuras — “dentes de uma correia de transmissão” — que despertam enorme interesse. Em outra das seções de Surrealismo em Curitiba encontramos uma série de registros fotográficos pétreos e mitológicos, realizados por Xavier Vásquez Freire e Natan Schäfer, a partir de uma deriva nos arredores da Ilha da Ilusão, onde há 108 anos atrás Emiliano Perneta foi coroado Príncipe dos Poetas Paranaenses. Há também uma incrível fotografia de Dario Velloso como príncipe templário, empunhando uma espada em meio às árvores de um bosque.
    A seção mais extensa tem como título “Rupestres” e contém poemas de Natan Schäfer e Xavier Vásquez Freire (um deles escrito a quatro mãos), aforismos de Jasmina Schmidt (autora da collage da capa, intitulada “Laura”), um cut-up de Schäfer a partir de fragmentos de obras de Conan Doyle, Karl Marx e Machado de Assis e o jogo das definições em que intervém uma dezena de participantes. Um dos poemas de Schäfer é dedicado a André Breton, Francis Picabia e ao magnífico músico Nelson Cavaquinho, enquanto que do jogo das definições, com o seu frescor de sempre, podemos citar estas quatro: “O que é o amor? É uma curva em espiral centrípeta até o infinito”; “Como nasce o desejo? Através do galope dos cavalos sobre o azul”; “O que é a persistência da memória? É uma hélice de porcelana contra um livro que arde”.
    A última seção é de collages, que tanto sucesso tem obtido no surrealismo em terras brasileiras, com Sergio Lima e o grupo Decollage. Há sete de Schäfer, três de Walter Tenorio, cinco de Xavier Vásquez Freire, duas de Jasmina Schmidt e uma realizada a três, como um cadáver delicioso (o famoso cadavre exquis dos surrealistas). Mas há ainda muitas outras imagens ao longo de Surrealismo em Curitiba: magníficos desenhos automáticos de Natan Schäfer (um par deles sobre fotos de autor desconhecido), fotos suas e de Xavier Vásquez Freire, cadáveres deliciosos por ambos e “paisagens digitais” de Stéfano de Mare Georgetti, a partir de cerimônias com ayahuasca.
    O recebimento simultâneo de Surrealismo em Curitiba e do novo poema de Sergio Lima, A boca da sombra que te ergue branca (também lançado em Curitiba), foram para mim a melhor maneira de festejar os oito anos de existência da página Surrealismo Internacional.

    Para mais informações sobre o Surrealismo em Curitiba, escreva para contraventoeditorial@gmail.com

    originalmente publicado em Surrealismo Internacional, Tenerife - ES tradução por Natan Schäfer

  • Lançamento

    Resenha do mês: bucólicos e desatinos

    (Foto: Reprodução)

    A multiplicação das pequenas casas editoriais brasileiras, processo que vem ganhando corpo há pelo menos duas décadas e parece coincidir com certo esgotamento das grandes editoras do país, trouxe a reboque um fenômeno etário quero crer inédito para a literatura brasileira: quanto mais amplas são as opções de publicação, mais cedo os autores realizam sua estreia editorial, o que obviamente nem sempre é sinônimo de precocidade literária. A rigor, muitos escritores optam hoje por verem publicados os seus exercícios de percurso, as etapas ainda incipientes de uma possível e almejada caminhada rumo à maturidade literária.

    Escrevo isto para dizer que, em que pese sua atuação à frente da editora Kotter, no papel de escritor, a estratégia editorial de Sálvio Nienkötter foi diametralmente oposta àquela anteriormente mencionada. Bucólico Desatino, sua recém-lançada coletânea de contos, constitui uma estreia lapidada e bastante segura no universo da ficção.

