Cultura e diversidade religiosa na atualidade

  • REFLEXÃO

    É hora de tocar na ferida (ou melhor, continuar tocando…)


    Problemas advindos de uma teologia mal vivida corroboram para dificuldades na Igreja, que sofre por meio de escândalos sexuais e abuso de poder por parte de seus membros. (Imagem: Pixabay)

    Poucos meses depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra alvos civis em Nova York e Washington nos EEUU, o jornal The Boston Globe publicava o que foi considerado um dos maiores – senão, o maior! – escândalo da Igreja Católica em tempos recentes.

    Na publicação, foram relatados diversos casos de abusos sexuais perpetrados por membros do clero católico a crianças e adolescentes ocorridos em várias dioceses norte-americanas. Foi o estopim para que outras tantas denúncias fossem realizadas em diversas partes do mundo. Tristemente, os casos se multiplicavam...

    Na última semana, o UOL publicou uma longa reportagem sobre casos de abusos diversos cometidos pelo então Pe. Ernani Maia dos Reis contra monges e monjas, em Monte Sião/ MG. Não se trata, contudo, do primeiro caso de abuso por um fundador carismático: basta recordar os abusos sexuais de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e todas as acusações de abusos de consciência e um abuso sexual, que saíram à luz pública em 2020, contra José Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt.

    Por outro lado, não precisamos ir muito longe: em 2016, Roberto Lettieri, que ficou conhecido por seu trabalho com a Toca de Assis, foi expulso do estado clerical por abusos diversos contra religiosos e a mesma coisa aconteceu, em 2019, com Jean Rogers Rodrigo de Souza, conhecido como Pe. Rodrigo Maria.

    Talvez, esteja quem reaja visceralmente contra a disciplina do celibato imposta aos clérigos católicos, há quase um milênio, como a “suposta” causa de abusos. Entretanto, o problema é muito mais profundo...

    Não se trata somente de uma problemática sexual, por exemplo uma desordem ou uma perversão, como é o terrível caso da pedofilia. O que favorece todas essas situações de abuso – seja de consciência, moral ou sexual – é um grave erro da compreensão do ministério ordenado por parte da instituição, das comunidades e daqueles que o exercem.

    Em todos os casos mencionados, sempre se associou à figura carismática um poder que não lhe é próprio, isto é, o poder divino. Tanto que nos relatos daquelas e daqueles que foram por eles abusados sempre aparece a expressão “nosso pai”. O próprio Jesus sentencia categoricamente: “A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o celeste” (Mt 23,9). A afirmação de Jesus nos aponta não só a proibição literal nela expressa, mas o erro de associar unilateralmente, isto é, sem reservas atributos próprios de Deus a seres humanos.

    Mas mulheres e homens não podem transparecer Deus? Claro que sim! Porém, jamais serão Deus – a expressão “nosso pai” implica uma relação de confiança e transparência que não corresponde a nenhum ser humano, senão só a Deus. Por mais que nos confiemos a alguém, sempre haverá uma reserva da própria consciência, como bem explicita a Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (GS 16); a consciência, como já ensinava Santo Agostinho de Hipona, é onde pessoa ouve a voz de Deus (Conf X: 1,1). Aquele que pretende ocupar o lugar de “nosso pai”, porque ao redor dele há uma “auréola misteriosa”, está invadindo um âmbito que não lhe corresponde. Daí, o caminho para os mais diversos abusos é bem curto.

    É certo que há personalidades doentias que sabem aproveitar muito bem essas situações. Mas também há mecanismos institucionais que favorecem o surgimento e a manutenção de abusos. E sobre isso, temos que falar!

    Especialmente a partir da segunda metade do século XX, o número de personalidades carismáticas que fundaram movimentos, associações e comunidades de vida cresceu exponencialmente. Todavia, esse crescimento não foi devidamente acompanhado pelas autoridades eclesiásticas. Diante do desafio da perda de fiéis para o mundo secularizado e as diversas confissões cristãs, religiões e formas de espiritualidade, muitos detentores do poder eclesiástico fizeram vista grossa para problemas graves que aconteciam dentro de movimentos, associações e comunidades de vida.

    Francisco, há pouco, refletia sobre o exercício da autoridade nos movimentos: “considerando os casos de abuso de vários tipos que ocorreram nessas realidades e que têm sempre a sua raiz no abuso de poder. Muitas vezes, a Santa Sé teve que intervir nos últimos anos, iniciando difíceis processos de reabilitação. Penso não só nessas situações muito ruins, que fazem muito barulho, mas também nas doenças que vêm do enfraquecimento do carisma fundacional, que se torna morno e perde sua capacidade de atração” (Papa Francisco, 16 set. 2021). Sua preocupação é mais que legitima!

    Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer da compreensão – autocompreensão, melhor dito – que padres possuem de seu ministério presbiteral. O Concílio Vaticano II indicou o caminho para a “des-sacerdotização” dos padres resgatando o ministério neotestamentário dos presbíteros (LG 28 e PO). A função sacerdotal no Antigo Testamento estava diretamente vinculada ao culto e ao sagrado; aqueles chamados a servir às comunidades do Novo Testamento não se veem, em primeiro lugar, como servidores do sagrado, mas como enviados para anunciar a Boa-nova do Reino de Deus (Mc 16,15).

    A Igreja de Jesus, portanto, não comporta um “ministério do sagrado”, mas um “ministério a serviço do Reino” ou, em palavras mais contemporâneas, um “ministério missionário”. Nesse sentido, o ministro cristão não é “santo” – entendido como “separado”, “intocável” –; é um homem chamados a servir comunidades concretas, mas como um membro seu. Nada menos cristão que considerar os padres “acima” das comunidades, como se fossem figuras quase angelicais. Não! São tão humanos como os demais membros da comunidade.

    A compreensão – autocompreensão, insistimos – de um ministério sagrado nas comunidades cristãs também abre espaço para abusos. Possivelmente, em uma grande parte das comunidades cristãs não nos encontremos com abusos de consciência, moral e sexual – graças a Deus! Porém, nos encontraremos, sim e com frequência, com abusos de poder, financeiros e patrimoniais. Por que o padre tem que residir na maior casa do bairro? Por que sempre tem que ter o carro do último modelo? Francisco já teve oportunidade de expressar sua preocupação com isso (Papa Francisco, 06 jul. 2013).

    Sabemos que o questionamento é pesado, mas s perguntarmos se não há nela espaço – pequenos e grandes porões subterrâneos– que favorecem o surgimento de uma mentalidade abusiva que chega a ser criminosa, em caso de personalidades doentias, e pelo menos, escandalosa, em casos de personalidades mais equilibradas.

    Está correto afirmar que os casos são muito diversos e não podemos tratar um abuso sexual da mesma forma como abordamos um abuso de poder ou econômico. Fato! Mas ambas as situações são abusivas e a “auréola misteriosa” ao redor dos ministros ordenados nada ajuda a colocar um fim definitivo nessas feridas que fazem o Corpo de Cristo sofrer tanto.

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    É o Apocalipse? As manifestações de 07 de setembro


    Imagem: Pixabay

    Podemos dizer que a perplexidade da nação com relação ao ocorrido na semana passada ainda paira no ar. Mas afinal de contas, o que aconteceu? Sinceramente, é uma tarefa quase impossível – para não dizer improvável – tentar entender a movimentação do Sr. Presidente da República e de seus apoiadores. Talvez a capa de um conhecido semanário – que parafraseou um conhecido filme – tenha conseguido expressar da melhor forma o que vivemos na semana passada: “O estranho mundo de Jair”. Muito estranho!

    Dentro de toda essa estranheza, não é nada estranho – com o perdão da redundância! – que líderes radicais católicos e evangélicos tenham vaticinado semanas antes a chegada do Apocalipse. Mas o Apocalipse chegou?

    Muitas e muitos pensam que Apocalipse é apenas um livro do Novo Testamento cristão, no entanto apocalipse é um gênero literário já presente no Antigo Testamento; exemplos da apocalíptica veterotestamentária são o livro do profeta Daniel e trechos do livro do profeta Ezequiel. Trata-se de um gênero literário que surgiu Judaísmo tardio, isto é, durante os períodos da dominação persa e grega depois do Exílio. 

    O ambiente apocalíptico deixou marcas profundas em diversos setores da sociedade de Israel no tempo de Jesus: a seita dos essênios, também conhecida como seita de Qumran, estava fortemente impregnada por mensagens apocalípticas; a atividade e a pregação de João Batista também possuíam traços nitidamente apocalípticos. Nas próprias palavras de Jesus de Nazaré, encontramos, entre tantas influências do Antigo Testamento, ideias e imagens da apocalíptica judaica. Mas afinal de contas do que se trata todo esse movimento?

    Como ensinam diversos autores de Cristologia do século XX, sobretudo do pós-Concílio, um traço muito marcado da apocalíptica do Judaísmo tardio, que também se faz notar no tempo de Jesus e no próprio Jesus, é a chegada do novo éon, isto é, a instauração definitiva do reinado de Deus em Israel e sobre toda a Criação. Há trechos belíssimos no livro do profeta Ezequiel, já citado, que mostram a restauração da vida, sobretudo daquelas e daqueles que foram esquecidos pelos poderes deste mundo (Ez 36,24-26; 37,4-6).

    Diante do fracasso desses poderes – entenda-se político e econômico –, a esperança popular se eleva àquele que tem o poder definitivo em suas mãos. Não se trata de um poder que subjuga ou domina, mas um poder que salva e liberta; não um poder de opressão, mas um poder sustentado pela justiça, bondade e amor. Apocalipse, portanto, não tem nada a ver com destruição e instauração de poderes dominadores, mas com a revelação (do verbo grego apokalypsein) da bondade suprema de Deus.

    “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,14) proclama Jesus ao iniciar seu ministério público, isto é, a intervenção definitiva e amorosa de Deus na história está próxima. Deus fará justiça às injustiçadas e aos injustiçados; estará ao lado daquelas e daqueles que foram esquecidos pelos poderes deste mundo; inaugurará o novo éon, isto é, o novo tempo da justiça e do direito (Sl 33,5) para com as abandonadas e os abandonados, para com as empobrecidas e os empobrecidos.

    Quando líderes radicais católicos e evangélicos incitavam a população para se erguer a favor do Capitão e proclamavam a chegada do apocalipse não estavam se referindo ao que a Escritura nos apresenta como tal. É de se imaginar que evocavam muito mais as telas de Hollywood – ou da Record –, nas quais se vê destruição, terra arrasada, vidas destroçadas. O apocalipse conclamado por esses líderes pseudorreligiosos não tem nada a ver com o Apocalipse do Deus de Jesus Cristo; trata-se do apocalipse dos homens.

    Mas afinal de contas, o apocalipse de 07 de setembro chegou ou não? O do Deus de Jesus Cristo ainda não; o dos homens, ou mais especificamente, o do Capitão chegou... Enquanto seus seguidores fanatizados saíam pelas ruas e praças do país imitando “arminhas” com seus dedos e exigindo a instauração de um poder autocrático, milhões de brasileiras e brasileiros são empurrados para abaixo da linha da miséria. A fome é uma realidade cada vez mais presente nos lares de milhões de famílias. O desemprego é um flagelo que vitimiza sobretudo os jovens da sociedade. Toda essa situação de calamidade social e econômica se vê ainda mais grave com o escandaloso número de quase 600.000 mortos pela pandemia de covid-19 e a crise hídrica e energética na qual o país está entrando.

