Era uma vez...

A rica tradição oral dos povos indígenas

Daniel Munduruku concorreu em 2021 à cadeira 12 da ABL
Os livros de Daniel Munduruku abordam os costumes dos povos indígenas.
Em Contos Indígenas Brasileiros estão oito contos selecionados pelo autor.
Daniel Munduruku concorreu em 2021 à cadeira 12 da ABL
Daniel Munduruku concorreu em 2021 à cadeira 12 da ABL (Foto: Arquivo Pessoal)
Os livros de Daniel Munduruku abordam os costumes dos povos indígenas.
Os livros de Daniel Munduruku abordam os costumes dos povos indígenas. (Foto: Divulgação)
Em Contos Indígenas Brasileiros estão oito contos selecionados pelo autor.
Em Contos Indígenas Brasileiros estão oito contos selecionados pelo autor. (Foto: Divulgação)

As histórias contadas pelos mais velhos às crianças e jovens vêm recheadas dos costumes das aldeias

 

Era uma vez... um curumim. Como todos os curumins, ele tinha cara de índio, cabelo de índio e pele de índio. Na escola, isso o tornava “diferente” das demais crianças e, por essa razão, elas o deixavam de fora das brincadeiras, o que o fazia sofrer bastante. O menino, então, chegou a desejar não ter nascido índio.

Foi seu avô, com toda a sabedoria dos povos originários, que contando sobre a importância da diversidade étnica mostrou a ele a beleza de ser quem era: um descendente da Nação Munduruku. O curumim aprendeu que ninguém é melhor que ninguém, que todas as nações, línguas, culturas devem ser respeitadas e que o uso do termo índio é preconceituoso.

Levando consigo os ensinamentos orais e amorosos de seu avô o menino chamado Daniel cresceu, deixou a aldeia no Pará e manteve o compromisso de revelar, narrar e informar a quem quisesse saber sobre os costumes dos povos indígenas brasileiros.

Daniel Munduruku se graduou em Filosofia, História e Psicologia pela Universidade Salesiana de Lorena (SP), onde mora. É mestre e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, pós-doutor em Linguística pela Universidade de São Carlos.

Do sonho de narrar surgiu depois o desejo de escrever. Ele é autor de 53 livros infantis, tendo recebido por duas vezes o Prêmio Jabuti (em 2021 esteve entre os finalistas com três obras), além de outros prêmios nacionais e internacionais.  Foi escolhido personalidade literária em 2017 pela Fundação Bunge e muitos de seus livros têm o selo de altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Vários foram traduzidos para o inglês, espanhol, italiano, alemão e coreano. Munduruku é membro fundador da Academia de Letras de Lorena e é membro da Academia Internacional de Letras, que tem sede em Nova Iorque.

Em 2021, ele concorreu à cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras. Sua candidatura teve o apoio público, em forma de manifesto, de autores como Alice Ruiz, Aílton Krenak, Xico Sá, Marcelo Rubens Paiva, Pedro Bandeira, Chico Buarque, Lygia Bojunga e Ruy Castro, entre muitos outros. Não foi dessa vez que Munduruku se tornou um imortal na ABL, mas com certeza quem tem 56 anos e já tem mais de 50 obras editadas e cerca de 5 milhões de cópias vendidas, se torna membro imortal de um círculo de autores brasileiros ilustres e reconhecidos.

Seus livros imprimem no papel as histórias contadas pelos mais velhos às crianças e jovens das aldeias. Traduzem aprendizado e mantém vivas as tradições dos povos originários.

Se você se interessa em conhecer, vai gostar do que ele tem para te contar nessa entrevista.

 

TD – Daniel Munduruku é um ativista, bastante atuante em movimentos sociais. Seja nas questões indígenas, políticas ou educacionais (e no fim, todas se entrelaçam!). Quando e como nasceu o Daniel Munduruku escritor?

