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Luto no jornalismo

A última hora de Ricardo Boechat. Veja vídeo de despedida

O jornalista Ricardo Boechat: notícia da morte foi quase ao vivo na Band
O jornalista Ricardo Boechat: notícia da morte foi quase ao vivo na Band (Foto: Divulgação)

Era para ser uma notícia triste, mas não incomum. No início da tarde desta segunda-feira (11), um helicóptero caiu no quilômetro 7 do Rodonael, próximo ao acesso à Rodovia Anhanguera, na chegada a São Paulo, em cima de um caminhão. Minutos após o acidente, ocorrido às 12h20, o Corpo de Bombeiros informou que duas pessoas tinham morrido na queda — ambos ocupantes do helicóptero.

Em entrevista à TV Band, antes de se saber a identidade das vítimas, o comandante Marcos Palumbo afirmou que o acidente teve três vítimas, duas dentro da aeronave e tiveram os corpos carbonizados, e a terceira era o motorista do caminhão.

O motorista do caminhão foi socorrido pela concessionária. Ele teve apenas ferimentos leves e às 14h40 já estava no 46º DP para prestar depoimento. Ele teria dito que viu a aeronave segundos antes da colisão, mas não teve tempo hábil para frear ou desviar.

Pouco antes das 13 horas, veio a confirmação de que o jornalista Ricardo Eugênio Boechat, de 66 anos, era um dos ocupantes do helicóptero — e, portanto, havia morrido. A notícia mudou de impacto, era muito mais trágico do que se pensava. Jornalistas da equipe da rádio Band News FM chegaram a interromper a programação ao vivo da emissora ao se emocionarem no ar com a morte do jornalista. Os âncoras Carla Bigatto e Eduardo Barão deram a notícia aos ouvintes sob o som da trilha de notícia de última hora, por volta das 13 horas. Ambos os apresentadores, com as vozes embargadas, se emocionaram no ar. Em seguida, a comoção tomou conta da equipe e a emissora passou a reproduzir trilha e uma gravação com a notícia da tragédia. A gravação se repetiu diversas vezes.

“É com profunda tristeza que informamos que Ricardo Boechat (...) estava no helicóptero que caiu por volta de meio-dia na Avenida Anhanguera”, declarou Carla Bigatto claramente emocionada. “Todos estamos absolutamente arrasados e tivemos que respirar fundo para entrar no ar. Para Veruska, mulher do do Boechat, para as meninas (filhas), o meu beijo”, disse Barão, que chorou. Boechat estava indo de Campinas — onde havia dado uma palestra — de helicóptero para São Paulo. Pousaria no heliponto da Band, perto de onde morava, porque queria almoçar em casa com a mulher, Veruska.

Vida e carreira
Ricardo Boechat era filho do diplomata Ricardo Eugênio Boechat e nasceu no dia 13 de julho de 1952, em Buenos Aires. Na época, o pai estava a serviço do Ministério das Relações Exteriores na Argentina. O jornalista já teve passagem pelo O Globo, O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Dia. Na década de 1990 chegou a ter uma coluna diária no Bom Dia Brasil, jornal matutino da TV Globo.

Desde 2000, Boechat estava na Band. Era era apresentador do Jornal da Band e da rádio BandNews FM, além de ser colunista da revista ‘IstoÉ’. É ganhador de três prêmios Esso e, segundo o site da Band, é um dos maiores ganhadores da história do Prêmio Comunique-se, em que foi reconhecido como âncora de rádio, âncora de televisão e colunista. Também foi eleito o jornalista mais admirado do País na pesquisa do site Jornalistas&Cia em 2014.

Nesta segunda-feira, após o 'Jornal da Band', a equipe da emissora fez uma homenagem ao jornalista, como é possível ver no vídeo.

O corpo de Boechat será velado nesta terça-feira (12), no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, antes de ser cremado à tarde.

Em último comentário ao vivo, jornalista lamentou sucessão de tragédias
Em seu último comentário na Rádio BandNews FM, na manhã desta segunda-feira, o jornalista Ricardo Boechat lamentou as tragédias que chocaram o País nos últimos dias e cobrou punição aos responsáveis. Pouco depois, Boechat morreu em um acidente com um helicóptero.