    Estaria demais mencionar, em uma situação tão grave como a que vivemos, que os apoiadores do Capitão – cidadãos de bem, como gostam de ser chamados – são violentos, misóginos, racistas e homofóbicos, apoiam a destruição das matas e a expulsão de seus povos originários para que a força do agronegócio – que não tem nada de pop! – continue fazendo crescer as contas bancárias de grandes corporações.

    Sim! O apocalipse chegou! O apocalipse do Capitão... Mas não chegou 07 de setembro passado, como arautos da desgraça anunciaram, chegou no segundo turno das eleições de 2018 quando a maldade dos homens, que segregam e separam, se sobrepôs à bondade de um Deus que faz o sol nascer sobre bons e maus (Mt 5,45), que derruba os muros do ódio e faz do que era divido uma unidade (Ef 2,14).

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • CONGRESSO

    Congresso Oikos abre inscrições para a submissão de trabalhos


    O Congresso Oikos é fruto de parceria entre instituições de ensino católicas de todo o país (Imagem: Divugação)

    Organizado e promovido pelas áreas de pastoralidade de 17 instituições católicas brasileiras de Ensino Superior, foi confirmada a realização do Congresso Oikos, que será realizado de 3 a 5 novembro deste ano e propõe uma reflexão em torno da articulação dos temas emergentes do pontificado do papa Francisco - Educação, Economia, Ecologia e Ecumenismo (4E's) - na perspectiva de assumi-los como eixos de ações estratégicas e cooperativas entre as instituições de Ensino Superior do país.

    O evento tem como objetivo incentivar a produção científica sobre as suas temáticas centrais, além de promover o intercâmbio de conhecimento entre estudantes, pesquisadores e profissionais de diversas áreas, de modo a buscar reunir produções acadêmicas de cunho teórico e experiencial que abordem esses 4E's em cada grupo de trabalho em que o participante poderá se inscrever.

    Além dos grupos de trabalho, o Congresso Oikos contará com diversas atrações e com a presença de grandes convidados(as), nomes de referência em suas áreas de atuação e pesquisa dentro da proposta de cuidados pastorais presente na temática do evento. As inscrições já estão abertas!

    Saiba mais e participe: https://www.even3.com.br/oikos2021/



  • REFLEXÃO SOBRE A QUARESMA DE SÃO MIGUEL

    Que quaresma é essa?


    Uma reflexão sobre mais uma moda da internet (Imagem: Pixabay)

     

    Na liturgia católica do domingo 22 de agosto, lemos: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60). Estamos concluindo o capítulo seis do Evangelho segundo João que estamos meditando há algumas semanas.

     

    Qual seria essa “palavra dura” dita por Jesus e motivo de escândalo para os discípulos? Deve ter sido algo pesado, porque muitos o abandonaram. Lembremo-nos dos principais fatos do trecho bíblico: o “sinal dos pães” que acontece no contexto da Páscoa (1-15), a multidão que vai até Cafarnaum atrás de Jesus e é questionada por ele se lá estava porque viu sinais ou simplesmente porque tinha comido pão (24-35), os fariseus que se perguntavam se ele não era o filho de José e se não conheciam sua mãe (41-51).

     

    Poderíamos meditar dias sobre cada uma das passagens acima e o que nelas é nós narrado. Mas concentremos no “sinal”: Jesus é o Pão da Vida, aquele que veio para dar vida ao mundo. Quem partilha do Pão da Vida também se compromete com vida do mundo, isto é, se compromete a dar de comer a quem tem fome e beber a quem tem sede. A Eucaristia não é só cume da vida cristã, é recomeço: todas as vezes que partilhamos o Pão do altar, nos comprometemos a partilhar o pão do dia a dia, sobretudo com os necessitados e os excluídos. O sinal não só a Eucaristia em suas “espécies”, mas a vida eucarística de irmãs e irmãos na qual não há fome, nem sede; não há exclusões, nem divisões.

     

    A “palavra dura”, portanto, é vida. Quem se compromete com o Pão da Vida, se compromete com a vida! Especialmente com a daquelas e daqueles que tem a própria vida ameaçada pela fome, pela sede, pela exclusão, pela divisão. Os discípulos queriam só as “espécies”, não queriam compromisso com a vida. Por isso, abandonaram Jesus. E nós?

     

    Passa pela imaginação de muitas e muitos que simplesmente participando do rito da missa já possuem um bilhete carimbado “para o céu”. Será? Em outro trecho do Evangelho (Mt 25,31-46), não aparece nenhuma vez o questionamento sobre a quantidade de missas em que estivemos ou o número de terços que rezamos; o grande questionamento gira em torno da atenção aos pequeninos - quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, na prisão ou doente. Não são as nossas pretensões que nos levarão “para o céu”…

     

    Não deixa de nos chamar a atenção o fato de que sempre aparecem novas “modas católicas”, principalmente nos meios digitais. A moda da vez é a “quaresma de São Miguel”. Sejamos sinceros: não é tão da vez, porque é uma tradição da família franciscana que se remete ao próprio Francisco de Assis, assim como a medalha de São Bento não é invenção recente, mas se remete ao santo de Núrsia.

     

    O que tem chamado a atenção é o estardalhaço vindo das redes sociais: legiões que passam horas conectadas, numerosos grupos que se levantam às 04h30, lives e mais lives sobre a dita “quaresma”. A pergunta que não quer calar é: para quê? Se muitas e muitos pensam que conquistaram “o céu” por tanto esforço, a resposta já sabemos: não! A oração é força motriz da vida cristã, mas para estar com Aquele que nos ama - não para conquistar ou ganhar  nada.

     

    A propósito, a palavra “conquista” pode sugerir um sentido - ainda que equivocado - para essa “quaresma”. Como mencionávamos acima, toda essa movimentação nasce das tantas “modas” que vêm e vão; elas movimentam máquinas muito lucrativas e conquistam, sim, lucro para quem as promove. Mais uma vez, nos vem à mente uma passagem do Evangelho: Jesus condenando o comércio religioso (Jo 2,16). “Conquista” também nos aponta a outro problema sério: a religião entendida como prosperidade. Antes que as vozes se levantem e digam que isso se dá só no protestantismo, vejamos as motivações para a “quaresma”: bem-estar individual, prosperidade financeira, cura interior e tantas outras afins. O neoliberalismo também está acordando às 04h30 para que uns poucos lucrem e muitas e muitos fiquem olhando só para si e seus perrengues - nada menos cristão…

     

    Para concluir: se essa legião de cibernautas católicos vivesse a Quaresma da Liturgia, que nos convida a caminhar com Jesus pobre e humilde até a Páscoa, com o mesmo fervor que estão vivendo essa “quaresma”, a vida da Igreja seria muito diferente.

    Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.

  • REFLEXÃO

    Acabou p…


    Reflexão sobre uma oração feita de joelhos, diante da bandeira da República. (Imagem ilustrativa: Pixabay)

    "Acabou p…"

    É possível orar ajoelhado ao redor de uma bandeira com essas palavras?

    No dia 01/08, as “milícias ensandecidas” que defendem à toda custa o Sr. Presidente da República saíram para as ruas para exigir o assim chamado “voto auditável”. A manifestação levou muitas e muitos ao questionamento se não deveríamos retornar também ao pombo correio, porque os e-mails e as postagens nas redes sociais – tão queridinhas das “milícias” acima citadas – não são auditáveis. Em todo caso, assistiu-se mais uma vez ao show de horror de um Brasil paralelo no qual ser “cidadão de bem” é a mesma coisa que ser machista, racista, homofóbico e ter ódio de pobre.

    Na cidade de Londrina/PR, segundo uma postagem no Twitter do Deputado Federal Felipe Barros (PSL/ PR), um grupo desses “cidadãos de bem” estava ajoelhado ao redor de uma bandeira verde-amarela com as palavras “Acabou p…”. O que mais chamava a atenção no post era a legenda: “Londrina orando pelo Brasil”. Como palavras tão agressivas e chulas podem motivar alguém a orar?

    Algumas informações importantes: se a postagem for procurada agora no Twitter, encontrar-se-á com a seguinte mensagem: “Este Tweet está indisponível”. Portanto, não é possível comprovar se a foto é verdadeira ou fake - usando uma palavra que os “cidadãos de bem” adoram, inclusive seu Mito se enrolou bastante por causa dela na última semana. Entretanto, pelo comportamento desses “milicianos” é de se esperar que a foto seja verdadeira.

    Por quem eles oravam? A legenda dizia “pelo Brasil”. Mas, de fato, estavam orando pelo Sr. Presidente da República. Inclusive, um traço de sua personalidade ficou claríssimo nas últimas semanas: temos um Presidente que se comporta como uma criança mimada. Quando os holofotes não estão sobre ele – pudera os atletas, mas sobretudo AS atletas olímpicas brasileiras têm dado um show de alegria nos jogos de Tóquio –, faz birra. A criança mimada que despacha no Planalto do Planalto – bom, nem sempre porque prefere passeios de moto a se ocupar com o país que deveria governar – não suporta que MULHERES brilhem no maior espetáculo esportivo do planeta. E, por isso, birra! Como? Com o blá-blá-blá do voto auditável… Aff! O que as brasileiras e os brasileiros têm que aguentar! A propósito, um traço psíquico típico dos tiranos é ser mimado; só fica em paz quando seus caprichos são atendidos e o mundo gira em torno deles.

    Mas de volta à postagem: supondo que a foto seja verdadeira, os “milicianos de bem” estavam orando pelo Presidente mimado. Mas a quem estavam orando? Pela sua pobre retórica, pode-se imaginar que a Jesus Cristo – afinal de contas, ser “cidadão/ miliciano de bem” implica ser nominalmente cristão.

    Só nominalmente! O Jesus de Nazaré, manso e humilde de coração, não aprovaria que suas seguidoras e seus seguidores orassem em torno a palavras tão violentas e vulgares como “acabou p…”.

    A oração, como tantas mestras e mestres da espiritualidade cristã e das diversas religiões esclarecem, é um ouvir silencioso e atento da voz Daquele que ama o ser humano, que tem suas entranhas de misericórdia comovidas pelo pobre e pequeno (Lc 1,78). Portanto, a verdadeira oração jamais admite violência. O orante se esvazia de suas pretensões e seus desejos para ser preenchido pelo Espírito Daquele a quem quer ouvir. Orar é deixar que o Amor de Deus encha todo o ser e a existência do orante; logo, não há espaço para vulgaridades na oração.

    A verdadeira oração cristã - não a supostamente encenada na postagem do Deputado Federal - conduz o ser humano à contemplação do rosto de Deus e à ação em favor de seus prediletos, isto é, dos pobres. Ora et labora diria Bento de Núrsia, o pai do monaquismo do Ocidente cristão.

    Como já foi mencionado anteriormente, mesmo que a foto postada no Twitter tenha sido “photoshopada”, não é de se estranhar que “milicianos de bem” façam isso. Que saibam, contudo, que não estão orando ao Bom Pastor de Nazaré, mas estão orando a outro deus.

    Qual deus seria esse? Talvez os baals cananeus a quem se ofereciam sacrifícios humanos violentos. Mas também poderiam ser os deuses da fertilidade, cuja adoração se desenvolvia na prostituição sagrada. Prostitutas sacerdotisas recolhiam o sêmen dos fiéis e prometiam, com isso, a fertilidade da terra. Ao se ajoelharem em torno da palavra “p…”, os “milicianos de bem” mostram que também reverenciam o mesmo líquido sagrado de então.

    * Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.


  • REFLEXÃO

    Como partilhar na era do acúmulo?


    Uma reflexão à luz do Evangelho do XVII Domingo do Tempo Comum. (Imagem: Pixabay)

    A liturgia católica do último domingo está marcada por uma mudança: até o domingo retrasado líamos o Evangelho segundo Marcos, nos próximos domingos, leremos o Evangelho segundo João. Mais especificamente, o capítulo VI desse Evangelho.

    Em João, não nos encontramos com a narração da instituição da Eucaristia na última ceia de Jesus com seus discípulos. O grande texto eucarístico do Evangelho é o capítulo VI, introduzido pelo sinal dos pães seguido pelo longo discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum sobre o Pão da vida.

    Concentremo-nos no sinal dos pães, leitura da liturgia católica de domingo passado. Em primeiro lugar, não temos em João nem a palavra poder, força ou obra usadas para designar uma ação de Jesus, como tão pouco a tradução latina milagre. Sinal é algo que nos remete a uma realidade maior, superior. Qual é essa realidade no relato do evangelho de hoje? O Reino de Deus, onde não haverá fome por falta de pão e Ele enxugará as lágrimas de nossos olhos (Ap 21,4).

    Jesus ao tomar os pães de cevada, apresentados a ele por um meninos, deu graças (eucharistíes). A ação de graças (eucharistía) é pela partilha do Pão da vida, que é Jesus, e o pão da vida, com o qual nos alimentamos no dia a dia. Partilhar o Pão da altar se converte em uma exigência para partilhar do pão do dia a dia.

    Uma Igreja eucarística é aquela que, por partilhar o Pão do altar, sabe partilhar o pão do dia a dia. As comunidades são convidadas a partilhar, talvez o pouco que tenham, com aquelas e aqueles que nada têm. Uma Igreja eucarística, nesse sentido, se torna comunidade profética que denuncia o acúmulo egoísta em tempos neoliberais.

    Denunciar os abusos daqueles que seguem à risca a cartilha neoliberal, como o Sr. Ministro da Economia, não é coisa de “esquerdopata”, é tarefa cristã. Vivemos tempos, nos quais o acúmulo de riqueza por aqueles que muito têm é sumamente valorizado pelos que possuem o poder econômico e político. A propósito, não partilhar os bens públicos, como as empresas estatais que o Sr. Ministro tanto quer privatizar, é uma ação concreta de acúmulo de riqueza - os bens do povo passam para as mãos de poucos milionários.

    É uma vergonha que durante a pandemia de covid-19 os pouquíssimos milionários, quando não bilionários, brasileiros tenham ficado mais ricos, enquanto milhões são novamente empurrados para a fome e a miséria. Na tradição judaico-cristã, o que vivemos hoje tem nome: chama-se pecado. O acúmulo de riquezas, sim, é pecado! Não vivemos em um mundo eucarístico, vivemos em um mundo pecaminoso.

    Dois bilionários, um inglês e outro norte-americano, passearam pelo espaço nos últimos dias. Muitos aplaudiram a façanha… Façanha verdadeira acontecerá quando mulheres e homens, crianças e idosos tiverem pão, todos os dias, para seu sustento. Infelizmente, não vivemos em um mundo da partilha, vivemos em um mundo do acúmulo.

     

    * Pe. Matheus S. Bernardes é presbítero da diocese de Campinas e professore de Teologia na PUC-Campinas. 

  • DIRETO DE ROMA

    Papa Francisco arma defesa contra tradicionalistas - Versus Deum, versus populum (II)


    Papa Francisco segue cada vez mais consciente dos malefícios do tradicionalismo para a liturgia e a unidade da Igreja. (Imagem: Pixabay)

    Versus Deum, versus populum (II)

    Um breve comentário sobre o motu proprio Traditionis Custodes do Papa Francisco

    O problema que levou Bento XVI ao motu proprio Summorum Pontificum e Francisco ao motu proprio Traditionis Custodes é o mesmo: a Eclesiologia do Povo de Deus do Concílio Vaticano II.

    Das várias imagens bíblicas usadas na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja a que mais ressalta ao ler o documento é o Povo de Deus (LG II). A Igreja não é uma sociedade perfeita (societas perfecta), como no tempo pós-tridentino, mas um Povo peregrino neste mundo. Assim como Deus reuniu seu Povo ao sair do Egito (Ex 13,17-14,31), também reúne a Igreja em Jesus Cristo e pela força do Espírito Santo, a Igreja.

    Os membros da Igreja mais que se distinguir se igualam uns aos outros pelo Batismo que nos incorpora, a todas e a todos, em Cristo e em seu Corpo. Antes de sermos bispos, presbíteros, diáconos, religiosas e religiosos, somos cristãs e cristãos, batizadas e batizados, filhas e filhos de Deus, irmãs e irmãos em Cristo. A missão da Igreja, isto é, anunciar o Evangelho do Reino de Deus como mostrou Paulo VI na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, pertence igualmente a todas e a todos.

    A liturgia, portanto, deve ser expressão dessa igualdade fundamental das cristãs e cristãos; é celebração da fé do Povo de Deus, é comunhão com o Senhor em sua Palavra e nos Sacramentos, mas também nas irmãs e irmãos que ouvem atentamente essa Palavra e se reúnem em torno do altar. É de se entender, portanto, que a Eclesiologia do Povo de Deus tenha como consequência uma liturgia participativa, na qual toda a assembleia toma parte plena, consciente e ativamente (SC 14).

    Durante o Vaticano II, um pequeno grupo liderado pelo bispo francês Marcel Lefebvre se recusou a acolher essa visão de Igreja aberta a todas e todos e ao mundo e não aceitou as reformas, também na liturgia, propostas pelo Concílio e levadas a cabo por Paulo VI e João Paulo II. Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, cuja principal meta era conservar os ensinamentos pré-conciliares. Em 1988, foi excomungado por João Paulo II por ter sagrado quatro presbíteros de sua Fraternidade bispos sem o devido mandato pontifício, ou seja, sem validade canônica.

    No entanto, o próprio João Paulo II permitiu que sacerdotes da Fraternidade, assim como fiéis que os seguiam e pretendiam se manter em comunhão com Roma, pudessem ainda celebrar a Eucaristia seguindo o missal de Pio V (Missale Romanum). Anos depois, mais especificamente em 2007, Bento XVI, mediante o motu proprio Summorum Pontificum, insistiu que o tema recebesse a devida regulamentação jurídica. A intenção de ambos os Romanos Pontífices era clara: abrir espaço para diversos grupos dentro da comunhão eclesial; logo, essa concessão só deve se entender no empenho pela unidade da Igreja – o que infelizmente não aconteceu.

    Francisco, passados 13 anos dessa promulgação, realizou uma ampla consulta aos bispos para verificar a fecundidade ou não da prática. E no dia 16 passado, com o motu proprio Traditionis Custodes, acabou por limitá-la drasticamente por razão de abusos cometidos na celebração eucarística. Alguns pontos de especial relevância:

    - os livros litúrgicos promulgados por Paulo VI e João Paulo II são a única expressão da lex orandi (norma de oração) da Igreja Católica de rito latino;

    - corresponde ao bispo diocesano – e só a ele – autorizar ou não o uso do missal de Pio V;

    - o bispo diocesano deve determinar um ou vários lugares para a celebração eucarística seguindo o missal de Pio V, porém que não seja a igreja paroquial; tampouco deve constituir novas paróquias pessoais para os grupos que se sintam vinculados a esse modo de celebrar a Eucaristia; nomear um sacerdote que possa acompanhar esses grupos e que, portanto, saiba latim; também deve se ocupar de que novos grupos como esses não sejam criados em sua diocese;

    - as leituras devem acontecer em idioma vernáculo durante a celebração.

    Trata-se de um documento de extrema importância para a vida da Igreja nos dias de hoje, quando muitas e muitos assistimos os excessos cometidos especialmente por sacerdotes e grupos ultraconservadores. Para que um sacerdote ou um grupo possam fazer uso do missal de Pio V, devem solicitar a autorização ao bispo diocesano.

    Contudo, o que mais queremos ressaltar nesta reflexão é o que Francisco escreveu na carta destinada a todos os bispos que acompanha seu motu proprio: aquilo que Bento XVI alertou para não acontecer no artigo 1º de Summorum Pontificum, infelizmente se deu. Não são poucos os casos de grupos tradicionalistas afirmarem que são portadores da “verdadeira Igreja”, enquanto aquelas e aqueles que seguem o Romano Pontífice, os bispos e conferências episcopais e, sobretudo, o Vaticano II não a representam.

    O que num princípio era uma possibilidade para a comunhão eclesial se tornou uma pedra de tropeço. Infelizmente, a lex credendi (norma da fé) na imaginação de muitos membros desses grupos tradicionalistas não foi preservada em sua integridade. Os usos e os abusos de véus e correntes, assim como os excessivos gestos litúrgicos e a dureza e frieza da doutrina, especialmente no que se refere à moral sexual, por parte desses grupos acabaram por causar divisão no Corpo de Cristo e afastamento de muitas irmãs e muitos irmãos que se aproximavam com coração sincero da Igreja.

    Francisco se mostra mais uma vez um homem de coragem e assume sua missão de conservar a unidade e a comunhão eclesial. Não o faz, porém, desde a dureza das normas, mas desde a misericórdia, que tanto tem caracterizado seu pontificado. As mudanças que ele introduz no motu proprio devem acontecer com cuidado pastoral e diálogo; elas não são impostas aos grupos tradicionalistas como pena, pelo contrário são um convite à conversão ao qual nenhuma cristã e nenhum cristão pode se esquivar.

    Somos Povo em marcha. Ora, por nossa comunhão com Jesus Cristo, somos reflexo de sua Igreja; ora, por nosso pecado sobretudo quando viramos as costas aos pobres e aos oprimidos do mundo, somos pedra de tropeço e escândalo. O Povo em marcha não se alegra por ser verdadeiro ou falso, mas porque sabe que tem o Senhor a seu lado.

    A liturgia é expressão da fé desse Povo peregrino que, entre os embates do dia a dia, se esforça para viver a justiça do Reino até que ele chegue em sua plenitude.

    Padre Matheus da Silva Bernardes é  presbítero da Arquidiocese de Campinas. Vigário paroquial da Paróquia Santo Cura D’Ars, em Campinas, e professor de Faculdade de Teologia da PUC-Campinas.

  • POLÊMICA NO VATICANO

    Papa Francisco arma defesa contra tradicionalistas - Versus Deum, versus populum (I)


    Vaticano: papa Francisco decide evitar divisões na Igreja Católica, fomentada pelo uso de liturgias de séculos passados. (Imagem: Pixabay)

    Versus Deum, versus populum (I)

    Um breve comentário sobre o motu proprio Traditionis Custodes do Papa Francisco

    Normalmente, usamos este espaço para fazer alguns comentários, a partir da Teologia, sobre a situação sociopolítica do país. Contudo, estando o mandatário principal da República internado e se esforçando para fazer o “número 02” por vias corretas e não pela boca, como normalmente o faz, vamos nos dedicar a temas “mais igrejeiros”.