DM – Sou nascido Munduruku por uma benção do universo, mas me formei educador por uma opção pessoal. Usar a palavra falada sempre foi meu sonho. Difundir, divulgar, narrar, ensinar foram verbos que sempre fizeram parte do meu universo e foi isso que sempre fiz. Com o passar do tempo, no entanto, descobri uma nova ferramenta para fazer essa voz chegar mais longe: a escrita. Não sabia que sabia escrever e quando me dei conta de que poderia, passei a desenvolver esse talento com todo afinco. Contar histórias por escrito passou a ser meu grande desejo. Afinal, se tratava de quebrar mais um estereótipo que a sociedade tem sobre nossa gente. Sempre fui um iconoclasta, nesse sentido. Desafios são apenas novos caminhos a serem construídos. O professor nasceu assim; assim nasceu o escritor; assim nascerão outras possibilidades se não me fechar para o novo que mora em mim.

TD – Como o educador e o escritor se unem em você e o que resulta dessa união?

DM – Tudo está escrito, dizem os sábios. Está escrito na natureza, no universo. A gente tem apenas que saber ouvir o chamado. Sendo de uma tradição que sabe ouvir o chamado da natureza, aprendi que as coisas estão interligadas e podem reverberar de fora para dentro. Se eu falo, as palavras devem sair como um sopro sagrado; assim, se tornam educação, escrita, sonhos. Nesse sentido, entendo que a palavra falada e a escrita são frutos da mesma árvore. É tudo uma questão de compreender que há sacralidade em cada coisa que a gente realiza. O resultado é uma vida com inteireza e mais humanamente vivida.

TD - Escrever histórias baseadas nos costumes indígenas contribui para que esses costumes e valores se mantenham e sejam valorizados?

DM – Pensar em costumes é pensar na cultura onde estão inseridos. Não adianta olhar para uma pessoa usando burca e considerá-la fora de seu universo cultural. Normalmente isso causa estranheza. Na medida em que tais costumes nos são explicados, vamos percebendo que fazem todo sentido e que a estranheza cede lugar à admiração, ao respeito, à tolerância.

Escrever sobre esses costumes é uma forma de aproximar mundos e permitir que a estranheza seja invadida pela admiração. Como dizem sempre: a gente só respeita o que conhece.

TD – Você já tem mais de 50 livros escritos. Como avalia a repercussão deles?

DM – Sou bem feliz com o resultado que meus livros têm alcançado. Ao longo de mais de 25 anos de carreira, eles continuam encantando os leitores com as histórias que contam. Claro que tem aqueles que são mais conhecidos que outros, mas todos eles são muito bem recebidos e posso dizer que, hoje, vivo de literatura. Eles me deram um espaço que honro com a minha escrita e que é também meu orgulho. Penso que o caminho dos livros tem sido muito feliz e temos conseguido desentortar pensamentos de crianças e adultos por muitos lugares desse nosso país.

TD – Por que é tão importante fazer conhecer as tradições, não só entre as próprias nações indígenas?

DM – Tradição não é uma prisão que nos mantém congelados num tempo e espaço. Tradição é, também, um método pedagógico que nos permite lembrar nossas origens. Todos os povos vieram de algum lugar, mas somente aqueles que honram tais origens é que conseguem não se perder em seus sentidos de existência. O Brasil é um país de muitas origens, por isso sua identidade é a própria diversidade. São origens que podem nos presentear com um novo olhar sobre a realidade que vivemos. Olhar para trás – para as origens – permite que entendamos nosso presente e possamos vislumbrar nosso futuro.

TD – Contar histórias faz parte do dia a dia das aldeias? Quem as conta?

DM – Os avós são nossos contadores de histórias preferenciais. Mas todas as pessoas podem contar histórias. Histórias acontecem o tempo todo e aqueles que as vivem podem exercitar sua criatividade contando como foi seu dia e como viveu a aventura de seu dia. São as histórias cotidianas. Há, no entanto, as histórias da tradição. Essas são contadas pelos avós porque eles são os guardiões da memória ancestral.

TD – Os personagens das histórias que se contam nas aldeias são, em sua maioria, indígenas?

