Cultura e diversidade religiosa na atualidade

  • TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

    A prática da fé pode ser mensurada?

    A teologia é chamada a cumprir com o imperativo evangélico da “opção preferencial pelos pobres”, numa atitude de vivência ao lado do povo. (Imagem: Pixabay)

    A prática da fé pode ser mensurada? A teologia como reflexão crítica da práxis histórica à luz da Palavra poderia substituir as demais funções da teologia como sabedoria e saber racional, uma vez que as supõe e necessita? Teria a relação fé-ciência um contexto presente na relação fé-sociedade e no da consequente ação libertadora da teologia, que Clodovis Boff enumera neste capítulo? A Teologia da Libertação é uma alternativa de prática da fé ainda pertinente para os dias de hoje?

    A obra Teoria do Método Teológico, de Clodovis Boff expressa algumas opiniões sobre essas temáticas. De acordo com o autor, a Palavra é o princípio iluminador dominante da teologia, devendo a sua prática ser iluminada pela Fé. Contudo, a prática, como por um “retorno dialético”, pode também iluminar a fé e contribuir, com seu potencial epistemológico próprio, para o conhecimento teológico. Assim, a Revelação se constitui não só de palavras, mas também e, sobretudo, de eventos. Por isso a teologia, que tem na Revelação seu princípio determinante, encontra a fonte de seu conhecimento não só nas palavras da fé mas também, e enquanto iluminada por elas, na prática da fé, que atualiza e encarna a Palavra no hoje.

    Ainda segundo Clodovis, o longo da caminhada na fé, a vida das pessoas e comunidades apresenta aspectos do mistério de Deus a que o teólogo não deve de modo algum ficar desatento. A liturgia e a vida dos santos são exemplo disso, pois possuem uma luz particular que a teologia deve acolher com todo cuidado. O mesmo ocorre com a História da humanidade.

    Seus desafios à fé muito ensinaram à Igreja sobre a verdade divina, enquanto provocaram sua atenção para verdades escondidas ou esquecidas e enquanto levaram à retificação e também ao aprofundamento de tantas outras. O primado da prática se justifica apenas na ordem da prática da fé (caridade), não na da teologia da fé (teologia). Nesta última, o primado compete à Palavra de Deus (a menos que se entenda a Palavra de Deus como a Prática divina da Salvação, cuja narrativa se encontra nas Escrituras).

    O encontro entre Fé e Prática ou, entre Evangelho e Vida deve, para o teólogo, se dar primeiro na vida real e depois na teoria teológica. Isso implica, como condição necessária, embora insuficiente, que o teólogo tenha uma vinculação real com a vida concreta da comunidade eclesial e não apenas uma vinculação teórica ou moral. Tal vinculação pode se dar em três níveis: causa, caminhada e condições de vida (os três “c” s).

    E aqui o autor explica que a teologia é chamada a cumprir com o imperativo evangélico da “opção preferencial pelos pobres”, numa atitude de vivência ao lado do povo; para que o teólogo trilhe uma teologia efetivamente libertadora, ele deve participar de algum modo da vida dos pobres e pôr-se à sua escuta.

    Como fundamento central dessa tese, Boff afirma que a prática ilumina a fé quando é prática de fé. Ilumina enquanto iluminada, como por um retorno dialético. A luz própria da prática para a teologia consiste nisto: que ela, por um lado, provoca o conhecimento teológico e, por outro, o verifica. Em outras palavras, interroga e reconhece a verdade teológica. Assim, o método teológico põe em confronto fé-vida, mostrando que não tem apenas uma estrutura dedutiva e nem apenas indutiva, mas sim dialética.

     

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. 

     

    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
    BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2015. p.157-195.

     

  • TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

    A palavra da fé é determinada pela experiência da fé

    Só um teólogo que banhe na experiência do Espírito vivificador e que saia daí gotejando poderá produzir uma teologia viva e vivificadora. (Imagem: Pixabay)

    Em seu livro "Teoria do Método Teológico", Clodovis Boff narra que o princípio formal objetivo da teologia é a Revelação ou a Palavra de Deus. Fazer teologia é buscar enxergar a vida “à luz da Palavra”. Assim, o princípio formador subjetivo da teologia seria a fé-palavra, ou seja, fazer Teologia seria refletir Deus e tudo “à luz da fé”.

    Assim sendo, a Revelação divina consiste em palavras e, mais ainda, em fatos. Mas, para efeito da teoria teológica, ela seria princípio determinante enquanto interpretação profética dos fatos salutares, isto é, enquanto narrativa significativa. O princípio determinante da teoria teológica (não da prática da vida) não pode ser nem a experiência nem a prática, mas a Palavra de Deus e a da fé da Comunidade em seguida.

    Isto, porque a experiência e a prática precisam ambas ser avaliadas à luz da Palavra revelada e por ela animadas. Portanto, a Teologia é “intellectus amoris”, mas apenas de modo derivado e segundo, pois o amor também precisa ser iluminado e dirigido finalmente pelo “intellectus fidei”, derivado ele mesmo da Palavra de Deus.

    Ainda de acordo com Clodovis, a doutrina da fé ou a Palavra de Deus se encontra concretamente na Sagrada Escritura, tida e tradicionada na e pela comunidade eclesial. A base dos princípios acima referidos é que a Revelação detém sobra a razão um primado absoluto. Ela encontra no ser humano certa correspondência, mas não um condicionamento qualquer.

    Por isso, o ser humano só pode acolher a Palavra no maravilhamento da contemplação e do amor, fonte secreta de toda palavra teológica. Assim, a fé-palavra é princípio decisivo apenas no campo do saber teológico, não no campo da prática da vida. Se lá vale o critério da verdade, aqui vale a autenticidade do amor. A palavra da verdade está a serviço do amor mas, para ser eficaz, ele precisa ser verdadeiro, correto. No quesito epistemológico (teórico) do discurso teológico, a fé necessariamente precisa ser positiva. Seu ponto de partida prático (didático, expositivo, pastoral) pode ser a realidade, a vida, a práxis.

    De acordo com o autor, a palavra da fé é determinada pela experiência da fé. É pois, desta que a teologia se nutre enquanto fonte. Muita gente humilde, num exercício de fé, pela simplicidade de seu coração e sabedoria de vida, poderia ser um profundo conhecedor da vida; mais que muitos pensadores privados da fé. Assim sendo, o conhecimento espiritual que nasce pela fé é um saber apofático (negativo), simpático (experiencial) e extático (exódico/pascal). Por essa razão, a teologia faz bem em não esquecer o sentido místico de sua raiz etimológica, para guardar sempre um fundamental perfil contemplativo e querigmático.

    O interessante a se perceber na obra de Clodovis Boff é sua percepção quanto à atitude ao se estudar Teologia: "a primeira posição de um teólogo deve se dar de joelhos. Só uma teologia genuflexa obteria do Espírito do dom de uma mente iluminada: inteligência, sabedoria, ciência e conselhos capazes de iluminar o trabalho teológico".

    Assim sendo, do ponto de vista de conteúdo, a Teologia é sempre sabedoria, mesmo sob forma científica. Já do ponto de vista da sua forma, de expressão, só a Teologia sapiencial é sabedoria, isto é, um saber saboroso. Nesses dois casos, ela não é formalmente (mas radicalmente) sabedoria-dom (espiritual), mas sabedoria-virtude (intelectual), porque vem do trabalho do conceito.

    Portanto, de acordo com Clodovis Boff, o que dá a experiência da fé à razão da fé seria o “frêmito da vida”. Só um teólogo que banhe na experiência do Espírito vivificador e que saia daí gotejando poderá produzir uma teologia viva e vivificadora. 

    E na sua opinião, a prática da teologia precisa necessariamente constituir uma relação vertical com Deus? Para sua prática, pistis e práxis deveriam coagir no ser humano, contemplando também nossas relações horizontais? Deus só pode ser objeto da teologia se for tido como um sujeito que atua e fala, ou seja, que se Revela? Envie sua contribuição para nós!

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     




    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
    BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2015. p.110-156.

  • TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

    Quem procura entender o que crê, tem um pouco de “teólogo”

    A teologia é mutável, diversificada, enquanto a fé tem um caráter absoluto, definitivo. (Imagem: Pixabay)

    A teologia nasce do coração da fé. É, como diria Santo Anselmo, “a fé que ama saber”. Igualmente o amor, que nasce da fé, deseja saber por que ama. Assim permeia a fonte objetiva da teologia.

    Quanto à sua fonte subjetiva, estaria contido o desejo humano de “naturalmente conhecer” (Aristóteles), e disso não estão excluídas os eventos da fé. Nesse sentido, de acordo com o teólogo Clodovis Boff, que temos apresentado ao longo das reflexões desta semana aqui no blog, toda pessoa de fé, na medida em que procura entender o porquê daquilo que crê, é, a seu modo e à sua medida, “teóloga”.

    Nesse sentido, dando continuidade às reflexões que temos trazidos em nosso blog a respeito da Teoria do Método Teológico de Clodovis Boff, podemos afirmar que o autor compreende que o objeto determina o método, sendo o objeto material da teologia em primeiro lugar Deus (fonte originária) e, depois, tudo o mais (como a teologia ecológica, da libertação, ecumênica, étnica, dentre outras).

    Já o objeto formal seria Deus enquanto revelado e também toda e qualquer realidade na medida em que se relaciona com o Deus revelado. Para Boff, o que faz uma ciência não é seu assunto (objeto material), mas o modo como esse assunto é tratado (objeto formal).

    Nesse sentido, a fé é uma realidade unitária, mas é também complexa. E é segundo essa complexidade que a fé é fonte, objeto e fim da Teologia. Há uma relação íntima, orgânica entre fé e teologia. Esta é a “fé em estado de ciência”. De fato, a fé compreende, de acordo com Boff:

    - um elemento cognitivo: é a fé-palavra;

    - um elemento afetivo: é a fé-experiência;

    - um elemento ativo: a fé-prática.

    Portanto, a fé tem uma inteligência própria, no sentido de ter sua luz ou sua inteligibilidade específica. Já a razão da fé seria sua exposição racional (sapiencial e científica). Desse modo, segundo Boff, a razão teológica representa o ponto mais alto a que pode chegar a razão humana em geral.

    Além disso, para Boff, a Teologia é ciência na medida em que realiza a tríplice caracterização formal de toda ciência, que é a de ser crítica, sistemática e auto-amplificativa. Além de se apresentar sob a forma de ciência, a teologia aparece sob a forma de sabedoria, na medida em que seu discurso é do tipo da gnose, ou seja, global, experiencial, místico.

    A fé é em parte racional ou racionalizável e, em parte, não. A razão está naturalmente aquém da Verdade da fé; e mais: tende a se fechar sobre si mesma e é necessário que ela passe pela experiência da cruz e de sua “loucura” a fim de que, ressuscitada, apreenda a sabedoria paradoxal de Deus.

    Esta seria a dimensão “estaurológica” da razão teológica. Para Clodovis Boff, há relação íntima entre a fé e a teologia, que não é meramente mecânica, mas que teria uma continuidade vital, assim como a seiva estaria para a árvore, o fermento para o pão, a alma para o corpo. A teologia é mutável, diversificada, enquanto a fé tem um caráter absoluto, definitivo.

    Diante destas constatações, perguntamos: é possível se estudar ou fazer Teologia sem uma atitude de fé? Quais as fronteiras entre a razão de um teólogo, por exemplo, e a razão presente na investigação de um cientista da religião (crente ou não crente)? Um ateu confesso poderia ser considerado teólogo? Envie sua opinião para nós! 

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      * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     



    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
    BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2015. P.25-109.

     

  • TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

    O que, afinal, a Teologia pretende em sua posição científica na sociedade?

    Vários seriam os elementos articuladores da Teologia, pois seu discurso envolve uma pluralidade de instâncias. (Imagem: Pixabay)

    O tema de estudo da Teologia se ocupa diretamente com a sua forma, seu processo, sua prática. O teologizar, a “teologiz-ação” é, portanto, um ato não apenas teórico, mas prático, conforme aponta o maior manual existente sobre o tema aqui no Brasil, a Teoria do Método Teológico, do frei Clodovis Boff.

    A Teologia enquanto ciência põe em estudo os elementos articuladores da teologia (itens de dicionário) e as regras de como esses elementos se articulam (assim como é a nossa gramática).

    Vários seriam os elementos articuladores da teologia: Fé, Escritura, Igreja, Senso dos Fiéis, Tradição, Dogma, Prática, Magistério, Prática, Outras teologias, Filosofia e Ciências, Linguagem e Razão. Isto se dá pelo fato de que o discurso teológico envolve uma pluralidade de instâncias.

    Quanto às regras de articulação da teologia, o autor descreve que essas deverão estabelecer como os elementos articuladores se combinam dentro do processo teológico e seguindo etapas. Pois, é necessário, para se fazer teologia, seguir um percurso.

