Cultura e diversidade religiosa na atualidade

  • SEMANA DA MULHER - 08 A 12 DE MARÇO NA PUCPR

    Elas no topo: mulheres fortes elevam outras

    Devido à pandemia, a programação da Semana da Mulher será realizada totalmente via internet (Imagem: Divulgação PUCPR)
    A Semana da Mulher da PUCPR será realizada entre os dias 08 e 12 de março, com o intuito de celebrar o dia internacional da Mulher. Será um espaço de troca de vivências, reflexões e muito conhecimento, com intuito de dar visibilidade a temas importantes para a construção de uma sociedade inclusiva e igualitária, com interdisciplinaridade, sonoridade e na vanguarda da discussão do espaço feminino.

    Como ainda estamos em distanciamento social devido à pandemia, a programação da Semana da Mulher será realizada totalmente via internet. Os encontros envolvem diversas Escolas da PUCPR, como Direito, Negócios, Politécnica e Educação e Humanidades, e versam sobre temas que vão dos desafios da mulher na advocacia à liderança feminina, passando por discussões sobre a banalização da violência contra a mulher e a participação feminina na política.
    Lançamento do Livro Masculino e Feminino na Fenonomenologia de Edith Stein 
    Na ocasião do evento alusivo à Semana da Mulher, será lançado o livro "Masculino e Feminino na Fenomenologia de Edith Stein". A obra é publicada pela Editora Juruá e, certamente, será festejada pelos ambientes universitários e também profissionais no âmbito dos estudos de sexualidade, gênero, antropologia, dentre outros.
    Afinal, poderá acrescentar muitas oportunidades de compreensão sobre a temática que engloba o papel do homem e da mulher em nossa sociedade e no quotidiano. Ela aponta o legado de Edith Stein (1891-1942), judia, filósofa, católica, mártir, santa, pensadora e mulher. Assim, é um livro coletivo, que aponta para a importância do pensamento de Stein, que ultrapassa fronteiras interdisciplinares.
    Livro sobre o pensamento de Edith Stein será lançado na Semana da Mulher PUCPR (Imagem: Divulgação Editora Juruá).
    Seu lançamento se dará no dia 09 de março, às 14h, em live promovida pela Escola de Educação e Humanidades da PUCPR, e contará com a participação online de: Angela Ales Bello, do Centro Italiano di Ricerche Fenomenologiche (PUL); Adriano Furtado Holanda (UFPR); Clélia Peretti (PUCPR); Maria Cecilia Isatto Parise (Grupo de Pesquisa Edith Stein e o Círculo de Gotinga - ANPOF); Magna Celi Mendes da Rocha (Pastoral Universitária da PUC-SP; Centro Universitário Ítalo Brasileiro).
    A Semana da Mulher PUCPR tem como objetivo dar visibilidade a temas importantes envolvendo o direito de mulheres em diferentes aspectos, com interdisciplinaridade, marcando a posição da Universidade na vanguarda da discussão do espaço feminino.
    Serviço: 
    Semana da Mulher 2021 PUCPR 
    De 8 a 12 de março 
    Evento gratuito 
    Inscrições e programação completahttps://eventum.pucpr.br/semanadamulherpucpr2021.
    Já para o público em geral, a programação será transmitida pelo Youtube Oficial da PUCPR, que pode ser acessado no seguinte link: https://youtu.be/C971e5T_HVw.
  • A TEORIA E A PRÁTICA DA SÃ TEOLOGIA

    A Busca da verdadeira Doutrina Católica

    Cristo – a Verdade sempre buscada – apresenta concretamente uma exigência radical: Amar os inimigos. (Imagem: Pixabay)

    Escrevo este texto pensando nas pessoas que partilham comigo a pertença à Igreja Católica pois, nestes tempos agitados, alguns se apresentam como os defensores da Verdadeira Doutrina, mesmo em alguns pontos que estão longe de ser consenso entre os que comungam da mesma fé. Me coloco a pensar sobre isto a partir de elementos que são constitutivos de minha própria identidade como católico, a partir da história e grandes embates do passado.

    Há uma lenda que narra que Francisco de Assis e Domingos se encontraram e ambos queriam salvar o mundo. Mas como fazer isto? Domingos dizia que o mundo seria salvo pela pregação da Verdade, Francisco retrucava que o mundo seria salvo pela prática do Amor. Este embate continua no coração na Igreja e precisa ser revisitado diuturnamente.

    Cristo se apresenta como a Verdade e isto tem levado cristãos a se apegar a uma ‘ortodoxia’ (a uma reta doutrina) e passam a acender fogueiras para todos os que não professam tal doutrina. Cristo como a Verdade é um ponto central de minha identidade católica, mas não posso esquecer que esta Verdade é inefável, continuamente buscada, nunca totalmente alcançada. Esta Verdade os cristãos buscam ao longo dos séculos e, com humildade, devemos reconhecer que Cristo não cabe no nosso ‘bolso’, não cabe plenamente nos esquemas mentais de nenhuma comunidade ou Igreja.

    A própria história da Igreja Católica se funde com a evolução da sua doutrina: há história para cada elemento central da Igreja. A missa que hoje celebramos, por exemplo, não foi assim (com o atual rito) celebrada nas primeiras comunidades cristãs. Assim, a Igreja busca uma contínua renovação doutrinária, em consonância com alguns princípios, tais como: fidelidade à fé que herdou e abertura aos sinais dos tempos.

    Para compreender a Verdade que buscamos é urgente lembrar o que nos disse Bento XVI “A verdadeira novidade do Novo Testamento não reside em novas ideias, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos — um incrível realismo” (DCE). Deste modo, a Verdade não reside em esquemas mentais, em fórmulas doutrinárias, mas nos abre para uma busca continua: ‘quem é Cristo?’ e, para os cristãos, esta indagação se abre e se funde com uma outra: ‘quem é Deus?’.

    Retomamos assim a inspiração de Francisco de Assis: o mundo precisa ser amado. Pois o Amor é a melhor definição de Deus, e fora do Amor a doutrina é apenas esquemas mentais precários, datados, ideológicos. A Verdade nos disse para amar como Ela mesmo nos amou.

    E o Cristo – a Verdade sempre buscada – apresenta concretamente uma exigência radical: Amar os inimigos. Este é o mandamento mais exigente: pois se amo o inimigo ele deixa de ser inimigo e se apresenta para mim como um ‘ser amado’. Esta é a face mais radical da busca da Verdade: amar é se aproximar da essência de Deus o que denuncia que será falso o amor quando se classifica o próximo como inimigo. Se o amor for falso, falso será o deus que se cultua.

    Em tempos conturbados como os nossos – quando alguns grupos nos querem cooptar - todos nós precisamos respirar fundo para não nos colocarmos ao lado dos que acendem fogueiras para ‘queimar’ os diferentes. Exige-se assim uma vigilância constante: se meu grupo impulsiona a odiar, me afasto. Se a expressão que classifica o ‘outro’ é pejorativa, não partilho. Se minha teologia confunde Verdade com Doutrina, vou revisar. Se minha antropologia exclui algumas pessoas por serem diferentes, vou repensá-la.

    Se alguma ideia justifica que é possível causar dano a alguém agora, visando um benefício eterno, retruco dizendo que a Verdade que busco ‘se fez carne’ e apregoou que o “Reino de Deus está no meio de nós”.  A Verdade que nos encanta e nos atrai não separa o presente e o eterno, o humano e o divino, nem o ser humano das outras criaturas. Ela nos impulsiona a zelar “pela vida toda e pela vida de todos”, como já nos convidava João Paulo II. Cuidar da vida em toda a sua dimensão – em uma visão ecológica – e da vida de todos, ciente que os excluídos precisam de atenção especial, se queremos, de fato, cuidar de todos.

    * Mário Antônio Sanches é Pós-Doutor em Bioética pela Cátedra de Bioética da Universidad Pontificia Comillas, em Madrid. É Doutor em Teologia, pela EST/IEPG, na área de Bioética. É mestre em Antropologia Social, pela UFPR, especialista em Bioética e licenciado em Filosofia. Atua como professor titular do Programa de Pós-graduação em Teologia e no Programa de Pós-graduação em Bioética da PUCPR e também como líder do Grupo de Pesquisa Teologia e Bioética, da SBB/PR e do Comitê de Bioética do Hospital Pequeno Príncipe. Atua como Professor Visitante no Instituto Superior de Filosofia e Teologia D. Jaime G. Goulart, Dili, Timor Leste. 

                    

  • DIALOGO INTER-RELIGIOSO

    Papa Francisco no Iraque: odiar é uma ofensa a Deus


    Pela primeira vez um papa esteve no Iraque, este foi um desejo de João Paulo II, concretizado por Francisco (Imagem: Vatican News)

    Na terra de Abraão, na planície de Ur, realizou-se na manhã deste sábado, 6 de março, um dos eventos mais aguardados da viagem do Papa Francisco ao Iraque. Judeus, cristãos, muçulmanos e representes de outras religiões se reuniram para rezar e regressar aos primórdios da obra de Deus junto à humanidade.

    A cidade, de fato, é citada na Bíblia e é indicada como o local de nascimento de Abraão e onde o Patriarca das religiões monoteístas falou pela primeira vez com o Criador. Depois de ouvir cantos, e o testemunho de homens e mulheres, o Pontífice pronunciou um discurso que mais parece uma poesia, que remete ao diálogo narrado no Livro do Gênesis, quando Deus pediu a Abraão que levantasse os olhos para o céu e contasse as estrelas.

    A nossa função primeira é esta, disse o Papa: ajudar os nossos irmãos e irmãs a elevarem o olhar e a oração para o Céu. “Erguemos os olhos ao Céu para nos elevarmos das torpezas da vaidade; servimos a Deus, para sair da escravidão do próprio eu, porque Deus nos impele a amar. Esta é a verdadeira religiosidade: adorar a Deus e amar o próximo.”


    Judeus, cristãos, muçulmanos e representes de outras religiões se reuniram para rezar (Imagem: Vatican News)


    Uma característica de Deus que Francisco continuamente ressalta é a misericórdia, portanto “a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão”“Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião. Antes, cabe a nós dissipar com clareza os mal-entendidos. Não permitamos que a luz do Céu seja ocultada pelas nuvens do ódio!”

    O Pontífice rezou por todas as vítimas do terrorismo, citando mais uma vez – como fez no discurso às autoridades – a comunidade yazidi. “O Céu não se cansou da terra: Deus ama cada povo, cada uma das suas filhas e cada um dos seus filhos! Nunca nos cansemos de olhar para o céu, de olhar para estas estrelas.”

    * Vatican News, é a agência de notícias oficial do Vaticano.

  • TEOLOGIA E SOCIEDADE

    A indiferença dilacerante


    Prof. Rossi reflete: a indiferença dilacerante ressuscita Caim todos os dias. (Imagem: Pixabay)

    Faz mais de um ano que vivemos uma situação caótica provocada pela pandemia. Não somente o tecido social se encontra fragilizado, mas, também, o próprio ser humano se percebe completamente indefeso e frágil fisicamente bem como emocionalmente. E, a fragilidade humana fez com que emergisse a indiferença em relação ao outro. São mais de 250 mil brasileiros que morreram antes do tempo por conta do coronavírus. Qual a minha responsabilidade diante do caos que bate ás nossas portas diariamente?

    Quando Deus perguntou a Caim onde estava seu irmão Abel, ele respondeu com outra pergunta: “Por acaso sou eu o responsável pelo meu irmão?” Sim, é claro que somos responsáveis uns pelos outros. A pergunta de Caim aponta o caminho da fuga e da falta de responsabilidade. Sim, somos responsáveis porque o bem-estar dos nossos irmãos e irmãs depende do que fazemos ou do que deixamos de fazer. Não vivemos isolados na sociedade e a vida não é uma ilha que nos isola de tudo e de todos.



    O problema da indiferença
    A pergunta de Caim parece servir como uma capa atrás da qual nos escondemos; uma capa que poderíamos chamar de indiferença. Não enxergamos o próximo como uma possibilidade de agirmos de forma bondosa, amigável solidária e responsável. Talvez vejamos nos outros um inimigo e numa sociedade em que o individualismo é festejado, a solidariedade se torna produto exibido em museus. O que mais me assusta é o pouco valor dado à vida do outro. A indiferença nos acomoda à frieza e leva a demonstrar completa falta de empatia por aqueles e aqueles que vivem e convivem nos mesmos espaços.

