• O sofrimento nunca é angelical

    ** A Vida É Palco também para a pesquisa na área de comunicação!

    E esse aqui é um resumo do trabalho de graduação da jornalista paranaense Rafaela Lorenzen:

    As crianças têm sido vistas como seres angelicais e inofensivos e, por muito tempo, isso foi um problema para inúmeras delas. Muitas crianças podem sofrer de transtornos psicológicos infantis, mas, por terem esse esteriótipo, o comportamento fora do padrão costuma ser vistos como malcriação. No passado, ele era "resolvido" com castigos e punições. E hoje, será que isso mudou?

    Os transtornos psicológicos infantis ainda são um tabu na sociedade, mas são uma realidade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) comprovam que 20% das crianças e adolescentes sofrem com algum transtorno mental.

    Produzido pela jornalista recém-formada Rafaela Lorenzen (foto), a websérie "Universo Interno - Um olhar sobre a Psicologia Infantil" discute essa temática em quatro episódios que abordam diferentes transtornos psicológicos que afligem as crianças e adolescentes. Especialistas, famílias, responsáveis e até mesmo alguns dos adolescentes contam a sua trajetória desde o diagnóstico até os dias de hoje.

    Veja aqui a websérie completa.

    Aqui o primeiro vídeo:

  • Teatro e desenho para crianças

    Teatro e desenho para crianças

    O musical “Zum Zum Zum”, que está em cartaz no Teatro Zé Maria até o dia 11 de agosto, busca despertar as crianças para a beleza das coisas simples da vida, desde os detalhes da natureza ao valor das relações de afeto. Em harmonia com a temática do espetáculo, o grupo Tupi Pererê decidiu fazer uma promoção sustentável e afetiva. É isso mesmo. As crianças que transformam o flyer do espetáculo em um lindo desenho ganham o direito de meia entrada para os pais ou para quem quiserem presentear.

    Para participar da ação, as crianças precisam adquirir o flyer do espetáculo que está à disposição na bilheteria do Teatro Zé Maria Santos e em diversos pontos culturais da cidade. Atrás do papel, há um espaço em branco especialmente preparado para que o pequeno crie um desenho inspirado em uma das estações do ano. No dia da apresentação, basta entregar a criação e receber o desconto de meia-entrada que pode ser repassado a um adulto por quem a criança tenha afeto.

    Os flyers desenhados ainda irão compor um painel artístico que tem o objetivo de valorizar a arte dos pequenos e fazer com que se sintam parte do musical “Zum Zum Zum”. De acordo com Guga Cidral, artista educador do Tupi Pererê e um dos idealizadores do grupo, “diante de um mundo onde papéis são criados e jogados ao lixo com tanta facilidade e despropósito, a promoção é um incentivo à sustentabilidade e uma valorização às relações de afeto, ensinando a criança que ela pode reaproveitar o que parece ser descartável e presentear aqueles a quem ama”.

    O grupo Tupi Pererê fica em cartaz com o musical “Zum Zum Zum” em todos os sábados e domingos, sempre às 16h, até o dia 11 de agosto. O ingresso custa R$ 15,00 a meia e pode ser adquirido desde já na bilheteria do Teatro Zé Maria ou pela Internet, pelo Ticket Fácil (www.ticketfacil.com.br)

    Saiba mais sobre o grupo Tupi Pererê

    Encantar e reencantar adultos e crianças com o que existe de mais lúdico na cultura brasileira. Essa tem sido uma das missões do grupo Tupi Pererê nesses 10 anos de história. Para colocar isso em prática, a trupe tem utilizado uma receita que é a cara da infância e tem como ingredientes variadas linguagens artísticas. Seus trabalhos contam com muita música e passeiam pela contação de histórias, o teatro, as artes visuais e a literatura.

    O grupo possui ampla vivência em ações voltadas a instituições de ensino. Essa experência fez com que projetos ousados fossem desenvolvidos. E o que no início era um grupo musical para crianças, se transformou em uma trupe artística em prol da infância e composta por profissionais com formações variadas que se dividem no papel de músicos, cantores, atores, educadores e artistas plásticos. São eles: Guga Cidral, Raquel Stapassoli, Daniel Arenhart e Rodrigo Fonseca.  Hoje, esse quarteto também já ganhou os espaços culturais da cidade com um repertório de cinco shows, dois musicais e duas oficinas. Na bagagem, mais de mil apresentações, cerca de 100 mil expectadores, parceiros de peso e uma coleção de gestos de carinho de crianças e adultos.

    SERVIÇO

    Grupo Tupi Pererê apresenta

    Espetáculo Zum Zum Zum

    Data: De 27 de julho a 11 de agosto, aos sábados e domingos.

    Horário: sempre às 16h

    Local: Teatro Zé Maria

    Endereço: Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco

    Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

    Na bilheteria do espaço no no site www.ticketfacil.com.br

  • 40 anos de bonecos (e) humanos

    40 anos de bonecos (e) humanos

    São 40 anos de histórias com mais de 30 espetáculos montados. Essa é a trajetória da Cia Filhos da Lua, que será apresentada durante os meses de agosto e setembro em diversos espaços culturais de Curitiba. A primeira etapa dessa viagem no tempo acontece de 17 a 25 de agosto, aos sábados e domingos, no Guairinha, onde a companhia apresenta algumas de suas montagens mais recentes para o público infantil: "A Menina e o Lampião" e "O Cavalo Branco de Muriah".

    Além dos espetáculos, o público poderá conhecer a história da Cia Filhos da Lua por meio de uma exposição de bonecos e materiais cênicos datados desde as primeiras produções, iniciadas em 1979. Toda a programação é gratuita e acessível a toda família.

    Desde a sua fundação, a Cia Filhos da Lua vem trilhando um caminho original na produção cênica contemporânea com montagens que refletem a pesquisa da integração do Teatro de Bonecos com o teatro de figura humana e com diversas formas de expressões artísticas como: música, dança, artes visuais e literatura. “O Filhos da Lua passou por diversas fases ao longo desses 40 anos de estrada, sempre escrevendo e encenando uma dramaturgia que conversa de perto com todas as idades e bebe na fonte da poesia e da cultura popular brasileira em suas produções”, afirma o diretor e dramaturgo Renato Perré.

    Perré é figura chave na companhia, que também é composta pelo filho dele, o ator e músico Candiê Marques e parceiros de projetos, como Mauro Zanata, Adriano Esturilho, Doriane Conceição, Rafael Barreiros, Judy Fiorezi, Carolina Maia, Cia dos Palhaços entre outros. O fruto desse trabalho são alguns prêmios de peso como Gralha Azul, edital Oraci Gemba e prêmio Funarte de dramaturgia. 