    Sendo assim, é importante ressaltar que, de acordo com o autor, a fé deve ter a primazia absoluta na teologia, a Bíblia deve ser o primeiro testemunho a ser ouvido, a Razão deve estar a serviço do dado revelado, a Linguagem deve ser a de analogia, pois somente ela se adequaria ao Mistério. Fundamentalmente, trata-se de seguir as seguintes etapas: escuta dos testemunhos da fé, aprofundamento racional dos testemunhos e, por fim, atualização em nosso contexto histórico.

    Para aprender teologia, como para toda “arte”, há três caminhos apontados por Clodovis Boff: assimilar as regras da prática teológica, seguir o que fazem os teólogos, exercitar por própria conta a prática teológica. E, a partir disso, sua metodologia compreende quatro níveis para que se possa assimilar o primeiro item (regras da prática teológica):

    •        as técnicas referentes aos recursos da teologia e ao modo de seu uso;
    •        o método propriamente dito, relativo às etapas do procedimento teológico;
    •        a epistemologia, ou seja, a reflexão crítica das bases do método teológico;
    •        o espírito teológico, que é o que anima em profundidade o interesse por conhecer os mistérios divinos.

     

    Assim sendo, no estudo teológico, é importante utilizar-se o método teológico sem fazer uma redução dele, ou seja, analisá-lo em toda a sua amplitude, que é o que requer o conteúdo transcendente da fé.  Clodovis Boff aponta ainda que, uma vez que o mesmo conteúdo da fé requer, em sua concretude “a preferência pelos pobres”, resulta que o método teológico deverá necessariamente vir marcado por essa inflexão particular.

    Como a ação de se fazer teologia com a opção preferencial pelos pobres é muitas vezes algo polêmico, mesmo sendo uma mensagem contida no Evangelho e tantas vezes tão debatida. Como essa consciência pode influenciar e contribuir para um trabalho de renovação do fazer teológico? Isto é utopia ou uma possibilidade?  Qual a sua opinião? Escreva para nós! Gostou deste artigo? Compartilhe-o em suas redes sociais, para que mais pessoas possam conhecer nosso blog. 



     * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     

    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
    BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2015. P.12-24.

  • O RACISMO NÃO TEM LUGAR DE FALA NA TEOLOGIA

    O tom do batuque de Nego Alberto, morto no Carrefour

    O Batuque é uma religião afro-brasileira marcada por uma liturgia viva, de alegria e cultura de paz (Imagem: Pixabay)

    Para nossa perplexidade, cresce em destaque a discussão do tema do racismo neste fim de semana, há poucos dias da comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, o feriado que outrora comentei, não é nacional e é estrutural. E deixo esboçado aqui meu novo inconformismo com o tema do racismo, fundamentada agora no recente assassinato do brasileiro João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos - imobilizado e morto no estacionamento do supermercado Carrefour, na cidade de Porto Alegre, na última quinta-feira (19). 

    Sua morte foi um tanto quanto semelhante à do americano George Floyd, assassinado no dia 25 de maio, após ter o joelho de um policial branco pressionado contra seu pescoço por quase nove minutos. Ambos foram mortos por policiais/vigias - pessoas que deveriam cuidar, zelar, servir, proteger a vida; jamais atentar contra ela.

    De acordo com a família, Nego Beto, apelido carinhoso de João Alberto, era adepto de religiosidade de matrizes africanas, o Batuque. Algo que denota claramente sua identificação com a cultura negra: no terreiro onde cumpria com suas obrigações religiosas, era tamboreiro. 

    Via racistas de plantão, associar a imagem de Nego Beto a algo demoníaco, compará-lo a um fazedor de feitiço ou tecer comentários carentes de esclarecimento teológico, marcaram o auge da intolerância religiosa pelas redes sociais neste fim de semana. Nossa sociedade é tão precária na percepção da fé afro-brasileira que, ironicamente, a morte de mais um negro é tida com descaso.

    O que esperar de um país em que até mesmo as ações do Carrefour dispararam na bolsa de valores um dia após ao episódio? Tais exemplos são prova concreta de que o Brasil assimila de algum modo, o comportamento norte-americano macartista, formatado para ridicularizar, expor e frisar que ser negro é ter aparência suspeita e atitude duvidosa.

    O que é o Batuque, afinal?

    O Batuque é uma religião afro-brasileira, e por vezes chamada de religiosidade afro-gaúcha, já que está presente quase que na totalidade no estado do Rio Grande do Sul e em lugares vizinhos a ele (como Santa Cataria, e em países vizinhos ao sul do Brasil, como o Uruguai e a Argentina). O fato é que, para nossa consternação, o Batuque é uma expressão de tudo o que não representa o racismo ou a violência. É religiosidade que se realiza por meio da alegria, de um espaço sagrado onde se é tocada uma Festa - o batuque - justamente daí vem seu nome.  

    Com aspectos bastante semelhantes ao Xangô Pernambucano, é por vezes confundido com o Candomblé e com a Umbanda. Contudo, é uma religiosidade com identidade própria, única em espiritualidade e ritualística, que até mesmo os meios de comunicação mais respeitáveis tiveram dificuldade em explicar, dado à falta de formação para abordar temas religiosos mesmo quando tentaram relacionar a brutalidade do assassinato de Nego Beto com sua identidade religiosa.

    Quem dá início à celebração é o pai ou mãe de santo responsável pelo local. E, após seu sinal, geralmente representado pelo toque de uma sineta, é justamente o tamboreiro o responsável por iniciar a festa: bate com as mãos em um tambor e, assim, dá ritmo aos cânticos religiosos a serem entoados em roda.

    Todos dançam, rezam, celebram. O Batuque é expressão religiosa comunitária, acompanhada de devoção aos ancestrais e culminada com a partilha de alimentos. É uma liturgia viva de celebração da vida, de fraternidade, de irmandade, de conexão entre as divindades e o mundo material. Enfim, é uma religião de paz e de inclusão. 

    Precisamos de toques práticos contra o racismo 

    Carecemos de uma cultura de paz verdadeira. É palavra-chave desgastada, mas sempre urgente. É presente no Batuque e em qualquer religião que tem a fraternidade como pressuposto. A brutalidade para com as pessoas de ascendência africana é uma questão importante a se discutir com ênfase. Até porquê, nos últimos tempos, na era das câmeras de celulares e outros adereços, acentuam-se provas de que o mundo não tem necessariamente construído bases para uma cultura de paz.

    No caso de Floyd e do Nego Beto, talvez sem imagens feitas por quem passava pelo local dos atos de violência, tais episódios teriam relatos "oficiosos" quem sabe totalmente discrepantes dos "oficiais", da verdade sobre o que aconteceu. É o que geralmente ocorre quando quem está sendo pisado tem seu fim relatado pelo legitimador da violência em nome da segurança, do bem estar social, do toque de praticidade velado de sangue.

    Assim nos foram contados fatos outrora narrados em nossos livros de História. Quanta coisa não deve ter sido distorcida. E hoje, estes dois episódios, americano e brasileiro, no auge dos anos 2020 estão registrados em imagens com cores, movimento, som, suor, dor e sangue. Está tudo ali. E essas imagens de quem não pode respirar nos sufocam.

    São registros que despertam em nossos sentidos o chocante cruzamento do passado com a história real de dois homens negros que estão sem ar, assim como muitos dos seus antepassados que também foram sufocados pela escravidão, pela imposição da religião, pelo racismo. Floyd diz "não posso respirar", enquanto João Alberto implora à esposa, que assiste à sua tortura, petrificada: "por favor, me ajude". Estes dois pedidos de socorro atingem o âmago de nossa vivência humana.

    A violência das margens que nos aprisionam

    Quem pensamos que somos e quem dizemos ser para o resto do mundo? Um país feito de misturas e com liberdade de ir e vir? Contém ironia tal questionamento. Vidas seriam salvas se não tivéssemos um racismo tão presente e latente na formação da nossa identidade social. E se vocês me perguntassem: até que ponto a religião contribui para analisar tais elementos? Eu responderia: no princípio do amor ao próximo, que não foi levado em conta.

    Sim, o amor está presente em todas as religiões, assim como no Ubuntu africano ou no Batuque gauchesco. Ou o princípio de cuidar, de ouvir, de não revidar e oferecer a outra face a quem nos dá um primeiro tapa, conforme aponta o Evangelho.

    Ora, já dizia o famoso poeta alemão, Bertolt Brecht: "de um rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas, ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam". O que Nego Beto escutou para precisar desferir um soco num dos seguranças, antes de ser espancado? O que precisou ser calado, imobilizado, sufocado a partir de então? 

    Tudo o que podemos responder é: sendo João Alberto homem brincalhão, mesmo com temperamento "estourado", com ficha criminal extensa por ter cometido atos inglórios e lamentáveis, não precisava ter pago por seus erros com a vida. O extremismo da tortura que sofreu não justifica absolutamente nada. Foi desproporcional, foi desumano. Violência jamais se paga com violência e morte.  



    O batuque que agora ressoa do alto

    As palavras de pedido de socorro de George Floyd e de João Alberto Silveira Freitas continuam a ressoar em meus ouvidos; elas atuam como uma voz profética da dor e da traumatização que vem dos povos afrodescendentes repetidas vezes. São homens que clamam pela vida, mas não são escutados. Tivessem o tom da pele diferente, teriam sido ouvidos e aquelas cenas de tortura interrompidas?

    Não há justiça social, muito menos a justiça do Reino tanto debatida pela Teologia, se não nos esforçamos para mudar costumes e práticas que oprimem e escravizam os outros, que "não os deixam respirar", nem falar, nem fazer festa, nem culto. 

    A Justiça do Reino visa proteger os direitos dos outros. Protestar contra tudo o que destrói a dignidade humana é o verdadeiro papel da Teologia no campo da inclusão: precisamos urgentemente de uma sociedade onde todos sejam bem-vindos, onde todos se sintam realmente bem-vindos e onde a diversidade seja tão natural quanto respirar.

    E a cultura religiosa deve possibilitar esses novos ares. Neste domingo, Nego Beto toca tambores lá do céu, em tom afro, tom de festa, tom de encontro, tom de perdão. Consigo sentir cada batuque no meu coração. E se o tom da pele não te impedir de ouvir, por favor, ouça!

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     * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     

     

  • PRESENÇA FEMININA

    Mulheres, educação e cristianismo: uma presença (in)visível?

    Hoje o blog traz artigo da professora Evelyn Orlando*, que apresenta um pouco do seu estudo sobre a questão da presença feminina em ambientes educacionais e no cristianismo. Acompanhe! (Imagem: Pixabay)

    Se, por um lado, a relação que as mulheres estabeleceram com a educação e com a religião é não apenas visível, como essencial em seus muitos caminhos, suas histórias pouco são contadas e, quando são, articulam-se muito mais ao campo dos fazeres do que dos saberes.

    Essa ausência, que nos soa como um negacionismo de suas existências, levou ao Projeto de Pesquisa Educação, Gênero e Cristianismo: circulação, representação, formação e práticas femininas em cenário religioso e educativo, financiado pelo Edital Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico – CNPq, em 2016. O financiamento da pesquisa permitiu que a mesma fosse constituída em rede com pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e de Portugal, ampliando o conhecimento acerca da participação das mulheres na vida pública pelas vias da educação e da religião.   

    Nosso objeto central foi a relação entre educação e cristianismo, tendo como enfoque a ação das mulheres nessa mediação. Buscamos investigar a presença de mulheres e os vestígios de suas práticas em diferentes culturas religiosas, mobilizando diferentes registros, inclusive suas memórias como fontes históricas.

    A pesquisa se desenvolveu a partir de frentes do cristianismo: catolicismo, protestantismo e sincretismo, com enfoque em trajetórias biográficas e práticas educativas formais e informais (estas, mediadas pelos impressos, festas, músicas, associações, cinema, dentre outros elementos culturais que funcionam em estreita relação com a educação).

    Nas três frentes, os sujeitos privilegiados foram as mulheres e os modos pelos quais, individual ou coletivamente, se apropriam e reproduzem um conjunto de habitus religiosos nos diferentes espaços em que circulam em seus cotidianos.

    Ou seja, interessava lançar luz sobre experiências de mulheres de diferentes matrizes religiosas cristãs e sincréticas, em temporalidades distintas. Mulheres de ontem que se fazem presentes até hoje de tantos modos, e mulheres de hoje que se farão presentes amanhã e depois.

    No Brasil e em Portugal – lugares centrais dessa pesquisa –, pode-se dizer que as mulheres sempre desempenharam um papel de mediadoras religiosas e exerceram papéis formativos fundamentais em casa, na escola e em diversos outros espaços ainda pouco explorados na historiografia educacional de ambos países.

    Buscamos, então, compreender a problemática da relação entre religião e mulheres, mediada pela educação. Nesse sentido, procuramos enfatizar personagens que, em seus cotidianos e em seus espaços de circulação, realizaram práticas educativas no sentido de (re)produzir uma cultura cristã. Seus modos de ação, os saberes que produziram, a circulação desses saberes nos provocaram a leitura dessas mulheres na dinâmica da ocupação do espaço público de modo legítimo e empoderadas.