    O livro é dividido em duas partes. Cada seção corresponde a um dos polos da aparente antinomia que o batiza. Na primeira, intitulada Bucólicos, os contos de Sálvio dão forma a personagens de uma aldeia, todos eles marcados pela aspereza das vivências rurais. Figuras banais de uma colônia teuto-catarinense, o que eleva José, Juca, Justino, Pedro e outros de mesma origem à condição de plena humanidade é justamente o que neles há de insólito e acintoso aos bons usos e costumes, de incontinente e afronta às tradições.

    Assim, a qualidade bucólica é, antes que uma aspiração romântica, o principal traço irônico da obra. Os contos da primeira parte do livro não evidenciam a tranquilidade harmônica da vida campestre ou seus valores tradicionais de comunidade. Antes, jogam luz sobre os desatinos a que estes homens e garotos dão vazão naqueles momentos de secreto afrouxamento das regras sociais. Por estarem vinculados a uma moral excessivamente rígida e arcaica, a zoofilia, o desejo incestuoso, a homossexualidade e outros comportamentos tidos pela moral dominante do lugar como perversões, aparecem na ficção de Sálvio como uma espécie de ponto de fuga
    destas vidas comezinhas, marcadas a ferro e fogo pelos impulsos repressores da coletividade. Daí a sensação de culpa, praticamente onipresente nesta primeira seção do livro.

    Em Desatinos, segunda parte do volume, o tom é outro. Saímos do ambiente rural e nos deparamos com a atmosfera opressora de hospícios e comunidades falsamente terapêuticas, dominados pelo sentimento de asfixia das burocracias estatais e dos jogos de espelhos das consultas psiquiátricas. Formalmente, estão aqui alguns dos contos mais ousados do livro, a exemplo de Em Cruz e Ilhada, texto que encerra a obra e, do ponto de vista narrativo, adota um aspecto mais experimental, confundindo diferentes vozes e perspectivas. Em termos temáticos, de comum com a primeira parte do livro, só mesmo esta necessidade transgressora que, embora assuma formas diversas conforme o ambiente, amiúde é componente incontornável da condição humana.

    Estilisticamente, porém, há ainda outros focos de convergência, a exemplo de sua formidável economia verbal. Nos contos de Sálvio, não há excessos desnecessários, o que vincula seu estilo a uma tradição de síntese bastante cara aos seus melhores conterrâneos do Paraná. Por falar em contenção de linguagem, clichê inescapável, em Bucólico Desatino, a influência de Dalton Trevisan se revela não apenas na presença implacável do estilo lapidar, com frases curtas e objetivas, como, sobretudo, também no cultivo de certa oralidade de verve coloquial, além da opção pelos temas sujos e nada exemplares – especialmente na primeira e melhor parte do livro.

    Aqui, aliás, vai o principal ponto baixo do volume. Tematicamente, as duas seções da obra parecem divorciadas a tal ponto que, no conjunto, a segunda parte do livro, ainda que formada por contos interessantíssimos, soa como um anexo à primeira, em tudo mais fiel à proposta geral da obra. Isto porque, logo à abertura do volume, o leitor se depara com uma nota editorial de sabor oitocentista, ainda não mencionada neste texto. A advertência indica, como na melhor tradição epistolar, certa origem misteriosa do material ali reunido: todos os textos da primeira parte, além do conto Frederico, da segunda seção, teriam sido encontrados pelo autor no sótão de um paiol de uma casa de campo comprada por sua família, em uma colônia alemã de Santa Catarina. Ora, diante de tal advertência, não seria mais interessante (e esteticamente coeso) limitar o volume somente aos contos que se irmanam nesta origem metaficcional?

