Sala de Aula

Alegria

Costumamos lembrar nossa fase escolar como um tempo bom e alegre, independente de situação material, afora carências extremas. Os amigos, professores, atividades esportivas, a primeira etapa da sociabilização. Isso acontece por serem a infância e início da adolescência a época das brincadeiras, do faz-de-conta, de uma certa indistinção do desejável em relação à dura realidade; por meio da fantasia a criança estabelece seus interesses, necessidades e desejos particulares, expressando uma forma de refletir, ordenar, destruir e descontruir os fatos do mundo, que será útil mais tarde.

É por meio do lúdico, facilitado na escola pela presença de muitos no mesmo período etário e de desenvolvimento que o crescimento emocional se efetiva e a visão de mundo se torna mais real. Usando a criatividade, a criança pode se expressar, analisar, criticar e redefinir valores. Brincar é uma necessidade básica, assim como jogar, criar e inventar, por isso se combate o trabalho infantil com veemência, não se pode transformar crianças em miniaturas de adultos, pois certamente elas resultarão em pessoas sem autonomia, segurança e maturidade.

Mas é preciso diferenciar as invenções das brincadeiras infantis da atitude adulta de proceder de modo semelhante: a criança sabe que é “faz-de-conta”, e o mesmo não costuma ocorrer com alguns adultos que “afogam-se” na própria fantasia. A brincadeira infantil de inventar uma outra realidade tem como fundamento um ato intencional de modificar as bases concretas dessa realidade, por prazer ou invenção, no entanto sem perder a noção de quem se é, e os parâmetros de retorno; por isso crianças combinam entre si os conceitos que passarão a prevalecer neste mundo virtual. “Tá que a gente era marciano”, “agora somos filhos do imperador”, a mágica poderosa que a personagem Emília, de Monteiro Lobato, chamava “faz-de-conta”, são feitas tratativas que tranquilamente serão desfeitas na hora em que a mãe chama ou a tarde começa a cair.

Quando aqueles que já deveriam estar maduros brincam de extrapolar a verdade, dificilmente conseguem preservar sua essência, manter os pés na realidade, passando a considerar que a ficção está materializada, que a quimera passou a ser palpável.

Isto está na raiz dos feminicídios, quando quem pensa amar julga-se proprietário de quem ama, das apropriações indébitas de fundos públicos ou privados, das corrupções tão comuns em ambientes políticos, do amigo que assume as qualidades do outro, e tantos exemplos que temos no dia-a-dia daqueles que extrapolaram mentalmente o compromisso com a verdade.

Muitas pessoas, supostamente maduras, têm virtual impossibilidade de mudar de ideia, redefinir conceitos, aprender em suma. É como se, uma vez chegando a alguma conclusão e desenvolvendo crença política ou filosófica, estivessem se traindo ao refletir sobre si mesmas. É daí que nascem os radicalismos e a irracionalidade que permeiam nossos tempos. Aparentemente precisamos de certezas indiscutíveis que nos dispensem de pensar ao entender o mundo, afinal o profeta, o líder partidário, o artista famoso já pensaram por nós e nos pouparam este trabalho e esta dor mediante dízimos, votos ou “links”. 

Vivemos um tempo cada vez mais difícil, escolas impedidas legitimamente de funcionar como seria o ideal: ambiente de aglomeração, risos e alegria, ensaio para a vida comunitária. Os que amamos nossos filhos reconhecemos a necessidade deste sacrifício em meio a uma pandemia mortal e com a vacinação caminhando em passos lentos, mas é inegavelmente algo triste. Vai passar, precisa passar, faremos passar com nossa consciência e disciplina, com nosso espírito de luta, e em respeito aos que nos antecederam em períodos de guerra, ditaduras, doenças e carências várias, e sobreviveram.  A alegria tem sobrevivido a todas essas vicissitudes.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.