• 05/06/2018

    Quero outra endoscopia

    Quero outra endoscopia
    (Foto: Liz West/Creative Commons)

    Descanso de mãe é assim: os 15 minutos de convalescença abençoada depois da endoscopia. Já fez? O pânico de ser posto para dormir numa maca sem ter se despedido dos filhos é altamente recompensado pelo estado aéreo em que se fica depois, quando se acorda sobrevivente e feliz, sem para isso precisar beber ou usar coisas mais pesadas (inclusive isso aqui não é nenhuma apologia. Olha que tristeza o fim do Michael Jackson, que morreu com uma alta dose de propofol no organismo, mesmo sedativo usado no exame).

    Seja efeito dele ou apenas a oportunidade de ficar numa poltrona sem ninguém me chamando, essa última endoscopia foi a melhor. Tinha feito outras duas. Na primeira tive um encontro poderoso com Deus. Na segunda, bobinha, fiquei preocupada com o horário do meu acompanhante e me forcei a sair do estado de bênção para ir embora logo. Pior que funciona: lembro claramente do momento em que estava quase dormindo mais um pouco e decidi reagir. E lá fui eu. Bom, que essa força me sirva em manhãs difíceis de levantar da cama.

    Neste exame mais recente, já fui preparada para ficar o maior tempo possível, levando papel e caneta caso alguma ideia de romance surgisse. Fiz dos olhos e ouvidos meus únicos sentidos e procurei me conectar com meu verdadeiro eu. Quem sabe saía de lá portando não só um laudo com a situação do meu estômago, mas também um novo despertar.

    A primeira coisa que descobri foi que forma-se toda uma comunidade provisória nesse quarto de hora vivido nas profundezas da clínica. Enfermeiras podem vir cobri-lo com uma manta alvíssima, e então o branco irá embalar seus minutos de sono-vigília. Aos poucos, como num céu em que a pessoa se descobre feliz no além túmulo, os ocupantes das poltronas começam a se olhar de canto, depois de frente. O mais corajoso será o primeiro a testar se a fala foi afetada pela sedação.

    E então é dada a largada. Qualquer tema será aceito como numa mesa de bar após 5 da manhã. Molemente, comentários daqui e dali irão prolongar esse momento, ai, tão curto. A sociedade ganharia muito se as pessoas andassem por aí dispostas ao diálogo desse jeito. Nem mesmo a comunicação a um dos integrantes de que o exame revelou algo suspeito – provavelmente verminoses – traz qualquer vexame ou desconforto. Éramos um time.

    Descobri coisas ainda mais íntimas dos outros colegas, pena que não trocamos contato. Quando iremos nos reencontrar? Quem sabe na colonoscopia, que, segundo eles, é o sétimo céu e mais um pouco.

    Se o mundo seria melhor com comunidades tão bem com a vida, o mesmo não pode ser dito das finanças pessoais. É altamente contraindicado mexer na conta bancária no dia em que se faz a endoscopia.

    No próximo capítulo: o resultado.

  • 09/05/2018

    Aconteceu no parquinho

    Aconteceu no parquinho
    (Foto: Liz West/Creative Commons)

    Um escriba do primeiro século lançou a pergunta: “Quem é o meu próximo?” E eu aqui tento respondê-la ao me ver cercada por pais e mães cuidando dos filhos no parquinho. Quem são essas pessoas ao meu redor, onde trabalham, como limpam a casa, do que se alimentam? Talvez após duas horas de small talk chegássemos às respostas, mas o costumeiro é que não se passe do inventário inicial, composto dos seguintes esclarecimentos: 1) Quanto tempo ele tem? 2) Qual o nominho? 3) Já vai à escola? 4) Pegou essa última virose que está rodando por aí?

     

    Pronto. Difícil ir adiante, porque os pequenos certamente irão reclamar antes de banheiro, lanche, sono, briga ou tédio.

     

    No best-seller “Crianças francesas não fazem manha”, indicado por 10 entre 10 pais que resolvem me dar conselhos, seja no elevador ou no trânsito mesmo, Pamela Druckerman compara uma mãe americana a uma mãe francesa em várias situações. A roupa que colocam ao levantar da cama, a comida que põem no prato, se são elas mesmas que a põem ali ou se é um outro, e, entre outras inumeráveis opções em que a francesa sempre bate a americana de goleada, Pamela analisa o comportamento de ambas no parquinho.

     

    Resumindo, a francesa ganha mesmo nas situações lúdicas porque sabe deixar a criança brincar, enquanto conversa com os outros pais. Quem sabe até passe do inventário inicial e chegue a discutir Rimbaud ou o último Houllebecq. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a americana sua a camiseta cuidando, ensinando e propondo que a criança aproveite a descida do escorregador para contar até 10 em mandarim.

     

    Agora pensando bem, talvez assim eu me empolgasse. Com uma meta dessas. O fato é que sinto um tédio terrível ao cuidar deles no parquinho. Agora já passaram da fase em que ficam presos no carrinho, mas ainda não alcançaram aquela sonhada etapa em que estarão fora do risco de quedas. O pé que escapa do degrau, a verminose da areia, e essas malditas calças de uniforme que escorregam rápido demais e obliquamente.

     

    Queria um dia de folga de mim mesma, quem sabe na mente de uma mãe francesa.

  • 30/03/2018

    Um abraço sofisticado

    Poucas vezes vi um espetáculo tão ligado a seu contexto como “Domínio Público”. A estreia no Festival de Curitiba (dia 29) causava grande curiosidade, alegria e até temor em diferentes públicos, ao colocar em cena 4 artistas atacados em 2017 por suas obras, cujas acusações foram de “pedofilia” para baixo. Não foi a primeira vez que o festival trouxe uma obra cercada por polêmica, mas provavelmente esta foi a mais delicada e emocional de todas.

    Prestes a abrirem-se as cortinas, a dúvida: trariam eles uma resposta à altura? Fariam com que a plateia se despisse num ato de solidariedade? Eu particularmente apostava num congraçamento com a classe artística e seus simpatizantes, num grande abraço de apoio e estímulo a continuar.

    Foi isso e muito mais. Ninguém esperava algo tão plenamente artístico. Uma obra colada a seu contexto, com fina ironia e sutil provocação, mas que também poderia ser fruída por um estrangeiro que adentrasse solo nacional, como os há realmente em Curitiba por ocasião do festival.

    Os ataques do ano passado, que eu vi como fruto de profunda ignorância, mas há quem veja como um orquestramento político, me influenciaram como jornalista cultural e como mãe. Escrevi aqui a respeito.