    A crítica, porém, não implica em prejuízo no gozo contínuo que os contos de Bucólico Desatino proporcionam ao leitor. Catarinense radicado em Curitiba, em sua estreia literária, Sálvio Nienkötter nos oferece um conjunto de narrativas breves marcadas por uma linguagem consciente de seus recursos, que aposta alto na tradição em detrimento da pirotecnia pretensiosa dos vanguardismos despropositados. Quer dizer, transparece na sua literatura a presença forte do leitor cultivado, que sabe de onde vem e para onde vai, o que também é sinônimo de uma escrita honesta, que se levanta sempre como homenagem aos grandes cultores da língua, mais do que mera veleidade de poeta. Esperemos, portanto, que o autor continue nos presenteando com seu belo trabalho de editor pelos próximos anos, mas que com isso não lhe falte tempo para alimentar esta outra obra literária, que leva seu nome desde a capa e, mais do que isso, seus paratextos o denunciam, carrega as tintas de sua própria experiência de vida, entre bucólica e desatinada.

  • Dos aforismos de Christian Schwartz aos conselhos poéticos da Paris Review: o poder oracular da literatura

    No número 10 da helena, a revista trimestral de ideias, artes e cultura da Biblioteca Pública do Paraná, leio com satisfação o artigo do Christian Schwartz chamado “A minha própria bíblia“. Ele trata do aforismo e, entre dezenas de belos exemplos dessa singular arte da literatura, chega à conclusão que o ele é “um ensaio a conta-gotas, cheio de humor e veneno”.

    É uma bela definição, sem dúvida, mas o que me chamou particularmente e atenção, foi primeiro o título (“A minha própria bíblia”), somado à revelação (para mim, que sou um tanto lerdo) de que o aforismo é anterior à própria literatura. Além disso, autores apontam o I-Ching como pioneiro nesta forma de escrita, que seria próxima ao “oracular”.

    Schwartz lembra então que em seu primeiro apartamento longe da casa dos pais, entre móveis raros, alternava “‘consultas’ ao I-Ching e passagens aleatórias do ‘Livro do desassossego’, de Fernando Pessoa.”

    Isso me afetou particularmente porque lembrei logo de um poema que fiz e está publicado no meu livro “Punkpoemas”, em que também aproximo a poesia a essa capacidade de nos servir como apoio oracular e quase religioso. Publico esta poesia ali abaixo.

    Curioso que também antes de ler o ensaio do Christian Shwartz havia passado a acompanhar semanalmente a coluna da revista Paris Review em que poetas selecionados respondem cartas de leitores indicando poemas para certos problemas ou situações expostas por esses. Sim, poesia como forma de aconselhamento. A coluna é a Poetry-RX e poetas residentes – Sarah Kay, Kaveh Akbar e Claire Schwartz (o sobrenome é só coincidência) – se revezam prescrevendo os poemas em resposta às questões dos leitores. Os poemas não vêm sozinhos, como única resposta, mas são lançados como início de uma reflexão sobre os problemas apresentados. Recomendo a leitura.

    Aforismos, poesias ou I-Ching são uma espécie de autoajuda diferenciada. Não te dão uma ordem, mas fazem pensar sobre a vida e suas encruzilhadas. Podem usar o humor, a filosofia, o poder oracular, seja lá o que for, mas temos de saber interpretar. Vocês acreditam nisso?

    Agora, encerro com meu humilde poema:

    Descontrole

    Abro livros de poesia
    Como se fossem Bíblia, Alcorão, I Ching
    Procurando extratos de autoajuda

    Se não explicação, um mínimo de conforto

    Mas as palavras embaralham-se
    E descartam incompreensão

    Seu rosto lindo que não mais beijarei
    Olha-me mico mocado no monte

    Não consigo desfazer-me de você
    Cachorro tocado que volta ao antigo dono
    Sem consciência de já viver o abandono
    Nesga de amor que nos negamos
    A quem pensa que enganamos?

  • Poemas de Rodrigo Madeira

    Baldio, e o êxtase contemplativo

    (Foto: Reprodução)

    Texto por Marco Aurélio de Souza

    Rodrigo Madeira é natural de Foz do Iguaçu, mas vive em Curitiba desde 1992. Publicado em parceria pelas editoras Kotter Editorial e Ateliê Editorial, Baldio (2018) é seu terceiro livro de poemas. Para além de sua bela edição, com arte de capa assinada pelo saudoso (e também poeta) Marcelo D’Angelis, o livro impressiona pela quantidade de poemas: são mais de setenta, reunidos num volume que, conforme subtítulo, passa em revista uma produção poética de quase uma década (2009-2017).

