Turismo

Afeganistão e Eça de Queiroz

Em 1880, o escritor português Eça de Queiroz (1845-1900) era cônsul de Portugal em Bristol, Inglaterra. Publicou um texto no jornal carioca Gazeta de Notícias sobre a campanha militar inglesa realizada naquele ano no Afeganistão.

O motivo da invasão não foi o terrorismo, desculpa hoje para todas as ações e ataques da coalizão encabeçada pelos norte americanos , britânicos e outros tantos. O que se confessava era a expansão colonialista dos ingleses no século 19.

Permanecem atuais, 137 anos depois, assuntos levantados por Eça de Queiroz sobre o enfrentamento de uma potência ocidental contra aquele país asiático: desproporção bélica, papel da mídia, força da propaganda.

O texto Afeganistão e Irlanda integra o livro Cartas da Inglaterra, organizado em 1905, cinco anos depois da morte do escritor. Pode ser lido nas Obras Completas do autor. Nele, Eça faz comparação entre duas campanhas realizadas pelos ingleses na região, fazendo frente aos russos. O Afeganistão surge como um adversário poderoso, misterioso, e os ingleses são tratados com ironia. Eça aponta as artimanhas dos ocidentais para legitimar-se no poder (sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa) e satiriza o extravagante aparato bélico (De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880.

Fotos: Dayse Regina Ferreira


Cuba é agora o destino da moda. Há cruzeiros saindo de Miami para Havana até o final do ano

Leia trechos de Afeganistão e Irlanda:

Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar-comum do século 18: -- A história é uma velhota que se repete sem cessar. O fado ou a providência, ou a entidade qualquer que de lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta. Em 1847 os ingleses, por uma razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia... e outras coisas vagas que os políticos da Índia resmungam sombriamente, retorcendo os bigodes, invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas; apossam-se por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o Exército, acampando à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz. Assim é exatamente em 1880.

No nosso tempo, como em 1847, chefes energéticos vão percorrendo o território e, com os grandes nomes da pátria e de religião, pregam a guerra santa; as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia. E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do Exército inglês, à volta de Cabul, atravancando a artilharia, escoando-se espessamente por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o...

Uma manhã avista-se Candahar ou Gasnat – e, num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre Exército afegão, com suas cimitarras de melodrama e as veneráveis colubrinas, do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu...

...No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela fronteira científica, lá ficam, pasto de corvos – o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem retórica: aí são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundícies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas. E de tanto sangue, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, uma linha de prosa numa página de crônica...

Como escreveu Eça, foi assim em 1847; há de ser assim em 1880. E em 2017. Os Estados Unidos fizeram previsão de orçamento para operações no Afeganistão durante este ano: 62 bilhões de dólares.

Só para lembrar: desde 1945 os Estados Unidos bombardearam ou invadiram a China (1945-1946, 1950-1953), a Coréia ( 1950-1953), a Guatemala ( 1954, 1967-1969), a Indonésia (1958), Cuba ( 1959-1960), Peru (1965), Laos (1964-1973), Vietnã (1961-1973), Camboja (1969-1970), Granada (1983), Panamá (1969), Iraque (1991), Sudão (1998), Afeganistão (2001-2002).Houve novo ataque ao Iraque. E o show must go on.


Toda cultura e beleza de países milenares, na eminência de serem perdidos para sempre

VERDADES DO PASSADO, AINDA PRESENTES
Militantes muçulmanos, evocando pretextos para uma jihad (guerra santa) e apoiados por Estados sem lei, estão atacando interesses vitais do Ocidente. O presidente dos Estados Unidos não consegue convencer a Europa a aderir a uma coalizão para enfrentar os agressores. Você pensou que o texto faz referência a George Bush versus Saddam Hussein? Obama versus jihadistas? Não. O texto fala de Thomas Jefferson contra piratas berberes do Norte da África, que saqueavam os navios ocidentais. No dia 1º de agosto de 1801, os Estados Unidos dispararam seus primeiros tiros na região.

A história do envolvimento americano no Oriente Médio é longa e complicada. Desde os tempos coloniais os americanos sentiram atração pela região, batizando milhares de suas cidades com nomes bíblicos e dando a outras os nomes de Cairo, Meca e Bagdá. E foram para o Oriente Médio com bombas e livros, já em 1819, enviando os primeiros missionários encarregados de fazer o bem para pessoas da Palestina, Egito e Síria. Depois chegaram outras centenas de americanos, carregando máquinas impressoras, que produziram além de Bíblias, 4 milhões de livros de ciência, medicina, dicionários e textos para escolas primárias, impressos em cinco línguas do Oriente Médio.