    As religiões cristãs, especialmente o catolicismo, o protestantismo e as experiências sincréticas entre as religiões afro-católicas, foram abordadas na pesquisa como fenômenos culturais carregados de sentidos e sensibilidades, frutos de experiências múltiplas e indicativas dos modos pelos quais os sujeitos participam da construção de suas identidades e do mundo em que vivem.

    A educação, por sua vez, foi compreendida em seu sentido mais amplo. Não apenas os processos de educação formal, mas, sobretudo, os processos de educação não formal foram considerados, pelo sentido formativo que possuem e pela força que representam na constituição dos sujeitos.

    A diversidade de experiências que surgiram no percurso da pesquisa foi riquíssima e abriu espaço para discussões até então um pouco sombreadas no campo da História da Educação, lugar de produção dessa investigação, sobretudo acerca do protagonismo feminino em diferentes frentes sociais. Além disso, compreender por quais caminhos as mulheres participaram na (re)produção de uma cultura religiosa nos levou a novas indagações sobre possíveis impactos desse papel para a construção de sua identidade e as repercussões que tal exercício teria desempenhado no processo de emancipação feminina. A invisibilidade das mulheres na História da Educação ou História das Religiões nada tem a ver com uma ação pouco visível nos contextos em que viveram e atuaram. Elas não apenas se estabeleceram no lugar da mediação cultural como produziram saberes e o fizeram circular de muitos modos, tendo suas ações alcançado diferentes públicos e gerações.

    A presença invisível das mulheres no campo cultural e intelectual se constitui, portanto, como uma construção histórica, fruto de uma narrativa controlada, que seleciona seus sujeitos e tem reservado às mulheres, quando o faz, um lugar quase sempre às margens ou subalternizado. Essa forma de produção e organização de conhecimento, que traz apenas uma versão unilateral, impõe o risco da história única e nesse tipo de história as guerras femininas não são narradas.

    Durante muito tempo, e ainda hoje, a narrativa histórica não tem rosto nem voz de mulher. Isso tem nos levado à reprodução de uma narrativa sexista e patriarcal, muitas vezes, pelas próprias mulheres. “Mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que ele se tornará.” (Chimamanda Adichie)

    * Evelyn de Almeida Orlando é professora da Escola de Educação e Humanidades e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Licenciada em Pedagogia e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e com pós-doutorado pela Université de Paris. Bolsista produtividade da Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico do Estado do Paraná. Pesquisadora na área de História da Educação, Educação Católica; Impressos; Intelectuais e Gênero.

  • CIÊNCIA E FÉ

    A Teologia está à serviço da ciência e da fé?

    Na imagem, estudantes da turma de Mestrado/Doutorado em Teologia da PUCPR, ano de 2015, com o Prof. Dr. Clodovis Boff (Imagem: Arquivo Pessoal).


    Durante meus estudos de Mestrado, realizados em 2014 e 2015, tive a oportunidade de frequentar às aulas do renomado teólogo Prof. Dr. Clodovis Boff. Recentemente, revisitei um de seus artigos, intitulado “O rigor do método: princípios elementares em Aristóteles”, que apresenta o raciocínio do estagirita acerca da necessidade de precisão, de rigor e de exatidão para se compreender a relação humana com o conhecimento. E tal material me trouxe novas luzes para a compreensão do papel da ciência teológica.

    Ao longo do texto, Boff explica pontos bastante interessantes, que procurarei aqui resumir, dada sua contribuição para a compreensão do método teológico enquanto ciência. Aos leigos no tema que têm acompanhando nossas postagens, acrescento um dado importante: o professor Clodovis é um dos maiores teólogos brasileiros, já aposentado da academia, mas que continua escrevendo e muito contribuindo sobre a reflexão de temas essenciais ao estudo da Teologia. É autor do best seller "Teoria do Método Teológico", fruto de sua tese de doutorado pela Universidade de Louvain, na Bélgica. 

    Revisitemos, então, quatro pontos essenciais explanados no material mencionado:

    1. Termos paidéia, pepaideuménos, tò akribés e apaideusia

    Clodovis defente a importância da educação e da instrução para o homem que deseja ser culto e bem formado. Refere-se à paidéia como sendo a “educação” propriamente dita. O termo pepaideuménos representaria “a característica do homem bem educado, capaz de verdadeira humanidade ou de razão”. Já a expressão tò akribés nada mais seria do que o “rigor, a precisão, a exatidão” para se compreender uma epistemologia. Por fim, a palavra apaiudeusia refere-se à “ignorância epistemológica”, à “falta de formação”, ou seja, à carência de conhecimento, de cultura ante um determinado objeto de estudo.

    2. O objeto da ciência mede a ciência

    Tendo em vista a necessidade de se discernir em cada pesquisa científica que é realizada sobre o nível de argumento e de profundidade que ela requer, Clodovis demonstra que é preciso indicar, logo de início, o foco de sua proposta. Só então seria possível adequar a medida de pensamento e profundidade para sua ilustração, de modo que ela tenha o rigor exigido por sua medida. Isto ajudaria o pesquisador a compreender que o princípio de um método, quando bem delimitado, contribui para que o estudo em questão não seja improcedente e incipiente. É importante ressaltar que o caminho que a ciência percorre não é apenas trilhado por seu objeto de estudo: é também influenciado pela perspectiva do cientista (a pergunta que ele faz).

    3. Importância do discernimento epistemológico e do uso do rigor

    É imprescindível para que uma pesquisa obtenha resultado, que o cientista examine a natureza do que vai tratar e o rigor que ela exige. Afinal, “sem estar minimamente equacionado, um problema torna-se insolúvel”, diz Clodovis Boff. Por meio dessa explanação, o autor demonstra que há diversidade de tipos de rigor, cabendo à disciplina intelectual a capacidade de discernir e formar-se quanto ao método que se deve aplicar a cada espécie de ciência, de modo a não criar confusão entre os códigos do saber. Em síntese: o critério é sempre relativo ao assunto a que se aplica.

     

    4. Destaque ao rigor e ao gênero próprio da Ciência Teológica

    Por tratar de um objeto maior, a Teologia possui um gênero próprio e, assim, destaca-se entre todas as outras ciências. Nesse sentido, o rigor exigido ao seu estudo é simples e relativo: deve-se levar em conta a Doutrina Sagrada, especialmente porque a experiência de fé seria sua técnica metodológica partindo da compreensão da Revelação. Ao possibilitar a reflexão da ciência teológica articulando o campo da fé (transcendência) e o da razão (imanência), o pesquisador desta área precisa estar atento para não cair no reducionismo ou no desvio de seu objeto de estudo. Afinal, a Teologia possui um rigor sui generis e a última palavra da ciência é a fé, aponta Clodovis.

     

    Questionamentos pertinentes à percepção de Clodovis e Aristóteles

    A partir desses itens levantados por Clodovis Boff e acima aludidos, cabe-nos questionar o modo como o homem realiza sua busca da utilidade das ciências. Para Aristóteles, “buscar utilidade ou vantagem em tudo é algo totalmente ridículo”. Mas... Não seria justamente essa a razão primeira para a existência de uma ciência? Deve haver limites para o atuar de uma ciência em face à garantia da sobrevivência humana?

    Quanto ao uso inadequado de um método, para Aristóteles, aplicar a todas as ciências o mesmo critério é inadmissível.  Por essa razão, como é possível saber todas as possibilidades de um método? É plausível compreender todas as alternativas de métodos existentes em relação a todas as ciências? Como levar em conta, do ponto de vista epistemológico e axiológico, a existência de conflitos entre rigor e valor, de modo a não mecanizar o ser humano e evitar de qualificar à ciência um papel que não é dela?

    Quanto às duas paideias abordadas por Clodovis: a educação completa se dá em dois planos formativos: sapiencial e prudencial. Tais aspectos são importantes para o homem, uma vez que pouco adianta ter uma cultura teórica geral se não se tem uma cultura prática particular. Se pouco adianta saber o “como” das coisas sem saber seu “por que”, de que forma a Teologia, enquanto ciência, pode contribuir para a sabedoria e o conhecimento?

     

    Algumas consideraçoes pessoais sobre o papel da Teologia 

    Ter sido aluna de Clodovis Boff foi uma honra que a academia me concedeu. Engatinho ainda na Teologia e analisar seu pensamento em sua percepção de Aristóteles é tarefa árdua - e que pode ainda ser muitas vezes revisitada. A análise de Clodovis é reflexiva e atual. Demonstra que, à medida em que o acúmulo de conhecimento e, consequentemente, o acesso a bens variados tornou-se alternativa para a sobrevivência, o homem conduziu-se a um processo de submissão ao “ter” em detrimento do “ser”, o que gradativamente o sentenciou à perda de sua identidade, ao vazio, à dificuldade de compreender seu valor e a razão de sua vida. Talvez seja de fato essa percepção que o conduziu à escrita dos volumes de "O livro do Sentido".

    Ao retratar a crise humana, o autor demonstra-nos oportunidade de reflexão não só sobre a vida em si, mas a possibilidade de compreender que o estudo da Teologia enquanto ciência pode ser uma importante alternativa para se conhecer os meios e também a razão de viver que está presente na essência de todo ser humano.

    Os princípios elementares de Aristóteles, em face aos argumentos explanados pelo professor Dr. Clodovis Boff são a prova concreta de que a Teologia está à serviço da ciência e da fé, e não o contrário, como muito se pensou ao longo da Idade Média e mesmo em estudos posteriores. 

    A evolução da ciência ocorre diariamente; isto impõe a cada pesquisador um ritmo de desenvolvimento e de exigência pessoal pesados. Nossa cultura de produção e de consumo tem cada vez mais reduzido o ser humano de protagonista a mero coadjuvante nas relações sociais, o que o encaminha para vivenciar o drama de pensar que é livre, mas paradoxalmente constatar em seu quotidiano que já não o é.

    A Teologia é um saber universal e, sob a luz da Revelação, pode contribuir para que compreendamos sempre mais o sentido de sua existência e aplicabilidade. É certamente por meio do uso ético, crítico, com rigor, com precisão e com exatidão da ciência que o ser humano pode tornar-se romper com a cultura de apaideusia que o escraviza, conduzindo-o à verdadeira sabedoria. E esta, por sua vez, o ajudará a reescrever os rumos de sua própria história de fé e de percepção do Sagrado.

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    AQUINO, Tomás. Seleção de Textos, 2ª ed. Trad. De Luíz João Baraúna, São Paulo, Editora Abril Cultural, 1979 (Col. Os pensadores).

    BOFF, Clodovis. O rigor do Método: princípios elementares em Aristóteles. Localizado em: Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escola de Educação e Humanidades. Reg 50279. 2015. 12p.

    ____________. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes, 1998.

  • POR UM MUNDO MELHOR

    Evento da Uninter debate diálogos orgânicos na sociedade

    Uninter promove hoje seu  1º Congresso Nacional de Humanidades (Imagem: Divulgação)

    Acontece hoje o 1º Congresso Nacional de Humanidades, O evento se encerra com uma mesa-redonda entre os profissionais convidados e professores da instituição, às 21 horas. O evento é promovido pela área de Humanidades da Escola Superior de Educação (ESE) da Uninter e o acontece no dia 20 de novembro, com início programado para as 18h20.

    O objetivo é debater acerca do papel dos seres humanos na preservação do planeta e as melhores formas de implementar ações sustentáveis no dia a dia. O debate virtual será transmitido através do canal da ESE e da página de Humanidades, unindo os cursos de Teologia Bíblica Interconfessional, Teologia Católica, Ciências da Religião, bacharelado e licenciatura em Filosofia e bacharelado e licenciatura em Sociologia.

    A abertura será realizada com a presença do coordenador de área, Cícero Bezerra, da diretora da ESE, Dinamara Machado, do vice-reitor da Uninter, Jorge Bernardi, e dos professores Adriano Lima, Valéria Pilão e Luís Fernando Lopes. Em seguida, a programação segue com palestras de especialistas convidados. A primeira fala, sobre Divergências, convergências e necessidades de continuidade, acontece às 19 horas, com o professor Marcos Henrique de Araújo, mestre em Teologia e Filosofia. Logo depois, às 20 horas, o professor Rudolf Eduard von Sinner, coordenador do programa de pós-graduação em Teologia da PUC-PR, fala sobre Teologia pública num estado laico: uma análise crítica.

    A participação no evento é aberta e dá direito a certificado de horas complementares. Para mais informações, acesse: https://extensaocommerce.uninter.com/cursos-de-extensao/I-Congresso-Nacional-de-Humanidades-Uninter-%E2%80%93-Dialogos-Organicos-20.11/746?fbclid=IwAR0kA3p_Kk39UHNm0m8nP4Sz1jMtUQkAE8R20WXlbDLNFhiYr6cymw9D-lM?utm_source=uninter-noticias&utm_medium=referral

    * Material de divulgação enviado pelo Prof. Dr. Gilberto Bordini, coordenador do curso de Teologia Católica da Uninter. 