    Desde o ponto de vista de quem criou grandes expectativas à leitura de Pássaro ruim, segundo livro do autor, este Baldio apresenta um poeta ainda mais maduro, consciente de seus recursos, afiado em suas imagens – sua trajetória poética oferece uma série de lições sobre o que podemos chamar de uma construção da voz: embora jovem, Madeira é poeta já formado, quer dizer, o autor apresenta um conjunto de assinaturas que auxiliam o leitor no mapeamento de sua linguagem (as veias de sua poética saltam aos olhos como se em busca de algo que existe fora do corpo). Aqui, porém, o poeta não nos oferece a mesma perambulação suja pelas travessas curitibanas, nem mesmo uma balada para o catador de papel, mas seu universo lírico continua colado àquilo que assusta aos adeptos da gentrificação, passeia entre os insetos, fita nos olhos do revólver carregado.

    A erudição do poeta, porém, está mais evidente do que nunca. O intertexto marca fundo a pele de seu livro, muitos poemas dialogam com outros poetas, oferecidos a seus contemporâneos ou aos mestres que latejam dentro de sua garganta. Há peças borgeanas, poemas para Paul Klee, Kazuo Ohno e Chet Baker – trata-se de um livro denso, é evidente, melhor fruído por quem guarda alguma biblioteca à cabeça. Prova de sua habilidade na esgrima da palavra, em certos momentos, o poeta não apenas dialoga com os gigantes de sua arte como ousa escrever à língua de seus interlocutores: em “federico”, Rodrigo Madeira exercita o espanhol, em “cum(mings)”, vaza seu texto em inglês – seu verdadeiro alvo, porém, vai sempre ali, no latim das moscas.

    Em que pese a erudição mencionada, seu mesclado entre alta cultura e arranjos sebosos guarda momentos de simples êxtase contemplativo. Seu lirismo escorre daquilo que vai entre o belo e o patético, o afável e o grotesco, encontrando no capim ao entorno de uma igrejinha abandonada o prazer da existência que outros, com pálpebras mais grossas e vadias, não conseguem ver senão como um erro de programação. E como não amar a poesia que sussurra em sua mente que “o dia é apenas/a pálpebra da estrela”?

    Em outra oportunidade, o autor deste livro nos confessou ser o assassino de Paulo Leminski, afirmando com isso uma estatura própria, que somente o poeta verdadeiro alcança. Nem precisava dizer. Sua poesia guarda uma dicção pessoal que, é evidente, só se erige ao sabor acre de uma morte carregada: gesto de quem sabe da impossibilidade de habitar qualquer outro lugar que não o interstício, o vão e o baldio. Pelo pus que vaza de seus poemas, pela ferrugem em seus olhos de pedra, pelos insetos que o rodeiam como se próceres da natureza, por tudo isso e mais, Rodrigo Madeira encontra um lugar à mesa dos que praticam versos como quem assume uma profissão de fé na eternidade: dança em palavras como varejeira colorida bebericando insuspeita pelos bebedouros do tempo.

    [Baldio, Rodrigo Madeira – Kotter Editorial, 2018]

  • O poeta de Racho de Romã e Água Mineral, Rollo de Resende segundo Adriano Smaniotto

    Poesia em Curitiba é artefato raro e de qualidade. Invisível, mas nem por isso inexistente. Não que não haja um circuito: entre os poetas que sobrevivem ao olvido há um certo capital cultural, por meio do qual autores, obras e eventos resistem à velha autofagia arraigada na Província. Difícil fazer e divulgar poesia entre os locais, tarefa que se resume ao conluio entre os pares. Muitos sequer se tornam conhecidos numa amplitude maior, devido às circunstâncias nem sempre lógicas que regem os prestígios e desafetos. Esta sina fica mais evidente quando olhamos para a poesia feita na década de 1990, cuja figura leminskiana, não sem mérito, sobranceia os demais autores. Dentre estes, urge destacar a poética de Rollo de Resende (1965–1995), que escreveu, publicou, ensinou poesia e muita gente daqui e de outras terras sequer o conheceu.