    A indiferença dilacerante ressuscita Caim todos os dias. Ele continua vivo em cada um de nós diariamente quando o vemos refletido no espelho. Caim não morreu! Ele se apresenta todas as vezes que não agimos solidariamente; todas as vezes que negamos o bem-estar aos outros ressuscitamos Caim. Por isso, ele está mais vivo do que nunca nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nas empresas, no relacionamento entre vizinhos. A imagem de Caim nos espreita sorrateiramente todos os dias. Através de nossas ações o alimentamos e o convidamos a permanecer diariamente em nossas casas. Caim não morreu e não morrerá enquanto prolongarmos no presente uma ação que deveria servir apenas como uma vaga lembrança.

    A importância do cuidado
    Quais as razões pelas quais deveríamos cuidar uns dos outros? Essa é a pergunta que revela a essência de Caim em nós e o próprio erro de Caim. Afinal, quando pedimos as razões pelas quais deveríamos cuidar uns dos outros estamos, simultaneamente, renunciando à nossa responsabilidade e, consequentemente, deixamos de agir moralmente.

    Mas por que deveríamos cuidar uns dos outros? A única resposta que me vem à mente é porque o cuidado nos torna mais humanos. Tornamo-nos mais humanos – e nos distanciamos de Caim – quando assumimos responsavelmente a vida do outro como se fosse a nossa própria vida. É a responsabilidade pelo outro que me faz um ser ético.

     

    * Prof. Dr. Luiz Alexandre Solano Rossi é docente de Sagradas Escrituras na PUCPR.

     

     

  • A RELIGIÃO BEM VIVIDA NÃO ATACA, MAS DIALOGA

    Até quando? Polarizações, violência e intolerância em nome da religião...


    Frei Vicente Artuso denuncia as polarizações, a violência e a intolerância em nome da religião. (Imagem: arquivo pessoal)

    Polarizações, violência e intolerância em nome da religião. Reflexão em vista de uma inserção social da prática religiosa à luz dos Evangelhos

    Inicio esse artigo expressando solidariedade aos que são atacados por defenderem o diálogo e o compromisso com a fraternidade, sensíveis aos clamores dos que sofrem. Me refiro a especialmente a uma live sobre a campanha da fraternidade no dia 26/02/2021, com a participação de membros do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) do qual a Igreja Católica faz parte.

    Nessa ocasião houve ataques à Campanha da Fraternidade e a pessoas. Essa oposição com os mesmos ataques aparece em todas as falas dos bispos nas redes sociais.  O que se requer é serenidade de ânimo para dialogar com as diferenças e diversidades.

    Diálogo supõe calar, ouvir e trocar impressões sobre os acontecimentos para abordar os fatos de forma construtiva. Numa sociedade plural, que se diz democrática, o diálogo construtivo em torno de graves problemas sociais, requer escuta e ponderação. Porém, o que se observa são polarizações, violência em nome de Deus.

    Me refiro à forma de polarização em relação a uma Teologia que acentua apenas a doutrina e uma relação vertical com Deus que ignora a inserção social. Nesse caso, o Deus que apresentam é surdo ao clamor do povo, insensível, fechado na sua onipotência! O Deus revelado em Jesus foi sensível ao clamor do pobre Lázaro que jazia na porta do rico (Lc 16,20).




    O mal da polarização

    Essa postura unilateral foi combatida pelos profetas e por Jesus. A teologia do “só eu e meu Deus” pode alimentar um egoísmo sem compaixão com o próximo. Essa religião pode se tornar fuga da realidade, alienação diante dos problemas e conflitos. Abandona-se os problemas na mão de Deus para que ele resolva sozinho, sem tomar iniciativa, ou se atribui as desgraças do mundo ao demônio como o maior responsável pelo mal no mundo.

    Os catecismos cristãos, para citar os mais conhecidos: Catecismo de Lutero, o Catecismo de Trento, o Novo Catecismo da Igreja Católica, todos se compõem de partes complementares:  o que se deve crer que é o símbolo apostólico (quid credendum) não está separado do dever de praticar os mandamentos (quid faciendum). Em outras palavras, a teologia dogmática - das verdades de fé - no credo, é seguida da teologia moral, da teologia prática.

    Esse binômio crer e praticar, também consta na teologia judaica com a hagada (a narração da história) e a halaca que indica como caminhar na lei. O discurso teológico sobre Deus tem uma dimensão vertical e horizontal, muito além de certas concepções cristalizadas. Olhemos para a natureza, e nela se reflete a providência de Deus, como relata o Evangelho: “Deus faz chover tanto para os bons como para os maus, tanto sobre justos como injustos” (Mt 5,45).




    A justiça de Deus nas Escrituras

    A gratuidade de Deus se faz presente sem medida, sem limites. A justiça de Deus vai além e ultrapassa a justiça medida pela lei. Portanto a religião insere o crente no mundo, na sociedade. Ali ele crê, pratica e celebra a sua fé inserido, e capaz de colaborar e fazer a sua parte.

    Reforço ainda: a relação com Deus, e a experiência de Deus nas celebrações litúrgicas ou na oração pessoal não estão separadas da experiência vital, das lutas e sofrimentos do dia a dia. Foi assim desde a origem do cristianismo. O próprio Jesus que se retirava com frequência para orar no deserto (Mc 1,35) buscava refazer as forças para a missão. Na sua dura jornada de Cafarnaum curou a muitos: o possesso, a sogra de Pedro, o leproso.

    Os Evangelhos testemunham essa profunda inserção social de Jesus, preocupado com falta de pão, com os doentes de toda sorte: os pecadores, os leprosos, cegos, paralíticos, possessos. Justamente por esta profunda ligação com Deus na oração, ele era movido de compaixão. Assim foram na história tantos que se santificaram seguindo Jesus: São Francisco de Assis, São Vicente de Paula, Santa Dulce dos pobres aqui no Brasil, dentre outros.

    Eles viveram o Evangelho e tinham consciência do que disse Jesus: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que fazeis” (Mt 25,40). Muitas vezes foram incompreendidos e atacados. Destaco Dom Helder Câmara, perseguido especialmente no tempo da ditadura militar. Ele mesmo dizia: “Se ajudo um pobre me chamam de Santo, se questiono o motivo da pobreza me chamam de comunista”.

    Assim o sistema politico da época usava a religião intimista, para se consolidar. E quem tinha iniciativa de formar a consciência crítica do povo era taxado de comunista. E essas acusações de comunista ou abortista são chavões usados no discurso extremista e violento, dirigidos a pessoas cristãs que levantam sua voz contra as injustiças.

    Feminicídio, tráfico de mulheres, violência, racismo, indiferença, armamento, destruição da natureza, drogas, fome e miséria. Tudo isso faz parte do “pecado do mundo”. São males que clamam aos céus!

    Dizia o Pastor luterano Dr. Milton Schwantes: “A Palavra fede, tem cheiro forte”. Estudioso que era do profeta Amós, recordava a necessidade de ouvir o clamor do povo que sofre, pois o direito de Deus é preservado quando se defende o direito do pobre, daquele que fede pelas ruas ou catando comida no lixo. Como não acolher e reconhecer tantas instituições, organizações engajadas e que tanto bem fazem? Como fazer uma teologia que sensibilize para o bem, uma teologia mais aberta que vença essas barreiras e muros para um diálogo mais construtivo?

    Contribuições do Evangelho contra a violência

    Para ajudar proponho ao leitor fazer uma leitura integral de um Evangelho. Sugiro ler integralmente o Evangelho de Marcos e responder essas perguntas: De quem Jesus se aproximou? Como ele se relacionou com as pessoas? Como ele se relacionou com Deus?

    Observará o profundo respeito e ao mesmo tempo firmeza, desafiando as pessoas a se desinstalar. Ele agia movido de compaixão (Mc 1,41), e ficava indignado e entristecido com quem não reconhecia suas ações em favor da vida, como quando curou o homem de mão seca no sábado (Mc 3,1-6). Chamou duramente a atenção dos discípulos lentos para compreender: “vocês tem olhos mas não enxergam”, “não compreendem”? (Mc 8,18-19). Não teve medo de denunciar. Foi também ecumênico.

    Certa feita, quando alguém expulsava demônios em seu nome, e não era do grupo dos seus seguidores, respondeu: “Não impeçais, pois não há ninguém que faça um milagre em meu nome e logo depois fale mal de mim. Quem não é contra nós é por nós” (Mc 10,39-40). Portanto, Ele enxergava valores, além dos paradigmas teológicos dos seus discípulos e dos seus adversários.



    O papel da Teologia

    A Teologia é diálogo em relação a Deus, na relação do ser humano com seu próximo e com Deus e com o mundo. Portanto tem uma função social.

    A aliança com Deus tem duas dimensões: a relação com Deus e a relação com o próximo. “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus a quem não Vê” (1 Jo 4,20). O importante é aprender a fazer teologia com olhar na Escritura que é a “Alma da Teologia”, e o olhar nos fatos contraditórios ao projeto de vida que o próprio Jesus abraçou e se comprometeu.

    Esse projeto foi bem explicitado numa celebração em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a remissão aos presos, e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc  4,18-19).

    Com certeza, essa religião voltada ao Pai e comprometida com o próximo é a religião mais pura que agrada a Deus (cf. Tg 1,27). Não se pode valorizar apenas de um lado só a Teologia, ela tem duas dimensões inseparáveis, assim como dois lados da mesma moeda: fé e compromisso.

    Portanto, fraternidade e diálogo são compromisso de amor. Eis uma proposta bem humana e divina. O Evangelho do amor não é da esquerda, nem da direita, porque é uma proposta a todos os homens e mulheres de boa vontade.

     


    *Vicente Artuso é frade Capuchinho, Doutor em Teologia Bíblica e professor no Programa de Pós-Graduação da PUCPR e do Studium Theologicum Claretiano de Curitiba.

  • REFLEXÃO

    A vida e o cuidar, a morte e o morrer – A religiosidade no leito de morte

    Coping religioso pode ser alternativa para o enfrentamento da dor (Imagem: Pixabay)

    Nós temos conceitos muito resumidos sobre muitas coisas, se assemelhando à uma criança; se você perguntar à uma criança sobre profissões, ela vai responder de forma bem resumida e sucinta: o bombeiro apaga o fogo, a professora ensina, e o médico e enfermeiro cuidam “da gente”.

    O verbo cuidar remete à “responsabilidade”, e lembra o do latim “cura” a palavra que no português é cuidar e tratar (BOFF. 2013, p.28); se formos aplicar essas palavras em uma frase, saberemos que a responsabilidade do cuidar e tratar é a promessa feita por todos os profissionais de saúde, além de podermos ver a Ética para com o cuidado com a vida, também conhecida como a Ética das Virtudes de Aristóteles.

    Essa vertente pensa muito nos meiostermos, ou melhor dizendo, nos equilíbrios; sem mais nem menos, o necessário. A ética Aristotélica na saúde diz muito sobre o que fazer, e o que fazer; o quanto lutar, e quando deixar ir. Tratar sobre um assunto como este é extremamente complicado e requer uma certa intimidade com o paciente, e para que o médico responsável possa ter liberdade para pensar sobre este assunto que gera discussões ao redor do globo, a morte e os cuidados nos momentos finais, é importante a existência de uma certa proximidade com o paciente em questão.

    Fabrício Donizete da Costa (2009), faz uma citação a Suchman logo no início da introdução de seu artigo Empatia, Relação Médico e paciente e formação em medicina: Um olhar qualitativo; nesta citação ele enfatiza a importância de um vínculo empático no tratamento dos enfermos, destacando o impacto que uma boa Relação Médico Paciente tem ao longo do processo dos cuidados requisitados.

    Se assim dito por Costa, juntamente ao longo de uma vasta gama de artigos com o mesmo teor, por que existe a desumanização do paciente no processo de morte? A desumanização é tirar características da humanidade de um indivíduo, sejam esta sua personalidade, criatividade, compaixão e amor, podemos ter noção do que seria o processo de desumanização no tratamento de um paciente.

    Passar a agir com impessoalidade no tratamento de um caso terminal, pode ser encarado como um processo de isolamento, um mecanismo descrito por Freud (1894) como a separação de um evento incômodo de seu afeto, ou seja, para que o médico sofra menos com o processo de luto, ele cria um processo não proposital de “objetificação” do paciente.

    Puchalski (2004), no seu artigo sob o título Spirituality, Religion and Healing in Palliative Care coloca a questão do fenômeno do Isolamento em pauta:

    "Quando alguém está morrendo, o sistema de saúde não está equipado adequadamente para lidar com aquela pessoa, porque não há cura ou conserto. Isso talvez ocorra, em parte, por causa do fato de que cuidar dos moribundos desafie cuidadores a examinar questões sobre sua própria mortalidade. As questões que surgem podem ser dolorosas e assustadoras: - por que eu? – Por que meu amado ou meu paciente?"