“A impunidade é o que rege, o que comanda a orquestra das tragédias nacionais”, disse Boechat ao se referir ao rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e à morte de adolescentes no Ninho do Urubu, o centro de treinamento do Flamengo no Rio.

O jornalista citou uma matéria publicada no jornal ‘O Globo’ sobre a sucessão de tragédias no País. “Você que não só os agentes públicos não pagaram nada por isso como os agentes privados e seus sócios também não. Esse é exatamente o ponto que une todas as tragédias.”

“O que temos de colocar em cima da mesa, diante de nós mesmos, como sociedade, é se queremos continuar lidando com essas tragédias, pranteado-as no início e esquecendo-as logo depois. A tragédia de Brumadinho já sumiu das primeiras páginas.” Para o jornalista, a sociedade brasileira segue uma “velha tradição de tocar adiante”. “É preciso que as consequências sejam mais rápidas, no campo da ação policial, do Ministério Público, para que não fiquem no oba-oba”, disse Boechat.

“Quando a gente chora, sofre, lamenta o fato ocorrido ontem, a gente parece estar anestesiado ou gostar da anestesia que nos faz esquecer desse fato tão logo surja o fato de amanhã, que terá o mesmíssimo tratamento”, concluiu o jornalista.

Empresa envolvida em acidente não podia transportar passageiros
A empresa RQ Serviços Aéreos Especializados LTDA, dona do helicóptero de matrícula PT-HPG, que caiu ontem no acidente que matou o jornalista Ricardo Boechat, não estava autorizada a fazer o serviço de táxi aéreo, ou seja, a transportar passageiros, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa estava certificada para prestar Serviços Aéreos Especializados, como aerofotografia, aeroreportagem, aerofilmagem.

“Qualquer outra atividade remunerada fora das mencionadas não poderia ser prestada. Tendo em vista essas informações, a Anac abriu procedimento administrativo para apurar o tipo de transporte que estava sendo realizado no momento do acidente”, afirmou a Anac, em nota.

O helicóptero, uma aeronave Bell Jet Ranger, prefixo PT-HPG, fabricada em 1975, tinha capacidade para cinco lugares e estava com a documentação e ordem.

Repercussão

“Peço a Deus que console a todos pela perda irreparável de um dos grandes nomes do nosso jornalismo”
da ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

“Boechat era um grande profissional, referência no jornalismo, capaz de conquistar o respeito tanto dos que convergiam quanto dos que divergiam de suas ideias e opiniões. Que seja sempre lembrado por isso”
do deputado Carlos Bolsonaro.

“Era um profissional reconhecido pelo trabalho e senso crítico aguçado revelado nos principais meios de comunicação do país”
do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP)

“É uma perda horrível para o Brasil de um jornalista de incontáveis virtudes. Deixo aqui minha solidariedade à família, aos amigos, aos fãs desse grande profissional do nosso jornalismo”
do senador Humberto Costa (PT)

“Ele era uma pessoa especial e um dos maiores jornalistas do País”
do apresentador José Datena

“Expressamos nossos sentimentos à família e aos amigos do jornalista e das demais vítimas desse triste acidente”
do América-MG, time do coração de Boechat

“Tristeza e luto nessa tragédia para o jornalismo brasileiro. Perdemos uma referência para o jornalismo combativo e questionador”
de Flávio Fachel, apresentador do Bom Dia RJ

“Tá difícil de segurar a onda por aqui. Um dia choro por centenas, noutro por dezenas, agora choro por um colega: Ricardo Boechat, agora não! O jornalismo precisa de você”
de Milton Jung, da CBN

“Ricardo Boechat era um voz contestadora na imprensa, fará muita falta”
de Mauro Cezar, da ESPN

“Não posso acreditar. Eu lhe devo tantos favores, tantas palavras generosas em momentos difíceis. Você foi pessoa linda, jornalista maravilhoso”
de Miriam Leitão, da TV Globo

DESTAQUES DOS EDITORES