    Reginaldo Possetti de Resende nasceu em Cambará, norte do Paraná, no dia 15 de agosto de 1965. Leonino com ascendente em Gêmeos, “lua cruel em Peixes” – segundo o próprio.

    Seu gosto pela poesia foi despertado na adolescência, ainda na cidade natal, num grupo de 14 alunos que viviam “na cola das escolas literárias e de seus representantes”.
    Segundo a mini-biografia, presente no livro “Água Mineral”, não passou em dois vestibulares, “porque na hora da redação escrevia poesias”.
    Em Curitiba, ganhou a alcunha carinhosa de “Rollo”, devido à semelhança, principalmente o cabelo, com o personagem da Turma da Mônica, de Maurício de Souza. O cabelo encaracolado e a barba rala por fazer eram-lhes comuns. Além de poeta, Rollo também gostava de panificar, de cantar (blues) e de pintar. Na sua liberdade e atitudes, antecipava muito da irreverência e ousadia hoje em voga. Assumia seu homossexualismo, numa época em que tal orientação sexual era considerada uma perversão, uma doença, um mal. Ligado às questões místicas, se investia delas e de coisas do cotidiano para compor.
    O artista gostava de transitar na Rua XV, flertando e colhendo poesia: “as florinhas roxas do poejo./ a quem agradeço os poemas que me interpelam?/ enquanto
    cozinho, um convite/ para santificar-se/ à noite, desço a XV. / Abordo em bom tom e posso vir a embarcar. / Falsifico a pressa. /Estou caçando.” (Água Mineral, p. 51)
    De fato, Rollo permite que aspectos urbanos influenciem seus versos, de modo que ruas famosas da capital, como a própria rua XV, aparecem em várias de suas
    composições, como uma trajetória pertinente ao poeta. Muito do que ele via ao longo da XV, em seus passeios com Stella (a irmã) ou com sua psicóloga – “A companheira de viagens e vigílias” – tornava-se matéria de poesia, receita que em nossa geração ficou marcada: “no meu bolso/ o menor papel/ onde se lê/ um endereço/ escrito pela bic/ da vendedora de/ cachorros-quentes./ coisas que só de noite./ correr o mundo/ e acabar sempre/ passando pela XV.” (idem, p. 20)
    Sua trajetória poética foi breve, porém intensa. E a revelação, repentina, através do Concurso Helena Kolody – iniciado em 1980. Inscrito no certame, Rollo passou a ser
    classificado com frequência, quase sempre com mais de um conjunto de poemas publicados nas Antologias. (O concurso exigia um mínimo de três poemas de cada
    autor; Rollo muitas vezes era escolhido com nove deles.)
    Esta presença na Antologia do Concurso era exemplo para os poetas de sua geração, como Jane Bodnar, Stella de Resende (sua irmã), entre outros; bem como paraos novos que viam na sua poesia um misto de erudição e liberdade, de lirismo e sensibilidade, seriedade, descompromisso e atualidade que traduzia muito do que vivíamos.

    “Naquele início de décadas fomos versáteis e ecléticos”, anunciava Rollo em um de seus poemas, ressaltando um paradigma que hoje permite definir a aura dos anos 1990.