    A agonia do acaso, retratada nas perguntas imersivas, pode ser causa da busca da religião no ambiente do tratamento de enfermos, principalmente os terminais. É possível que para encontrar estas respostas, estes profissionais busquem a explicação do acaso na religiosidade. A agonia do acaso, retratada nas perguntas imersivas, pode ser causa da busca da religião no ambiente do tratamento de enfermos, principalmente os terminais.

    Foi cientificamente comprovada a importância da Religiosidade e Espiritualidade no paciente, se tornando pauta de diversas discussões e pesquisas no cenário atual da ciência sobre o homem.

    Nestas pesquisas também é ressaltada a importância da religiosidade no profissional, sabendo que respeitar e cultivar crenças religiosas e espirituais no paciente, traz uma melhor relação de confiança entre o profissional e o enfermo. Uma vez a relação de confiança estabelecida, é destacável a importância da Espiritualidade como terapia complementar aos cuidados com o paciente, principalmente nos cuidados paliativos.

    Tal comportamento é estudado com diversas controvérsias; alguns profissionais da saúde julgam a religião como um tópico perigoso e nocivo para a saúde mental, uma vez que é causa de delírios, preconceitos com sexualidade e episódios de sentimento de culpa, assim como existem profissionais que admitem a importância em uma crença no tratamento de pacientes que possuam uma crença religiosa ou espiritual. (KAMBUY, Karine, 2006.)

    O posicionamento que considera a religião como um tópico nocivo à saúde mental é uma minoria nas estatísticas quando se trata de artigos sobre o tema. No livro Bioética e cuidados Paliativos, é discutido no último capítulo, Espiritualidade em cuidados Paliativos: contribuição do coping religioso/espiritual, justamente a questão da espiritualidade e sua importância nos cuidados paliativos.

    Esperandio (2016) começa o capítulo da seguinte forma: O debate sobre a integração da espiritualidade nas práticas de cuidado em saúde nasceu no contexto dos cuidados paliativos, de onde surge também a noção de “cuidado espiritual”. Os cuidados espirituais assumem importância especial no fim da vida. Tendo consciência da importância dos cuidados paliativos e do contato espiritual não só no leito de morte, mas também durante todo o processo de hospitalização, desde a preparação do paciente e familiar ao adeus (PUCHALSKI, 2009, p. 900-901), é perceptível a facilidade da criação de um vínculo com o paciente quando se tem uma conexão religiosa.

    Em diversos artigos e sites, tanto sobre tanatologia quanto religiosidade, é evidenciado a importância da religiosidade do paciente nestes momentos finais, assim como é importante a fé do profissional, seja na sua religião ou na religião do paciente, com isso eu digo que um profissional que apoia a crença deste paciente nos últimos momentos tende a deixar o paciente mais confortável, podendo chegar a sanar algumas dores tanto da cabeça quanto do corpo; Dr. Frush, um médico pediatra, se declarava cristão e acreditava que sua crença contribuía para um melhor tratamento.

    Ao se debater sobre Cuidados Paliativos, é essencial citar a pioneira Cicely Saunders, enfermeira que se especializou no cuidado de pacientes terminais. Saunders torna a tradição de cuidado de casas de repouso inglesas em um processo de cuidados, denominados hospice. O processo consiste na sistematização do foco de tratamento da dor, atenção a necessidades sociais, emocionais e espirituais dos pacientes terminais, além da formação de outros profissionais para este tipo de cuidado (CLARK, 2011, p.15).

    Isto mostra o contraste entre a medicina tradicional, que nestas horas é dito “não há mais o que fazer”, e os Cuidados Paliativos, cujo conceito pode ser descrito por uma frase de Saunders: “Você importa porque você é você, e você importará até o fim de sua vida. Nós faremos tudo que pudermos não para que você possa morrer em paz, mas também viver até que morra.”

    * Gabriel Haru é freelancer de Ilustração e Design e artista de Histórias em Quadrinhos. Estudante de Design na Pontifícia Universidade Católica do Paraná e, em 2020, cursou a disciplina de Cultura Religiosa, do Eixo Humanístico da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR.

  • CURSO DE SAGRADAS ESCRITURAS

    Que tal fazer um curso de Especialização em Bíblia?


    (Imagem: Divulgação)

    CURSO DE BÍBLIA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO

    Estão abertas as inscrições para o Curso de Especialização em Bíblia: Antigo e Novo Testamento, promovido pelo INSECH e assessoria de professores(as) qualificados na área bíblica. O Curso será totalmente via remota (não presencial), com duração de dois anos, com um módulo por mês (sexta à noite e sábado de manhã). O valor do Curso é de R$ 200,00 mensais.

    Informações sobre conteúdo e corpo docente:
    www.insech.com.br ou com a Patrícia: (43) 99157-6562.


    * Patrícia Zaganin é mestre em Teologia Bíblica pela PUCPR.

  • LIVRO DO MÊS

    Fragmentos de uma pandemia


    Fragmentos de uma pandemia: livro do mês proposto ao leitor (Imagem: Publicação da PUCPRESS)

    Já faz um ano que o primeiro caso de COVID-19 chegou ao Brasil e a pandemia não acabou - aqui e em quase todo o mundo. Ainda vivemos em um ambiente de constante ameaça, (des)informação e carências.

    Neste período de (re)ajuste, alcançar novas possibilidades de interpretação e de resiliência pode ser uma importante ferramenta para aprimorar o conhecimento e enxergar oportunidades de reflexão. Aliás, distintas reflexões, pois o que temos aprendido neste período de isolamento é o quanto o impacto da pandemia pode nos trazer um leque de interpretações sobre a vida, a morte, a saúde, a espiritualidade, o trabalho, nosso modo de nos alimentar e comunicar... e tantas outras variáveis.

    Por isso, indicamos como livro do mês aos nossos leitores o valioso Fragmentos de uma pandemia, publicado pela PUCPRESS e organizado pelos professores Douglas Borges Candido e Fabiano Incerti, do Instituto Ciência e Fé da Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR. 

    A obra conta com provocações inteligentes, que partem de diferentes perspectivas do conhecimento sobre a questão pandêmica. Nela, o leitor encontrará interações filosóficas contextualizadas, desenvolvidas por cabeças que pincelaram facetas marcantes sobre o ser humano e a sua relação com o isolamento. Foi escrita durante o primeiro semestre de 2020, período de ascensão de casos de COVID-19 no Brasil e no mundo, por meio de entrevistas com intelectuais nacionais e internacionais.



    Quem são esses convidados? 

    O elenco é bastante interessante. Participam da obra Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e presidente da Federação Internacional de Universidades Católicas (FIUC), doutora em Estudos Alemães pela Universidade Católica Portuguesa; Ladislau Dowbor, Economista brasileiro, professor titular de economia da PUC-SP, doutor em Ciências Econômicas pela Escola de Economia de Varsóvia; Michel Maffesoli, sociólogo francês, professor emérito da Sorbonne Université e membro do Instituto Universitária da França, doutor em Sociologia pela Université Grenoble; Regina Herzog, psicóloga, professora da UFRJ e pesquisadora na área de teoria psicanalítica, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio; Táki Cordás, médico psiquiatra, professor de Medicina na USP e pesquisador na área de transtornos alimentares, doutor em psiquiatria pela USP; Tomáš Halík, padre católico tcheco, professor de sociologia e filosofia da religião na Charles University, em Praga, na República Tcheca (foi laureado, em 2014, com o Templeton Prize).

    Perspectiva dos "fragmentos"

    De acordo com o professor Fabiano Incerti, o livro não busca uma resposta única sobre a questão da pandemia, mas visa "tatear impressões sobre o contexto pandêmico". Além do mais, o material apresenta "uma visão de ruptura diante de um contexto que nos traz um otimismo esperançoso, mas não ingênuo", explica. 

    Assim, o que o leitor encontrará ao longo das páginas da obra, será "a revisão dos nossos hábitos de consumo, dos nossos modos de viver e de agir, do nosso cuidado com o planeta e com a manutenção de um ecossistema saudável, da nossa atenção para o problema da desigualdade social e distribuição de renda, entre outros pontos críticos. Trata-se, pela intensidade do que estamos vivenciando, de escolhas éticas, políticas e sociais decisivas", conforme apontam os organizadores, no prefácio da obra.

    Material gratuito

    Se você tiver interesse em ler o livro, baixe-o gratuitamente aqui na página do Instituto Ciência e Fé da PUCPR ou no site da Amazon, neste link

  • “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” (CFE-2021)

    A igreja é Católica na prática ecumênica - uma reflexão à luz da Bíblia



    Reflexão bíblica sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica enviada pelo Frei Vicente Artuso, OfmCap. (Imagem: Pixabay)




    O texto da Campanha da Fraternidade de 2021 caracteriza-se como ecumênico, não apenas pela participação efetiva do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) na sua elaboração, mas pelos objetivos e sua linguagem propositiva e coloquial. A divisão em três partes é um convite as pessoas de boa vontade para construir a unidade, caminhando juntos.

    Diz um provérbio africano: “Se você quer ir rápido vá sozinho, se você quer ir mais longe caminhe junto com outro”. Na caminhada juntos em vista de um objetivo, há momentos de parar, de rever, para depois retomar a marcha. Assim o povo de Israel no deserto caminhava e fazia suas paradas para se refazer e depois reiniciar.

    A linguagem do texto base dividido em três paradas é sugestivo. A estrutura corresponde as três etapas do conhecido método: ver, julgar e agir.

    A primeira parada: é o momento do diálogo para “trocar impressões sobre os acontecimentos”. Isto é, VER ao redor, observar com atenção. O que não significa ficar passivo, pois é o ver para partilhar na conversa construtiva em fraternidade.

    A segunda parada: é para refletir à luz do evangelho, com o título: “Carta para pessoas de boa vontade em um mundo cheio de barreiras e divisões”. Essa carta é baseada na prática de Jesus que veio para derrubar os muros da divisão. Essa parada é para JULGAR as práticas e atitudes na caminhada a luz de Jesus, de seu encontro com os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).

    Ele lhes interpretou as Escrituras para que abrissem os olhos, não ficassem passivos. Podemos dizer que Jesus foi formando os discípulos como um irmão caminhando junto e dialogando a partir dos acontecimentos recentes e a luz das Escrituras. Jesus se aproximou e perguntou: “Que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando”? (Lc 24,17) E um deles respondeu “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram” ? (Lc 24,18) Os discípulos nesse diálogo inicial estavam com o rosto sombrio.

    Porém logo os fatos foram iluminados pela Palavra e por fim na prática da partilha do pão. Dizia Carlos Mesters “A leitura da Bíblia apenas, não abre os olhos, ela aquece o coração”. A prática do bem, no caso a partilha do pão em comunidade é o que abre os olhos. Esse abrir os olhos é resultado de uma reflexão a luz da Palavra de Deus para a conversão e prática do amor fraterno.

    A terceira parada: diríamos que corresponde aos objetivos de construir a unidade: promover o diálogo ecumênico, a convivência religiosa. Esse é o AGIR, são as ações que as Igrejas podem assumir juntas. Dentre elas está o compromisso de superação da violência por meio de ações ecumênicas, em especial o documento menciona a violência contra as mulheres. Portanto é uma campanha ecumênica, pois é convite ao diálogo, naquilo que une: temas em relação a defesa da vida e o bem comum.

    No ecumenismo não vamos tratar questões doutrinais que são diferentes e cada Igreja deve ser respeitada na sua doutrina. Nesse ponto o documento também foi criticado por não mencionar a Virgem Maria. Maria está no coração dos católicos e de todas as pessoas que amam Jesus! Paulo mesmo, nas suas cartas não fala o nome da mãe de Jesus, nem mesmo o Evangelho de João.

    Todavia ela está presente nos momentos mais importantes da vida da Igreja nascente. O foco do documento não é doutrinal, mas é promover o diálogo com o diferente. Com razão dizia o Cardeal Odilo Scherer diante de ataques a CNBB e a Campanha da fraternidade: para dialogar é preciso baixar a temperatura, sem animosidade e manter o foco, isto é o propósito principal da campanha.

    A Igreja Católica fez um gesto de grande abertura ao confiar a composição do documento ao CONIC, do qual ela faz parte. Ser católico é ser ecumênico. O Concílio Vaticano II (1962-1966) é chamado “ecumênico” não só porque contou com participação de teólogos e especialistas de outras religiões, mas porque se preocupou com problemas comuns de toda a humanidade.