    Os 40 anos da Cia Filhos da Lua também serão comemorados de 29 de agosto a 01 de setembro no Teatro Zé Maria Santos, numa programação para jovens e adultos composta pelos espetáculos “Teatro, Que História É Essa?” e “Tempo - Tragicomédia Inacabada”.

    Para finalizar, de 14 a 22 de setembro a programação acontece no Espaço Fantástico das Artes, novamente com mostra de espetáculos para o público infantil, composta pelos espetáculos: “Aniversário de Palhaço o que é?”, “Terezinha - História de Amor e Perigo” e “Gato e Dona Chica”.

    SERVIÇO

    40 anos Cia Filhos da Lua - Mostra de Espetáculos e Exposição

    Guairinha - para crianças

    “A Menina e o Lampião”

    17 e 18 de agosto às 16h

    “O Cavalo Branco de Muriah”

    24 e 25 de agosto às 16h

    Teatro Zé Maria Santos - para adultos

    “Teatro, Que História É Essa?”

    31 de agosto e 1º de setembro às 20h

    “Tempo, Tragicomédia Inacabada”

    7 e 8 de setembro às 20h

    Espaço Fantástico das Artes - para crianças

    “Aniversário de Palhaço o que é?”
    14 e 15 de setembro às 16h

    “Terezinha - História de Amor e Perigo”

    21 de setembro às 16h

    “O Gato e Dona Chica”
    22 de setembro às 16h

  • Tevê vira comédia em peça do Antropofocus

    Tevê vira comédia em peça do Antropofocus

    O grupo curitibano Antropofocus completou 18 anos de atividades e continua pesquisando a diversidade da comédia e do humor em seus espetáculos.

    Agora a trupe volta aos palcos para uma curta temporada com seu premiado espetáculo "NO DIA SEGUINTE – A QUASE HISTÓRIA DA TEVÊ BRASILEIRA", nos dias 27 e 28 de julho, no Guairinha.

    Em seu mais recente trabalho, tendo como pano de fundo os aspectos históricos do surgimento da televisão no Brasil e como o improviso supria, muitas vezes, a falta de conhecimento técnico sobre esta nova mídia, "NO DIA SEGUINTE – A QUASE HISTÓRIA DA TEVE BRASILEIRA" retrata questões relevantes da atualidade, e propõe uma reflexão sobre a manipulação dos veículos de comunicação, levando ao palco a fictícia estreia da tevê ao vivo no Brasil, uma sátira que mescla informações e lendas sobre a chegada da TV no país, com referência a programas e personalidades da atualidade.

    O espetáculo conquistou sete indicações ao Troféu Gralha Azul, premiação aos destaques da produção teatral paranaense, concorrendo nas categorias de melhor spetáculo, melhor direção, melhor texto, melhor trilha sonora, melhor figurino, melhor ator coadjuvante e conquistando o prêmio de Melhor Atriz para Anne Celli.

    Como não havia ainda a tecnologia para gravação em videoteipe, tudo era feito ao vivo e acidentes eram inevitáveis. Tendo como pano de fundo os aspectos históricos do surgimento da televisão no país e como a técnica do improviso supria, muitas vezes, a falta de tecnologia, o grupo encontrou o mote perfeito para concretizar a junção entre as linguagens pesquisadas ao longo desses anos: criação de dramaturgia, improvisação, música ao vivo, vídeo e transmissão ao vivo.

    SERVIÇO

    Dias 27 e 28 de julho (sábado as 20 hrs e domingo as 19 hrs)
    Local: Guairinha
    Ingressos: 40,00 (inteira) e 20,00 (meia-entrada)
    Vendas de ingresso: Ticket Fácil – www.ticketfacil.com.br ou na bilheteria do teatro Guaíra
    Informações: 3304-7953

  • Apê-teatro reabre as portas

    Apê-teatro reabre as portas

    O apartamento com maior concentração de artistas por metro quadrado em Curitiba convida para a programação do segundo semestre.

    Estive lá e posso atestar: rola grande sinergia entre o conceito de balada e o de espetáculo.

    As apresentações são curtas, fruto de pesquisas dos envolvidos, e trazem um pouco do teatro contemporâneo brasileiro e internacional.

     

    Teatro de segunda: são apresentações às segundas-feiras (dia de folga dos artistas) em que ocorrem leituras de textos de dramaturgos contemporâneos, em geral aos quais não se tem muito acesso. A galera senta no chão para ouvir, em reverente silêncio.

     

    “O ambiente informal da leitura, a generosidade e postura que os artistas devem ter são

    conseqüências do evento ser feito dentro de um apartamento onde as pessoas possam se

    sentir realmente em casa”, diz Eduardo Ramos, um dos idealizadores do Teatro de Segunda

    junto com os dramaturgos Don Correa e Marcelo Bourscheid. “Fizemos este evento por 2 anos e retornamos justamente sentindo que é um momento muito apropriado para reunir artistas e pessoas que queiram partilhar e estar próximo da arte”.

     

    Residência para atores

    Pela segunda vez, o AP da 13 promove sua residência (programa de crescimento em que artistas desenvolvem juntos suas ideias e as apresentam ao final).

    Com duração de três meses, neste ano o trabalho é feito a partir das pesquisas desenvolvidas pela Setra Companhia e Fala Cia de Teatro. As inscrições estão abertas e o processo começa em agosto.

    “A importância de conhecer artistas que estão iniciando e promover a integração com outros

    que já possuem experiência é essencial para enriquecermos as pesquisas dos espetáculos”, diz Don Correa, um dos diretores ministrantes ao lado de Eduardo Ramos.

     

    O apartamento já abrigou espetáculos de dança, teatro, perfomance, shows e criou sua própria Mostra integrando artistas de todo o Brasil, durante o Festival de Curitiba.

     

    SERVIÇO

    TEATRO DE SEGUNDA

    “CARÍCIAS”, por Sergi Belbel

    22/07 - Segunda-feira, às 20h

    Entrada franca

    Mais informações: (41) 99847 0906 (whatts)

     

  • Irmãos: um eu em reconstrução

    Irmãos: um eu em reconstrução

    Ter irmãos, ter filhos irmãos, ser irmã se tornaram temas relevantes na minha vida depois dos filhos.

    E a Carol Luz, direto do Rio de Janeiro, traz esse assunto aqui, generosamente, sob a ótica e experiência dela.