    Foi inclusive, por meio de um amigo de geração e poesia, Márcio Davie Claudino, que travei contato com seus poemas, que logo me cativaram. Nós, Patrícia Claudino, Márcio Claudino, David Nadakini, Fernando Koproski e eu – o grupo Intervenção – volta e meia éramos surpreendidos por um poema de Rollo, publicado na tipografia da Feira do Poeta, à época, 1993, sob os cuidados de Nivaldo Lopes (o ‘Palito’) e Marcos Saboia, os quais nos incentivaram na formação do grupo, na escrita da própria poesia e na descoberta da tradição paranaense. Rollo era então pra nós, ao lado de outros, como Marcos Prado, Jaques Brand, Thadeu Wojciechowski, Batista de
    Pilar, Alice Ruiz, Ricardo Corona, referências de poetas já maduros e proficientes, cume que ansiávamos galgar.
    Lembro-me de que Márcio decorou o poema de Rollo sobre a madrugada boêmia pela XV, e cada vez que ele declamava era a nossa realidade que estava ali:


    “Pela madrugada o vento levantando papéis-carbono/ pela madrugada, alguém enfiando uma argola em seu mamilo/ (...) de madrugada, tomamos o expresso e vimos/
    uns outros tantos, entornando vômitos./ (...) ilustres anônimos: a madrugada é nossa!/ podemos ir cantando alto.”


    Isso que Rollo registrava era a nossa realidade, pois ainda não era tempo de piercings e tatuagens serem bem-vindos e comuns, tampouco as liberdades estavam
    garantidas e amparadas pela câmera de um smart phone; assim ele traduzia em parte o que era ser jovem numa cidade ainda apagada artística e culturalmente, diante do eixo Rio-São Paulo: beber pelo Largo da Ordem, apanhar da polícia, cruzar com punks e darks, encarnar a boemia da poesia e vice-versa.
    O poeta estréia em 1988 com o livro “Bem Que Se Aviste Racho de Romã”, 21 poemas marcados pela ausência de títulos, de rimas e de estrofes metrificadas, bem ao
    gosto modernista. Por esses aspectos, mais o uso de minúsculas (à Cummings) e a abordagem temática breve, sua poesia possui pontos de contato com a poesia do
    fragmento, pautada pelo crítico Benedito Nunes. Em seguida, em 1991, publicou em página dupla no jornal “Nicolau”, alguns poemas sob o título de A Sublime Deriva.

    Com Jane Sprenger Bodnar e Fernando Zanella, em 1992, compôs o projeto Homeopoética, que consistia em poemas curtos publicados em cápsulas, no afã de
    divulgar poesia em doses homeopáticas. Paralelamente, ministrava oficinas poéticas e atuava no grupo Baú de Signos, com as parcerias já mencionadas e Hélio Leites, dos
    inolvidáveis botões...
    Em 1995, o livro “Água Mineral” reuniu inéditos, dispersos e alguns poemas antigos, cujo lançamento contou com a presença de Rollo, já um tanto abatido pelos
    efeitos da AIDS, doença que o levaria à morte. Nesse sentido, o artista foi um exemplo local desta síndrome que marcou os anos 1980 e 1990 e arrastou consigo artistas
    nacionais e internacionais, tais como Freddy Mercury, Cazuza, Renato Russo.

    SOBRE A POESIA RESENDIANA


    De início, o que me fascinou na poesia de Rollo era a ausência de títulos e letras maiúsculas nos poemas, como se aquilo fosse um aparte, um pedaço, um flash do
    cotidiano, algo para se completar. Havia muita influência da poesia marginal em sua poesia (Cacaso, Chico Alvim, Leminski). Parecia que naqueles poemas breves sobre o
    cotidiano se revelava a essência da poesia: “qualquer revelação mínima/ é uma revelação do mundo”.
    Era interessante ver como objetos cotidianos, muitas vezes desprezíveis, tornavam-se importantes: “preciso de um calendário/ uma caderneta/ comprar sal grosso/ linha branca/ encontrar pelo chão/ clips/ botões/ lascas de unhas, fios de cabelo/ para que a poesia/ arma zen/ aconteça.” (V Antologia do Concurso Helena Kolody de Poesia, p. 87).
    Rollo também fazia muitas referências à palavra e ao livro, como “seres” mais que instrumentos que o inspiravam, uma vez que era leitor apaixonado e também ministrava oficinas de poesia: “Encontrá-los empoeirados/ habitando uma sala em promoção/ esses livros. Poder enfim lê-los/ porque até então/ era ouvir falar, ouvir falar (...)”.


