Cultura e diversidade religiosa na atualidade

  • A Humanidade e o Sagrado

    Qual templo de Deus requer maior cuidado? O templo material ou templo humano?

    ana beatriz dias pinto
    Como compreender o Espaço Sagrado e o ser humano como Ser Sagrado nos dias atuais? (Imagem: Pixabay)



    Mircea Eliade (em Tratado de História das Religiões, p.7-8)  apontava o problema da delimitação entre o sagrado e o profano e dificuldade de ordem teórica e prática. Isso implica lugar sagrado do culto, pessoas com suas diferentes culturas e crenças, uma discussão retomada de tempos em tempos. Sem falar da forte manipulação política do sagrado tão frequente em nosso tempo.

    Em passado recente (fevereiro de 2022) o fato da entrada imprevista de um grupo de manifestantes durante a celebração em um Templo em Curitiba. Trata-se da Igreja da Ordem, localizada no Largo da Ordem. Um lugar histórico da resistência negra. O fato suscitou fortes reações, até criminalizando os manifestantes e seus líderes. A primeira preocupação, especialmente de grupos mais tradicionais foi salvaguardar o templo material e aqueles que no momento ali celebravam. As reações também tiveram cunho fortemente político, e não foram poucos os que aproveitaram do fato para condenar o vereador. Outros, grupo bem menor, consideraram o direito de livre manifestação, legítimo por ser um protesto contra a violência a pessoas indefesas, o racismo e mortes violentas.

    Este fato foi motivo até de abertura de processo contra seus líderes, mais especificamente o vereador, por ser membro do movimento da consciência negra e do partido dos trabalhadores. Motivo: violação de ambiente sagrado, isto é violação do direito a liberdade de culto sem perturbação. Essa polarização apenas na invasão do templo no momento de uma celebração não contempla o contexto da origem do fato, os reais objetivos da manifestação que era protestar contra a violência.  A onda de protestos em vários lugares era de se esperar diante de constantes violências a negros, mulheres, mendigos de rua. A violência se estende também em estádios de futebol, constituindo-se um perigo para seus frequentadores.  

    Os protestos estão a indicar que boa parcela da sociedade é sensível, pois está em risco o valor mais sagrado que é a vida humana. Exercer esse direito de manifestar-se é mais que justo e necessário nesse contexto. Portanto o fato não deve ser visto apenas como violação do direito de celebração. É necessário analisar o contexto da manifestação, considerar a violação dos corpos indefesos, violentados no mundo em que vivemos. E aqui, deslocamos a atenção para a vida humana como lugar sagrado, com uma abordagem teológica. O que é mais sagrado, o templo local ou as pessoas humanas? Se o mundo é um grande templo de Deus (mundus est ingens Dei templum) como dizia Sêneca (Epist. 90.29), o sagrado extrapola as portas dos templos materiais. A visão do sagrado deverá ser antropológica, sem cair num antropocentrismo exagerado, pois somos integrados com a ecologia, somos também terra (Gn 2,7) como destaca o Papa Francisco na Laudato Si  (Laudato Si, 2, 118).

    Mas voltemos a atenção ao templo sagrado da humanidade, e nesse sentido a voz do povo que protesta nessas ocasiões precisa ser interpretado como voz profética. Os profetas bíblicos anunciavam o novo, e denunciavam os desvios. Por volta de 620 antes de Cristo, o profeta Jeremias denunciava aqueles que só estavam preocupados com os ritos do templo e se omitiam na defesa da vida das pessoas mais sofridas.

    Assim foi a palavra do Senhor dirigida a Jeremias aos que entravam pelas portas do templo: “Melhorai os vossos caminhos e vossas obras, e eu vos farei habitar nesse lugar” (Jr 7,3). Depois acrescenta: “Não vos fieis em palavras mentirosas dizendo; Este é o templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor” (Jr 7,4). Com isso o profeta afirma que as práticas religiosas no templo de nada valem se não forem seguidas da prática do bem e da justiça.

    No Novo Testamento Grego, os termos mais usados são “hieron” e “naós”, traduzidos indistintamente como “templo” ou “santuário”. Na verdade “hieron” significa em geral templo físico, e também é usado como adjetivo de coisas sagradas (1Cor 9,13; 2 Tm 3,15 –coisas sagradas, letras sagradas). O termo hieron aparece 73 vezes no NT (Mt 4,5; Mt 12,5; Mt 21,12; Mc 11,15; Lc 18,10; Lc 19,45; Jo 2,15; Jo 5,14; At 3,1-3; At 5,20-21; At 21,26-30; 1Cor 9,13 etc)  Outro vocábulo usado é “naós” , 45 vezes no NT (Mt 23,16-17; Mt 26,61; Mt 27,51; Mc 14,58; Mc 15,38-39; Jo 2,19-20; 1Cor 3,16-17; 2Cor 6,16; Ap 3,12; 7,15; etc...).

    Embora por vezes signifique também o templo material (Jo 2,20-21) na maior parte significa o que é mais sagrado, a parte mais interna do templo, o santo dos santos que era separado por uma cortina ou véu. Nos evangelhos se menciona que na morte de Jesus o véu do “templo” (naós) que separava o lugar santíssimo (Santo dos Santos) se rasgou de cima até embaixo (cf. Mc 15,38; Mt 27,51; Lc 23,45). Isso significa que o rito antigo do sumo sacerdote que entrava no lugar mais santo (naós) atrás da cortina, para fazer o rito do perdão, já está superado com a vinda de Cristo. Ele com sua morte e ressurreição entrou uma vez por todas no santuário do céu e abriu a porta para todos. Portanto por meio de Cristo, do seu sacrifício, sua humanidade enfim, todos  tem acesso a Deus. Em Jo 2,19, no relato da expulsão dos vendilhões do templo, o termo usado é “naós”. Na ocasião Jesus dirá: “Destruí este templo (naós) e em três dias eu o levantarei”. E o próprio autor do Evangelho interpreta “Ele falava do templo do seu corpo” (Jo 2,21).

    Portanto o corpo de Cristo, sua humanidade é o templo! Paulo dirá em Ef 2,21: “Nele (Cristo), bem articulado todo edifício se ergue em “santuário sagrado” (naós) do Senhor” Aqui a comunidade cristã é habitação de Deus, templo mais sagrado (naós) do Senhor. Em 1Cor 3,16 em forma de pergunta retórica Paulo afirma: “Não sabeis que sois templo (naós) de Deus e o Espírito de Deus habita em vós”? Depois continua com mais ênfase (1 Cor 3,17) “Se alguém destrói este templo (naós) de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo (naós) de Deus é santo. Esse templo sois vós”. Fica claro o paralelismo entre templo de Deus santo e comunidade templo santo de Deus.

    Essa fundamentação teológica se sustenta pelo princípio que a única imagem de Deus, a mais legítima é o “ser humano”, “imagem e semelhança de Deus”. Portanto se entende o uso de naós (templo como lugar mais sagrado), para expressar que a pessoa humana é sagrada que a comunidade é templo de Deus, tão sagrada como o lugar santíssimo que não podia ser profanado. A propósito em Mt 25,40 o rei  dirá no julgamento “O que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”.

    A narrativa do grande julgamento deixa claro que  o ser humano é imagem de Cristo, e Cristo é imagem de Deus. Ambrósio, bispo de Milão (séc. IV) num famoso discurso sobre a Eucaristia, interpreta o pobre como segundo sacramento, pois o mesmo que disse “Isto é meu corpo” é o mesmo que disse: “tive fome e me destes de comer”. O Padre Antonio Vieira falava da pobreza e a beatificação da misericórdia: “Na pobreza de uns e na misericórdia de outros instituiu Cristo um novo sacramento...consagrando-se neles”, os pobres (Sermão das obras de misericórdia à Irmandade do mesmo nome, em 1647).

    Quanto ao templo material, expresso com mais frequência com o termo “hierón” (templo sagrado, coisa sagrada), é figura daquele templo celeste na glória de Deus. Nos templos Deus é glorificado quando as preces e o culto do povo são expressão do que realmente acreditam, e dão testemunho na prática da justiça e do bem. E a glória de Deus é o ser humano vivo (Irineu de Lião).

    Deus não se compraz com a morte do pecador mas que ele se converta e viva. Enfim é preciso olhar os acontecimentos com discernimento, e tirar uma lição da história. Cada ser humano, é dom de Deus, é vida, independente de sexo, etnia, religião. A Igreja sempre se reformando busca ser “perita em humanidade” (Papa Paulo VI).  Mais que a preocupação com a ordem da celebração, a beleza do culto e da liturgia, se requer maior cuidado com os templos das pessoas humanas, e a escuta da voz profética nas ruas. Se eles se calarem as pedras gritarão (Lc 19,40)!

    * Frei Vicente Artuso é Frade Capuchinho, Doutor em Teologia Bíblica e Professor de Sagradas Escrituras na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba.

  • Reflexão para o tríduo pascal

    Jesus Ressuscitou: por que alguém acreditaria nisso?


    Trazer questões críticas ao cenário da Ressurreição pode nos levar a um terreno instável no desafio entre Fé e Razão. (Imagem: Pixabay) 



    A narrativa deste Domingo de Páscoa parece desafiadora à razão. Em João 20,1-9, a “boa nova” pode trazer confusão, incompreensão e pelo menos um toque de medo aos desavisados. Como toda uma população foi capaz de acreditar nessa história tão absurda, de um homem flagelado e morto, que retornou à vida? Como nós mesmos, em pleno século XXI,  ainda aceitamos essa história como um fato verífico? O que houve na Palestina de então, para que as pessoas ficassem ao lado dos discípulos e acreditassem no Cristo Ressuscitado?

    O Frei Vicente Artuso, quanto a esse tema, comenta: "Talvez a expressão "absurdo da fé na Ressurreição devesse ser explicada. Tem o grupo dos crentes e não crentes. Assim, por exemplo, para os judeus a cruz foi uma loucura. Já para os gentios, estultice. E, para os cristãos, é poder e sabedoria (1Cor. 1). Exemplo disso foi quando Paulo falou da Ressurreição e um grupo da praça de Atenas virou as costas, enquanto alguns acreditaram (At 17)", sinaliza o biblista que é professor de Sagradas Escrituras na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba. 

    Para reforçar ainda mais a questão, vamos permitir que também os apóstolos Pedro e Paulo nos conduzam à resposta. Ou melhor dizendo, à hermenêutica da notícia da Ressurreição. Afinal, para entender esta passagem, nos parece oportuno experienciar seu contexto aos olhos da fé, mas também fundamentados no que se apresenta no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos.

    O testemunho do Ressuscitado e a vida de Fé

    Nos Atos dos Apóstolos, Pedro descreveu cuidadosamente a morte de Jesus e o fato de que Deus o ressuscitou “e concedeu que fosse visível, não a todos, mas [a nós], às testemunhas escolhidas por Deus”. Pedro pregou isso na casa do centurião romano, Cornélio, quando estava prestes a batizar os primeiros cristãos. E, assim, a fé passou de pertencer a um pequeno grupo do povo escolhido para abraçar este novo testemunho de vida, de “todos os que crêem em [Jesus de Nazaré]”.

    As homilias anteriores de Pedro citavam as tradições de Israel; agora, entre os gentios, ele simplesmente proclamava que Deus ungiu Jesus com o Espírito Santo -  e que Jesus andou por aí fazendo o bem. Para um cético, esse é um argumento terrivelmente frágil. Na verdade, Pedro estava dizendo: “Todo mundo sabe que Jesus morreu. E eis que alguns de nós tiveram acesso a vê-lo vivo novamente!” 


    Por que alguém acreditaria nisso, racionalmente? 

    Por que os judeus aceitariam ser excomungados de suas sinagogas e os romanos arriscariam o escárnio de seus sofisticados colegas antijudeus com base em tais declarações feitas por ex-pescadores ou cobradores de impostos – e até mesmo por mulheres? Justamente aquelas minorias, que como nós, foram frequentadores de igrejas durante a maior parte de nossas vidas. A fé na Ressurreição nos parece algo óbvio pela tradição, talvez como uma criança que assume que o sol nasce pela manhã. É parte de nossa visão de mundo muitas vezes inquestionável. De fato, trazer questões críticas reais para este cenário da Ressurreição pode nos levar a um terreno instável ao desafio entre Fé e Razão. 

    Tem a ver com o que Pedro e Cornélio testemunhavam. Na casa de Cornélio, Pedro compartilhou da presença do Espírito Santo e, por isso, deu o passo inédito e escandaloso de batizar os gentios. Ao escolher esta cena para nossa liturgia pascal, a Igreja nos lembra que o discipulado não flui de Dogma ou Teologia e não tem nada a ver com etnia, status ou gênero - temas tão discutidos ultimamente em nossa sociedade. Aliás, cabe lembrar que o discipulado cristão é verdadeiramente católico, ou seja, universal. O ensino e a ação de Pedro afirmaram a verdade de que o discipulado cristão brota de uma experiência do Espírito de Deus como revelado em Jesus.

    E neste ponto, Paulo nos ajuda a melhor compreender o contexto da Ressurreição. Na Carta aos Colossenses, ele nos diz: “Então, se você foi ressuscitado com Cristo, busque o que é de cima. ... Pois vocês morreram, e sua vida está escondida com Cristo em Deus”. Paulo está convidando os colossenses a relembrarem uma experiência pessoal – a metanoia, a conversão e uma nova visão após a qual nada poderia ser o mesmo. Sua conversão e compromisso cristão não resultaram de ouvir um argumento racional ou uma proposta vantajosa; fluiu de uma experiência compartilhada da graça/Espírito de Deus trabalhando neles e entre eles, convencendo-os além da razão de que Jesus era o Messias.

    A fé como experiência de maturidade humana e comunitária


    Tanto para os colossenses quanto para Cornélio, a experiência do Cristo ressuscitado e da graça do Espírito foi como a experiência dos primeiros discípulos que aceitaram o chamado para seguir Jesus onde quer que ele o conduzisse. Embora possa ter começado com uma experiência avassaladora de fé e esperança, tornou-se real ao longo de uma série de momentos de discernimento ao longo da vida, seguidos de perguntas, tentações, fracassos e novos compromissos.

    Isso nos ajuda a apreciar o raciocínio intrigante para o uso da Igreja dessa narrativa complexa da Ressurreição meditada neste domingo de Páscoa. O Evangelho inconclusivo de hoje nos obriga a lembrar que a fé é sempre um risco. A verdadeira fé não teme perguntas ou dúvidas porque sabe que Deus é maior que nossa imaginação. A fé nos convida a um compromisso que não oferece nenhuma apólice de seguro, exceto aquela que vem de experiências de graça que são tão fortes e certas quanto inexplicáveis.

    O Evangelho de hoje nos convida a acompanhar Pedro, João ou Maria durante as primeiras horas da primeira Páscoa, quando suas certezas sobre a morte e o fracasso foram questionadas. Eles se deixaram confundir. Eles não sabiam as respostas, mas permitiram que seus corações e mentes se abrissem.

    O plano de Deus em Jesus é muito maior do que nossa imaginação ou que nossa capacidade racional possa sugerir. Que nesta Páscoa, após termos passado pelas complexidades de uma pandemia que nos recordou tanto da iminência da morte, não tenhamos medo de enfrentar o túmulo de velhas certezas e ficar completamente confusos e, naturalmente, até com um pouco de medo em relação à vida e às coisas de Deus.

