Imagem do WhatsApp de 2024-06-13 à(s) 19.33.58_a4debbfc
Dalton Trevisan, em uma foto antiga: avesso a aparições em público (Divulgação)

Um dos mais importantes e mais intrigantes nomes da literatura brasileira, o curitibano Dalton Trevisan celebra nesta sexta-feira (14 de junho) 99 anos — “mal vividos e bem sofridos”, como o próprio definiu em manifestação recente, durante homenagem na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP). E a comemoração pelo aniversário vem acompanhada de lançamentos em série: novas edições de três de suas obras serão lançadas ainda neste mês pela Editora Record, enquanto a editora independente Arte & Letra publica a caixa “Traçadas Linhas – Dalton e Poty”, que celebra o trabalho do escritor e do artista gráfico Poty Lazarotto, com itens diversos.

Os livros ‘Cemitério de elefantes’ (1964), ‘Contos eróticos’ (1984) e ‘Macho não ganha flor’ (2006) chegam às prateleiras físicas e digitais com um novo tratamento gráfico e a participação de convidados ilustres. No ano passado, aliás, a Record já havia lançado Antologia pessoal, que traz oitenta contos selecionados e organizados pelo próprio escritor.

Já a caixa Traçadas Linhas teve o lançamento confirmado para sábado (15), trazendo itens diversos, produzidos por diversos parceiros e montada artesanalmente, com produção e curadoria de Fabiana Faversani e Thiago Tizzot. O evento de lançamento da Arte & Letra, inclusive, deve contar com a participação (não presencial) do escritor. Será, possivelmente, a segunda vez na semana que o Vampiro de Curitiba — apelido que o autor carrega e que é título de um de seus contos mais famosos, de 1965 — dará “dará as caras”, de alguma forma.

Do Alto da Glória para o Centro

Nascido no dia 14 de junho de 1925, em Curitiba, Trevisan ainda vive na Capital. Só não é quase mais visto em público, tanto que imagens suas são raras, muito raras – a fama de recluso, inclusive, rende manchetes até mesmo cômicas, como uma de 2012 que diz “Vencedor do Prêmio Camões, Dalton Trevisan mantém tradição e não aparece”.

Ao longo de 68 anos, o escritor viveu numa casa na esquina das ruas Ubaldino do Amaral e Amintas de Barros, no Alto da Glória. O local chegou a virar uma espécie de ponto turístico não oficial da cidade, com fãs em busca de uma aparição do autor. Mas depois de um assaltante entrar na residência (o suspeito foi preso em flagrante), no final de 2021, ele se mudou para um apartamento na Rua Doutor Muricy, no Centro da cidade. É lá onde celebrará seus 99 anos de vida, inclusive.

O círculo de amigos de Trevisan é restrito. Suas aparições, como se sabe, cada vez raras. Mas ele ainda é visto por aí, reza a lenda: no final do ano passado, por exemplo, teria sido flagrado num café que fica na Praça Osório, próximo de seu apartamento. Seu último registro, no entanto, é mais antigo: uma foto tirada em 2007, na Rua XV de Novembro, perto do Teatro da Reitoria. Na imagem, Trevisan é flagrado com sacolas de supermercado.

Atualmente, segundo reportagem da Revista ‘Piauí’, sai pouco de casa e gosta de assistir filmes (no streaming ou na tevê por assinatura). Assim como costuma reler os livros prediletos, também revê várias vezes alguns filmes, na busca por detalhes e curiosidades que haviam passado despercebidas. Prefere os faroestes e os clássicos italianos de Federico Fellini, Ettore Scola e outros, mas recentemente também tomou gosto pelo cinema argentino e pelos filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen.

“O vampiro de Curitiba é uma criatura solar”

Na semana passada, o jornalista Mario Sergio Conti republicou em sua coluna na Folha de S. Paulo um artigo de março de 2016, intitulado “Diário com Dalton Trevisan”. No texto, Conti recorda de uma tarde que passou com o escritor no Café do Paço, no Centro de Curitiba, acompanhado de uma das poucas amigas de Trevisan, Marleth Silva. Chama a atenção, em especial, o retrato que ele faz do Vampiro de Curitiba, que contraria a imagem que muitos podem ter do literato por conta de sua aversão às aparições em público.

“O riso frequente e franco, a loquacidade e os olhos de um azul transparente contrastam com suas raras fotografias na imprensa – sempre sério, em preto e branco. É uma imagem equivocada. O vampiro de Curitiba é uma criatura solar. O jeito ameno de falar lembra o de Oscar Niemeyer. Baixa a voz e separa lentamente as sílabas no final dos raciocínios, para dar-lhes um arremate irônico, às vezes autodepreciativo”, relata o jornalista.

Na última quarta-feira (12), a vida e obra do escritor Dalton Trevisan foi homenageada na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP). O evento foi organizado pelos professores Fernando Paixão, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), e Hélio de Seixas Guimarães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e vice-diretor da BBM-USP. Os professores são também os organizadores do livro de ensaios Uma literatura nada exemplar (2024), sobre a obra de Trevisan.

Durante o evento, inclusive, Trevisan deixou um recado ao público, que foi lido por uma das participantes dos debates sobre as obras do celebrado escritor curitibano. Entre outras coisas, ele disse o seguinte: “Se eu pudesse, ai de mim, ter escrito continhos melhores. E sinto aos 99 anos, mal vividos e bem sofridos, uma alcachofra de folhas chupadas. (…) Fato é que, bons ou não [meus textos], nunca soube outro ofício. Que mais poderia ter feito? Consertar solas de sapato, segundo o exemplo de Tolstói? Escreva, maldito, escreva: você não serve para mais nada. E lá fui eu, Sinbad dos Sete Mares, upa lalá. Escrevi 700 contos, tantos e tantos livros e cadernos. ‘Escreva primeiro, se arrependa depois’. Você sempre se arrepende. Mas depois de ler esses ensaios e descobrir que tenho tantos tão bons leitores, me arrependo um tantinho menos. Mas ainda me pergunto: ‘Ei, vampiro, qual é a tua?’”