    Seu objetivo era fazer que a Igreja fosse reformada, sendo mais aberta para o mundo e seus problemas. Assim expressa a constituição pastoral Gaudium et Spes: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem são as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

    A solidariedade com a humanidade sofrida não é missão exclusiva da Igreja Católica mas de todos os cristãos discípulos e discípulas de Cristo. Muitas ações em vista do bem da humanidade, já realizadas em outras campanhas ecumênicas, são ações ou projetos que unem as pessoas: Assim lembramos os temas: “solidariedade e paz” (2005), “Economia e vida” (2010), e o tema da ecologia: “Casa comum, nossa responsabilidade” (2016).

    Afinal a Igreja é católica por ser universal na sua missão em favor do Evangelho da vida. A crítica de grupos tradicionalistas, contra a campanha da fraternidade de que a CNBB estaria sendo movida por interesse políticos de partidos de esquerda, não procede.

    A campanha da fraternidade ecumênica não diminui a identidade da Igreja Católica, pois os Bispos estão unidos no mesmo objetivo. Eles são fiéis a Igreja e seguem uma doutrina social, bem apresentada no documento da Pontifícia Comissão Justiça e Paz: “Compêndio de Doutrina Social da Igreja” do Papa João Paulo II (1988). Vamos conhecer mais a nossa Igreja que é universal, por buscar estar presente e ser servidora em meio aos mais sofridos. O Objetivo é sermos mais fiéis ao Evangelho de Cristo que prega a unidade derrubando os muros da intolerância  e indiferença.

    A fome, miséria, feminicídio, racismo, violência contra homossexuais, tráfico de mulheres, tráfico de drogas, intolerância com o diferente, são alguns desafios a serem enfrentados por todos os governos, todas as instituições e também as religiões. “Fraternidade e diálogo, compromisso de amor” essa campanha de 2021 deve construir pontes de diálogo ecumênico em vista do bem de todos.

    “Deus chama a gente para um momento novo, a caminhar junto com seu povo. É hora de transformar o que não dá mais” (Canção “Momento novo”). Deus fez uma aliança com Noé, com Abraão, com Moisés e todo o povo de Israel. Essa aliança deve ser correspondida pelo povo na vivência dos mandamentos em relação a Deus e em relação ao próximo.

    Concluo lembrando o lema da campanha da fraternidade de 1968 “Crer com as mãos”. Isso significa crer em Deus mediante uma fé ativa nas obras. Com efeito “a religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai consiste em cuidar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e manter-se livre da corrupção deste mundo” (Tg 1,27).

    Elevemos as mãos para o céu para orar ao Pai, e estendamos as mãos para a terra para os irmãos na solidariedade. Assim fez Jesus por seu ato supremo de amor morreu de braços abertos na cruz para salvar a humanidade.


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  • LIVE DO NÚCLEO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO DA PUCPR

    Live apresenta diálogo com membros das Igrejas promotoras da CF-2021


    Nove representantes de igrejas e pastorais farão análises sobre a CF-2021 (Imagem: Divulgação NEIR-PUCPR)

    O Núcleo Ecumênico e de Diálogo Inter-Religioso da PUCPR (NEIR-PUCPR), realizará nesta quarta-feira, dia 24 de feveireiro, às 19h30, uma live que contará com a presença de diversos representantes de igrejas cristãs e teólogos para comentar a proposta da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021. 



    O evento será disponibilizado pelo Youtube e contará com a presença de:

    - Dom Manoel João Francisco, bispo de Cornélio Procópio, representando a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB);

    - Pastora Anita Wright, relações ecumênicas da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU);

    - Pastor Inácio Lemke, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC);

    - Pastor Odair Airton Braum, primeiro vice-presidente da greja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB);

    - Pastora Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC);

    - Dom Naudal Alves Gomes, bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB);

    - Nívia Dias, presidenta da Aliança de Batistas do Brasil (ABB);

    - Padre Elias Wolff, coordenador do Núcleo Ecumênico e de Diálogo Inter-Religioso da PUCPR (NEIR-PUCPR);

    - Ana Beatriz Dias Pinto, estudante de Doutorado em Teologia, membro do Núcleo Ecumênico e de Diálogo Inter-Religioso da PUCPR (NEIR-PUCPR).

    Para assistir à programação, os interessados devem se inscrever no canal @neirpucpr clicando aqui.

  • POR UMA TEOLOGIA DE INCLUSÃO DOS MORADORES DE RUA

    Pe. Júlio Lancelotti faz aula inaugural do Studium Theologicum Claretiano de Curitiba


    "Como encontrar Jesus nas ruas" foi o tema de Teologia em Saída proposto nesta manhã em aula inaugural no Studium Theologicum. (Imagem: Claretiano TV).

    Na manhã deste 22 de fevereiro de 2021, o Studium Theologicum Claretiano de Curitiba deu início ao seu ano acadêmico, reforçando ainda mais sua excelência na formação dos futuros teólogos da capital paranaense. Para tanto, contou com a presença do padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo. Ele ministrou a aula inaugural da instituição, que teve como título: "Como encontrar Jesus nas ruas" e foi realizada excepcionalmente via internet. 

    A mediação do evento foi realizada pelo diretor acadêmico da instituição, o Prof. Dr. Márcio Luiz Fernandes, além de contar com participação especial por meio de vídeos gravados pelo  reitor do Studium Theologicum, o Prof. Me. Jaime Sánchez Bosch, e pelo o Arcebispo Metropolitano de Curitiba,  Dom José Antônio Peruzzo. O evento teve apoio do Diretório Acadêmico do Studium Theologicum, o DAST.



    A Teologia que ecoa das ruas

    Comentando seu lema de ordenação sacerdotal, "Deus escolheu o que é fraco pra confundir o que é forte", o padre Júlio demonstrou que não trabalha com moradores de rua, mas convive com os moradores de rua. "Isso me proporciona uma aprendizagem contínua, numa convivência que teve erros e acertos, mas foi fruto de uma construção de fraternidade".

    Ao longo de quase 35 anos de ações pastorais, o padre Lancelotti desenvolveu frutuosa ação na cidade de São Paulo - uma das maiores capitais da América Latina e do mundo todo. Assim, contou aos expectadores algumas de suas experiências e conduziu os acadêmicos e convidados a refletirem sobre o papel da Teologia em suas relações com a vida e com os povos subjugados. Para tanto, se muniu das Sagradas Escrituras para retratar as realidades da vida e da Teologia, especialmente reforçando o capítulo 5 do Evangelho de Mateus, que retrata as bem-aventuranças.


    Pe. Marcio Fernandes, do Studium Theologicum, em interação com o Pe. Julio Lancelotti. (Imagem: Claretiano TV).




    "Eu peguei o pão e fui partindo, dando os pedacinhos pra ele..."


    Falando do modo como Jesus Cristo explica no Evangelho quem são os bem-aventurados do Reino, o padre Júlio demonstra que os pobres são a categoria que está com fome, com sede, em situação de abandono, preso, doente... "Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!, disse Jesus, pois Ele se identifica com o desvalido, com o descartado, com o abandonado, com aquele que ninguém quer, que está esquecido. Por isso, na minha vida pastoral eu procuro enxergar e é ali mesmo que vejo a presença de Jesus. E às vezes vejo de uma maneira tão forte, que me sinto impactado", partilhou o padre Lancelotti.  

    O padre Júlio ainda contou a experiência de olhar a população de rua nos olhos. De conviver, sentir, se alimentar com eles... E que neste último fim de semana percebeu no Centro Comunitário São Martinho de Lima um irmão de rua tão triste, que sequer conseguia comer. "Fui então perguntar a ele: você está bem? Fui buscar alimento para ele na copa. Ele custava a comer. A tristeza era maior do que a fome. Eu peguei o pão e fui partindo, dando os pedacinhos pra ele. E ele foi comendo... Depois dei água e ele se reanimou um pouco e veio sentar ao meu lado, e me pediu um lugar para passar a noite, pois não não aguentava mais dormir na rua. Como não ver Jesus nele? Como não perceber essa presença?" 



    Evangelho vivido

    Dentre outras falas de grande valor, os participantes puderam partilhar em chat ao vivo suas impressões ao longo da abertura do ano acadêmico do Studium Theologicum. Dentre eles, destacamos o comentário certeiro de Marcial Maçaneiro, que traduziu bem o que foi a participar do evento: "Pe. Júlio nos ajuda a acessar o simples e luminoso Evangelho!".

    Para assistir ao conteúdo da aula, que até o fechamento desta edição já contava com mais de 2 mil visualizações, clique aqui: Abertura Solene do Ano Acadêmico da Faculdade Claretiana de Teologia.

    Gostou destas informações? Ajude a compartilhá-la, para que possamos sempre mais viver as bem-aventuranças e uma Teologia de saída, de encontro com a população de rua e os mais necessitados. 

        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. Quer falar com ela? Escreva para anabeatrizjornalista@gmail.com

  • TODA CAMPANHA DA FRATERNIDADE É IMPORTANTE

    A polêmica Campanha da Fraternidade 2021 - Parte 4: opinião de Elias Wolff


    Toda Campanha da Fraternidade tem valor, mais ainda se for ecumênica! (Imagem: Divulgação CNBB)


    * Artigo enviado pelo Prof. Dr. Pe. Elias Wolff e publicado na íntegra. Originalmente divulgado pelo Instituto Humanitas Unisinos


    Toda Campanha da Fraternidade tem valor, e mais ainda se for ecumênica! De um lado, as igrejas que no Brasil promovem a quinta edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica neste ano de 2021, expressam coerência com o Evangelho que exige um testemunho comum da fé em Cristo e da prática do amor no mundo em que vivemos.

    De outro lado, é um contrassenso ter que realizar “campanhas” para conscientizar o valor de algo que já deveria ser uma realidade em nosso meio: a fraternidade. A pertença de todas as pessoas e etnias à mesma natureza humana deveria, de per si, assegurar a fraternidade universal entre os povos.

    E como o papa Francisco na Encíclica Laudato Si', n. 16, nos conscientiza de que “tudo está estreitamente interligado”, isso deveria fazer com que as relações entre o ser humano e a totalidade da criação assegurassem também a fraternidade criatural. Mas não é o que acontece.

    Tanto as atitudes discriminatórias e preconceituosas e xenofóbicas entre pessoas, etnias, culturas e credos, quanto a fragilização dos biomas e dos ecossistemas pela exploração inescrupulosa dos recursos naturais, mostram que estamos distantes de uma cultura da fraternidade, entre nós humanos e de nós para com toda a criação. Os muros são levantados cotidianamente, formando guetos socioculturais e religiosos no mundo em que vivemos.




    Importância de iniciativas pela fraternidade

    Por isso, urge favorecer toda iniciativa que possibilite o encontro, o diálogo, a interação e a cooperação entre as diferenças, sejam elas socioculturais ou religiosas. É preciso criar a “cultura do encontro numa harmonia pluriforme” (Evangelii gaudium, n. 220). Isso tem urgência no contexto de globalização que, por um lado, aproxima os povos, suas culturas, seus estilos de vida e suas formas de crer.

    Por outro lado, manifesta ambiguidades que deixam claro que nem toda aproximação significa convivência pacífica, interação, enriquecimento mútuo. Se, de um lado, crescem as possibilidades para melhor conhecer e admirar o outro; por outro lado, há quem alimente tensões e conflitos que fazem com que as diferenças se excluam mutuamente.

    Em contexto de pandemia do novo coronavírus e da COVID-19, ficou mais transparente como a proximidade entre as pessoas e os povos pode tanto gerar relações de fraternidade, quanto disseminar vírus.

    Isso mostra que o mundo globalizado tem sérias ambiguidades. A raiz delas está na lógica do sistema financeiro e mercadológico que rege a globalização. Essa lógica busca manter a hegemonia de impérios que se sustentam por novos modos de colonizar os povos.

    Com isso se homogeneíza estilos de vida; se uniformiza comportamentos pelo consumo dos mesmos produtos econômicos e culturais; as pessoas são valorizadas pelos bens adquiridos e as etiquetas que expõe dos produtos que consomem.


    Contexto da sociedade atual

    Na sociedade consumista, afirma-se a tese darwiniana da seleção das espécies. E gera-se a cultura do descarte da pessoa empobrecida, idosa, ou com alguma enfermidade que a impede de produzir e consumir. A geografia econômica e social das nações mostra isso. Em nosso país 29% das famílias consomem 46% dos alimentos produzidos [1], o que mostra que os bens de consumo são produzidos a um público seleto. O Brasil é planejado para poucos.

    A consequência é o agravamento das divisões sociais. As estatísticas falam por si: temos hoje no Brasil em torno de 14 milhões de desempregados; dados do IBGE publicados em 17/09/2020, mostram que 10,3 milhões de brasileiros/as sofrem com a insegurança alimentar [2]; 11 milhões de brasileiros são analfabetos - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua Educação, publicada em 15/07/2020 [3]?; outras 222 mil vivem nas ruas [4]. Isso tudo acirra situações de violência em todas as formas, com agravante aumento da violência doméstica e do feminicídio.