    O clima é de frio para conseguir tratar de algo tão pessoal e revoltante, trazendo na memória as injúrias, perseguições e até ameaças. Muitas obras cênicas já recorreram ao formato de palestra, mas “Domínio Público” o fez com uma grande potência que a precedia e que se confirmou em cena. O figurino sofisticado empresta esse adjetivo a toda a montagem, termo usado também pelo curador Guilherme Weber em bate-papo com artistas e público após a peça.

    A única questão que não se encaixa, levantada também durante o debate, é a ausência (presumível) do público cuja ignorância talvez pudesse receber um lampejo de luz ali. Talvez o espetáculo nunca alcance essa pessoas, e talvez o diálogo seja mesmo impossível. Será?

    LegendaFoto de Annelize Tozzeto

     

  • 28/02/2018

    Vai, mulher!

    curitiba-1 Então o carro derrapou e em segundos um encouraçado preto voava praticamente sobre nós, zum. Graças a Deus pudemos voltar para a direita, de onde eu não deveria ter saído. Na minha cabeça, minha inabilidade em ultrapassar numa curva com chuva havia sido o motivo de quase matarmos aquele motorista, que felizmente, milagrosamente, conseguiu subir com o carro na barreira de cimento e voltar ao asfalto praticamente intacto. Até abaixei o vidro para pedir desculpas, mas ele não me olhou. Continua em frente, sugeriu meu marido. Um tanto enfaticamente, devo dizer. Para ele era até pretensão me creditar a autoria daquele forrobodó viário. Aqui entra uma possível continuação com tons de autoajuda: mulher ao volante. Em? Duvido que não venha à cabeça o resto do “provérbio”, coitado de Salomão chamar isso de provérbio, mas vá lá. Nada disso, dirijo bem. Porém eu mesma, hoje, me irritei com um carro da frente e gritei, como faço quase todos os dias (com os vidros fechados): “vaaaai, mulher!” Mea culpa. Outro parágrafo desse texto poderia falar de como os quase acidentes nos fazem valorizar mais a vida, sem falar na vidinha das crianças no banco de trás, felizmente presas em cadeirinhas que há 30 anos não existiam. Mas também me parece que não havia essa sanha do motorista em não ser deixado para trás. Comer poeira é a nova humilhação máxima, dirigem – dirigimos – como loucos. Olha os índices de acidente aí para comprovar. Dar a vez é para os fracos? Mas esse texto exige all the news fit to print, conforme o slogan do New York Times. Toda crônica apta a ser postada. Então de volta ao tema central, autora. Mulher. “The Post”, chorei. As páginas saindo na rotativa, a duras penas a matéria que advogados e banqueiros não queriam. Pois agora, pensando no filme, além do saudosismo pelo jornalismo das grandes reportagens que moldaram o entendimento sobre a liberdade de imprensa, fica a forte impressão criada por Meryl Streep no papel da publisher Katharine Graham, do Washington Post. Ocupando um cargo que, nos anos 1960, grande parte dos homens e mulheres julgavam inapropriado para ela, refletiu em angústia durante dias antes de tomar uma decisão importante e publicar papéis secretos do governo norte-americano. Uma decisão acertada, conforme decisão favorável ao jornal na Suprema Corte. Hoje, tantas décadas depois. O papel da mulher no trabalho, a questão de sua presença no mundo, vai além da justa contestação por aqueles 30% a mais de salário. Os 30% que elas, nós, perdemos em relação aos homens, de acordo com pesquisas abrangentes. Dói qualquer ato público em que não há mulheres. Por que não as há? A questão da maternidade, o direito a querer cuidar dos filhos por si mesma. O direito a querer, porque necessário, trabalhar e sabê-los bem cuidados, ou de trabalhar menos para cuidar mais. Tantas barreiras faltam ser transpostas, tantas vidas afetadas diariamente por essa questão. Vai, mulher! Perdão por te achar temerosa no trânsito. Obrigada se você é mais prudente, continue assim. Vai, anda, avance sobre os seus sonhos e acredite em seus talentos. Não recorra à agressão, ironia, enfim, enfoque mais o seu trabalho do que os atentados contra ele. Vai! Vamos.
  • 06/02/2018

    Noites de agito

    IMG_20171231_182013590_HDR Mais uma do meu avatar “Mãe megera”. Todo mundo, ou melhor, quem já passou pelos anos de chumbo da criação de filho, tenta nos acalmar dizendo que “ninguém se casa usando chupeta”. “Ninguém vai para a faculdade carregando paninho”. Que os hábitos que te incomodam na criança hoje são passageiros. Bom, sei de uma garota pelo menos que ficou com vergonha de chupar o dedo na frente do marido e só por isso parou. Mas em relação à preferência do meu filho pelas madrugadas, estou com sérias dúvidas se irá passar antes dos 20. O pit stop do choro tem ocorrido não uma, mas duas ou três vezes por noite. É dose pra leão. Mimimi de mãe? Durante duas semanas, talvez, mas dois anos? Poxa... Eles acordam depois como se nada tivesse acontecido, e você lá, morto, com olheira, dor no corpo, mal humor. E levanta que tão chamando! Depois que você toma um café bem preto te olham com aquele jeitinho acima das bochechas, beijam e abraçam. Quase passa. O jeito foi marcar encontro com meu bebezão nas madrugadas. Se não sobra tempo para o número suficiente de apertos durante o dia, sei que terei uma repescagem na sessão Coruja. Outra coisa que dizem: “aproveite que passa rápido”. Das 2h às 4h30 da manhã o tempo vai vem devagar, sabe? Agora tentando dar uma de Poliana: Quer hora melhor para um chamego? Bom, isso tudo aí em cima é o que eu gostaria de escrever se o blog se chamasse “Maternidade cor de rosa”. Ainda não cheguei lá. Mas, quem sabe, escrevendo, vira profecia. Eu vejo. Eu prevejo madrugadas ideais que podem ser de vários tipos: 1) dormindo. 2) atendendo meu filho com prazer. 3) o que mais se faz em madrugadas? Esqueci.  
  • 01/02/2018

