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Educação inclusiva

Entrevista: trajetórias de estudantes cegos e práticas escolares inclusivas

Luciane Molina durante a sua defesa de mestrado na Universidade de Taubaté.
Luciane Molina durante a sua defesa de mestrado na Universidade de Taubaté. (Foto: Arquivo pessoal)

Com o tema “Trajetórias de Estudantes Cegos e as Práticas Escolares Inclusivas”, a mestre em Educação, Luciane Maria Molina Barbosa, defendeu pela Universidade de Taubaté (Unitau) a sua dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-graduação em Educação e em Desenvolvimento Humano: Formação, Políticas e Práticas Sociais. Luciane fez uma análise descrevendo os entraves e conquistas da escola inclusiva sob a percepção de seis estudantes cegos nos seus processos formativos da Educação Básica ao Ensino Superior. A pesquisa é uma importante colaboração na área de educação inclusiva de pessoas com deficiência visual, principalmente se considerarmos a trajetória acadêmica e profissional de Luciane.

Luciane nasceu com baixa visão e foi alfabetizada usando recurso de letras ampliadas. Aos 13 anos, sua visão piorou e ela precisou aprender pelo sistema Braille. Passou por diversas dificuldades para estudar, desde a Educação Básica até a sua formação superior em Pedagogia. No entanto as dificuldades não foram empecilho para ela alcançar êxito tanto nos estudos como na sua carreira profissional. Luciane é referência na educação especial inclusiva e na formação de professores da educação básica, além de atuar na área de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba. Atualmente é consultora em Audiodescrição e tutora eletrônica de disciplinas pedagógicas dos cursos de Licenciatura no Núcleo de Educação a Distância da Universidade de Taubaté - UNITAU.

Em entrevista concedida com exclusividade ao Portal Bem Paraná, blog Tic Tag Comunicação & Educação Acessíveis, Luciane conta sobre as motivações que a levaram a escolher o tema da sua dissertação, voltada à educação inclusiva, assim como a sua própria experiência de vida como aluna com deficiência visual em um curso superior. Luciane ainda faz uma análise do que ela tem percebido de avanço na educação inclusiva, desde que se formou em Pedagogia, assim como o que realmente falta a ser feito para que os cursos na Educação Superior sejam acessíveis. Por fim, avalia a Audiodescrição como recurso de acessibilidade no processo de ensino-aprendizagem. 

Confira a entrevista com Luciane Molina: 

O que te motivou a escolher este tema para a sua pesquisa?
A educação inclusiva sempre esteve presente no meu percurso formativo. Como aluna, tive que vivenciar situações de pertencimento à escola inclusiva por meio de adaptações, de acesso a recursos e a práticas escolares que pudessem ser mais adequadas à minha condição visual, que percorreu nuances da baixa visão a cegueira. Para isso, sempre contei com apoio familiar. As justificativas vão muito além das questões de ordem pessoal; perpassam esse aspecto para adentrarem ao campo profissional e social. Profissional porque o mercado de trabalho exige uma formação sólida e bem sedimentada. Nesse ponto a Universidade se insere como local em que se dá esse alargamento de fronteiras por meio do conhecimento. Por fim, o aspecto social tem como princípio as relações que se estabelecem de acolhimento, respeito e reconhecimento da diversidade. 

O que você quis comprovar com a sua pesquisa?
Quis comprovar de que forma as práticas escolares inclusivas, na perspectiva do estudante cego, influenciam para o sucesso e a conquista aos níveis mais elevados de ensino. Por isso, todos os entrevistados, sujeitos da pesquisa, foram escolhidos de modo que já tivessem vivenciado, em algum momento da formação, o percurso no Ensino Superior, seja como egresso, aluno ou evadido.