    Obrigada, Carol!

    **

    Sempre fui única. Filha única. De um processo fracassado de família. Sou e fui única de mãe. Num tempo no qual não pensava divisão, eles apareceram. Eles, únicos, de mães, das suas mães únicas. E nos formamos três.

    Três seres diferentes, intensos e muito únicos. Ainda hoje somos. E nos escrevemos. Decidimos, diante de tantas faltas e mágoas, escrever a nossa história. Faz um tempo que ainda nos desenhamos irmxs. Faz ainda um tempo que nos lemos, esmiuçamos. Ainda não entendemos tão bem quem somos, pois nos lemos únicos. Ainda temos tantas histórias pra contar, e sorrisos a conjugar, e, independente disso: SOMOS.

    Somos no sorriso, na cara igual, na cara não igual mas a fala igual. Em atitudes similares, em gestos em ser. Somos iguais. Apenas 50% nos transforma em seres que dividem histórias, ou as faltas delas e vidas. Com essa porcentagem criamos laços e adendos, e nos criamos nessa loucura chamada vida. Existe idade, tempo, afinidade, querer, e o que é. E é. Não foi escolha consentida, foi imposição.

    Eles vieram com a idade, com o tempo e principalmente com o saber. Crescemos distantes em vidas diferentes, em tempos de tempo diferentes. Não era para dar certo, não era para existir, mas fez-se concreto.

    E mesmo que a fortaleza rompa, e a troca não flua, somos cinquenta de cada um. E talvez, se não fosse assim, seríamos assim. Aprendo com cada um em diferentes momentos e escolhas. Ter irmxs não é a coisa mais fácil ou prazerosa, mas certamente é de uma riqueza que independentemente de idade existe e faz.

    Existia um eu antes deles. Hoje eu sou um eu em reconstrução por causa deles.

    Vamos!

  • Homenagem a Carolina de Jesus

    Homenagem a Carolina de Jesus
    (Foto: Divulgação)

    Uma mulher negra, um barraco e um livro. Em março deste ano, o Google chamou a atenção de seus usuários estampando na abertura de sua página principal essas três imagens. Foi uma homenagem ao 105º aniversário de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), ex-moradora da favela do Canindé, ex-catadora de papel, mãe solteira e um dos maiores destaques femininos da literatura brasileira. Foi também, provavelmente, a primeira vez que alguns internautas tiveram contato com a autora de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. A LêConto Assessoria também quer aproximar ainda mais a vida e a obra da escritora mineira do público leitor. Para tanto, traz para Curitiba a pesquisadora paulista Raffaella Fernandez para participar de uma série de eventos nos dias 7 e 8 de junho.

    A obra de Carolina Maria de Jesus tem despontado de maneira expressiva nos últimos anos. Universidades inseriram “Quarto de Despejo” em suas listas dos exames vestibulares, o livro figurou no ranque dos dez mais vendidos da Estante Virtual, a autora foi tema de carro alegórico de escola de samba e até virou personagem de Maurício de Souza.

    Antes mesmo desse renascimento, porém, ainda no ano de 2004, a paulista Raffaella Fernandez já pesquisava sobre a autora na UNESP de Marília, quando se formou em Ciências Sociais. Em seguida, no ano de 2006, realizou mestrado em Literatura e Vida Social pela UNESP de Assis com dissertação intitulada “Carolina Maria de Jesus, uma poética de resíduos”. Seu doutorado no IEL-UNICAMP aprofundou ainda mais seus estudos focando nos aspectos literários dispersos nos manuscritos inéditos da escritora. 

    O ano de 2019 veio coroar as pesquisas da Raffaella Fernandez com o lançamento de seu livro “A poética de resíduos de Carolina Maria de Jesus”, pela Aetia Editorial. Em Curitiba, esse lançamento acontece no dia 8 de junho pela LêConto Assessoria – empresa que atua na formação de educadores, leitores e contadores de história e na disseminação de estratégias criativas no ensino da literatura e da arte. A ação vem acompanhada de uma palestra da pesquisadora sobre a vida e a obra da escritora mineira, tudo no auditório da Biblioteca Pública. As atividades acontecem das 10h30 às 12h30 e têm entrada franca. A iniciativa tem a parceria da Prefeitura Municipal de Curitiba e da BPP.

    E para quem quer ter um contato ainda mais intimista com os estudos da professora Raffaella, na sexta-feira do dia 7, ela participa da edição de junho do encontro “Café, Conto e Conversa”, iniciativa criada pela pedagoga Nádia Opalinski, diretora da LêConto Assessoria. O evento é voltado para o público feminino e tem duas sessões com apenas 20 vagas cada uma, às 15h e às 19h30. As inscrições devem ser feitas com antecedência no e-mail lecontocontato@gmail.com a um custo de R$ 35,00. 

      

    SERVIÇO

    Café, Conto e Conversa da LêConto Assessoria

    Tema do mês: Obras de Carolina Maria de Jesus

    com a participação da Doutora Raffaella Fernandez

    Data: 7 de Junho

    Hora: 1ª sessão, às 15h. 2ª sessão, às 19h30

    Local: Espaço LêConto

    Endereço: Alameda Prudente de Moraes, 465, sala 2 - Centro

    Entre as ruas Padre Agostinho e Padre Anchieta.

    Valor: R$ 35,00 por pessoa | vagas limitadas a 20 pessoas para cada sessão

    Inscriçõeslecontocontato@gmail.com

     

    Palestra sobre a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus

    Com a Doutora Raffaella Fernandez

    e Lançamento do livro

    “A poética de resíduos de Carolina Maria de Jesus”

    Data: 8 de Junho

    Hora: das 10h30 às 12h30

    Local: no auditório da Biblioteca Pública do Paraná

    Endereço: Rua Cândido Lopes, 133 - Centro

    Valor: Entrada Franca

  • Bombas sobre Machu Picchu

     Bombas sobre Machu Picchu
    Cena da montagem de "Dezembro" da Cia. Armadilha. (Foto: Lina Sumizono/Divulgação)

    Por um olhar ligeiro, “Dezembro” (em cartaz no Teatro José Maria Santos até 5 de maio) pode parecer uma comédia, e é o que boa parte do público reflete, rindo das tiradas.

    A maior graça, no entanto, está na forma como autor (Guillermo Calderón) e diretor (Diego Fortes) optam por entremear gags em meio a um tema extremamente atual e delicado.