    Na manhã do dia 16 passado, Francisco nos surpreendeu mais uma vez: publicou a carta apostólica em forma de motu proprio Traditionis Custodes. Traduzindo, trata-se de um documento que tem o peso de lei e que deve ser acolhido como tal por todas as católicas e todos os católicos. Qual é o tema desse motu proprio? A limitação do estabelecido em outro motu proprio, publicado pelo seu antecessor Bento XVI, em 2007. Mas do que trata tanto motu proprio? Da autorização concedida por Bento XVI, agora limitada por Francisco, para que a celebração da Eucaristia pudesse ser realizada de acordo com o missal publicado Pio V, em 1570, e reeditado por João XXIII, em 1962.

    Um pouco de história não faz mal para ninguém! No século XVI, a Igreja Católica foi profundamente desafiada pela Reforma Protestante, levada adiante especialmente por Martinho Lutero, João Calvino e Henrique VIII. Sem entrar em maiores detalhes teológicos e políticos da época, a resposta católica à Reforma veio com o Concílio de Trento, realizado entre os anos (1545-1563), e com o movimento que dele nasceu. Uma característica muito marcante do movimento pós-tridentino foi a afirmação do era “legitimamente” católico para contrapor o que estava acontecendo nas igrejas reformadas. É desse tempo, por exemplo, a constituição dos seminários e a centralização do ensino da Teologia (scientia sacra) nessas instituições. Por outro lado, também era preciso dar destaque à ação mais visível da Igreja: a liturgia.

    Não é do período, porém, a centralidade da liturgia na vida da Igreja: é muito antiga, do tempo do Novo Testamento e dos Padres da Igreja. Mas segundo a compreensão antiga, a liturgia jamais poderia ser celebrada distante da comunidade e de suas necessidades básicas. A liturgia não era simplesmente a performance de um ministro ordenado, mas era verdadeira oração da Povo de Deus reunido em Jesus Cristo pela ação do Espírito. As cristãs e os cristãos eram abraçados pela celebração litúrgica e, a partir dela, podiam sair pelas ruas e praças para dar testemunho da Boa-nova do Reino. De fato, foi isso que aconteceu com as e os incontáveis mártires dos primeiros séculos cristãos.

    Não obstante, com o passar dos séculos – e aqui é preciso fazer uma referência histórica precisa, a conversão do Império Romano à força da espada de Constantino ao Cristianismo –, a liturgia se torna cada vez mais uma performance sacra que oração do Povo ou ação do Povo, como indica sua etimologia (as palavras gregas laós, povo, e ergón, obra ou ação, resultam na palavra leitourgía, liturgia). A performance litúrgica ou até o espetáculo litúrgico se distancia ainda mais do Povo de Deus na Idade Média com a vida dos mosteiros e das grandes catedrais.

    Entendemos, portanto, que o movimento pós-tridentino tenha querido remarcar ainda mais essa liturgia performática ou espetacular. O ministro ordenado ou, como muitos ainda insistem em dizer, o ministro sagrado reza a missa versus Deum olhando para a eternidade simbolizada no altar; reza em latim, considerado não só idioma eclesiástico, mas idioma sagrado; e revestido com vestes litúrgicas e sagradas. O que infelizmente aconteceu com a liturgia pós-tridentina foi, de fato, a separação visível e total entre o celeste e o terrestre, entre o sagrado e o profano, entre o clero e o povo. O clero, representante da única Igreja de Cristo, estava de costas para o povo que vivia entre as mazelas e perrengues do mundo.

    Foram mais de quatro séculos para redescobrir a riqueza da liturgia, como celebração do Povo de Deus reunido em Jesus Cristo pela ação do Espírito, como celebração do mistério pascal de Cristo presente em sua comunidade. O Concílio Vaticano II, precedido por diversos movimentos – vale a pena destacar especialmente o movimento litúrgico das abadias beneditinas e o movimento patrístico das faculdades de Teologia alemãs, flamencas e francesas – declara mediante a Constituição Conciliar Sacrossantum Concilium a reforma da liturgia.

    No número quatorze da constituição lemos: “É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão, ‘raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido’.” (1Pd 2,9; 2,4-5).

    Talvez seja a formulação “participação plena, consciente e ativa” a que tenha conduzido o maior número de mudanças na celebração litúrgica: já não se reza mais versus Deum, mas versus populum (de frente para o povo); a distância entre o ministro ordenado e o povo deve ser diminuída – de fato, a reforma litúrgica exigiu adaptações no espaço litúrgico que já não mais remarcar a separação do sagrado e do profano, mas a presença do mistério pascal de Jesus Cristo em sua Igreja; a Palavra ocupa lugar central durante a celebração litúrgica, afinal de contas sem ela, que proclama o que está sendo celebrado, os Sacramentos podem ser confundidos com rituais mágicos; o idioma da celebração é o idioma que se fala no lugar (conhecido como vernáculo). Mas o mais importante: a liturgia é celebração do Povo de Deus; não é âmbito para intimismos e individualismos, é o lugar próprio de encontro com o Senhor Ressuscitado em sua comunidade orante, comunidade que rende graças (do grego, eucharistein) por sua presença entre nós.

    Tudo muito bonito até aqui, mas é precisamente aqui que está o problema que levou Bento XVI ao motu proprio Summorum Pontificum de 2007 e Francisco ao motu proprio Traditionis Custodes do último dia 16. Mas isso será tema para nossa próxima reflexão.

    * Padre Matheus da Silva Bernardes é  presbítero da Arquidiocese de Campinas. Vigário paroquial da Paróquia Santo Cura D’Ars, em Campinas, e professor de Faculdade de Teologia da PUC-Campinas.

  • SOCIEDADE DE TEOLOGIA

    NOTA da Diretoria da SOTER por ocasião do Encerramento do 33º Congresso Internacional


    Teólogos e Cientistas da Religião estiveram reunidos em evento da SOTER nesta semana. (Imagem: Divulgação SOTER)

    NOTA da Diretoria da SOTER por ocasião do Encerramento do 33º Congresso Internacional da SOTER, ocorrido entre os dias 12 e 16 de julho de 2021

    O 33o Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER ocorreu de forma remota entre os dias 12 e 16 de julho de 2021, contando com mais de 700 inscritos, tendo como tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”.

    Ao fim do Congresso, manifestamos a nossa preocupação e o nosso repúdio em relação à deterioração da democracia no Brasil, que se traduz não só no ataque contínuo às Instituições Democráticas e ao Estado de Direito, mas também no aumento da repressão e da violência policial, no aprofundamento da desigualdade social e da fome, na destruição ambiental, na agressão aos povos indígenas, seus direitos e vidas, nos atos sistemáticos de racismo que revelam a condição do racismo estrutural presente em nossa sociedade, na afirmação do sexismo e no crescimento do feminicídio.

    O negacionismo foi e é responsável por grande parte do número de mortos pela atual pandemia da COVID-19, que já ceifou mais de 530 mil vidas no Brasil. Este mesmo negacionismo agravou a crise econômica, levando a um enorme contingente de pessoas desempregadas e ao aumento da fome e da miséria.

    Neste contexto, as Religiões, sobretudo certas expressões do Cristianismo, nem sempre têm tido um papel profético, crítico e libertador. Ao contrário, alguns grupos têm instrumentalizado a Religião, negado o caráter laico do Estado e promovido, ou reforçado, a deterioração de nossa democracia em nome de Deus, inclusive afirmando e praticando a intolerância religiosa.

    Urge reafirmar que as Religiões devem estar a serviço da vida e não da morte.

    O Cristianismo possui uma longa trajetória e, em nosso país, foi fundamental, juntamente com outras Tradições Religiosas, na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do Estado e da Sociedade.

    Conclamamos hoje todas as lideranças religiosas a se colocarem na defesa incondicional da plena democracia, dos direitos humanos e da justiça social.

    16 de julho de 2021.

     

    Diretoria da SOTER

    Cesar Augusto Kuzma – Presidente

    Maria Clara Lucchetti Bingemer – Vice-Presidente

    Paulo Fernando Carneiro de Andrade – 1º Secretário

    Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães – 2º Secretario

    Andreia Cristina Serrato – Tesoureira

  • OPINIÃO

    Brasil 0 x 1 Argentina: sim, Deus é brasileiro!


    Ontem (10), no Rio de Janeiro, a seleção brasileira perdeu a final da Copa América para a Argentina. Bem feito! (Imagem: Pixabay)

    Em 2013, quando esteve no Rio de Janeiro, Francisco disse: “O Papa é argentino, mas Deus é brasileiro!” O tom jocoso do “Papa do fim do mundo” amenizou as tantas zoeiras que são feitas com “los hermanos”. Contudo, o placar do jogo final da Copa América confirmou Francisco: Deus é realmente brasileiro!

    Pode até parecer piada que o autor da frase mencionada anteriormente venha do mesmo país de Di María, autor do gol que fez com que o Brasil amargasse um segundo lugar. Mas não é piada! Insisto: Deus é brasileiro!

    A derrota para o eterno rival em uma final de Copa América mostra como Deus quer o povo brasileiro: diante de um cenário catastrófico, como o que estamos vivendo desde a eleição de 2018 e ainda mais agravado com a pandemia, uma vitória teria sido mais uma bomba de fumaça para tirar o foco de atenção do povo.

    Na liturgia católica do último fim de semana, lemos na primeira leitura um trecho da profecia de Amós - talvez o profeta do Antigo Testamento que mais escancara e condena a injustiça que os poderosos do Reino de Israel cometiam contra os pobres. Amós, usando a linguagem popular, não teve papas na língua para denunciar os mandos e desmandos daqueles que usaram e abusaram do nome de Deus para usurpar dos miseráveis.

    Não estaríamos diante de uma situação parecida? O Capitão insiste tanto em invocar o nome de Deus, mas para quê?

    Para tentar se safar da culpa das rachadinhas e se livrar das acusações de propina na aquisição de vacinas? Para incitar o ódio de suas milícias reais e digitais? Ou talvez para abençoá-lo em seus passeios motociclísticos?

    Invocar o nome de Deus, como tão claramente vaticina o profeta Amós traz como consequência o compromisso com a justiça. As atitudes e as ações do Capitão mostram que ele está comprometido com tudo menos com ela, com a justiça…

    Mas em um Maracanã esvaziado a justiça foi feita: o Brasil perdeu! Não teremos Carnaval fora de época para comemorar a vitória da seleção, nem poderemos nos aglomerar nas ruas e praças para brindar mais um título conquistado.

    Infelizmente - ou melhor, felizmente, teremos que continuar assistindo estarrecidos os depoimentos na CPI da covid que, até o momento, só comprova o que muitos já intuíam: sim, a morte de muitas e muitos é responsabilidade do Capitão e de seus comparsas.

    Deus é verdadeiramente brasileiro porque não permite que este povo que vive abaixo do Equador não caia mais uma vez na tentação da frivolidade, mas assuma seriamente as consequências dos anos mais difíceis de sua história recente.

    Que o Deus da justiça, sobretudo da justiça para com os empobrecidos e excluídos, tenha piedade do Brasil! E que cumpra o desejo do Capitão, afinal somente Ele o tirará da cadeira da Presidência da República! E que o cumpra logo!


    * Pe. Matheus da Silva Bernardes é sacerdote e docente de Teologia na PUC-Campinas. 