    A Páscoa é a representação de uma passagem. De uma velha vida, para uma vida plena. E ela nos revela o desejo de Deus de transformar nossas dúvidas, preocupações e medos em experiências extraordinárias do Espírito. O plano de Deus é que isso aconteça de novo e de novo, levando-nos a “ir por aí fazendo o bem”, exatamente como Jesus fez. A alegria da Ressurreição nos convida a levar paz, reconciliação e justiça aos sofredores e oprimidos, conforme disse o Papa Francisco em sua homilia de 16 de abril, durante a Vigília Pascal na Basílica de São Pedro. "Façamos Jesus, o Vivo, ressuscitar de todos os túmulos em que o selamos. Vamos trazê-lo para nossa vida cotidiana: por meio de gestos de paz nestes dias marcados pelos horrores da guerra, por atos de reconciliação em meio a relacionamentos rompidos, atos de compaixão para com os necessitados, atos de justiça em meio a situações de desigualdade e de verdade no meio da mentira. E, sobretudo, através de obras de amor e fraternidade", disse.

    Para os dias de hoje, a sabedoria popular pode esboçar a métrica do Evangelho de Páscoa e das palavras do papa: "é necessário fazer o bem, sem olhar a quem".

     

  • Reflexão para o tríduo pascal

    Pilatos lavou as mãos


    Pilatos lavou as mãos. E o Sr. Presidente da República foi passear de moto (Imagem: Google Images)

    Na liturgia da Sexta-feira Santa, lemos a Paixão de Jesus segundo o quarto Evangelho. A narrativa é dramática, principalmente pela confissão do reinado de Jesus, o motivo de sua condenação à morte. Quem se opunha ao poder de César, fazendo-se rei, deveria ser morto (Jo 19,12). O texto bíblico nos leva a uma reflexão importante: teria sido Jesus condenado por crimes políticos? O Nazareno morreu por ser um subversivo social? A resposta é sim. O julgamento de Jesus teve clara conotação política; não se trata somente de uma condenação por um crime religioso.

    Por outro lado, os judeus afirmaram a Pôncio Pilatos que ele deveria morrer por se fazer Filho de Deus (Jo 19,7). A leitura superficial da passagem pode nos conduzir a uma conclusão apressada, que apontaria a morte de Jesus como pena de um crime religioso. Além disso, pesa o fato de que os Evangélicos sinóticos narram imediatamente antes de sua prisão e sua condenação à morte a “purificação do Templo” (Mc 11,15-19 e par.); no quarto Evangelho, a cena aparece no capítulo dois. Logo, como muitos concluímos, Jesus teria sido morto por cometer crimes contra a religião dos judeus. Mas seria somente isso?

    Chama a atenção o fato de que, embora tenha cometido crimes contra o Judaísmo de então, Jesus não poderia ser condenado à morte pelos judeus. Quem o condenou à morte foi Pilatos, o governador da província romana da Judeia, portanto, um político. Qual teria sido o crime político de Jesus de Nazaré? Fazer-se rei, como já foi mencionado anteriormente.

    Não obstante, como o próprio Jesus diz a Pilatos, seu reino, ou melhor, seu reinado não é deste mundo. Novamente, temos que tomar cuidado para não “espiritualizar” o relato da Paixão do Senhor e, consequentemente, toda a vida do Nazareno. Mesmo que o quarto Evangelho não desenvolva tanto a noção quanto os Evangelho sinóticos, Jesus está se referindo ao “reinado de Deus”, ou seja, à irrupção de Deus na história em favor dos pobres.

    “Reinado de Deus” não é uma categoria “espiritualista”, como muitos infelizmente pensamos. Trata-se de uma noção teológica, mas também política, como é possível ler nas páginas do Antigo Testamento. Deus irrompe na história e suscita esperança história, sobretudo entre aquelas e aqueles que são excluídos e oprimidos (Ez 37,4-6; Is 11,6). O “reinado de Deus” deve ser entendido como ação histórica e libertadora, capaz de transformar a situação má e injusta dos povos, em uma realidade boa e justa (Sl 96,13).

    Por conseguinte, a vida e a pregação de Jesus de Nazaré suscitam a esperança histórica dos povos. Convenhamos, nada mais perigoso que a esperança, principalmente para o establishment. Evidentemente, Jesus ao “purificar o Templo” confrontou o establishment religioso dos judeus; mas ele também confrontou o establishment político romano ao suscitar esperança histórica e popular.

    Bem distinta da noção dos zelotes de seu tempo, Jesus anunciou chegada do “reinado de Deus” não pela força das armas, mas pela ação da graça. Sua instauração no mundo não acontece pelo surgimento de uma nova soberania territorial, mas pela proclamação da bondade e da misericórdia divinas que restauram a humanidade de todas e todos, sobretudo daquelas e daqueles que a têm negada pela pobreza e pela miséria social e econômica.

    O “reinado de Deus” anunciado e levado a cabo por Jesus de Nazaré, o real motivo de sua condenação à morte, possibilita contemplar novos horizontes sociais e, portanto, políticos, nos quais a vida é defendida e a dignidade é preservada. O projeto “político” do Nazareno ameaçava diretamente os poderes de seu tempo – concretamente, as forças do Imperador e de todos aqueles a ele associados, incluindo os judeus do Templo. Tal ameaça o levou à morte e morte de Cruz, ou seja, morte ignominiosa, como o hino da carta aos Filipenses proclama (Fl 2,8).

    Pilatos, sim, foi responsável pela morte de Jesus. E com ele, todos os representantes do establishment. Depois de condená-lo, o que Pilatos fez? Lavou suas mãos (Mt 27,24). O quarto evangelho não apresenta essa cena; inclusive, dá a ideia de que os judeus seriam até mais responsáveis pela morte de Jesus que o próprio Pilatos. Mas isso não é bem assim. A leitura do texto aponta mais a uma controvérsia interna da “comunidade do discípulo amado” que a uma isenção da culpa do governador romano.

    Ao lavar suas mãos, Pilatos fez o que o establishment sempre fez e continua a fazer: não assumir sua responsabilidade pela exclusão e pela opressão. Muito se equivoca quem pensa que os poderes estabelecidos pretendem “manter a paz”. O que, de fato, pretendem é “manter o poder”.

    Em sua campanha eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro insistiu em dizer que não representava o establishment político brasileiro; era representante da “nova política”. O que ele não conseguiu – e não consegue até o momento – é responder o fato de que, há mais de vinte anos, ele e seus familiares vivem do establishment. Sejamos sinceros: Bolsonaro não representa o establishment político brasileiro, representa, sim, o que pior há nele: corrupção, maracutaias, negociatas, defesa de interesses próprios e desprezo pela vida do povo simples.

    Se, naquela sexta-feira, Pilatos lavou as suas mãos, nesta sexta-feira Bolsonaro passeou de moto. Não é a primeira vez que ele e seus apoiadores realizam esses passeios infames que mais se parecem com uma procissão de fanáticos e lunáticos. “Eu não sou coveiro”, disse o Presidente quando questionado pelo número de mortos na pandemia de COVID-19. “Em 100 anos saberá”, afirmou quando questionado sobre os recentes escândalos no Ministério da Educação.

    Mais de 660.000 brasileiras e brasileiros perderam suas vidas pela irresponsabilidade do atual governante. Inúmeras crianças e adolescentes não recebem educação de qualidade porque pastores, amigos do atual governante, exigem “contrapartidas”. Milhões de pessoas, no país, passam fome porque o atual governante e sua equipe, sobretudo seu ministro da Economia, são incapazes de contar a alta dos preços. A vida de milhares de pessoas está em risco pela soberba e ineficácia do atual governante. Como Jesus, mulheres e homens, crianças e idosos são condenados a carregar a pesada cruz da exclusão, da miséria, da pobreza e da miséria.

    Jesus de Nazaré foi condenado à morte, injustamente, por ter sido considerado um risco ao establishment. Pilatos, aquele que o condenou, lavou suas mãos. Brasileiras e brasileiros são condenados injustamente à morte, não porque sejam uma ameaça, mas simplesmente porque não importam ao atual establishment. Bolsonaro, aquele que os condena, passeia de moto.



    * Pe. Matheus da Silva Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.


  • Reflexão

    E sereis como deuses (Gn 3,5): o pecado sempre presente

    A história humana possui resquícios de busca do Sagrado, mas também de privilégios terrenos. (Imagem: Pixabay). 

     

    O final de semana passado - 26 e 27 de março de 2022 - foi, pelo menos, interessante: um grande festival musical, o Lollapalooza, aconteceu no autódromo de Interlagos, em São Paulo, e a entrega do Oscar, em Los Angeles nos Estados Unidos.


    Como todo evento repleto de público e de celebridades, polêmicas não faltaram: em São Paulo, a manifestação de uma cantora comoveu até o Tribunal Superior Eleitoral e, em Los Angeles, um tapa abalou as redes sociais. Entretanto, não podemos nos esquecer de que os acontecimentos da semana anterior já tinham deixado “em polvorosa” as redes sociais e a própria sociedade.

    Embora o uso da máscara tenha se tornado opcional, ainda enfrentamos a pandemia de COVID-19. Talvez esteja mais silenciosa, mas coloca em risco sistemas de saúde e, consequentemente, vidas de muitas pessoas. A guerra segue em curso na Ucrânia e já passa de um mês sem acordo de paz no horizonte. Desenvolvemos uma nova modalidade de corrupção na política brasileira, o “amensalão”, que envolve religiosos que sabem dizer “amém” a barras de ouro e não a Deus.

    Se nos determos um pouco no que assistimos na semana passada, especialmente no final de semana, chegaremos inevitavelmente a uma conclusão: o pecado - aquele do livro do Gênesis! - está muito presente.

    Com o passar os séculos, o Cristianismo, principalmente no Ocidente, perdeu a noção de pecado que está presente tanto no Antigo, como no Novo Testamento. Em primeiro lugar, pecado não é um problema individual; é uma realidade comum, isto é, que afeta toda a humanidade, como afirma Paulo na Carta aos Romanos (Rm 5,12). Em segundo lugar, o pecado não pode ser restringido a problemas sexuais; trata-se da negação radical de Deus e da perversão de sua Criação (Rm 8,20.22). Em terceiro e último lugar, o pecado é uma realidade propriamente teológica e não meramente psicológica.

    O Apóstolo remarca a dureza e a maldade do pecado em contraposição à bondade e generosidade da Redenção de Jesus Cristo. “Todos pecaram”, mas todas e todos recebem os benefícios da graça de Cristo (Rm 6,6-11) e, nele, se tornam novas criaturas (2Cor 5,17). Entretanto, como os Padres da Igreja insistiram nos séculos II, III e IV, o que não é assumido, não é redimido. Nesse sentido, a humanidade tem que parar de viver como se o pecado fosse um simples transtorno de indivíduos; o pecado da humanidade é real e, tristemente, está muito presente.

    Além de se mostrar mentiroso, inepto e corrupto, o atual governo do Brasil é pecador. O que aconteceu no final de semana passado mostra isso claramente: diante de um gesto de 10 segundos de uma cantora sobre o palco de um festival musical, os comparsas do Sr. Presidente da República acionaram um tribunal superior, mas fingiram que nada acontecia diante das gravíssimas acusações de desvio de recursos da Educação. E o pior: estão envolvidos nesse escândalo homens que se dizem “de Deus”.

    Mentir é pecado; não ser diligente ao exercer uma função pública é pecado; ser corrupto é pecado; usar o nome de Deus para desviar recursos que deveriam ser usados para a educação de crianças e adolescentes não é só pecado, é abominação! Por isso, o atual governo e seus apoiadores são pecadores públicos!

    Muitos podem estar pensando que durante a cerimônia do Oscar as piadas de um dos apresentadores com uma atriz, que inclusive levou seu esposo à agressão física contra o apresentador, seja pecado. Sim, bullying é pecado! Mas o maior pecado está na própria premiação do Oscar e o modo como é realizada. Em um mundo, no qual crianças morrem de fome e mulheres e homens não têm a mínima assistência para uma vida digna, o desfile de luxuosos vestidos e caríssimas joias sobre um tapete vermelho é pecado.

    Alguns até podem afirmar que, sobre esse mesmo tapete, as celebridades podem protestar, como de fato o fizeram contra a guerra na Ucrânia; mas o maior protesto seria não participar dessa exibição de luxo e riqueza em um mundo ainda de pobres e miseráveis.

    E, por falar na Ucrânia, ali também há pecado: claramente, está o pecado da guerra, da matança de civis e da expulsão de milhões de seres humanos de seus lares. Porém, da mesma forma que a Rússia de Vladimir Putin peca contra a população civil da Ucrânia, o Ocidente peca ao destacar somente essa guerra em sua mídia e simplesmente virar as costas para conflitos muito mais sangrentos, como a guerra do Iêmen que já matou mais de 200 mil pessoas e empurrou, pelo menos, 4 milhões de crianças para a miséria e a desnutrição.

    Possivelmente, o excesso de informação sobre a guerra na Ucrânia esteja no fato de o país fazer fronteira com membros da União Europeia e colocar em xeque a “crença” de que os Estados Unidos da América ainda sejam a superpotência do século passado. Claramente, o Ocidente vê na invasão russa do território ucraniano uma ameaça a seus próprios interesses e, portanto, pode se dar ao luxo de não olhar para a morte de pobres e miseráveis no Oriente Médio, no continente africano e no sul da Ásia.

     Todo aquele que causa a guerra, como Vladimir Putin, o presidente do Iêmen, o exército de Mianmar e as forças paramilitares do Haiti, peca! Mas todo aquele que vira suas costas para o massacre de vida inocentes por não afetarem seus interesses, como o Ocidente faz, também peca!

    O fim de semana dos dias 26 e 27 de março nos mostrou a gravidade e a profundidade do mesmo pecado no qual o primeiro casal humano incorreu: “e sereis como deuses” (Gn 3,5). Por mais que se apresentem como todo-poderosos, o atual governo brasileiro, seus apoiadores, seus homens “de Deus”, os que vivem do luxo e do excesso e os poderosos do mundo não o são. De fato, contemplamos a presença de Deus não no poder e na soberba, mas na pobreza e no abandono.

    Ignacio Ellacuría, filósofo e teólogo da Libertação, refletia já na década de 70 do século passado sobre os povos crucificados pelo pecado do mundo. Hoje, são muitos! Estamos para fazer memória da Páscoa de Jesus Cristo, na Semana Santa, e agradecer a Deus porque seu Filho assumiu o pecado do mundo para a salvá-lo. Mulheres e homens, idosas, idosos e crianças são hoje crucificados por um pecado sempre presente; não viremos as costas para esse pecado, pelo contrário, sejamos corajosos para encará-lo e, assim, com a graça do Nazareno, superá-lo.


    * Pe. Matheus da Silva Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • OPINIÃO

    O ser humano e a busca pela Verdade


    O ser humano e a busca pela Verdade: o que isso tem a ver com os dias atuais? (Imagem: Pixabay)

    A linguagem é um dos grandes feitos da humanidade, a capacidade de se comunicar verbalmente, de “pensar o pensamento” e, a partir disso, elaborar discursos, foi um dos grandes diferenciais na evolução.