  • TOMÁS DE AQUINO E SUAS CONTRIBUIÇÕES

    A Teologia pode empregar metáforas ou expressões simbólicas em seu discurso comunicativo?

    "A criação de Adão", pintura do artista Michelângelo, em 1511, presente no teto da Capela Sistina. A obra demonstra a simbologia do eterno desejo de comunicação e conexão entre Deus e o homem (Imagem: Divulgação).

    Em meus estudos acadêmicos de Jornalismo, aprendi que o ato de se comunicar é essencial ao ser humano. Quando ainda somos bebês e não dominamos nossa língua materna, nos comunicamos com ruídos, balbucios ou gestos para demonstrar algum tipo de gosto, sensação de frio ou calor, fome ou até mesmo alguma dor. De certa forma, revelamos isso para nossa mãe ou cuidador, na intenção de obter aconchego, carinho, alimento... Como todo ato comunicativo necessita de reciprocidade, da parte de quem nos cuida e nutre também há a expectativa de receber um sorriso ou, à medida em que vamos crescendo, ganhar alguma palavra de afeto, um abraço, um gesto de amor... É possível então, afirmar, que o ato de comunicar pressupõe a necessidade de uma resposta.

    Mas não é só a área da Comunicação que trata deste tema: a Teologia também faz a inclusão dessa realidade em sua esfera. Exemplo disso, é fazermos uma breve análise da Questão 1 da Suma Teológica escrita por Tomás de Aquino, em seu artigo de número 9 – “Deve a Doutrina Sagrada empregar metáforas ou expressões simbólicas?”. No conteúdo, pode-se entender que as metáforas são instrumentos que permitem ao homem a possibilidade de alcançar a Deus por meio de exemplos práticos, que aplicados à vida quotidiana podem ser melhor assimilados. Outros exemplos são as parábolas de Jesus, que aparecem frequentemente nos Evangelhos e comprovam a importância da eficácia de um processo de comunicação. Ou seja: que a mensagem proferida por um emissor seja recebida e interpretada de maneira coerente por seu receptor.

    Tomás de Aquino e sua opinião sobre o uso de metáforas na Teologia

    Quando Tomás de Aquino sobre esse tema, diz: “é natural ao homem elevar-se ao intelegível pelo sensível”. Ou seja, Aquino demonstra que os cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato) podem ser portas para que não só o mundo, mas também Deus possa se manifestar em nós. Compreendendo esse aspecto da manifestação de Deus na vida humana, é possível traçar por meio do pensamento de Tomás de Aquino uma relação entre o uso da metáfora e da Comunicação enquanto ciência para a compreensão da Revelação.

    Por meio de inúmeros exemplos metafóricos que encontramos na Sagrada Escritura, podemos perceber que Deus se comunica de diversas maneiras com o homem. Pela doutrina sagrada, que é o coração da Teologia, Ele se revela por amor e espera uma resposta de amor de nossa parte. A Revelação, desejada por Deus, é aquela em que Ele fala aos homens "como amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber", conforme consta no Catecismo da Igreja Católica (CIC 142). O que deve o homem fazer diante desse convite, dessa oportunidade de comunicar-se intimamente com Deus? O mesmo número do Catecismo diz que "a resposta adequada a este convite é a fé."

    Sabendo, então, que a Revelação é um desejo de Deus para aproximar-se mais profundamente de seus filhos, dando-se a conhecer e, portanto, deixando-se amar, pode-se afirmar que quanto mais se conhece, mais se ama. É por essa razão que grandes santos da Igreja, como Santo Agostinho, justificavam seus estudos teológicos com a ideia de que a Revelação nada mais é do que uma oportunidade que Deus nos oferece para crescermos no amor, na fé e em comunhão com Deus. Agostinho articulou a seguinte ideia em seu célebre Sermão de número 43: "eu creio para compreender e compreendo para crer melhor”, em latim: Intellige ut credas, crede ut intelligas. 

    Nesse mesmo prisma, podemos citar também a Constituição Dogmática Dei Verbum, que em seu primeiro capítulo afirma que: "pela Revelação Divina quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos de Sua vontade a respeito da salvação dos homens, para os fazer participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana."

    O homem é capaz de "compreender Deus"?

    Como pode ser o homem capaz de compreender o que Deus revela, o que Ele comunica? O Catecismo da Igreja Católica afirma que “o homem é capaz de Deus” (CIC 27). Ou seja, é capaz de Deus no sentido de que é, por natureza, apto a relacionar-se com Ele e, por conseguinte, comunicar-se reciprocamente. Acerca desta questão, o Catecismo da Igreja Católica também indica que: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar.”

    Tais ensinamentos reforçam a tese de Tomás de Aquino no artigo ora mencionado da Suma Teológica, uma vez que demonstram que, ser capaz de Deus significa ter sido criado por Ele mesmo já com condições e capacidade para ouvir sua Palavra, coloca-la em prática e, sobretudo, contar com Seu auxílio para crer a ponto de viver em profunda comunhão de amor com Ele. Por termos sido criados à imagem e semelhança de Deus, trazemos em nosso interior a Sua marca, o seu “perfume”. E, é por isso que o que complementa a natureza humana é a união com Deus por meio da fé.

    Aquino é categórico ao afirmar, dentro desse panorama, que “o fulgor da Divina Revelação permanece em sua verdade, não sendo supresso pelas figuras sensíveis que o envolve”. Este pensamento tomista indica que o uso de metáforas contribui, portanto, para que o receptor dos conteúdos presentes na sagrada doutrina seja instigado a refletir, a pensar, a relacionar-se com Deus.

    Este desejo de viver nessa “atmosfera sobrenatural”, inebriados por este “perfume”, que nutre o anseio de comunhão, a necessidade de comunicação, de conhecer Aquele que deposita em nosso coração a liberdade para Amá-lo é, à exemplo do bebê que chora pedindo o colo de sua mãe, uma “busca pelo colo de Deus”, por um relacionamento íntimo com ele. Tal inquietude é comum aos homens que desejam uma relação com o Criador, que desejam conhecer a face de Deus, de amá-lo com todo o coração e de corresponder ao seu chamado de Amor para participar de seu Reino, daquilo que nos foi Revelado.

    O desejo de comunicar-se com Deus: a metáfora da arte

    Há uma incansável e inquietante tentativa do homem relacionar-se com a divindade, prova disto é a história das religiões. Por ela, os seres humanos se inclinaram ao longo de séculos para  buscar uma ligação com o transcendente que se lhes apresentasse como um mistério tremendo e fascinante. Esta realidade leva-nos a afirmar que não somente a comunicação, mas também a religião é um elemento constitutivo do ser humano, embora tenhamos consciência de que esta dimensão humana possa ser ignorada, esquecida ou até mesmo livremente rejeitada pelo homem. 

    Aquino ainda discorre que o conhecimento que alcançamos de Deus nesta vida muitas vezes é limitado, “porque de Deus sabemos mais o que Ele não é do que o que é”. Esse posicionamento dialoga facilmente com outra expressão de Santo Agostinho, que, em suas Confissões, apresenta a famosa frase: “Fizeste-nos para ti Senhor e nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.”

    Esta sede de Deus que trazemos em nosso íntimo é fruto também daquilo que Ele depositou em nossos corações e de que nos dá liberdade para buscar ou não. Afinal, é pelo conhecimento da Revelação, à luz da interpretação de sua mensagem – seja ela direta, seja por meio de metáforas – que nossa fé se dilata e se qualifica numa inquietude sadia de busca por Deus.

    Exemplo disso são também as obras de arte. Na ilustração da Capela Sistina, Michelangelo Buonarotti pintou, em 1511, "A Criação de Adão". A imagem representa o momento descrito no livro do Gênesis, no qual Deus cria o primeiro homem: Adão. As posições de Deus e Adão na pintura representam o fato de que, como diz o texto do Gênesis (1,27), "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança". O elemento principal da imagem, dentro da propositura deste artigo, certamente é percebermos que ambos inclinam os braços para estabelecer um contato, um toque, uma comunicação.

    Portanto, no quesito teológico, é pelo estudo da Revelação que compreendemos como se dá essa conexão no dia a dia. Afinal, se compreende que Deus levanta o véu de seu mistério infinito e cotidianamente nos convida a contemplar sua face, nos revela seu nome, nos dá sua Lei, nos presenteia seu Filho e orienta nossa vida para a realização plena, repleta de sentido e, sobretudo, para o encontro final consigo já sem alegorias ou metáforas, mas face a face.

     

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      * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. 

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção "OS PENSADORES"). Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J.

    AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. v. I, parte I. 2ª ed. São Paulo: Edições. Loyola, 2001.

    BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 1985.

    BOFF, Clodovis. O rigor do Método: princípios elementares em Aristóteles. Localizado em: Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escola de Educação e Humanidades. Reg 50279. 2015. 12p.

    CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 3ª. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.

    CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Dei Verbum. In: Documentos do Concílio Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1966.

    GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Media. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes. 1995.  (NOTA: na página 144: “Um texto célebre do Sermão 43 resume essa dupla atividade da razão numa fórmula perfeita: compreender para crer,crê para compreender (intellige ut credas, crede ut intelligas).”

  • FERIADO QUE NÃO É NACIONAL

    Teologia e consciência negra, num país de racismo inconsciente

    Neste 20 de novembro, comemoramos o Dia da Consciência Negra, num país em que o feriado não é nacional e o racismo é estrutural (Imagem: Pixabay)

    Embora acreditemos que Deus se encontra em nossa diversidade comum, não sejamos tolos: o racismo está presente em nossa sociedade e em nossas igrejas, templos, movimentos, pastorais... Por alguns, é chamado "pecado". Outros o qualificam de "comportamento inadequado". Há ainda quem o denomine "crime". 

    Vejam bem, a Teologia nos diz que somos criados à imagem e semelhança de Deus. Se ativamente amados por Deus, devemos respeitar, acolher, incluir e amar todas as pessoas assim também criadas, sem parcialidade. Então, compactuar com o racismo é, para toda pessoa religiosa, tríplice problemática: um pecado, uma ação inadequada e um ato criminoso.

    Racismo no âmbito religioso é algo que desafina, não é de bom tom. Por essa razão, qualquer líder religioso que o incentive, deve ser apontado à lei dos homens - e no findar da vida, que Deus se encarregue do restante.

    Já superamos nosso passado mesquinho teológico, e mais do que nunca, o racismo não tem lugar em nossa comunidade científica, pois todo teólogo é chamado a amar ao próximo e a cuidar do bem comum, sem exclusões. "Ah, não sejamos ingênuos... Sabemos que não somos imunes ao racismo", se comenta por aí. De fato, o racismo é uma questão histórica. Mas chega de desculpas. Precisamos lutar mais, fazer mais, debater mais.

    Às vezes, não é só a cor da pele que expressa uma necessidade de cuidado, mas também muitas expressões religiosas multiculturais afros que são enormemente mal interpretadas, distorcidas, acuadas. Isso ocorre em todo o mundo e também aqui no Brasil. Seja no campo social, seja no aspecto religioso.

    O multiculturalismo e o racismo brasileiro de cada dia

    Antropólogos e historiadores concordam que a característica marcante de nossa cultura brasileira é a riqueza de sua diversidade, resultado de nosso processo histórico-social e das dimensões continentais de nossa territorialidade. O patrimônio cultural do nosso país é constituído de uma enorme diversidade através da cultura herdada de outros povos, como a arte, a culinária, a religião, o folclore. Da África, temos muitas contribuições nesse sentido, especialmente sua religiosidade - tantas vezes marcada de acenos pejorativos em nosso país.

    Quando chegaram em terras brasileiras, os portugueses, por não conseguirem convencer os indígenas a trabalharem do nascer ao pôr-do-sol e sem paciência de esperar mais tempo para convencê-los, optaram por trazer os africanos para o árduo trabalho. Afeitos ao trabalho duro, com o consentimento tácito da Igreja e dos missionários, que não tiveram o mesmo empenho em defender o africano como defenderam o índio, iniciou-se o período de escravidão no Brasil. Assim, a religiosidade africana precisou se curvar às impostações do cristianismo vigente; foi questão de sobrevivência.

    Embora nosso país seja internacionalmente elogiado pelo seu multiculturalismo, debates sobre a integração da pessoa negra ao longo de nossa história sempre são pauta nas universidades, em lives, na imprensa... E surgiram nas últimas semanas, especialmente após o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, novas discussões importantíssimas sobre o tema do racismo e pautas afro-religiosas, sociais, econômicas, antropológicas.

    Elas revelam que a crueldade da escravidão na América não se restringiu apenas à corporeidade e ao trabalho escravo: a violência contra a pessoa negra prossegue em nosso sistema social de maneira sutil, seja nos empecilhos ao acesso à educação, no preconceito para ingresso no mercado de trabalho, no acesso à assistência à saúde, no modo  desinteressado que se retratam as religiosidades e culturas africanas.