  • SOFRIMENTO HUMANO

    Não existe sofrimento estranho


    Onde quer que exista o sofrimento, mesmo que distante, cada um de nós está relacionado com ele. Os que sofrem estão umbilicalmente relacionados com os que não sofrem. (Imagem: Pixabay)

    Diante da tragédia épica que atinge a todos os brasileiros e brasileiras é necessário reconhecer que não existe sofrimento estranho. O sofrimento e as lágrimas dele resultante jamais podem ser pensados como algo privatizado. Necessariamente eles alcançam a todos e todas e, por isso, deveriam ser considerados como públicos, ou seja, todos podem escutar a voz dos que sofrem e, de alguma maneira, agir.

    Porém, é excessivamente forte a tentação de evitarmos o sofrimento, principalmente dos outros. Soa, até mesmo como se fosse natural, fechar os olhos ao nos deparar com outros olhos e olhares que demonstram sofrimento. Se religiosamente acredita-se que Deus é maior do que o sofrimento vivido, será que manteríamos a mesma convicção em relação às pessoas que nos cercam, ou seja, elas manifestariam solidariedade e ternura em meio à insuportável dor vivida?

    Numa sociedade que estimula o individualismo e potencializa o narcisismo, não é de estranhar que a insensibilidade do ser humano também se faça presente. Somos naturalmente insensíveis à dor, desde que não seja a nossa própria dor. Possivelmente é dessa insensibilidade “natural” que morrem as pessoas. Todavia, seria possível humanizar a dor? Talvez sim. Mas, para isso, deveríamos considerar seriamente o conselho de Simenon: “para entender a aflição de outras pessoas provavelmente se faz necessário colocar-se, pelo menos durante alguns minutos, uma vez na vida, no lugar de cada uma delas”.

    Não existe sofrimento estranho. A prática da solidariedade torna-se tanto uma fonte de desejo quanto de esperança abastecido pela fraternidade que presumidamente existe em todo ser humano. Assim, onde quer que exista o sofrimento, mesmo que distante, cada um de nós está relacionado com ele. Os que sofrem estão umbilicalmente relacionados com os que não sofrem. Um e outro são inseparáveis pois a dor não escolhe entre amigos e inimigos.

    Não existe sofrimento estranho porque ele afeta a todos. Somos coparticipes dele. E, por isso, somos continuamente interrogados sobre o que fazemos com a nossa vida. Onde nos encontramos diante do sofrimento que atinge com fortes ondas a centenas de milhares? Sofremos junto com as vítimas ou nos posicionamos ao lado dos causadores de sofrimento? Devemos considerar que o sofrimento não admite neutralidade e, até mesmo arriscaria dizer que, vicariamente, sofremos pelos outros. Um sofrimento que nos liberta ao libertar nossos próximos das dores sofridas.

    As condições sociais determinantes do sofrimento podem ser alteradas a partir das ações de cada um. Possuímos a capacidade de mudar e de aprender com o sofrimento ao invés de nos tornarmos insensivelmente piores. No entanto, algumas barreiras precisam ser ultrapassadas, haja vista que elas não são intransponíveis. E, nesse sentido, duas barreiras podem ser vistas como predominantes e precisam ser urgentemente vencidas: a primeira delas é o embrutecimento do ser humano e, a segunda, é a insensibilidade.

    Assim, a única maneira de vencer as barreiras que se apresentam seria a de compartilhar a dor dos que sofrem, não os abandonar à própria sorte e, além disso, fazer com que o clamor de cada um deles encontre eco em nossas próprias vidas.


    A ternura e a solidariedade são imperecíveis e devem superabundar em meio à tragédia.

    * Prof. Dr. Luiz Alexandre Solano Rossi é professor de Teologia na PUCPR.

  • REFLEXÃO

    E se Bolsonaro fosse um sábio-filósofo ao modo de Salomão?


    A República de Platão nos põe pra pensar: e se, em vez de alguns reis-filósofos comandando magnanimamente a turba indisciplinada, nos concentrássemos em construir uma democracia cheia de gente filósofa? (Imagem: Pixabay)

    Desde que o atual representante tupiniquim entrou na cena política, tenho pensado muito sobre os reis-filósofos da República de Platão. Em um clima de políticos que quebram as normas, aumentando a polarização, a desconfiança e o desespero crescente sobre a falta de um discurso político produtivo, é fácil desejar que nossos próprios líderes fossem mais como os governantes magnânimos e sábios descritos por Platão, que abnegadamente promovem o florescimento coletivo da cidade ideal.

    Os Estados Unidos já demonstraram tal ensejo do povo, pois o Sr. Trump não está mais na Casa Branca, por exemplo. Quem dera esse desígnio recaísse sobre o Brasil em 2022. Ontem a pesquisa Datafolha mostrou que a reprovação do Sr. Bolsonaro subiu e atingiu 51% - maior índice de rejeição enfrentado desde sua eleição:

    "A pesquisa Datafolha divulgada em 8 de julho ainda mostrou que 52% veem o presidente como desonesto, 55% como falso, 58% como incompetente, 62% como despreparado, 66% como autoritário, 57% como pouco inteligente e o mesmo percentual o considera indeciso. Bolsonaro também é visto como quem favorece os que têm mais posses para 66% da população", expôs a conta @midianinja no Instagram. 


    A filosofia sábia do Rei Salomão

    O desejo por líderes sábios me lembra um pouco dos conceitos teológicos que vislumbramos sobre o Rei Salomão, quando tratamos de uma hermenêutica bíblica que observa a importância de uma boa gestão política. Com a morte do Rei Davi, Salomão não tinha direito ao trono de Israel, que deveria ser entregue ao seu meio-irmão Adonias. Porém, os relatos bíblicos afirmam que, por vontade divina, seguida da perspicácia de sua mãe Bate-Seba e com o apoio dos sacerdotes e do povo, Salomão foi elevado ao trono. Isso conduziu a comunidade israelense a intrigas e conspirações pelos partidários de Adonias. 

    Nos dias de hoje, alguém chamaria isto de "golpe". O curioso é que, de acordo com a tradição judaica, Salomão provou ser merecedor do cargo. Dizem que foi um grande governante, um juiz justo e imparcial - daqueles de dar inveja ao midiático Sr. Sérgio Moro. Ademais, teve habilidade para desenvolver o comércio da região, manter boas relações diplomáticas com países vizinhos - o que o tornou um líder pacífico e não guerreador como fora o pai. Ora, este é um pequeno resumo do quanto nosso mandatário poderia aprender com os princípios de filosofia, sabedoria e pacifismo do "golpista" Salomão. 


    Do pacifismo à tirania alardeada pela República de Platão

    O conto de advertência de Platão sobre a queda da democracia é um tanto quanto assustador. No relato de Platão, um homem forte que promete lutar pelo povo é escolhido democraticamente, mas seus desejos incontroláveis ​​conduzem a uma rápida queda para a tirania. Platão observa que, para evitar esse fim infeliz, precisamos de governantes virtuosos e benevolentes que sejam governados pela razão, e não por seus desejos irracionais. Em outras palavras, precisamos de um presidente filósofo-sábio tal qual Salomão! 

    Alguns podem ter esperado que o Sr. Presidente fosse o líder virtuoso e razoável adequado para lidar com nossas divisões. Mas, por mais que queiramos uma figura para nos unir como nação, os incentivos e obstáculos que constrangem os políticos tornam impossível (e não democrático) esperar que até mesmo o líder mais magnânimo endireite este navio em meio a um caos político, a constrangimentos teológicos e à crise provocada pela pandemia.

    Se tivéssemos um Congresso inteiro de tais líderes, o que claramente não temos, o Brasil que clamava por um governante sábio, que decidiu eleger um crente num "Deus acima de todos", teria ainda dificuldade para ser conduzido ao seu curso almejado.

    Mas, peraí: e se Platão estiver certo sobre a importância do filósofo para a cidade florescente e errado sobre o papel que ele ou ela deve ocupar lá? E se, em vez de alguns reis-filósofos comandando magnanimamente a turba indisciplinada, nos concentrássemos em construir uma democracia cheia de gente filósofa? Essas pessoas poderiam crescer nas virtudes que os filósofos valorizam e, ao fazê-lo, exigir melhor de seus líderes eleitos democraticamente.

    Pessoas que esperam transparência, que exigem verdade, que fazem perguntas curiosas e que reconhecem as moderações de seu conhecimento e as limitações de seus líderes poderiam garantir um melhor engajamento de baixo para cima. Que diferença isso faria em relação à política de medo, desinformação e propaganda enganosa, de cima para baixo, populada em nossas redes digitais? Insisto: e se tivéssemos um presidente filósofo?

    Olha gente, comecei a ver isso como uma opção real - pra salvar o Brasil - por dois motivos. Em primeiro lugar, formar pessoas filósofas fornece algum senso de esperança de que nosso futuro coletivo e democrático possa ser melhor do que nosso presente. Em segundo lugar, tenho visto evidências de que isso é possível entre os alunos das universidades onde trabalho. Especialmente após provocação sobre o tema de "volta da Monarquia" comentada por um colega de trabalho, citando a República de Platão. Sim, comentávamos sobre o quanto nossos jovens têm buscado cada vez mais pela tradição e pelo retorno de valores dos séculos passados. Afinal, para muitos está difícil vislumbrar um rumo saudável para nossa sociedade republicana... Porém, pensei em uma sugestão menos radical. 


    Precisamos de mais filósofos, de um presidente filósofo

    Em seu sentido antigo, corporificado no pensamento ocidental por Sócrates, Platão, Aristóteles e os filósofos helenísticos, a Filosofia é uma espécie de treinamento para viver bem. Nesse modelo, os filósofos se engajam em exercícios para desenvolver as virtudes necessárias para o florescimento humano. As virtudes referem-se aos hábitos, atitudes e disposições que fazem de uma pessoa o tipo de pessoa que é. Nós fazemos coisas virtuosas por causa de quem nós somos.

    Várias tradições priorizam diferentes virtudes morais e intelectuais, e os eticistas contemporâneos das virtudes podem questionar meu uso geral do termo aqui. Mas existem várias virtudes, creio eu, que são pré-condições para um engajamento político produtivo e, portanto, imperativo para o povo filósofo se desenvolver: humildade intelectual, atenção, curiosidade e empatia - só pra começar.

    Essas virtudes são necessárias para ser um pensador claro, um bom conhecedor e um participante engajado na democracia. Então, qual é o valor dessas virtudes particulares para nossa democracia? Tome a humildade intelectual como exemplo. Quando pratico a humildade intelectual, parto do pressuposto de que não sei tudo e que minhas próprias opiniões poderiam se beneficiar com o teste de clareza e consistência. Depois de perceber isso, cada compromisso é uma oportunidade de aprender mais sobre os pontos fortes e fracos de minhas próprias visões.

    E no caso da empatia: se estou realmente curioso sobre a experiência de outra pessoa e ouço para compreender, é mais provável que eu imagine como me sentiria no lugar dela. É menos provável que eu os veja como um outro e mais provável que os veja como dignos da consideração moral que desejo para mim. Ora, isso nos faria evitar tanta perda de tempo e energia ao pensar que alguém seria capaz de ganhar U$ 1 dólar por vacina no meio de uma pandemia mundial, onde apenas a vacinação em massa se apresenta como solução para milhares de mortes diárias.