Quais os resultados que você chegou por meio da sua pesquisa?
Verificou-se que a trajetória desses estudantes apresenta elementos facilitadores e dificultadores quanto à aprendizagem escolar, relacionados aos materiais usados pelos professores e pelas escolas que estudaram a postura do professor durante as aulas; a existência ou não de algum acompanhante para o aluno; os mecanismos de avaliação e a forma da Instituição de Ensino compreender o trabalho com a diversidade. A maioria dos sujeitos afirmou que percebe pouca mudança nas formas de gestão de sala de aula, considerando a inclusão, se comparado todo o seu percurso escolar. Apontam como possibilidades de avanço uma postura mais ativa do docente em compreender a diversidade e de conhecer as peculiaridades de cada aluno, por meio do diálogo e da abertura ao novo.

Quais as dificuldades que você passou na sua graduação?
A graduação, sem dúvidas, foi um dos períodos mais complexos e dolorosos na minha formação. O distanciamento entre teoria e prática foi muito evidenciado pela ausência de práticas inclusivas para atender às necessidades da minha condição visual. Eu não recebi material adaptado, na época eu já lia e escrevia em Braille e só ganhei meu primeiro notebook, no último ano da licenciatura, em 2005. Mas não foi apenas a ausência de material o aspecto dificultado. Os entraves também estavam nos apontamentos dos professores em sala de aula, sem descrição dos gestos e conteúdos inacessíveis; na escolha das estratégias e recursos como filmes legendados, por exemplo. Para as avaliações, nas provas eu precisava sempre ditar as respostas que eram escritas por minha mãe. E por falar nela, que já era professora de Artes, há quase duas décadas, foi quem me acompanhou dentro de sala de aula durante os anos do curso de Magistério e, também na graduação. Voltou à academia como aluna, ao mesmo tempo em que foi minha colega de turma.

Como ocorreu este grande apoio da sua mãe durante as aulas?
Minha mãe era quem ditava toda a matéria que era escrita no quadro. Ela audiodescrevia todos os apontamentos feitos pelos professores e também todos os elementos imagéticos presentes em sala de aula, até mesmo as expressões de desânimo ou de euforia dos alunos, as vestimentas, o cenário e a organização dos espaços físicos. Ela também transcrevia meus trabalhos escritos em Braille para tinta, era minha escriba nas avaliações e minha dupla inseparável. Em casa, adaptava alguns materiais, gravando em áudio os livros da bibliografia do curso, em um gravador para que eu pudesse acessar o conteúdo no meu tempo. A minha conquista pela  autonomia sempre foi o maior objetivo dela. Foi pelos olhos dela que superei toda falta de acessibilidade encontrada no Ensino Superior. Apesar disso, encontrei professores empenhados, que tentavam dialogar, mas que não conseguiam, sozinhos, ultrapassar as barreiras impostas pelo sistema. Talvez fossem tão excluídos quanto eu. Hoje, orgulho-me de ter me tornado colega de profissão desses professores, porque ainda espero que juntos, consigamos transformar os mecanismos de exclusão em práticas mais favoráveis e inclusivas, com enfoque no pertencimento da pessoa com deficiência ao grupo maior.

De lá para cá quanto tempo passou? Você acha que houve algum avanço ou muito pouco?
Concluí o ensino superior em 2005. De lá para cá já são quase 14 anos. Com relação aos avanços, eles aconteceram mais na direção do impacto que as novas tecnologias tiveram na vida da pessoa com deficiência, como a popularização dos notebooks, dispositivos móveis e softwares leitores de tela. Os aplicativos acrescentam aos espaços físicos ou virtuais, do ensino presencial ou da educação a distância, respectivamente, um ganho qualitativo para o acesso a informação. Esse acesso representa, para a pessoa cega, por exemplo, a ruptura do abismo entre os seus alcances e os seus limites, a superação do mecanismo de exclusão reprodutora de desigualdades.