    Consciência negra contra o racismo inconsciente

    O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado todo dia 20 de novembro. Foi criado em 2003, mas somente em cerca de mil cidades do país e nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Rio de Janeiro e no Maranhão é feriado. A data faz alusão ao dia da morte do líder negro Zumbi dos Palmares, em 1695, sendo considerado um importante passo de nossa sociedade para suscitar o debate sobre o racismo, a discriminação, a desigualdade social, a inclusão de pessoas negras na sociedade, a religiosidade e cultura afro-brasileira como um todo.

    Hoje é dia da Consciência Negra. Precisamos ser mais conscientes e coerentes da contribuição histórica da religião e suas fundamentações para a condição atual da pessoa negra. Somos fruto de uma Teologia que precisa, e muito, realizar uma reparação histórica e espiritual a milhares de povos dizimados em nome de Deus, e que hoje padecem ante uma fé de muitas palavras, mas poucas efetivas obras. Fazemos parte de um país riquíssimo em cultura, mas pobre em respeito aos povos que compuseram nossa identidade. O dia da Consciência Negra é prova disso: seu feriado não é nacional e o racismo por aqui é velado e estrutural.

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     * Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.
     

  • RELIGIOSIDADE BRASILEIRA

    Precisamos falar de exclusão religiosa


    A religiosidade popular brasileira possui elementos sociais, folclóricos e mesmo políticos, mas nenhum é superior à fé, que supera as limitações teológicas. (Imagem: Pixabay) 


    O sincretismo é um fenômeno universal que ocorre em diversas realidades e aspectos culturais, não apenas na religião. Na acepção mais simples aplicada ao campo religioso, trata-se de uma combinação harmoniosa de práticas religiosas provenientes de religiões diferentes, sendo que a multiplicidade delas é fato tão antigo quanto a humanidade. Mas há um outro modo de considerá-lo, enfatizando mais o aspecto antropológico, considerando o sincretismo como uma questão de leitura do modelo da realidade quanto à procura e à oferta, aos bens de mercado.

    Essa teoria foi desenvolvida sobretudo pelo sociólogo da religião Max Weber, enfatizando sobretudo a questão do institucional e do não institucional na religião. Um exemplo para ilustrar essa questão, é o fato de que o catolicismo imposto pelos portugueses já tinha influências míticas e pagãs. O contato com as religiões indígenas e africanas acrescentou-lhe idéias supersticiosas, crenças mágico-fetichistas e animistas. A obrigação que os africanos tinham de se converter ao catolicismo, coisa que eles souberam simular muito bem, o contato com a religião indígena e a pouca instrução religiosa dada aos caboclos, possibilitaram a coexistência de muitos elementos religiosos diferentes, os quais se manifestavam não apenas no culto mas em toda expressão religiosa popular que formou a cultura religiosa do povo brasileiro.

    Cultura popular e religiosidade

    Exemplos desse sincretismo podem ser as três grandes manifestações culturais dos brasileiros: o carnaval, o futebol e a religião! Na versão popular, são resultado, ou usam elementos sincréticos. O carnaval é ligado ao batuque, às danças indígenas, enfeites... além de ter raízes também nas saturnálias, festas orgíacas pagãs em homenagem a Saturno. O futebol envolve uma grande paixão, sendo acompanhado de promessas, peregrinações, benzimentos e trabalhos de despachos. A religião popular é também mesclada de sincretismo como mistura de ritos e práticas as mais diversas, algumas englobando orações católicas, ritos mágicos e fetichistas...

    Em geral as rezadeiras e benzedeiras, mesmo empregando diversos ritos, se sentem plenamente católicas e não podem ser consideradas diferentemente disso. Na Bahia, por exemplo, inúmeras Mães de Santo se sentem católicas praticantes e impelidas a participar com igual respeito, devoção e recolhimento do candomblé e da missa. Quem de nós ousaria julgá-las ou reprová-las? Em Salvador, por exemplo, inúmeras mães de santo são católicas fervorosas, sem que se possa recriminá-las por isso, pois o seu sentimento religioso e a sua fé são simples e puros, embora do ponto de vista oficial/doutrinário isso seja contraditório e inaceitável, uma vez que "não se pode servir a dois senhores", conformem apontam as escrituras, que são a base da teologia católica.

    Outro exemplo: a influência animista e espiritualista no nordestino e no brasileiro em geral é acentuada. O nordestino simples do interior tem forte tendência a interpretar certos sinais e acontecimentos como de bom e/ou de mau agouro. A tecnologia e a modernização vão sufocando essa tendência.

    Penso que ela é uma herança de sentimentos atávicos das três raças iniciais que nos formaram. A crença na Providência Divina ainda é muito forte. Segundo o estudioso do comportamento religioso, André Godin, “a Providência é julgada como uma reação animista, atribuindo intenções (sejam punitivas, sejam protetoras ou benevolentes) a certos eventos inexplicáveis ou fortuitos”. 

    E, se a religiosidade é a busca pelo contato com o Sagrado, o sincretismo, de algum modo, é a forma como muita gente estabelece sua conexão com a transcendência. Por essa razão, ele não deve ser entendido como algo a ser combatido, sua constituição faz parte da nossa cultura popular. 

    Cultura popular x religiosidade no Brasil

    A grande dificuldade ao se retratar esse tema é definir com precisão o que é "popular” quando se fala de sincretismo religioso. Até porquê o termo “popular” não é unívoco, mas tem vários sentidos possíveis, a ponto de em termos de música, por exemplo, se poder falar até em música popular erudita.

    O popular aproximadamente está relacionado com: rural x urbano; pobre x rico; pouco culto x erudito; secular x sagrado e, mais especificamente, o fiel na sua relação com Deus x a sua relação com a estrutura oficial de uma doutrina, por exemplo.

    É uma questão que não é simples. E nenhuma dessas relações é absoluta na determinação de catolicismo popular que formou parte de nossa cultura brasileira - nem mesmo o fato de ele ser diferente do oficial, do proposto pela classe dirigente. O cristianismo, por exemplo, foi desde o seu início uma religião urbana.

    Embora Jesus Cristo, na sua missão, tenha percorrido aldeias e povoados de preferência a cidades, os apóstolos se reuniram em Jerusalém e a partir daí o cristianismo se propagou sobretudo pelas cidades: Jerusalém, Éfeso, Tessalônica, Corinto, Roma... isso não como deliberação e exclusividade, mas pela facilidade de comunicação.

    Por exemplo, o termo designativo de “não cristão” vem do latim “paganus”, isto é, “pagão”, literalmente aquele que permanece no “pagus”, na aldeia; região onde estava o povo pouco instruído e pouco catequizado, tendente a conservar costumes arcaicos, atávicos... O grande problema é que a realidade do catolicismo popular não se limita ao rural, ao pouco culto; no secular, ele é isso e mais aquilo.

    Motivos que contribuíram com o sincretismo brasileiro

    São muitas as pessoas cultas, com filhos formados, que mantêm por tradição e motivos diversos suas devoções populares e ritos sincréticos. Isso ocorreu porquê, na formação religiosa do Brasil, o povo do interior foi evangelizado principalmente por leigos, sobretudo pelos chamados “beatos”, que apesar de sua enorme boa-vontade e espiritualidade tinham pouca preparação intelectual e teológica. 

    Os padres missionários, por sua vez, por serem poucos para a imensidão do território e pela dificuldade de deslocamento, iam ao interior uma vez por ano, para dar ao povo a oportunidade de cumprir a obrigação anual de confissão e comunhão; daí veio a expressão: “fazer desobriga”, referente à visita anual do padre a uma comunidade. Tais fatores colaboraram para que o povo elaborasse sua prática religiosa a partir do conteúdo inicialmente recebido e sofrendo as influências das religiões indígenas e africanas.

    Além do mais, o catolicismo popular, com seus ritos e devoções no mais das vezes oriundos das devoções e informações antigas, foi transmitido por via oral de geração em geração, com algumas modificações ou adaptações através dos tempos. Nessa religiosidade e em seus ritos sempre aparecem elementos das religiões africanas e indígenas que escaparam da “extinção” a que foram submetidas pelo rolo compressor do catolicismo oficial.

    Uma terra com acento religioso desde o início

    O Brasil, a Terra de Santa Cruz, foi desde o início marcado pelo sagrado oficial. O grande inimigo dessa Terra era o ateu, o ímpio, o pagão. Segundo Gilberto Freire, havia em cada porto um capelão de plantão para visitar os navios chegados e examinar a fé de cada adventício. Os ateus e pagãos não podiam desembarcar. Os africanos aqui chegados, se não tivessem sido batizados na África ou na travessia, seriam batizados ali mesmo, antes de desembarcar, com a obrigação de se converterem ao catolicismo. E claro que essa conversão instantânea não acontecia; no máximo, os africanos fizeram uma simulação justapondo os conceitos católicos aos que já tinham na sua religião de origem. 

    E tem mais: o ensino da religião foi frequentemente acompanhado da ameaça do castigo do terrível fogo do inferno, com seus horríveis diabos para punir com o tridente os que ousassem desobedecer aos mandamentos de Deus e da Igreja. Essa imagem era tão forte que se criou a expressão popular: “Feio que nem o diabo do catecismo”. O catolicismo colonial aqui difundido trouxe consigo a “verdade acabada”, como se ele não tivesse  nem pudesse vir a ter limitações passíveis de correções e atualizações. A imutabilidade em matéria de religião marcou profundamente o povo simples e foi a causa maior da resistência deste às inovações propostas pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, a partir de 1965.

    Importância de se evitar preconceitos

    O catolicismo popular, inegavelmente, possui elementos sociais, folclóricos e mesmo políticos, mas nenhum destes é superior à fé, que supera as limitações teológicas. Podemos admitir nas representações religiosas populares um certo esvaziamento do seu conteúdo religioso, pela persistência de rezas e ritos fora do contexto da atual modernidade, mas não podemos considerá-lo destituído de valores religiosos. Há alguns antropólogos e sociólogos que não concordam com essa visão e preferem ou tendem a reduzir a expressão religiosa popular a fatores econômicos e socioculturais exclusivamente. Não desconhecemos sua existência e sua participação no conteúdo religioso popular; reduzi-lo totalmente a essa dimensão é um pouco exagerado.

    Qualquer dos elementos culturais citados é sempre secundário, se considerarmos a fé, a esperança, a caridade que devem ser percebidos ao se analisar a cultura relgiosa brasileira. Afinal de contas, a crença e a prática religiosa, seja do homem simples do interior ou do "moderno" da cidade, são expressões de uma identidade importante e que deve ser observada em sua pluralidade e contexto.

    E nessa circunstância, sabendo que somos parte de muitos povos, de muitas crenças, de uma infinidade de talentos e narrativas, discutir religião é pertinente e eleva! O que se deve evitar ao máximo no campo religioso é a exclusão do diferente, o olhar de julgamento, o aceno pejorativo. Todo tipo de preconceito oriundo de uma visão fragmentada de uma religião, causada por seguidores de outra, demonstra a precariedade da fé e da cultura de quem a pratica. Até porquê, em meio a tanta riqueza e possibilidades de conexão, limitar o Sagrado ao modo como o percebemos seria conceber uma imagem de um Deus criado à nossa imagem e semelhança, e não o contrário. Já basta de exclusão! Vamos dialogar?

    Trataremos mais desta temática em novas postagens, especialmente sobre religiosidades de matrizes indígenas e africanas. Gostou deste artigo? Compartilhe-o em suas redes sociais, para que mais pessoas possam conhecer nosso blog.


    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções. 

  • TEOLOGIA PARA TODOS

    A polêmica questão da "justiça" no cristianismo

    O cristianismo interpreta todo ataque à dignidade do homem como uma agressão ao próprio Deus (Imagem: Pixabay)

    Jesus Cristo, em sua pregação, destaca a natureza comunitária de sua mensagem, isto é, a anunciação “a todas as gentes”. O que significa esse desejo de reunir o “povo de Deus”? Jesus veio ao mundo para nos fazer “partícipes da natureza divina” (2 Pe 1,4), ou seja, para que participemos de sua própria vida. É a vida trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a vida eterna.

    Sua missão é manifestar o imenso amor do Pai, uma vez que quer que sejamos seus filhos. Nesse sentido, a anunciação de sua mensagem a todas as gentes reflete a natureza comunitária de sua mensagem. Ou seja, a missão do anúncio de sua Boa Nova tem uma dimensão universal: é destinado a todas as pessoas, culturas, raças e nações.

    Lei maior: amor ao próximo

    Desde suas primeiras pregações, Jesus acentua o aspecto comunitário da sua forma de propor a vivência da religião, sendo que o conteúdo fundamental desta missão é a oferta de uma vida plena para todos, baseado em seu “Mandamento Novo”, que é  “Amar ao próximo como a si mesmo”.