    Minha mãe acha estranho

    Você, como minha mãe, acha teatro estranho? Pois não se preocupe que esse é o último capítulo de "O Velho", peça que o blog A vida é palco está publicando em fascículos, como faziam os grandes autores do século 19. Aqui a autora é contemporânea, moradora de Curitiba, a super Juliana Partyka. O início da peça está nos posts anteriores. velho CENA OITO: TUDO É EXATO. NADA MAIS. TEREZA: Tá morto. GIO: Jesus ressus... MARIANA: Faça ele viver então, porra! GIO: Eu faço. TEREZA: Teu cu. GIO: Juro. MARIANA: Vadia. GIO: É serio. TEREZA: Eu o pegarei no colo. O olho dele me aterrorizará, e por segundos ele não parece ser o mesmo. As patas não vão mais dobrar, o pelo não vai mais brilhar. Eu vou dizer que duvido devolver uma centelha de vida ali dentro. Talvez queira colocar na caixa, e deixá-lo seguir descansando. Eu nunca vou dizer 'fique com Deus' por que acho mesmo que deus não merece a companhia dele. Mas eu vou dizer 'fique comigo'. Por que eu me sinto sozinha. Por que eu não tenho mais com quem conversar. Uma delas vai dizer num suspiro só, que ele pode viver de novo, se fizermos os procedimentos certos. A outra nunca, nunca vai querer me botar esperança dentro do peito. Você vai dizer que é crueldade. O outro alí vai dizer que me entende, e alguém da rua de cima prefere assumir que não tem estômago. Eu vou sentir dores latejantes no meu peito. Eu vou querer pedir ajuda, mas elas não terão coragem. Então eu farei sozinha. Visto de cima ele parece o mapa mundi. Suas extremidades esticadas parecem a Europa, a América Latina, e os caminhos desenhados na selva africana. A barriga faz uma curva para dentro, como quem coloca as mãos encolhidas sobre o peito para se proteger. Da vida. Do Velho. E eu vou pensar no Velho. Eu vou pensar que gostaria muito de dançar em cima do caixão dele. E vou desejar que ele morra bem lentamente. Vou desejar que ele sinta a calmaria do vácuo e esteja consciente de que nunca mais vai poder se mexer. Alguém vai me convencer de que Lázaro foi feito de metáforas. Que as coisas eram escritas pra botar medo na gente. E eles nunca pensaram que as coisas foram escritas também pra botar esperança. E a esperança é mais letal que o medo. Eu vou pensar nas tripas dele. No coração rígido, e talvez sinta curiosidade em saber se o tamanho do estômago é proporcional ao tanto que ele come. Eu vou rir. E vou lembrar do dia que ele destruiu uma caixa de papelão e vomitou em cima do tapete da sala. Os ossos serão objetos esbranquiçados e tímidos, se agarrando nas veias, e nas carnes, e na sustentação de todas as corridas atrás de passarinhos e gatos. E eu vou pensar nas cartomantes, no futuro, nos sonhos em que ele conversa comigo, mas sempre está muito distante para que eu possa toca-lo. E talvez eu chore um pouco. Bem pouco. Talvez eu não queira demonstrar que estarei chorando, e engula o ar até sentir minha cara doendo. Até explodir meu alivio pelas paredes da casa dela. Até não restar mais nada a pensar, a não ser deixar descansar. O cachorro. E o Velho. E o meu coração vai endurecer tanto, e ele vai continuar crescendo dentro do meu peito até eu perceber que algumas coisas são irremediáveis. Alguém vai dizer amém. E eu vou entender que a caixa de madeira é a única coisa que vai separar o que eu sinto, do que deve ser feito. E a chuva vai continuar a cair. E dentro de mim chove. Amém. Eu digo. E meu coração volta a respirar. GIO: Tá rindo de que? MARIANA: De você. GIO: Não estou falando com você. Esse teu ar de riso me dá raiva. Você é uma besta quadrada. Igual o Velho. Os olhos. A boca. Tudo em você me incomoda. Tudo em você me lembra o Velho. TEREZA: Eu estava tomando chá. Eu gostava de tomar chá todas as noites antes de dormir. As pessoas vivem de hábitos medonhos, mas o meu era só tomar chá. Ouvia os passos no chão de madeira. E isso me faz rir. O barulho. A água ficando escura. A minha espera. O açúcar acumulado no fundo da xícara, e os meus dedos fazendo movimentos circulares até a minha boca. Até ela parecer limpa. Eu rio por que. Não sei. Talvez seja hábito também. (Longo silêncio. Elas só olham para a caixa em cima da mesa). CENA NOVE: CERTAS COISAS SÃO DO JEITO QUE SÃO POR QUE DEUS QUIS ASSIM MARIANA: Diga alguma coisa. TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de me matar. GIO: Pior pra você. MARIANA: Palavras fúnebres. TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de rezar antes de me matar. E descansar em paz. Amém. MARIANA: Babaca. TEREZA: Um dia me vi morta. Pedi desculpas pro cachorro. Por deixar ele sozinho. Essas coisas. Um dia me vi olhando meu próprio caixão. Eu mesma chorei. Ninguém mais. GIO: Com quanto tempo começa feder? MARIANA: Dois dias. Se ficar no sol é mais rápido. TEREZA: E chovia. Eu morri num dia de chuva. MARIANA: Fedeu menos. GIO: Mas você sabe que não é a mesma coisa. Não sabe?! TEREZA: Claro que é. MARIANA: Fede menos. TEREZA: Fede mais. Dependendo da quantidade de sol. GIO: Eu vou vomitar. TEREZA: Parem. Olhem pra ele. Funciona assim: Você olha até se acostumar. Com as pessoas que trabalham no necrotério é assim. Eu acho. São acostumadas com o cheiro. Com a dureza. Ouvi dizer que eles pintam a cara do defunto com tinta de caneta, e ficam zombando das formas que se pode fazer com um corpo sem vida. Riem. Riem. Não me espanta que as pessoas tenham medo de morrer. O que elas têm é medo de não conseguirem revidar às provocações dos funcionários. Olhem pra ele. Pro bicho. Se quiserem dizer alguma coisa, digam agora. GIO: Não será a mesma coisa. MARIANA: Eu quero fumar um cigarro. TEREZA: E pode ser pior do que já é? MARIANA: Pode. Quem sabe ele não goste de estar aqui. Quem sabe você tá fazendo algo contra a vontade dele. Quem sabe você não esteja deixando ele descansar, e isso o deixe irritado. Quem sabe ele volte alguma noite pra te assombrar. GIO: Ele fica, tipo, parado? TEREZA: Duro. GIO: Olhando pra gente? MARIANA: Olhando com o que? Não fica de olho fechado? TEREZA: Você deu essa ideia! Vai desistir? MARIANA: Não disse isso. Disse que as vezes eu posso ter medo. Da alma dele. Do castigo de Deus. Por que você sabe que tá indo contra a vontade dele, não sabe? TEREZA: A religiosa. GIO: Jesus ressuscitou Lázaro. MARIANA: Quem te disse uma merda dessas? TEREZA: Eu vou cortar a barriga. Eu