    Uma guerra na América do Sul. Com fortes raízes na Guerra do Pacífico, lá do passado (1879-1883), a trama, que se passa no futuro, imagina um novo conflito entre Chile, Peru e Bolívia, já no século 21, na tentativa boliviana de recuperar o pedaço de mar perdido (meta que consta na atual carta constitucional do país vizinho) e áreas ricas em recursos naturais.

    O Peru vem com tudo também, em sua histórica rixa contra os chilenos, que rebatem com o que parece ser um histórico complexo de superioridade.

    O ponto alto é o relato do bombardeio de Machu Picchu, que traz sonoras conexões com as notícias de destruição de patrimônios culturais no mundo árabe, mas como é nosso quintal dói muito mais.

    “Dezembro”, na montagem do curitibano Diego Fortes, é organizada em tríades: 3 atores, cada um com dois personagens.  3 opiniões. A arena em 3 alas. 3 saídas.

    Uma estrutura didática para um conflito complexo, que lança raízes na alma e expõe as brigas de família, os Natais tristes, a incapacidade de comunicação e compreensão do outro. Algo profético, se pensarmos em quantas famílias estragaram suas festas ano passado pela divisão política (não acompanhei se o problema continuou nessa Páscoa).

    Na montagem de “Dezembro” apresentada durante o Festival de Curitiba, a proximidade com a cena e os atores foi muito positiva. Nesta temporada, agora no José Maria Santos, vamos ver como fica!

    O cinismo com que se conta a dor, a trivialidade mesclada ao épico (a vida dos irmãos na infância), a nostalgia da família, a saudade dos pais, o afeto fraternal (que está se tornando recorrente no trabalho de Diego Fortes). “Seca o dedo antes senão não vai sentir a lágrima.”

    A visão da América Latina no confronto entre os coitadinhos e os arrogantes, a frustração de ser grande e não ganhar, a resignação de desejar algo e ter que aceitar que não conseguiu o que queria, e se rearranjar com isso (Jorge queria um fuzil, Paula não queria a guerra, o tio não queria que destruíssem Machu Picchu).

    Imagina uma gravidez em meio a tudo isso. (Colaborou Gerson Smal Staehler)

    SERVIÇO

    Teatro José Maria Santos (Rua Treze de Maio, 655).

    INGRESSOS GRATUITOS

    18 de abril a 5 de maio, quinta a domingo, às 20h

    Aos sábados, sessão extra às 18h. Retire seu ingresso no próprio teatro 1 hora antes de cada sessão – 2 ingressos por pessoa.



  • Nunca é tarde para subir ao palco  

    Nunca é tarde para subir ao palco   
    Cena de "The Rocky Horror Show" (Foto: Divulgação)

    Do alto de seus 182 centímetros e na respeitosa casa dos 30, a jornalista Ana Flávia Silva começou a estudar o teatro musical. Depois de babar por “Os Saltimbancos” e  “O Rei Leão”, tomou coragem para enfrentar uma audição, passou e começou as aulas, que incluem canto, balé, teoria musical, entre outras.

    Depois de entrar, é só seguir o ritmo, já que a própria rotina das classes obriga o aluno a se apresentar de forma solo aos colegas e integrar os primeiros espetáculos.

    O curso é feito no Projeto Broadway, que abre nesta segunda (15 de abril) seu teatro próprio, com 50 lugares e presença da madrinha Daniela Mercury (só para convidados…)

    A escola se apresenta em abril, com seu grupo profissional, em “The Rocky Horror Show”.

    Leia abaixo uma entrevista concedida por Ana ao blog A Vida é Palco, em que ela fala um pouco desse novo hobby. Fica aqui uma confissão: apesar de “proibido” nas redações, que maravilhoso é entrevistar jornalista! Ainda mais old school, que escreve bem :)

     

    A Vida é Palco: É a sua primeira experiência com aulas de artes?

    Ana Flávia Silva: Quando era criança e adolescente, fazia teatro na escola e na igreja. Sempre gostei muito das artes, mas não tinha muito acesso (especialmente financeiramente). A primeira experiência com teatro de que me lembro foi assistindo ao musical “Os Saltimbancos”, com a turma da escola, perto dos 7 anos de idade. Acho que foi ali que me apaixonei. Na adolescência, trabalhei em uma escola de música e ficava ouvindo as aulas de canto e sonhando em um dia ter condições de estudar também. Toquei percussão em uma fanfarra e na orquestra da Primeira Igreja Batista [a famosa “PIB”].

     

    A Vida é Palco: Quando e como começou a estudar o teatro musical?

    Ana Flávia: Tinha ouvido falar do Projeto Broadway dois anos atrás, por meio de um amigo que tinha uma conhecida que fazia aulas. Ele comentou, eu fucei o site e fiquei encantada. Na época, não tinha tempo nem dinheiro para investir nas aulas. E morria de vergonha de pensar nas audições (que são necessárias para entrar no curso). Foram dois anos trabalhando a ideia internamente até "me arriscar" e participar das audições no fim do ano passado, com intenção de uma bolsa. E não é que deu certo? Ganhei a bolsa de 50% (a maior oferecida) e as aulas começaram em fevereiro. O único arrependimento: não ter feito antes.

     

    A Vida é Palco: E apresentação, quando teremos? E essa coragem, como está?

    Ana Flávia: Estou fazendo o curso de formação em teatro musical, que tem 4 módulos (divididos em 4 semestres). O curso é muito completo e inclui aulas teóricas e práticas. Nesse módulo, estou estudando história do teatro e do teatro musical, teoria musical, balé, canto e performance. São cerca de 10 horas de aula por semana, um verdadeiro intensivo. O mais desafiador tem sido as aulas de balé, já que tenho 1,82 de altura e nenhuma mobilidade!

    Nossa primeira apresentação solo será em maio, na "Hora do Palco", que é um evento pequeno em que apresentamos uma performance solo. Nas aulas, a gente já se apresenta para a turma, então vai tirando um pouco da vergonha e ensinando a lidar com o nervosismo. Mas cantar na frente dos outros tem sido um grande desafio!

     

    A Vida é Palco: Seu objetivo é ter uma outra carreira ou um hobby?

    Ana Flávia: Não penso em seguir carreira na área, tem sido um hobby até o momento. Mas vivo repetindo por aí que é a coisa mais legal que eu já fiz na vida. Está sendo uma grande experiência, que envolve superação de medos e vergonhas, além de um grande aprendizado. Talvez acabe se tornado uma carreira em paralelo ao jornalismo.

     

    A Vida é Palco: Quais seus musicais preferidos?