    Nesse cenário, a busca pela “Verdade” sempre fez parte do pensamento e das produções filosóficas ao longo de toda a história. Desde os gregos antigos, esse tem sido um tema recorrentemente pensado e discutido.

    Já desde os sofistas, questiona-se o paradigma da “Verdade”, sendo justamente essa uma das grandes críticas aos mesmos. Foi a partir dos sofistas que acontece o questionamento de uma única verdade, permitindo a possibilidade de um paradigma de verdade diferente e, como consequência direta disso, uma nova forma de utilizar a linguagem.

    E o que isso tem a ver com os dias atuais?

     

    Vivemos numa sociedade de "meias verdades"?

    Vivemos tempos em que “verdades” são criadas diariamente, verdades que buscam nos agradar ou defender interesses específicos, verdades que visam defender posições políticas, preconceitos e concepções religiosas. Recebemos fake news todos os dias, por diferentes canais de comunicação. 

    A disseminação de fake news se baseia numa falácia, o chamado viés da disponibilidade, o qual consiste na tendência que temos em lembrar-nos de uma única história, fato pontual ou exemplo como uma verdade generalizada, não nos atentando às estatísticas.

    Este viés se faz bastante presente com o advento da comunicação em massa, pois tendemos a acreditar no senso comum, a partir de um único exemplo, que confirme algo que já temos como pré-estabelecido (a nossa “verdade”). 

     

    O caso das vacinas e o viés da disponibilidade

     

    Um exemplo atual é a discussão em torno das vacinas para o controle da pandemia de Covid-19. Um único exemplo de efeito adverso (quando o mesmo não é tergiversado ou mesmo fabricado) é suficiente para que pessoas que são contra a vacina se posicionem de forma generalizada, dizendo que a “vacina mata”, não levando em consideração as milhões de pessoas que tomaram a vacina e não tiveram qualquer efeito adverso grave e a quantidade de vidas salvas justamente pela aplicação da vacina.

    Mesmo pessoas que não sejam antivacina podem acreditar e generalizar este único exemplo, sem qualquer estatística que justifique tal posicionamento. Isso sem entrar no mérito de que, em geral, não há sequer a apuração da causa da morte, a qual não necessariamente está vinculada à aplicação da vacina.

    Experimentamos que fake news podem ser disseminadas, inclusive, por líderes religiosos, os quais deveriam ter, ainda mais, compromisso com o bem-estar social e auxiliar na propagação de informações corretas, de acordo com a Ciência e com o objetivo de promoção da saúde das pessoas.

     

    Novo paradigma da verdade

    Ter consciência deste novo paradigma da verdade e, como consequência disso, dessa nova forma de utilizar a linguagem e o discurso, faz com que estejamos atentos e atentas. Do ponto de vista da fenomenologia, cada verdade é subjetiva, fenomenológica, não havendo normativas generalizadas, mas de acordo com o compromisso social e de respeito à Ciência, deve-se ter comprometimento com a não disseminação de inverdades, especialmente por aqueles/as que difundem a Palavra de Deus, quem, certamente, deseja o bem-estar de seus filhos e filhas.  


    * Luciana Soares Rosas é Economista (UFPR); Graduanda em Teologia e em Psicologia (PUCPR) e membra do Instituto de Espiritualidade e Saúde (IES).

  • WORKSHOP

    Instituto de Espiritualidade e Saúde oferece workshop gratuito


    O Instituto de Espiritualidade e Saúde (IES) foi idealizado pela Prof. Dra. Mary Rute Gomes Esperandio (Imagem: Divulgação) 


    No ano de 2022, o Instituto de Espiritualidade e Saúde oferecerá várias atividades, gratuitas e pagas, com o objetivo de promover reflexão pessoal, partilha de pesquisas na área de espiritualidade e saúde e cursos de formação para estudantes e profissionais que buscam integrar a espiritualidade, a busca por propósito e sentido, em suas atividades laborais.

    A primeira atividade ocorrerá no dia 12 de fevereiro de 2022, no formato on-line e gratuito, através do workshop: "Reconfigurando 2022: Alinhando propósito e sentido a partir de três questões". O objetivo é refletir e trabalhar a ampliação da consciência sobre si mesmo, a conexão com o espaço interior, com os outros e o ambiente mais amplo e capacidade de estar presente, buscando integrar sentido e valor na construção dos objetivos para o ano de 2022.

    A atividade será conduzida pela Profa. Dra. Mary Rute Gomes Esperandio, diretora/presidente do Instituto de Espiritualidade e Saúde, que trabalhará tópicos como: ampliação da consciência sobre si mesmo, conexão com o espaço interior, com os outros e o ambiente mais amplo e, também, capacidade de estar presente.


    Sobre o Instituto de Espiritualidade e Saúde
    Fundado em 2020, aspira influenciar a percepção da sociedade brasileira em geral e da área da Saúde em particular, quanto ao impacto da relação entre espiritualidade e saúde. Tem como missão potencializar a energia vital explorando a relação entre espiritualidade e saúde, ajudando a vida a florescer e frutificar.


    Quem é Mary Rute Gomes Esperandio?
    Psicóloga, Doutora em Teologia, Pesquisadora no campo da Espiritualidade e Saúde desde 2009. Realizou estágio de pós-doutorado em Psicologia da Religião (2013 - Indiana University South Bend) e  Espiritualidade em Cuidados Paliativos (2018-2019 - University of Humanistic Studies in Utrech - the Netherlands). Professora no Programa de Pós-Graduação em Bioética e no Programa de Pós-Graduação em Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR. Diretora/presidente do Instituto de Espiritualidade e Saúde.



    Serviço

    Workshop: "Reconfigurando 2022: Alinhando propósito e sentido a partir de três questões" com Mary Rute Gomes Esperandio

    - 12 de fevereiro
    - das 9h30 às 11h30
    - On-line e ao vivo via Zoom (mediante inscrição no link abaixo)
    - Gratuito

    Clique aqui e faça sua inscrição: https://forms.gle/gXwENpDwuBKBqrhT7

    Outras informações também podem ser obtidas no website oficial do IES: https://espiritualidade-saude.org/



    * Luciana Soares Rosas é Economista (UFPR); Graduanda em Teologia e em Psicologia (PUCPR) e membra do Instituto de Espiritualidade e Saúde.

  • DECRETO CANÔNICO

    Missas tradicionais: agora só com autorização!



    Em Curitiba, realização de missas tradicionais deve seguir novo decreto que entra em vigor em fevereiro de 2022.


    Antes mesmo do ano de 2021 encerrar, o arcebispo metropolitano de Curitiba, dom José Antônio Peruzzo, determinou medidas administrativas para evitar propagação de ritos anti-Vaticano II em Curitiba. O decreto, que entra em vigor a partir do dia 01 de fevereiro de 2022, proíbe a realização de rituais tradicionais por parte de sacerdotes não nomeados, tendo como precaução conservar as determinações do Magistério da Igreja e, especialmente, as instruções contidas no último Concílio, realizado entre 1962 e 1965 - que abriu a Igreja à realidade laical e aos mais diferentes diálogos.

    Tais medidas visam coibir o avanço de grupos radicais que tentam irracionalmente incitar a desunidade da Igreja Católica na capital paranaense, além de orientar a população acerca de rituais "clandestinos", ou seja, aqueles por ventura realizados por ministros não-autorizados, especialmente pertencentes a entidades que de alguma maneira tenham como interesse distribuir fakenews, realizar atos de milícia-virtual, incitar o descrédito na autoridade do papa Francisco e, sobretudo, dissuadir os fieis. 


    A seguir, segue a íntegra da carta, divulgada no site da Arquidiocese de Curitiba: 

    CARTA AOS FIÉIS DA ARQUIDIOCESE DE CURITIBA SOBRE A CELEBRAÇÃO DA SANTA MISSA NO RITO EXTRAORDINÁRIO

    Os sucessores dos Apóstolos foram convocados ao “cuidado do rebanho que o Espirito Santo confiou como pastores da Igreja de Deus e que adquiriu pagando com o seu sangue” (At 20,28). Neste sentido, devem os fiéis “submeterem-se facilmente à sua autoridade recebida de Deus” (cf. Decreto Christus Dominus, n.16).

    Unido à Sua Santidade o Papa Francisco, que promulgou o Motu Próprio Traditionis Custodes aos 16 de julho de 2021, procuro exercer meu ministério episcopal com diligência, pois “ao bispo diocesano, enquanto moderador, promotor e guardião de toda a vida litúrgica na Igreja particular a si confiada, compete regular as celebrações litúrgicas na sua diocese. Portanto, é de sua exclusiva competência autorizar o uso do Missale Romanum de 1962 na diocese, seguindo as orientações da Sé Apostólica”(cf. Art. 2) e ainda na ciência de que compete ao mesmo ordinário observar que “os presbíteros que já celebrem segundo o Missale Romanum de 1962, requererão ao Bispo Diocesano licença para continuar a valer-se dessa faculdade “ (cf. Art. 5);

    Depois de dialogar e consultar o Conselho Presbiteral e o Colégio de Consultores, tendo clareza a quem de direito deve ser consultado para as decisões (cf. Cânones 498 e 500 – CIC 83), em comunhão com os presbíteros preocupados com a evangelização e com uma “Igreja em Saída” nos tempos hodiernos, julguei ser conveniente e necessário tutelar o apreço pela “validade e a legitimidade da reforma litúrgica, das determinações do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Sumos Pontífices” (cf. Traditiones Custodes, Art. 3 § 1).

    O Concílio Vaticano II precisa ser respeitado, e por isso o pastor precisa orientar os que se afastam do caminho (cf. Christus Dominus, n. 11) até conseguir que todos percorram as vias “de toda a bondade, justiça e verdade” (Ef 5,9).

    A Arquidiocese de Curitiba, atenta aos sinais dos tempos e em comunhão com as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, não pode desprezar os princípios da Nova Evangelização.

    Assim, a partir do dia 1º de fevereiro de 2022, as Missas no Rito Latino a serem celebradas na Forma Extraordinária deverão ser presididas tão somente pelos Reverendíssimos senhores Padre Anderson Bonin e Padre Emmanuel Portela Cardoso, do clero secular desta Igreja Particular, ou ainda por outro presbítero devidamente nomeado pela autoridade eclesiástica competente.
    Os lugares das Celebrações apenas das Santas Missas serão comunicados aos seu tempo. Poderão ser realizadas apenas nos domingos e dias santificados.

    Ficam vetados outros sacramentos e sacramentais que não estejam nos Rituais Aprovados e em vigor após a Constituição Sacrossanctum Concilium e em consonância com o Missal de São Paulo VI.

    Recordo que como titular da Arquidiocese meu dever diante de Deus e da Igreja na missão como Arcebispo Metropolitano é o de ser sinal da Unidade com o Santo Padre, com o Colégio dos Bispos e com todos os cristãos, na qualidade de pastor com potestade ordinária, imediata e própria (cf. Cânon 381 – CIC 83). Inclui-se aí o fato de estar entre “os guardiões da tradição, (…) em comunhão com o bispo de Roma, constituindo o princípio visível e o fundamento da unidade nas suas Igrejas particulares” (Cf. Lumen Gentium, n. 27).

    Por fim, esclareço que não foram suprimidas as Missas em Rito Extraordinário no território da Arquidiocese. Tenham todos ciência de que há em Curitiba sacerdotes encarregados, bem como lugares próprios e determinados para atendimento aos fiéis com a Liturgia do Missal anterior ao de São Paulo VI, a chamada popularmente de “Missa de São Pio V”. (cf. Art. 3 § 3 – Traditiones Custodes).

    Confiado na Oração e intercessão do Povo de Deus, subscrevo-me servo em Cristo

    Curitiba, 27 de dezembro de 2021 – Festa de São João Evangelista – Oitava do Santo Natal do Senhor

    + Dom José Antonio Peruzzo
    Arcebispo Metropolitano de Curitiba


    Veja o documento oficial encaminhado pelo Arcebispo, na íntegra: carta-dom-peruzzo-rito-extraordinario

  • REFLEXÃO

    Natal, festa da família?


    Natal, festa da família? De que família estamos falando? (Imagem: Pixabay) 

     

    No começo da década de 80 do século passado, uma expressão de Margaret Thatcher se tornou muito conhecida: “Essa coisa de sociedade não existe; o que existe são homens e mulheres, indivíduos e suas famílias”. O Reino Unido passava por um momento de grande ajuste social e econômico e a Dama de Ferro precisava conduzir seu país aos portos do neoliberalismo que conquistaria o mundo todo, poucos anos depois.

    Evidentemente, nesse cenário a família nuclear heterossexual se apresentava como perfeita alternativa para a realização do ambicioso projeto neoliberal marcado pelo acúmulo de capital e pelo elevado índice de consumo. Claro, a sociedade tinha que ser lançada pela borda porque suas demandas, especialmente aqueles diretamente ligadas à segurança social como educação, saúde e previdência, eram caras demais. Logo, “essa coisa de sociedade não existe”.

    Qual foi o resultado? Aquelas e aqueles que não se encaixavam dentro do padrão acima descrito foram simplesmente excluídos. Não nos referimos somente às famílias homossexuais, mas sobretudo às empobrecidas e aos empobrecidos que custam caro demais para o Estado; não constituem a “família tradicional” porque simplesmente não podem e estão muito abaixo dos níveis de consumo exigidos pelo mundo neoliberal.

    Infelizmente, nós, cristãs e cristãos, não podemos nos eximir da culpa de ter criado um mundo de “famílias excludentes”. Basta nos lembrarmos do tanto que João Paulo II e seus cooperadores mais íntimos, do lado católico, e os diversos seguimentos evangélicos, sobretudo os neopentecostais, defenderam - e ainda defendem - essa “família tradicional excludente”.

    Talvez, o pior cenário possível para aquelas e aqueles que são deixados de lado por esse modelo - porque não conseguem consumir, não nos esqueçamos! - surgiu na última década em que a “família tradicional excludente” se tornou pauta central de um debate político polarizado mundo afora.

    A partir dessa reflexão, vale nos perguntarmos: o Natal é uma festa da família? De que família? Dessa “família tradicional excludente”? Aqui é preciso voltar ao Evangelho e nos confrontarmos com o que o próprio Jesus fala sobre a família.

    “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,48-50). Para Jesus os vínculos familiares estão além de laços sanguíneos e do parentesco político. Os membros de sua nova família são aquelas e aqueles que cumprem a vontade de seu Pai.

    Outro texto evangélico, próprio do tempo do Advento, nos dá mais pistas sobre essa nova família de Jesus. Depois de ter recebido o anúncio do anjo, Maria vai apressada à região montanhosa da Judeia ao encontro de Isabel (Lc 1,39-45). Segundo o relato do anúncio, Isabel é “parenta” de Maria (Lc 1,36); o que é ser “parenta”? Isabel e seu esposo Zacarias são da descendência de Arão, da linhagem sacerdotal; Maria e seu esposo José, da descendência de Davi. Ambas as linhagens não se misturavam, logo Isabel e Maria não poderiam ser “parentas” de sangue.