Por volta do final do século, os americanos haviam estabelecido 300 escolas em terras árabes, entre elas o Syrian Protestant College, mais tarde Universidade Americana, em Beirute, ensinando a 20 mil estudantes os conceitos americanos de nacionalismo, mudança social e até democracia. O lema era guerrear no Leste, não com canhões e tiros, mas com livros escolares, Bíblias e Constituições. Ou seja: poder e exportação de idéias. Em 1848 o oficial da marinha William Francis Lynch, um ardente cristão e um amante de aventuras, reuniu um grupo de jovens vigorosos, de hábitos sóbrios, nascidos nos Estados Unidos, para uma expedição percorrendo toda a extensão do Rio Jordão, quando pela primeira vez a bandeira americana foi içada na Palestina. Que isso possa ser o anúncio de uma boa nova de regeneração para um povo agora infeliz disse Lynch. A história é longa. E, infelizmente,- 169 anos depois-, ainda está longe de terminar.

POLÍTICAS E TURISMO
Mais de 1,5 milhão de turistas deixou de visitar Paris, a Cidade Luz, no ano passado. Quem aponta tal resultado é o Comitê Ile –de- France, confirmando que os motivos para o decréscimo no número de turistas foram os ataques terroristas na capital francesa, e também em Nice.

No Brasil, entre 2013 e 2016, as companhias aéreas reduziram em 1.500 o número de viagens para o exterior, o que representa 15% no total de embarques. A diminuição da oferta de assentos por causa da demanda retraída ( recessão e terrorismo) provocou uma queda de 15% nos voos para os Estados Unidos. Flórida, destino número um dos viajantes de primeira viagem, emergentes à classe de consumo, foi a região que mais sentiu recessão brasileira. A Europa teve melhores resultados, com queda de apenas 2% nos últimos três anos, e 12 mil voos no ano passado. Os destinos que ganharam espaço são os das Américas Central e do Sul, que apresentam maior custo-benefício.


Navios partem em abril de Veneza, iniciando temporada pela Grécia

EM ÁGUAS MAIS CALMAS
Muitos dos turistas brasileiros estão optando pelos cruzeiros marítimos ou fluviais, tanto na Europa e Ásia, como no Caribe. Dá para conhecer Cuba em cruzeiro de 4 noites, partindo de Miami para Havana no navio Norwegian Sky, da NCL. O navio tem 10 opções de restaurantes, open bar gratuito, spa a bordo e cassino. Durante o ano todo oferece cruzeiros de 3 a 4 noites para as Bahamas, partindo de Miami.

Para conhecer Cuba, a melhor opção é o roteiro de 4 noites, na descoberta da história e belezas naturais da ilha. As tarifas iniciam em 3.238 reais por pessoa, nas cabines internas, incluindo já as taxas. Quem preferir cabine externa, vai pagar 4.130 reais por pessoa e as cabines com varanda custam 6.987 reais.

O roteiro inclui escala em Great Stirrup Cay, ilha particular da Norwegian, reservada para seus hóspedes. Lá dá para mergulhar com snorkel para apreciar tartarugas e peixes coloridos nadando nas águas cor turquesa.

Grécia é destino de sonhos de todos os turistas. O Norwegian Star inicia cruzeiro em Veneza para as Ilhas Gregas em viagem de 7 noites. O navio oferece 15 restaurantes, 11 bares e lounges, spa e cassino. Há diversão para todas as idades e preferências. Visitar as ilhas gregas, curtir o clima local, aproveitar o entretenimento em alto mar é sonho realizável a partir de 3.959 reais por pessoa, já com taxas incluídas. Depois é só curtir: subir os 1.350 degraus até o alto da muralha da cidade de Cátaro, do século IX. Um esforço físico recompensado pela vista de igrejas, palácios e praças de Cátaro. Dar uma parada ao final para provar o ouzo, bebida nacional, em uma taverna nas encostas de Santorini, apreciando as casas caiadas com portas e janelas em azul, como as águas do Mar Egeu. Chegando a Veneza, passear de gôndola ou ônibus-barco no Grande Canal, admirando as obras de arte e arquitetura dos palácios na beira d’água. Além da cabine interna, o cruzeirista pode optar pela cabine externa (4.423 reais por pessoa), cabine com varanda ( 5.637 reais) ou suíte (13.472 reais). Terceiro e quarto passageiro acompanhado de dois adultos, paga 2.240 reais por pessoa. As saídas estão marcadas para 16 e 30 de abril e seguem até outubro, encerrando a temporada com a última partida no dia 15 do mês. O roteiro começa em Veneza, segue para Kotor (Montenegro), Corfu, Santorini, Mikonos, Dubrovnik (Croácia) retornando a Veneza.

Outro roteiro de 7 noites, viaja pelo Adriático e Grécia, começando em Veneza, fazendo escala em Dubrovnik, Kotor, Olimpia (Katakolon), Split (Croácia) com retorno a Veneza. Primeiro cruzeiro em 23 de abril, último dia 22 de outubro.