    A contribuição do cristianismo em prol da justiça social e garantia da dignidade humana se dá no reconhecimento da paternidade de Deus na criação do homem e também por apontar a existência de dignidade em cada ser humano feito “à sua imagem e semelhança”. Tal igualdade é essencial e aponta para a projeção do Evangelho sobre nossas vidas, por meio da vivência do Mandamento Novo trazido por Jesus Cristo, figura central do cristianismo, que é a vivência do Amor recíproco e da fraternidade entre os homens.

    Assim sendo, sua doutrina implica na caridade (a fonte disso consta no Evangelho), mas também exige justiça. Por esse motivo, o cristianismo interpreta todo ataque à dignidade do homem como uma agressão ao próprio Deus, de quem é imagem, propondo não uma igualdade de palavras, mas de ações em prol de uma vida digna para todos, tanto de maneira individual quanto social, uma vez que todos os homens devem desfrutar desta dignidade fundamental e colaborar com ela coletivamente.

    A justiça do Reino

    No mundo atual, a globalização e a era tecnológica foram profundamente influenciados pelo mercantilismo, pela exploração do povos indígenas e dos negros, por exemplo, e também por ditames de um modelo econômico excludente onde, em sua maioria, as nações adotam o sistema capitalista. Isso gerou consequentemente certa desigualdade social, ou seja, enquanto há pessoas que por meio do dinheiro possuem todos os bens materiais que desejam, outras não tem o que comer.

    Ao compreender que o destino do Povo de Deus não é diferente do destino da humanidade como um todo, o Cristianismo se apresenta como mediador com a missão de ajudar os seres humanos compreendendo também sua realidade social e sua natureza. Dessa forma, a justiça é uma premissa para que se instaure o Reino de Deus (que alguns teólogos como José Maria Castillo afirmam que ao mesmo tempo em que ele já teria sido instaurado, ainda não estaria totalmente e verdadeiramente presente por causa da falta de justiça que o mundo ainda carece – entendimento expressado na Igreja pela famosa frase “ya peró todavia no”  [já, mas ainda não, em tradução livre], uma vez que a verdadeira justiça pensada por Deus seria aquela que engloba todo ser humano, especialmente as minorias).

    Portanto, o cristianismo é uma religião que aponta para a urgência de se fazer presente a justiça na sociedade, um tema bastante polêmico. Ao falar de justiça, o próprio Cristo explana que é necessário que a dignidade de cada pessoa seja valorizada e respeitada. Este é o sentido essencial da dignidade e da construção da justiça para o cristianismo. Quisera não parecer ainda tão distante de sua concretude! Reflitamos! 


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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.

  • AMÉRICA LATINA

    Enrique Dussel e sua contribuição para uma religião libertadora

    A América Latina é profundamente marcada pela pobreza dos povos indígenas colonizados. E a religião contribuiu para isso. (Imagem: Pixabay)

    Ainda que para muitas pessoas a religião seja uma ação que se julga vinda dos céus, ela não deixa de ser uma ação humana sujeita às contingências de fatores históricos, como qualquer outra ação. Por isso, a ótica de Enrique Dussel nos atenta às particularidades da história humana para uma compreensão libertadora da religião.

    Dussel é argentino, nascido em 1934 e desde 1975 vive no México. No campo da Filosofia da Libertação, é um dos maiores expoentes do pensamento latino-americano em suas interfaces filosóficas. É autor de uma grande quantidade de obras, discorrendo sobre temas como filosofia, política, ética e teologia. Crítico do pensamento eurocêntrico contemporâneo, Dussel tem se colocado como crítico da pós-modernidade, chamando por um novo momento denominado transmodernidade.

    O tema da "Libertação"

    Conforme já apontamos em postagens anteriores aqui no blog, desde os tempos mais remotos podemos observar que a humanidade sempre foi marcada por minorias privilegiadas e maiorias oprimidas. A luta por espaço, por território e por alimento qualificou ao homem um papel de necessidade de dominação e de resignação ao ser dominado e, sobretudo, de acostumar-se a utilizar da violência como instrumento para se conseguir êxito ou como forma de defender-se em meio a potenciais ameaças. 

    Com o advento da abertura para o sobrenatural ao longo de séculos, há registros de que as primeiras religiões não foram ferramentas utilizadas apenas para potencializar o relacionamento humano com um ser transcendente. Elas foram também uma alternativa encontrada para a realização de controle social – algumas delas sem o uso (aparente) da violência física - munindo-se da criação de mistérios, do medo do desconhecido, do respeito ao sagrado e tantos outros aspectos para oprimir, submeter, evitar ameaças e amenizar as intempéries da vida.

    Libertação na Bíblia e na América Latina

    Ao retratar a história do povo de Israel no Egito, demonstrando que vivia sob um regime escravista, Dussel demonstra que a situação da América Latina se repete do mesmo modo na história. Afinal, em seus escritos sobre a Filosofia da Libertação, o filósofo aborda a temática da religião antifetichista, demostrando duas de suas funções: a primeira enquanto possibilitadora de dominação e também de um serviço libertador e, a segunda, como forma de atuação superestrutural e infraestrutural.

    Ao destacar essa especificidade da religião, este importante filósofo demonstra que ela tem um papel de tomada de posição, de atitude e também de uma responsabilidade prática com aqueles com quem se relaciona. Ao destacar que, na dimensão de dominação da consciência, ela pode ser um fetiche, uma idolatria, ele também a apresenta como libertadora, destacando que pode estar à serviço da causa dos pobres, oprimidos e excluídos.

    Nesse contexto todo, é possível entendermos que o uso ideológico da fé popular, seja mais explícita, seja mais sutil ou velada, não contribui para que a religião seja um instrumento de libertação verdadeiro. Afinal, a religião necessária para os dias de hoje é aquela que dialoga não apenas com o divino, mas que também é fundada no respeito e acolhida das diferenças, no pluralismo como um pressuposto para pensar as identidades e o ser humano de maneira completa, indo contracorrente para romper com a nossa triste história.

    Os riscos do uso ideológico negativo da fé popular

    O que Dussel demonstra com sua filosofia é que a religião necessária para os dias de hoje é aquela que não apenas faz mediação de salvação com o gênero humano, não só caminha com ela, mas sobretudo, está interagindo e contribuindo na definição dos rumos da humanidade, de maneira a renunciar a qualquer postura apologética. Certamente, a resposta que o homem pós-moderno espera hoje da religião é o reencantamento com sua proposta. E esta precisa passar pela prática pastoral de um autêntico humanismo, aberto e comprometido com a defesa e promoção da vida, tanto dentro quanto fora de seus templos.

    Entendendo a crítica que Dussel faz à religião, em especial seu posicionamento na colonização da América Latina, é possível hoje, já presentes no século XXI, compreendermos que o ethos religioso pode ser um alicerce para as bases de nossa sociedade quando integradas de maneira harmoniosa, como por exemplo no campo da economia, da política, da educação, da saúde... Cabe ainda ressaltar que a religião que o homem espera para o mundo de hoje necessita possibilitar o exercício da criatividade para ousar mais - não de modo aventureiro e solitário - mas solidário, arriscando-se mais pelos pobres e fazendo valer seus preceitos inspiradores.

    O caminho que a religião precisa fazer para acompanhar o homem de hoje, pois ao longo de suas trajetórias acabaram (in)equivocadamente separando-se é o de romper com um passado vicioso e compreender que precisa estar muito mais ligada à vida do homem do que simplesmente dar diretrizes, superando a ótica de “submissão” para romper com qualquer tipo de violência, escutando o grito de quem necessita. E que mesmo em meio a avanços e retrocessos possa compreender à luz da experiência do passado e fiel à realidade de hoje, para que a religião do futuro possa ser baseada mais em boas ações do que em palavras vazias.

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.

  • VIDA EM SOCIEDADE

    Político pode usar a religião pra se (re)eleger?

    Após as eleições, é importante acompanhar se as propostas e ações do seu candidato correspondem aos motivos que te fizeram votar nele (Imagem: Pixabay) 

    Você deve estar cansado de ver tanto político se usando de discursos religiosos para tentar se eleger. Alguns defendem seus valores religiosos com tanta arguição, que acabam se esquecendo que vivemos num Estado laico, e que antes de se professar a fé, no campo da política, é imprescindível falar em projetos, propostas de gestão e ter coerência entre o que se fala e o que se pratica. E se engana quem pensa que isso ocorre somente no Brasil. Este comportamento é antigo e ao mesmo tempo atual - veja, por exemplo, o que ocorreu nas últimas eleições americanas... Há séculos assistimos à existência pessoas ligadas ao exercício do poder, fazendo uso da religião para assegurar seus valores pessoais ou mesmo de grupos ao qual pertencem, subjugando os demais.  

    O fato é que isso não é crime e não é proibido. E muitos políticos se usam desse direito, utilizando-se do discurso religioso para se eleger. Assim o fazem, por compreenderem que a fé ainda é um valor para muita gente. Contudo, suas posturas devem ser analisadas com muita cautela. Caso trabalhem em prol de suas bancadas, haverá posições e interesses por trás disso, que deverão contribuir para a manutenção social de suas perspectivas de valores prometidas aos eleitores - e quem deve fiscalizar isso é o próprio grupo que o colocou no poder.

    Contudo, se assim o fazem no mero intuito de explorar o aspecto do Sagrado de seus eleitores, incorrem em comportamento inadequado. Infelizmente, muitas vezes tais discursos não passam de uso indevido da fé em nome do desejo de poder, ou seja, de voto. Fazer a junção entre política e religião toca os ouvintes no sentido de esperança, de resposta às suas crenças, de valores pessoais, de ingenuidade, de desejo por soluções e algum tipo de justiça social... 

    O viez da teológico para compreender a sociedade

    A evolução dos relacionamentos humanos e também da ciência ocorre diariamente; e a Teologia também é uma ciência - e não uma religião. E enquanto forma de saber, ela pode colaborar na análise de tudo o que se impõe a um ritmo de desenvolvimento e de exigência pessoal pesados ao homem. Nossa cultura de produção e de consumo têm cada vez mais reduzido o ser humano de protagonista a mero coadjuvante nas relações sociais, o que o encaminha para vivenciar o drama de pensar que é livre, mas paradoxalmente constatar em seu quotidiano que praticamente não o é.

    E a tarefa da Teologia é justamente essa: analisar e buscar soluções para esse tipo de enfrentamentos, nos quais muitas vezes líderes religiosos e pseudo-crenças arrastam seus fiéis por meio de interesses variados, que refletem o desejo de poder. À medida em que o acúmulo de conhecimento e, consequentemente, o acesso a bens variados tornou-se alternativa para a sobrevivência, o homem conduziu-se a um processo de submissão ao “ter” em detrimento do “ser”, o que gradativamente o sentenciou à perda de sua identidade, ao vazio, à dificuldade de compreender seu valor e a razão de sua vida, como bem temos trabalhado ao longo de nossas postagens aqui no blog.

    Tal crise certamente é uma oportunidade de reflexão, com a possibilidade de compreender que o estudo da Teologia enquanto ciência pode ser uma importante alternativa para se conhecer os meios e também a razão de viver que está presente na essência de todo ser humano. A finalidade da Teologia não se restringe apenas ao conhecimento da fé, mas observar a vida em sociedade e suas relações diversas com a religião.

    Possibilidade de reflexão 

    Mesmo que seja uma ciência universal, pautada sob a luz da Revelação, a Teologia pode contribuir para que o homem compreenda muito mais do que isso. Por meio dela, podemos aprofundar nossa reflexão sobre o sentido de nossa existência e de atuação em todos os outros campos de saber e também de desenvolvimento científico.

    Obviamente, será por meio de seu uso ético, crítico, com rigor, com precisão e com exatidão de sua forma científica que o homem poderá aprender a ser capaz de romper com a cultura de desconhecimento do Transcendente e de sua razão no mundo, abrindo-se à verdadeira sabedoria. E esta, por sua vez, o ajudará a reescrever os rumos de sua própria história e dos demais campos de atividade em que se lança.

    Ou seja: fazer Teologia não é simplesmente falar ou discursar sobre Deus, ou sobre Cristo ou sobre a Bíblia, ou mesmo sobre fé. Ela procura descobrir a relevância, o sentido, o significado para hoje da comunidade de fé e analisar as questões referentes à tudo aquilo que a circunda, como a educação, a ciência e também a política. 

    Por quê tantos políticos usam a religião para se eleger?

    A resposta é simples: para ganhar votos. Mas, fiquemos atentos: discurso religioso não deve ser termômetro para se votar. O que deve estar em jogo é a proposta de campanha do candidato em prol de toda a sociedade, e não interesses particulares. Criar divisões e intolerâncias, especialmente no campo da política, muitas vezes pode ser também crime, especialmente se o foco está em menosprezar ou agredir a algum grupo diferente em específico.