    Dessa forma, para nós, sua poesia era também um incentivo ao conhecimento, à leitura. E talvez seja um seu aspecto notável, mostrar como um poeta se faz, se constrói
    literariamente. Suas brincadeiras com a linguagem eram relevantes, pois atentava para a sutileza e beleza que cada vocábulo carrega, descobrindo-as e ressignificando-as: “(...)
    maizena vem de maíz, não lhe parece?/ Thais Thá é algo assim como Gilberto Gil, só que mais ao sul do alfabeto”.

    Outra: “ele entorta a boca para melhor morder sua gengiva/ (...) / ele gosta de papéis/ sinais vindos/ do céu e palavras.// ele aviva.” Ou ainda: “(...) então rendo graças a esses objetos/ que agora me deixam:/ a colher de pau (...)/ a panela de barro (...)/ a mochila que devolvo ao tião, esgarçada/ tudo isto/ transformava-se/ no livro/ que
    não é// me livro.”


    O lirismo sentimental, sensível e terno, assinala igualmente sua poesia. Rollo apreende com ternura certas situações e as registra de forma leve e tocante. É assim no
    trajeto citadino: “todos os dias/ refaço a mesma rua,/ nostálgico./ quero encontrar/ de quem arrancaram-me./ vivo imantado”. (Água Mineral, p. 59)
    Ou a surpresa dos encontros: “pode ter saído de um romance de Pasolini (um dos seus ragazzi de vita) ou de um poema de Konstantinos Kaváfis// mas não,/ veio a
    mim aqui mesmo do lado de fora da vida/ e mais,/ na verdade iria ao encontro de qualquer um.” (Idem, p. 60)


    Ou mesmo diante da morte que o aguardava: “anjo em guarda/ nenhuma haste tua/ que me absolva// deixa supor/ que nos salvaremos/depois// na hora/do poço/ do
    elevador.” (Idem, p. 68)


    Aspecto relevante é a presença lírica no tratamento da temática homossexual. O poema Nunca Irei Escrever Alguns Poemas, feito para o companheiro vitimado pela Aids, é um nítido exemplo:
    entrava luz sinistra fim de tarde/ [...] tudo viu este que entrou/ o quarto branco para dois/ tocou a mão amarrada/ e a mão se amarrou/ (...) coberto com lençol pastel/
    o doce relevo de seu sexo eu não pude deixar de desejá-lo/ mesmo as amarras o caninho/ os olhos indo e vindo/ a luz sinistra/ você estava desejável;/ eu quis que você
    vivesse./ esta era a promessa de nossa amizade:/ um dia eu iria tocá-lo. // amor dos homens.
    O amor que sublima a morte, o sentimento que se prolonga para além da vida, marca esse “amor dos homens”, verso plurissignificante e sublime.
    Por força de tempo e espaço, despeço-me do leitor e do bardo, saudoso daquela triste tarde no Hospital do Trabalhador em que eu e Márcio Claudino fomos visitá-lo.
    Ao ver-nos adentrar seu quarto, Rollo exclamou “– Baco!”, provavelmente pelo aspecto atlético de Márcio, alcunha com que o trato até hoje em memória afetuosa daquele
    evento.

    “NAS ÚLTIMAS RESERVAS”

    Também naquele hora, ao vê-lo com tantas manchas roxas pelo corpo, não pude deixar de lembrar de seus versos: “estou nas últimas reservas das sementes/ (...) eu
    adquiri uma alma violácea neste cansaço”.