    Ana Flávia: O primeiro que vi e que ficou no meu coração desde então foi “Os Saltimbancos”, do Chico Buarque. Sei todas as músicas de cor, quero muito um dia poder encenar. Minha audição, inclusive, foi com o trecho da música da gatinha (“A história de uma gata”). Tive a honra de ver no teatro Renault, em São Paulo, "O Rei Leão", que me emocionou muito e se tornou um dos preferidos, também. Foi há cerca de cinco anos e, já naquele dia, eu sentia que queria muito mais estar no palco do que na plateia. Recentemente vi “As comadres”, que estreou a montagem brasileira no Festival de Curitiba e fiquei encantada. A lista é grande... Sonho mesmo em ver “Hamilton” na Broadway.

     

    **Para conhecer o trabalho do Projeto Broadway, você tem até o fim de abril para conferir “The Rocky Horror Show”, releitura do musical britânico de 1973, produzida pelo elenco profissional dessa que é a única escola de teatro musical de Curitiba.

    Talvez você conheça o filme de 1975, que tem Susan Sarandon no elenco.

    Serviço

    The Rock Horror Show

    Datas: 12, 13, 14 e 28 de abril às 21 horas e 20 e 21 de abril, às 20 horas.

    Local: Teatro Projeto Broadway

    Endereço: Rua Presidente Faria, 282, Centro

    Duração: 110 minutos

    Ingressos: R$ 25 (meia-entrada) e R$ 50 (inteira). Vendas na secretaria da escola.

    Classificação etária: 18 anos.

     

  • Setra frita Fedra

    Setra frita Fedra

    Como começa dizendo o ator de “Fedra - O Fantástico Mundo de Hipólito”, não há lugar para a tragédia hoje. Será que todos estão anestesiados, e uma história de suicídio a mais vai, no máximo, erguer sobrancelhas?

    O mito de Fedra, matéria-prima de Eurípedes e Sêneca, na antiguidade, de Racine, no classicismo e, no fim do século 20, de Sarah Kane, é deglutido na montagem dirigida por Eduardo Ramos e Setra Cia, seguindo moldes contemporâneos. Estão lá as projeções, a dança e o canto, performance, Wikipedia, balão, luzes de balada, muitas coisas.

    A participação do performer Maikon K (um dos artistas que sofreu durante a onda de ataques em 2017) e dos bailarinos Cintia Napoli, Airton Rodrigues e Malki Pinsag, além da atriz Rubia Romani traz um atrito de linguagens.

    São estímulos para nos acordar da anestesia, e talvez o que sobre seja um apelo do humano contra o trágico. Estamos condenados a uma história previamente determinada? Ou determinamos nossos “stories”? Mas e se ninguém curtir?

    O mito não precisar se “explicado” hoje, o que é deixado claro pela companhia Setra desde o início, e ninguém se importa em conhecer ou não as origens disso ou daquilo. São stories a mais, ou a menos. Mas o vídeo neon, a presença no momento do agito, esses são garantidos.

    A pesquisadora Linda Hutcheon, em seu livro “Uma teoria da adaptação”, é ótima fonte para entender um pouco do estado de amor e ódio que sentimos pelos “clássicos”, e sobre como eles são constantemente retomados hoje, mas como que presas de cães raivosos que os chacoalham para todo lado até que possamos sossegar em relação a eles.

    Rejeição, repetição com mudança e revitalização fazem parte de adaptações como essa que segue em cartaz no Teuni até 9 de abril.


    SERVIÇO

    FEDRA EM: O FANTÁSTICO MUNDO DE HIPÓLITO

    TEUNI – Teatro Experimental da Universidade federal do Paraná

    (Rua XV de Novembro, 1299 – Centro, Curitiba – PR)

    Telefone: (41) 3360-5066/ 99863596

    9 a 14 de abril: terça a sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia).

     

  • Prefiro pensar para trás

    Prefiro pensar para trás
    O solo de Conde Baltazar.

    Minha mãe se chama Eva Gunilla. Minhas avós eram Otávia, Ella Noemi e Dagmar. Minhas bisavós, Ester Lovissa, Rosa, Isabel, Carolina. Pra cima não sei.

    Volta e meia penso nessa árvore genético-afetiva e em como seria meu relacionamento com aquelas mulheres que não conheci, mas de quem tenho pedaços. Como era a vida delas?

    As mulheres que Janaína Matter enumera em seu solo “Mulher, como você se chama?”, da série “Habitat” (Súbita Cia.) são, algumas, de sua árvore pessoal. Outras são mulheres que entraram para a história pela porta dos fundos: não são celebradas em livros escolares, mas surgem em uma boa pesquisa.

    Desejo saber como elas viviam, mas provavelmente me iludo num ideário bucólico por assistir “Os Pioneiros” demais.

    Ao pensar nelas, como não documentar a própria vida?

    Será que perdemos tempo vivendo e esquecemos de deixar nosso rastro?

    Meu tio sofre por se imaginar esquecido. Calcula o número de anos e sofre.

    Já eu sei que somos eternos, e não só no sentido judaico, que vê herança na descendência.

    Então prefiro pensar para trás, nessa ancestralidade do amor.

    A arte faz pensar em tudo isso. O material proposto pelos cinco artistas de “O Habitat” deixa rastros pessoais, transformados pela arte numa outra coisa.

    Melhor assim, para que seus descendentes genéticos e afetivos possam arqueologizar essa experiência quem um dia esteve viva no palco.

    Saberão que eles viveram.

     

  • Opinião

    Opereta aborda provincianismo em susto de comédia

    Opereta aborda provincianismo em susto de comédia
    (Foto: Chico Nogueira/Divulgação)

    O artista curitibano sempre se debate contra o provincianismo que ronda sua arte, tema recorrente que já produziu pérolas. Uma delas é o livro “Como ser invisível em Curitiba”, de Jamil Snege (aí embaixo, nos comentários, o leitor poderá me ajudar com outros exemplos).

    Em cartaz no Barracão Encena, a opereta musical “Janaína, não seja boba”, com texto original, fala um pouco sobre isso. A encenação traz um susto de comédia à cidade, e comédia cantada “come si deve”, diriam os italianos.

    São italianos à frente da batuta: o diretor Roberto Innocente, que assina o libreto, e o maestro Alessandro Sangiorgi, que estreia na composição. Mas não são “brancos europeus”, tão fora de moda, a gritar com assustados tupiniquins.

