
O diretor de cinema Francis Ford Coppola, famoso pela trilogia ‘O Poderoso Chefão’, esteve nesta quinta-feira (31) em Curitiba em uma masterclass. Ele falou sobre diversos assuntos para uma grande plateia no teatro Guaíra, na manhã desta quinta. Era parte de uma agenda cheia, que teve também entregas de homenagens e encontros com autoridades.
A masterclass sobre cinema foi feita em parceria com a Universidade Tuiuti. Fãs, estudantes e profissionais do cinema formaram fila na frente do teatro para pegar o melhor lugar. No dia anterior, os ingressos gratuitos para o evento esgotaram em meia hora. A professora Denize Araújo, coordenadora do curso de cinema da Universidade Tuiuti, resgatou uma troca de e-mails de quando Coppola esteve em Curitiba em 2003 e havia prometido voltar. “Respondi apenas que agora era a chance dele. Deu certo”, divertiu-se.
Na masterclass, Coppola afirmou que os dois principais itens do cinema são o roteiro e a atuação. “Tem escrita, atuação, fotografia, direção… Mas acredito que os principais componentes são escrever e atuar. Parece confuso dizer, isso, tem tantas outras coisas, como fotografia, música, direção”, afirmou ele. “Orson Welles disse: ‘Você pode aprender tudo que precisa aprender sobre cinema em uma semana, menos atuar e escrever’”.
O cineasta também falou sobre o método criativo. “O segredo de escrever, pelo que aprendi, é escrever 6 páginas por dia, todos os dias. Também escolha um momento do dia para isso. Pode ser qualquer horário, de dia, de noite, até na hora da cachaça”, brincou. “Eu, por exemplo, escrevo logo cedo, porque de manhã meus sentimentos ainda não foram feridos”.
“É um segredo que quero compartilhar com vocês. Escrevam seis páginas por dia. Não leiam, coloquem de lado. No dia seguinte, escrevam outras seis páginas. Não leia. Não devemos ler porque se você ler, vai odiar, vai começar a reescrever. Se mudar o que tem nas seis páginas, não progride. Nunca vai terminar”, afirmou. “Não volte, vá sempre adiante. Só vai ler tudo quando tiver toda a quantidade”.
Ainda sobre a escrita, Coppola deu outras dicas. “Tem armadilhas. Mas toda vez que escreve, vai fazer melhor”, disse. “Outra coisa sobre escrever: você vai ter uma ‘melhor coisa’, uma ‘segunda melhor coisa’ e uma ‘terceira melhor coisa’. Pegue a ‘melhor coisa’ e coloque no fim, pegue a ‘segunda melhor coisa’ e coloque no início, o resto coloque no meio”.
O diretor ainda falou que fazer filmes é um risco. “Tem várias regras no cinema. Vejo audiências que querem um tipo de filme, da mesma forma. Fazem o mesmo tipo de filme, de novo e de novo. Fazer filmes é um risco. Mas isso é arte. Não se pode fazer arte sem risco, assim como não se pode fazer bebês sem sexo”, afirmou.
Megalópolis
Coppola, aos 85 anos, resolveu fazer ‘Megalópolis’ – que estreia nesta quinta-feira (31) – com recursos próprios. Teve dificuldades para levantar dinheiro para a produção, apesar de todo o prestígio. Chegou até a vender algumas vinícolas na Califórnia. Ele explicou que há uma ligação direta com a cidade de Curitiba. “Quando eu era novo, quis escrever um filme sobre um mundo melhor e comecei a visitar lugares e cidades. E aí cheguei a Curitiba, que deu exemplo de como, com talento e ideias, você pode resolver problemas”, disse. Aliás, ele mesmo se atrasou para a masterclass porque foi torar fotos em uma estação-tubo perto do Teatro Guaíra e, depois, no Café do Teatro, também ali perto.
O diretor ainda deu alfinetadas sobre como a indústria do cinema funciona atualmente. “Tem gente que faz filme grande e caro, e acha que é do jeito que deveria ser. Mas isso não é verdade. Não precisa fazer super-herói parte 1, super-herói parte 10”, falou. Disse ainda que a arte é uma coisa absolutamente pessoal. “Ninguém é igual a ninguém. Se você faz arte, você faz de um jeito único”.
Ele também criticou a publicidade de forma geral. “O mundo gasta 3 trilhões de dólares em publicidade. Mas o que é a publicidade? “Fala sobre tentar obter felicidade. Diz que você não é feliz se não tiver isso ou aquilo. Que não é feliz se não tiver essas coisas. Mas qual é a mensagem? Estão dizendo que não está ok. Que você não é ok do jeito que você é”, disse.
No fim, ele simpaticamente respondeu a perguntas dos presentes, que variaram da escolha de atores para um filme até uma questão envolvendo o coronel Kurtz (Marlon Brando) em ‘Apocalypse Now’, filme que o diretor lançou em 1979. Se dependesse apenas de Coppola, ele teria ficado mais tempo. Mas a própria produção da masterclass encerrou o assunto.