    Ali um de nossos mentores culturais nos dizia – apenas corporeamente – adeus, mas nos ensinava algo não muito em voga na poesia da época e na atual: escrever a vida
    que se leva e vive, ainda que fragmentária, mínima e passageira, “ir no seu barco para o fundo ou para a beleza”.


    Rollo morreria três dias depois.

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    Adriano da Rosa Smaniotto (Curitiba, 1975) é professor da rede pública estadual. Autor de vários livros de poesia, entre os quais “Vísceras à vista”. Doutor em Letras pela UFPR.



  • “Para ler enquanto escolhe feijão”, da londrinense Edra Moraes

    Edra Moraes é uma poeta de inquietudes cujo olhar quase sempre está voltado à condição feminina. Longe dos anteparos das páginas de revistas não se contenta com as imagens rasas – vai mais a fundo. Esse mergulho num universo de humanas certezas e contradições ganhou forma de poemas enfeixados sob o título “Para ler enquanto escolhe feijão”.
    Esta é a segunda obra literária da autora – em 2010 publicou “Da divina, da humana, da profana” que integrou o projeto “Tríade”, uma caixa poética contendo mais dois volumes assinados por Célia Musilli e Beatriz Bajo. Também participou da antologia “O fio de Ariadne”, ao lado de Adriana Vitorino, Christine Vianna, Célia Musilli, Elisabete Ghisleni e Samantha Adreu. Todas londrinenses.
    Porém, o novo livro de Edra Moraes nasce com um peso inédito por ter sido premiado pela Bolsa Criação Literária 2014, da Biblioteca Nacional.
    Em outras palavras: este projeto foi selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Diz a poeta que “o fato de ter sido
    aprovado pela Biblioteca Nacional me deu mais responsabilidade, fiz muita pesquisa sobre o tema. Eu me dediquei a ele”.
    Assim como trouxe uma carga a mais de responsabilidade, também conferiu a ela uma segurança que não tinha até então. “O reconhecimento que recebi veio de pessoas desconhecidas, que não formavam meu círculo de amigos. Para os amigos tudo que a gente faz está bom, eles dão apoio, incentivam, mas a gente fica pensativa se está no caminho certo, se é isso mesmo, porque amigo é amigo, vai mais pela afetividade do que pela
    avaliação isenta daquilo que leu”.
    Na criação dos textos os questionamentos foram inevitáveis: “Aquilo que eu sentia e sobre o qual escrevia, era o mesmo sentimento vivido por outras mulheres? Eu estaria refletindo algo universal ou era tão-somente uma inquietação minha? Houve muita reflexão para algo que é comum,
    afinal falando de mim, falo de todas as mulheres”.
    Edra reconhece que o tema feminino é recorrente naquilo que produz. “É uma característica minha”. Para ela seus poemas são confessionais à medida que aborda comportamentos, sentimentos, reações naturais à condição da mulher. O encadear das narrativas não representa, necessariamente, uma exposição de acontecimentos particulares.

    Profissional de marketing e eventos, produtora cultural e curadora do LONDRIX – Festival Literário de Londrina, desde 2009, idealizadora do Movimento Londrina Criativa, entre outras atividades, Edra Moraes batizou seu livro tomando por imagem uma velha lembrança – a da mãe escolhendo feijão, atividade diária que ficou no passado. “Era uma forma de ficar só, consigo mesma, refletindo. Todas as mulheres vivenciavam esse momento”, diz.
    “Para ler enquanto escolhe feijão” tende a um olhar sobre o antigo, e para isso contribui a ilustração da capa idealizada por Daniele Stegmann, inspirada nas Iluminuras Irlandesas, além do próprio título, carregado de referências e um tom ao mesmo tempo melancólico e atemporal. “Talvez ele seja tão antigo como a discussão da condição feminina”, avalia a poeta.

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