    A dupla criativa convocou para o elenco um time que manda muito bem. Juntos, propõem como tema essa realidade universal, a luta contra a mediocridade. Não apenas o nosso ódio ao provincianismo, mas também o deles, o vosso. O impulso de ir além, natural do ser humano.

    Na trama de “Janaína, não seja boba”, uma atriz iniciante foge com o namorado para evitar a ira do pai dele, aristocrata e preconceituoso. Deixam a cidade grande, Niterói, para se esconder na vila de Angra. Ao chegar, encontram seres típicos da província, como o maestro Martins, que anda às voltas em seu cotidiano de cidade pequena sonhando com a fama, as donas do bar e da pensão, o prefeito (esse, mais curitibano, impossível).

    Assim como o príncipe Hamlet provoca revelações na tragédia sobre o assassinato de seu pai usando a encenação de uma peça dentro da peça, Martins tem a oportunidade de usar os forasteiros que ali chegam como elenco para finalmente encenar sua “obra-prima”. Em meio ao canto, na opereta dentro da opereta, revela aos olhos da elite local que amar não faz mal.

    Como é praxe na ópera e nos musicais, falar cantando surge de forma natural em meio ao enredo, o que pode incomodar quem não tenha familiaridade com um ou outro gênero. Mas a qualidade da música e da execução logo vence os mais empedernidos, com destaque para as atuações da cantora Luana Godin e dos atores Daniel Siwek, Tiago Luz, Gideão Ferreira e Tarciso Fialho.

    Se Carlos Gomes foi à Itália, fez fama e voltou, esses italianos que entre nós habitam estão em nossa província há mais de uma década. Esperemos que abracem novos temas universais por aqui mesmo, com padrões cada vez mais exigentes e coração cada vez mais local-universal.

     

    SERVIÇO

    Opereta Musical “Janaína, Não Seja Boba”

    Horários: De quarta a sábado, às 21hs. Domingos, às 19hs. Até 3 de março.

    Valor: R$ 20 e R$ 10 (meia).

    Venda: bilheteria do Teatro Barracão EnCena. Informações sobre o horário de funcionamento da bilheteria em (41) 3223-5517.

    Local: Teatro Barracão EnCena (Rua Treze de Maio, 160 – Centro, Curitiba)

     

  • Ano novo de ressurreição

    Acordar dia 26 é uma das sensações de que sempre gostei. A vida volta ao normal, mas ainda tem as sobras.

    O fim e o começo de ano são uma passagem necessária. Tem gente que faz retrospectivas e prospectos. Já eu penso: que venha o próximo. Acho que não estou pronta para o Natal 2019.

    É que tem Natais mais de ressurreição que de nascimento, e esse foi um deles. Graças a Deus.

    Como outras pessoas, fico constrangida com os votos de fim e começo de ano. Sei que é uma passagem necessária e o clima de confraternização pede isso tudo. Mas eu realmente preferia que se somasse todas as palavras e votos e dividisse por 365. Um pouco mais de amor, generosidade, paz na terra aos homens de bem, solidariedade, temperança, domínio próprio. Só um pouco. Todo dia.

    **

    Crianças em férias, perigo constante! Tela nas janelas? Filtro solar? Presente!

     

    A mais velha quer surpresas. Quando pede uma, já sei: está entediada.

    Me surpreendi com algumas estratégias da Disciplina Positiva, que dá trabalho mas compensa. Trabalho que a “disciplina negativa” daria em dobro, porque gritar e ameaçar não funcionam...no fim a gente acaba cedendo e fica até sem moral.

    Mas voltando, algumas estratégias funcionam mesmo. Por exemplo, dar opções em vez de proibir. Não quero que vejam “Patrulha Canina” porque o prefeito Humdinger é malvadinho. Depois ficam imitando. “Essa gente de-sa-gra-dá-vel!” Dei como opção: “Dra Brinquedos”, “Daniel Tigre” e “Backyardigans”. Funcionou por alguns dias.

    Outra: perguntar “de quantos você precisa” em vez de “mas só pode 1!!!!” Querem bolacha, pergunto: “De quantas você precisa?” Me surpreendo com a resposta moderada. “Duas.” Ok, talvez com 10 anos respondam “pacote inteiro, rá!”

    Não sou especialista em pedagogia, longe de mim, e nem sei se essas dicas acima são mesmo ligadas à Disciplina Positiva. Bem que eu queria ser controlada como a Isa Minatel ensina. Mas é cada grito que a gente dá!

    **

    O Natal chega todo ano, esteja você pronta ou não. No caso, já passou e esta crônica ainda não tinha saído.

    Você pode preparar a casa, fazer a unha do pé e emagrecer. Talvez o Natal chegue antes de você terminar tudo. Não revelou fotos, não aprendeu inglês.

    “Neste Natal, prometo não comer demais, não invejar presentes, não querer morrer.”

    Mas é isso, feliz 2019 para todos e que façamos tudo no tempo certo :)

     

  • Ser tão mãe até ser mãe de todo mundo

    Ser tão mãe até ser mãe de todo mundo

    Levar os filhos a um concerto beneficente é uma experiência um pouco constrangedora.

    Por um lado, o desejo de ser como eu era antes: olhos atentos e o resto do corpo também,  significando compaixão, que eu entendo, que não queria que aquelas crianças do projeto social cantando lá na frente tivessem que passar por tudo aquilo que eles devem passar, que o mundo é ruim mesmo, mas que naquele momento estou ali olhando para eles e sou quase mãe deles.

    Quase.

    Um no colo outro tentando fugir da mão, os filhos de sangue exigem um pouco dessa atenção toda. Quero água. Tô com frio. Silêncio, querida!

    E os pensamentos? Não tem como “entrar” no espetáculo, imergir de verdade. Deixar a arte que transforma a vida dos cantores transformar a minha um pouco nessa noite.

    Ser tão mãe até ser mãe de todo mundo.

    Enquanto assisto quero dizer acorda, menino, para de bocejar. Ao mesmo tempo, minha filha resume depois: “Eles cantam doce”.

    Parabéns ao Projeto Dorcas, que há mais de duas décadas vem erguendo essas crianças da desesperança para mostrar uma nova possibilidade. Que a vida pode ser diferente.

    Com o canto, com a música.

    Parabéns aos professores de artes que se voluntariam para ensinar e, acima de tudo, estar junto.

    Nós estaremos na plateia, do que jeito que estivermos.

