No dia 01 de setembro, o Capital Inicial liderado por Dinho Ouro Preto apresenta novo show em Curitiba para lançar seu mais recente trabalho – “Eu Nunca Disse Adeus”. O grupo registrou sete álbuns entre o de estréia, Capital Inicial, de 1986, e Capital Inicial Ao Vivo, de 1996. Este novo trabalho, já é o sexto desde que o Capital retomou as atividades, em 1998, e foi recolocado no mapa pelo disco Atrás dos Olhos. Produzido por Marcelo Sussekind, Eu Nunca Disse Adeus reitera a personalidade, a variada palheta roqueira e o universo de referências da banda que há nove anos se reinventou jurando jamais se deixar pautar pela nostalgia.“Daqui a pouco faço um show inteiro sem nenhuma música dos anos 80”, comemora o vocalista Dinho Ouro Preto.
Confira a programação.
Os ingressos já estão à venda e custam R$60,00 (inteira) e R$30,00 (meia-entrada). A meia-entrada somente para pista é válida para estudantes, pessoas acima de 60 anos e para quem doar 1 kg de alimento não-perecível, não acumulativo com outros descontos e promoções. É obrigatória a apresentação do documento previsto em lei que comprove a condição do beneficiário, na compra do ingresso e na entrada da casa de show.
O grupo formado em Brasília em 1983 por Dinho Ouro Preto (vocal), Yves Passarell (guitarra), Flávio Lemos (baixo) e Felipe Lemos (bateria), adotou um estilo que mistura rock, punk, pop e toques de new wave. O primeiro compacto foi lançado em 1984. No ano seguinte o grupo radicou-se em São Paulo, onde gravou mais um compacto e em seguida o primeiro LP, “Capital Inicial”, de 1986, que ganhou Disco de Ouro. Alguns dos maiores sucessos da banda, como “Música Urbana” e “Fátima”, compostas em parceria com Renato Russo, são desse primeiro disco.
Nos três anos seguintes, o Capital Inicial lançou um disco por ano. Em 1990, participou do Hollywood Rock e no ano seguinte, do Rock In Rio II. Em 1998, depois de algumas mudanças na formação, o quarteto original voltou a se reunir, e assinou contrato com a Abril Music, lançando no mesmo ano o CD “Atrás dos Olhos”.
Em 2000, a banda lança “Capital Inicial – Acústico MTV”, e vê reconhecido o seu empenho em fazer um disco acústico de rock simples e despojado. Em 2002, o capital lança “Rosas e Vinho Tinto” e, em 2004, o CD “Gigante!”. Em 2005, a banda realiza um antigo sonho, regrava conhecidos e inéditos sucessos do Aborto Elétrico, banda punk de Brasília, formada por Renato Russo e os irmãos Fê e Flávio Lemos, que originaram a Legião Urbana e o Capital Inicial.
EU NUNCA DISSE ADEUS
O “MTV Especial – Aborto Elétrico”, não pode ser encaixado em cultos ploc ou trash 80’s: foi mais uma dívida que Dinho e – principalmente – os irmãos Fê (bateria) e Flávio Lemos (baixo) tinham consigo mesmos e, de certa forma, com a história do rock brasileiro. Revivendo “o backbeat e o baixo implacável” (palavras do baterista) que impulsionaram o míssil Renato Russo, o mergulho nas origens punks foi oportuno para recarregar a cozinha do Capital. Deixou marcas nas bases de algumas faixas do novo disco, mas foi um breve desvio: Eu Nunca Disse Adeus leva à frente a identidade de Gigante!(2004), Rosas e Vinho Tinto (2002) e do já citado Atrás dos Olhos (1998). Não tem regravação, não tem nenhuma versão ou cover. A produção é 100% própria, surgida da parceria de Dinho com Alvin L, com participação do guitarrista Yves Passarell em duas das canções. São 13 canções inéditas.