não sei fazer isso, mas acho que é assim. Eu vou cortar a barriga ou. Droga. Preciso tirar o sangue primeiro. Traga uma caneca! Igual faz com os bois no abate. Faz um buraco no pescoço, e espera o sangue sair. Enrola no jornal. Tem jornal? GIO: Eu não tenho estômago. MARIANA: Os olhos não secam? GIO: Coloca botão. TEREZA: Não é a mesma coisa. MARIANA: Quer que faça o que então, porra? TEREZA: Quero tirar essa dor do meu peito. Quero morrer. Quero deitar no chão, quero derreter nas frestas desse chão. E quero esquecer que tudo me toca. Tudo me comove. Tudo me atinge. Quero explicar que essa dor é tão forte, que parece Jesus colocando pregos na minha cruz. GIO: Como se você tivesse uma. TEREZA: Todo mundo tem. MARIANA: Eu não. GIO: Pior pra você. TEREZA: Eu vou rir. Mas não devia. Ai meu Deus. A minha barriga chega a doer. Você apanhou com um cabide de roupas. MARIANA: Coitada. TEREZA: (gargalha) Tô rindo, mas na hora foi bem triste. Você saiu correndo. Os passinhos assim pequenos, mal conseguia fugir. Achou que o banheiro era um lugar seguro, mas era burra de dar pena. Ficou encurralada igual passarinho sendo atacado por cachorro bravo. GIO: Não achei engraçado. MARIANA: As costas. Como é mesmo o nome daquilo? TEREZA: Pancada. MARIANA: Não. As marcas. Quando fica vermelho, e fica mais visível, como se a pele tivesse crescido. Como é o nome? TEREZA: Deformidade. GIO: Vergão. TEREZA: (gargalha) Vergão! Parecia uma zebra. Visto de longe, parecia o mapa mundi. A parte dos ombros parecia a Europa, e as pernas, a África. Quem sabe os cortes faziam desenhos iguais o dorso de uma zebra. GIO: Não achei graça. MARIANA: Você usou algodão? TEREZA: Sabe Deus. Ficou uma semana sem ir pra escola. Devia ter se matriculado num zoológico. MARIANA: Por dentro. Agora. Do bicho. Tem que tirar as tripas, e encher de algodão. Precisa de arame pra segurar o couro no formato do bicho, e depois, precisa de algodão pra preencher no lugar dos órgãos. GIO: Essa merda vai começar feder. MARIANA: Então ajuda, porra! (Arames, algodão, álcool, tesoura, faca, botões. Tudo colocado dentro da caixa de papelão. Mexem. Reviram. Os três pares de mãos. Em algum momento se encostam dentro da caixa). GIO: Eu nunca peguei na tua mão. Quer dizer. Depois de grande. Nem no bicho. Nunca peguei na mão dele. MARIANA: Não me encoste! TEREZA: Vou esfregar essas tripas na tua cara. MARIANA: A parte do intestino é mais rígida. Faz ondinhas. Todo o resto é liso e liguento. O dedo afunda. No intestino. MARIANA: Se eu morrer antes de vocês, não dancem em cima do meu caixão. GIO: Pra que? Acha mesmo que me dou esse trabalho? TEREZA: Um dia serei homenageada como a melhor conhecedora de tripas. Os formatos, os comprimentos. A cor. Direi, sem pestanejar, o exato lugar de onde elas saíram. As entranhas. Quando você morrer vou abrir tua barriga e cheirar todas as tuas tripas. Vou saber o que você comeu. As drogas que você usou. E as pedras que incomodam tuas vísceras. Vou sim. Quem sabe eu pendure nas paredes dessa casa, quem sabe durma com elas embaixo do meu travesseiro, ou acenda uma vela ao lado. Nunca, nunca deixarei que elas se sintam sozinhas. Eu te prometo. MARIANA: Um dia li que. GIO: Duvido. MARIANA: Uma menina africana, na Guerra Civil, fazia reconhecimento de cadáveres só encostando o lábio nas tripas do defunto. E ela sentia o gosto das tripas, e sabia de onde ele tinha vindo. GIO: Que nojo. TEREZA: Quando você era pequena, comia amoras e fingia estar sangrando. GIO: Mentira. TEREZA: Juro. Só parava quando o Velho esfregava uma esponja na tua cara. Um toque de rinoceronte. (Percebem que a taxidermia não funciona. Observam. Desanimam. Sentam. Desistem. Visivelmente desistem. Exaustas.). MARIANA: Quando chove o tempo para? GIO: Você já tentou respiração boca a boca? TEREZA: Tá morto. Eu gostaria que estivesse vivo. Mas está bem morto. Sinto um peso na minha cabeça. Não enxergo de longe. Esse é o mal do mundo. Enxergar só o próprio cu. MARIANA: Vai começar a feder. TEREZA: Você fede. Igual o Velho. Até os nós dos teus dedos lembram a cara dele. Toda enrugada. Toda deformada. Eu queria fazer um funeral decente. CENA DEZ: QUANDO TUDO SÓ EXISTE A PARTIR DO FIM. TEREZA: Quando ele entrou por aquela sala dentro daquela caixa de madeira toda polida, eu. Eu cantei. Esfreguei a ponta do indicador num alfinete e vi sangrar. Fiz contas. Agradeci. Marquei compromissos importantes. Olhei os meus pés com formatos estranhos. Nem por um segundo da ação do oxigênio oxidando, e matando cada célula minha e dele, pensei em dizer adeus. Pausa. Eu. não. me. culpo. MARIANA: Os lábios. Eu não sei o que eles faziam naquele momento. Eu acho que sorriam. Não lembro de ter observado isso. Os olhos, vivos, lúcidos, quase saltando pra fora do rosto meio quadrado, meio triste. Pareciam dois botões. TEREZA: Acho que nem deus sabe dançar como eu sabia. Mas as minhas pernas não me acompanharam. E eu só fiquei parada. Olhando. Lembrei do Cão. Do dia que eu quis ressuscita-lo. E eu também não o fiz. GIO: Aqui faz sol. Há vinte e oito dias só faz sol. Quem sabe sirva para levar as almas para o inferno. Ouvi dizer que Deus. Bom. Deus é um ser egoísta. TEREZA: Eu não me culpo. Na última vez que o vi ele parecia feliz. Parecia. Eu não sei explicar. É isso. Não disse adeus. Não disse nada, eu acho. Só fitei. Na minha cabeça tocava uma música esquisita, e eu dançava. Os nossos ritmos nunca eram iguais. Nunca foram. Eu sei que parece horroroso o que eu vou dizer, mas penso que. Eu penso que as pessoas deveriam ter data de validade. Mais que isso, penso que a gente deveria saber o dia que elas, você sabe, somem. fogem. morrer. Deus não deveria nos tirar a graça do preparo. Eu senti vontade de chorar. É isso. Queria andar com um pé na frente do outro, queria correr até perder o ar. Queria ter sentido o gosto daquele vazio. Talvez por isso não tenha dito nada. Outro dia descobri que o oxigênio é cruel. Quando você acha que tá se enchendo de vida, na verdade está morrendo a cada respiro. Ouvi alguém dizer “amém”. E eu entendi a caixa de madeira. O que podia ser feito. E a chuva continuou a cair. E dentro de mim choveu. Amém. MARIANA: Vai começar a feder. GIO: Com o sol é pior. MARIANA: A terra deu uma afundada lá atrás. TEREZA: Melhor. Assim ele descansa melhor.
  • 25/01/2018