    Essa realidade, por si só, justifica a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Nada do que é humano nos deixa indiferentes. Mas como ação ecumênica e de Igrejas, a Campanha da Fraternidade não se justifica apenas sociologicamente.

    Suas razões de fundo são doutrinais, teológicas, espirituais e pastorais. O ecumenismo se fundamenta na fé em Cristo que quer que todas as pessoas que acreditam nele vivam unidas (Jo 17, 21). A unidade é dom do próprio Cristo que “derruba o muro da divisão” (Ef 2,14).

    E então as pessoas cristãs dão ao mundo testemunho do amor cristão que as tornam “um em Cristo” (Gl 3,28); “somos um só corpo em Cristo, e cada membro está ligado a todos os outros” (Rm 12, 5). Essa unidade não é para formar um clube de amigos, ou um corporativismo ideológico, mas para fortalecer a missão de proclamar o Evangelho ao mundo (Mt 28, 19), testemunhando o amor de Deus à toda a humanidade e promovendo a “vida em abundância” (Jo 10, 10).

    A questão do ecumenismo

    A comunhão das Igrejas na fé em Cristo se expressa concretamente no amor solidário a exemplo do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). Fraternidade é um compromisso de amor, como Jesus nos orienta nas Bem Aventuranças: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40). Assim, a Campanha da Fraternidade Ecumênica expressa de um modo privilegiado a autenticidade da fé no Deus que é Amor (cf. 1Jo 4,8) e nos irmana em Cristo. Por isso cristãos e cristãs de diferentes igrejas afirmam conjuntamente: “Cristo é nossa paz” (cf. Ef 2,14).

    Tal é o que afirma o papa João Paulo II no n. 10 da Encíclica Ut Unum Sint (UUS): “Os fiéis católicos enfrentam a questão ecumênica com espírito de fé”. É uma fé eclesial, uma vez que “querer a unidade significa querer a Igreja” (UUS, n. 9). Todas as Igrejas envolvidas na Campanha da Fraternidade têm orientações concretas para seus membros viverem o ecumenismo. Para os fiéis católicos é normativo o ensino do Concílio Vaticano II, que tem a promoção da unidade cristã “um dos seus principais objetivos” (Unitatis redintegratio – UR, 1).

    E o concílio afirma que a solicitude para com a causa ecumênica “vale para toda a Igreja, tanto para os fiéis, quanto para os pastores” (UR 5). A Encíclica do papa João Paulo II reforça: “O caminho ecumênico é caminho da Igreja” (UUS n. 7s). E trata-se de um caminho “irreversível” (UUS n. 3). O papa Bento XVI afirmou a importância do ecumenismo com “gestos concretos” no seu primeiro discurso aos cardeais eleitores, ainda na Capela Sistina. E o papa Francisco segue na mesma direção do Vaticano II e de seus predecessores.

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sempre se sustenta no magistério da Igreja para afirmar seu compromisso ecumênico de favorecer a comunhão na fé em Cristo, no amor evangélico e na colaboração com as diferentes Igrejas, religiões e pessoas de boa vontade, visando construir em nosso meio uma sociedade de justiça, fraternidade e paz.

    Campanha da Fraternidade Ecumênica e o Magistério da Igreja

    Desde a sua primeira edição no ano 2000, a Campanha da Fraternidade Ecumênica enfrenta resistências. E este ano não é diferente com a 5ª. edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica. O curioso é que as resistências maiores vêm da parte de membros da Igreja Católica.

    Como entender isso se temos orientações claras que orientam o ecumenismo? São diversos fatores, entre eles: a ignorância do ensino do Concílio Vaticano II e do magistério eclesial pós-conciliar; ou no caso de conhecimento desse ensino, as resistências expressam não recepção do mesmo na vivência da fé.

    Não poucas pessoas católicas fazem uma aceitação apenas parcial do magistério eclesial, conforme conveniências da subjetividade espiritual pessoal ou de grupos. É o que se constata em negações da doutrina católica sobre o ecumenismo.

    Por exemplo, não se reconhece a eclesialidade das diferentes Igrejas como afirma o Vaticano II (UR 3; LG 15); que a Igreja de Cristo tem uma “presença operante” (UUS 11) nas diversas Igrejas da Reforma; que não há nelas “vazio de Igreja”, (UUS 13); que há salvação nas diferentes Igrejas pela ação do Espírito que ali está; (UR 3); que existe “verdadeira santidade” nas diferentes igrejas (UUS 1. 84). Foi no pontificado de Pio XII que pela primeira vez a Igreja Católica afirmou que o ecumenismo é uma “moção do Espírito Santo” (Instrução do então Santo Ofício, De Motione Oecumenica, 20/12/1949).

    E o papa Pio XII excomungou o teólogo Leonard Feeney por afirmar que não há salvação fora da Igreja Católica. Enfim, as atitudes anti-ecumênicas do século XXI nos meios católicos expressam distanciamento do magistério conciliar e pós conciliar, e um grave anacronismo doutrinal e teológico.

    O problema da intolerância ao ecumenismo

    Tal fato é mais que dissenso teológico. Expressa posturas sectárias no interior da Igreja. Uma coisa é afirmar dificuldades para viver a Campanha da Fraternidade Ecumênica, reconhecer limites no texto base, ver pedras no caminho do diálogo.

    Outra coisa é negar in totum a proposta da Campanha, como fazem alguns. Não se pretende tirar as pedras do caminho, mas interromper a caminhada. E utiliza-se as pedras para construir muros e atacar com atitudes irreflexas, ultraconservadoras, fundamentalistas, xenofóbicas.

    Quem assim age, não faz apenas uma hermenêutica divergente do magistério eclesial, mas busca sua invalidação. E fantasia possuir um magistério in persona, que numa pretensa defesa da doutrina a confundem com uma ideologia pessoal ou de grupos – enquanto afirmam que “ideológicos são os outros”, que falam de libertação, justiça, fraternidade e paz.

    Há uma incapacidade mental e espiritual para compreender o sentido evangélico dessas propostas. Por isso nega-se a Doutrina Social da Igreja como se fosse alheia ao Evangelho das Bem-Aventuranças.

    Por uma errônea compreensão da verdadeira Tradição dificulta-se à Igreja a missão de “interpretar os sinais dos tempos” para o aggiornamento da sua missão, e a enclausuram no tradicionalismo.

    Em nome da fé em Cristo, contradiz-se a essência do Evangelho, a caridade, com atitudes de intolerância, desrespeito e ódio para com as diferenças. Fica, então, claro porque promovem a não contribuição com a Coleta do Fundo da Solidariedade da Campanha da Fraternidade Ecumênica, como se não fosse um gesto de amor e solidariedade.

    Enfim, pessoas que assim se comportam só conseguem afirmar a própria identidade, negando a identidade dos outros. O papa Francisco mostra como é triste termos de “reconhecer que os fanatismos, que induzem a destruir os outros, são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem ‘fazer parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital’” (Fratelli tutti, n.46).

    É de se perguntar se quem assim age é de fato membro da Igreja Católica. Afirma o número 14 da Lumen gentium: “São plenamente incorporados à sociedade que é a Igreja aqueles que, tendo o Espírito de Cristo, aceitam toda a sua organização e os meios de salvação nela instituídos, e que, pelos laços da profissão da fé, dos sacramentos, do governo eclesiástico e da comunhão, se unem, na sua estrutura visível, com Cristo, que a governa por meio do Sumo Pontífice e dos Bispos”.

    A fé, os sacramentos e o regime de comunhão expressam a identidade integral de um membro da Igreja Católica. Diz o mesmo número que sendo essa Igreja necessária para a salvação de seus fiéis, “não se salva quem nela está incorporado apenas com o corpo, mas não com o coração”.

    Quando falta o sentire cum ecclesia as realidades da fé e do mundo, quando não há “perseverança na caridade”, na verdade não se está inteiramente na Igreja. Urge intensificar a conversão dessas pessoas.

    O ecumenismo é um caminho de conversão, como proposta de comunhão em Cristo, vivida na fraternidade, no diálogo, no amor e na paz. Afinal, a salvação consiste em pertencer à oikoumene, concretude do Reino de Deus, onde Ele “será tudo em todos” (cf. 1Cor 15,28).

    Referências bibliográficas:

    [1] LAMEIRINHAS, Roberto. “Estudo do IBGE aponta para redução da segurança alimentar no Brasil”. Disponível aqui. Acesso 12 fev. 2020.

    [2] SILVEIRA, Daniel. “Fome no Brasil: em 5 anos, cresce em 3 milhões o nº de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, diz IBGE”. Disponível aqui. Acesso 12 fev. 2020.

    [3] TOKARNIA, Mariana. “Analfabetismo cai, mas Brasil ainda tem 11 milhões sem ler e escrever”. Disponível aqui. Acesso 12 fev. 2020.

    [4] IPEA. “População em situação de rua cresce e fica mais exposta à Covid-19” (16/06/2020). Disponível aqui. Acesso 12 fev. 2021.

  • FRATERNIDADE E ECUMENISMO, UM DESAFIO PARA A FRATERNIDADE

    A polêmica Campanha da Fraternidade 2021 - Parte 3: mensagem do papa Francisco

    A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 (CFE-2021) não sai da mídia. Talvez esta tenha sido a edição de um evento da Igreja Católica no Brasil que mais teve alarde depois de uma visita pastoral de um papa ao Brasil. Justamente, porquê teve como responsável pela assinatura do seu texto-base a pastora Romi Bencke. Contudo, por se tratar de um evento que engloba diversas igrejas, é ingênuo creditar a autoria do texto a uma só pessoa. 

    São membros titulares da Comissão: pastor Odair Braun (IECLB), reverendo Francisco Leite (IPU), padre Patriky Samuel Batista (ICAR), reverendo Daniel Rangel (IEAB), monge Isac Souza (ISOA), pastor Joel Zefferino (ABB), pastor Eliel Batista (Igreja Betesta) e padre José Oscar Beozzo (Ceseep). Suplentes: pastor Emílio Voigt, presbítera Raíssa Brasil, padre Marcus Barbosa, reverenda Tatiane Ribeiro, diácono Pedro Bruno Bezerra Sampaio e Cecília Franco.

    Como ataque ideológico a esse grupo plural e que é motor do desejo de um mundo mais fraterno, alguns pequenos grupos ilícitos, que não falam em nome do Magistério da Igreja, especialmente do papa Francisco, fazem campanha e alaridos contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica e também ao Fundo Solidário da CFE-2021, coleta esta que dará destino ao dinheiro arrecadado no Domingo de Ramos às ações sociais protagonizadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), obviamente direcionado aos pobres. 

    Para ilustrar a problemática que vem ocorrendo em nosso país, citamos primeiramente a frase acima, composta pelo papa Pio XI, acerca dos verdadeiros e mais nocivos inimigos da Igreja. Além do mais, o papa Francisco não silenciou a respeito da questão, enviando mensagem direcionada ao povo brasileiro. Confira a seguir, em vídeo e texto, o que o Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana neste ano de 2021 diz sobre a CFE-2021, dando total apoio a ela:

    MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
    PARA A CAMPANHA DE FRATERNIDADE 2021 NO BRASIL

     

    Queridos irmãos e irmãs do Brasil:

    Com o início da Quaresma, somos convidados a um momento de intensa reflexão e revisão de nossas vidas. O Senhor Jesus, que nos convida a caminhar com Ele pelo deserto rumo à vitória pascal sobre o pecado e a morte, torna-se peregrino conosco também nestes tempos de pandemia. Ele nos convoca e nos convida a rezar por aqueles que morreram, a agradecer o serviço abnegado de tantos profissionais da saúde e a promover a solidariedade entre as pessoas de boa vontade. Ele nos chama a cuidar de nós mesmos, da nossa saúde e uns dos outros, como nos ensina a parábola do Bom Samaritano (cf.  Lc. 10,25-37). Temos que superar a pandemia e faremos isso na medida em que formos capazes de superar as divisões e nos unir em torno da vida. Como indiquei na recente encíclica  Fratelli tutti ,  "depois da crise da saúde, a pior reação seria cair ainda mais na febre do consumidor e em novas formas de autopreservação egoísta" (n. 35). Para que não seja assim, a Quaresma é uma grande ajuda para nós, porque nos chama à conversão pela oração, pelo jejum e pela esmola.