  • Só com poesia pra aguentar

    Só com poesia pra aguentar

    A UNIDADE

    Júnia Smal Staehler*

     

    Abre a porta do corredor

    Grita com voz cansada e monótona

    João Pedreiro das Casas

    Maria Lavadeira das Almas

    Paulo Guardião dos Anjos

    Ai doutor, dói aqui, dói ali

    Tenho fraqueza e tonteira

    Dor na alma

    Fraqueza do espírito...

    Pode dar atestado doutor?

     

    *Júnia Smal Staehler é médica, roceira e poeta.

  • Aniversário coletivo

    Aniversário coletivo

    Quando eu fiz 5 anos levantei para avisar que queria Quick de morango no café na cama, e meus pais nem me deram parabéns na cozinha, atarefados com a bandeja, pãozinho, iogurte, às vezes um brigadeiro, só ralharam que voltasse direto pra de onde vim que aniversariante tinha que esperar lá quietinho. Ganhei uma boneca.

    Passou um tempo.

    Hoje acordei com duas outras cabeças no meu travesseiro, 5h30. Acho que nem dormi mais, ouvindo de um lado um ronronar, do outro o narizinho chiando. Fiquei lá, esperando, só que começou a dar aquela hipoglicemia. Tinha que avisar o Gerson que já estava acordada, caso ele lembrasse da tradição da minha família, acho que sim né. 6 anos de casados. Acordei a Catarina, disse vai e fala pro papai que a mamãe já acordou, ela não quis.

    O Ivan, nada.

    Resolvi ir bem rapidinho, pego uma bolacha e volto, ele nem vai notar. Estava lavando a louça, ficou feliz, disse volte pra cama!, só vou enxaguar. Falei que não aguentava, deixa eu pegar o pote de biscoito, quem gostou foi a Catarina.

    Essa idade não cabe no meu corpo, não combina. Quero continuar brincando no chão, tem até por aí aquela velha boneca, o Ivan chama de nenê mamãe. Mas seria bom não ser a responsável por arrumar tudo depois.

    Minha mãe aqui do lado lembra que ficava chateada na fase em que a comemoração era em bar e ela não era convidada. Mas era assim o comportamento do grupo, ninguém chamava os pais. Eu nem desconfiava que ela queria ir junto, só reclamava quando eu queria sair. Imagina se a Catarina quiser sair.

    Se eu quero ir junto onde meus filhos forem? Por enquanto é obrigatório, mas dizem que dentro de alguns anos os convites chegam com as palavras “só para crianças”, coisa e tal. Que medo.

    Mas, se me deixarem em casa em alguma comemoração, posso tentar uma crônica.

  • Quero outra endoscopia

    Quero outra endoscopia
    (Foto: Liz West/Creative Commons)

    Descanso de mãe é assim: os 15 minutos de convalescença abençoada depois da endoscopia. Já fez? O pânico de ser posto para dormir numa maca sem ter se despedido dos filhos é altamente recompensado pelo estado aéreo em que se fica depois, quando se acorda sobrevivente e feliz, sem para isso precisar beber ou usar coisas mais pesadas (inclusive isso aqui não é nenhuma apologia. Olha que tristeza o fim do Michael Jackson, que morreu com uma alta dose de propofol no organismo, mesmo sedativo usado no exame).

    Seja efeito dele ou apenas a oportunidade de ficar numa poltrona sem ninguém me chamando, essa última endoscopia foi a melhor. Tinha feito outras duas. Na primeira tive um encontro poderoso com Deus. Na segunda, bobinha, fiquei preocupada com o horário do meu acompanhante e me forcei a sair do estado de bênção para ir embora logo. Pior que funciona: lembro claramente do momento em que estava quase dormindo mais um pouco e decidi reagir. E lá fui eu. Bom, que essa força me sirva em manhãs difíceis de levantar da cama.

    Neste exame mais recente, já fui preparada para ficar o maior tempo possível, levando papel e caneta caso alguma ideia de romance surgisse. Fiz dos olhos e ouvidos meus únicos sentidos e procurei me conectar com meu verdadeiro eu. Quem sabe saía de lá portando não só um laudo com a situação do meu estômago, mas também um novo despertar.

    A primeira coisa que descobri foi que forma-se toda uma comunidade provisória nesse quarto de hora vivido nas profundezas da clínica. Enfermeiras podem vir cobri-lo com uma manta alvíssima, e então o branco irá embalar seus minutos de sono-vigília. Aos poucos, como num céu em que a pessoa se descobre feliz no além túmulo, os ocupantes das poltronas começam a se olhar de canto, depois de frente. O mais corajoso será o primeiro a testar se a fala foi afetada pela sedação.

    E então é dada a largada. Qualquer tema será aceito como numa mesa de bar após 5 da manhã. Molemente, comentários daqui e dali irão prolongar esse momento, ai, tão curto. A sociedade ganharia muito se as pessoas andassem por aí dispostas ao diálogo desse jeito. Nem mesmo a comunicação a um dos integrantes de que o exame revelou algo suspeito – provavelmente verminoses – traz qualquer vexame ou desconforto. Éramos um time.

    Descobri coisas ainda mais íntimas dos outros colegas, pena que não trocamos contato. Quando iremos nos reencontrar? Quem sabe na colonoscopia, que, segundo eles, é o sétimo céu e mais um pouco.

    Se o mundo seria melhor com comunidades tão bem com a vida, o mesmo não pode ser dito das finanças pessoais. É altamente contraindicado mexer na conta bancária no dia em que se faz a endoscopia.

    No próximo capítulo: o resultado.

  • Aconteceu no parquinho

    Aconteceu no parquinho

    Um escriba do primeiro século lançou a pergunta: “Quem é o meu próximo?” E eu aqui tento respondê-la ao me ver cercada por pais e mães cuidando dos filhos no parquinho. Quem são essas pessoas ao meu redor, onde trabalham, como limpam a casa, do que se alimentam? Talvez após duas horas de small talk chegássemos às respostas, mas o costumeiro é que não se passe do inventário inicial, composto dos seguintes esclarecimentos: 1) Quanto tempo ele tem? 2) Qual o nominho? 3) Já vai à escola? 4) Pegou essa última virose que está rodando por aí?

     

    Pronto. Difícil ir adiante, porque os pequenos certamente irão reclamar antes de banheiro, lanche, sono, briga ou tédio.

     

    No best-seller “Crianças francesas não fazem manha”, indicado por 10 entre 10 pais que resolvem me dar conselhos, seja no elevador ou no trânsito mesmo, Pamela Druckerman compara uma mãe americana a uma mãe francesa em várias situações. A roupa que colocam ao levantar da cama, a comida que põem no prato, se são elas mesmas que a põem ali ou se é um outro, e, entre outras inumeráveis opções em que a francesa sempre bate a americana de goleada, Pamela analisa o comportamento de ambas no parquinho.