    Já não importa direita ou esquerda: importa o bem comum
     

    Se os filósofos se comprometem a crescer nessas virtudes essenciais para um bom engajamento, podemos imaginar um futuro melhor do que o presente, no qual a polarização não interrompa automaticamente o engajamento produtivo. Afinal, essas virtudes não são proveniência da direita ou esquerda política. Em vez disso, qualquer pessoa minimamente decente deve se esforçar para incorporá-los. Precisamos de pão para quem tem fome e sede de justiça. É algo básico. 

    Se esse tipo de compromisso com a transformação filosófica, em sua forma antiga, pudesse ser buscado em uma escala mais ampla, criaria um obstáculo natural para as forças iliberais e não democráticas que prosperam com a desinformação, a vilania, a propaganda e o medo. Se isso fosse possível, eu seria a primeira a dizer: “Esqueçamos os reis-filósofos e a febre pela volta da Monarquia... Se desejamos o bem comum, precisamos mesmo é de gente filósofa!”

  • REFLEXÃO

    E o Sr. Presidente foi à missa?!!


    A gravidade do problema não está nas intenções do Sr. Presidente da República, mas nas intenções dos ministros eclesiásticos que não só permitiram, mas ajudaram a arquitetar o triste e lamentável espetáculo. (Imagem: Pixabay)

    E o Sr. Presidente foi à missa…
    Fomos pegos de surpresa ontem. Não pelas declarações realizadas na CPI, que a partir de hoje pode - e deve investigar o Sr. Presidente da República por prevaricação -, mas porque ele foi à missa.

    Sim! Ele, sim, foi à missa!
    Partamos de um princípio básico: como todo e qualquer ser humano, o Sr. Presidente pode entrar em um templo católico e participar da celebração eucarística. O problema não está aqui.

    Tampouco, o problema está no fato de que ele tenha se aproximado da Eucaristia e a recebido em comunhão. O Concílio Vaticano II ressalta o primado da consciência de cada pessoa (GS 16). Logo, se ele deveria ou não ter recebido a Eucaristia é um problema de sua consciência.

    Mas onde estaria o problema de Sr. Presidente ter ido à missa?
    Em primeiro lugar, no próprio fato de ele não ter entrado como toda e qualquer ser humano em um templo católico. Sua ida a uma igreja católica, ontem, foi calculada em todos seus ínfimos detalhes.

    Portanto, sua participação em uma celebração eucarística foi uma das tantas movidas que ele faz para contentar seus fanáticos, entre os quais, infelizmente, há muitos católicos.
    Em segundo, o problema - e gravíssimo! - está no fato de ele ter recebido a Eucaristia. Não bastou usar a ida a uma igreja para fins políticos, o Sr. Presidente usa a Eucaristia para esses fins.
    Não é somente grave, é gravíssimo!

    A gravidade do problema não está nas intenções do Sr. Presidente da República, mas nas intenções dos ministros eclesiásticos que não só permitiram, mas ajudaram a arquitetar o triste e lamentável espetáculo. Por isso, é um problema não é só, se tornou gravíssimo!

    Bem sabemos como muitos ministros eclesiásticos impossibilitam o acesso à Eucaristia de irmãs e irmãos que se casaram novamente. Pelo que sabemos, o Sr. Presidente estaria em seu terceiro casamento.

    Não nos é desconhecido, também, o fato de muitos ministros eclesiásticos se opõem à comunhão de irmãs e irmãos que buscam outras profissões de fé. É-nos conhecido que o Sr. Presidente, mesmo se dizendo católico, foi batizado nas águas do Rio Jordão por um pastor evangélico. Aqui há dois problemas: há um só Batismo, por mais que alguém abandone a fé católica e abrace outra profissão de fé, não deve ser batizado novamente e vice-versa. Logo, o que aconteceu nas águas do Rio Jordão não foi um Batismo, mas uma heresia.

    Além do mais, ao renegar publicamente sua fé - o que aconteceu em Israel foi publicado em vários meios de comunicação - o Sr. Presidente se tornou, naquele então, um apóstata. Os Padres da Igreja, autores cristãos dos primeiros séculos, insistem que os dois maiores pecados que afastam um cristão da mesa eucarística são precisamente a heresia e a apostasia.

    Problema para a sociedade, problema para a Igreja

    A ida do Sr. Presidente à missa não traz somente um problema para a sociedade, que mais uma vez assiste estarrecida seus atos politiqueiros.

    Sua ida à missa e sua comunhão se tornaram um problema para a Igreja! É preciso ressaltar que sua ida à missa ontem foi precisamente calculada, logo não podemos usar o argumento “não negamos a Eucaristia a quem entra na fila”.

    O Papa Paulo VI citando a Santo Agostinho insiste que a Eucaristia não é um prêmio, mas remédio para os enfermos e alimento para os famintos. A comunhão do Sr. Presidente foi, também, calculada.

    Não estaríamos diante de um abuso feito à Eucaristia, que a partir do ocorrido pode ser equiparada a qualquer amuleto mágico? Além do mais, se ele comungou por que negar a comunhão aos descasados, aos homossexuais, aos pobres que entram em nossas igrejas e, por estarem mal vestidos e mal cheirosos, não entram na fila da comunhão? Não podemos nos esquecer, tampouco, de que os ministros eclesiásticos que mais condenam irmãs e irmãos a não receberem a comunhão são também aqueles que defendem com unhas e dentes o tri-casado Presidente da República.

    Fiquemos somente nos argumentos teológicos morais e com relação à heresia e à apostasia, por ora.

    Se entramos na problemática de que comunhão com o Corpo eucarístico de Cristo nos conduz à comunhão com seu Corpo eclesial, especialmente com seu Corpo sofrido e retorcido nos pobres e excluídos, teríamos que nos remeter a mais de quinhentos mil argumentos para constatar que a comunhão do Sr. Presidente é um ultraje.

    * Pe. Matheus S. Bernardes é sacerdote da Arquidiocese de Campinas/SP e professor de Teologia da PUC-Campinas.
  • OPINIÃO

    Morte e vida Severina

    Morte e vida Severina, famosa obra de João Cabral de Melo Neto, parece ter saído da literatura para a realidade, revelando a atual faceta social de um Brasil em pandemia. (Imagem: Pixabay)

     

    Não é nada fácil descrever um dia de vida milhões de brasileiros e brasileiras. Uma grande parte do nosso povo vive em condições inadmissíveis de existência. O número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza aumentou em um milhão por ano de 2015 a 2018. Hoje são 13,5 milhões (6,5%) de pessoas na miséria no país. Atualmente, o número de pessoas que vivem no Brasil com renda per capita inferior a R$ 145,00 mensais equivale à população de países como Portugal, Grécia, Bélgica e Bolívia. Os parâmetros usados para definir o que é linha de pobreza têm como base o valor de US$ 5,5 (aproximadamente R$ 22,00) por dia, adotado pelo Banco Mundial para identificar pobreza em países em desenvolvimento. Os dados do IBGE mostram que o Brasil tem 25,3% da população nessa condição, o que equivale a 52,5 milhões de pessoas. Outros 6,5%, o equivalente a 13,5 milhões de pessoas, estão na linha de extrema pobreza – aqueles que têm renda de até US$ 1,9 (aproximadamente R$ 7,70) por dia, de acordo com o Banco Mundial.

    Enquanto o país como um todo avança, deixa em seu rastro a fome que salta aos olhos dos empobrecidos e a dor que bate forte no estômago. De um lado avançamos e de outro regredimos. Talvez até mesmo avancemos em consequência da miséria de muitos. Em novo do desenvolvimento construímos periferias para alojar os considerados sobrantes que teimam em viver entre nós!

    Em nosso país de dimensão continental, vemo-nos à volta com problemas de ordem e dimensão universais: fome, racismos, intolerância, latifúndios, etc. Se somos um país de dimensão continental, muito maior e elevado à enésima potência é a pauperização do povo. Contudo, maior deveria ser o empenho de todos na busca por justiça e inclusão social

    Dessa forma, o indivíduo nasce e já adquire, ainda pequenino, o título de subcidadão. Seus pais precisam trabalhar quase que o dia todo, impedindo o contato mais íntimo com a sua subfamília. Nas horas da refeição, quando há, a criança é a mais privilegiada, pois os seios de sua mãe ainda não secaram e, assim, algumas sobrevivem da subnutrição.

    A casa, de pau a pique, chão batido, sem energia elétrica e esgoto que corre a céu aberto, indicam a submoradia de uma subfamília que vive amontoada em dois subcômodos. Melhorar de vida nem passa pela cabeça. Apesar de serem trabalhadores incansáveis, são frutos do subemprego: os filhos no mercado informal, vendendo ora aqui e ora ali entre os carros parados nos semáforos enquanto o pai, subempregado numa grande empresa, recebe o salário mínimo. E do submercado de trabalho e sua consequente subremuneração é natural que surja uma subestimulação e, quando isso acontece, dizemos que os pobres trabalhadores são preguiçosos, ladrões e vagabundos.

    Da mesma forma não há como estudar. Por isso, a melhor opção é se matricular na escola da vida. Assim a subeducação vai se formando e construindo ao redor de si uma considerada subcultura dos sobrantes da sociedade. Na verdade, tal família, que é o paradigma da família brasileira, vive num submundo e precisa se sujeitar a uma subvida.

    Diante da situação descrita acima é precisa negar a neutralidade e assumir uma posição. Assumir o compromisso de transformação da realidade e priorizar o cuidado do ser humano, principalmente os mais vulneráveis, aqueles que são expropriados de sua dignidade. Por isso, é necessário colocar um ponto final na proliferação da subvida e estabelecer os pilares que permitam o restabelecimento da dignidade de todos e todas e de uma sociedade em que caibam todos e todas.

     

    * Prof. Dr. Luiz Alexandre Solano Rossi, doutor em Ciências da Religião, é professor de Sagradas Escrituras na PUCPR.

  • FILOSOFANDO O FUTURO

    Transhumanismo: uma filosofia para o futuro


    Transhumanismo: a filosofia tem se perguntado sobre a interação dos seres humanos e máquinas (Imagem: Pixabay)

    Já assistiu Black Mirror, a aclamada série inglesa, carro chefe da Netflix? Se sim, você, como muitos, teme o futuro. Não somente as futuras ações humanas, mas a conjunção destas com as super tecnologias que já estão em desenvolvimento.

    A engenharia genética, a nanotecnologia e a robótica são as mais promissoras e já estão dando seus frutos. Podemos destacar: Em relação a primeira delas, o desenvolvimento do método Crispr/Cas9 para edição de genoma, descoberto por Emmanuelle Charpentier e a Jennifer A. Doudna, laureadas com o Prêmio Nobel de Química de 2020[2]; em relação a segunda, a produção e comercialização de nano fármacos como o Abraxane, usado para reduzir os efeitos colaterais do tratamento de câncer [3]; e em relação à terceira, a robô humanoide Sophia, tornada cidadã da Arábia Saudita [4]. 