    Como é tradição há várias décadas, a Igreja no Brasil promove a Campanha da Fraternidade como uma ajuda concreta para viver este tempo de preparação para a Páscoa. Neste ano de 2021, com o tema “Fraternidade e diálogo: empenho no amor”, os fiéis são convidados a “sentar-se e ouvir o outro” e assim superar os obstáculos de um mundo que muitas vezes é “um mundo surdo”. Com efeito, quando nos preparamos para o diálogo, estabelecemos «um paradigma de atitude receptiva, de quem vence o narcisismo e acolhe o outro» ( ibid . , N. 48). E na base desta renovada cultura de diálogo está Jesus que, como ensina o lema da Campanha deste ano: «É a nossa paz: ele que fez um dos dois povos»  (Ef  2,14).

    Na base desta renovada cultura de diálogo
    está Jesus que, como ensina o slogan da Campanha deste ano:
    "É a nossa paz: aquele que fez um dos dois povos" (Ef 2,14).


    Por outro lado, ao promover o diálogo como compromisso de amor, a Campanha da Fraternidade nos lembra que os cristãos são os primeiros a dar o exemplo, a partir da prática do diálogo ecumênico. 
    Com a certeza de que «devemos recordar sempre que somos peregrinos e peregrinamos juntos», no diálogo ecuménico podemos verdadeiramente «confiar o nosso coração ao companheiro de caminho sem suspeita, sem desconfiança, e olhar primeiro para o que nós busca: paz no rosto do único Deus ”(Exortação apostólica  
    Evangelii Gaudium ,  n. 244). É, portanto, motivo de esperança que este ano, pela quinta vez, a Campanha da Fraternidade seja realizada com as Igrejas que integram o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

    Deste modo, cristãos brasileiros, na fidelidade ao único Senhor Jesus que nos mandou amar-nos como nos amou (cf.  Jo 13,  34) e partindo da “valorização de cada pessoa humana como criatura chamada a sejam filhos de Deus, oferecem um valioso contributo para a construção da fraternidade e para a defesa da justiça na sociedade ”(Carta Encíclica  Fratelli tutti ,  n. 271). A fecundidade do nosso testemunho dependerá também da nossa capacidade de dialogar, de encontrar pontos de união e de os traduzir em ações a favor da vida, especialmente a vida dos mais vulneráveis.

    Desejando-vos a graça de uma frutuosa Campanha da Fraternidade Ecumênica, envio a cada um de vocês a minha Bênção Apostólica, pedindo-lhes que não deixem de rezar por mim.

    Roma, São João de Latrão, 17 de fevereiro de 2021 .



  • DIALOGAR É PRECISO

    A polêmica Campanha da Fraternidade 2021 - Parte 2: entrevista com especialista


    Núcleo Ecumênico e Inter-religioso da Pontifícia Universidade Católica do Paraná se posiciona à favor da CF-2011 (Vídeo: Youtube)


    Após a controvérsia causada por ocasião da divulgação do texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 (CFE-2021), que você pôde ler na parte 1 do texto divulgado aqui no blog, continuamos a refletir um pouco mais sobre este assunto.

    Hoje falaremos sobre o posicionamento tomado pelo Núcleo Ecumênico e Inter-religioso da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (NEIR-PUCPR), que tem como coordenador o Prof. Dr. Pe. Elias Wolff, da Diocese de Lages (SC). Wolff é um dos maiores especialistas em ecumenismo e diálogo inter-religioso do país, autor de diversos livros sobre o tema, além de ser membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). 

    Como forma de instruir a população sobre o tema do Ecumenismo, o NEIR acaba de lançar um novo canal no youtube, o @neirpucpr, visando debater a temática da CFE-2021 e assuntos relacionados a este importante caminho de diálogo construído a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965). Ao longo dos próximos dias, religiosos de diversas denominações postarão vídeos com mensagens no canal, que contará com a participação da autora do texto-base da CFE-2021, a pastora luterana Romi Bencke.

    Então, estar por dentro das novidades que virão pela frente nessa nova ferramenta de comunicação ecumênica pode ser uma alternativa bastante interessante a quem se interessa por esse assunto em específico e também pelas propostas da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano. 




    3 motivos para um cristão aderir à Campanha da Fraternidade Ecumênica

    No vídeo de lançamento do canal do NEIR-PUCPR, o padre Elias Wolff oferece a oportunidade de se refletir sobre três motivos para se aderir à CFE-2021:

    1) fé em Jesus Cristo: como obediência ao Mandamento do Amor "Amai-vos como eu vos tenho amado", presente no Evangelho de João (Jo 13, 34). Esta frase do Evangelho fala do amor universal de Deus para com todos. Além disso, a prática do exemplo deixado por Cristo em suas parábolas, como a do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37) ou mesmo as Bem-Aventuranças (Mt 5, 3-16) - expressando o amor misericordioso de Deus. Ou seja, a CFE-2021 pode ser expressão de amor entre todos os brasileiros;

    2) consciência eclesial: consciência da fé em Cristo e discipulado, e também a pertença da fé que se vive, indiferentemente da Igreja cristã à qual pertença, sendo testemunho no mundo. As Igrejas que pertencem ao CONIC têm suas orientações para seus fieis, e buscam pontos de união para orientar os fieis. Não tem como colocar a doutrina católica em um documento que pertence a diferentes igrejas. Ou seja, o seu texto fala de fraternidade universal, de compromisso comum - e não único. Então, a CFE-2021 não contradiz a identidade eclesial de quem é membro das igrejas que a promovem. Uma pessoa católica, por exemplo, que está em sintonia com o Magistério da sua Igreja, vai encontrar a orientação para viver o ecumenismo nos documentos do Concílio Vaticano II e no ensino do Magistério Pós-Conciliar. Serve como exemplo o número 12 do Decreto Unitatis redintegratio que promove ações comuns de cristãos católicos com cristãos de outras igrejas. Há também o número 5 da Declaração Nostra aetate que orienta o diálogo com as diferentes religiões para construir a fraternidade universal. Por fim, outro exemplo é a recente Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, que convoca a humanidade inteira ao encontro, ao diálogo e à cooperação por um mundo melhor. Assim, a CFE-2021 é uma concretização de orientações oficiais da Igreja sobre o ecumenismo para os fieis católicos. Os fieis de outras igrejas cristãs têm orientações semelhantes;

    3) compreender a pertinência do tema Fraternidade e diálogo:  num mundo com tantas desigualdades, culturas, raças, credos, sabemos que existem diferenças e injustiças, como a fome e a miséria. Então, a palavra FRATERNIDADE e gestos de FRATERNIDADE propõe uma cultura de encontro, de diálogo. Compreender a intenção da CFE-2021, de que ela é um compromisso de amor, é fundamental para que se possa vivê-la. E assim se faz a proposta do tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e também de seu lema, retirado de um trecho da carta de Paulo aos Efésios: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2, 14).

    De acordo com o padre Elias Wolff, todos são convidados a este momento de partilha e de fé que se torna serviço. Afinal, a expressão religiosa na sociedade atual acontece num contexto de pluralismo eclesial e religioso que se apresenta, por um lado, como um desafio para a afirmação de uma identidade religiosa específica e para a convivência das diferentes identidades.

    Por outro lado, esse pluralismo apresenta também possibilidades para intercâmbios e enriquecimento mútuo entre os diferentes credos. Para que isso aconteça, faz-se necessário traçar caminhos que possibilitem encontro, diálogo e cooperação entre as igrejas, as religiões, os cultos e as espiritualidades que configuram o pluralismo religioso existente na humanidade.

    Esse universo religioso plural se expressa, não poucas vezes, pela concorrência religiosa onde prevalecem posturas de intolerância, sectarismo e proselitismo. Nesse contexto, não é tarefa simples individuar os elementos que possibilitam a superação das tensões que surgem entre as diferentes expressões religiosas e sócio-culturais.

    Portanto, a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 é uma valiosa contribuição para que a sociedade brasileira cresça a nível ecumênico e inter-religioso, explorando as possibilidades de favorecer o desenvolvimento de uma cultura do diálogo, da afirmação da liberdade religiosa, da convivência e da cooperação entre tradições de fé.

    Abertura da Campanha da Fraternidade 2021 em Curitiba

    A Campanha da Fraternidade Ecumênica inicia na próxima quarta-feira, 17 de fevereiro (Quarta-feira de Cinzas). Em Curitiba, às 9h da manhã, o arcebispo metropolitano de Curitiba, Dom José Antonio Peruzzo, e outros líderes religiosos, receberão a imprensa para entrevista coletiva. O lançamento oficial da Campanha será no sábado, 20 de fevereiro, às 19h30, na Catedral Anglicana de São Tiago.


    Gostou deste artigo sobre a opinião de um dos maiores especialistas em Ecumenismo do Brasil? Continue acompanhando as postagens do nosso post! Aproveite, e assista ao vídeo divulgado pelo Núcleo Ecumênico e Inter-religioso da PUCPR, clicando aqui. 

    Agora, caro leitor, se as opiniões expressas neste blog não forem como as suas, e caso você ache que vale à pena escrever um outro artigo, nós estamos dispostos a estudar publicar sua sugestão com o mesmo título, indicando-o como "uma outra visão sobre a CFE-2021". Seja sempre bem-vindo! 





        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. Quer falar com ela? Escreva para anabeatrizjornalista@gmail.com

  • UMA IGREJA EM DIÁLOGO

    A polêmica Campanha da Fraternidade 2021 - Parte 1: análise jornalística


    Cartaz oficial da Campanha da Fraternidade 2021 (Fonte: Divulgação CNBB)

    Faltando praticamente uma semana para o início da quaresma, no próximo dia 17 de fevereiro, acentuam-se polêmicas em torno da Campanha da Fraternidade 2021 (CF-2021). Ela é parte da programação da Igreja Católica para um período de 40 dias (que inicia na quarta-feira de cinzas e termina na Páscoa, daí a origem do nome quaresma) e existe desde 1964, tendo sido criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a famosa CNBB. 

    Em linhas gerais, a Campanha da Fraternidade tem como objetivo conduzir o povo católico a refletir sobre algum problema concreto brasileiro nos âmbitos da saúde, do meio ambiente, da família, dentre outros.

    Além do mais, a cada cinco anos, sua propositura não é apenas católica: é ecumênica, ou seja, tem apoio e engajamento de várias outras igrejas que entendem a importância da comunhão e da partilha de experiências - também de gestos concretos. Assim, é endossada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, o CONIC.

    Além de ser uma importante ferramenta formativa e de engajamento, uma Campanha da Fraternidade Ecumênica oportuniza o diálogo entre diferentes convicções e pode ser palco para a construção de uma verdadeira cultura de paz. Porém... ela nem ainda começou e já traz polêmicas!



    Polêmicas num momento de divisão e de euforia

    Como fruto do delírio coletivo acirrado por meio do bizarro contexto político em que o Brasil se encontra - além da empoeirada divisão entre conservadores e progressistas que perdura desde o final do Concílio Vaticano II (1962-1965) - já era de se esperar que haveria críticas à proposta da Campanha da Fraternidade de 2021. Afinal, ela convida à verdadeira conversão - algo que nem todo cristão, mais de nome do que de obras, é capaz de vislumbrar.

    Ao pretender educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor - que é uma exigência central do Evangelho - a proposta da Campanha da Fraternidade 2021 chocou. E qual o motivo para tanto transtorno? Simples, ela convida "comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual", conforme aponta seu texto base.

    Quando fala na superação de polarizações, a proposta da CF-2021 é justamente o que causa alarde no cristão disfuncional (aquele que adora fazer escândalo e chamar quem fala de problema social ou de pobreza dentro do âmbito teológico de comunista) e isso o motiva a ataques contra o ecumenismo. 

    Tal comportamento leva a uma onda de outras ações, que vão da produção de fakenews e de conteúdos que tentam desmerecer membros do CONIC ao descontrole argumentativo e à crítica a importantes movimentos que promovem a unidade, além de ataques desenfreados à CNBB. 

    Ou seja: enquanto quem espera por mudanças faz campanha visando à fraternidade, os contrários iniciaram uma contra-campanha. E ela é desserviço, que revela o desejo intencional de se dividir ainda mais o povo - do que unir. 

    Exemplo disso é o vídeo "Saiba quem está por trás da Campanha da Fraternidade!", divulgado pelo Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro: uma arma de propagação de ódio e de calúnias infundadas, que do carisma salesiano nada tem. É material digno de repúdio, pois conclama à desunidade. 


    O que fazer em meio a tanta desunião?

    Ficar dentro de sua bolha é muito mais cômodo para quem tripudia a vivência prática do Evangelho, refutando o fato de que a sociedade brasileira tem assistido aos mais agressivos problemas na área da saúde, da economia, da política, e tantos outros... O comodismo e o egoísmo não permitem perceber o outro, pois para se fazer algo de concreto, é necessário despojamento: de estruturas, de ideologias, de proselitismos e também de si mesmo. 