    Os procedimentos de esquecer

    Ler dramaturgia pode parecer complicado, se você não tem o costume. Quando se faz disso um hábito, porém, a leitura acaba sendo facilitada pelas rubricas (indicações do autor externas às falas) e pela imaginação da cena que vem junto com as palavras. Continuemos, portanto, com a publicação de "O Velho", de Juliana Partyka, escrito em 2017 durante o Núcleo de Dramaturgia do Sesi. As cenas de 1 a 4 estão nos dois últimos posts. Novos autores paranaenses para novos tempos. dramaturgia CENA 5 – QUANDO TUDO ACONTECE, NADA FICA PARA DEPOIS. TEREZA: Será que ele vai pro inferno? MARIANA: Que? TEREZA: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto comia. MARIANA: Eu não sei se existe esse negócio de céu ou inferno! TEREZA: Então vai. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é sim. MARIANA: Você comeu? TEREZA: Um pouco. Tive um ataque de riso quando derrubei o prato de comida no chão. MARIANA: Coitada. TEREZA: Tua mãe veio aqui mais cedo, disse que não quer que você vire uma puta. MARIANA: Cena. Ela tá cagando pra mim! TEREZA: Você vai ficar? MARIANA: Talvez. Se a herança for boa. TEREZA: Tô falando sério. MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca! TEREZA: A voz dele fica ecoando. MARIANA: Que? TEREZA: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um negócio da cabeça. Até servi comida no prato dele hoje mais cedo. MARIANA: Quem sabe pensa que ele pode voltar. TEREZA: Deus nos livre. O que deu da entrevista? MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte. TEREZA: Mas isso foi semana passada! MARIANA: Foi o que eu disse. TEREZA: Tô querendo ir ao centro espírita. MARIANA: Que? GIO: Tá querendo se livrar da culpa. MARIANA: Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade escrevia até os segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido. Nessas horas a gente tenta meio de tudo. GIO: A previsão diz que vai chover o dia inteiro. TEREZA: A terra vai afundar. MARIANA: Ele descansou. TEREZA: Até parece que gostava do velho. Não carece palavras fúnebres não. TEREZA: Será que passa? MARIANA: Passa. GIO: Lógico que passa! TEREZA: ... GIO: Você precisa comer. CENA SEIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É POR QUE, DE FATO, QUER LEMBRAR. MARIANA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu poderia. GIO: Chega. TEREZA: Tá defendendo? Pega pra você. GIO: Depois não reclame. TEREZA: Tá defendo o Velho! Quem diria! MARIANA: Queria fumar um cigarro. GIO: Aqui dentro não. MARIANA: Você já apanhou com uma corda. Eu lembro. TEREZA: Nunca. MARIANA: A gente era bem criança. TEREZA: Lembra nada. MARIANA: O Velho chegou do trabalho, e eu brincava num balanço. Ele nem falou nada, só olhou. Firme. De canto de olho. Quando eu percebi você já estava misturada naquelas cordas. Gritava igual uma hiena. TEREZA: Eu era detalhista. Hienas riem. GIO: Parecia. TEREZA: Mas não morri. MARIANA: Ele dava socos até no vento. Só parou quando tua cara ficou inteirinha roxa quase sem ar, mas você ainda respirava. Eu lembro. TEREZA: Por que você tá zombando disso agora? MARIANA: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro. TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra trabalhar, voltava se encostando às paredes. Igual um moribundo. Limpava a boca com as costas da mão. Um velho muito nojento. MARIANA: Eu acho que só tenho uma memória boa. Não estou zombando. TEREZA: Do Velho? MARIANA: Daquele tempo. GIO: Você é inteira movida na ingratidão. MARIANA: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me olhe assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a doer. Você emprestou um chinelo da vizinha pra não levar uma surra! GIO: Sim! Ele te fez cagar de medo. Você tinha perdido a droga do chinelo rosa, e ele te jurou de morte! TEREZA: Babaca. MARIANA: Muito bom! Ele rosnava, e cada vez que ele te olhava, você perdia um pedaço de bosta dentro das calças! TEREZA: Aceitou, não aceitou? MARIANA: Sempre acreditou que era o mesmo chinelo. Babaca. GIO: Deu uma afundada lá atrás. TEREZA: Droga! GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar. MARIANA: Você devia ter comprado um caixão decente, pelo menos não afundava. TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta babaca. Eu vou tirar ele de lá. GIO: E vai fazer o que? TEREZA: Dançar. MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso. TEREZA: Vai ou não? MARIANA: Vou. CENA SETE: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER TEREZA: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai esbarrar num copo e fazer ele se espatifar no chão. Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele. Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido. Todo sem partes. E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou apertar meu indicador contra a pele dele. Vou grudar um pedaço daquilo no meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber que eu não morri. Eu. Não. Morri. Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que o Velho não me matou. Nem vai. O meu sentimento será de raiva. Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Então vou olhar de cima. Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio, e alguém vai dizer. Credo. E vou olhar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. Ele não. O cachorro. E eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que isso é tudo que eu sei fazer. E quando eu perceber o Velho de longe, ele estará cortando a minha pele, e a minha barriga estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas eu nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo. Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais. E alguém vai dizer: não importa. Então eu vou olhar pra Gio. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou desejar que ela nunca estivesse comigo. A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais. E eu vou perguntar do funeral. Eu não vou lembrar. Eu nunca lembro. Ela vai dizer que sente uma agonia no peito. Que devia fazer exercício para as pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o Velho. Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que sou triste, por que ela mesma é muito mais triste, e nem é por causa do Velho. Que se dane a dor dela. Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E um dia eu vou querer ressuscitar meu cachorro. MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe precise de um alívio pra alma. GIO: Mentira! TEREZA: Lógico! GIO: Já vai começar a feder. TEREZA: Você fede! GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi. GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Meu cu. GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho. TEREZA: Não tá não. GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio. MARIANA: Tá morto. GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro. MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô nem aí. Mesmo. Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa. GIO: Acho que tá morto mesmo. MARIANA: Tá chovendo. TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo pressão na minha cabeça. GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro. MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.
  • 05/01/2018