    A ficção cientifica tem se concretizado em um ritmo acelerado. Segundo Ray Kurzweil, a tecnologia se desenvolve exponencialmente, crescimento que na maioria das vezes mal compreendemos. Vejamos o gráfico abaixo:

    No gráfico acima [5], ambos os crescimentos aparentemente, em um primeiro momento, coincidem em velocidade. Porém, posteriormente há uma explosão de rapidez. Segundo Kurzweil, por volta de 2045 atingiremos a singularidade tecnológica, momento em que não haverá distinção entre humanos e máquinas ou entre realidade física e virtual, isto é, a fusão do nosso pensamento, de nossa existência biológica com nossa tecnologia.  Provavelmente sua preocupação aumentou bastante agora, afinal Black Mirror pode ter um fundo de verdade, não é mesmo? Mas por que a série é tão pessimista? Só me recordo de 2 episódios razoavelmente otimistas. Essa é uma das preocupações de Fereidoun M. Esfandiary (ou FM-2030, como é mais conhecido), um dos maiores nomes do Transhumanismo:

    Os intelectuais ocidentais em particular, claudicantes pela culpa puritana e pelas dúvidas de si mesmos, inundam o mundo com livros, filmes e cenários que predestinam o futuro. Para eles nossos sucessos e potenciais não são reais. Somente nossos fracassos. Devemos desenvolver uma nova filosofia destemida do futuro. Uma visão de mundo esperançosa que possa encorajar as pessoas a querer enfrentar o futuro e a querer planejá-lo. [6]

    Transhumanismo (preferimos a grafia com ‘h’ e as razões para isso estão explicadas no dicionário da Cultura da paz) é essa filosofia destemida do futuro ao qual o autor se refere. Se trata de um movimento filosófico e cultural que propõe o aprimoramento da humanidade por meio das tecnologias. Ele se associa a ideia da renovação do projeto moderno Humanista/Iluminista, fortalecendo este projeto na medida em que busca não só o aprimoramento humano, mas também a erradicação da pobreza, escassez de recursos, desigualdade social e de gênero tal como a crise climática e ambiental.


    O movimento costuma ser resumido com os ‘3 supers’:
    - Super longevidade (busca pelo prolongamento indefinido da vida);
    - Super inteligência (aprimoramento dos processos cognitivos); e
    - Super bem-estar (a eliminação de todo sofrimento desnecessário).


    David Wood, um dos maiores nomes do Transhumanismo tecnoprogressista (vertente à esquerda no espectro político), inclui também o quarto ‘super’: Super democracia (aprimoramento da inclusão social e da resiliência, mantendo a diversidade e a liberdade - superando tendências humanas para o tribalismo, o sectarismo, o engano e o abuso de poder [8]).

    Leitor, se você teme o futuro, acha que as famosas distopias de Orwell ou Huxley se concretizarão (curiosamente o criador do termo ‘Transhumanismo’ é justamente Julian Huxley, irmão de Aldous), que as desigualdades de toda ordem se aprofundarão, que o meio ambiente será aniquilado, argumento aqui que o Transhumanismo é justamente onde essas questões são discutidas com profundidade.

    Não se trata somente de um grupo de entusiastas dos potenciais tecnológicos. São antes, ao menos alguns, pensadores preocupados em propor soluções para futuros problemas, como o desemprego e a extinção de muitas profissões na medida em que foram desempenhadas por inteligências artificiais ou problemas já milenares como a desigualdade. O que, em grande medida, caracteriza o ser humano é justamente seu potencial criativo e improvisador.

    No entanto, embora vivamos em sociedades complexas e tecnológicas, nossa estrutura orgânica ainda é quase a mesma do paleolítico. Os humanos serão, dizem os transhumanistas, os próximos a se desenvolverem.

    Em 1994, Marvin Minsky, importante cientista computacional, escreveu um texto que, em suas últimas palavras, capturou a essência do Transhumanismo, sendo talvez um bom resumo: “Os robôs herdarão a terra? Sim, mas eles serão nossos filhos. Devemos nossas mentes às mortes e vidas de todas as criaturas que estavam engajadas na luta chamada evolução. Nossa tarefa é fazer com que todo esse trabalho não seja em vão" [9].

    Referências:

    [1] Keoma Ferreira Antonio é filósofo transhumanista, doutorando em filosofia política e Ética pela UFRN. Alguém que ainda acredita que o Brasil tem jeito. Se gostar deste texto, leia também esse livro: clique aqui.  Ou, se preferir o PDF gratuitamente, basta clicar aqui

    [2] https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/10/entenda-tecnica-crisprcas9-que-ganhou-o-nobel-de-quimica-de-2020.html

    [3] https://canaltech.com.br/video/top-tech/5-invencoes-da-nanotecnologia-9866/

    [4] https://www.techtudo.com.br/listas/2018/08/nove-curiosidades-sobre-sophia-a-primeira-robo-cidada-do-mundo.ghtml

    [5] KURZWEIL, Ray. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology. New York: Viking. 2005.

    [6] ESFANDIARY, F. M. Up‐Wingers: A Futurist Manifesto, E‐Reads, 1973, pág.3

    [7] SÍVERES, Luiz ; NODARI, Paulo César (Orgs.), Dicionário da Cultura de Paz, Volume 2; CRV, 2021.

    [8] (Wood, np, versão Epub, 2018)

    [9] https://web.media.mit.edu/~minsky/papers/sciam.inherit.html#:~:text=beyond%20our%20grasp.-,Will%20robots%20inherit%20the%20earth%3F,in%20the%20struggle%20called%20Evolution

  • LIVRO DO MÊS

    A influência dos manuais de catecismo na História da Educação brasileira


    Evelyn de Almeida Orlando lança obra sobre a influência dos manuais de catecismo na Educação brasileira. (Imagem: Divulgação)

    Entre os anos de 1937 e 1965 Mons. Álvaro Negromonte, influenciado pelo Movimento da Escola Nova, publicou uma série de obras no campo do Ensino Religioso destinadas à escola e à formação de professores, as quais tornaram-se referências na Igreja Católica sendo largamente utilizadas em seu sistema de ensino. Este estudo sistematiza parte da influência da Igreja Católica na educação brasileira, fato verificado ao longo da história deste país.

    A partir das publicações do Mons. Álvaro Negromonte este livro assinado pela professora Evelyn de Almeida Orlando, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná/PUCPR, na Escola de Educação e Humanidades - Programa de Pós-Graduação em Educação, discute um aspecto desta história que são os livros para formação cultural e religiosa dos estudantes em diferentes momentos da educação deste país. Portanto, a publicação tem como chave de leitura a discussão dos catecismos como um projeto editorial, político e pedagógico que teve seu lugar muito bem demarcado na história da educação no Brasil, vinculado a um projeto maior de renovação da pedagogia católica no âmbito da modernidade no cenário nacional.

    Os catecismos são entendidos como uma categoria de obras com a intenção pedagógica da orientação religiosa dos estudantes. Ao longo dos capítulos verifica-se a sistematização de uma série de questões em torno da produção dos livros e da relação quase simbiótica entre autor e editor. De um lado, o autor, o qual  acreditava que tinha algo a dizer, algo que queria publicizar; de outro lado, o editor, o qual ao optar por investir em uma obra, atribuía-lhe um valor simbólico, potencializado pela sua representação no mercado editorial.

    Do resultado desses diferentes interesses em jogo e das negociações que se estabelecem a partir daí, nasce o livro. Do mercado editorial para mercado educacional, os catecismos do Monsenhor Negromonte colocam em circulação um projeto político, pedagógico e cultural de uma época sintonizado com os debates que vinham ocorrendo no campo educacional brasileiro.



    Coleção lançada pela Editora Appris, oferece desconto aos compradores online. (Imagem: divulgação).

  • EVENTO

    Espiritualidade, logoterapia, análise existencial e fenomenologia: diálogos


    Claretiano promove mesa-redonda sobre o significado da espiritualidade na visão de logoterapia (Imagem: Divulgação). 

    O Centro Universitário Claretiano realiza no próximo dia 25 de junho, das 20h às 22h, mesa redonda com o título "Espiritualidade, logoterapia, análise existencial e fenomenologia: diálogos". A proposta é perfilar uma análise das experiências religiosas pode nos revelar a natureza profunda do encontro entre o divino e o humano e suas implicações na vida humana. Compreender melhor tais experiências à luz da visão cristã, da Logoterapia, da Análise Existencial e da Fenomenologia Clássica podem nos trazer reflexões e recursos significativos para o enfrentamento de nossos desafios diários.

    O conteúdo versará sobre a espiritualidade na religião cristã e da fenomenologia, o significado da espiritualidade na visão de logoterapia e a visão e experiência da espiritualidade na vida de hoje. A mesa-redonda tem como objetivo apresentar o sentido da espiritualidade na visão da fenomenologia e do cristianismo, a espiritualidade na visão da logoterapia e como pode se dar a opção pelo estudo e vivência da espiritualidade.

    Os debatedores serão o Prof. Dr. Pe. Márcio Luiz Fernandes e a Prof. Dra. Marina Lemos Silveira Freitas, tendo como mediador o coordenador da Teologia no Centro Universitário Claretiano de Batatais, Prof. Me. Eugenio Daniel.

    O evento será via internet, por meio de explanação ao vivo, com possibilidade de interação através de chat (bate-papo), conduzido por Moderador. Após a transmissão ao vivo o conteúdo continuará disponível para acesso, porém, sem possibilidade de interação. Podem participar todos os interessados pelo assunto. É concedido certificado de horas complementares aos participantes, mediante pagamento de taxa simbólica.

    Outras informações: https://extensao.claretiano.edu.br/inscricao/atividades/ADMz37Ezyo


  • TEOLOGIA E INTELIGÊNCIA AMOROSA

    A necessidade da Inteligência Amorosa na comunicação teológica


    A racionalidade concede ao homem a capacidade de pensar, mas também amar. (Imagem: Pixabay)

    A linguagem teológica é um meio ao qual é possível expressar a revelação salvífica de Deus, que ocorre entre o Transcendente e um receptor. Na Sagrada Escritura, a comunicação feita pela linguagem escrita, foi produzida por um transmissor – Deus – e por um receptor – autores dos livros sagrados –.

    É uma comunicação perfeita que se perpetua pelos séculos, mas que encontra entraves no quesito de interpretação fidedigna à mensagem transmitida. Essa transmissão se dá pelo uso da Razão – inteligência – que é a característica dos seres racionais – humanos –.

    Sabe-se que a racionalidade concede ao homem a capacidade de entender, de pensar, de tomar decisões, e os sentimentos e as emoções são percepções diretas dos estados corporais, ou seja, aquela pessoa que nega o próprio sentimento e vive “apenas pela racionalidade” é incapaz de manter um equilíbrio interno, tornando-se doente e impossibilitada do auto reconhecimento e do reconhecimento do próximo.

    A ausência de sentimentos e emoções pode destruir a racionalidade, pois ambas se auxiliam, sendo possível até mesmo compreender que a racionalidade é o equilíbrio da emoção e vise versa. Por um tempo, compreendia-se a razão e a emoção como áreas divididas no ser humano, pelo fato de que existem estudos específicos sobre cada uma, entretanto, são inseparáveis.

    O ser humano precisa, através das relações interpessoais e da educação, lidar com os sentimentos tanto quando lida e forma sua racionalidade. É necessário também no fazer teológico e na comunicação teológica se atentar para o uso da racionalidade, mas também, da sensibilidade: do amor, dos sentimentos.

    A comunicação teológica, pela linguagem, é um processo continuo em que a pessoa humana se torna humana, sendo um fenômeno, e é o local em que todos reconhecem a transcendência. Para comunicar-se de forma clara e objetiva, e também, de uma maneira em que todos possam compreender, é necessário o uso também da emoção.

    Não basta apenas usar a razão, os meios teóricos e estruturais para explicar Deus, e não usar o sentimento, que é o meio para se chegar a Deus. É pelo amor – sentimento – que chegaremos a essência divina, e poderemos comunicar a essência divina.