     

    Resumindo, a francesa ganha mesmo nas situações lúdicas porque sabe deixar a criança brincar, enquanto conversa com os outros pais. Quem sabe até passe do inventário inicial e chegue a discutir Rimbaud ou o último Houllebecq. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a americana sua a camiseta cuidando, ensinando e propondo que a criança aproveite a descida do escorregador para contar até 10 em mandarim.

     

    Agora pensando bem, talvez assim eu me empolgasse. Com uma meta dessas. O fato é que sinto um tédio terrível ao cuidar deles no parquinho. Agora já passaram da fase em que ficam presos no carrinho, mas ainda não alcançaram aquela sonhada etapa em que estarão fora do risco de quedas. O pé que escapa do degrau, a verminose da areia, e essas malditas calças de uniforme que escorregam rápido demais e obliquamente.

     

    Queria um dia de folga de mim mesma, quem sabe na mente de uma mãe francesa.

  • Um abraço sofisticado

    Poucas vezes vi um espetáculo tão ligado a seu contexto como “Domínio Público”. A estreia no Festival de Curitiba (dia 29) causava grande curiosidade, alegria e até temor em diferentes públicos, ao colocar em cena 4 artistas atacados em 2017 por suas obras, cujas acusações foram de “pedofilia” para baixo. Não foi a primeira vez que o festival trouxe uma obra cercada por polêmica, mas provavelmente esta foi a mais delicada e emocional de todas.

    Prestes a abrirem-se as cortinas, a dúvida: trariam eles uma resposta à altura? Fariam com que a plateia se despisse num ato de solidariedade? Eu particularmente apostava num congraçamento com a classe artística e seus simpatizantes, num grande abraço de apoio e estímulo a continuar.

    Foi isso e muito mais. Ninguém esperava algo tão plenamente artístico. Uma obra colada a seu contexto, com fina ironia e sutil provocação, mas que também poderia ser fruída por um estrangeiro que adentrasse solo nacional, como os há realmente em Curitiba por ocasião do festival.

    Os ataques do ano passado, que eu vi como fruto de profunda ignorância, mas há quem veja como um orquestramento político, me influenciaram como jornalista cultural e como mãe. Escrevi aqui a respeito.

    O clima é de frio para conseguir tratar de algo tão pessoal e revoltante, trazendo na memória as injúrias, perseguições e até ameaças. Muitas obras cênicas já recorreram ao formato de palestra, mas “Domínio Público” o fez com uma grande potência que a precedia e que se confirmou em cena. O figurino sofisticado empresta esse adjetivo a toda a montagem, termo usado também pelo curador Guilherme Weber em bate-papo com artistas e público após a peça.

    A única questão que não se encaixa, levantada também durante o debate, é a ausência (presumível) do público cuja ignorância talvez pudesse receber um lampejo de luz ali. Talvez o espetáculo nunca alcance essa pessoas, e talvez o diálogo seja mesmo impossível. Será?

    LegendaFoto de Annelize Tozzeto

     

  • Vai, mulher!

    curitiba-1 Então o carro derrapou e em segundos um encouraçado preto voava praticamente sobre nós, zum. Graças a Deus pudemos voltar para a direita, de onde eu não deveria ter saído. Na minha cabeça, minha inabilidade em ultrapassar numa curva com chuva havia sido o motivo de quase matarmos aquele motorista, que felizmente, milagrosamente, conseguiu subir com o carro na barreira de cimento e voltar ao asfalto praticamente intacto. Até abaixei o vidro para pedir desculpas, mas ele não me olhou. Continua em frente, sugeriu meu marido. Um tanto enfaticamente, devo dizer. Para ele era até pretensão me creditar a autoria daquele forrobodó viário. Aqui entra uma possível continuação com tons de autoajuda: mulher ao volante. Em? Duvido que não venha à cabeça o resto do “provérbio”, coitado de Salomão chamar isso de provérbio, mas vá lá. Nada disso, dirijo bem. Porém eu mesma, hoje, me irritei com um carro da frente e gritei, como faço quase todos os dias (com os vidros fechados): “vaaaai, mulher!” Mea culpa. Outro parágrafo desse texto poderia falar de como os quase acidentes nos fazem valorizar mais a vida, sem falar na vidinha das crianças no banco de trás, felizmente presas em cadeirinhas que há 30 anos não existiam. Mas também me parece que não havia essa sanha do motorista em não ser deixado para trás. Comer poeira é a nova humilhação máxima, dirigem – dirigimos – como loucos. Olha os índices de acidente aí para comprovar. Dar a vez é para os fracos? Mas esse texto exige all the news fit to print, conforme o slogan do New York Times. Toda crônica apta a ser postada. Então de volta ao tema central, autora. Mulher. “The Post”, chorei. As páginas saindo na rotativa, a duras penas a matéria que advogados e banqueiros não queriam. Pois agora, pensando no filme, além do saudosismo pelo jornalismo das grandes reportagens que moldaram o entendimento sobre a liberdade de imprensa, fica a forte impressão criada por Meryl Streep no papel da publisher Katharine Graham, do Washington Post. Ocupando um cargo que, nos anos 1960, grande parte dos homens e mulheres julgavam inapropriado para ela, refletiu em angústia durante dias antes de tomar uma decisão importante e publicar papéis secretos do governo norte-americano. Uma decisão acertada, conforme decisão favorável ao jornal na Suprema Corte. Hoje, tantas décadas depois. O papel da mulher no trabalho, a questão de sua presença no mundo, vai além da justa contestação por aqueles 30% a mais de salário. Os 30% que elas, nós, perdemos em relação aos homens, de acordo com pesquisas abrangentes. Dói qualquer ato público em que não há mulheres. Por que não as há? A questão da maternidade, o direito a querer cuidar dos filhos por si mesma. O direito a querer, porque necessário, trabalhar e sabê-los bem cuidados, ou de trabalhar menos para cuidar mais. Tantas barreiras faltam ser transpostas, tantas vidas afetadas diariamente por essa questão. Vai, mulher! Perdão por te achar temerosa no trânsito. Obrigada se você é mais prudente, continue assim. Vai, anda, avance sobre os seus sonhos e acredite em seus talentos. Não recorra à agressão, ironia, enfim, enfoque mais o seu trabalho do que os atentados contra ele. Vai! Vamos.

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