    Ironicamente, a proposta da CF deste ano é a solução do problema para tanta desunidade: o tema escolhido foi “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef. 2.14). Para a sociedade brasileira atual, não haveria nada mais assertivo, pois traz muitos aspectos positivos! 



    Que outros aspectos positivos existem na Campanha da Fraternidade 2021?

    Os temas abordados nas CF testemunham a sintonia da Igreja com a vida da população, especialmente a percepção dos grandes problemas que atingem, sobretudo, os pobres, os quais nem sempre têm a quem recorrer em seus sofrimentos devido às situações injustas.

    E é justamente isso que incomoda aos que vivem uma religião descontextualizada da realidade. Afinal, um povo que questiona a fome, a miséria, a violência, pode despertar para o pensar e o agir orgânico, além de comunitário. É isso que ultraja: povo inerte é massa de manobra, quando passivo é manipulável. Ademais, é fácil chamar de socialista, marxista, comunista quem assim o pensa e gerar o medo de uma excomunhão, de um descompasso com a hierarquia da Igreja.

    Não confundamos propostas de fraternidade com contextos políticos! Estamos em 2021! E apesar de serem realidades que fazem fronteira, vivemos uma incrível eclesiologia de construção e de partilha. Aliás, é importante separarmos bem as coisas: a fraternidade proposta pela Campanha da Fraternidade é a do Evangelho, a partir das palavras de Cristo, e não a da boca pra fora, dos revolucionários medievais conclamando às Cruzadas via internet.

    Vejamos outros dos objetivos e aspectos positivos da Campanha da Fraternidade deste ano:

    - Denunciar as violências contra pessoas, povos e a Criação, em especial, as que usam o nome de Jesus;
    - Encorajar a justiça para a restauração da dignidade das pessoas, para a superação de conflitos e para alcançar a reconciliação social;
    - Animar o engajamento em ações concretas de amor à pessoa próxima;
    - Promover a conversão para a cultura do amor em lugar da cultura do ódio;
    - Fortalecer e celebrar a convivência ecumênica e inter-religiosa.



    Quer saber mais sobre a Campanha da Fraternidade 2021?

    Se você deseja aprofundar seus conhecimentos sobre a CF-2021, a editora Edições CNBB preparou uma página com três videoaulas, além de deixar disponível em seu site na internet o texto-base e materiais diversos. O conteúdo é apresentado pelo secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Patriky Samuel Batista, de maneira didática, rápida, clara e objetiva, favorecendo a compreensão sobre o tema. Para assistir, acesse:  https://campanhas.cnbb.org.br/canal/cf2021

    Gostou desta informação sobre a Campanha da Fraternidade 2021? Ajude a compartilhá-la, para que possamos vencer as fakenews e o discurso de ódio. Ao longo dos próximos dias, abordaremos um pouco mais desta temática em nosso blog!  

        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. Quer falar com ela? Escreva para anabeatrizjornalista@gmail.com

  • TEOLOGIA INCLUSIVA

    Bispos católicos declaram apoio a LGBTs


    Igreja Católica tem dado muitos passos para o acolhimento de pessoas LGBT. (Imagem: Pixabay)


    Seguindo a tendência do bom exemplo do papa Francisco, um grupo de bispos católicos dos EUA, incluindo um cardeal e um arcebispo, assinou em janeiro de 2021 uma declaração de apoio aos jovens LGBT, dizendo-lhes: “Deus os criou, Deus os ama e Deus está do seu lado”. Dentre os que assinaram a declaração estavam o cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark, e o arcebispo John Wester, que lidera a arquidiocese de Santa Fe. As informações são da America Jesuit Review.

    “Como vemos nos Evangelhos, Jesus Cristo ensinou amor, misericórdia e acolhida a todas as pessoas, especialmente àquelas que se sentiam perseguidas ou marginalizadas de alguma forma; e o Catecismo da Igreja Católica ensina que as pessoas LGBT devem ser tratadas com 'respeito, compaixão e sensibilidade' ”, diz a declaração , divulgada pela Fundação Tyler Clementi, uma organização que combate o bullying LGBT em escolas, locais de trabalho e comunidades religiosas.

    “Todas as pessoas de boa vontade devem ajudar, apoiar e defender os jovens LGBT; que tentam suicídio em taxas muito mais altas do que suas contrapartes heterossexuais; que muitas vezes ficam sem teto por causa de famílias que os rejeitam; que são rejeitados, intimidados e assediados; e que são alvo de atos violentos em taxas alarmantes”, continua o comunicado.

    “A Igreja Católica valoriza a dignidade dada por Deus a toda a vida humana e aproveitamos esta oportunidade para dizer aos nossos amigos LGBT, especialmente os jovens, que estamos ao seu lado e nos opomos a qualquer forma de violência, intimidação ou assédio dirigido a você.”

    O arcebispo Wester disse que o bullying pode ser especialmente tóxico para os jovens que estão tentando chegar a um acordo com sua orientação sexual, especialmente quando eles ou outras pessoas interpretam erroneamente os ensinamentos da Igreja sobre homossexualidade para transmitir a noção de que ser gay seria pecado. Como base, tem a experiência de ter trabalhado com alunos de Ensino Médio, demonstrando-se preocupado com a questão, que precisa ser discutida com mais responsabilidade pela Igreja neste novo momento impulsionado pelo papa Francisco.



    Um novo momento de acolhida e diálogo
    O arcebispo Wester disse que os jovens LGBT podem às vezes interpretar mal os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade e pensar incorretamente que, de alguma forma, estariam separados do amor de Deus. “Temos nossos ensinamentos, que valorizamos e estimamos, mas esses ensinamentos precisam ser entendidos no contexto adequado de amor e misericórdia”, disse ele.

    “Às vezes as pessoas podem se equivocar, 'Bem, se é pecado se envolver em um ato homossexual, então devo ser uma pessoa terrível.' A igreja não ensina isso e é importante [os jovens] não terem essa impressão errada”. Ele acrescentou: “Eu acho que é trágico que os jovens da comunidade LGBT sejam maltratados e ridicularizados”, chamando isso de “outra forma de intolerância e preconceito que vemos em nosso país hoje”.

    O bispo Robert McElroy, que dirige a Diocese de San Diego, também assinou a declaração. Em 2016, ele apoiou a ideia de que a igreja deveria pedir desculpas às pessoas LGBT por maus tratos históricos e apelando para que o ensino da igreja sobre o tema use “uma linguagem que seja inclusiva, abrangente [e] pastoral”.

    Grupos de acolhida em Curitiba e no Brasil 

    O Brasil conta com um intenso trabalho pastoral de acolhida às pessoas LGBT. Dentre eles, destacamos a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT. No Paraná, há iniciativas em Maringá e em Curitiba.

    Aliás, oportunidades de acolhida à pessoa LGBT e suas famílias são várias na capital paranaense. Pessoas LGBTQI+ que sejam católicas têm a oportunidade de se sentirem parte da Igreja por diversas iniciativas. Na Paróquia Bom Jesus dos Perdões (Praça Ruy Barbosa), existe um grupo de acolhida com encontros mensais (na pandemia em formato remoto) acompanhados por um frei. Os encontros são formativo-religiosos, com acolhimento e discussões, e ocorrem em uma sala da paróquia.

    Também se destaca o Grupo MAMI (Mães de Amor Incondicional), fundado pela dentista Silvia Kreuz. De sua experiência pessoal com uma filha lésbica, a Dra Silvia levou para as esferas da Igreja Católica a discussão sobre a importância de mães e pais de filhos LGBT aprenderem a amar e a acolher seus entes queridos, mesmo em meio aos desafios e preconceitos impostos em suas comunidades paroquiais.

    Hoje o grupo MAMI não se restringe ao catolicismo e acolhe pessoas de todas as denominações religiosas - e mesmo quem não as tem. Da iniciativa surgiu também o PAPI, extensão do grupo para pais. E, assim, também os familiares que muitas vezes se sentem culpados, assustados ou com medo da questão homoafetiva podem ser ouvidos e conhecer a experiência de outros pais e mães que passaram pela mesma questão e buscar apoio, amizade, acolhida, escuta e partilha. 


    Informações
    Quem desejar conhecer um pouco mais sobre os grupos, pedidos de aconselhamento e apoio podem fazer contato com:

    - Grupo Católico de Acompanhamento Pastoral com Pessoas LGBT - E-mail: uilson.assistentesocial@gmail.com
    - Paróquia Senhor Bom Jesus dos Perdões (Praça Ruy Barbosa) - (41) 3281-7700
    - Grupo Mami - Página do Facebook: https://pt-br.facebook.com/grupomami/


    Gostou desta novidade? Compartilhe-a em suas redes sociais, para que mais pessoas possam se sentir acolhidas em suas denominações religiosas!  

        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. Quer falar com ela? Escreva para anabeatrizjornalista@gmail.com

  • NATAL DE PANDEMIA É NATAL?

    A luz e as lágrimas de um Natal que não festejaremos

    Celebraremos este Natal sem festejá-lo: é necessário proteger a quem amamos e a nós mesmos (Imagem: Pixabay)


    Dizer que 2020 foi um ano extremamente difícil seria, como todos sabem, um grande eufemismo. Até o ano passado, para muita gente o fim do ano girava em torno de velas, canções natalinas, presentes embrulhados e árvores decoradas. Mas dessa vez é diferente; temos um Natal com personagens e enfeites novos: o novo coronavírus, a necessidade de vacinar a população, o álcool em gel, a máscara, o enfrentamento da dor, do medo, da incerteza, da tristeza, do luto e o desejo de que a vida renasça em esperança.

    Sim, passamos por um ano desafiador, que ficará marcado na história da humanidade. E no mundo todo, nesta Noite Santa, milhares de crianças, jovens e adultos talvez não queiram um presente. Muitos de nós desejarão tão e simplesmente alguém presente. Ora, é algo que pode parecer trágico para qualquer perspectiva do comércio, mas impactante quando percebermos que a essência do ser humano, no fim das contas, é estar na presença do amor de quem se ama.

    Neste fim de ano, quantos de nós irão relembrar alguém? Quantos de nós irão fechar os olhos para implorar pela vida daquela filha ou avô que está lutando pela vida no hospital? Sim, dói pensar que alguém vai derrubar lágrimas por aquele filho ou avó que já se foi, e quem sabe sonhar apenas por um instante com sua presença ali, sentado solenemente à mesa, para a ceia de Natal. 

    Nesta noite, pasmem: muitos maridos e esposas irão para a cama solitários, pois tiveram os corações dilacerados pela ausência dos companheiros que escolheram para a vida; adormecerão sem um beijo de boa noite. E quantos de nós desejaremos, só mais uma única vez, dar um abraço em nosso pai ou em nossa mãe, algo que a inflexível Covid-19 arrancou de nossas mãos pelo dissabor do luto ou pela distância física.

    Quantos e quantas de nós celebrarão esta Noite Feliz preocupados com aquele membro da família ou amigo que estará em plantão garantindo a sobrevivência dos que lutam pela vida nos hospitais, a segurança dos que transitam por ruas e estradas, ou que trafegam entre cidades para nos garantir alimento, remédios, provisões... A eles, o nosso mais profundo reconhecimento e gratidão.

    Ora, não sejamos tolos: o período de Natal suscita agradecimentos, lembranças, o desejo de se estar com quem amamos e de nos inclinar diante do mistério da vida e de sua contemplação. É festa, mas é antes de tudo celebração. Natal é aquele tipo de instante que resgata o passado e evoca a aspiração de se fazer votos para o futuro. Tem todo ano, mas todo o ano, é sempre novo.

    É dia do tio do pavê, da uva passas no arroz, da maçã na maionese, das brincadeiras sobre o tamanho do peru, de riso, de alegria, de esperança. É momento de aglomeração, de gente em movimento, de se estar com amigos e com a família para celebrar, de alguma maneira, o dom da vida - seja a de Cristo para quem Nele acredita, seja a da própria vida para quem não se identifica com a proposta religiosa de sua festividade.

    Nesta noite haverá alegria e tristeza; às vezes uma sensação de vazio e de ansiedade. Também haverá solidão e presença, saudade e talvez gargalhadas. Mas para muitos, será uma noite de lágrimas. Esperancemo-nos: o sentido do Natal é compreender que toda adversidade pode de alguma maneira se transformar em Luz.

    Indiferentemente do modo como celebramos cada Natal, tenhamos cuidado. Quantos de nós levantaremos as taças para brindar pela última vez hoje, com os nossos entes queridos? Se não dá pra deixar pro ano que vem, tenhamos a consciência de que este Natal não deve ser festejado, só celebrado. Meditado. Experimentado. 