    Como exemplo, vemos a Carta Encíclica Fratelli Tutti, Papa Francisco recorda o fazer teológico de São Francisco de Assis, quando diz: “No contexto de então, era um pedido extraordinário. É impressionante que, há oitocentos anos, Francisco recomende evitar toda a forma de agressão ou contenda e também viver uma submissão humilde e fraterna mesmo com quem não partilhasse a sua fé. Não fazia guerra dialética impondo doutrinas, mas comunicava o amor de Deus, compreendera que ‘Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus’ (1Jo 4, 1). (...) só o homem que aceita aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas, é que se torna realmente pai.”

    * Gustavo Alberto Pavan é acadêmico de Teologia no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba e Bacharel em Filosofia pela Faculdade São Basílio Magno (FASBAM). 

  • TEOLOGIA DA COMUNICAÇÃO

    A comunicação no âmbito da Teologia para uma experiência de fé


    A Revelação por parte de Deus ao homem só é possível através de um processo comunicativo (Imagem: Pixabay)

    No dia a dia de cada ser humano sentimos necessidade de expressar ao exterior nossos sentimentos, pensamentos, desejos, informações, ideias e isso só se tornam possível por meio da comunicação, por isso ela possui tanta importância para a própria constituição do ser humano e se torna cada vez mais importante se comunicar bem no processo de integração com o mundo que nos rodeia. O ser humano necessita desta relação, ele não é estático ou isolado, necessita estar com o outro e promover este encontro[1].

    Tamanha é nossa necessidade de nos comunicar que nos dias atuais se criou uma dependência dos meios de comunicação que tem causado uma absolutização desta forma de conhecimento, frequentemente tratada como única e verdadeira frente às demais. Segundo Martins[2], isso se deve a uma “saudade da comunicação” presente no coração do ser humano que comprova que esse tipo de comunicação mediática é irrisório frente a sua imensidão real.

    É a partir desse dessa busca constante do ser humano que surge a comunicação no âmbito da teologia, pois a Revelação por parte de Deus ao homem só é possível através de um processo comunicativo pelo qual Ele apresenta seu plano de salvação, a sua Palavra. Deus escolhe o ser humano e lhe confia sua missão e isto exige que ele esteja aberto e que responda a este diálogo iniciado pelo próprio Deus[3] que o colocou no mundo para que cuidasse de sua obra[4].

    Ao longo do Antigo Testamento são muitos os momentos em que Deus fala por meio dos profetas, essa palavra também está presente na criação e em todos os demais acontecimentos, porém poderíamos afirmar que o falar de Deus é metafórico, pois não é um fato histórico, mas um modo humano de perceber sua presença e, por isso, buscamos expressá-la à nossa maneira[5].

    Essa revelação acontece também de maneira “especial”[6], que dá tanto por Jesus Cristo quanto pela palavra escrita que tem seu ápice no Verbo Encarnado. Desta forma, nesse comunicar de Deus (Jesus Cristo) a comunicação ganha maior consistência porque vai além da limitação humana:

     

    Jesus Cristo é um caso único na comunicação, a partir do qual percebemos plenamente o valor humano desta, a sua meta e, também, a sua origem: Deus é comunicação. Por isso, não devemos temer considerar a Jesus como «o comunicador perfeito»[7].

    O fato novo de um Deus que envia seu Filho é a maior prova do desejo deste de relacionar-se com sua criação. Por tornar presente na história o rosto misericordioso de Deus, em sua vida Ele também revela o projeto do Pai para todos os seres humanos[8] que é dar voz àqueles que já não tem forças para falar.

    O método comunicativo de Jesus (a parábola) é evidentemente simples, acessível para toda e qualquer pessoa. Esta forma de se revelar desperta a confiança das pessoas, pois toca no âmago de cada uma delas, essa abertura e acolhida é que torna possível o diálogo e o encontro de cada um com o projeto salvífico do Pai e consigo mesmo, suas histórias e dramas pessoais[9].

    A comunidade dos seguidores de Jesus surge a partir desta experiência do Ressuscitado. No cristianismo primitivo o que movia a comunidade era a palavra pronunciada pelos apóstolos que testemunharam a vida de Jesus e buscaram torná-lo presente na vivencia comunitária, no exercício da caridade e nas celebrações litúrgicas.

    É este sentido que a Igreja é reconhecida como “sacramento visível”[10], ela é destinada a comunicar e trazer presente o mistério da palavra pronunciada por Deus na história do ser humano e sua entrega total. Nos dias atuais este exercício eclesial se dá por meio da liturgia, da catequese e outras atividades pastorais, que nada mais são que processos comunicativos da evangelização pedida por Jesus [11].

    Vivemos num tempo muito propício para o exercício deste projeto eclesial de maneira mais eficaz devido ao aumento contínuo de possibilidades de anúncio através dos meios de comunicação, principalmente as redes sociais. Contudo, à medida que se aumentam a variedade e a eficiência dos meios de comunicação, também se dá voz a um número cada vez maior de pessoas, e estas muitas vezes usam estes recursos com um objetivo totalmente contrário ao que a própria comunicação se propunha.

    Tais “comunicadores” ao invés de promover o encontro e o diálogo fazem com que cada dia mais seus “seguidores” se distanciem daqueles que são diferentes, tornando-se assim “protagonistas do mal”[12] em meio a sociedade. Muitos destes ”comunicadores” infelizmente se intitulam cristãos e acabam por tornar sua mensagem um instrumento que contradiz totalmente o cerne do comunicar e da própria mensagem cristã que é a comunhão.

    Considerando o constante processo de diálogo de Deus com seu povo tanto na Antiga como na Nova Aliança fica claro a importância e de uma maior compreensão de como o exercício da fé cristã está totalmente ligada e depende de uma Teologia da Comunicação para sua correta compreensão e para que seja mais eficaz.

    Além disso, o cenário atual de evangelização cristã por meio das mídias faz com que percebamos a pouca valorização desta área de estudo, pois boa parte dos atuais comunicadores opta por caminhos que contradizem o sentido pleno da encarnação do Verbo.

    Tendo em vista a grande influência de muitos comunicadores cristãos na formação atual dos membros da Igreja, que ultrapassam a própria realidade paroquial, às vezes transpondo a autoridade magisterial da Igreja, faz-se necessário criar espaços formativos e de debates que ofereçam e possibilitem uma melhor compreensão da boa comunicação no exercício da fé cristã.



    * Platini Lennon Correia Santos é estudante de Teologia no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba.

    [1] CNBB, 2014, Apresentação.

    [2] MARTINS, Nuno Brás da Silva. O estatuto teológico de uma teologia da comunicação. Didaskalia, 2003, p. 349.

    [3] CNBB. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. Documentos da NBB 99, Brasília: Edições CNBB, 2014, n. 35.

    [4] Gn 2, 8-15.

    [5] MARTINS, 2003, p. 354.

    [6] ALBANO, 2016, p. 8.

    [7] MARTINS, 2003, p. 356.

    [8] CNBB. 2014, n. 43.

    [9] Ibid. n. 44.

    [10] PAULO VI, 1964, n. 10.

    [11] Mt 28, 19-20.

    [12] FRANCISCO. 2017.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    ALBANO, Fernando. O mistério de Deus e o conhecimento: revelação e teologia sistemática. Faculdade REFIDIM, 2016.
    BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
    CNBB. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. Documentos da NBB 99, Brasília: Edições CNBB, 2014.
    FRANCISCO. Mensagem por ocasião do 51º Dia Mundial das Comunicações Sociais: “Não tenhas medo, que Eu estou contigo” (Is 43, 5). 24 de janeiro de 2017.
    MARTINS, Nuno Brás da Silva. O estatuto teológico de uma teologia da comunicação. Didaskalia, 2003.

  • TEOLOGIA EM CONGRESSO

    Vem aí o 33° Congresso Internacional da SOTER - Religião, Laicidade e Democracia

    33° Congresso Internacional da SOTER Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas (Imagem: Divulgação).

    De 12 a 16 de julho de 2021 acontece, em formato on line e com transmissão pelo site do Congresso da SOTER. O Congresso Internacional da SOTER está entre os mais tradicionais da Área de Ciências da Religião e Teologia no país, chegando, em 2021, à sua 33ª edição, o que demonstra a consolidação da sua proposta e a importante contribuição acadêmica que traz à sociedade, na especificidade do seu saber, sempre com temas atuais e de interesses urgentes para a sociedade.

    A cada ano, este Congresso reúne um número significativo de teólogos, cientistas da Religião, estudantes de pós-graduação e pesquisadores de áreas afins, tanto em nível nacional como internacional. Para 2021, o Congresso prossegue as discussões anteriores e mantém a preocupação de estar atento às urgências da sociedade. Por esta razão, tratará sobre “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”.

    Hoje, percebe-se que a sociedade apresenta inúmeros desafios e que passa por profundas transformações. Neste cenário, é importante que as sociedades científicas, as universidades e os pesquisadores se posicionem sobre estes novos acontecimentos, na intenção de oferecer uma proposta reflexiva, que seja crítica, dialogal e construtiva.

    Este contexto convida a uma reflexão responsável, a partir de dados concretos que atingem o fator democrático e os direitos das pessoas, dentre eles, a liberdade, a laicidade e a questão religiosa. Visualiza-se hoje novas manifestações, novos gritos sociais e políticos, novos espaços de resistência e projeta-se uma transformação das estruturas e das instituições.

    É urgente pensar o papel da teologia e das religiões para um agir responsável, salvaguardando as garantias, os espaços e as liberdades, a fim de levantar pontos e práticas já existentes, mas também com a finalidade de oferecer novas perspectivas de atuação e investigação. A proposta deste Congresso investe em conferências com especialistas nacionais e internacionais, grupos de trabalho e fóruns temáticos, painéis e publicações.

    Ao trabalhar no seu 33° Congresso o tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”, a SOTER procura trazer uma questão importante e relevante para o atual contexto. Entende que é importante produzir um discurso científico que leve em consideração as novas realidades que surgem na sociedade e que interpelam o pensar e o viver das pessoas.

    O avanço da pandemia da Covid-19 e a grave crise política que atinge o país nos exigem uma atenção especial, um compromisso frente a estas realidades. Por esta razão, o Congresso Internacional da SOTER em 2021, atende os seguintes objetivos: Oferecer uma análise do atual contexto social, político e religioso, com atenção à laicidade do Estado e à emergência de novos movimentos sociais, políticos e religiosos que interagem na configuração democrática.

    Dentro deste cenário, situar a perspectiva das religiões e a responsabilidade que possuem perante este quadro, e da teologia como fonte de interrogação. Fundamentar os entendimentos sobre a democracia e laicidade para, a partir disso, discutir a questão do Estado, a questão do Direito, aspectos relevantes às liberdades e a causa dos direitos humanos e da liberdade.

    Proporcionar uma reflexão sobre a responsabilidade das religiões no atual contexto social, político e religioso, com atenção à garantia do estado democrático e na defesa da laicidade do Estado. Oferecer um olhar prospectivo sobre o quadro atual, que se tornou mais grave por conta da pandemia da Covid-19, e neste olhar destacar o papel das religiões e da teologia dentro deste cenário e quais seriam as novas perspectivas que se abrem à sociedade.

    Inscrições e informações: https://www.soter.org.br/congresso/2021