    A fé não pode ser utensílio para se usar da boa vontade, da "boa fé" de quem se identifica com um determinado candidato. E quando a Teologia observa isso, ela cumpre com seu papel político também, denunciando as muitas formas de abuso em nome de Deus. Após as eleições, é importante que todo cidadão acompanhe se as propostas e ações do seu candidato eleito correspondem aos motivos que o fizeram escolhê-lo. Só assim estaremos vivendo a verdadeira democracia.

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  • MUNDO SECULAR

    O que é secularização e qual seu impacto pras religiões?


    Sagrado e profano co-existem no mundo, que não é apenas religioso. (Imagem: Pixabay)



    A palavra secularização deriva do termo latino saeculum (século), que se refere às realidades temporais, ou seja, às realidades deste mundo, as quais também podemos denominar realidades profanas, ou ainda, dimensão mundana da vida. Em síntese, secularizar algo é suprimir sua condição de sacralidade.

    Ela se refere de uma maneira geral, ao impacto da modernidade sobre a configuração tradicional das relações entre a religião e a sociedade. Esse abalroamento se dá em diversas esferas de relacionamento humano, como o social, o político, o intelectual e o simbólico, dentre outros. É válido observar que esse esbarro da modernidade com a religião, denominado secularização, tem conduzido as realidades humanas a um processo de laicização.

    O que é algo laico?

    Quando laicizadas, as diversas instituições sociais tornam-se autônomas, com ideologias, referências e regras próprias - sem a interferência da religião. Desse modo, uma sociedade em processo de secularização é uma sociedade na qual cada vez menos é a religião que determina a agregação cultural, a coersão e a identificação. Um país denominado "Estado Laico" é aquele onde não existe uma religião oficial e todos os seus cidadãos têm liberdade de culto. Este é o caso do Brasil, por exemplo.

    Uma amostra de quando a religião sofreu influência da secularização é a história recente da Igreja Católica. À medida em que ela atravessou os séculos e assistiu à evolução do pensamento humano, acabou por presenciar a diminuição gradativa de seus fiéis. E, então, depois de um longo tempo declarando-se inimiga do mundo moderno, por meio do Concílio Vaticano II, entendeu a importância de se abrir à modernização e ao diálogo com a socidade, num movimento de abertura.

    Por essa razão, é possível afirmar que a secularização não elimina a religião, mas a transforma e permite que transpasse a contemporaneidade mesmo em meio às suas interferências.

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.

  • CULTURA RELIGIOSA

    O que, afinal, são religiões monoteístas?


    A Caaba é uma grande construção em formato de cubo e considerada pelos devotos do Islã o lugar mais sagrado do mundo e é localizada em Meca.  (Imagem: Pixabay)


    Monoteísmo é o nome que se dá ao tipo de crença em um só Deus. O ser humano pré-histórico, por suas singularidades, era politeísta. Ou seja, acreditava em vários deuses: do sol, da água, da floresta, do tempo, dentre tantos outros. Ao longo que a complexidade de relações e estruturas sociais começaram a se desenvolver, houve uma migração gradativa do politeísmo para o monoteísmo.

    Tal trajetória não invalidou ou inferiorizou as concepções do sagrado para a humanidade. Esta foi, certamente, uma evolução que acompanhou o ritmo do desenvolvimento racional, psicológico e social do ser humano. Afinal, engloba todo um contexto para que tenha ocorrido. Um elemento imprescindível para esta análise, certamente, é entender que o conhecimento acerca do mundo onde vive, da natureza e de si mesmo, fez com que o homem buscasse um ser supremo, superior a todos os outros “deuses” aos quais prestava culto, como uma resposta às suas inquietações sobre a origem e o sentido da vida, a razão da existência do mundo, dos fenômenos da natureza, da morte, da dor, do sofrimento e tantos outros aspectos variados...

    Contexto do surgimento do monoteísmo

    Podemos entender o monoteísmo como uma expressão de escolha não apenas racional, mas também de maior “lógica” quando o homem passou a compreender a vida e a natureza como obra da criação de um ser supremo, ou seja, de um só Deus, criador de todas as outras coisas e superior a todas as outras divindades existentes.

    Certamente, é o respeito a este conjunto de elementos universais que contribuem a favor da justiça e da paz no mundo, uma vez que o temor a Deus e às suas leis respeita uma ordem eloquente de busca pela harmonia e fidelidade à vocação religiosa de quem adere à religiosidade monoteísta. De algum modo, o monoteísmo tem sido uma expressão de compaixão e conforto para a humanidade - embora religiosidades politeístas também tragam respostas relativamente interessantes sobre esse tema.

    E é esta dimensão do monoteísmo vivido em sua essência que possibilita uma cultura de paz, de solidariedade, de respeito às diferenças e de diálogo para a humanidade. Afinal, ele engloba um conjunto de valores éticos universais que excluem radicalismos pautados na violência, na guerra, no abuso de autoridade ou da utilização da religião como forma de poder.

    Principais crenças monoteístas

    E então, ao analisarmos mais profundamente as subdivisões que compreendem o monoteísmo, podemos apresentar três religiões fundamentais que o compõe: judaísmo, cristianismo e islamismo. Cada qual tem sua doutrina, propostas de vida em sociedade e também características distintas e também que se assemelham.

    O Judaísmo é a mais antiga das três religiões monoteístas. Sua maior característica doutrinária é a crença num Deus único e criador chamado "Adonai" (YHWH), a qual elegeu Israel como povo para receber a revelação da Torá (os mandamentos). Deus, segundo os judeus, influencia na sociedade humana e judeu é todo aquele que pertence a esta linhagem fazendo sua adesão a um pacto eterno com o Deus Único. A família é um forte elemento para o judaísmo, sendo que as tradições desta religião são passados de geração em geração com ênfase às suas leis em âmbito religioso e com observação de seus costumes e estilo de vida também no campo social, político e econômico. 

    O Cristianismo é uma religião monoteísta que surgiu dentro do judaísmo, fundamentando-se na doutrina trinitária (existência de três pessoas distintas em um único Deus). Fundamenta-se nas Sagradas Escrituras, em especial no Novo Testamento, de onde ecoa a revelação de que “Deus é amor” e Pai de todos, apresentando Jesus Cristo como filho de Deus, membro da Trindade (2˚ pessoa) e exemplo de virtude a ser seguido. De acordo com a doutrina cristã, Cristo oi enviado ao mundo para salvar a todos de seus pecados, morrendo na cruz e, depois, ressuscitando (fato que se recorda na comemoração da principal data do cristianismo, que é a Páscoa, o que faz com que a cruz seja seu símbolo mais conhecido).

    O Islamismo é uma religião monoteísta que surgiu na Península Arábica no século VII, baseada nos escritura sagrada chamada Alcorão e nos ensinamentos religiosos do profeta Maomé. Na visão muçulmana, o Islã surgiu desde a criação do homem: Adão foi o primeiro profeta e, o último, Maomé. Sua doutrina resume-se em acreditar em um único Deus (Alá), dando enfoque à oração, ao jejum anual no Ramadã e à peregrinação à cidade santa de Meca.  A ética do islã inclui instruções que norteiam e relacionam todos os aspectos da atividade humana: políticas, sociais e/ou financeiras, apresentando também uma radicalidade e simplicidade de dogma, com a proposta da existência de um só Deus, de uma só fé e de uma só comunidade.


    Semelhanças e diferenças nas religiões monoteístas

    As principais semelhanças presentes no judaísmo, no cristianismo e no islamismo seriam:

     

    Judaísmo

    Cristianismo

    Islamismo

    Fé em um só Deus

    X

    X

    X

    Nascidos na bacia do Mediterrâneo, pertencem ao Ocidente e têm vocação mundial

    X

    X

    X

    Herdam quadros conceituais da filosofia grega

    X

    X

    X

    Possibilita desenvolvimento de experiências e valores da vida a seus seguidores, no plano da teologia mística e da espiritualidade

    X

    X

    X

    Necessidade de integrar e resinificar costumes antigos, chamados “pagãos”

    X

    X

    X

    Passaram por discórdias e divisões internas

    X

    X

    X

    Há literalistas e fundamentalistas

    X

    X

    X

    As principais diferenças presentes no judaísmo, no cristianismo e no islamismo seriam:

     

    Judaísmo

    Cristianismo

    Islamismo

    O que lhe é mais importante?

    Israel como povo

    e terra de Deus

    Jesus Cristo como messias e Filho de Deus

    Alcorão como livro e Palavra de Deus

    Livro Sagrado

    Torá

    Bíblia

    Alcorão

    O enviado de Deus é...

    Ainda esperam a vinda de um Messias (judeu)

    Jesus Cristo

    Profeta Maomé

    Forma de viver o monoteísmo...

    Crença em Deus

    Crença na Trindade e na Encarnação Divina

    Crença em Deus como transcendência esmagadora

    Quanto à Revelação

    Deus se revela e age na história (pedagogia horizontal)

    Deus se revela, age e nos convida ao Amor recíproco

    Revelação Divina (apenas vertical)

    Estes dados acima nos indicam que essas três religiões, por terem o berço na crença de um só Deus, são irmãs de fé (crença no Deus de Abraão), e possuem muito mais elementos que evocam semelhanças do que diferenças entre si. Aliás, é justamente por isso que são chamadas "religiões abrahâmicas". Este, certamente, é um fator que pode contribuir de maneira primordial para superar os desafios que atualmente se apresentam para a manutenção religiosa do mundo onde vivemos, pautado pela negação de um transcendente.

    Se as religiões monoteístas tem suas raízes em Atenas e Jerusalém, como interpretou a história antiga, onde Atenas seria símbolo do pensamento grego, da filosofia, e Jerusalém seria o lugar sagrado para elas, certamente poderiam adotar como terceiro elemento em comum a “cidade eterna” presente no coração e na alma de cada ser humano, que tem sede de Deus mas também tem sede de verdade, de justiça, de igualdade. Contudo, vale lembrar que cada grande escopo dessas principais religiosidades monoteístas também possui suas cidades oficiais: o judaísmo em Jerusalém, o cristianismo em Roma e o islamismo em Meca, na Arábia Saudita.

    Indiferentemente do local físico, quando percebemos que existência da religião numa sociedade - ainda que seja uma ação que se julga vinda dos céus - não deixa de ser também uma ação humana, sujeita às contingências de fatores históricos, como qualquer outra ação, entendemos que a existência de Deus precisa estar muito mais ligada à vida do homem do que simplesmente pairando nos céus e nos dando ordens diretas lá de cima.

    Enfim, a trajetória das religiões monoteístas ao longo da história demonstra isso, pois mesmo em meio a seus avanços e retrocessos comprova que a religiosidade é um importante horizonte de sentido para a humanidade.

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.

  • CULTURA RELIGIOSA

    Qual o sentido do Sagrado para as religiões?


    Cada religião tem, em seu modo de atuação, o desejo de ligar o ser humano ao Sagrado. (Imagem: Pixabay)


    Na Antiguidade, Cícero (106-43 a.C.) afirmou que a palavra “religião” deriva do latim, relegere. Para ele, a vivência de uma religião seria uma obrigação daqueles “que cumpriam cuidadosamente todos os atos do culto divino e, por assim dizer, os reliam atentamente”. Santo Agostinho (354-430), na Cidade de Deus (X, 1), define a religião como uma forma de “ligação” entre o ser humano e o Divino.

    Por essa razão, as religiões mundiais ou universais podem ser entendidas como aquelas que possibilitam ao homem a experiência do sagrado. Dentre elas, podemos citar as três de maior tradição como os pilares religiosos fundamentais na história da humanidade: judaísmo, cristianismo e islamismo. Por se caracterizarem por meio de uma perspectiva sociológica e pluralista pautada no encontro e de parceria a favor da justiça e da paz mundial, tais expressões religiosas são consideradas universais. Elas também possuem uma característica comum de grande importância: têm como raiz fundamental a herança abraâmica. Nesse sentido, pode-se afirmar que elas são como ramos distintos de uma mesma árvore, distinguindo-se não em essência, mas em suas formas de atuação e vivência doutrinária.

    De maneira geral, cada religião acima citada busca, ao seu modo, cumprir funções comuns, visando servir de guia moral aos seus seguidores, ser mediadora entre o indivíduo e a sociedade, apoiar o respeito,  apoiar a participação do indivíduo na esfera pública e política, ser doadora de significação (sentido) na vida das pessoas, sendo doadora de integração.

    Esse sentido de Sagrado visa dar uma reposta à esfera individual integrando os seres humanos fragmentados na modernidade e na era da globalização, favorecendo e apoiando o contato com o transcendente. Isso ajuda o ser humano a manter a esperança viva, manter vivo o desejo de viver, alimentando seu sentido por meio das narrativas simbólicas e dos rituais.

    Além do mais, as religiões contribuem para que toda pessoa humana possa manter o equilíbrio entre o caminho vertical (relação com Deus) e o horizontal (relação com a história), oferecer ligações entre o indivíduo e o mundo, educar contra a violência distinguindo entre o que é digno de um ser humano e o que não lhe convém e, imprescindivelmente, atuar na prevenção e correção dos desvios da atitude religiosa – de modo a evitar o fanatismo, o fundamentalismo e os exclusivismos sectários.