    Comumente, afirmamos que seriam primas; porém, a melhor palavra para expressar a relação de ambas é irmãs. Sim, Isabel e Maria são irmãs. Porém, não pelo sangue ou por laços políticos, mas irmãs pelo vínculo do Espírito. O Espírito que fecundou o seio de Maria, de quem nasceu o Salvador (Lc 1,35), é o mesmo Espírito Santo que fez a criança pular de alegria no ventre de Isabel (Lc 1,44). Seu vínculo familiar é muito mais forte que o sangue e relações políticas; é o vínculo do Espírito.

    Além disso, há uma condição que une Isabel e Maria em uma mesma família: ambas são mulheres da periferia. Isabel, apesar de ser da linhagem sacerdotal, vivia distante do centro do poder religioso. Maria, em Nazaré na Galileia, onde sequer havia casas e seus habitantes moravam em grutas. Duas mulheres da periferia, às quais outras tantas e outros tantos se unirão, constituem a nova família de Jesus pela ação do Espírito Santo. 

    Em Jesus, já não somos mais estrangeiros, formamos uma só família (Ef 2,19); não há mais judeus ou pagãos porque o muro da inimizade foi derrubado (Ef 2,14-15). Ele congrega em torno de si, pela ação do Espírito Santo, marginalizadas e marginalizados, como os pastores de Belém, que glorificaram a Deus nos céus e desejaram paz às mulheres e aos homens na terra. (Lc 2,14). A família de Jesus é a família dos pobres unidos pelos laços do Espírito. Sim! Natal é a festa dessa família!

    Não é festa daquela “família tradicional excludente” defendida pela primeira ministra britânica acima mencionada. Não é festa da família que pode até rezar ou ir à missa, mas não tem o menor pudor de se reunir em torno de mesas fartas, em um mundo faminto; da família que não tem a menor vergonha de trocar presentes embrulhados em papéis com a estampa de um senhor de barba branca e vestido de vermelho, em um mundo de empobrecidas e empobrecidos. Não! O Natal não é festa de uma família assim!

    É festa da família de Jesus! Por isso, no lugar de tantos excessos e exageros - que não são diminuídos só porque cantamos “Noite Feliz” diante do presépio -, que este Natal seja festa dos pobres, dos miseráveis, daquelas e daqueles que Deus, em Jesus seu Filho e pela força do Espírito, escolheu para fazerem parte de sua verdadeira família!

    * Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    A dor do suicídio: nove padres se suicidaram em 2021, o que fazer?


    Nove padres se suicidaram em 2021, o que fazer? (Imagem: Pixabay)


    No dia 07 de novembro passado, mais um padre tirou sua própria vida – já são nove só em 2021! O que fazer? Infelizmente, o número de suicídios permanece elevado no Brasil e no mundo: segundo o anuário brasileiro de segurança pública, em 2020 foram registrados no país 12.895 suicídios. É um número elevado, o que fazer?

    As causas que levam uma pessoa a tirar sua própria vida são as mais variadas possíveis; o que, sim, é comum a todos os casos é o fato de enxergarem na morte a única saída – ainda que desesperada – para aquilo que estão vivendo. Se comparamos os índices, podemos até relativizar a problemática do suicídio de padres: o número de padres que tira a própria vida não chega a 0,0007% dos casos (é preciso registrar a diferença do período usado para a comparação, mesmo assim a variação permanecerá inexpressiva). Pode um padre se suicidar?

    Não dispomos em português da mesma semântica dos idiomas anglo-germânicos que distinguem entre poder de permissão e poder da ação – no caso do inglês, a distinção é feita pelo uso dos verbos auxiliares may e can, no caso do alemão, dos verbos auxiliares dürfen e können.

    Como todo ser humano, o padre não pode – não tem a permissão – de tirar a própria vida. Não se trata de uma imposição moral advinda da sociedade, tampouco da religião, mas de uma disposição ética profunda do ser humano que o permite contemplar a vida como absoluta gratuidade da qual não tem a permissão para dispor.

    Possivelmente, essa tenha sido a motivação que teve A. Calmus ao afirmar que o único problema filosófico que deve ser levado a sério é o suicídio. Não se trata somente da negação de Deus e do mundo, mas a negação de si mesmo, da inteligência e da liberdade que permitem ao ser humano recomeçar do zero todos os dias. Por isso, filosoficamente, nenhum ser humano pode – ou tem a permissão – de tirar a própria vida.


    Sacerdote é também ser humano

    Entretanto, o padre, como todo ser humano, pode – tem o poder da ação – para tirar a sua vida; os números, infelizmente, comprovam esse poder, essa ação. Mas por que tantos se escandalizam diante do suicídio de um padre? Diria até mais precisamente, o suicídio de todo ser humano deveria produzir o mesmo escândalo, afinal de contas, como mencionei anteriormente, se trata de negação de si mesmo. Entretanto, o fim doloroso e dramático da vida de um padre, que tira a própria vida, escandaliza muito mais. Por quê?

    Talvez a resposta a essa pergunta possa iluminar a reflexão sobre o problema. Não pretendo dar uma resposta definitiva, somente tenho a pretensão de oferecer – a quem quiser – alguns elementos para a reflexão.

    Circula pelos grupos de padres do WhatsApp, uma carta de um irmão padre que insiste muito no zelo que cada um de nós deve ter por si mesmo. O Pe. José Alves, que tirou sua vida no último dia 07 de novembro, escreveu pouco antes de cometer o ato desesperado “Amo minha Igreja”. O autor da carta muito assertivamente se questiona: mas a Igreja ama seus padres?

    Ele enumera diversas situações que empurram os padres para as crises que podem levar ao suicídio, como no caso do Pe. José: a pouca atenção dos bispos, a pressão de ser bons administradores e exímios ministros pastorais, a frieza das relações dentro do presbitério, a pressão das comunidades, as denúncias – muitas vezes falsas –, a dureza do Código do Direito Canônico, que se mostra, em algumas ocasiões, muito mais importante que o Evangelho.
    Por mais que tenha enumerado diversas situações, que são propriamente sintomas da grave crise, penso que o autor da carta não tocou – não por incapacidade ou falta de percepção – o problema mais profundo que jaz sob a situação: a “sacralização”, quando não, o “endeusamento” do padre.

    Acúmulo de funções?

    O padre hoje é um ministro ordenado que acumula os serviços dos diakonói e dos presbyterói do Novo Testamento, isto é, estar a serviço da Palavra, da mesa, especialmente dos pobres (entenda-se por mesa, a Eucaristia, sacramento da partilha do pão), e das comunidades (At 6,1-6). Em nenhuma passagem do Novo Testamento, os ministros ordenados se identificam com a palavra hiereùs (sacerdote): diáconos, presbíteros, profetas, apóstolos, episkopói (bispos) são os nomes dados aos mais diversos serviços dentro da comunidade.

    De fato, se não fosse pela Carta aos Hebreus, a tradição cristã teria excluído por completo a função sacerdotal. Não pode se esquecer que foram os sacerdotes do Templo de Jerusalém que se posicionaram contra Jesus em seu julgamento (Jo 18,19-24); o próprio Jesus sempre se mostrou muito crítico ao poder sagrado com o qual o Templo e os sacerdotes estavam revestidos (Mc 13,1-2).

    Mas retomando a Carta aos Hebreus, é mister destacar que a função sacerdotal de Jesus apresentada pelo autor do texto neotestamentário se destaca pela misericórdia para com suas irmãs e seus irmãos (Hb 4,15); o sacerdócio em Jesus não é entendido como “sagrado”, isto é, separado, mas bondoso e compassivo.

    História da Igreja

    Ao longo da patrística, especialmente no período pré-niceno, a Igreja – a comunidade, não a instituição em primeiro lugar – era a verdadeira sacerdotisa, porque oferecia ao Pai, na força do Espírito Santo, o maior de todos os dons recebera: o próprio Jesus Cristo. Contudo, o ministério ordenado passou por profundas transformações com a assunção do Cristianismo a religião oficial do Império Romano: os ministros ordenados, sobretudo os bispos, assumiram traços dos dignatários do império, entre eles seu “endeusamento”.

    A história testemunha esse processo de distanciamento do clero – palavra que jamais deveria ter sido usada no Cristianismo – daquelas e daqueles que receberam o nome de leigas e leigos. Se esse nome é compreendido desde sua riqueza etimológica, isto é, desde sua origem na palavra laós (povo), tudo bem; porém, se é compreendido como distinção, ou mais precisamente, subordinação ao clero; tudo errado.

    Durante a Idade Média europeia, a sacralização dos ministros ordenados foi sobreacentuada, quando eles se viram obrigados a assumir elementos próprios da vida religiosa monástica, concretamente o celibato e a vida de oração mediante a recitação dos salmos várias vezes ao longo do dia.

    A passagem da Idade Média para a Idade Moderna reforçou esse processo quando os reformadores levantaram sérias questões sobre o sacramento da Ordem. Somente no século XX, com o Concílio Vaticano II, houve um resgate das bases bíblicas e patrísticas do ministério ordenado.

    Vaticano II e a contemporaneidade na Igreja

    Não obstante, “a volta à grande disciplina”, como descreveu J. B. Libânio, durante o pontificado de João Paulo II significou um congelamento, se não um retrocesso, para os avanços conciliares. Bispos e padres, desde então, somos vistos como seres “divinos” que renunciam a tudo nesta vida para se dedicar à “salvação das almas”. O “sacerdote sagrado” se sobrepõe ao “presbítero”, isto é, àquele que goza do respeito da comunidade porque está a serviço dela.

    Ainda que muitos padres compreendam seu ministério em unidade com as comunidades, não são poucos os exemplos que se entendem a si mesmos como “criaturas angelicais”, uma espécie de “terceiro gênero” dessexualizado, como bem aponta J. Tricou, professor da Universidade de Lausanne/ Suíça, em seu livro “Des soutanes et des hommes. Enquête sur la masculinité des prêtes catholiques” (Das batinas e dos homens. Pesquisa sobre a masculinidade dos padres católicos, em tradução livre).

    Não somos “seres divinos”, nem “criaturas angelicais”, somos homens que compartilham com os demais homens e as mulheres as mesmas angústias do dia a dia. Afirmava acima que o autor da carta sobre o suicídio de padres enumerou uma longa lista de sintomas, mas penso que a verdadeira causa está no “endeusamento”, na “sacralização” dos padres que tem como resultado a pior enfermidade da Igreja, o clericalismo tão denunciado pelo Papa Francisco.

    A divinização – para usar um termo da Patrística – do padre é a mesma que se dá em todas as cristãs e todos os cristãos no dia de seu Batismo. Os padres não somos “privilegiados” por termos recebido o sacramento da Ordem; somos, sim, capacitados pela graça para servir a comunidade, da qual nunca devemos nos afastar. Não somos “especiais”, não somos super-homens que devem ser excelentes administradores dos bens eclesiásticos e gênios pastorais. Somos falhos, muito falhos! E as comunidades não deveriam se escandalizar disso. Pelo contrário, elas também devem estar próximas de seus padres e não lhes fazer a vida impossível cobrando além de seus limites.


    A formação sacerdotal precisa mudar

    Como mencionei anteriormente, não pretendo apontar nenhuma resposta definitiva ao problema, simplesmente iluminar a reflexão. Padres não são seres especiais, são homens frágeis como quaisquer outros e, por isso, infelizmente podem – têm o poder da ação – para tirar sua própria vida.

    Enquanto, a Igreja impor a seus padres um “endeusamento” indevido, continuaremos registrando o aumento do número dos casos de suicídio de padres. Se a Igreja quer fazer algo de bom para seus padres, em primeiro lugar, não passe os longos e árduos anos da formação “enfiando na cuca” dos seminaristas que foram eleitos para o mais sublime de todos os ministérios; não os torne uma casta apartada do mundo e da vida.

    Não é intenção deste texto, mas precisamos conversar urgentemente sobre os seminários! A formação sacerdotal precisa ser revista, reformulada, repensada. Precisamos criar seres humanos prontos para servir, mas também escutados em suas limitações e fragilidades. Se a Igreja quer evitar que as mídias mostrem sua fragilidade porque mais um padre se suicidou, procure urgentemente superar o maior câncer que a aflige, o clericalismo.

    Já é passada a hora de renunciar a símbolos de honra e poder, como as vestes clericais. Já é passada a hora de nos enxergarmos a nós mesmos como batizados antes de ministros ordenados. Já é passada a hora de sermos Povo com e como nosso povo, como refletiu J. Sobrino ao escrever sobre o Emanuel – el Dios con nosotros y como nosotros. Já é passada a hora de nos escandalizarmos todas as vezes em que um ser humano atenta contra sua vida.



    * Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    É hora de tocar na ferida (ou melhor, continuar tocando…)


    Problemas advindos de uma teologia mal vivida corroboram para dificuldades na Igreja, que sofre por meio de escândalos sexuais e abuso de poder por parte de seus membros. (Imagem: Pixabay)

    Poucos meses depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra alvos civis em Nova York e Washington nos EEUU, o jornal The Boston Globe publicava o que foi considerado um dos maiores – senão, o maior! – escândalo da Igreja Católica em tempos recentes.

    Na publicação, foram relatados diversos casos de abusos sexuais perpetrados por membros do clero católico a crianças e adolescentes ocorridos em várias dioceses norte-americanas. Foi o estopim para que outras tantas denúncias fossem realizadas em diversas partes do mundo. Tristemente, os casos se multiplicavam...

    Na última semana, o UOL publicou uma longa reportagem sobre casos de abusos diversos cometidos pelo então Pe. Ernani Maia dos Reis contra monges e monjas, em Monte Sião/ MG. Não se trata, contudo, do primeiro caso de abuso por um fundador carismático: basta recordar os abusos sexuais de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e todas as acusações de abusos de consciência e um abuso sexual, que saíram à luz pública em 2020, contra José Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt.

    Por outro lado, não precisamos ir muito longe: em 2016, Roberto Lettieri, que ficou conhecido por seu trabalho com a Toca de Assis, foi expulso do estado clerical por abusos diversos contra religiosos e a mesma coisa aconteceu, em 2019, com Jean Rogers Rodrigo de Souza, conhecido como Pe. Rodrigo Maria.

    Talvez, esteja quem reaja visceralmente contra a disciplina do celibato imposta aos clérigos católicos, há quase um milênio, como a “suposta” causa de abusos. Entretanto, o problema é muito mais profundo...

    Não se trata somente de uma problemática sexual, por exemplo uma desordem ou uma perversão, como é o terrível caso da pedofilia. O que favorece todas essas situações de abuso – seja de consciência, moral ou sexual – é um grave erro da compreensão do ministério ordenado por parte da instituição, das comunidades e daqueles que o exercem.

    Em todos os casos mencionados, sempre se associou à figura carismática um poder que não lhe é próprio, isto é, o poder divino. Tanto que nos relatos daquelas e daqueles que foram por eles abusados sempre aparece a expressão “nosso pai”. O próprio Jesus sentencia categoricamente: “A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o celeste” (Mt 23,9). A afirmação de Jesus nos aponta não só a proibição literal nela expressa, mas o erro de associar unilateralmente, isto é, sem reservas atributos próprios de Deus a seres humanos.