A tecnologia existente hoje pode ser considerada suficiente?
Essa tecnologia toda ainda não é suficiente, pois é subutilizada em sala de aula pelos professores, da Educação Básica ao Ensino Superior. O despreparo e desconhecimento de muitos professores sobre os aspectos da deficiência visual e sobre o uso desse aparato tecnológico faz com que os mesmos mecanismos de exclusão de 14 anos atrás sejam ainda hoje reproduzidos no interior das universidades. As queixas mais comuns estão na falta da audiodescrição de figuras, nos filmes legendados, no acesso aos materiais impressos, cujas adaptações ficam a cargo do próprio aluno e familiares, na valorização da oralidade nos processos avaliativos, no despreparo e na falta de diálogo dos professores. Os alunos apontam não receberem suporte da instituição para suas necessidades, embora algumas iniciativas isoladas tenham acontecido, como a disponibilidade de um monitor e a prova do vestibular em formato braille ou digital. 

O que falta na Educação Superior para realmente incluir o aluno com deficiência visual?
Falta um ambiente inclusivo, com elementos favoráveis ao desenvolvimento acadêmico dos estudantes com deficiência visual, como audiodescrição, tecnologias, formação continuada dos professores e a concepção da educação inclusiva por meio do princípio dialógico ativo; que o professor possa buscar, por meio do diálogo as melhores soluções de acessibilidade. Falta material adaptado, processo avaliativo flexibilizado, clareza sobre as potencialidades do aluno com deficiência e muito bom senso para as escolhas que sejam mais coerentes ao bom atendimento desses estudantes. Por fim, é preciso que o aluno com deficiência saia da condição de objeto de estudo para ser visto como sujeito do próprio processo de inclusão no Ensino Superior, alcançando níveis mais elevados de ensino.

Como você acredita que a Audiodescrição pode ser inclusa no Educação Superior?
A audiodescrição deve fazer parte de todos os cenários e espaços em que exista a presença de pessoas com deficiência. O próprio professor pode fazer uso dessa ferramenta como verbalizar, por meio da audiodescrição, os seus gestos, apontamentos, escritas no quadro, figuras, gráficos, tabelas e textos projetados em datashow; na escolha de materiais audiovisuais com audiodescrição; outros profissionais podem usar a audiodescrição para descreverem os elementos imagéticos do material didático, os recados nos murais, as feiras  e exposições, até mesmo para acompanhar os alunos em congressos, seminários, e eventos acadêmicos que necessitem da visualidade para a apropriação dos conceitos. A audiodescrição é recurso indispensável para o pertencimento da pessoa com deficiência ao espaço acadêmico, sem que precise eliminar a visualidade ali presente. É uma rica oportunidade de aperfeiçoar as práticas inclusivas, mostrando que todos podem conviver e aprender no mesmo espaço, cujas relações também dependem dos estilos de aprendizagem e a necessidade da audiodescrição nada mais é do que uma maneira de personalizar o ensino.

Quais os indicadores que sua pesquisa levantou para qualificar o processo de inclusão no Ensino Superior?
No sentido dos professores corroborarem na propositura de ações mais coerentes e fundamentadas no princípio da dialogicidade, do pertencimento e do conforto que se busca ao atender as diferentes dimensões de acessibilidade para os estudantes com deficiência visual, elenquei na minha pesquisa os seguintes indicadores:

  • Disponibilização antecipada de materiais em formato acessível, em Braille ou no formato digital, conforme solicitado pelos estudantes;
  • Descrever os apontamentos no quadro, as figuras e textos dos slides;
  • Verbalizar os gestos que sejam relevantes ao entendimento do que está sendo mostrado ou apontado;
  • Encontrar soluções concretas para demonstrar conceitos abstratos ou mostrados em ilustrações;
  • Informar os avisos nos murais;
  • Substituir vídeos legendados e materiais inacessíveis por outros, com o mesmo teor conceitual;
  • Disponibilizar tempo adicional, se necessário para a realização das avaliações ou entrega de trabalhos;
  • Permitir a gravação das suas aulas, em mídias que permitam a transcrição;
  • Dialogar sempre, buscando compreender às necessidades dos estudantes para minimizar o impacto social da deficiência visual.

Saiba mais sobre Luciane Molina:

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5778300198160920
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