    Para que nunca se lembre de hoje

    jupartika   Seguindo com a publicação do texto "O Velho", de Juliana Partyka, que começou no post anterior. A autora, para quem não conhece, é a atriz na foto acima, em cena de "Perdão", com direção de Jader Alves. CENA DOIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É PORQUE, DE FATO, ISSO NUNCA ACONTECEU. MARIANA: Ele poderia morrer igual, não poderia? GIO: Que? MARIANA: O Velho. GIO: Cruzes. TEREZA: Eu acho. GIO: Chega! TEREZA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu poderia. GIO: Mas não vai. Ouvi dizer que ele tá doente. Meio podre. Então. TEREZA: Tomara que morra. Tomara que morra. Tomara que morra! GIO: Chega! MARIANA: Tá defendendo é? Pega pra você. GIO: Ele anda igual um cachorro de rua... Ouvi dizer. Cabeça baixa, sarna pelo corpo inteiro, magro, parece que vive com fome e sede. Nunca ergue os olhos. TEREZA: Comparação idiota. Coitado do cachorro. Coitado do cachorro. Eu trocaria os dois de lugar. Meteria o Velho embaixo da terra, e traria o Cão de volta. GIO: Depois não reclame. MARIANA: Tá defendendo o Velho! Quem diria! TEREZA: A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi chamá-lo de maldito. Maldito. Maldito. Maldito! Que os deuses te carreguem pra beira do inferno, canalha, egoísta, filho do próprio demônio vindo pra terra! Os olhos dele, na hora eu vi, azuis como se pintados à mão. Escuros, escondidos. O sorriso maldito que ele nem sorria, mas eu via. Eu tenho certeza que aquele homem é filho do próprio demônio! Tive vontade de bater na cara dele. Bem rápido. Muitas vezes. Imaginei minhas mãos doloridas, as juntas e as veias saltadas, de tanto que eu bateria nele. Não saberia distinguir meu próprio sangue, do sangue maldito que escorria daquela cara de cobra peçonhenta. Um dia eu te mato! Eu disse. Minha alma me olhou nos olhos. Fogo! Eu queria tirar o fogo que ardia nos meus olhos e tacar em cima dele. Morre, maldito! Queime! Pague os teus pecados! Eu sou deus, agora! Eu te condeno a rastejar até o resto dos teus dias, maldito. Maldito! (Longa pausa) GIO: Mas você não fez, não é?! Não queimou o Velho vivo, não fez quando teve vontade. Agora não adianta, te falta coragem. TEREZA: Quem disse? Tá me provocando? GIO: Não. Estou dizendo que se você não faz quando tá com raiva, depois você faz do mesmo jeito, sabendo que é o certo, mas se sente culpada. Não quero que sinta culpada. Não por isso. TEREZA: Pelo que então? GIO: Come! TEREZA: Culpada pelo que? Eu não tenho culpa de nada, tá ouvindo? Se o Velho morrer, melhor. Danço em cima do caixão dele. Estou falando! Escreve isso que estou te dizendo! MARIANA: Queria fumar um cigarro. GIO: Aqui dentro não. MARIANA: Então eu vou lá fora. Aproveito e tomo um banho de chuva pra tirar esse ranço de simpatia que você tem pelo Velho. Ó! Tá grudado na minha roupa! Que nojo! CENA TRÊS: TUDO QUE VOCÊ PRECISA É SE SEGURAR NAS COISAS QUE TE FIZERAM FELIZ. GIO: Você já me deixou na chuva. Eu lembro. TEREZA: Nunca. GIO: A gente era bem criança. TEREZA: Lembra nada. GIO: Tua mãe te fazia limpar a casa, e você era tão babaca que deixava a gente pra fora, só pra não sujar o chão. TEREZA: Eu era detalhista. GIO: Uma babaca. TEREZA: Mas você morreu? Não. GIO: E quando a gente entrava, você mandava a gente ajoelhar e limpar o carpete. COM A MÃO. Igual um cachorro comendo os farelos. Lambendo. Cisquinho, por cisquinho. Eu lembro. TEREZA: Por que você tá lembrando disso agora? Te ensinei a ser zelosa. GIO: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro. TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra fazer xixi, voltava se esfregando nas minhas cobertas. Igual quando tomava água. Limpava a boca nas cobertas. Um cão muito higiênico. GIO: Eu acho que só tenho uma memória boa. TEREZA: Do cão? GIO: Daquele tempo... TEREZA: Ingratidão...Você é inteira movida na ingratidão. GIO: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me olhe assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a doer. Você fez a Mariana comer cocô! TEREZA: E daí? GIO: Ela cagou no cobertor amarelo. Você tinha lavado a droga do cobertor amarelo, e ela cagou em cima dele! TEREZA: Vadia. GIO: Muito bom! Ela chorava, e cada vez que ela puxava a baba pra suspirar, ia um pedaço de bosta dentro da boca dela! Que genial! TEREZA: Aprendeu, não aprendeu? GIO: Tem prisão de ventre até hoje, coitada. (Tempo) MARIANA: Quem? TEREZA: O que? MARIANA: Quem tem prisão de ventre? GIO: Você tá fedendo cigarro. MARIANA: Deu uma afundada lá atrás. TEREZA: ... GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar. TEREZA: Desculpa cão. Desculpa te tratar pior que gente. MARIANA: Você devia ter feito uma caixa de madeira, pelo menos não afundava. TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta babaca. Eu vou tirar ele de lá. GIO: E vai fazer o que? TEREZA: Um funeral. MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso. TEREZA: Vai ou não? MARIANA: Tá. CENA QUATRO: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER PARA QUE NUNCA SE LEMBRE DE HOJE. GIO: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai esbarrar num copo e fazer ele se espatifar no chão. Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele. Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido. Todo sem partes. E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou apertar meu indicador no pedaço mais fino. Vou grudar um pedaço daquilo no meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber que eu não morri. Eu. Não. Morri. Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que a porra do caco de vidro não me matou. Nem vai. O meu sentimento será de raiva. Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Vou colocar meu dedo com aquele caco de vidro grudado nele bem na altura da minha cintura. Então vou olhar de cima. Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio, e alguém vai dizer. Credo. E vou imaginar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. E eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que isso é tudo que eu sei fazer. E quando eu perceber o caco de vidro, ele estará cortando meu dedo, e a ponta dele estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas eu nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo. Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais. E vou gritar bem alto para quem quer que seja: por que Deus nunca leva as coisas certas? E alguém vai dizer: não importa. Não há nada que possa ser feito agora. Então eu vou olhar pra Tereza. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou desejar que ela nunca estivesse comigo. A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais. E ela vai perguntar do cachecol. Ela não vai lembrar, ela nunca lembra que sempre dá suas próprias coisas para os bichos de rua. Os bichos de todo tipo. Os com quatro patas, com duas. Até os que pedem um cigarro no café. Ela nunca lembra. Eu vou dizer que sinto uma agonia no meu peito. Que eu devia fazer exercício para as pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o sangue na ponta do meu dedo. Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que ela é triste, por que eu mesma sou muito mais triste e nem é por causa do falecido cachorro. Que se dane a dor dela. Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E vou querer ressuscitar aquele o Velho, só pra poder mata-lo de novo. (TEREZA E MARIANA VOLTAM COM UMA CAIXA SUJA E MOLHADA, E COLOCAM EM CIMA DA MESA DA COZINHA) GIO: (se passando as mesmas ações da cena anterior) Eu gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. MARIANA: Credo. GIO: Por que Deus nunca leva as coisas certas? MARIANA: Não importa. TEREZA: Você viu meu cachecol? GIO: Sinto uma agonia no meu peito. Acho que preciso fazer algum exercício pra circular o sangue nas pernas. (Silencio) Jesus ressuscitava pessoas. (Silencio) MARIANA: Não tá fedendo. TEREZA: Odeio chuva. GIO: Você comia cocô. TEREZA: Tá espumando. MARIANA: Leva na igreja. GIO: Tá louca? MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe precise de um alívio pra alma. TEREZA: Ela! GIO: Você disse que cachorro não tem alma. MARIANA: Eu disse que não sabia se tinha, por que não sabia nem se gente tem alma. TEREZA: E tem? MARIANA: Não sei. O velho não tem. GIO: De novo isso? MARIANA: Ela. Tá bem. TEREZA: Quê que tem? MARIANA: Se fosse ele você estaria triste? TEREZA: Quê? MARIANA: O gênero. TEREZA: Lógico. GIO: Mentira! TEREZA: Lógico! GIO: Ele te lembraria do Velho. Já vai começar a feder. TEREZA: Você fede! MARIANA: Jesus poderia trazer ele de volta, não poderia? TEREZA: Você nem gostava do bicho. Não se dignava olhar pra ele. MARIANA: E daí? TEREZA: Por que é uma puta idiota que não pensa em nada além do próprio rabo. GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi. Eu comi cocô por que você é uma doente compulsiva por limpeza, e agora este bicho tá em cima da mesa cheio de barro, de pulga, de pus saindo dos olhos, de xixi escorrendo, e tudo isso tá sujando a droga da mesa da doente por limpeza. Tá feliz? GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Meu cu. GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho. TEREZA: Não tá não. GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio. TEREZA: (ouvindo o coração) Coração tá quieto. MARIANA: Tá morto. GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro. MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô nem aí. Mesmo. Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa. GIO: Acho que tá morto mesmo. MARIANA: Tá chovendo. TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo pressão na minha cabeça. GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro. MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.
  • 08/12/2017