    Mas mulheres e homens não podem transparecer Deus? Claro que sim! Porém, jamais serão Deus – a expressão “nosso pai” implica uma relação de confiança e transparência que não corresponde a nenhum ser humano, senão só a Deus. Por mais que nos confiemos a alguém, sempre haverá uma reserva da própria consciência, como bem explicita a Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (GS 16); a consciência, como já ensinava Santo Agostinho de Hipona, é onde pessoa ouve a voz de Deus (Conf X: 1,1). Aquele que pretende ocupar o lugar de “nosso pai”, porque ao redor dele há uma “auréola misteriosa”, está invadindo um âmbito que não lhe corresponde. Daí, o caminho para os mais diversos abusos é bem curto.

    É certo que há personalidades doentias que sabem aproveitar muito bem essas situações. Mas também há mecanismos institucionais que favorecem o surgimento e a manutenção de abusos. E sobre isso, temos que falar!

    Especialmente a partir da segunda metade do século XX, o número de personalidades carismáticas que fundaram movimentos, associações e comunidades de vida cresceu exponencialmente. Todavia, esse crescimento não foi devidamente acompanhado pelas autoridades eclesiásticas. Diante do desafio da perda de fiéis para o mundo secularizado e as diversas confissões cristãs, religiões e formas de espiritualidade, muitos detentores do poder eclesiástico fizeram vista grossa para problemas graves que aconteciam dentro de movimentos, associações e comunidades de vida.

    Francisco, há pouco, refletia sobre o exercício da autoridade nos movimentos: “considerando os casos de abuso de vários tipos que ocorreram nessas realidades e que têm sempre a sua raiz no abuso de poder. Muitas vezes, a Santa Sé teve que intervir nos últimos anos, iniciando difíceis processos de reabilitação. Penso não só nessas situações muito ruins, que fazem muito barulho, mas também nas doenças que vêm do enfraquecimento do carisma fundacional, que se torna morno e perde sua capacidade de atração” (Papa Francisco, 16 set. 2021). Sua preocupação é mais que legitima!

    Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer da compreensão – autocompreensão, melhor dito – que padres possuem de seu ministério presbiteral. O Concílio Vaticano II indicou o caminho para a “des-sacerdotização” dos padres resgatando o ministério neotestamentário dos presbíteros (LG 28 e PO). A função sacerdotal no Antigo Testamento estava diretamente vinculada ao culto e ao sagrado; aqueles chamados a servir às comunidades do Novo Testamento não se veem, em primeiro lugar, como servidores do sagrado, mas como enviados para anunciar a Boa-nova do Reino de Deus (Mc 16,15).

    A Igreja de Jesus, portanto, não comporta um “ministério do sagrado”, mas um “ministério a serviço do Reino” ou, em palavras mais contemporâneas, um “ministério missionário”. Nesse sentido, o ministro cristão não é “santo” – entendido como “separado”, “intocável” –; é um homem chamados a servir comunidades concretas, mas como um membro seu. Nada menos cristão que considerar os padres “acima” das comunidades, como se fossem figuras quase angelicais. Não! São tão humanos como os demais membros da comunidade.

    A compreensão – autocompreensão, insistimos – de um ministério sagrado nas comunidades cristãs também abre espaço para abusos. Possivelmente, em uma grande parte das comunidades cristãs não nos encontremos com abusos de consciência, moral e sexual – graças a Deus! Porém, nos encontraremos, sim e com frequência, com abusos de poder, financeiros e patrimoniais. Por que o padre tem que residir na maior casa do bairro? Por que sempre tem que ter o carro do último modelo? Francisco já teve oportunidade de expressar sua preocupação com isso (Papa Francisco, 06 jul. 2013).

    Sabemos que o questionamento é pesado, mas s perguntarmos se não há nela espaço – pequenos e grandes porões subterrâneos– que favorecem o surgimento de uma mentalidade abusiva que chega a ser criminosa, em caso de personalidades doentias, e pelo menos, escandalosa, em casos de personalidades mais equilibradas.

    Está correto afirmar que os casos são muito diversos e não podemos tratar um abuso sexual da mesma forma como abordamos um abuso de poder ou econômico. Fato! Mas ambas as situações são abusivas e a “auréola misteriosa” ao redor dos ministros ordenados nada ajuda a colocar um fim definitivo nessas feridas que fazem o Corpo de Cristo sofrer tanto.

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    É o Apocalipse? As manifestações de 07 de setembro


    Imagem: Pixabay

    Podemos dizer que a perplexidade da nação com relação ao ocorrido na semana passada ainda paira no ar. Mas afinal de contas, o que aconteceu? Sinceramente, é uma tarefa quase impossível – para não dizer improvável – tentar entender a movimentação do Sr. Presidente da República e de seus apoiadores. Talvez a capa de um conhecido semanário – que parafraseou um conhecido filme – tenha conseguido expressar da melhor forma o que vivemos na semana passada: “O estranho mundo de Jair”. Muito estranho!

    Dentro de toda essa estranheza, não é nada estranho – com o perdão da redundância! – que líderes radicais católicos e evangélicos tenham vaticinado semanas antes a chegada do Apocalipse. Mas o Apocalipse chegou?

    Muitas e muitos pensam que Apocalipse é apenas um livro do Novo Testamento cristão, no entanto apocalipse é um gênero literário já presente no Antigo Testamento; exemplos da apocalíptica veterotestamentária são o livro do profeta Daniel e trechos do livro do profeta Ezequiel. Trata-se de um gênero literário que surgiu Judaísmo tardio, isto é, durante os períodos da dominação persa e grega depois do Exílio. 

    O ambiente apocalíptico deixou marcas profundas em diversos setores da sociedade de Israel no tempo de Jesus: a seita dos essênios, também conhecida como seita de Qumran, estava fortemente impregnada por mensagens apocalípticas; a atividade e a pregação de João Batista também possuíam traços nitidamente apocalípticos. Nas próprias palavras de Jesus de Nazaré, encontramos, entre tantas influências do Antigo Testamento, ideias e imagens da apocalíptica judaica. Mas afinal de contas do que se trata todo esse movimento?

    Como ensinam diversos autores de Cristologia do século XX, sobretudo do pós-Concílio, um traço muito marcado da apocalíptica do Judaísmo tardio, que também se faz notar no tempo de Jesus e no próprio Jesus, é a chegada do novo éon, isto é, a instauração definitiva do reinado de Deus em Israel e sobre toda a Criação. Há trechos belíssimos no livro do profeta Ezequiel, já citado, que mostram a restauração da vida, sobretudo daquelas e daqueles que foram esquecidos pelos poderes deste mundo (Ez 36,24-26; 37,4-6).

    Diante do fracasso desses poderes – entenda-se político e econômico –, a esperança popular se eleva àquele que tem o poder definitivo em suas mãos. Não se trata de um poder que subjuga ou domina, mas um poder que salva e liberta; não um poder de opressão, mas um poder sustentado pela justiça, bondade e amor. Apocalipse, portanto, não tem nada a ver com destruição e instauração de poderes dominadores, mas com a revelação (do verbo grego apokalypsein) da bondade suprema de Deus.

    “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,14) proclama Jesus ao iniciar seu ministério público, isto é, a intervenção definitiva e amorosa de Deus na história está próxima. Deus fará justiça às injustiçadas e aos injustiçados; estará ao lado daquelas e daqueles que foram esquecidos pelos poderes deste mundo; inaugurará o novo éon, isto é, o novo tempo da justiça e do direito (Sl 33,5) para com as abandonadas e os abandonados, para com as empobrecidas e os empobrecidos.

    Quando líderes radicais católicos e evangélicos incitavam a população para se erguer a favor do Capitão e proclamavam a chegada do apocalipse não estavam se referindo ao que a Escritura nos apresenta como tal. É de se imaginar que evocavam muito mais as telas de Hollywood – ou da Record –, nas quais se vê destruição, terra arrasada, vidas destroçadas. O apocalipse conclamado por esses líderes pseudorreligiosos não tem nada a ver com o Apocalipse do Deus de Jesus Cristo; trata-se do apocalipse dos homens.

    Mas afinal de contas, o apocalipse de 07 de setembro chegou ou não? O do Deus de Jesus Cristo ainda não; o dos homens, ou mais especificamente, o do Capitão chegou... Enquanto seus seguidores fanatizados saíam pelas ruas e praças do país imitando “arminhas” com seus dedos e exigindo a instauração de um poder autocrático, milhões de brasileiras e brasileiros são empurrados para abaixo da linha da miséria. A fome é uma realidade cada vez mais presente nos lares de milhões de famílias. O desemprego é um flagelo que vitimiza sobretudo os jovens da sociedade. Toda essa situação de calamidade social e econômica se vê ainda mais grave com o escandaloso número de quase 600.000 mortos pela pandemia de covid-19 e a crise hídrica e energética na qual o país está entrando.

    Estaria demais mencionar, em uma situação tão grave como a que vivemos, que os apoiadores do Capitão – cidadãos de bem, como gostam de ser chamados – são violentos, misóginos, racistas e homofóbicos, apoiam a destruição das matas e a expulsão de seus povos originários para que a força do agronegócio – que não tem nada de pop! – continue fazendo crescer as contas bancárias de grandes corporações.

    Sim! O apocalipse chegou! O apocalipse do Capitão... Mas não chegou 07 de setembro passado, como arautos da desgraça anunciaram, chegou no segundo turno das eleições de 2018 quando a maldade dos homens, que segregam e separam, se sobrepôs à bondade de um Deus que faz o sol nascer sobre bons e maus (Mt 5,45), que derruba os muros do ódio e faz do que era divido uma unidade (Ef 2,14).

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • CONGRESSO

    Congresso Oikos abre inscrições para a submissão de trabalhos


    O Congresso Oikos é fruto de parceria entre instituições de ensino católicas de todo o país (Imagem: Divugação)

    Organizado e promovido pelas áreas de pastoralidade de 17 instituições católicas brasileiras de Ensino Superior, foi confirmada a realização do Congresso Oikos, que será realizado de 3 a 5 novembro deste ano e propõe uma reflexão em torno da articulação dos temas emergentes do pontificado do papa Francisco - Educação, Economia, Ecologia e Ecumenismo (4E's) - na perspectiva de assumi-los como eixos de ações estratégicas e cooperativas entre as instituições de Ensino Superior do país.

    O evento tem como objetivo incentivar a produção científica sobre as suas temáticas centrais, além de promover o intercâmbio de conhecimento entre estudantes, pesquisadores e profissionais de diversas áreas, de modo a buscar reunir produções acadêmicas de cunho teórico e experiencial que abordem esses 4E's em cada grupo de trabalho em que o participante poderá se inscrever.

    Além dos grupos de trabalho, o Congresso Oikos contará com diversas atrações e com a presença de grandes convidados(as), nomes de referência em suas áreas de atuação e pesquisa dentro da proposta de cuidados pastorais presente na temática do evento. As inscrições já estão abertas!

    Saiba mais e participe: https://www.even3.com.br/oikos2021/



  • REFLEXÃO SOBRE A QUARESMA DE SÃO MIGUEL

    Que quaresma é essa?


    Uma reflexão sobre mais uma moda da internet (Imagem: Pixabay)

     

    Na liturgia católica do domingo 22 de agosto, lemos: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60). Estamos concluindo o capítulo seis do Evangelho segundo João que estamos meditando há algumas semanas.

     

    Qual seria essa “palavra dura” dita por Jesus e motivo de escândalo para os discípulos? Deve ter sido algo pesado, porque muitos o abandonaram. Lembremo-nos dos principais fatos do trecho bíblico: o “sinal dos pães” que acontece no contexto da Páscoa (1-15), a multidão que vai até Cafarnaum atrás de Jesus e é questionada por ele se lá estava porque viu sinais ou simplesmente porque tinha comido pão (24-35), os fariseus que se perguntavam se ele não era o filho de José e se não conheciam sua mãe (41-51).

     

    Poderíamos meditar dias sobre cada uma das passagens acima e o que nelas é nós narrado. Mas concentremos no “sinal”: Jesus é o Pão da Vida, aquele que veio para dar vida ao mundo. Quem partilha do Pão da Vida também se compromete com vida do mundo, isto é, se compromete a dar de comer a quem tem fome e beber a quem tem sede. A Eucaristia não é só cume da vida cristã, é recomeço: todas as vezes que partilhamos o Pão do altar, nos comprometemos a partilhar o pão do dia a dia, sobretudo com os necessitados e os excluídos. O sinal não só a Eucaristia em suas “espécies”, mas a vida eucarística de irmãs e irmãos na qual não há fome, nem sede; não há exclusões, nem divisões.

     

    A “palavra dura”, portanto, é vida. Quem se compromete com o Pão da Vida, se compromete com a vida! Especialmente com a daquelas e daqueles que tem a própria vida ameaçada pela fome, pela sede, pela exclusão, pela divisão. Os discípulos queriam só as “espécies”, não queriam compromisso com a vida. Por isso, abandonaram Jesus. E nós?

     

    Passa pela imaginação de muitas e muitos que simplesmente participando do rito da missa já possuem um bilhete carimbado “para o céu”. Será? Em outro trecho do Evangelho (Mt 25,31-46), não aparece nenhuma vez o questionamento sobre a quantidade de missas em que estivemos ou o número de terços que rezamos; o grande questionamento gira em torno da atenção aos pequeninos - quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, na prisão ou doente. Não são as nossas pretensões que nos levarão “para o céu”…

     

    Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que sempre aparecem novas “modas católicas”, principalmente nos meios digitais. A moda da vez é a “quaresma de São Miguel”. Sejamos sinceros: não é tão da vez, porque é uma tradição da família franciscana que se remete ao próprio Francisco de Assis, assim como a medalha de São Bento não é invenção recente, mas se remete ao santo de Núrsia.

     

    O que tem chamado a atenção é o estardalhaço vindo das redes sociais: legiões que passam horas conectadas, numerosos grupos que se levantam às 04h30, lives e mais lives sobre a dita “quaresma”. A pergunta que não quer calar é: para quê? Se muitas e muitos pensam que conquistaram “o céu” por tanto esforço, a resposta já sabemos: não! A oração é força motriz da vida cristã, mas para estar com Aquele que nos ama - não para conquistar ou ganhar  nada.

     

    A propósito, a palavra “conquista” pode sugerir um sentido - ainda que equivocado - para essa “quaresma”. Como mencionávamos acima, toda essa movimentação nasce das tantas “modas” que vêm e vão; elas movimentam máquinas muito lucrativas e conquistam, sim, lucro para quem as promove. Mais uma vez, nos vem à mente uma passagem do Evangelho: Jesus condenando o comércio religioso (Jo 2,16). “Conquista” também nos aponta a outro problema sério: a religião entendida como prosperidade. Antes que as vozes se levantem e digam que isso se dá só no protestantismo, vejamos as motivações para a “quaresma”: bem-estar individual, prosperidade financeira, cura interior e tantas outras afins. O neoliberalismo também está acordando às 04h30 para que uns poucos lucrem e muitas e muitos fiquem olhando só para si e seus perrengues - nada menos cristão…

     

    Para concluir: se essa legião de cibernautas católicos vivesse a Quaresma da Liturgia, que nos convida a caminhar com Jesus pobre e humilde até a Páscoa, com o mesmo fervor que estão vivendo essa “quaresma”, a vida da Igreja seria muito diferente.