DM – Nem sempre. Há histórias cotidianas cujos personagens são os parentes-seres que se relacionam conosco no dia a dia; há personagens que são não indígenas que estão no contexto urbano e que convivem conosco; há personagens que vêm da memória de nossos avós. Cada história – criada ou vivida – traz seus personagens consigo.

TD -  Quando escreveu livros destinados ao público infantojuvenil tinha em mente as crianças e jovens indígenas ou crianças e jovens de outros povos, para que conhecessem a cultura dos povos indígenas?

DM – Nunca imaginei escrever livros para crianças indígenas preferencialmente. Meu público é a infância. Toda ela, mas nenhuma em particular. As histórias que escrevo são fruto de minha experiência enquanto criança que viveu em aldeia, talvez por isso imagine que elas já são conhecidas pelas crianças indígenas. Escrevo para crianças que nunca tiveram oportunidade de correr na floresta ou nadar nas águas de um rio; subiram em árvores ou comeram frutas no pé. É para elas que escrevo porque quero que elas entendam o que perdem quando não conseguem experimentar outra realidade que não a do parque armado em concreto ou em shoppings centers.

TD – Ainda é pequeno o número de nascidos entre os povos indígenas que se arriscam e se sobressaem na literatura. O que é preciso para que isso seja modificado?

DM – A literatura é uma linguagem complicada para a maioria das crianças e dos jovens. Há muita dificuldade de fazê-las ler e criar uma linguagem que as permita explorar sua capacidade criativa. Enquanto a literatura for ensinada como algo longe do universo lúdico da criança, haverá menos escritores no mundo. A literatura é fruição e isso pode ser ensinado. A escrita é uma técnica e pode ser ensinada e motivada. Só assim ela fará parte do cotidiano das pessoas.

Penso que os jovens indígenas podem também ser preparados para a escrita porque as histórias já trazem dentro de si. É preciso incentivar a escrita como um instrumento para a manutenção da memória ancestral. É como atirar com arco e flecha: precisa treino, treino e treino. Sem isso a pessoa é apenas um interessado, nunca um escritor.

TD – Qual é o papel da cultura indígena na formação da sociedade brasileira?

DM – Um povo é a sua cultura. Cultura é uma composição de saberes que se vai acumulando ao longo da trajetória de vida. O Brasil é formado por uma diversidade cultural e linguística potente, poderosa, transformadora. Em que momento se diz isso para as pessoas? Quando se educa. Se isso acontece, a pessoa vai gerando autoestima capaz de comprometer as pessoas com sua origem. Infelizmente, o processo histórico brasileiro é um arremedo cultural que gerou um apagamento, uma raiva e um desprezo ao nosso passado ancestral. A cultura é valorização do passado. No caso brasileiro, aprendemos a não gostar do passado e, assim, apagarmos de nós o que há de melhor que é nossa diversidade. É preciso fazer um caminho de volta para podermos dar o salto para o amanhã.

TD – A criação do Instituto UK’A – Casa dos Saberes Ancestrais tem o propósito de dar aos povos indígenas um espaço para que a história seja contada por outro viés que não o do colonizador?

DM – Com certeza. É, sobretudo, um desejo de ajudar o Brasil a não esquecer suas origens ancestrais. As ações de nossa instituição vão na direção de proporcionar um olhar diferenciado que permita reconhecer a contribuição de nossa gente ancestral na construção de uma identidade completamente originária que mostre o potencial de nossa cultura nacional.

 

TD – Na sua trajetória de escritor já recebeu muitos prêmios. O que eles traduzem a seu respeito?

DM – Os prêmios são um reconhecimento da qualidade da escrita que produzimos. Eles traduzem nosso esforço em apresentar uma cultura criativa, dinâmica, rica e absolutamente inovadora. Fazemos isso com poesia, magia e encantamento. Por isso tudo nossa obra caiu no gosto do leitor crítico e da própria academia que percebeu que temos uma verdadeira escola literária que ainda pode oferecer muita novidade para o Brasil.

 

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*Fonte de pesquisa para temas e entrevistas: Instituto Fatum.