Mas a boa forma dos compositores Dinho e Alvin realmente impressiona. Não faltam músicas com a mesma veia e potencial de sucesso do hit “Natasha”, clássico do Capital Inicial em sua “second life”. Em clima Beatles no hard rock, “18” se inspira em um sobrinho do vocalista. A faixa que abre o disco, cujo título é “A Vida é Minha (Eu Faço o Que Eu Quiser)”, expressa perfeitamente o que sentem teens de 11 a 29 anos, numa levada glam rock.
Glam é uma das paixões de Alvin L, que divide com Dinho uma série de obsessões por cinema e rock’n’roll. “Ele tem um gosto idêntico ao meu: podemos falar horas sobre Slade, Thin Lizzy, ou Queen…”, conta o cantor. Segredo bem guardado do underground carioca durante os anos 80, Alvin teve maior exposição na mídia a partir de 1991, quando Marina Lima gravou sua balada “Eu Não Sei Dançar”. Mas a parceria com Dinho vem desde 1988. “Alvin é o melhor cara, o melhor letrista vivo de rock’n’roll do Brasil”, elogia o vocalista. “O texto pode não soar como poesia longe da música, mas funciona maravilhosamente na canção” .A dupla trabalha a partir de temas e idéias. As músicas começam a partir de pequenos trechos e pedacinhos, podendo ser encerradas na clássica cena de um ao piano, o outro observando ao lado. Dinho detalha: “É parceria total, em harmonia, melodia e letra”.
A opção pela adolescência nos temas e enfoques é consciente. “Um dos critérios para selecionar o repertório foi o grau de maturidade. As canções mais maduras foram sendo limadas”, revela o cantor. Uma exceção é a balada “Um Homem Só”, mantida por sua força. “Todo mundo que já se separou pode se identificar com a letra dessa música”. Dinho faz questão de deixar claro que a juventude do repertório do Capital não é postiça. “Muita gente do nosso público é adolescente, e nós mesmos passamos quatro meses do ano fora de casa, vivendo em turma. Isso acaba deixando a gente conservado em uma cápsula criogênica”. Houve quem chamasse de síndrome de Peter Pan, e Alvin, com seu humor peculiar, já debochou de si próprio e do fenômeno, cunhando a expressão “drag teens” (no sentido de falsos adolescentes). Dinho recorre a uma frase de Dusek para se definir: “Eu sou adolescente há muito mais tempo que os adolescentes”.
Para sustentar esse pique hormonal, Fê e Flávio suam, emburacando linhas retas, como “Má Companhia”, ou grooves roqueiros, como “Eu Adoro Minha Televisão“. Yves Passarell mostra que fez efeito a lavagem cerebral punk que os irmãos lhe impuseram antes de encarar o repertório do Aborto: à competência técnica da escola hard rock/metal, ele agrega força primal e simplicidade em riffs como o que introduz “Diferentes”.
Aos 42 anos, Dinho mantém pudores de jovem idealista do rock. Olha para os companheiros de geração e se orgulha da fidelidade ao gênero. “No Brasil, ninguém envelhece fazendo rock’n’roll: sempre dão uma amarelada. Por algum motivo, acham inadequado continuar fazendo rock. Eu não conheço a MPB e não tenho a menor intenção de me bandear para os lados dela”.
Não se trata de uma opção xiita. No cânone do rock, a artesania da balada sempre foi cultivada. E a pérola “Eu e Minha Estupidez”, resumindo o melhor de várias décadas, mostra o quão longe o Capital consegue ir nessa tradição. As referências do rock do grupo compreendem os bons e velhos Aerosmith, Cure e Rolling Stones, mas dispensam o brutalismo incorporado pela maioria das bandas brasileiras da década passada.
Sem fazer a menor força para isso, a filiação pós-punk do quarteto entra em sintonia com a corrente atual de nomes internacionais que fazem rock para ser dançado. Mas, dentro de sua coerência, o Capital também trata de buscar novidades. O toque de vaudeville contrabandeado via Beatles e Queen na excelente faixa “Boa Companhia” é uma das mais agradáveis surpresas do disco. Fiel a seus princípios, mas sem medo do risco, Eu Nunca Disse Adeus está cheio de motivos para fazer de pais e filhas reféns.