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    Acabou p…


    Reflexão sobre uma oração feita de joelhos, diante da bandeira da República. (Imagem ilustrativa: Pixabay)

    "Acabou p…"

    É possível orar ajoelhado ao redor de uma bandeira com essas palavras?

    No dia 01/08, as “milícias ensandecidas” que defendem à toda custa o Sr. Presidente da República saíram para as ruas para exigir o assim chamado “voto auditável”. A manifestação levou muitas e muitos ao questionamento se não deveríamos retornar também ao pombo correio, porque os e-mails e as postagens nas redes sociais – tão queridinhas das “milícias” acima citadas – não são auditáveis. Em todo caso, assistiu-se mais uma vez ao show de horror de um Brasil paralelo no qual ser “cidadão de bem” é a mesma coisa que ser machista, racista, homofóbico e ter ódio de pobre.

    Na cidade de Londrina/PR, segundo uma postagem no Twitter do Deputado Federal Felipe Barros (PSL/ PR), um grupo desses “cidadãos de bem” estava ajoelhado ao redor de uma bandeira verde-amarela com as palavras “Acabou p…”. O que mais chamava a atenção no post era a legenda: “Londrina orando pelo Brasil”. Como palavras tão agressivas e chulas podem motivar alguém a orar?

    Algumas informações importantes: se a postagem for procurada agora no Twitter, encontrar-se-á com a seguinte mensagem: “Este Tweet está indisponível”. Portanto, não é possível comprovar se a foto é verdadeira ou fake - usando uma palavra que os “cidadãos de bem” adoram, inclusive seu Mito se enrolou bastante por causa dela na última semana. Entretanto, pelo comportamento desses “milicianos” é de se esperar que a foto seja verdadeira.

    Por quem eles oravam? A legenda dizia “pelo Brasil”. Mas, de fato, estavam orando pelo Sr. Presidente da República. Inclusive, um traço de sua personalidade ficou claríssimo nas últimas semanas: temos um Presidente que se comporta como uma criança mimada. Quando os holofotes não estão sobre ele – pudera os atletas, mas sobretudo AS atletas olímpicas brasileiras têm dado um show de alegria nos jogos de Tóquio –, faz birra. A criança mimada que despacha no Planalto do Planalto – bom, nem sempre porque prefere passeios de moto a se ocupar com o país que deveria governar – não suporta que MULHERES brilhem no maior espetáculo esportivo do planeta. E, por isso, birra! Como? Com o blá-blá-blá do voto auditável… Aff! O que as brasileiras e os brasileiros têm que aguentar! A propósito, um traço psíquico típico dos tiranos é ser mimado; só fica em paz quando seus caprichos são atendidos e o mundo gira em torno deles.

    Mas de volta à postagem: supondo que a foto seja verdadeira, os “milicianos de bem” estavam orando pelo Presidente mimado. Mas a quem estavam orando? Pela sua pobre retórica, pode-se imaginar que a Jesus Cristo – afinal de contas, ser “cidadão/ miliciano de bem” implica ser nominalmente cristão.

    Só nominalmente! O Jesus de Nazaré, manso e humilde de coração, não aprovaria que suas seguidoras e seus seguidores orassem em torno a palavras tão violentas e vulgares como “acabou p…”.

    A oração, como tantas mestras e mestres da espiritualidade cristã e das diversas religiões esclarecem, é um ouvir silencioso e atento da voz Daquele que ama o ser humano, que tem suas entranhas de misericórdia comovidas pelo pobre e pequeno (Lc 1,78). Portanto, a verdadeira oração jamais admite violência. O orante se esvazia de suas pretensões e seus desejos para ser preenchido pelo Espírito Daquele a quem quer ouvir. Orar é deixar que o Amor de Deus encha todo o ser e a existência do orante; logo, não há espaço para vulgaridades na oração.

    A verdadeira oração cristã - não a supostamente encenada na postagem do Deputado Federal - conduz o ser humano à contemplação do rosto de Deus e à ação em favor de seus prediletos, isto é, dos pobres. Ora et labora diria Bento de Núrsia, o pai do monaquismo do Ocidente cristão.

    Como já foi mencionado anteriormente, mesmo que a foto postada no Twitter tenha sido “photoshopada”, não é de se estranhar que “milicianos de bem” façam isso. Que saibam, contudo, que não estão orando ao Bom Pastor de Nazaré, mas estão orando a outro deus.

    Qual deus seria esse? Talvez os baals cananeus a quem se ofereciam sacrifícios humanos violentos. Mas também poderiam ser os deuses da fertilidade, cuja adoração se desenvolvia na prostituição sagrada. Prostitutas sacerdotisas recolhiam o sêmen dos fiéis e prometiam, com isso, a fertilidade da terra. Ao se ajoelharem em torno da palavra “p…”, os “milicianos de bem” mostram que também reverenciam o mesmo líquido sagrado de então.

    * Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.


  • REFLEXÃO

    Como partilhar na era do acúmulo?


    Uma reflexão à luz do Evangelho do XVII Domingo do Tempo Comum. (Imagem: Pixabay)

    A liturgia católica do último domingo está marcada por uma mudança: até o domingo retrasado líamos o Evangelho segundo Marcos, nos próximos domingos, leremos o Evangelho segundo João. Mais especificamente, o capítulo VI desse Evangelho.

    Em João, não nos encontramos com a narração da instituição da Eucaristia na última ceia de Jesus com seus discípulos. O grande texto eucarístico do Evangelho é o capítulo VI, introduzido pelo sinal dos pães seguido pelo longo discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum sobre o Pão da vida.

    Concentremo-nos no sinal dos pães, leitura da liturgia católica de domingo passado. Em primeiro lugar, não temos em João nem a palavra poder, força ou obra usadas para designar uma ação de Jesus, como tão pouco a tradução latina milagre. Sinal é algo que nos remete a uma realidade maior, superior. Qual é essa realidade no relato do evangelho de hoje? O Reino de Deus, onde não haverá fome por falta de pão e Ele enxugará as lágrimas de nossos olhos (Ap 21,4).

    Jesus ao tomar os pães de cevada, apresentados a ele por um meninos, deu graças (eucharistíes). A ação de graças (eucharistía) é pela partilha do Pão da vida, que é Jesus, e o pão da vida, com o qual nos alimentamos no dia a dia. Partilhar o Pão da altar se converte em uma exigência para partilhar do pão do dia a dia.

    Uma Igreja eucarística é aquela que, por partilhar o Pão do altar, sabe partilhar o pão do dia a dia. As comunidades são convidadas a partilhar, talvez o pouco que tenham, com aquelas e aqueles que nada têm. Uma Igreja eucarística, nesse sentido, se torna comunidade profética que denuncia o acúmulo egoísta em tempos neoliberais.

    Denunciar os abusos daqueles que seguem à risca a cartilha neoliberal, como o Sr. Ministro da Economia, não é coisa de “esquerdopata”, é tarefa cristã. Vivemos tempos, nos quais o acúmulo de riqueza por aqueles que muito têm é sumamente valorizado pelos que possuem o poder econômico e político. A propósito, não partilhar os bens públicos, como as empresas estatais que o Sr. Ministro tanto quer privatizar, é uma ação concreta de acúmulo de riqueza - os bens do povo passam para as mãos de poucos milionários.

    É uma vergonha que durante a pandemia de covid-19 os pouquíssimos milionários, quando não bilionários, brasileiros tenham ficado mais ricos, enquanto milhões são novamente empurrados para a fome e a miséria. Na tradição judaico-cristã, o que vivemos hoje tem nome: chama-se pecado. O acúmulo de riquezas, sim, é pecado! Não vivemos em um mundo eucarístico, vivemos em um mundo pecaminoso.

    Dois bilionários, um inglês e outro norte-americano, passearam pelo espaço nos últimos dias. Muitos aplaudiram a façanha… Façanha verdadeira acontecerá quando mulheres e homens, crianças e idosos tiverem pão, todos os dias, para seu sustento. Infelizmente, não vivemos em um mundo da partilha, vivemos em um mundo do acúmulo.

     

    * Pe. Matheus S. Bernardes é presbítero da diocese de Campinas e professore de Teologia na PUC-Campinas. 

  • DIRETO DE ROMA

    Papa Francisco arma defesa contra tradicionalistas - Versus Deum, versus populum (II)


    Papa Francisco segue cada vez mais consciente dos malefícios do tradicionalismo para a liturgia e a unidade da Igreja. (Imagem: Pixabay)

    Versus Deum, versus populum (II)

    Um breve comentário sobre o motu proprio Traditionis Custodes do Papa Francisco

    O problema que levou Bento XVI ao motu proprio Summorum Pontificum e Francisco ao motu proprio Traditionis Custodes é o mesmo: a Eclesiologia do Povo de Deus do Concílio Vaticano II.

    Das várias imagens bíblicas usadas na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja a que mais ressalta ao ler o documento é o Povo de Deus (LG II). A Igreja não é uma sociedade perfeita (societas perfecta), como no tempo pós-tridentino, mas um Povo peregrino neste mundo. Assim como Deus reuniu seu Povo ao sair do Egito (Ex 13,17-14,31), também reúne a Igreja em Jesus Cristo e pela força do Espírito Santo, a Igreja.

    Os membros da Igreja mais que se distinguir se igualam uns aos outros pelo Batismo que nos incorpora, a todas e a todos, em Cristo e em seu Corpo. Antes de sermos bispos, presbíteros, diáconos, religiosas e religiosos, somos cristãs e cristãos, batizadas e batizados, filhas e filhos de Deus, irmãs e irmãos em Cristo. A missão da Igreja, isto é, anunciar o Evangelho do Reino de Deus como mostrou Paulo VI na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, pertence igualmente a todas e a todos.

    A liturgia, portanto, deve ser expressão dessa igualdade fundamental das cristãs e cristãos; é celebração da fé do Povo de Deus, é comunhão com o Senhor em sua Palavra e nos Sacramentos, mas também nas irmãs e irmãos que ouvem atentamente essa Palavra e se reúnem em torno do altar. É de se entender, portanto, que a Eclesiologia do Povo de Deus tenha como consequência uma liturgia participativa, na qual toda a assembleia toma parte plena, consciente e ativamente (SC 14).

    Durante o Vaticano II, um pequeno grupo liderado pelo bispo francês Marcel Lefebvre se recusou a acolher essa visão de Igreja aberta a todas e todos e ao mundo e não aceitou as reformas, também na liturgia, propostas pelo Concílio e levadas a cabo por Paulo VI e João Paulo II. Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, cuja principal meta era conservar os ensinamentos pré-conciliares. Em 1988, foi excomungado por João Paulo II por ter sagrado quatro presbíteros de sua Fraternidade bispos sem o devido mandato pontifício, ou seja, sem validade canônica.

    No entanto, o próprio João Paulo II permitiu que sacerdotes da Fraternidade, assim como fiéis que os seguiam e pretendiam se manter em comunhão com Roma, pudessem ainda celebrar a Eucaristia seguindo o missal de Pio V (Missale Romanum). Anos depois, mais especificamente em 2007, Bento XVI, mediante o motu proprio Summorum Pontificum, insistiu que o tema recebesse a devida regulamentação jurídica. A intenção de ambos os Romanos Pontífices era clara: abrir espaço para diversos grupos dentro da comunhão eclesial; logo, essa concessão só deve se entender no empenho pela unidade da Igreja – o que infelizmente não aconteceu.

    Francisco, passados 13 anos dessa promulgação, realizou uma ampla consulta aos bispos para verificar a fecundidade ou não da prática. E no dia 16 passado, com o motu proprio Traditionis Custodes, acabou por limitá-la drasticamente por razão de abusos cometidos na celebração eucarística. Alguns pontos de especial relevância:

    - os livros litúrgicos promulgados por Paulo VI e João Paulo II são a única expressão da lex orandi (norma de oração) da Igreja Católica de rito latino;

    - corresponde ao bispo diocesano – e só a ele – autorizar ou não o uso do missal de Pio V;

    - o bispo diocesano deve determinar um ou vários lugares para a celebração eucarística seguindo o missal de Pio V, porém que não seja a igreja paroquial; tampouco deve constituir novas paróquias pessoais para os grupos que se sintam vinculados a esse modo de celebrar a Eucaristia; nomear um sacerdote que possa acompanhar esses grupos e que, portanto, saiba latim; também deve se ocupar de que novos grupos como esses não sejam criados em sua diocese;

    - as leituras devem acontecer em idioma vernáculo durante a celebração.

    Trata-se de um documento de extrema importância para a vida da Igreja nos dias de hoje, quando muitas e muitos assistimos os excessos cometidos especialmente por sacerdotes e grupos ultraconservadores. Para que um sacerdote ou um grupo possam fazer uso do missal de Pio V, devem solicitar a autorização ao bispo diocesano.

    Contudo, o que mais queremos ressaltar nesta reflexão é o que Francisco escreveu na carta destinada a todos os bispos que acompanha seu motu proprio: aquilo que Bento XVI alertou para não acontecer no artigo 1º de Summorum Pontificum, infelizmente se deu. Não são poucos os casos de grupos tradicionalistas afirmarem que são portadores da “verdadeira Igreja”, enquanto aquelas e aqueles que seguem o Romano Pontífice, os bispos e conferências episcopais e, sobretudo, o Vaticano II não a representam.

    O que num princípio era uma possibilidade para a comunhão eclesial se tornou uma pedra de tropeço. Infelizmente, a lex credendi (norma da fé) na imaginação de muitos membros desses grupos tradicionalistas não foi preservada em sua integridade. Os usos e os abusos de véus e correntes, assim como os excessivos gestos litúrgicos e a dureza e frieza da doutrina, especialmente no que se refere à moral sexual, por parte desses grupos acabaram por causar divisão no Corpo de Cristo e afastamento de muitas irmãs e muitos irmãos que se aproximavam com coração sincero da Igreja.

    Francisco se mostra mais uma vez um homem de coragem e assume sua missão de conservar a unidade e a comunhão eclesial. Não o faz, porém, desde a dureza das normas, mas desde a misericórdia, que tanto tem caracterizado seu pontificado. As mudanças que ele introduz no motu proprio devem acontecer com cuidado pastoral e diálogo; elas não são impostas aos grupos tradicionalistas como pena, pelo contrário são um convite à conversão ao qual nenhuma cristã e nenhum cristão pode se esquivar.

    Somos Povo em marcha. Ora, por nossa comunhão com Jesus Cristo, somos reflexo de sua Igreja; ora, por nosso pecado sobretudo quando viramos as costas aos pobres e aos oprimidos do mundo, somos pedra de tropeço e escândalo. O Povo em marcha não se alegra por ser verdadeiro ou falso, mas porque sabe que tem o Senhor a seu lado.

    A liturgia é expressão da fé desse Povo peregrino que, entre os embates do dia a dia, se esforça para viver a justiça do Reino até que ele chegue em sua plenitude.

    Padre Matheus da Silva Bernardes é  presbítero da Arquidiocese de Campinas. Vigário paroquial da Paróquia Santo Cura D’Ars, em Campinas, e professor de Faculdade de Teologia da PUC-Campinas.