    Novo teatro de Curitiba

    Tenho estado um pouco obcecada com a produção literária curitibana, e isso vale para textos teatrais. Por isso foi um bálsamo conhecer essa gente linda que cursou o Núcleo de Dramaturgia do Sesi em 2017, onde tive bons momentos também. Depois da realização de uma mostra dos trabalhos, dia 25 de novembro, surgiu a ideia de publicar alguns dos textos aqui no blog "A vida é palco". Para que não esmoreçam até o momento de finalmente encenar! Né, Juliana?? A Juliana Partyka será a primeira a publicar.  Aqui estão o prólogo e a Cena 1. O restante virá a conta-gotas, porque o texto é longo e requer, digamos... tempo de digestão. "O VELHO", de Juliana Partyka OBRA DESENVOLVIDA NO NÚCLEO SESI DE DRAMATURGIA – 2017 PERSONAGENS: TEREZA MARIANA GIO velho PRÓLOGO: ELAS ANDAM EM LINHAS RETAS, DA SUA MANEIRA.

    TEREZA: As coisas me comovem. Todas as coisas. Os pedaços de coisas. Os reflexos. Quando éramos pequenas, a gente. Como é mesmo que dizem? “Agora você vai chorar com motivo”? E também quando éramos pequenas as coisas, essas que tocam a gente, tinham dimensões particulares. Únicas. O Velho era o mesmo. Os móveis. Os quadros. As samambaias. Tudo refletia uma espécie de memória que não se sabe colocar em letras. Nos lábios. No riso. Na comoção. Tudo me comove. Quando ela veio, parecia uma bonequinha assim pequenina, minúsculas mãozinhas fofas e cheirosas. Um doce de gente. Um encanto. Uma mini vida. Eu, a mais velha, esperava que ela, e as mini mãos que ela tinha, servisse pra trazer paz. Uma espécie de paz utópica que, no fundo, só se alcança quando a gente morre. A outra já tinha tentado o mesmo feito. Não por vontade própria, mas por não ter escolhido vir pra esse mundo, e mesmo assim, ter carregado a mesma responsabilidade de “agora vai ser diferente”. O Velho é o mesmo. Acho que sempre foi. A minha distância dele, o asco, o motivo pelo qual eu gostaria de dançar em cima do caixão dele é, exclusivamente, por ele ter boicotado as duas tentativas de paz que vieram depois de mim. Eu as amo tanto que chega a escorrer pelo meu coração. Eu me comovi sempre, sempre. Quase sempre. O Velho não. Por ele nunca. Talvez alguém antes de mim esperasse a paz. Talvez tivessem depositado em mim a mesma esperança que eu joguei nelas alguns anos depois. E não as culpo por nunca terem conseguido. No final, acho que foi melhor assim. É como se tivessem arrancado um pedaço de mim, e desse pedaço, surgido uma carga a mais de energia para tentar outra vez. E outra. E assim até quando Deus quis. Quando ela veio morar comigo uma outra espécie de comoção invadiu o meu peito, e eu chorei de felicidade. Naquele dia em que falávamos de potes, e receitas para fazermos experimentos culinários, eu. A comoção. Naquele dia eu chorei. Eu estava tão feliz. Tão feliz. Então eu pensei no Velho. No quanto ele nos uniu de formas tão diferentes, em quem somos, e os medos que carregamos na bagagem. Maldito. Eu pensei. Eu quero dançar em cima do teu caixão, mas antes quero te agradecer. Pela comoção. E por elas. E pela esperança que eu carrego pelos cachorros de rua. Eu vou dançar em cima do caixão dele, e vou me comover toda vez que eu pensar. O Velho nunca me comoveu. CENA UM – QUANDO TUDO ACONTECE, O QUE FICA DEPOIS É O BURACO NO MEIO DO PEITO. GIO: Será que cachorro tem alma? Há dois dias só chove. Chove. Quem sabe a chuva sirva para levar as almas para o céu. Ouvi dizer que. MARIANA: Que? GIO: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto esquentava a comida da Tereza. MARIANA: Eu não sei nem se gente tem alma, imagina um cachorro! GIO: Então tem. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é sim. MARIANA: Tereza comeu? GIO: Um pouco. Ficou chorando por causa dele. Parecia um bebê! MARIANA: Coitada... GIO: Tua mãe veio aqui mais cedo, quer te arranjar um emprego nem que seja de puta. MARIANA: Puta eu já sou. Só não cobro por isso. Ela quer dinheiro, velha idiota! GIO: Você vai sair? MARIANA: Talvez. Se algum cliente ligar... GIO: Estou falando sério. MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca! GIO: O cachorro fica latindo. MARIANA: Que? GIO: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um cachorro da vizinhança, mas a gente acostuma com o bicho por perto. Tereza até serviu comida no pote dele hoje mais cedo. MARIANA: Ela tem saudade. Quem sabe pensa que ele pode voltar. GIO: Eu escuto a outra lá no quintal. A mais nova. Uiva e chora a noite toda. Às vezes de dia também. Tem que ir até lá com um pedaço de pão, e fazer carinho na cabeça até ela comer tudo. O que deu da entrevista? MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte. GIO: Mas isso foi semana passada! MARIANA: Foi o que eu disse. GIO: Ela tá querendo ir ao centro espírita... MARIANA: Que? GIO: A Tereza. Tá querendo falar com o cachorro. MARIANA: Não dá pra julgar. Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade escrevia até os segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido. Nessas horas a gente tenta meio de tudo. GIO: Mas é um cachorro! E cachorro não escreve! MARIANA: Cada um lida de um jeito. GIO: Isso pra mim é coisa de louco. Olha lá! Tá chorando de novo. Um gemidinho assim, pequeno. Da primeira vez que ouvi achei que era pulga comendo o couro dela. Se não tomar cuidado infesta a casa inteira. MARIANA: E não era? GIO: Não. Ela estava deitada com a cara apoiada nas duas patas. Uma remela branca saía dos olhos dela. Bem molhados. Parecia que tinha enfiado a cara no pote de água. MARIANA: O bicho sente também. Por que você sempre diz a TUA mãe? GIO: Não sei. Hábito. Mas acho que sente. MARIANA: Ela viu quando aconteceu? GIO: Viu. Estava do lado. Mijou em cima dela. Fiquei com raiva na hora. Já não gosto de lavar cachorro, lavar cachorro defunto pior ainda. MARIANA: Tereza viu? GIO: Não. Chorou de manhã e à tarde. Tirou o cachecol do pescoço e enrolou nas patas do bicho. Na hora ela saiu. TEREZA: Eu não me despedi. Não sei, na verdade. Fiquei refletindo o que significa despedida. Ninguém sabe. Eu só fiquei olhando ela lá. Tinha uns espasmos nos olhos. Fechava uma vez, eu achava que era a última, e tornava a abrir. Assim por várias vezes. Eu não me despedi exatamente naquela hora, mas depois comecei a pensar que já tinha feito isso a semana inteira. De um modo estranho, eu sei, mas aos poucos. Cada coisa que eu fiz nessa semana era um jeito de despedida. MARIANA: A previsão diz que vai chover o dia inteiro. TEREZA: A terra vai afundar. MARIANA: Pelo amor de Deus! TEREZA: Afunda! Não é sobrenatural. É natureza. MARIANA: Você tá bem? TEREZA: Acho que sim. Não sei. Tua mãe diz que é exagero, mas eu senti uma pontada aqui ó, bem no meio do meu peito. Coisa de hábito. Não importa quão ruim seja a situação, se ficar exposta a isso por um tempo longo, então, você se acostuma. MARIANA: Ela descansou. TEREZA: Que ridículo! Parece que tá falando de gente. Não carece palavras fúnebres não, eu sei que era um cachorro. Mas era minha, e eu era dela. Desde antes de vir morar aqui já era assim. GIO: Quem sabe você possa ter outro. TEREZA: Não! GIO: Tá. MARIANA: Quando você sente tristeza, tem que pensar em algo positivo. TEREZA: Tá. MARIANA: É sério. TEREZA: Olha quem fala! A desempregada do ano, a que não consegue emprego nem de puta! MARIANA: ... TEREZA: Desculpa. MARIANA: ... TEREZA: Quando eu fico triste eu penso nela. Se eu derrubo um vaso, e ele quebra, eu começo a chorar. Não pelo vaso. Por ela. Quando eu brigo com alguém eu fico triste. Não pela briga. Por ela. Eu penso nela todo tempo. Eu pego a câmera fotográfica e vejo as fotos dela. Se ela não fosse um cachorro, eu estaria chateada por não ter me dito que estava indo. Mas não. Eu só fico triste. MARIANA: ... TEREZA: Será que passa? MARIANA: Não. GIO: Lógico que passa! TEREZA: ... GIO: Você precisa comer.

  • 29/10/2017

    Um rato na panela

      ervilha A vida em família é mesmo um conto de fadas. Não leia, por favor, “mar de rosas”. Mas uma eterna narrativa que bebe das fontes mais diversas, isso sim. Essa história de princesas hoje está bem problematizada, claro. Mas ainda escapam uma aqui, outra ali. A das ervilhas, por exemplo, veio para ficar aqui em casa. Cada livro é lido, em média, 387 vezes. Por semana. Esse relato sobre a garota cuja nobreza a futura sogra põe em dúvida, até que tira a teima colocando uma ervilha debaixo de 20 colchões para ver se ela sente alguma coisa – e ela sente: dorme terrivelmente – foi um desses eleitos para a leitura em looping. Pois a vida imita a arte e resolvemos brincar um pouco além das páginas do livro. A menina ganhou um saco de ervilhas. Gostou tanto que resolveu não levar para a escola, onde haveria um baile real, os amigos iriam achar que é brinquedo e ela ia ter que dividir. Colocou tudo debaixo do colchão. Dia seguinte, eu ainda sonolenta, ela me diz: “Sabe que eu não dormi bem...” Aquela carinha de “lamento decepcionar”. Que foi? Filha, tá quente? A mão já apalpando a testa, o peito e as solas dos pés. Vazou xixi no lençol, sentiu fome, frio, sede? Não, mãe, tinha alguma coisa dura. A.....faz parte da narrativa. Ok, demorou para cair a ficha. Por sorte ela dá um jeito de melhorar mesmo as histórias mais escabrosas. O que dizer do ratinho que cai no caldo de feijão e...morre??? Sim, porque a história é bem explícita e não poupa os ingênuos ouvidos. Tem relatos que deveriam vir com classificação indicativa, mas esse não é o caso do livro da Dona Baratinha, não senhor. Enfim, tem morte e pronto. Mas ela deu um jeito. À noite, o pai quase dormindo do lado, ela acesa que só, inventando modas. “E quando a dona Baratinha for lavar a louça, em? Vai achar e dizer, ó, que fofo, um ratinho...”        

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