    Façamos festa irrefutavelmente na intimidade do nosso coração. Evitemos o contato físico. Preservemos a vida! Só assim poderemos proteger a quem amamos e a nós mesmos. Afinal de contas, a pandemia não acabou.

    Com certeza, o verdadeiro presente do dia de hoje é reconhecermos a importância de, ao adentrarmos 2021, compreendermos o valor da saúde e do quanto não estar presente pode ser o mais valioso presente. 


    Minha solidariedade às famílias enlutadas. Muita esperança para 2021! E um Feliz Natal pra você!



    Gostou desta reflexão? Compartilhe-a em suas redes sociais, para que mais pessoas possam salvar vidas nestas festas de fim de ano. 

        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. Quer falar com ela? Escreva para anabeatrizjornalista@gmail.com

  • PLURALIDADE

    Como o Natal é celebrado pelas diferentes religiões?


    Nem todas as religiões comemoram o Natal: o judaísmo, por exemplo, celebra em dezembro o Chanucá, que é a festa das luzes (Imagem: Pixabay)

    Você já parou pra pensar que cada religião tem suas próprias festas e modos de celebrar suas crenças? De fato, a cultura religiosa mundial é bastante rica. Dentro dessa dimensão cultural e ritualística, apresentamos a seguir algumas das principais curiosidades que envolvem o período de Natal nas maiores tradições existentes. Confira! 

    Cristianismo

    Durante a época do Natal, os cristãos o celebram de várias maneiras. Famílias e igrejas de todos os lados montam um presépio para recordar o nascimento de Cristo. A cena é composta pelo menino Jesus, sua mãe, seu pai adotivo, três reis magos e às vezes alguns animais que pertenceriam a um estábulo. Algumas igrejas que praticam o cristianismo fazem apresentações natalinas que descrevem a noite do nascimento do menino Jesus numa manjedoura. As igrejas católicas fazem uma missa à meia-noite da véspera do dia de Natal para celebrar o nascimento de Jesus. Ao longo do mês de dezembro, chamado "período de advento", todos são convidados à conversão pessoal, para poder melhor permitir o nascimento simbólico do Menino Jesus em suas vidas. Além dos rituais nas igrejas, as pessoas fazem novenas, cantam canções tradicionais, compram árvores de Natal e colocam presentes embrulhados debaixo da árvore para trocar na noite de Natal ou na manhã de Natal. O homenageado é Jesus Cristo, figura central do Natal cristão.

    No entanto, nem todos os cristãos acreditam no Natal. Alguns membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia não acreditam que a Bíblia dá uma data exata para o nascimento de Jesus e que também não há comando na Bíblia para comemorar seu nascimento. Mas tudo depende da igreja. Há alguns adventistas que celebram a data. As Testemunhas de Jeová também não são diferentes dos adventistas: acreditam que o Natal tem origens e associações pagãs e não o comemoram como os católicos, por exemplo, temendo por isso cometer idolatrias.

    Islamismo

    A comunidade muçulmana não comemora o Natal. Os muçulmanos acreditam que Jesus doi um profeta, mas não acreditam que ele seja Deus ou o filho de Deus. De acordo com a religião islâmica, o nascimento de Jesus foi em março ou setembro, com base nas indicações da estação na Bíblia. Outro ponto de vista do feriado de Natal para os muçulmanos é que ele seria uma nova celebração pagã proposital, de comemoração ao Deus Sol, que não é apoiada pela religião islâmica.

    Hinduísmo

    Os hindus não celebram o Natal, mas comemoram em dezembro um feriado de cinco dias chamado Pancha Ganapati. A celebração começa em 21 de dezembro para celebrar o senhor da cultura com cabeça de elefante e novos começos. Algumas festividades em que os hindus participam são passeios, piqueniques, doação de presentes, festas, decoração de suas casas com ramos de pinheiro ou grama durva e colocação de luzes e enfeites. A maior parte da celebração é colocar uma estátua da deusa Ganesha em casa e vestir a estátua para cada dia da celebração nas cores amarelo, azul, vermelho, verde e laranja. Na Índia, que tem a maior população de hindus do mundo, o Natal é um feriado nacional e é celebrado como um festival por muitas famílias hindus.

    Budismo

    Um feriado budista popular, o Dia de Bodhi, também é comemorado em dezembro (e dura 30 dias) para celebrar a iluminação do Buda. Para os budistas, o Natal é uma época de relembrar os ensinamentos de Buda, dar presentes e praticar a paz e a boa vontade para com a humanidade. Por isso, os budistas comemoram essa festa pendurando decorações de Natal em seus templos, enviando cartões para entes queridos, realizando vigílias noturnas e, ocasionalmente, ouvindo músicas. Eles não se prendem à figura de Cristo nas festividades, mas à dimensão de esperança e fraternidade universal que a data inspira, de acordo com os ensinamentos de Siddhartha Gautama, o criador do budismo.

    Judaísmo

    Os judeus não celebram o Natal, mas, em vez disso, celebram um feriado conhecido como Chanucá (Hanukkah). Chanucá é um festival de luzes de oito dias que é celebrado com uma iluminação noturna da menorá, orações especiais e alimentos específicos (fritos). A festa de Chanucá homenageia o pequeno exército de judeus que derrotou o poderoso Exército grego no segundo século a.C. Os judeus reivindicaram o Templo Sagrado em Jerusalém e como símbolo disso, a menorá deveria ser acesa; no entanto, apenas uma única botija de azeite foi deixada. Mesmo com um pouco de azeite, a menorá ainda estava acesa e permaneceu acesa por oito dias. Para lembrar essa maravilha, a festa de Chanucá foi criada. Desde o primeiro Hanukkah em 165 a.C. até hoje, o núclo central dessa festa é espiritual e também comunitária. Isso pode significar dar presentes ou também, doar tempo, amor ou esforços a alguém.

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        * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. 

  • FRATERNIDADE

    Amizade entre o papa e imã muçulmano cria o novo Dia Internacional da Fraternidade Humana


    A partir de hoje, todo dia 04 de fevereiro será o Dia Internacional da Fraternidade Humana (Imagem: Pixabay)



    Hoje (21), a Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu por unanimidade que, em todo dia 4 de fevereiro seja festejado, anualmente, o Dia Internacional da Fraternidade Humana, começando em 2021. A escolha da data é uma forma de comemorar o fato de que, em 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al Azhar, o Sheikh Ahmed al-Tayeb, assinaram o histórico “Documento sobre a Fraternidade Humana” em Abu Dhabi.

    A resolução da Assembleia Geral da ONU se refere especificamente a esse evento significativo nas relações entre cristãos e muçulmanos como a inspiração para a data. “Foi uma grande conquista histórica na história da humanidade”, disse Mohamed Mahmoud Abdel Salam, secretário-geral do Comitê Superior para a Fraternidade Humana, grupo que liderou a iniciativa. Ele fez história em outubro de 2020, quando se tornou o primeiro muçulmano a apresentar uma encíclica papal, a recente carta “Fratelli Tutti”, assinada pelo papa Francisco.

    “Isso significa o reconhecimento internacional dos esforços conjuntos do Grande Imam de Al Azhar e do Papa Francisco na promoção do diálogo inter-religioso e intercultural”, disse Salam. Os membros da comissão se reuniram com o secretário-geral da ONU, António Guterres, em dezembro de 2019, e Salam entregou-lhe uma carta com a proposta para o dia ser internacionalmente reconhecido. Mas como o comitê não pôde apresentar a proposta à assembléia - apenas um estado membro pode fazer isso - e pediu aos Emirados Árabes Unidos que a apresentassem, coordenando esforços para obter o apoio necessário dos membros da ONU.

    O pedido para declarar este dia internacional foi apresentado à Assembleia Geral em 21 de dezembro pelos Emirados Árabes Unidos em nome de 34 países, incluindo Bahrein, Egito e Arábia Saudita. A resolução ganhou o apoio dos 27 Estados membros da União Europeia e também dos Estados Unidos e foi aprovada por unanimidade.

    O Comitê Superior para a Fraternidade Humana inclui dois católicos - o cardeal Miguel Ayuso, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, e o ex-secretário particular do Papa Francisco, o Monsenhor Yoannis Lahzi Gaid, que é um sacerdote católico copta. Outros membros incluem o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, cinco muçulmanos, um rabino judeu e um ex-secretário-geral da Unesco.

    De acordo com o discurso de Salam, a “fraternidade humana é solução para apagar a violência, a discriminação e o ódio em nome da religião." Para ele, a aprovação deste Dia Internacional da Fraternidade Humana pelas Nações Unidas é um resultado importante para a humanidade. Que assim seja! 

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  • GRATIDÃO

    Canção de natal homenageia pesquisadores de Oxford


    Música de homenagem a pesquisadores de Oxford compara a saga pela vacina de Covid-19 ao caminho trilhado por São José, pai adotivo de Jesus (Imagem: Pixabay)

    Com mais de 75 milhões de casos e quase dois milhões de mortes causadas pela pandemia do novo coronavírus em todo o mundo, juntamente com conflitos econômicos e geopolíticos, o ano de 2020 foi sombrio. Contudo, às vésperas do Natal, as vacinas para combater a Covid-19 dão uma sensação temporal de esperança pela qual o mundo ansiava há meses.

    Em 18 de dezembro de 2020, a Orquestra Filarmônica de Oxford, em sua apresentação anual de Natal, celebrou não apenas o “Portador da Esperança” mas, especificamente, os cientistas de sua comunidade que ajudaram a desenvolver uma das vacinas Covid-19 agora distribuídas em todo o mundo.

    Apresentado no célebre Sheldonian Theatre da Universidade de Oxford, o concerto misturou canções clássicas com peças mais contemporâneas, entrelaçadas para transmitir uma mensagem inconfundível de esperança e gratidão.

    Marios Papadopoulos, fundador e diretor musical da Orquestra Filarmônica de Oxford, destacou que, numa época em que a esperança deve vencer o desespero, é importante destacar os sucessos nestes tempos conturbados. “No início do ano, em uma quinta-feira à noite às 20h, nos reunimos nas ruas de Londres e aplaudimos o NHS”, disse Papadopoulos, referindo-se ao British National Health Service. “E eu pensei 'Por que não comemorar nossa própria equipe em Oxford?' Na época, mal sabíamos que eles teriam alcançado e publicado seus resultados”. “Além de homenagear seus esforços”, continuou ele, “agora homenageamos sua conquista”.

    A apresentação contou com participação da princesa real da coroa britânica Alexandra, a violinista alemã Anne-Sophie Mutter e uma apresentação especial do Adagio da Sonata para Violino Nº 1 em Sol menor de Johann Sebastian Bach, do violinista russo Maxim Vengerov.

    O evento também contou com uma nova canção de Natal do compositor e maestro inglês John Rutter: "Joseph's Carol”, é dedicada ao “pai adotivo” de Jesus, e se baseia especificamente nas narrativas da incerteza e das preocupações que São José deve ter sentido no caminho para Belém. “José é o personagem da história do Natal que mais frequentemente é esquecido, e sempre sinto pena dele”, disse Rutter durante a apresentação. “Ele deve ter sentido que estava trilhando uma estrada muito longa e escura e não sabia o que havia no final dela. Mas, no final daquela longa e difícil jornada, um milagre aconteceu, e é disso que se trata minha canção - um milagre que nunca será esquecido”, explicou.

    “Joseph's Carol”, e toda a apresentação, foram especificamente dedicadas à equipe de cientistas em Oxford - um “obrigado musical”, como disse Rutter. “Eu amo o conceito de José, na sua jornada a Belém, sem saber aonde isso leva”, observou Papadopoulos. “E no final há um milagre de uma forma que narra a jornada dos nossos cientistas”, concluiu.

    “Longa e cansativa foi a jornada
    Dura e escura a estrada que trilhamos
    Profundamente envolto na quietude da noite”
    expressa a canção.

    "Mas a voz de Deus, sempre presente e sempre encorajadora, move Maria e José adiante para Belém, para que ele, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, possa nascer entre os pobres e mansos para salvar a todos nós", comenta o maestro. O lançamento de “Joseph's Carol” é uma homenagem comovente por si só e, curiosamente, coincide com a declaração do papa Francisco do Ano de São José (2020-21), que consta na recente carta apostólica Patris Corde. A apresentação demonstrou justamente isso: que assim como o caminho para Belém foi difícil e incerto, envolto em sombras e dúvidas, com fé e esperança encontraremos o milagre de Deus e encontraremos um novo dia de alegria. A humanidade precisa se munir de esperança para sobreviver a este longo período de escuridão e aproveitar a luz do Sol mais uma vez.

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