  • POLÊMICA NO VATICANO

    Papa Francisco arma defesa contra tradicionalistas - Versus Deum, versus populum (I)


    Vaticano: papa Francisco decide evitar divisões na Igreja Católica, fomentada pelo uso de liturgias de séculos passados. (Imagem: Pixabay)

    Versus Deum, versus populum (I)

    Um breve comentário sobre o motu proprio Traditionis Custodes do Papa Francisco

    Normalmente, usamos este espaço para fazer alguns comentários, a partir da Teologia, sobre a situação sociopolítica do país. Contudo, estando o mandatário principal da República internado e se esforçando para fazer o “número 02” por vias corretas e não pela boca, como normalmente o faz, vamos nos dedicar a temas “mais igrejeiros”.

    Na manhã do dia 16 passado, Francisco nos surpreendeu mais uma vez: publicou a carta apostólica em forma de motu proprio Traditionis Custodes. Traduzindo, trata-se de um documento que tem o peso de lei e que deve ser acolhido como tal por todas as católicas e todos os católicos. Qual é o tema desse motu proprio? A limitação do estabelecido em outro motu proprio, publicado pelo seu antecessor Bento XVI, em 2007. Mas do que trata tanto motu proprio? Da autorização concedida por Bento XVI, agora limitada por Francisco, para que a celebração da Eucaristia pudesse ser realizada de acordo com o missal publicado Pio V, em 1570, e reeditado por João XXIII, em 1962.

    Um pouco de história não faz mal para ninguém! No século XVI, a Igreja Católica foi profundamente desafiada pela Reforma Protestante, levada adiante especialmente por Martinho Lutero, João Calvino e Henrique VIII. Sem entrar em maiores detalhes teológicos e políticos da época, a resposta católica à Reforma veio com o Concílio de Trento, realizado entre os anos (1545-1563), e com o movimento que dele nasceu. Uma característica muito marcante do movimento pós-tridentino foi a afirmação do era “legitimamente” católico para contrapor o que estava acontecendo nas igrejas reformadas. É desse tempo, por exemplo, a constituição dos seminários e a centralização do ensino da Teologia (scientia sacra) nessas instituições. Por outro lado, também era preciso dar destaque à ação mais visível da Igreja: a liturgia.

    Não é do período, porém, a centralidade da liturgia na vida da Igreja: é muito antiga, do tempo do Novo Testamento e dos Padres da Igreja. Mas segundo a compreensão antiga, a liturgia jamais poderia ser celebrada distante da comunidade e de suas necessidades básicas. A liturgia não era simplesmente a performance de um ministro ordenado, mas era verdadeira oração da Povo de Deus reunido em Jesus Cristo pela ação do Espírito. As cristãs e os cristãos eram abraçados pela celebração litúrgica e, a partir dela, podiam sair pelas ruas e praças para dar testemunho da Boa-nova do Reino. De fato, foi isso que aconteceu com as e os incontáveis mártires dos primeiros séculos cristãos.

    Não obstante, com o passar dos séculos – e aqui é preciso fazer uma referência histórica precisa, a conversão do Império Romano à força da espada de Constantino ao Cristianismo –, a liturgia se torna cada vez mais uma performance sacra que oração do Povo ou ação do Povo, como indica sua etimologia (as palavras gregas laós, povo, e ergón, obra ou ação, resultam na palavra leitourgía, liturgia). A performance litúrgica ou até o espetáculo litúrgico se distancia ainda mais do Povo de Deus na Idade Média com a vida dos mosteiros e das grandes catedrais.

    Entendemos, portanto, que o movimento pós-tridentino tenha querido remarcar ainda mais essa liturgia performática ou espetacular. O ministro ordenado ou, como muitos ainda insistem em dizer, o ministro sagrado reza a missa versus Deum olhando para a eternidade simbolizada no altar; reza em latim, considerado não só idioma eclesiástico, mas idioma sagrado; e revestido com vestes litúrgicas e sagradas. O que infelizmente aconteceu com a liturgia pós-tridentina foi, de fato, a separação visível e total entre o celeste e o terrestre, entre o sagrado e o profano, entre o clero e o povo. O clero, representante da única Igreja de Cristo, estava de costas para o povo que vivia entre as mazelas e perrengues do mundo.

    Foram mais de quatro séculos para redescobrir a riqueza da liturgia, como celebração do Povo de Deus reunido em Jesus Cristo pela ação do Espírito, como celebração do mistério pascal de Cristo presente em sua comunidade. O Concílio Vaticano II, precedido por diversos movimentos – vale a pena destacar especialmente o movimento litúrgico das abadias beneditinas e o movimento patrístico das faculdades de Teologia alemãs, flamencas e francesas – declara mediante a Constituição Conciliar Sacrossantum Concilium a reforma da liturgia.

    No número quatorze da constituição lemos: “É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão, ‘raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido’.” (1Pd 2,9; 2,4-5).

    Talvez seja a formulação “participação plena, consciente e ativa” a que tenha conduzido o maior número de mudanças na celebração litúrgica: já não se reza mais versus Deum, mas versus populum (de frente para o povo); a distância entre o ministro ordenado e o povo deve ser diminuída – de fato, a reforma litúrgica exigiu adaptações no espaço litúrgico que já não mais remarcar a separação do sagrado e do profano, mas a presença do mistério pascal de Jesus Cristo em sua Igreja; a Palavra ocupa lugar central durante a celebração litúrgica, afinal de contas sem ela, que proclama o que está sendo celebrado, os Sacramentos podem ser confundidos com rituais mágicos; o idioma da celebração é o idioma que se fala no lugar (conhecido como vernáculo). Mas o mais importante: a liturgia é celebração do Povo de Deus; não é âmbito para intimismos e individualismos, é o lugar próprio de encontro com o Senhor Ressuscitado em sua comunidade orante, comunidade que rende graças (do grego, eucharistein) por sua presença entre nós.

    Tudo muito bonito até aqui, mas é precisamente aqui que está o problema que levou Bento XVI ao motu proprio Summorum Pontificum de 2007 e Francisco ao motu proprio Traditionis Custodes do último dia 16. Mas isso será tema para nossa próxima reflexão.

    * Padre Matheus da Silva Bernardes é  presbítero da Arquidiocese de Campinas. Vigário paroquial da Paróquia Santo Cura D’Ars, em Campinas, e professor de Faculdade de Teologia da PUC-Campinas.

  • Religião, Arte e Literatura

    Martírio, justiça e libertação na Ave-Maria: a reverberação da teopoética de Pedro Casaldáliga

    Ana Beatriz Dias Pinto; Luciana Soares Rosas
    Artigo originalmente apresentado no 33° Congresso Internacional da Soter (Imagem: Divulgação)


    INTRODUÇÃO

    A Igreja existe há mais de dois mil anos e, ao longo de sua trajetória, utilizou-se de variados modos de comunicação nas diferentes sociedades onde esteve inserida. Na Europa do século XVII, especialmente com o nascimento dos primeiros jornais e gazetas, os meios de comunicação impressa católicos denotaram a importância de se comunicar com a sociedade de então, visando estabelecer uma relação dialogal também no campo teológico-pastoral – demasiadamente permeado pelo impacto da Reforma, do Iluminismo, do secularismo e de outras tantas expressões que impactaram o catolicismo desde o século XV.

    Exemplo disso é a primeira revista publicada, datada de 1663 e impressa na Alemanha: chamava-se Erbaulich Monaths-Unterredungen que, em tradução livre ao português, teria como título Edificantes Discussões Mensais. “Tinha cara e jeito de livro e só é considerada revista porque trazia vários artigos sobre um mesmo assunto – Teologia – e era voltada para um público específico. Além disso, propunha-se a sair periodicamente.” (SCALZO, 2008, p.19).

    E essa lógica de publicar materiais teológicos ganhou força a partir da conquista da América. No Novo Mundo, a finalidade de evangelização ganhou contornos acentuados do impacto colonizador, marcado pela cruz e, também, pela espada. Enquanto de um lado os missionários que acompanhavam os colonizadores além-mar buscavam transmitir a fé cristã à população nativa e aproveitavam para escrever cartas relatando à Europa as características das terras encontradas, a exploração das riquezas naturais e a eliminação da cultura existente no novo continente teve conivência de muitos teólogos, sendo marcada pela violência, pelo desrespeito, pelo martírio, pela injustiça e pela opressão – uma teologia muito distante do Evangelho (BRIGHENTI, 2006, p.10-14).

    No Brasil Colonial, a influência da colonização portuguesa e jesuíta não foi indiferente a esta realidade. Isso se estendeu para além do período da Proclamação da República, em 1889, com a expulsão da Família Real Portuguesa. Contudo, a República Velha trouxe uma nova realidade à Igreja brasileira: com o fim do regime de padroado, a Igreja necessitava de novas soluções para mudar sua postura e combater o protestantismo, a introdução do espiritismo e a força na maçonaria no recém-constituído Estado laico. Para tanto, na então capital do país (a cidade do Rio de Janeiro), investiu-se na circulação do periódico O Apóstolo, famoso por buscar manter a hegemonia do catolicismo em território nacional. Outra ação do clero para não perder espaço no vasto território brasileiro foi importar mão-de-obra de congregações religiosas provenientes da Europa (BEOZO, 1992, p. 201). Uma delas foi a Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria, os Missionários Claretianos, enviados da Espanha em 1895 e, que inicialmente, fixaram-se na cidade de São Paulo (CLARET, 2015).

    No contexto missionário, os claretianos tinham como objetivo suprir as deficiências de uma prática missionária que contribuiu com o declínio do catolicismo no país e trabalhar ostensivamente pela construção institucional de um catolicismo brasileiro, não mais lusitano-romano. Ademais, os claretianos também se destacaram na realização de uma terceira tarefa de grande importância: a expansão da imprensa católica de matriz popular.[1] Esta conjuntura foi denominada período da Boa Imprensa, conforme aponta o historiador Gonçalves (2009). Para tanto, os claretianos assumiram em 1899 a direção da primeira revista católica mariana do país, a Ave-Maria.

    Lançada em 28 de maio de 1898 na cidade de São Paulo, a publicação foi inicialmente idealizada pelos leigos Maria Cândida Junker Alvares e Tiburtino Mondim (GONÇALVES, 2009, p.113). Além dos dois, a crônica dos missionários claretianos acrescenta, ainda, o nome de Manuel Recco como sendo um terceiro idealizador do periódico (CLARET, 2015). Desde seu lançamento, a Ave-Maria apresentou uma linha editorial fundamentada na defesa da Igreja por meio de um viés teológico inclinado à formação da sociedade brasileira acerca de temas católicos, acentuada devoção mariana e forte combate às apostasias e heresias. E isso se manteve em sua linha editorial por mais se seis décadas.

    Tal propositura só foi repensada a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), que levou os clérigos latino-americanos a questionarem o impacto da colonização europeia ao trazer consigo uma eclesiologia distante do Evangelho. Quando em 1971 Gustavo Gutierrez publica a obra Teología de la liberación: perspectivas, e passa a questionar o papel da Igreja e da Teologia na América Latina, sua proposta por uma teologia mais racional, de “reflexão crítica sobre a práxis” (GUTIERREZ, 1975) ganha diversos adeptos no Brasil.

    E, por se tratar de um veículo jornalístico de comunicação contextualizado com a realidade da Igreja, a Ave-Maria passa então a ser protagonista de discussões significativas sobre o que se apontou como “uma exigência de ação pastoral, de compromisso, de serviço aos demais” (GUTIERREZ, 1975, p.30), algo que também havia sido proposto pela constituição pastoral Gaudium et Spes (GS) ao final do concílio:

    É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente. Como a Igreja tem uma estrutura social visível, sinal da sua unidade em Cristo, pode também ser enriquecida, e de facto o é, com a evolução da vida social. (GS, 44)

    E é justamente nesse contexto de mudanças e reflexão sobre a vida da Igreja e do modo de se fazer teologia que chega ao Brasil, em 1968, o missionário espanhol claretiano Pedro Casaldáliga (1928-2020). Falecido aos 92 anos, foi um protagonista da Teologia da Libertação no país, deixando importante legado para a práxis teológica: encontrou nas terras da prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, inspiração para exibir e denunciar – especialmente por meio da poesia – a urgência de uma teologia libertadora, em defesa do povo oprimido.

    Desse modo, as poesias de Casaldáliga servirão de base para a pergunta que pretendemos trilhar neste trabalho: ao publicar suas poesias na revista Ave-Maria, o uso da linguagem artístico-poética teria permitido abordar a realidade latino-americana e de uma Igreja pós-conciliar repleta de contrastes, por meio de uma estética piedosa, mas ao mesmo tempo profética e denunciativa? Para tanto pretendemos retratar a importância da teopoética enquanto lugar teológico, demonstrando que ela pode se apresentar como instrumento não somente artístico, mas também registro histórico, jornalístico e teológico. Desse modo, nos propomos a analisar e categorizar os elementos-chave que se apresentam em três poesias de Pedro Casaldáliga, publicadas na revista Ave-Maria, nos anos 1990 – período em que se dizia que a Teologia da Libertação tinha chegado ao seu fim.

     

    1. FAGULHAS DO VATICANO II E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NOS ANOS 90

    O pós-vaticano II foi um período em que a Igreja se tornou mais consciente do impacto dos meios de comunicação de massa na vida em sociedade. Exemplo disso foi o lançamento do decreto Inter Mirifica (1963) e da instrução pastoral Communio et Progressio (1971), que reconhecem o uso da imprensa como caminho importante e necessário para uma evangelização eficaz e tratam da importância da formação de profissionais para atuar nesse campo – especialmente no universo do catolicismo.

    A partir dessas fagulhas do Concílio, muitas das edições da revista Ave-Maria contaram com a assinatura de importantes teólogos expoentes do catolicismo nacional e, de modo particular, muitos se propunham a refletir sobre o tema da Teologia da Libertação. Assim, se tornou uma revista importante no cenário nacional, especialmente entre as décadas de 1970 e 1990 – e suas páginas têm sido objeto de estudo para muitos pesquisadores das áreas de comunicação, como Gonçalves (2008), Gordo (2016; 2021), Tortelli (2016), Zeferino, Fernandes & Pinto (2020). Ademais, é uma revista que possui em seu acervo conteúdos extremamente significativos, que nos permitem refletir sobre trajetória da Igreja no Brasil a partir do século XIX, pois conta com mais de 2 mil edições publicadas que, em diferentes períodos, foram distribuídas semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente – de norte a sul do país, a milhares de brasileiros.

    Para Pedro Casaldáliga, as páginas de Ave-Maria foram um instrumento midiático e pastoral importante. Ele as utilizou para fazer comunicar, por meio da arte e da espiritualidade, a causa da Libertação. Seus textos foram dispersos em jornais católicos como o Alvorada (da Prelazia de São Féliz do Araguaia), panfletos, murais e diversos meios de comunicação. E suas poesias, de maneira particular, representam uma conjugação estética que transpõem aquilo que buscou em vida: a coerência entre a teologia e a vida, entre o Reino vivido e pregado.