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    Ana Beatriz Dias Pinto, é comentarista convidada do blog e nos traz reflexões sobre temas atuais e contextualizados sob a ótica do universo religioso, de maneira gratuíta e sem vínculo empregatício, oportunizando seu saber e experiência no tema de Teologia e Sociedade para alargar nossa compreensão do Sagrado e suas interseções.

  • CATEQUESE INCLUSIVA

    O desafio da inclusão na catequese


    Na imagem, Irmã Fabiana com acadêmicos de Teologia do Studium Theologicum Claretiano, em foto com o Arcebispo Metropolitano de Curitiba, Dom José Antonio Peruzzo 



    Alinhar a Teologia com a vida é tarefa muito presente na Congregação das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, instituição fundada na Itália pela Madre Clélia Merloni, beatificada pela Igreja em 2018. Atualmente, o trabalho das religiosas está presente em 15 países: Itália, Suíça, Albânia, Benin, Moçambique, Filipinas, Estados Unidos, Haiti, Paraguai, Chile, Uruguai, Argentina, Portugal, Irlanda e Brasil, tendo como missão atuar na área da educação, saúde, serviço pastoral, além de promoção humana e social.

    Assim, uma de suas freiras tem feito bonito no quesito de inclusão. Trata-se da Irmã Fabiana de Jesus da Silva, que mora na Casa Provincial localizada na capital paranaense e acaba de concluir seus estudos em Teologia no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba. De uma maneira bastante abrangente, a religiosa investigou a temática da Inclusão na Catequese, tendo sido aprovada com elogios por sua proposta atual e extrememante importante no quesito pastoral da inclusão.

    Em entrevista ao blog, Irmã Fabiana destacou em sua pesquisa como a Igreja vem respondendo aos apelos da inclusão no ambiente catequético, visto que existem crianças, adolescentes e jovens que, tendo alguma necessidade especial, precisam de uma maior atenção e acolhida na comunidade eclesial. Nessa perspectiva, questionou: “nos tempos atuais como se realiza a inclusão, de modo que esta seja cada vez mais eficaz?”

    Para responder à realidade da Igreja, realizou a leitura e análise da presença da inclusão de pessoas portadoras de deficiência na Sagrada Escritura e Documentos Eclesiais, contextualizando como a Sagrada Escritura apresenta o processo de acolhida das pessoas com deficiência no Antigo e Novo Testamento, observando, com ênfase, o modo de ser e agir de Jesus para com elas.

    Além do mais, Irmã Fabiana abordou como é feita a abordagem do tema da inclusão nos documentos pós-conciliares. Assim, descobriu que, desde os tempos remotos, a Igreja tem cumprido com a missão de acolhida e integração dos irmãos com necessidades especiais - exemplo disso as práticas de Jesus Cristo. Assim, promoveu uma reflexão importante sobre de que modo a catequese inclusiva propõe um novo modo de olhar para as realidades de crianças e adultos que buscam formação na catequese, sendo portadores de algum tipo de necessidade especial.

    Necessidade de se romper padrões sociais

    A proposta de trabalho da nova teóloga demonstrou como o modo de romper os padrões sociais, onde o valorizado é sempre o belo, o perfeito deve dar abertura às diferenças. Afinal, hoje a Igreja interpela evangelicamente a uma nova maneira de agir diante da diversidade. "Na história eclesial, a Igreja nunca foi passiva diante dos desafios encontrados no campo catequético, mas se buscou com sabedoria responder às interpelações encontradas, mesmo em meio às limitações", conta Irmã Fabiana.

    "Na busca por vivenciar os ensinamentos de Jesus de acolhida e inserção na comunidade eclesial foram produzidos documentos, que apoiados no Evangelho, colaboraram para a reflexão do desafio de tornar não apenas participantes, mas protagonistas todos aqueles que têm alguma deficiência física, psíquica ou intelectual. Promoveu-se uma proximidade para com estas pessoas, valorizando a sua dignidade humana e, deste modo, reconhecendo-as como irmãos e irmãs colaboradores na construção do Reino ensinado por Jesus. Todo caminho percorrido pela inclusão deve ser continuado para que a Igreja verdadeiramente esteja em saída como nos pede o Papa Francisco", expõe a religiosa.

    Conhecer o rosto de Cristo em cada pessoa

    Segundo a religiosa, esta inclusão visada pela catequese não deve apenas ficar em seu contexto, senão ser expandida em todas as pastorais e movimentos, "para assim reconhecer o rosto de Cristo em cada pessoa". A pesquisa ainda aponta que, nesta perspectiva, o direito de ser evangelizado de cada pessoa deve ser respeitado em sua totalidade, de modo que o campo catequético integre crianças, jovens e adultos portadores de deficiência num ambiente de acolhida exterminando todo preconceito causado pela falta de informação.

    "Na Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus vêm constantemente recordar que Deus ama cada pessoa, sem excetuar ninguém e que todos são convidados a se aproximarem Dele sendo o importante o desejo de seus corações e não suas condições físicas ou psíquicas. Todos são chamados a receberem os sacramentos. Prova disso é que o Documento Catequese Renovada, em seu número 142, afirma que a presença da pessoa com deficiência física ou mental numa família e comunidade cristã nos interpela evangelicamente e exige de nós uma configuração com o Cristo sofredor. Também o Documento 107 da CNBB, em seu parágrafo 214, nos diz que ao conhecer uma pessoa com deficiência é necessário ouvi-la, saber como desenvolve suas atividades em sua vida cotidiana", explica.

    Cuidado particular com as crianças e jovens

    Quando se refere às crianças e jovens com limitações, é necessário que a formação dada pelo catequista seja feito em diálogo  as famílias. "Faz-se muito importante um diálogo contínuo entre família e catequese para que ambos auxiliem as pessoas que têm algum tipo de deficiência a percorrerem seu caminho de fé. Quando incluídas na catequese, é positivo que ingressem em grupos já existentes e não que formem outros grupos paralelos, para assim não ficarem em grupos exclusivos". Segundo a Irmã Fabiana, a acessibilidade também é uma forma de contribuir para uma eficácia na inclusão. "E o ambiente deve favorecer para que o processo evangelizador aconteça de modo efetivo. Para que o desafio da inclusão na catequese seja superado é preciso criatividade, mudança de atitude, pois o importante é reconhecer que somos todos iguais, aos olhos de Deus, do mundo e de nós mesmos", conclui a nova teóloga.

    Studium Theologicum Claretiano de Curitiba

    O Studium Theologicum de Curitiba é uma das instituições de ensino mais tradicionais no ensino de Teologia em todo o país. Seu curso presencial de Teologia possui uma longa e consistente história na formação daqueles que se dedicarão ao ministério ordenado e aos mais diversos serviços na Igreja e na sociedade.

    A qualidade do curso fez com que houvesse uma parceria com a Pontifícia Universidade Lateranense de Roma à qual o Studium Theologicum afiliou-se em 1995. O passo seguinte foi a busca do reconhecimento do curso junto ao MEC, o que veio a ocorrer em 20 de julho de 2014, sendo que tal reconhecimento foi renovado em 03 de abril de 2017.

    No ano passado, recebeu a nota 5 no ENADE, elemento que revela sua excelência na formação Teológica. No Claretiano - Studium Theologicum o curso é oferecido de duas formas: presencialmente no período diurno ou on-line, com dois encontros no semestre, mas em ambas ofertas o curso tem a duração de quatro anos.

    O estudo da Teologia é bastante amplo e, por isso, requer conhecimentos que envolvam seis eixos temáticos: filosófico, metodológico, histórico-cultural, sociopolítico, linguístico e interdisciplinar. A instituição oferece uma formação humana, cultural e teológica que permite ao aluno compreender as diferentes áreas do saber teológico e não se limita a receber apenas estudantes católicos.

    Saiba mais: https://claretiano.edu.br/curitiba

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  • TEOLOGIA E MUNDO PÓS-MODERNO

    Qual a contribuição da Bíblia para o mundo pós-moderno?

    Interpretação coerente das escrituras pode contribuir para sermos mais solidários. (Imagem: Pixabay)

    Em que sentido a Bíblica Hebraica e o Evangelho ajudam o homem contemporâneo a viver uma moral libertadora que o conduza à felicidade e à humanização no amor, na solidariedade e no respeito à vida?

    A contribuição da Sagrada Escritura na renovação do ethos moral pós-moderno é o fato de que ela oferece ao homem um conjunto de instruções transmitidas a nós por meio de inúmeras experiências de vida e de fé (relacionamento com Deus), tendo sido passadas de geração em geração ao longo de diversos séculos. Elas que demonstram de uma maneira orgânica, dentro de uma experiência de vida, de fé e de respeito à essa vida recebida como dádiva de Deus, que existe um modo coerente de se viver em sociedade. Esse ethos é a raíz que sustenta o ser humano em toda a sua essência, ajudando-o a compreender, à luz dessa mesma fé, o valor do cuidado consigo mesmo, do respeito aos outros e à importância de se preservar e cuidar da natureza (o ambiente em que vivemos).

    A Bíblica Hebraica e o Evangelho ajudam o homem contemporâneo, sim, a viver uma moral libertadora que o conduz à felicidade e à humanização, à solidariedade e ao respeito à vida, uma vez que demonstram o verdadeiro sentido de se saber quais são costumes e regras em sociedade (ordem moral) e também a maneira como o homem pode vive-las (conduta efetiva), possibilitando bases de sustentação para sua vida.

    Dessa forma, proporcionam condições de aprendizado sobre a importância das relações de comunhão e serviço entre os homens e também diante de Deus. É possível observar que a Sagrada Escritura possui uma linha diretiva e pedagógica muito clara: no Antigo Testamento nos comprova que somos filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança e que nos convida à uma aliança consigo; já no Novo Testamento, o fio de ouro é a vinda de Jesus Cristo para estabelecer seu Reino e uma nova aliança baseada no amor recíproco que, após comunicados, passam a fazer parte de seu plano de salvação e que nos envia seu Espírito Santo para confirmar, santificar e ajudar a viver nessa dimensão de abertura à transcendência. 

    Vale frisar: em nenhum momento isso se restringe a quaisquer grupos, pois todos somos chamados a essa dimensão. Algo que a Teologia contemporânea pontua muito bem, uma vez que tem buscado cada vez mais incluir todas as realidades relacionadas à pessoa humana.

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  • VALORES

    A sociedade pós moderna vive uma crise de valores?


    A moral pós-moderna tem influência na vida cotidiana? Quais os sinais dessa crise? (Imagem: Pixabay)


    A sociedade pós-moderna vive, sim, uma crise de valores. Melhor dizendo, uma mutação de valores anteriormente presentes, que não cabem mais para o ser humano pós-moderno. Isto ocorre devido ao ritmo imposto por nossa cultura de produção e de consumo, que nos conduziu de protagonistas a mero coadjuvantes nas relações sociais. A pós-modernidade tem encaminhado cada pessoa a para vivenciar o drama de pensar que é livre, mas paradoxalmente constatar em seu quotidiano que já não o é.

    Cabe ressaltar que a industrialização não mudou só as cadeias de produção, mas também a forma de viver das pessoas, criando uma lacuna entre minorias de grupos privilegiados e uma grande maioria sem acesso a condições básicas de vida. À medida em que o acúmulo de bens tornou-se alternativa para a sobrevivência, o homem conduziu-se à um processo de submissão, que gradativamente o sentenciou à perda de sua identidade, ao vazio, à dificuldade de compreender seu valor e o sentido de sua vida.

    A moral social pós-moderna tem influência na vida quotidiana, uma vez que contribui para que o homem possa repensar sua existência e planejar alternativas para superar condições desfavoráveis ao seu desenvolvimento humano. Afinal, essa “crise” pode ou ser enxergada como um problema ou como uma oportunidade de reafirmação de valores e reflexão interior. Os sinais dessa crise na vida diária são também as desigualdades sociais, o egoísmo, a ostentação de riquezas, as diversas formas de exploração e preconceito no campo econômico, social, político, religioso e racial.

    Outras causas, numa análise com mais amplitude, apresentam nossa sociedade condicionada à imoralidade (elementos que vão contra a moral), à permissividade (onde a tolerância deu espaço para a perda de valores a fim de resguardar a coletividade) e à amoralidade (quando se privilegia o ter ao ser e o outro é mero instrumento para que se possa obter algo, vivendo-se assim sem moral). Além disso, pode-se ainda citar a negação ou a limitação dos direitos humanos como elementos que fragilizam e impedem o homem de assumir os rumos de sua própria história.

    Este é um tema no qual a Teologia tanto deseja compreender quanto atuar. E esses desdobramentos serão temas pra uma próxima postagem... Gostou deste artigo? Compartilhe-o em suas redes sociais! 

     

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