    A poesia de Casaldáliga é notadamente engajada, o que pode ser percebido, de entrada, pelos títulos das obras [...] O engajamento se articula como o sentimento de religiosidade e da religião propriamente dita, do sacerdócio. Não é religião restritiva, castradora, que visa o além-túmulo, a salvação extraterrena, mas aquela promotora da libertação do espírito humano no agora em que vive, pelo viés da educação para a consciência emancipada e justa, coerente em atos e discursos, para a esperança. A sua convicção religiosa fortalece a esperança e a impulsiona para a resistência na defesa dos direitos humanos. O poeta apresenta um compromisso simultâneo com a crença, com a história, com as culturas, com a arte. (SOUZA & REIS, 2014, p. 16). 

    A partir desse protagonismo, passaremos a percorrer 3 (três) poesias produzidas por Casaldáliga e publicadas na revista na década de 1990, perfazendo por meio da análise fenomenológica de conteúdo, a categorização dos principais elementos-chave que nelas se apresentam: martírio, justiça e libertação.

     

    2. MARTÍRIO, JUSTIÇA E LIBERTAÇÃO EM POESIA

    Para responder às perguntas propostas por esta pesquisa, desenvolvemos análise fenomenológica quantitativa e qualitativa via pesquisa bibliográfica. Realizou-se a coleta de todas as 120 edições mensais de revistas Ave-Maria publicadas na década de 1990 e, a partir daí, identificaram-se os diversos estilos de textos produzidos por Casaldáliga no veículo: artigos, orações, manifestos, notícias e poesias. Houve também situações em que ele próprio foi objeto de entrevistas ou reportagens. Nesse retalho da década de 1990 foram identificadas 68 poesias de Casaldáliga publicadas, (há algumas repetidas, que não foram enumeradas). A partir daí, realizamos a leitura e a análise comparada de elementos comuns aos textos. Verificou-se que em 49 poesias (72%), destacam-se os eixos: justiça, martírio e libertação (de forma concomitante, ou não).

    Destas, foram recolhidas as 03 primeiras poesias que apresentam, simultaneamente, os três eixos temáticos que se apresentaram como pontos centrais da teopoética de Pedro Casaldáliga: São Romero da América, Pastor e Mártir (1990), O Reino e o Anti-Reino (1990) – sem título na publicação, mas publicada com ele na internet[2]e América Latina (1992). A seguir, apresentamos a análise fenomenológica das mesmas:



    Ana Beatriz Dias Pinto Dom Pedro Casaldáliga

    Na poesia São Romero da América, Pastor e Mártir (AVE-MARIA, março de 1990), encontramos como aceno de martírio a expressão: “[...] E o Verbo se fez morte, outra vez, em tua morte, como se faz morte, cada dia, na carne desnuda de teu Corpo.” Ademais, Casaldáliga ainda profetiza sobre a santidade de Romero: “São Romero da América, pastor e mártir nosso! Romero de uma Paz, quase impossível, nesta Terra em guerra.  [...] Romero desta Páscoa latino-americana”. Já no eixo justiça, o teopoeta expressa a dor das injustiças da Igreja que permitiu a morte de Romero: “Pobre pastor glorioso, abandonado por teus próprios irmãos de báculo e de Mesa…! (As cúrias não podiam entender-te: nenhuma sinagoga bem montada pode entender a Cristo)” e usa as palavras para também profetizar: “São Romero da América, pastor e mártir nosso: ninguém há de calar tua última Homilia!”. Por fim, no eixo libertação,a obra expressa: “Tu ofertavas o Pão, o Corpo Vivo - o triturado Corpo de teu Povo; seu derramado Sangue vitorioso - o Sangue 'campesino' de teu Povo em massacre, que há de tingir em vinhos de alegria a Aurora conjurada!”, lamentando profundamente a morte do companheiro de libertação assassinado em 1980 em San Salvador.

    Na segunda poesia analisada, O Reino e o Anti-Reino (AVE-MARIA, novembro de 1990), Casaldáliga fala de martírio ao sentenciar: “Os ídolos da morte vem massacrando teus anônimos filhos sem defesa...”, expondo a realidade do latifúndio frente às mortes de indígenas e pobres no Mato Grosso, além de ressaltar a urgência de justiça, fazendo de sua poesia também uma súplica: “Ajuda-nos a abrir as portas do santuário igual que uma consciência ao sol, ao mundo, ao curso do Araguaia”, clamando por uma Igreja que defenda o oprimido. Já no quesito do eixo da libertação, a poesia expressa: “Sob as telhas antigas da missão rompe a luz da Verdade no estandarte da Páscoa e os passos de Francisco, do Povo e dos romeiros se acrescentam ao Passo”, demonstrando a Páscoa como passagem da escravidão para uma nova vida e acrescentando: “sem medos, na esperança; sem deuses, Deus-conosco; na graça e na conquista do teu reino!”, de modo a demonstrar  a importância de uma fé vivida em comunidade, que seja prática e sinal de esperança para o povo que em vida não percebe a presença de Deus diante de tanta opressão.

    Por fim, na terceira poesia analisada, América Latina (AVE-MARIA, agosto de 1992), Casaldáliga usa o eixo temático do martírio comparando a morte de Cristo ao de mais um oprimido nas terras do Araguaia, onde o dia de Sexta-Feira Santa parece se perpetuar: “Hoje ainda é Sexta-feira Santa. Todos somos testemunhas, entre dados e lanças, enquanto a mãe chora sobre o filho caído.” Ao denunciar a realidade vislumbrada, o bispo do Araguaia não cansa de clamar por justiça: “E há que se pôr ternura nas quenas despertar e quebrar os aromas solidários e desafiar o medo do sepulcro desarmando os guardas”, indicando por meio da palavra quena, flauta utilizada pelos indígenas, que o assinado desta vez foi um nativo local. E ao retratar a temática da libertação, Casaldáliga expressa: “Amanhã será Páscoa - porque Ele já é amanhã para sempre. Revestida de chagas e surpresas, virá pelo jardim a Liberdade, irmãos”, demonstrando por meio da esperança cristã e de sua festa maior, a Páscoa, um sentido para a morte de mais um latino-americano.

     

    CONCLUSÃO

    De maneira geral, a teopoética de Pedro Casaldáliga se apresenta como registro histórico e crítico dos conflitos existentes entre religião e poder, justiça e opressão, fartura e fome, num Brasil e/ou numa América Latina repletos de contrastes – bem como uma Igreja formada por pessoas que esperam por justiça enquanto outras não dão o verdadeiro testemunho do Reino.

    A poesia de Dom Pedro Casaldáliga apresenta a figura de um poeta que também é teólogo e ativista. Ele encontrou nas terras da prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, inspiração para exibir e denunciar – especialmente em por meio de seus versos – a urgência da defesa dos direitos humanos. De maneira franca e combativa, dissecou a gravidade da miséria e da opressão vivenciadas pelas minorias marginalizadas para muito além do eixo das grandes metrópoles, demonstrando a importância de uma eclesiologia voltada ao pobre.

    Assim, as páginas de Ave-Maria foram um criativo instrumento midiático e pastoral utilizado por Casaldáliga para fazer comunicar, por meio da arte e da espiritualidade, a causa da Libertação. Quando distribuídas na imprensa, suas poesias puderam chegar à população de todo o país, o que demonstra que mesmo nos idos dos anos 1990, a causa da Libertação pulsava nas veias da América Latina e do poeta Casaldáliga, que ousou se opor aos conflitos de terra sem deixar de lado a crítica, a ironia e a conjugação estética que transpõem tudo aquilo que buscou em vida: a reverberação do Evangelho vivido.

     

    REFERÊNCIAS

    AVE-MARIA, Revista. Acervo digital. Disponível em: <https://revistaavemaria.com.br/acervo>. Acesso em: 21 jun 2021.

    BEOZZO, José Oscar. A Igreja frente aos Estados liberais 1880-1930. In: DUSSEL, Enrique. (Org.). Historia Liberationis. 500 anos de História da Igreja na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1992.

    BRIGHENTI, Agenor. A missão evangelizadora no contexto atual. São Paulo: Paulinas, 2006.

    CLARET, Portal. 19.11.1895 – Há 120 anos os Missionários Claretianos chegavam no Brasil. Disponível em: <http://claret.org.br/noticias/76370/19111895-ha-120-anos-os-missionarios-claretianos-chegavam-no-brasil/>. Acesso em: 20 jun 2021.

    CONSTITUIÇÃO PASTORAL GAUTIUM ET SPES. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1965.  Disponível em: <https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican _council/documents/vatii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html>. Acesso em: 20 jun 2021.

    DECRETO INTER MIRIFICA SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1965.  Disponível em: <https://www.vatican.va/ archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19631204_inter-mirifica_po.html>. Acesso em: 20 jun 2021.

    GOMES, Adriana. O processo de secularização do Brasil no limiar da República e a criminalização do espiritismo. Revista dos Alunos do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião – UFJF, 2003. Disponível em: < https%3A%2F%2Fwww.ufjf.br%2Fsacrilegens%2Ffiles%2F2014%2F01%2F10-1-7.pdf&clen=92338 >. Acesso em: 20 jun 2021.

    GONÇALVES, Marcos. Missionários da boa imprensa: a revista Ave Maria e os desafios da imprensa católica nos primeiros anos do século XX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 28, n. 55, p. 63-84, 2008.

    GORDO, Luís Erlin Gomes.  Ex-votos midiáticos e a reconstrução da identidade da Revista Ave Maria – A supressão dos ex-votos no início da década de 1970. Dissertação (mestrado). Universidade Metodista de São Paulo, 2014. Disponível em: <http://tede.metodista.br/jspui/bitstream/tede/704/1/Luis.pdf>. Acesso em: 21 jun. 2021.

    GORDO, Luís Erlin Gomes.  Ex-votos midiáticos e a Revista Ave Maria: a Supressão dos ex-votos no início da década de 1970. Revista Internacional de Folkcomunicação. UEPG. Vol. 14, n. 32, p.133-148, maio/agosto 2016.

    GUTIÉRREZ, Gustavo. Teología de la liberación: perspectivas. 7.ed. Salamanca: Sígueme, 1972.

    INSTRUÇÃO PASTORAL COMMUNIO ET PROGRESSIO SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Documento sob instrução do Concílio Ecumênico Vaticano II, 1971.  Disponível em: <https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/pccs/documents/ rc_pc_pccs_doc_23051971_communio_po.html>. Acesso em: 20 jun 2021.

    O REINO E O ANTI-REINO. Literatura Mato-grossense. Disponível em: <http://www2.unemat.br/literaturamt/Vers-nomes/PREDO-C.htm>. Acesso em 20 jun 2021.

    SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. 3.ed. São Paulo: Contexto, 2008.

    SOUZA, Marinete Luzia Francisca de; REIS, Célia Maria Domingues da Rocha. Pedro Casaldáliga e a poética da emancipação. Cuiabá, MT: EdUFMT, 2014.

    TORTELLI, Ana Beatriz Dias Pinto. A família na imprensa: uma análise fenomenológica a partir das visitas pastorais dos papas ao Brasil. Dissertação (mestrado). Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2016. Disponível em: <https://archivum.grupomarista.org.br/pergamum web/vinculos/00005c/00005c1f.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2021.

    ZEFERINO, Jefferson; FERNANDES, Marcio Luís; PINTO, Ana Beatriz Dias. Poesia, imagem e teoria: ressonâncias escatológicas a partir de Casaldáliga, Cerezo e Westhelle. Revista Estudos de Religião (Metodista), v. 34, p. 231-258, 2020. Disponível em: <https://www.metodista.br/ revistas/revistas-ims/index.php/ER/article/view/10853>. Acesso em: 17 jan. 2021.

     

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    [1] O termo “popular” do modo como é referido nesta parte do trabalho não constitui uma contradição irredutível em relação à utilização de outras terminologias tais como “instrumento de comunicação de massa”. A imprensa católica “popular”, sobretudo a imprensa mariana, é aqui vista enquanto integrada a uma comunidade por meio de um largo alcance público que maximiza a sua difusão tanto no meio rural quanto no urbano; ao mesmo tempo em que também pode ser vista como um instrumento de comunicação de massas, enquanto configuração conceitual própria aos elementos que formam a tipologia da imprensa mariana.

    [2] O REINO E O ANTI-REINO. Literatura Mato-grossense. Disponível em: <http://www2.unemat.br/literaturamt/Vers-nomes/PREDO-C.htm>. Acesso em 20 jun 2021.



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    SOBRE AS AUTORAS:

    * Ana Beatriz Dias Pinto é doutoranda em Teologia (PUCPR). Docente na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), no mosteiro da Faculdade São Basílio Magno (FASBAM) e no Studium Theologicum Claretiano (afiliado à Pontificia Università Lateranense di Roma).

    ** Luciana Soares Rosas é Bacharel em Ciências Econômicas (UFPR); Graduanda em Teologia e em Psicologia (PUCPR). 

     

  • SOCIEDADE DE TEOLOGIA

    NOTA da Diretoria da SOTER por ocasião do Encerramento do 33º Congresso Internacional


    Teólogos e Cientistas da Religião estiveram reunidos em evento da SOTER nesta semana. (Imagem: Divulgação SOTER)

    NOTA da Diretoria da SOTER por ocasião do Encerramento do 33º Congresso Internacional da SOTER, ocorrido entre os dias 12 e 16 de julho de 2021

    O 33o Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER ocorreu de forma remota entre os dias 12 e 16 de julho de 2021, contando com mais de 700 inscritos, tendo como tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”.

    Ao fim do Congresso, manifestamos a nossa preocupação e o nosso repúdio em relação à deterioração da democracia no Brasil, que se traduz não só no ataque contínuo às Instituições Democráticas e ao Estado de Direito, mas também no aumento da repressão e da violência policial, no aprofundamento da desigualdade social e da fome, na destruição ambiental, na agressão aos povos indígenas, seus direitos e vidas, nos atos sistemáticos de racismo que revelam a condição do racismo estrutural presente em nossa sociedade, na afirmação do sexismo e no crescimento do feminicídio.

    O negacionismo foi e é responsável por grande parte do número de mortos pela atual pandemia da COVID-19, que já ceifou mais de 530 mil vidas no Brasil. Este mesmo negacionismo agravou a crise econômica, levando a um enorme contingente de pessoas desempregadas e ao aumento da fome e da miséria.

    Neste contexto, as Religiões, sobretudo certas expressões do Cristianismo, nem sempre têm tido um papel profético, crítico e libertador. Ao contrário, alguns grupos têm instrumentalizado a Religião, negado o caráter laico do Estado e promovido, ou reforçado, a deterioração de nossa democracia em nome de Deus, inclusive afirmando e praticando a intolerância religiosa.

    Urge reafirmar que as Religiões devem estar a serviço da vida e não da morte.

    O Cristianismo possui uma longa trajetória e, em nosso país, foi fundamental, juntamente com outras Tradições Religiosas, na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do Estado e da Sociedade.

    Conclamamos hoje todas as lideranças religiosas a se colocarem na defesa incondicional da plena democracia, dos direitos humanos e da justiça social.

    16 de julho de 2021.

     

    Diretoria da SOTER

    Cesar Augusto Kuzma – Presidente

    Maria Clara Lucchetti Bingemer – Vice-Presidente

    Paulo Fernando Carneiro de Andrade – 1º Secretário

    Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães – 2º Secretario

    Andreia Cristina Serrato – Tesoureira